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BEM São João: conheça as implicações do novo auxílio em Caruaru

Raquel Lyra anunciou um auxílio para os artistas do São João no final de maio, com restrição para a equipe técnica e instrumentistas

Bacamarte. São João de Caruaru.

Mestre Bacamarte. Foto: Arnaldo Felix

Em pronunciamento no dia 31 de maio deste ano, a prefeita Raquel Lyra anunciou a criação do Benefício Emergencial Municipal, também chamado de BEM São João. Os artistas que tanto alegram o São João de Caruaru poderão contar esse ano com ele para cobrir os prejuízos da festa, que, mais uma vez, não será comemorada por conta da pandemia da Covid-19. 

O auxílio vai contemplar cantoras, cantores, bandas de música, batalhões de bacamarteiros, trios pé-de-serra, repentistas, poetas, declamadores, bandas de pífano, atores, atrizes, grupos teatrais, grupos de artes plásticas, bois, gastronomia (comidas gigantes), reisado, mazurca, quadrilhas juninas e companhias de dança. 

Os beneficiários poderão receber valores entre 1 mil a 3 mil reais, em parcela única. A lista com os nomes dos artistas contemplados foi disponibilizada no dia 15 de junho. O objetivo da iniciativa é driblar os impactos econômicos causados pela não realização da festa. Em 2019 gerou uma renda de R$ 434 milhões (valor gerado juntamente com festas de outras cidades) para todo o estado de Pernambuco. 

A iniciativa é importante, porém há implicações em relação às condições nas quais se dará o projeto. De acordo com fala da prefeita Raquel Lyra no pronunciamento oficial, participarão do auxílio aqueles que estavam cadastrados para o evento de 2019. Ou seja, quem participava e estava cadastrado na Prefeitura em anos anteriores, não entrará na lista de beneficiados, apesar de estarem sendo prejudicados pela falta do evento neste ano, assim como foram em 2020

Quadrilha. São João de Caruaru.

Quadrilhas Juninas. Fotos: Arnaldo Felix

Alexandre Teixeira, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Economia Criativa, que está à frente do projeto, garantiu que quase todos os artistas receberão. “A gente utilizou um ano de São João para termos o parâmetro, porque se formos entrar no São João de 2018 e anos anteriores, os artistas irão se repetir. Diversos artistas vão ser contemplados, praticamente todos os caruaruenses com alguma arte para mostrar”.

Alexandre também citou o recorte como uma maneira de facilitar para obter uma base financeira e legal a partir dos contratos que a Prefeitura e Fundação de Cultura obtiveram no último São João. Em caso de quadrilhas, trios, bandas e teatros, o pagamento será em grupo e não individualmente. Nessa questão, entra o valor do auxílio de 3 mil reais, o máximo pago pelo projeto,  que ao depender do grupo a ser contemplado, corresponderá a um valor baixo para cada integrante.

O Mestre Zé Gago, da banda de pífanos Zé do Estado existente há 80 anos, frisa a baixa quantia disponibilizada pela Prefeitura. “Nós fizemos 15 mil reais tocando em 2019, agora, vamos ter 3 mil. Para seis pessoas é muito pouco. Somos quase todos pais de família, temos contas, mercado e aluguel. É muito pouco”, destaca. 

A integrante da banda Zé do Estado, Vitória do Pife, descreveu o auxílio como uma obrigação da Prefeitura para com todos os que fazem a cultura na famosa Capital do Forró. Ela ainda comentou o quão difícil foi passar a pandemia de 2019 sem nenhum amparo: “ano passado foi muito ruim financeiramente, precisei inovar no meu trabalho, dando aulas online e vendendo meus pífanos. Para mim, deu tudo certo, mas foi muito triste ver músicos tendo que vender seus instrumentos para pagar suas contas.”

Teatro. São João de Caruaru.

Teatro de Mamulengo Mamusebá do Mestre Sebá. Fotos: Arnaldo Felix

Vitória ainda menciona que a medida  é um alívio, mas também gera um sentimento de injustiça em relação aos colegas do ramo. “Apesar  da grande mobilização dos músicos instrumentistas para que pudessem receber o mesmo benefício, independente do cantor ou cantora, a proposta não foi aprovada na Câmara de Vereadores. Na minha opinião, desde o início da pandemia, já deu tempo de se pensar em uma alternativa que contemple toda a classe artística e técnica”, afirma.

Sem dúvida, o impacto da não celebração do São João foi e ainda é sentido nos artistas que compõem as apresentações dos 30 dias de festa. A artista chamou a atenção para outro impasse do BEM São João: a exclusão da equipe técnica. Por trás de todo o espetáculo, da música, do som, das luzes, estão as pessoas que fazem parte dessa classe.

A roadie e produtora cultural Nichole de Andrade fez parte da equipe técnica do São João em 2019 e demonstrou indignação com a falta de preocupação com as pessoas que desempenham essas funções. “Acredito que grande parte dos encarregados da Fundação de Cultura não conhecem o funcionamento dos shows e suas especificidades. O artista pode aparecer lá, mas como ele vai ter show sem técnicos? A equipe técnica deve ser beneficiada com esse auxílio ou que exista outro, mas ampare nossa classe. Assim como também os músicos instrumentistas”, afirma. 

Ao ser perguntado sobre a questão da equipe técnica do São João não estar sendo inserida no projeto, o Secretário informou a tentativa de adicionar uma emenda abarcando a equipe técnica, mas ela não passou na Câmara de Vereadores.

Nichole revela que o sentimento permanente é o de injustiça, afinal, os integrantes das equipes técnicas estão há dois anos sem ganhar sua renda principal, assim como os artistas. “Seria imprescindível essa ajuda governamental, mas a sensação é que essas pessoas nem sabem do nosso trabalho e nem entendem”, desabafa a estudante. 

Vários artistas do São João de Caruaru.

Vários artistas do São João de Caruaru. Fotos: Arnaldo Felix

O município perdeu cerca de 200 milhões com a não realização do evento em 2020, um impacto forte na economia e para todas as pessoas que o fazem acontecer. Porém, a Prefeitura de Caruaru teve mais de um ano de experiência com a pandemia, tempo suficiente para administrar um auxílio que englobe todas as classes que fazem parte da comemoração. 

A cidade é reconhecida por ter o maior e melhor São João do mundo, mas essa medida, ainda que beneficie determinados grupos, é capenga e insuficiente. Além disso, a não aprovação da emenda que inclui instrumentistas e a equipe técnica na Câmara de Vereadores prova, ainda mais, o reflexo de um descaso com a Cultura. A má administração do BEM São João deixa evidente a falta de conhecimento, por parte dos seus gestores, do seu próprio povo e suas demandas. 

Agradecimento a Arnaldo Felix e suas fotos maravilhosas que despertam saudades do São João de Caruaru.