A bailarina da morte ainda dança

Lançado há cerca de um ano, o livro de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling sobre a gripe espanhola continua a se mostrar um poderoso espelho para a nossa própria crise

De tempos em tempos, a humanidade é relembrada de sua pequenez diante da natureza. Em determinada época, a morte pousa seus braços em nosso tecido social, nos lembrando, em larga escala, de sua fatal incubência. De origem desconhecida, surge um vírus transmissível pelo ar e pelas interações humanas. Esse inimigo invisível, apoiado por governantes negacionistas, curas milagrosas e pouco engajamento por parte da população, vai fazendo suas vítimas. Por acaso isso nos lembra algo? 

A Bailarina da Morte: a gripe espanhola no Brasil, livro das historiadoras e cientistas sociais Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, lançado em 2020, pela Companhia das Letras, não se furta de deixar claro que a investigação histórica sobre os arranjos políticos, sociais e de saúde pública que figuravam no ápice da pandemia de Influenza, em 1918, parte de um presente não menos caótico: o SARS-Cov-2, ou Covid-19, assola há dois anos o país e o mundo, nos deixando eternamente em estado de alerta ou, como aponta as autoras, altamente indiferentes.

Logo no início da leitura, a origem de alguns nomes e apelidos atribuídos à pandemia do século passado chamam nossa atenção: a “gripe espanhola”, que deixava suas vítimas “espanholadas”, não nasceu no país das touradas e de García Lorca, mas nos Estados Unidos. Em pleno fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com um mundo se recuperando dos estragos causados pelo conflito, a Espanha, um dos poucos países neutros da época, e, por conseguinte, um dos raros a não ter sua imprensa censurada, esteve entre os primeiros a reportar indícios do surgimento de uma nova doença. 

No período, populações feridas social, psicológica e fisicamente não queriam acreditar que uma nova guerra se aproximava. Culpar a Espanha, assim como culpar a China nos nossos dias, era a grande válvula de escape. Entretanto, a bailarina da morte, apelidada assim pela velocidade com que se espalhava, era real – e logo se faria presente em todo o mundo.

O Brasil nos tempos de cólera

Após um breve preâmbulo acerca do impacto da Espanhola em escala global, Schwarcz e Starling voltam seus olhos para o Brasil, e buscam inquirir no passado a forma com que a pandemia torna-se, também aqui, um evento social, ou seja, “quando termos médicos passam a fazer parte do cotidiano da população, e a mobilização em torno da doença é total”. 

Com a chegada do navio Demerara, vindo de Liverpool, a gripe se instala no nosso país. Em cada capítulo, passamos por regiões e cidades como Recife, Manaus e Belo Horizonte. Em cada uma se viu, apesar das características intrínsecas a cada localidade, a intensa desigualdade brasileira ser ainda mais agravada pela doença e pelo negacionismo inicial (e nem por isso menos fatal) dos políticos da conhecida Primeira República, como Carlos Seidl, Diretor-Geral da Saúde Pública, e o mineiro Venceslau Brás, presidente do Brasil de 1914 a 1918, eleito pelo arranjo oligárquico entre Minas Gerais e São Paulo que convencionou-se chamar de política do Café com Leite. 

Conforme avançamos no texto, torna-se impossível não se chocar com declarações como a do secretário de Justiça da Bahia, que defendia abertamente a seleção natural humana, já que, em tese, só depois da “eliminação dos mais fracos e sobrevivência dos mais resistentes, é que voltam os fatos ao normal e se restabelece o novo equilíbrio”. Tais discursos, resistentes ao tempo, são ecos de correntes científicas da época como a frenologia e antropologia criminal, que enxergavam uma relação direta entre mestiçagem e degeneração social e biológica.

Aliado a esse discurso, está o uso indiscriminado de remédios e soluções milagrosas sem eficácia comprovada. Xaropes, chás e até uma espécie de sapato anti-gripal disputavam espaço com um infeliz conhecido nosso: chamada no período de cloroquinina, a cloroquina é usada para combater o plasmodium, protozoário que provoca a malária. Porém, tanto em 1918, quanto em 2020, seja como um sal ou comprimido, e sem o menor indício de êxito, o medicamento foi vendido como a grande panaceia contra o vírus.

Anúncio de 1918, no jornal Minas Geraes, vendia a cloroquina como substância que curava a Influenza. Divulgação.
Anúncio de 1918, no jornal Minas Geraes, vendia a cloroquina como substância que curava a Influenza. Divulgação.

Todavia, entre os inúmeros pontos que merecem destaque nessa pesquisa exaustiva – e bem-sucedida – da dupla de investigadoras, creio que podemos tecer relações entre o passado e o presente em um dos aspectos mais nebulosos do livro: a quantidade de indígenas mortos pela Influenza. Em razão da ineficiência dos censos da época, é impossível precisar com clareza o número total de vítimas (cálculos, mencionados pelas autoras, somam de 50 a 300 mil pessoas mortas), e muito menos dos povos originários atingidos. Estima-se, ainda assim, que etnias como os avá-canoeiro, da bacia do Rio Tocantins, foram intensamente afetadas pelo vírus.

No momento atual, graças a atuação de grupos como a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que resistem a ataques de fazendeiros e de órgãos como a própria Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e o Ministério do Meio Ambiente, atualizam diariamente os dados em seus canais de comunicação e exibem a triste marca de mais 1.000 indígenas mortos desde o início da pandemia de COVID-19. 

Trata-se de um número que reitera uma política genocida que atua em inúmeras frentes: atentados de garimpeiros em terras indígenas e projetos de lei como a PL 490/2007, que autoriza o garimpo em áreas já demarcadas, apoiam-se em discursos protagonizados por Bolsonaro e seus seguidores, que menosprezam o preservação ambiental – questão-chave para o nosso século, já que o desmatamento está diretamente vinculado ao surgimento de zoonoses e potenciais pandemias – e consequentemente o valor e importância crucial dos indígenas para essa mesma preservação. 

Índigena protesta em Brasília, no ano de 2017. Divulgação/APIB.

A crise sanitária como espelho da humanidade

O filósofo Walter Benjamin já argumentava que o processo histórico, ao invés de linear, assemelha-se a uma espiral que repete aspectos do passado, mas ao mesmo tempo se diferencia destes. Escrevo de 2021, um ano após o lançamento do livro e do primeiro caso de coronavírus. Na época havia 125 mil mortes no Brasil; o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, imperava em suas megalomanias autoritárias, seguidas pelo seu eterno capacho brasileiro; e a vacina era apenas um sonho, fruto de muito empenho científico. 

Agora, com quase 500 mil mortos, abriu-se, no início de Maio deste ano, uma Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) no Senado Federal para investigar a conduta possivelmente (advérbio com papel de eufemismo jurídico) incompetente, corrupta e assassina do atual governo. Enquanto o mundo se vacina, nós perecemos. Andar pelas ruas é ver uma grande parte da população indiferente, que não usa máscaras e segue se aglomerando em festas clandestinas, autorizadas por um “líder” inescrupuloso e com viés autoritário. 

Naquele longínquo ano de 1918, no entanto, ações de humanismo germinavam, apesar da brutalidade do vírus, como sementes da terra: conforme descrevem Schwarcz e Starling, foi naquele momento que se ensaiou um projeto de saúde gratuito e universal, semelhante ao que hoje conhecemos como Sistema Único de Saúde (SUS). Os terreiros de candomblé, por sua vez, ao passo que procuravam atender populações marginalizadas e que não podiam contar com a assistência governamental, costumavam dar ao devoto um colar de algodão – signo de refúgio contra as adversidades da natureza. Era um alento simbólico, presente de outras maneiras em outras religiões.

Embora a situação atual seja catastrófica, iniciativas independentes de apoio social, emocional e psicológico espalham-se pelo país, a exemplo do Para Quem Doar, site que reúne diversas organizações não-governamentais, e a campanha Tem Gente com Fome, de enfrentamento à miséria social. Em meio ao caos, a esperança divide espaço com a insanidade e o “tédio da morte”, como já falava Nelson Rodrigues. Em vários sentidos, o belíssimo trabalho de Schwarcz e Starling permanece atual e iluminador.

Caixões acumulam-se em um Rio de Janeiro pandêmico (1918). Divulgação.

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