A fotografia imersiva, política e transgressora de Flora Negri

Uma análise das interconexões promovidas entre os sentimentos e os corpos fotografados enquanto alimento artístico

Autorretrato de Flora Negri com a borboleta de asa destroçada em 2019. 

Ao observarmos uma fotografia é possível conectá-la aos mais diversos sentimentos de forma intencional ou não. É na contraposição das expressões, na expansão da técnica enquanto carreador de conceitos, subjetivismos, ideias e sensibilidades que mora a beleza pela dualidade misteriosa e encantadora detida pela fotografia. Por meio do campo do sentido observacional que podemos nos permitir trafegar através dos sentimentos criados pela observação dos ângulos, luzes, planos, focos, e produzir múltiplas interpretações acerca do que vimos.

Susan Sontag (1933-2004) foi uma cineasta, filósofa, crítica de arte e ativista que dedicou-se, sobretudo, à pesquisa e escrita da fotografia como área de conhecimento e a sua análise para além do fazer fotográfico. Sontag afirma em seu livro ”Sobre a fotografia” (1977) que, por meio das fotos, acompanhamos de maneira mais íntima e perturbadora o modo como as pessoas envelhecem. A fotografia é o inventário da mortalidade e, justamente, por sabermos acerca da morte que sentimos a vida. 

As imagens frenéticas que nos bombardeiam durante dias e noites apresentam uma regularidade em nossas mentes: as fotos são o meio de tornar, ainda mais reais, assuntos que alguns preferem ignorar em seu cotidiano. A fotografia é o recorte da verdade em sua forma mais crua.

Não sei dizer ao certo quando conheci o trabalho de Flora, mas lembro-me da primeira fotografia que pus os olhos. O registro em questão, capturado por Flora, se tratava de Flaira Ferro frevando na Ponte da Boa Vista no Recife Antigo e cabendo em si todos aqueles carnavais e suas poesias. Naquele instante me cresceu um sentimento de aproximação, de fazer parte da cena e de sua construção mesmo não estando presente em ato. Foi naquele silêncio acelerado que meu peito ecoou. As fotografias de Flora permitiam que a minha voz gritasse mais alto, dilatando o que existe de mais belo em meu íntimo. 

Flaira Ferro frevando na Ponte da Boa Vista no Recife Antigo por Flora Negri em Fevereiro de 2018.

A conectividade com o ser, a iluminação, a escolha dos ângulos e o respeito dos sentidos atravessam Flora, que recria o que há de mais intenso em nós a partir de sua arte. É um convite aos mergulhos, como ela mesma descreve na biografia de seu instagram.

Entre o apego pelo mar, o vermelho saturado e a eterna paixão pelos movimentos artísticos, mergulhar pela arte de Flora é também mergulhar em nossa própria existência. A fotógrafa pernambucana é dona de um foco sensível que quase sempre tem o corpo em primeiro plano e em segundo como ele se interconecta com os demais elementos, sejam eles naturais ou artificiais. Nas palavras de Flora: 

”O corpo é múltiplo, é tudo, não é só sexual, é casa, natural que nem a terra e as águas que correm livres.”

Mesmo antes da chegada da pandemia, a artista já narrava os sentimentos de forma recorrente através de autorretratos, mas, também, através de séries que recriavam as inquietações, anseios, medos e as alegrias da existência política humana por meio de corpos nus como receptáculos do sentir. Flora resgata o que o fotógrafo Ansel Adams discorreu sobre a beleza na fotografia sendo uma “expressão plena daquilo que sentimos com relação ao que estejamos fotografando no seu sentido mais profundo.”

É essencialmente no toque, no beijo das sombras e no encontro transgressor com a realidade que a artista compõe o seu sentido fotográfico e o amplia por meio das legendas dispostas juntamente com suas fotografias nas redes sociais, que refletem não apenas sobre si, mas, também como nós enxergamos sentido na arte.

Registros de Flora Negri em ensaios diversos. Interação entre corpos. conhecimento sobre o próprio corpo. contato com o outro da forma mais sincera e natural.
Esses são os registros de Flora Negri: um convite aos mergulhos.

O filósofo-político norte-americano, Todd May (1955-), pesquisador do anarquismo pós-estruturalista, em seu livro Morte (2008), conta-nos que se vivêssemos eternamente, não importa quantos erros cometêssemos, teríamos todo o tempo para consertá-los. Não importava quantas alegrias tivéssemos vivido, iríamos ter todo o tempo do mundo para vivê-las de novo. Só podemos desfrutar genuinamente da vida, das alegrias e dos sentimentos porque eles passarão. Só estamos abertos a aprender com os nossos erros porque temos pouco tempo para isso. É a morte, enfim, que torna a vida mais preciosa. A morte é o alarme diário que nos convida para deleitar um novo dia, que nos impulsiona para fora da cama em busca de sentir o hoje pela incerteza do amanhã.

Possuímos uma forma muito íntima de enxergar o mundo através de nosso campo óptico e toda a interpretação nasce de uma inadequação, de uma imperfeição, de uma inquietação. Flora nos faz um convite para abraçarmos quem somos e nossas particularidades, é o ato de se encantar por cada pequeno detalhe que nos compõe enquanto seres, é a reafirmação direta da mortalidade pela arte dos sentidos. 

Viver é ser passageiro, como enxergou Milton Nascimento e Fernando Brant, músicos por trás da composição de ”Encontros e despedidas”. Morremos, e, por isso, estar neste mundo é como ser passageiro num trem cujo destino é conhecido por todos desde o início. 


Cecília Távora é fotógrafa, graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste. Uma pernambucana que sente o coração verter ao navegar das páginas de um livro e umas doses de cafeína.

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