Zé da Macuca deixa legado inspirador para a cultura popular

Zé da Macuca, ou Capitão Zé da Macuca, o criador do Sítio Macuca. Foto: Máquina 3/divulgação.

Zé da Macuca fundou a entidade cultural pernambucana Macuca, composta por eventos artísticos populares de folguedos e variadas apresentações artísticas. A relevância da Macuca foi reconhecida pelo Ministério da Cultura com o título Ponto de Cultura, concedido no ano de 2005, e com o Prêmio Culturas Populares de 2017, maior premiação da cultura popular realizada pelo Ministério da Cultura.

Formado em Geologia no ano de 1989, José Oliveira Rocha ou Zé da Macuca, como era conhecido, deixou a profissão para cuidar do Sítio Macuca, localizado no município de Correntes-PE e a tornou um efervescente polo cultural. Esse texto é composto por relatos de familiares e amigos. Nesta matéria, será traçada um pouco da história de Zé da Macuca e a sua criação: o Sítio Macuca. 

Onde nasce a inspiração de Zé da Macuca

Zé da Macuca sempre foi um admirador da cultura popular nordestina, especialmente, da música, como as canções de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Ao longo do tempo, também desenvolveu um gosto apurado por vários formatos musicais. 

A música ecoava pelo Sítio Macuca, lugar onde residia, desde o momento que o Zé acordava até a hora de dormir. O dia começava com uma música instrumental suave e, ao passo que estava mais animado, colocava para tocar forró, como descreve seu filho, Rudá Rocha, que seguiu os passos do pai na produção cultural. 

Nomes da música popular brasileira como Alceu Valença, Milton Nascimento, Clube da Esquina, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Elis Regina, e da música instrumental estrangeira, seja na influência do Jazz e da música clássica, e brasileira como Hermeto Pascoal, Heraldo Do Monte e Quarteto Novo, fizeram parte do repertório de Zé da Macuca no seu dia a dia e influenciaram na composição dos eventos no Sítio. 

Também gostava de ouvir artistas pernambucanos como Siba, Otto e Nação Zumbi. Essa mistura de estilos musicais sonorizaram os diversos festivais da Macuca e fizeram parte do repertório de inspiração dos cortejos como o Boi da Macuca, o Baile Cultural de Carnaval da Macuca e o São João da Macuca.

Como nasceu a Macuca?

Existente há mais de cem anos, o Sítio Macuca tem esse nome desde a sua origem. Macuca era o nome de uma ave típica na região do Sítio, na época em que foi fundado, na atual zona rural de Correntes. Os ovos possuem coloração azul turquesa e são incubados pelo macho, encarregado também de cuidar dos filhotes. Essa ave é mais conhecida como Macuco nas demais localidades brasileiras.

Em 1989, Zé da Macuca herdou o Sítio do seu pai. A partir disso, decorreu toda a atividade cultural dentro da Macuca, como os cortejos do boi, as festividades de São João, a primeira festa do Sítio e os festivais que viriam a acontecer nos anos seguintes. 

Embora a Macuca se manifeste culturalmente por meio de vários gêneros musicais e de várias linguagens artísticas além da música, o cartão de apresentação e o carinho da família, sempre foi a cultura popular nordestina.

Boi Boi Boi Boi

A movimentação cultural da Macuca surgiu no aniversário do Zé da Macuca em 18 de fevereiro de 1989. Na comemoração, em que estavam presentes familiares e amigos, um sanfoneiro chamado Benedito deixou todos impressionados com seu forró pé de serra. Decidiram, então, levar Benedito para o carnaval de Olinda e, em uma casa alugada, criaram um estandarte chamado Movimento Anárquico Cultural da Macuca.

Acompanhando o sanfoneiro em pleno Carnaval, seus familiares e amigos desceram as ladeiras de Olinda. Um morador de rua juntou-se ao grupo em um determinado trecho do cortejo e entoou a cantiga ‘Boi, Boi, Boi, Boi, Vou deixar minha burrinha e vou montando no meu boi’.

Zé da Macuca passou a cantar essa música nos vários cortejos realizados no Sítio, antes frequentado apenas pelos moradores da região. “Meu pai internalizou essa música de tal forma que rebatizou o folguedo de Movimento Anárquico Cultural da Macuca para Boi da Macuca”, conta Rudá Rocha.

O primeiro boi gigante surgiu em 1991 pelas mãos do artista plástico Sávio Araújo, artista de várias edições do galo da madrugada do Recife. O segundo boi foi confeccionado pelo falecido paraibano Breno Matos em 1992.

Para Zé, ele representava uma figura mítica e irreverente, presente na cultura popular de muitas regiões brasileiras.

O boi é uma figura do folclore brasileiro cuja aparição se dá em épocas juninas, carnavalescas e natalinas, a depender do lugar e de sua cultura. Já o Boi da Macuca, está presente em festivais, carnavais, festas de São João e viajou para a Copa do Mundo em 1988, na França e na Alemanha, a convite da embaixada da Casa das Culturas do Mundo, em Berlim. 

Woodstock Pernambucano

Com intenção de ampliar as áreas de atuação da Macuca, até então voltada quase exclusivamente para a cultura popular, o seu idealizador, Zé da Macuca, planejou um festival de música inspirado no Woodstock, o famoso festival americano, realizado em uma fazenda com acampamento, assim como a Macuca. 

Os festivais duravam de sexta-feira à domingo e uma programação que preenchia dias e noites inteiras, sendo compostos apenas por música – até os anos 2000 – e encerrados com o cortejo do boi aos domingos. Nessa época, a imprensa de Pernambuco deu os nomes de Woodstock pernambucano e Woodstock do Nordeste a Macuca.

Recentemente, outras linguagens artísticas como a poesia e o frevo se fortaleceram no evento. Apesar das mudanças, Rocha ressalta que a música continua sendo protagonista dos festivais. 

Forró no escuro

O Sítio Macuca foi residido por anos sem energia elétrica nenhuma. A iluminação era feita com candeeiros. A geladeira funcionava a gás e a bateria do aparelho de som era carregada nos povoados vizinhos em um percurso à cavalo.  

Atualmente, os candeeiros permanecem iluminando algumas partes da casa, com energia elétrica, após muito tempo de resistência por Zé da Macuca. “Por conta de toda questão de praticidade e conforto, ele foi digerindo e aceitando. Porque, para meu pai, não ter energia elétrica, as luzes de candeeiro e esse tom subversivo representavam uma resistência cultural”, explica Rudá.

Relato de *Nato Vila Nova: de espectador a amigo

Nato Vila Nova e Zé da Macuca em edições dos festivais. Foto: Arquivo Pessoal.

“Eu conheci Zé no segundo ano do festival da macuca, em 2000. Naquele ano ouvi falar da festa e fiquei curioso para conhecer. A partir desse dia me encantei pela Macuca a ponto de quase todo ano estar presente. Comecei a ir em duas ou três festas todo ano e depois veio o convite para tocar. 

Ele era uma figura muito receptiva com o pessoal. Uma pessoa única. Um cara muito gente fina, todo mundo ficava encantado com ele. 

Ele frequentava a mercearia que tinha em Caruaru, do meu amigo Chico, tomamos muitas biritas nas noites. Sempre marcamos para tomar banho de bica e celebrarmos a vida. Ficamos muito amigos. 

Todos os festivais que ele idealizava eram de qualidade. Desde o forró tradicional de Luiz Gonzaga ao jazz mais refinado. Os estilos musicais passeavam pelo rock, frevo e blues.  

A movimentação em Caruaru era imensa, a galera ficava ansiosa conforme se aproximavam os festivais. Diziam ‘faltam dois meses, um mês, uma semana pra chegar. Pra ir pra Macuca, tomar banho de bica, tomar banho de açude e acampar numa grama bem bonita, armar as barracas, conversar, comer, beber, dançar e brincar.’ 

Tenho uma lembrança marcante de Zé, de quando ele estava regendo um cortejo com o boi. Ele montado na sua burrinha, saía com as mãos pra cima, regendo o trio pé de serra. Empolgado, ele pulava levantando os braços. Era nítido a dedicação, a paixão por tudo que ele estava realizando e como ele transmitia felicidade para as pessoas. Todo mundo acompanhava o cortejo e brincava melado de carvão.

Uma outra história bem marcante para mim foi em 2014, em uma Macuca rock and roll. Nesse festival eu toquei com a minha banda mais antiga, a Pysch Acid, com 31 anos de história. No meio do show,  Zé entrou tocando triângulo, como ele sempre gostava de fazer. Em um som de rock metal pesado, ele conseguiu acompanhar o ritmo. Tocava como ninguém. 

No meio do nosso show, ele deu um mosh, que é quando a pessoa sobe no palco e pula em cima do público. Foi um momento muito marcante da minha vida. Era essa a magia da Macuca e de Zé da Macuca.”

*Agitador cultural da cena pernambucana, Nato Vila Nova é vocalista e instrumentista. Bandas da região do Agreste como Sangue de Barro, Psych Acid, Cara de Doido e 70mg contribuíram para o  rock and roll e o metal pernambucano.

O legado da Macuca

O diretor de cultura da Fundação de Cultura de Caruaru, Hérlon Cavalcanti, destacou a importância do Zé da Macuca para a cultura. “Ele levou o conceito de arte para o coletivo, por reunir grandes artistas e agremiações para saudar o Boi da Macuca. O grande legado dele é a celebração da festa e a capacidade de compreender e valorizar o artista como ele é, seja banda de pífanos, cortejo de boi, carnaval ou qualquer outra expressão artística”, afirma.

Sobre a personalidade do ator cultural, Hérlon ressalta que ele era um cara futurista e tinha um brilho diferente. Além disso, completa que não só a cultura nordestina, como a cultura de uma forma geral, perde com a sua saída desse plano. Zé deixa legado para que outros produtores culturais e amantes da cultura nordestina possam se espelhar na sua grandeza.