Cidade Finada: poética da pandemia

Li Cidade Finada, coletânea de poemas escritos por Thiago Medeiros, em março de 2021. Coincidentemente, foi o mês em que completamos o marco de um ano do surto de COVID-19. O livro é intitulado a partir de uma reflexão do autor ao observar uma antiga rua no centro de Caruaru, sua cidade natal. Uma vez que costumava ser extremamente movimentada antes da pandemia, agora esta rua se encontrava vazia com as medidas de lockdown: vislumbrando pela janela as lojas fechadas e a ausência de circulação de pessoas, Medeiros vê uma cidade morta. O título também se faz presente no primeiro poema da compilação.

É nesse contexto de confinamento, sem ter para onde fugir, com as rodovias fechadas, que a escrita surge como escape. Mesmo pensando que a possibilidade de escrever sobre a pandemia fosse acontecer somente após o evento histórico, Cidade Finada nasce ainda durante esse momento.

Ruas vazias e isolamento são a tônica da coletânea de poemas. Emilio Morenatti/AP.

Thiago Medeiros é autor, poeta, e músico caruaruense, responsável pela “Oficina Levante Literário”. Idealizador de outros projetos e saraus, foi o Vencedor do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP), edição 2020, na categoria poesia. Em 2019 lançava o seu livro de contos Claro É o Mundo À Minha Volta, pela editora Patuá, e em 2020 lançou sua primeira coletânea de poemas, Cidade Finada pela Editora Telucazu. Produzida durante o período de isolamento social em decorrência do novo Coronavírus, é a primeira coletânea de poemas do contista, agitador cultural e escritor de Caruaru.

Thiago começou escrevendo contos, e ao descobrir a oficina literária de Raimundo Carreiro, escritor recifense, começou a se empenhar, e como consequência, teve dois livros publicados. Devido à quarentena, foi afetado também por uma descontinuidade narrativa, e percebendo que não estava conseguindo produzir um material continuado na prosa, acolheu e foi acolhido pela poesia, mesmo não possuindo costume.

Capa de Cidade Finada, do caruaruense Thiago Medeiros. Telucazu/Divulgação.

Os poemas distribuídos ao longo da coletânea não possuem títulos, e são apenas enumerados.  De acordo com o próprio escritor, ele se encontrava em um estado tão conturbado, que a possibilidade de nomeá-los não existia; no entanto, garanto que a falta de um batismo não deixa significados para trás. Na obra, nós, leitores, somos tratados como íntimos, e somos apresentados ao âmago do autor, imergindo em sua ternura ao falar sobre a vida. Despedidas, percepções quanto a um amor divino, medos,  paternidade, e relações interpessoais são apenas alguns dos tópicos que somos guiados a refletir através de seus versos.

pois se a história
é narrada por
vencedores

não seremos nós
a estampar
editoriais

É um livro belíssimo, sensível, e cheio de vida. Um trabalho com diversas experiências pessoais, que disseca o seu ‘Eu’ de uma forma crua, e vulnerável em uma obra demasiadamente humana. Uma criação que deve ser lida, sentida, e digerida, registrada por um poeta que escreve para não esquecer de si mesmo.

De certa forma, essa empreitada estética que parte de uma busca para não obliviar-se revela, ao invés de uma bravata literária qualquer, uma bandeira e militância na luta contra a psico-fobia. Thiago, por ser diagnosticado com transtorno de bipolaridade, teve a literatura sempre presente em sua vida nos momentos de crise, como uma possibilidade para se encontrar. Na pandemia, essa escrita se fez ainda mais necessária e, assim, surge uma sublimação para ressignificar o momento em que vive na cidade finada.

Também tive a oportunidade de convidar Thiago para participar de um bate-papo virtual no meu Instagram onde além do lançamento, discutimos o papel da arte e da escrita no momento da pandemia para a saúde mental. Aprofundamos ainda mais as discussões, nos debruçando sobre a realidade do escritor brasileiro, que não pode ser romantizada, e nem a escrita vista como algo místico, vinda apenas da inspiração.

Card da live com o autor Thiago Medeiros e seu Cidade Finada. Heitor Menezes/Divulgação.

Após conversar com Thiago, a coletânea ganhou ainda mais vida e significado. Ao pensar que já conhecemos boa parte da essência do criador, percebemos que, na verdade, em sua criação está apenas presente uma pequena parte do que lhe é intrínseco.

É por isso que enxergo Cidade Finada como uma das minhas leituras mais afáveis do ano de 2021, me fazendo pensar nas possibilidades de ressignificação, e reviver o tanto que foi vivido, e que, por outro lado, também deixamos viver nesse último ano. Uma obra que se faz completa, e nos diz tanto de seu autor, que não conhecê-lo se faz impossível. 

Heitor Menezes é bacharel em Relações Internacionais, e atualmente acadêmico em Psicologia. Administra o perfil no Instagram @psiheitormenezes, onde posto resenhas literárias para interessados em psicologia e aficionados em literatura.

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