Dia da Toalha: Douglas Adams e sua marca na Cultura Nerd contemporânea

O dia 25 de maio celebra o amor pela cultura nerd/geek. Vem cá descobrir o porque esse dia foi escolhido e tudo que ele representa!

RIP, Alan Rickman.

Por algum tempo, ser fã de histórias em quadrinho, séries, filmes de ficção científica, livros de fantasia e jogos de tabuleiro significava também pertencer a um grupo muito específico. Hoje, filmes como Star Wars, os filmes da Marvel Universe e a trilogia Matrix romperam essa barreira e você não precisa ser exatamente um entusiasta de ficção científica e heróis para curtir filmes com esses temas. 

O dia 25 de maio tem duas comemorações muito importantes para a comunidade nerd e geek, o Dia do Orgulho Nerd e o Dia da Toalha. Eles se misturam pois têm significados semelhantes e suas origens se dão no mesmo nicho. O Dia do Orgulho Nerd teve como origem a celebração da estreia do episódio IV de Star Wars: Uma Nova Esperança, na época, o primeiro filme da saga. Já o Dia da Toalha, veio em homenagem a Douglas Adams, escritor britânico e grande contribuinte para as narrativas de ficção científica contemporâneas.

Poster do episódio IV de Star Wars, o primeiro da saga, que teve uma bilheteria de 1,36 bilhão (valores ajustados para os dias de hoje). Twentieth Century Fox/Divulgação.

Quem foi Douglas Adams?

Douglas Adams nasceu em Cambridge, no Reino Unido, em 1952. Estudante de literatura inglesa pela St. John’s College, após formado, Adams decidiu partir em aventuras, fazendo um mochilão pela Europa. Para isto, utilizou um Hitch-hiker’s Guide to Europe, ou seja, Um Guia de Mochileiros para a Europa. Alcançou sucesso apenas em 77, curiosamente, com um programa de rádio na BBC, em parceria com Simon Brett, chamado The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, ou Guia do Mochileiro das Galáxias. O programa de humor e ficção científica daria origem a série de cinco livros de mesmo nome. 

O Restaurante no Fim do Universo, A Vida, o Universo e Tudo Mais, Até mais, e Obrigado pelos Peixes e Praticamente Inofensiva, são os demais títulos dessa saga que conta as Aventuras de Arthur Dent e seu amigo Ford Prefect pelo universo, após Ford pedir carona com o auxílio de uma toalha. A toalha é um objeto de extrema importância para a série, Adams separa um capítulo inteiro para falar sobre ela. Segundo ele, “tudo que você precisará quando o Universo acabar é de uma toalha”.

Assim, no dia 25 de maio, após a morte do autor no dia 11 daquele mês, em 2001, fãs prestaram uma homenagem a ele e sua obra. Milhares de pessoas se organizaram no dia para celebrar o universo criado por Adams. Essa comemoração se fixou na comunidade nerd e é até hoje praticada. Mas, o dia da Toalha ultrapassa a manifestação nas redes sociais, já que o ritual mais importante do dia é sair carregando uma toalha por todo o lado. Trabalho, escola, academia, faculdade, passeio… no vigésimo quinto dia de maio, quem ama DNA – sigla muito usada para se referir ao autor, suas iniciais – obrigatoriamente sai com uma toalha. 

Douglas Adams com um exemplar de O Guia dos Mochileiros da Galáxia, em destaque uma frase icônica da série, “Não entre em pânico!”, em tradução. Foto: Daily Mirror.

Toda a obra de Adams traz diversas reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais. Além de tecer várias críticas aos modelos de governo, à sociedade, a maneira como levamos a vida e a nossa relação com as novas tecnologias.

Em O Salmão da Dúvida (2002), no qual mostra bastante o seu gosto pela tecnologia, Adams explora como lidamos com as novidades tecnológicas em nossas vidas: “Eu criei um conjunto de regras que descrevem nossas reações às novas tecnologias: 1. Tudo o que já está no mundo quando você nasce é normal, corriqueiro e nada mais do que parte natural da maneira como o mundo funciona. 2. Tudo o que é inventado entre os seus 15 e 35 anos é novo, empolgante e revolucionário, e pode, inclusive, se tornar sua carreira profissional. 3. Tudo o que é inventado depois dos seus 35 anos vai contra a ordem natural das coisas.”

Douglas Adams escalando o monte Kilimanjaro vestido de rinoceronte. Foto: Obrigado Pelos Peixes.

Douglas Adams era um grande defensor da consciência ecológica, era um ativista da causa ambiental e se tornou patrono do  Save the Rhino International e do Dian Fossey Gorilla Fund. O Save the Rhino é uma instituição do Reino Unido que visa defender os rinocerontes da extinção, arrecadando fundos para a causa. O escritor, a fim de trazer holofotes para a luta, escalou o monte Kilimanjaro, na África, vestido de rinoceronte. Até hoje, a caminhada ao topo do monte continua, com o mesmo intuito de chamar atenção para a causa. 

E DNA não deixou sua contribuição para a ficção científica contemporânea apenas nos livros de Guia dos Mochileiros, ele também marcou presença em um dos universos mais presentes nas narrativas de sci-fi, Doctor Who.

A série britânica, criada em 1963, é um dos maiores universos de ficção científica, sendo um dos programas mais longos da TV, com mais de 55 anos de duração. Douglas Adams trabalhou como revisor de roteiros da série nos anos 70, na época da 4° regeneração do Doctor, personagem principal interpretado por Tom Baker. 

Ele escreveu os arcos de O Planeta Pirata, Cidade da Morte e Shada, os dois últimos possuem versão em livro, sendo Cidade da Morte um Arco muito famoso, que junta em sua narrativa acontecimentos reais com muitos elementos culturais da Europa. Shada, infelizmente acabou sendo um projeto abandonado pela BBC, que começou as gravações do arco mas nunca o completou. 

Tom Baker e Lalla Ward nas filmagens de Cidade da Morte, em Paris. Foto: BBC/Arquivo

Além de Doctor Who, Adams trabalhou também com o grupo de comédia Monty Python, sendo roteirista de Monty Phyton’s Flying Circus (1969).

Douglas Adams teve seus trabalhos adaptados para as telas, um filme de O Guia dos Mochileiros da Galáxia (2005) e a série da Netflix Dirk Gently’s Holistic Detective Agency (2016), inspirada no romance Agência De Investigações Holísticas Dirk Gently, de 1987. Porém, 

o filme com Martin Freeman (O Hobbit) e Zooey Deschanel (500 dias com ela) não caiu muito no agrado dos fãs e da crítica, tendo uma média de 60% no Rotten Tomatoes. 

Já a série caiu no gosto do público e dos críticos. Com Elijah Wood no elenco, a série acompanha um detetive excêntrico e seu assistente à procura de desvendar mistérios bizarros. Com uma aprovação de 85% pela crítica e 95% pelo público, de acordo também com o Rotten Tomatoes, a série traz um pouco da aura de Doctor Who. 

Legado

Douglas Adams mudou a forma de se fazer narrativas de ficção científica com seu humor. Crescendo assistindo o grupo de comédia Monty Phyton, teve grandes influências na hora de escolher um humor nonsense (“sem sentido” em tradução livre) e totalmente inteligente. As histórias de sci-fi eram em sua maioria dramáticas e o britânico mudou isso com um humor sagaz, muitas vezes, tirando sarro dos próprios gostos da comunidade nerd. 

O seu trabalho com Doctor Who e Guia dos Mochileiros da Galáxia influenciou a nova fase da série, assim como outros trabalhos do gênero. A série Rick and Morty, é um exemplo disto, carregando em sua base o humor muitas vezes esdrúxulo aliado à ficção científica. 

Curiosamente, podemos ver referências à obra de DNA no mundo da música. Bandas como Coldplay, Radiohead e Mumford and Sons adicionaram elementos de O Guia em suas canções. O disco Ok, computer da banda britânica Radiohead é inspirado pelas reflexões que ocorrem nos cinco livros, além do single Paranoid Android que é uma referência direta a Marvin, o robô paranóico e depressivo que conhecemos na história.

Já Coldplay e Mumford and Sons trazem músicas com o título “42”, que em O Guia corresponde à resposta para a vida, o universo e tudo mais. Esse número se torna, inclusive, um easter egg do universo de Adams em várias obras. Podemos encontrá-lo em Matrix, Marvel e até em filmes da Disney. Em Procurando Nemo, o endereço onde o peixinho se encontra é “P. Sherman, 42 Wallaby Way. Sidney.”. 

Cena do filme Procurando Nemo, de 2003. Foto: Disney Pixar/Reprodução.

As especulações também dizem que Adams previu algumas tecnologias, como um dispositivo que só foi inventado recentemente, capaz de traduzir simultaneamente um idioma. Na série de livros, o Peixe Babel é um alienígena que pode traduzir qualquer idioma do universo (um pouco similar com a Tardis, de Doctor Who).

Não menos importante, no Brasil, no município de São José, em Santa Catarina, temos a Travessa Douglas Adams em homenagem ao escritor. 

E para quem quiser saber mais sobre o autor, pode consultar o livro escrito pelo seu amigo, Neil Gaiman (Coraline, Sandman). Don’t Panic, de título inspirado na frase homônima de O Guia, é uma biografia de Douglas Adams publicada no ano de 98. 

Não há dúvida que Adams deixou um pouquinho de si em cada aspecto da cultura nerd e pop. Sua crítica à sociedade britânica, bem como suas noções sobre religião e seu humor inovador percorre os quatro cantos da comunidade nerd. Não esqueçam de carregar sua toalha. Até mais! E obrigado pelos peixes.

Obras para quem curte ficção científica:

A Vastidão da Noite

Um refresco para as narrativas atuais de ficção científica. O filme de 2020 faz referências às primeiras obras televisivas do gênero, em especial o programa Além da Imaginação (Twilight Zone), que tratava de casos misteriosos que, em sua maioria, não obtinham explicação. A Vastidão da Noite está disponível no Prime Vídeo, como título original do streaming.

Cena do longa, com Sierra McCormick e Jake Horowitz. Foto: Prime Vídeo/Reprodução.

A Chegada

Com a incrível Amy Adams, o filme de 2016 passa por assuntos além dos tratados nas ficções científicas tradicionais, como as relações humanas  e a importância da linguagem. O longa de Denis Villeneuve está disponível no Globo Play e na Prime Video.

Cena de Amy Adams em A Chegada. Foto: 21 Laps Entertainment/Reprodução.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

Para quem quer conhecer um pouco mais o trabalho de Douglas Adams eu recomendo primeiramente a série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias. Mas, para quem quer algo mais rápido e visual, Dirk Gently’s na Netflix é a escolha certa. A obra também carrega o humor e a excentricidade das narrativas do autor. Você pode encontrar a série no catálogo da Netflix.

Elijah Wood e Samuel Barnett em cena da série de 2016. Foto: Netflix/ Reprodução.