Crítica social e terror se encontram em ‘Nós’, de Jordan Peele

Um dos cartazes mais emblemáticos do filme de Peele. Divulgação.

Os filmes de horror vêm se tornando cada vez mais inovadores, investindo em formas alternativas ao tradicional Jumpscare. Jordan Peele, atualmente um dos maiores nomes do gênero, foi consagrado por seu primeiro filme, Corra! (2017), vencendo o Oscar de Melhor Roteiro Original. De volta às telas com Nós (Us, no idioma original), lançado em 2019, Peele novamente aborda temas importantes em seu trabalho, utilizando menos artefatos psicológicos e apostando em um terror físico. Nós difere de Corra por ter sua crítica social sutil, ou seja, nada é tão óbvio e sucinto e, justamente por esse motivo, o diretor nos apresenta uma narrativa com uma diversidade imensa de interpretações.

Durante as férias de verão, Adelaide (Lupita Nyong’o), casada com Gabe (Winston Duke), e mãe de dois filhos, volta para a casa de seus pais em Santa Cruz, Califórnia, onde passou a infância. Logo na primeira noite, a família é atacada por clones que utilizam macacões vermelhos e tesouras douradas. Mas o que essas versões “do mal” querem?

O filme em si, pode até não parecer algo tão assustador. Afinal, quem tem medo de clones? Mas a atuação, incluindo a de um elenco infantil extremamente afiado, nos faz ter arrepios e checar se nossas portas estão trancadas. Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por 12 anos de escravidão (2013), interpreta duas personagens fisicamente iguais, mas totalmente diferentes em suas falas e ações. De um lado está Adelaide, criada nos Estados Unidos, com uma vida feliz e confortável. Do outro, está Red, um clone que vive nas profundezas dos túneis que percorrem o subterrâneo da Califórnia.

Nyong’o entrega uma atuação incrível: todos os movimentos que a atriz faz são fascinantes, e suas expressões são como pequenas obras de arte. Ao caminhar, Lupita se movimenta como se estivesse dançando – propositalmente, já que foi dançando que a sua personagem decidiu se rebelar. Me surpreende a atriz não ter levado o Oscar, já que o terror do filme vem praticamente todo de sua performance na pele de Red.

Por outro lado, algo muito criticado no filme é a atuação de Winston Duke, que também trabalhou ao lado de Jordan Peele em Get Out!. No entanto, sua performance não agradou público e crítica. Vivendo na pele de Gabe, o ator apresenta um personagem que claramente foi pensado como uma espécie de alívio cômico, muito presente nos filmes de Peele. O problema é que a atuação não funcionou muito bem e o pai da família acaba por parecer um pouco forçado e sem graça.

No caso da atuação das crianças, a história é outra: Shahadi Wright Joseph executa o papel da filha mais velha, e assume uma das melhores cenas de ação do longa – a menina detona um clone com um taco de cricket. A raiva e coragem dela são repassadas para o espectador; assim como Evan Alex, que interpreta Jason, o caçula da família, extremamente esperto, e com uma atuação arrepiante na pele de Pluto, seu “oposto”.

A trilha sonora do filme fica por conta de Michael Abels, que compôs praticamente todas as músicas do longa. Logo que a primeira canção começa a tocar, me veio à mente a trilha sonora de Coraline (2009), animação da Laika Studios que também trata de clones. Algumas das escolhas musicais são usadas de formas inteligente ou até mesmo cômicas, e em certo momento temos uma situação em que uma das personagens é morto ao som de F**k tha Police, da N.W.A., banda norte-americana de hip hop. As escolhas musicais do longa aumentam toda a tensão que estamos experimentando, e provocam um certo tipo de desconforto, ou até mesmo ansiedade e desespero.

A partir daqui contém spoilers e explicações sobre o filme. Se não assistiu, não continue.

Cena de “Us”. Divulgação.

No final do longa vemos Red e Addy em um diálogo dentro de um lugar que se parece uma sala de aula. Nesse momento, o clone nos conta sua versão da história. Durante a cena da sala de espelhos no início do filme, Addy se revela, na verdade, a versão subterrânea, e num ato de malícia, faz a troca das duas meninas, passando a viver na superfície e relegando Red, humana, aos túneis. Esse turning point faz quem assiste repensar de que lado está. Addy, que sabia de todo o sofrimento que os clones passavam no escuro dos túneis e minas abaixo do solo, nunca fez nada para mudar a realidade daqueles que não possuíam nenhum tipo de oportunidade.

Mas, afinal, de onde vieram os clones?

Durante todo o filme temos indícios de que Addy e Red foram trocadas (os nomes são propositais, pois soam parecido), com cenas do passado da menina – interpretada de forma majestosa por Madison Curry – em sessões de terapia nas quais o pai e a mãe afirmam que a criança está diferente, “como se fosse outra pessoa”. Daí em diante, somos apresentados aos Tethered ou Sombras, nome dado aos clones que vivem nos túneis subterrâneos dos Estados Unidos. Trata-se de uma experiência de clonagem que deu errado e foi esquecida. Um homem descobriu como clonar pessoas, mas não suas almas. Logo, ambos são fisicamente iguais, mas com a alma dividida. Os clones foram esquecidos embaixo da terra e impedidos de ter uma vida, mas a ligação de almas com o “eu original” faz com que as sombras tenham que imitar as ações de quem está na superfície: até mesmo suas relações amorosas e pessoais são iguais, as criaturas não possuem o livre-arbítrio acerca de suas próprias vidas. 

Nós somos americanos

O nome do filme não foi aleatoriamente escolhido: Us, além de significar “Nós” em português, também possui um duplo significado que seria a sigla United States, ou Estados Unidos. O longa traz consigo uma crítica à desigualdade social muito presente no país da Estátua da Liberdade, onde os de baixo tentam sobreviver, apesar de não possuírem as mesmas oportunidades que os de cima. Os clones, no filme, representam as classes majoritárias, a camada mais baixa da sociedade. A rebelião causada por Red é feita para que as sombras possam ter uma chance diante da estratificação e do esquecimento brutais. 

A revolta de sua parte vem da ideia de que Addy, mesmo sendo um clone e tendo noção de tudo o que acontece, nunca voltou para buscá-la ou para mudar a realidade daqueles que nada possuem, o que levanta a premissa de que mesmo sendo um clone, ao ser trocada, Addy conseguiu ter uma vida, uma família, aprendeu a falar e a viver como alguém que sempre morou sob a luz do sol, trazendo o pensamento de que se as oportunidades fossem dadas aos “de baixo”, como acontece aos “de cima”, tudo seria diferente, fomentando assim discussões sobre privilégios, meritocracia e as injustiças sociais que englobam a América do Norte – e todo o mundo.

Uma das cenas finais de “Us”. Divulgação.

Hands Across America

O movimento Hands Across America explorado no filme realmente existiu. Durante o ano de 1968, o governo dos Estados Unidos criou este ato simbólico contra a fome na África. A ideia seria arrecadar cerca de US$50 Milhões. Quem quisesse juntar-se à fila de pessoas dando as mãos, teria que desembolsar dez dólares. Consequentemente, o montante arrecadado (cerca de 15 milhões de dólares) foi quase todo usado para pagar a divulgação do projeto, provando-se, no fim, um ato que não ajudou realmente em nada a luta contra a fome na África.

Mas as referências não param por aí. O Hands Across America é famoso por ter assustado muitas crianças nos anos 90. Em uma entrevista ao site Uproxx, Jordan Peele contou que quando jovem assistiu a uma chamada do projeto. A propaganda, que possuía imagens bizarras, com milhares de dedos e olhos representando as 6,5 milhões de pessoas que iriam lutar contra a fome em uma corrente humana, lhe deu pesadelos, e foi usada no filme.

Nós somos os culpados?

A segunda teoria exposta sobre o filme fala da dualidade do ser humano: nós somos os próprios monstros. Isto é, quando temos nós mesmos, não precisamos de criaturas sobrenaturais. Ao longo do filme, quando descobrimos a real situação de Red, até queremos torcer para que a rebelião funcione, e que os clones possam finalmente ter uma vida. O longa apresenta dois seres iguais e dualistas. Inicialmente, pensamos ser um bom, e um ruim, com sua essência dividida a partir do momento em que a alma do ser é partida ao meio: é algo que me remeteu à lenda indígena de que quando uma mulher dá à luz a filhos gêmeos, um precisa morrer, já que a alma foi dividida, e consequentemente um será bom e outro ruim. 

Além disso, o filme traz a ideia de que é o meio que o indivíduo vive que o forma, com uma narrativa que poderia ser aludida à citações como “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, pensamento do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, ou até mesmo de que “O homem é o lobo do próprio homem”, de Thomas Hobbes. Red, que no início vivia em uma sociedade civilizada, a partir do momento que passa a conviver com os clones e experimentar uma vida de sofrimento, fome e injustiças, passa a se rebelar contra sua própria essência; Addy, no entanto, que vai do subterrâneo e cresce no topo, consegue ter uma vida normal e, para os padrões familiares, perfeita, o que nos faz voltar para ideia de que o filme representa a nossa sociedade, em particular aqueles que não possuem uma vida minimamente digna.

Os coelhos

Quando vi a cena inicial com coelhos, logo me veio a ideia de clonagem. Assim como ratos, coelhos são muitos usados em experimentos científicos na vida real, e também na ficção , principalmente envolvendo clonagem de DNA. Na trama, esses animais servem como alimento para aqueles que vivem nas profundezas dos túneis, já que todas as vezes que as pessoas de cima comem, os de baixo também precisam comer.

Em “Us”, um dos personagens segura uma placa com o versículo bíblico. Divulgação.

Jeremias 11:11

O versículo bíblico que aparece diversas vezes no filme diz: “Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”. Ao pensar nessa citação lembrei-me da rebelião, das “sombras” que matam os “originais”. Não importa o quanto imploram, eles não os escutam, o que também pode ser conectado ao fato de que as sombras não falam. Mas o número pode apenas significar um “espelho”, números iguais de lados diferentes, assim como os personagens.

Michael Jackson e Thriller

Quem não teve pesadelos ao assistir o videoclipe de Thriller que atire a primeira pedra. Quando Red (que ainda era Addy) é trocada, está usando uma camisa com a imagem do clipe de Thriller, música de Michael Jackson, uma das maiores obras de arte do mundo pop. Para quem nunca ouviu falar (acho difícil), o clipe da música apresenta zumbis que saem debaixo da terra e dançam ao lado do astro. 

Mas o que Jackson tem a ver com Us? Tudo! Assim como os zumbis, os clones saem do subterrâneo, e até possuem um “clone” assustador do cantor. Outro ponto importante é a ligação entre a troca das personagens principais e o final do clipe, em que a namorada de Michael descobre que toda a situação não passava de um sonho. Entretanto, logo em seguida, vemos que a versão assustadora do cantor se apresenta mais uma vez, revelando olhos amarelos de lobisomem e mostrando que na verdade nem tudo é o que parece: de uma certa maneira, assim como Addy, que apenas no final se revela um clone.

As tesouras douradas no filme de Peele. Divulgação.

Por que tesouras?

Em Nós tudo tem um significado. Pela explicação do diretor, as tesouras são formadas por duas partes iguais, opostas, assim como os clones. As peças juntas, física e simbolicamente, formam os objetos que os personagens usam para matar.

A beleza americana

O filme possui cenas pouco tratadas, mas que possuem certo grau de crítica, como a da atriz Elisabeth Moss (The Handmaid´s Tale, 2017-presente) que interpreta Dahlia, uma amiga da família que é morta ao som da banda N.W.A, já citada anteriormente.

A cena em destaque é a de seu clone passando batom. Enquanto conclui a ação, o clone de Dahlia sorri, como se sentisse felicidade pela primeira vez, já que a personagem, muito vaidosa, não tinha acesso a esse tipo de cosmético no subsolo. Em seguida, a mulher se dirige até Addy, analisando a mandíbula perfeitamente reta de Lupita Nyong’o. O clone volta-se ao espelho e corta uma parte de seu rosto, como se quisesse ter o formato do rosto de Addy, fazendo uma crítica sutil às cirurgias plásticas. Pouco depois, a personagem caminha até a janela onde vê Gabe matando o clone de seu marido. Ela chora de forma teatral, mas logo abre um sorriso, nos fazendo lembrar que as sombras não possuíam autoridade em suas relações pessoais, sendo obrigadas a conviver com o ciclo social do seu “eu original”, na maioria das vezes ser ter uma relação real ou harmoniosa com aquele indivíduo.

Conclusão

Com Us, Jordan Peele foge do terror clichê, trazendo seus maiores medos da infância como o movimento Hands Across America e a ideia de clonagem. Não se furta de críticas sociais que podem ou não serem notadas pelo espectador, mas ao mesmo tempo consegue nos deixar aterrorizados com a possibilidade de uma versão assustadora de nós mesmos. No longa, nada é mastigado, nenhuma teoria é comprovada, tudo depende da imaginação e nível de criticidade de cada um que assiste. Por esse motivo, a produção traz consigo 93% de aprovação no Rotten Tomatoes por parte dos críticos. Já para o público, o filme foi considerado ruim. 

Uma produção que deveria ser vista e analisada, todas as suas teorias e narrativas são importantes. O longa, nos coloca para pensar sobre como a sociedade é organizada, pensar naqueles que não possuem nenhum tipo de oportunidade ou privilégios, ou a capacidade do homem de ser seu próprio vilão. O único defeito do filme é não nos mostrar mais sobre a vida no subsolo, ou como foi a formação da rebelião, de onde vieram os trajes vermelhos, as tesouras. Muitas pontas soltas que dariam um excelente segundo filme, fica a dica para o Jordan Peele.