Por que ler Marcel Proust nos nossos dias?

Morning Sun, quadro de 1952 do norte-americano Edward Hopper. Divulgação. 

Dedico este ensaio à memória do professor Roberto Machado, que tanto me inspirou em suas conferências sobre Proust.

E tua noite não é nossa noite:

Está cheia do branco vislumbre

de catléias, vestidos de Odete,

cristais de flauta, lustres,

e folhos encanudados do General de Froberville

– Paul Morand, 1920

No século passado, o professor e político Aderbal Jurema se perguntava: “quem de nós, ao ler Em Busca do Tempo Perdido, não fica a recordar também as torres da igreja de sua província? Quem de nós não carrega dentro da geografia íntima o país de sua meninice?”. O entusiasmo do intelectual paraibano acerca da obra de Marcel Proust (1871-1922) era semelhante ao de outros escritores que compartilhavam com Jurema o número especial da Revista Nordeste, lançado em 1949 como uma homenagem ao escritor francês.   

Todavia, neste 10 de julho, passados exatos 150 anos da morte de Proust, cabe a nós reiterar a pergunta de Jurema: ler Em Busca do Tempo Perdido, romance publicado pela primeira vez em 1913, ainda significa ser “leitor de si mesmo”? Adianto (como é possível desconfiar) que sim. Despindo as roupas canônicas que o tempo, grande protagonista da obra, e a indiscutível importância da narrativa conferiram ao romance, debruçar-se sobre os sete volumes proustianos em nossos dias é algo que, para além da paixão ou do ódio que podem se impor sobre personagens como Albertine, Barão de Charlus e Morel; e da intimidade que se cria com a pacata Combray, a balneária Balbec e os recônditos de uma Paris sitiada durante a Primeira Guerra Mundial, compreende – e nos ajuda a compreender – o próprio indivíduo em sua relação com o tempo, a morte, a memória, e (por que não?) com o isolamento.      

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust foi, de uma certa maneira, um escritor tardio. Sua grande obra foi produzida em uma solidão compulsória que, apesar de alguns hiatos, durou catorze anos e terminou com a morte do autor. No entanto, até o momento em que se isola em seu apartamento na Boulevard Haussmann, em Paris, e decide molhar de tinta a sua pena, Proust simplesmente viveu, e isso foi decisivo para sua obra. Esse “esnobe sem importância, […] trêfego frequentador de salões”, como afirma Walter Benjamin, enxergou na sociedade da época um caleidoscópio humano a serviço de sua imaginação.

Entre pretensas realidades e algumas ficções: Do lado direito, trecho do filme Le Temps Retrouvé (1999), de Raoul Ruiz, em que o ator Marcello Mazzarella interpreta o escritor parisiense. Do lado esquerdo, a foto do real Marcel Proust. Divulgação.

Além disso, algo que permeia a construção do romance é, sem dúvida, o encontro com a manifestação misteriosa do cronos, isto é, com o tempo que a tudo destrói, e que pode ser recuperado, em partes, tanto pelo esforço artístico, a posteriori, quanto por algo ainda mais vívido e puro evocado pelo cheiro e o sabor, como a madeleine que leva o narrador até a sua infância em Combray, ou pela música, a exemplo do septeto composto pelo músico Vinteuil, cuja harmonia é capaz de transportá-lo ao grande amor de sua vida. Conforme se envelhece, essas lembranças, chamadas pelo autor de “memórias involuntárias”, tornam-se mais frequentes. Proust, transfigurando a realidade em uma escrita torrencial, evoca a imagem dos sinos do convento que parecem “tão silenciosos durante o dia”, em razão do vai e vem de pessoas na cidade, “mas que voltam a soar no silêncio da noite” (p. 49, No caminho de Swann). Em tempos de peste, os sinos da noite nunca estiveram tão presentes.

No conto O Espelho, publicado por Machado de Assis em 1888, Jacobina, personagem “astuto e cáustico”, conta para um grupo de amigos a sua desventura de juventude, em que passou um longo tempo sozinho em um sítio no interior do Rio de Janeiro, apenas com sua valiosa farda de alferes – grande honraria, apesar da baixa patente, para um jovem pobre -, e um espelho da época de Dom João VI. Abandonado pelos verdadeiros moradores da casa e seus escravos, Jacobina passa a ser atormentado pela solidão daqueles campos silenciosos. Receoso de olhar-se no espelho, termina por fazê-lo, e a experiência não poderia ser menos aterradora: sem a farda, sua imagem era difusa, embaçada; vestido de alferes, a imagem se recompunha. A partir daí, Jacobina acredita possuir duas almas: uma exterior, e outra interior, misteriosa e enigmática.

De uma certa maneira, os personagens que nascem da pena de Proust se desenvolvem assim: sob capas e insígnias de aristocrata, burguês, ou proletário, o mundo parece ordenado, inclusive por suas rotineiras intrigas e ilusões palacianas. Fora delas, tudo se complica, e naquilo que é humano, demasiadamente humano, mora o principal interesse do escritor francês. Personagens tão distintas, a exemplo da governanta Françoise e do marquês Robert de Saint-Loup, mudam intensamente ao longo da vida, acumulando em si camadas diferentes – e muitas vezes opostas. Essas contradições, sob a ótica de Marcel, são das coisas que mais fascinam durante a leitura.

Ora, quem de nós não mudou nesses quase dois anos de crise? Em toda experiência, argumenta Proust, há diversas transformações que compõem um novo eu: e com a nossa não podia ser diferente. Essa “morte fragmentária e sucessiva”, alude o escritor, deflagra “pedaços de nós a cada instante”. Olhar para o passado, para quem nós fomos antes da emergência sanitária, é recriar esse mesmo pretérito com olhos do presente, reconstruir a lembrança com os olhos cansados do agora, pois, como descreve Italo Calvino em seu clássico As Cidades Invisíveis, o passado muda conforme o viajante persegue seu itinerário: “a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos”. Na ponte entre o esquecimento e a lembrança, estamos nós, e somente nós.

Uma das fotos que compõem a exposição Lookin’ Out From Within (2020/2021), da fotógrafa inglesa Julia Fullerton-Batten. Divulgação.

Por outro lado, em oposição à metamorfose existencial que enfrentamos cotidianamente, a morte literal, companheira indesejada e tão presente em nossos dias, é outro objeto de reflexão constante por parte do narrador. Essa postura diante da questão, que não é exclusividade de Proust, mas cuja recorrência alude ao asma, doença que o acompanhou desde a infância, e foi a causa de sua morte, evoca primeiramente nossa letargia diante da passagem do tempo ou, em poucas palavras, nosso hábito de adiar planos, sonhos e desejos: “Não aproveitamos quase nada da nossa vida, deixamos inacabadas […] as horas em que no entanto nos havia parecido estar encerrado um pouco de prazer ou de paz” (p. 313, O caminho de Guermantes).

A morte (e sua antessala, a velhice) atinge personagens como o escritor Bergotte, o sr. Verdurin e o dândi Swann. Entretanto, gostaria de me concentrar em duas figuras essenciais para o narrador do romance: sua avó, Amédée, e Albertine, seu grande amor. Amédée, representação da serena e interiorana Combray, é adorada pelo neto. Um dia, passeiam pelo Champs-Élysées quando ela sofre o primeiro ataque da doença que a mataria. Nos seus momentos finais, Proust relembra carinhosamente: “sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a sob a aparência de uma mocinha”.

Albertine, por outro lado, é descrita pela primeira vez em À sombra das moças em flor, segundo volume da obra, mas adquire destaque apenas em A Prisioneira, quando é levada a Paris por Marcel e encerrada numa espécie de cativeiro emocional, isto é, em que ela pode sair de casa, mas sempre deve voltar e relatar onde esteve. Ao longo do tomo, o narrador sofre pela constante suspeita de que Albertine fosse, na verdade, homossexual. Dessa forma, possuí-la a qualquer custo significava, para ele, impedir encontros que ela pudesse ter com outras mulheres, e saber ao máximo acerca de seus destinos nas ruas da capital francesa. O desenvolvimento psicológico do obsessivo, é claro, nos chama mais atenção do que alguma conclusão definitiva acerca da orientação sexual da figura amada, ou de uma possível traição que esta tenha cometido. No entanto, em A fugitiva, volume seguinte, Albertine o abandona. Ao ir para a casa da tia, decide cavalgar. No percurso, é lançada contra uma árvore e não resiste ao acidente. Nos dizeres de Marcel, “deixa de existir”.

Ao sofrer pelo falecimento de ambas, o narrador reflete que, ao perecerem, as pessoas levam com elas um universo que nunca mais poderá ser reproduzido. O que sobra fica, como arquivos residuais, na memória dos viventes que as conheceram. Conclui Marcel que “como os mortos não mais existem senão em nós, é em nós mesmos que batemos sem cessar quando nos obstinamos a recordar os golpes que lhes assestamos” (p. 494, Sodoma e Gomorra). 

Como bem nos alerta Montaigne, “a morte só é sentida pela razão, visto ser o movimento de um instante”. O luto e a dor, frutos do fenecimento, evocam a faceta de uma pessoa construída a partir de outra, e que nunca poderá ser rememorada integralmente. O tempo recuperado, no final das contas, não é o tempo perdido, mas sim um fragmento deste último. Algo se queimou para sempre. No entanto, o que sobrou é tão precioso que deve ser fielmente perseguido pelo artista através de sua criação. 

Dentre as lições que um gênio como Proust deixou para nós, está a da importância da reminiscência e da arte como um empreendimento capaz de criar um “universo novo e perecível” (p. 260, O Caminho de Guermantes) a cada verso, a cada pincelada, a cada nota composta, a cada palavra escrita. Nos trechos finais de O Tempo Recuperado, quando o narrador percebe que escrever o livro que acabamos de ler será a grande forma de recuperar esses mundos que o acompanharam ao longo da vida, uma nova busca se insinua, e o romance recomeça. À vista disso, reside a magnitude da obra: aludindo ao aspecto contínuo do Tempo e ao caráter cíclico de nossa procura, a criação proustiana não possui fim.  

Post-Scriptum: Antes da hora do adeus, convido os estimados leitores deste texto a conhecer a produção do perfil Proust Brasil (@proustbrasil) no Instagram e a terem em suas estantes o livro Acordar para Proust: uma breve iniciação a Em busca do tempo perdido, do escritor e pesquisador pernambucano Paulo Gustavo (@paulogustavo50). Em breve essa obra será objeto de mais uma coluna aqui no Café Colombo.