A Falência, de Júlia Lopes de Almeida

Mulher, trabalho e sociedade na obra prima de uma autora esquecida.

Júlia Lopes de Almeida, autora brasileira de livros como A Falência, A viúva Simões e A Intrusa. Foto: Divulgação.

No céu, sobre uma biga alada, a Marianne brasileira de Steckel, vestida à moda romana, mas com seu barrete francês na cabeça, carrega em uma mão a palma que indica o triunfo e, na outra, um escudo com o emblema da bandeira de Minas, baseado na Conjuração Mineira. É a imagem de uma mulher que representa a República vitoriosa, um dos mais importantes e populares símbolos republicanos desde a Roma Antiga à França Revolucionária. No Brasil, contudo, a alegoria feminina da República não teve tamanho êxito. Fez-se mais ilustre, positivamente, a imagem de Tiradentes e, quando não se estava tão satisfeito com o novo governo, a jovem, que representava liberdade e maternidade, transformava-se em prostituta ou mendiga. O caso é que, conforme Lilia M. Schwarz, por aqui, “as mulheres continuavam em casa, com vestimentas que lhes cobriam o corpo inteiro, e sem direito a participação política”.

A principal obra de Júlia Lopes de Almeida, “A Falência” (1901), é ambientada em 1891, o ano “em que o preço do café assumira proporções extraordinárias” e a Belle Époque brasileira já tinha presidente. Um dos primeiros livros naturalista-realistas de autoria feminina começa com uma descrição da frenética rua em que fica o armazém do português Francisco Teodoro no pico da hora de trabalho, quando “ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados’ em um Rio de Janeiro que “ardia sob o sol de dezembro”. Lá fora, a constante urgência da labuta; ao lado do armazém, dentro de seu gabinete, Teodoro repousava na tranquilidade de sua opulência à escrever cartas. Tendo desde menino trabalhado com o único objetivo de fazer fortuna, para o empresário o Brasil “era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio”, ainda que sob o governo da “maldita República”. Ironicamente, o patrimônio de Francisco Teodoro encontra a decadência através de arriscadas especulações durante o Encilhamento.

Como o título do livro evidencia, o principal acontecimento do romance é a falência de um dos mais prósperos homens do negócio cafeeiro. Todavia, é na família de Teodoro que está o eixo essencial do livro, particularmente em suas mulheres, ainda que os protagonistas masculinos tenham substancial destaque. Assim, com a certeza de que pouco lhe servia a fortuna se não a tivesse com quem compartilhá-la, Teodoro casa-se com a belíssima e pobre Camila, e com ela tem quatro filhos: as gêmeas pequenas Lia e Rachel, Ruth, a jovem violinista que apaga-se à arte acima de tudo e Mário, o desejado herdeiro a quem falta qualquer senso de responsabilidade. Ademais, a família acaba por receber uma sobrinha como agregada, Nina, uma espécie de Fanny Price, apaixonada pelo primo e com relações totalmente desiguais na casa: nem filha, nem criada. 

O palacete Teodoro, tal qual qualquer edifício de riqueza e popularidade, recebe visitas constantes. Uma, no entanto, se faz mais presente: Dr. Gervásio Gomes, que Teodoro considera já tão “de casa” que não percebe ser o amigo, o amante da mulher. Em cômica consonância com Aléxis Alexandrovitch, esposo de Ana Kariênina, o qual estremecia à ideia de que a mulher tivesse uma vida particular, Teodoro vê em Camila somente a estampa banal da figura feminina, mãe e esposa: “O lar é o seu altar; deslocada dele não vale nada”.


A Falência, portanto, é um romance de adultério que, para mim, singulariza-se devido à duas particularidades. A primeira está no fato de que não há moralismo ou fatalismo presente na narrativa do relacionamento entre Camila e Gervásio. Contrário à outros livros de mesma temática, tais quais “Madame Bovary”, “Ana Kariênina” e “O primo Basílio”, o destino de Camila não é conduzido à catástrofe por causa de sua ofensa, tampouco Júlia Lopes de Almeida exprime qualquer sentença apostólica direta ou indireta contra sua personagem. Longe disso, a própria Camila censura o julgamento arbitrário de autores homens quando propõem-se a tratar de romances como o que vive com Gervásio: “os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruimos”. E quase às lágrimas, continua, numa avaliação deveras complexa da autocracia masculina: “eu soube de muitas coisas e fingi ignorá-las, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lhas com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganá-lo pesa-me, pesa-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo”. Ao que Gervásio responde, na ingenuidade de quem, como homem, goza de certa permissividade para tais transgressões: “É extraordinário! Nunca julguei possível essa dualidade no amor.”

A propósito, Dr.Gervásio tem um dos melhores quadros de personagem do livro. Aceito no meio da família por ter salvo um dos filhos do casal do tifo, o médico não apaixona-se por Camila instantaneamente; era ela, ainda, muito mãe e esposa para chamar-lhe a atenção. No entanto, quando a exaustão dos seus deveres alivia-se, ela deixa de lado as velhas vestimentas ordinárias e vai moldando-se às inclinações do novo amigo, tornando-se quase que “uma obra sua”. De modo que, o exigente e (excessivamente!) autoconfiante doutor, encontra-se na casa da amante absolutamente todos os dias, para a total desconfiança dos conhecidos da família e ridícula ignorância do marido de Camila. 

Acho particularmente interessante, um dos episódios em que o Dr.Gervásio, à pedido de Teodoro, visita uma área pobre do Rio para examinar um dos empregados do armazém. Preocupado, essencialmente com a arte ou como diria Dostoiévski, com o sublime e belo, a religião de Gervásio é Dante e Camões. Logo, diante da cidade em sua forma mais grosseira, “uma cidade alheia, infernal, preocupada bestialmente pelo pão” (o que talvez indique o início das favelas), lhe parece sobretudo pitoresco que haja vida entre aqueles homens-máquinas, ou que ali haja, em especial, amor, onde vê apenas uma bela mulher, uma miragem em tal espaço. Esse momento se faz relevante, porque me parece ser essa figura quase angelical em um lugar tão proletário, um símbolo da pureza que traz o trabalho, um dos mais importantes recursos de redenção da maioria das personagens do livro. Para Gervásio, como puro e imperturbável burguês, a atividade significa muito pouco.

Contudo, é o trabalho que, curiosamente, socorrerá Camila no desamparo da falência seguida de suicídio do marido e da descoberta de que Gervásio já é casado e, portanto, não pode tirá-la da condição de indignidade social. Assim, primeiramente sob o domínio de um homem que, continuamente, a humilha (“É nas medíocres que se encontram as esposas”) e, depois sob império de um amante que a ama por ver nela “um reflexo perfeito da sua alma”, Camila descobre a liberdade junto às filhas, à sobrinha e à criada mais antiga, ao decidir que vai educar as gêmeas que são levadas para a casa da rica família de que Mário acaba por fazer parte através de um casamento meio apressado. Nina, enquanto cose à máquina, conclui: “Faz bem, tia. O trabalho distrai”.

Todavia, a autora não nos aborrece com uma romantização demasiadamente irrealista da pobreza ao associar trabalho à expiação. Duas de suas frases no romance – “Na sociedade há uma coisa ridícula: a pobreza. (…) A pobreza tem morrinha, é suja.”- , me lembraram uma das falas mais emocionantes da literatura russa, dita por Marmieládov em Crime e Castigo:  “Na pobreza ainda se conserva a nobreza dos sentimentos inatos; na miséria não há nem nunca houve ninguém que os conserve.” É com medo da pobreza, que pouco se diferencia da miséria para Francisco Teodoro, que o empresário falido se suicida. Em um momento, a filha Ruth pergunta ao pai: “Neste mundo então só há lugar para os ricos?”, e ele, desconsolado, responde: “Bem, sim…”, para depois quase profetizar que “o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada”.

É notável, também, os comentários da autora, que era abolicionista, sobre as criadas negras, apenas legalmente não escravas. Dentre tais personagens, a mais comovente é Sancha, empregada das tias de Camila, que é tão terrivelmente abusada que pede à Noca, a governanta “mulata” da família Teodoro, para comprá-la arsênico, porque pretende matar-se. Nesses casos, o trabalho do qual “surgiria a redenção do povo” através de seu “suor e lágrimas”, deixa de ser salvação para tornar-se violência. Deve incomodar ao leitor contemporâneo, porém, a adjetivação constante que Júlia faz dessas personagens que acaba por bestificar o sujeito negro. Impressiona, inclusive, que um dos seus romances anteriores tenha sido considerado por alguns críticos como comparável à um dos maiores clássicos antiescravistas da literatura americana A cabana do pai Tomás. Com efeito, apesar de progressista, Júlia ainda conservava certos preconceitos de seu tempo, então, como concordaria Alexandre Dumas, não julguemos um autor de uma época com preceitos de outra.

Finalmente, a segunda particularidade que faz de A Falência, um romance de adultério singular, é que a aventura romântica entre Camila e Gervásio, conforme se pode observar acima, não é o único centro fundamental do livro, como se presumiria de uma autoria feminina. Acredito que, longe disso, para a surpresa dos leitores que esperavam das mulheres a anacrônica permanência em um romantismo ultrapassado, Julia fez desse livro, um dos maiores romances da primeira metade do século XX, posterior à obra de Machado de Assis. Me agrada muitíssimo sua escrita pouco artificiosa, sem jamais deixar de ser poética – em dados capítulos pensei ler, mesmo que de longe, alguma das irmãs Brontë! Portanto, com um estilo que sugere o zolaísmo, caracterizante na vertente naturalista, Júlia escreveu uma crônica sagaz da burguesia carioca durante a Primeira República, “já em posse de todos os seus meios” como autora, tal qual bem disse José Veríssimo sobre esse que é o seu maior romance.


Júlia Lopes de Almeida foi a mais importante autora da Belle Époque brasileira. Talvez nossa primeira maior escritora. Com uma produção vasta da literatura ao jornalismo, da ficção às campanhas ambientalistas, Júlia foi uma das autoras (entre homens e mulheres!) de maior êxito em crítica e vendas de seu tempo, tendo, pelo menos, três grandes obras de alto valor literário:  A viúva Simões (1897), A Falência (1901) e A intrusa (1908). Apesar disso, ainda na primeira metade do século XX, sua obra foi caindo em ostracismo, algo que muitos consideram estranho, mas que parece ser mero resultado das seleções patriarcais do nosso cânone. É certo que Júlia quase entrou para a lista dos quarenta imortais da Academia Brasileira de Letras, que só veio à aceitar autoras mulheres na década de 1970. Portanto, incluiu-se seu marido, sem igual mérito literário, apenas para compensação da rejeição de Júlia, que sabia ter sido citada para o título. Não obstante, sua obra foi maior que o esquecimento imposto e, atualmente, há um justíssimo, ainda que deveras atrasado, movimento de resgate de seus livros. Faz-se, agora, essencial que reparemos o contínuo desaparecimento de figuras femininas na história de nossa produção artística e ler Júlia Lopes de Almeida é, sem dúvidas, um excelente ponto de partida.

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