E.M. Forster, romancista inglês, autor de livros como Maurice e A room with a view. Divulgação.

A vida secreta de Maurice Hall: homossexualidade e amor platônico no romance mais controverso de E.M. Forster


Durante um banquete em homenagem à Agáton, célebre poeta trágico, os convidados, indispostos a beberem demais, como era o costume, decidem, um por vez, discursar em louvor a Eros, deus do amor. O primeiro a fazê-lo é Fedro, o jovem que intitula outro dos diálogos platônicos acerca do mesmo tema – em seu monólogo, afirma ser Eros a causa máxima das maiores fortunas dos homens, pois que, para o retórico, não haveria bem maior a “proporcionar a um mancebo do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso”. Portanto, uma cidade ou exército ideal seriam compostos apenas de amantes e amados, uma vez que a influência do amor sobre estes os fariam temer, primordialmente, a desonra: seriam capazes de morrer um pelo outro, como Aquiles, que preferiu perder a própria vida, para vingar a morte de seu amado, Pátroclo. Maurice, um jovem inglês do início do século XX, tal qual Aquiles, também não hesitaria em morrer pelo homem que ama e, depois da leitura de o Banquete, conclui: “sempre fui como os gregos e não sabia”.


Em contrapartida à narrativa catastrófica dos heróis homéricos, a começar por sua intimidade pouco explícita – nem a filosofia, nem a literatura, chegaram a um acordo quanto ao caráter possivelmente homoerótico da relação de Aquiles e Pátroclo – ao seu final nefasto, E.M. Forster decidiu retratar a homossexualidade a partir de um ideal “imperioso” de felicidade. Consequentemente, de acordo com o próprio Forster, a prosperidade do romance de dois dos personagens de Maurice, escrito entre 1913 e 1914, fizeram do livro impublicável: “Se houvesse criado um final infeliz, com um rapaz balançando na ponta de uma corda ou com um pacto suicida, tudo ficaria bem, pois não poderia ser acusado de promover a pornografia ou sedução de menores”. O autor, contudo, concluiu corajosamente que, pelo menos na literatura, deveria ser possível que a paixão entre dois homens não resultasse sempre em tragédia. Com efeito, Maurice foi publicado somente em 1971, quase um ano depois do falecimento de Forster em junho de 1970. Embora fosse um dos maiores romancistas da Era Eduardiana, várias vezes indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, o mesmo adivinhou que sua obra mais biográfica não poderia circular livremente antes da “morte da Inglaterra” ou da sua.

Logo, Maurice é um romance de formação que, bem como grande parte do gênero, mimetiza, com eficiência, a sociedade em que seu protagonista está inserido: o personagem que dá nome ao livro é um jovem inglês ordinário da média burguesia do início do século XX, que, tal qual os seus, pretende consolidar para si mesmo uma civilidade genérica e socialmente aceita. E, contudo, já no primeiro capítulo, Forster prefacia a “vida secreta” de Maurice Hall, quando esse, ainda aos catorze anos, prestes a ingressar em uma escola pública, escuta apaticamente a ladainha de um de seus professores, que tenta elucidar algumas questões consideradas fundamentais sobre sexo – desenha na areia os orgãos reprodutivos e discursa de maneira superficial sobre o tema, muito mais preocupado com a educação moral do que a sexual de seu pupilo: “Amar uma nobre mulher, protegê-la e serví-la – esse, ele disse ao rapaz, era o apogeu da vida.” No entanto, enquanto o professor apressa-se a apagar os desenhos, receoso de que alguém os veja, o jovem, de repente, o olha com desdém: “‘Mentiroso’, pensou. ‘Mentiroso, covarde, ele não me contou nada’”. Assim, é ainda no fim do primeiro capítulo, que o leitor adivinha as sombras que cercam Maurice, de súbito enojado pela hipocrisia de um homem que deveria lhe ser um modelo de honestidade, conquanto, simultaneamente, não entenda o que, de fato, espera dele: “a escuridão estendeu-se novamente, uma escuridão primitiva, mas não eterna, que se submete a seu próprio alvorecer doloroso”.

Em seguida, o autor traça as formas da caverna de Maurice – órfão de pai, o menino vive com a mãe e as duas irmãs, Ada e Kitty, numa pequena vila perto de Londres, sob o preguiçoso conforto da classe média: “era uma terra de comodidades onde tudo se obtinha sem esforço, e o sucesso não se distinguia do fracasso”. Mimado pela mãe e respeitado pelas irmãs e criados, embora ainda muito jovem, Maurice gosta de seu lar e parece satisfeito com as predições de seu futuro: entrará para a escola pública, onde terá certo êxito e, depois, seguirá para uma universidade de renome, para, posteriormente, trabalhar com negócios, tal qual o falecido pai. À noite, porém, o quarto o assusta, uma vez que jamais fica completamente escuro, o que ele poderia suportar – “tinha o defeito adicional de ficar em frente de um lampião de rua” -, ou seja, o que aterroriza Maurice são as sombras que se formam no teto e ao redor da mobília, um preâmbulo do “alvorecer doloroso” que enfrentará mais tarde. Por ora, lembra-se que George, o jardineiro da família, com quem sempre brincava, foi embora em busca de uma vida melhor e, mesmo sabendo que ele não passa de “um reles empregado”, Maurice murmura: “George, George”.

É somente na escola, tão logo os impassíveis muros da puberdade o encurralam, que começa a entender quem era George e, pior, que, futuramente, talvez, tivesse que deparar-se com outros “jardineiros”: “o rapaz supôs que uma maldição especial lhe havia sido lançada, mas não podia lutar contra ela, pois mesmo quando recebia a comunhão sagrada, pensamentos impuros brotavam em sua mente”. Maurice, contudo, conclui o ensino médio sem que tais pensamentos lhe tornem um óbvio usurpador em uma sociedade, por conjectura, imaculada – “um aluno medíocre de uma escola medíocre”, que, em sua mediocridade, causa boas impressões em seus colegas e mestres. Na universidade, porém, tamanha mediania passa a lhe perturbar.

Seguindo um roteiro popular, Maurice escolhe Cambridge e, inicialmente, não se importa de fazer parte de uma classe de alunos razoáveis, pelo contrário, a falta de destaque lhe era conveniente, “pois tinha uma índole acomodada”, e, por isso, no primeiro ano permite-se ser tomado pela escuridão ao seu redor, esperando que corpo e alma acostumem-se a ela. Mas o terrível alvorecer se aproxima: no segundo ano, muda-se para o campus e inúmeras revelações, sobre si e sobre os outros, apresentam-se – “percebeu que, enquanto ludibriava os outros, estava sendo ludibriado, confundido-os com as criaturas ocas que desejava que pensassem que ele fosse”. E, todavia, Maurice não pode acreditar que, dentre esses homens que caminham sobre as calçadas da universidade, haja tipos de sua espécie: “em toda a criação não poderia haver uma criatura tão vil quanto ele”.

Tanta ignorância passa a arrefecer-se quando, em um jantar com o deão, conhece Risley, um estudante do último ano em Trinity, a melhor faculdade da Universidade de Cambridge, que encanta Maurice com seu caráter límpido e astuto – “sou um filho das luzes”. O jovem passa a procurá-lo disfarçadamente, na esperança de que ele possa, de alguma maneira, ajudá-lo: “tudo continuava bastante obscuro, pois as montanhas ainda lançavam sua sombra sobre o rapaz. Risley, decerto bem perto do cume, talvez lhe estendesse uma mão”. Esse personagem, no entanto, é somente uma etapa introdutória para Clive, o verdadeiro Sócrates de Maurice.

Clive Durham, filho de uma família de nobres, em seu terceiro ano na academia, é, ao contrário de Maurice, brilhante. Também em oposição a este último, é um homem pequeno em tamanho, não obstante, a pequenez tenha detido-se somente à sua altura – frequenta a mesma faculdade que Maurice e, em todo o campus, tem fama de intelectual, além de andar com os alunos de Trinity, o que lhe confere certa reputação. Uma noite, quando Maurice, em extrema perturbação, finalmente decide ir ao dormitório de Risley, encontra apenas Clive, sentado no chão do quarto, em frente a uma pilha de discos: “Quer falar com o senhor Risley? Olá, Hall!”.

Já bastante atordoado e, agora, desapontado, Maurice tenta livrar-se da companhia do outro imediatamente – suas razões para querer encontrar o veterano não lhe parecem direitas e, ainda que Durham não as conheça, a ideia de que há uma testemunha de seu equívoco, o transtorna ainda mais. O outro, porém, não percebe o seu embaraço e conversa com ele despreocupadamente, e sem arrogância, o que Maurice, de alguma maneira esperava. Fazem o caminho para a faculdade juntos e acabam por entrar no quarto de um de seus colegas, Fetherstonhaugh. Os três escutam um pouco de música e, depois, Durham e o anfitrião iniciam um debate acerca de alguns assuntos sobre os quais concentrariam-se os exames finais. Maurice, em silêncio, pode observar a excitação perspicaz e, surpreendentemente, organizada de Clive, que descarta as falácias de Fetherstonhaugh com uma impaciência sábia, característica singular em um homem tão novo. De pronto, sente-se tremendamente inferior em sua presença: “Que esperança havia para Maurice, composto de nada senão falsidades?”.

A propósito, a ordinariedade de Maurice é, em si, interessantíssima: grande parte da ficção que tratava da não-heteronormatividade escrita entre o século XIX e XX, apoiava-se em personagens excêntricos ou românticos, tais como o/a Orlando de Virginia Woolf, que excede os limites de tempo e gênero, e Törless de Robert Musil, um jovem de singular inteligência que acaba por juntar-se ao amigos para torturar e explorar sexualmente um colega do internato, afim de, supostamente, deslindar certas inquisições filosóficas. Maurice, contudo, não é nenhum filósofo e o sabe: é um homem tão prosaico quanto qualquer outro, não obstante, lhe seja inelutável a própria homossexualidade. Isto é, Forster, ao inserir seu protagonista em um ambiente modelo da média sociedade inglesa pós-vitoriana, e, ao mesmo tempo, povoar sua mente de questões então consideradas vis e criminosas, expôs a possibilidade de que os sujeitos LGBTQIA+ pudessem ser, simplesmente, meros cidadãos comuns. Aliás, se Maurice não fosse tão simplório, não poderia deixar-se levar tão facilmente por Clive Durham, o que acontece a seguir.

Logo, os dois estudantes tornam-se próximos e, depressa, a afeição de Maurice pelo novo amigo supera a admiração intelectual. Não chega a desesperar-se, porque tenta não pensar sobre isso, convencido de que Durham é apenas mais um dos colegas por quem nutre um interesse atípico, como o fazia (secretamente) nos tempos de escola, mas que não poderia ser correspondido, claro, visto que lhe era tão indigno e academicamente subalterno. Por consequência, em terreno tão favorável, Clive passa a ter um discípulo mais fiel do que Pedro era à Jesus: Maurice, como a maioria dos ingleses de sua classe social, é um cristão ignorante e convicto; Durham é um ateu de “temperamento helênico”, que, criado no cristianismo, estudou a bíblia com afinco – após algumas poucas discussões entre eles, o primeiro nega, uma vez e para sempre, a crença dos pais e da Inglaterra Eduardiana com uma rapidez assombrosa – os deuses de Clive são os clássicos gregos; o de Maurice é Clive. Sua mudança abrupta, no entanto, faz bastante sentido, uma vez que Maurice, trancafiado em sua caverna a tanto tempo, aterrorizado pelas sombras que o cercam, vê, pela primeira vez, o que acredita ser o sol e, conquanto este seja, também, assustador, é ao menos uma visão genuína.

A amizade dos dois, porém, parece não inquietar ninguém: andam de mãos dadas, estão quase integralmente na presença um do outro e, com frequência, em uma posição de bastante intimidade. Mas a relação de ambos é, mesmo tão intensa, apenas “companheirismo” – Maurice não tem coragem de falar sobre o seu segredo à seu melhor amigo, e este não comenta sobre a própria sexualidade.  Insolitamente, para Maurice, é Clive quem acaba por tocar no assunto: em uma aula de tradução, o docente, o senhor Cornwallis, recusa-se a comentar um assunto que, para ele, era essencial no entendimento do contexto cultural da Antiguidade Grega; “Durham comentou depois que o professor deveria perder seus subsídios de pesquisa por tal hipocrisia.” O “vício indizível dos gregos”, nas palavras de Cornwallis, tratava-se de uma cerimônia de iniciação em que homens mais velhos “adotavam” adolescentes do sexo masculino para educá-los socialmente, espiritualmente e sexualmente. Isto é, na sociedade ateniense, por exemplo, o homoerotismo não era visto com os olhos conservadores da modernidade, pois que tinha um especificidade pedagógica e, inclusive religiosa. “Você já leu o Banquete?” Clive pergunta, “Está tudo ali; (…) você deveria ler. Leia nas férias.”

Maurice, entretanto, tão ingênuo quanto possível, não entende a referência do amigo, que, a cada página, torna-se mais óbvia para o leitor. Durante as férias, tenta iniciar um relacionamento com uma visita da família e, malgrado seja um rapaz atraente, age de maneira tão indelicada que assusta a mulher. Na volta para a faculdade, assegura a Clive que nunca gostou dela, sobre quem escreveu para ele em cartas. Durham, emocionado, não demora a aludir ao livro que tinha indicado antes do recesso: “Sei que leu o Banquete nas férias. (…) Então pode entender… sem que eu precise explicitar…”. Maurice, claro, em seu constante estado de confusão, não entende, mas, dessa vez, Clive apressa-se em elucidá-lo: “Eu te amo”. Tamanha honestidade escandaliza o protagonista, o mesmo que, desde criança, desdenhava da hipocrisia dos adultos: “Durham, você é um inglês. Eu também. Não fale bobagem. Não me ofendo, pois sei que não quer dizer isso, mas este é o único assunto absolutamente fora dos limites, como você sabe, o pior crime da lista, e não deve mencioná-lo de novo. Durham! Uma noção nojenta de fato…”.

Clive Durham, tal qual Maurice, acreditava ter sido amaldiçoado. Antes do ateísmo, impressionava-se tremendamente ao ler a bíblia, desde muito novo  “dotado da sensibilidade para a palavra impressa”, e tentava, com ardor torturante, não blasfemar – assim, cresce reservado, porque, o medo da própria sexualidade, que havia amedrontado também a seu amigo, era mais forte e decisivo nele. Um  bom leitor, no entanto, encontra sua salvação em Platão: “Era incapaz de esquecer a primeira leitura de Fedro. Viu sua inquietação ser descrita de forma calma e invulgar, como uma paixão que podemos direcionar, como qualquer outra, para o bem ou para o mal”. Mas a resposta desdenhosa de Maurice, que compreende como recusa, causa uma lesão decisiva nas crenças de Clive, dado que partisse de seu devotado discípulo. Não tratava-se de uma recusa, porém, e a insistência com a qual Maurice tenta confessar-se, apazigua sua tristeza. De início, acredita que o amigo quer somente esclarecer o fato de que nunca denunciaria seu “crime” (a homossexualidade ainda era ilegal na Inglaterra) às autoridades, mas descobre que este é, da mesma forma, um criminoso.

O relacionamento, então, avança, mas jamais sexualmente. Clive, idealiza, sobretudo, o amor platônico, que teria como aspecto principal a busca da beleza e da virtude em si e em seu companheiro, apreciando, maiormente à inteligência,  a despeito dos prazeres concupiscentes. Claro, fosse Maurice um jovem mais firme em suas próprias ideias, não teria engolido tão facilmente as de Durham e, aí está um ponto fundamental na relação dos dois: Maurice não importa-se com a filosofia, interessa-se somente por Clive e, se a condição de celibato é imprescindível para que o companheiro não o abandone, ele aceita sem hesitação, conquanto a tarefa seja difícil.  Forçosamente, se Durham encontra abrigo nos discursos do Banquete, que vale ressaltar, não censuram necessariamente a homoafetividade, e sim o culto do corpo sobre a alma, como ele poderia pensar de outra maneira? Ora, mesmo Platão condenara o coito anal entre homens em suas Leis. Não obstante, a Grécia deixa de fazer sentido para Clive antes que ele deixe de fazer sentido para Maurice. Depois de formado, decide viajar para o país na tentativa de entender a si mesmo e, curiosamente, encontra o oposto – em um telegrama para o amigo, escreve: “Contra a minha vontade, tornei-me normal. Nada posso fazer”.

O leitor contemporâneo assusta-se: Forster acreditava numa cura para a homossexualidade? O incômodo é, compreensivamente, inelutável. A narrativa, contudo, não decai em explicações óbvias, porquanto não é trabalho de um romancista encaminhar seus leitores pela mão para que cheguem a conclusões, as quais poderiam chegar sozinhos. Quando Clive e Maurice não são mais universitários, o primeiro teme uma ruptura irremediável em seu relacionamento, visto que, nos dormitórios e corredores escuros de Cambridge, o amor de ambos fazia-se quase natural, pois que ninguém parecia, de fato, importar-se com os alunos que andavam de mãos dadas, se não professassem abertamente nenhuma ideia repreensível. Maurice nem percebe, inserido que está na sociedade inglesa e, acima de tudo, feliz de poder encontrar-se com Clive em qualquer lugar, quando possível. Clive é, todavia, um nobre e o herdeiro principal de sua família, a quem toda a cidade espera construir uma carreira política. Ou seja, é imperativo que se case e assim o faz. Um golpe de tal intensidade, logo, não poderia causar menor impressão em Maurice: inicialmente, quer suicidar-se, mas acaba por, simplesmente, procurar um tratamento para sua “comorbidade” na ciência. Acontece que a até a ciência falha e ele se vê, mais uma vez, completamente sozinho em seu desespero. 

Será somente em Alec, outro “reles empregado”, uma reminiscência de George, que Maurice encontrará seu final feliz. Já quando começa a aquiescer à escolha de Clive, aceita um convite seu de passar alguns dias em sua propriedade para conhecer a esposa e, de súbito, atrai para a sua solidão miserável um dos funcionários de Durham, a quem vincula-se completamente, de maneira, aliás, sexual. No último capítulo, sob os efeitos da recém-adquirida felicidade, Maurice conta tudo à Clive, que ofende-se: “a única desculpa para qualquer relacionamento entre homens é que este se mantenha puramente platônico”. Mas, o herói de Forster, por fim, liberta-se da influência de seu antigo mestre, que, embora antes lhe tenha parecido esclarecedora, mostra-se, agora, demasiadamente insatisfatória: “não vim para ouvir seus conselhos, tampouco para falar sobre pensamentos e ideias. Sou feito de carne e osso, se é que pode entender essas coisas tão baixas…”.

Maurice foi consequência direta de uma visita de E.M Forster ao poeta e ativista político Edward Carpenter, que defendia “o amor entre companheiros”. A sexualidade de Forster, na época, lhe era um tormento, e, tal qual o seu protagonista fizera com Risley e Clive, o escritor decide aproximar-se de Carpenter como quem “se aproxima de um salvador”. A inspiração para o romance surgiu na casa do poeta, quando o seu parceiro, George Merrill, tocou-lhe as costas, pouco acima das nádegas, tal qual fazia com a maioria das pessoas, “um toque tão psicológico quanto físico”, capaz de chegar-lhe às ideias: “naquele momento preciso, eu havia concebido.” Os personagens, então, vieram de imediato e, também imediatamente, decidiu que sua “nota principal” seria a felicidade, talvez até mesmo superior a que vira no lar dos poetas, um sonho de liberdade irrestrita – a homossexualidade era crime na Inglaterra, mas, mesmo assim, dedica seu romance “A um ano mais feliz” – haveria esperança?  Segundo E.M. Forster, Maurice “pertence a uma Inglaterra onde ainda era possível perder-se”: as florestas permaneciam em uma obscuridade que  permitia o esconderijo de pessoas, igualmente, obscuras. Assim, Maurice e Alec continuam juntos, na eternidade da ficção e, lado a lado, “perambulam pelos bosques”, finalmente bem-aventurados.