A Harmonia Werckmeister e a dança contínua do cosmos

Narrativa circular na estética do diretor húngaro Béla Tarr. Uma análise do filme "A Harmonia Werckmeister".

A Harmonia Werckmeister
Foto: Reprodução.

Em tempos funestos de pandemia, onde o aprisionamento, isolamento e a desilusão tomam conta, os filmes de Béla Tarr – cineasta mestre do vazio e da desolação – não saem da minha cabeça. E é por isso que no primeiro texto desta coluna, o único filme do qual eu poderia escrever é “A Harmonia Werckmeister” (2000), o longa mais belo e sensível – porém não menos niilista – de Tarr.

A primeira cena de “ A Harmonia Werckmeister” – contrariando o próprio Tarr* – é uma elegante metáfora que sintetiza a estrutura e o tema que compõem o longa. O filme começa em um bar localizado em algum lugar de uma pequena cidade da planície Húngara. No momento de fechar as portas, um cliente pede para que o dono espere, para que Valuska – o protagonista – possa lhes mostrar. Mas mostrar o que? Os outros clientes logo afastam as mesas, e Valuska se dirige ao centro do salão sem questionar, como se o ritual acontecesse de forma recorrente. Ele puxa alguns bêbados para fazer parte da demonstração; começa a reger seus corpos, esses corpos contingentes que habitam os mais profundos níveis da desesperança humana, em uma dança cósmica, para lhes mostrar e os transportar até um lugar “onde constância, quietude e paz formam um reinado de infinito vazio”.

Os corpos então começam a se mover um ao redor do outro, em passos constantes, ordenados – na medida do possível de astros bêbados – representando o sol, a terra e a lua. Mas de repente para. Essa ordem é interrompida por um processo natural de desintegração onde o resultado é a decadência, não causada por algum fator externo, mas sim pelo próprio percurso da natureza. 

Nesse momento, a câmera de Tarr, que ainda não sofreu nenhum corte e acompanha todos os movimentos de Valuska em seu ritual, para em um close, e começa se afastar lentamente junto com a música; para então subir e observar de longe aqueles seres desolados que habitam aquele mundo decadente.  

Novamente, a câmera volta de forma lenta, o maestro Valuska recomeça a reger aquele cosmos mundano, mas dessa vez de maneira mais intensa; todos aqueles bêbados giram ao redor do salão, como um ballet de corpos desordenados, se movimentando da melhor maneira que poderiam se movimentar. O dono do bar então perde a paciência e manda todos embora. À beira da porta, Valuska afirma que “ainda não acabou”.

Em uma única cena, Tarr expõe a estrutura da unidade que forma o todo de seu longa. Podemos enxergar “Harmonia Werckmeister” através de uma estrutura circular, sintetizada pelos corpos do cosmos etílico como uma continuidade de: ordem, desintegração e retomada. No entanto, mesmo essa cena sendo rica em seu sentido metafórico, ela não se integra à ordem casual da narrativa. Ninguém, além de Valuska, retorna para o filme. 

A narrativa de Harmonia Werckmeister segue um padrão simples focada no presente de seus personagens. O filme se passa em uma pequena cidade da Hungria, onde habitam indivíduos de uma classe social baixa, rodeados de nada, além de frio. Seguimos então Valuska, um inocente jovem totalmente isento de maldade e acolhido pela cidade, chamando todos de “tio/a”. Ele trabalha entregando jornais, e cuida de um músico idoso chamado Ezster, com quem tem uma relação especial de carinho paternal. Eszter, um homem erudito que possui uma obsessão filosófica que a princípio também parece estar descolada da ordem casual narrativa, mas que no todo estilístico proposto por Tarr, possui um papel importante. 

Este homem erudito está convencido de que todas as grandes obras musicais foram compostas com base em um campo harmônico “falso”. Para ele, devemos voltar à harmonia “pura”, presente no tempo de Pitágoras, onde existia apenas 7 notas; e que formava assim a “harmonia dos deuses”. Quando Werckmeister inseriu um sistema de notas a partir da oitava criou assim uma falsificação. Nesse sentido, seu objetivo de vida é conseguir fundar um sistema em que o retorno do campo “puro” se torne inevitável, mesmo com suas limitações.

Mas um dia, à esta cidade isolada, de questões mundanas e triviais, onde as pessoas vivem um inverno após o outro, com seus problemas de sempre, chega um circo. Esse circo tem como atração uma baleia gigante empalhada e um homem misterioso chamado de “O Príncipe”.

A baleia gigante logo desperta uma curiosidade genuína em Valuska, que vai até ela conferir com seus próprios olhos. No encontro, Valuska tem uma mistura de sentimentos como pena, melancolia, mas sobretudo, admiração. Seus olhos refletem um encantamento com aquela criatura grotesca e fantástica fruto da natureza divina. 

Aqui, podemos ver como Tarr diferencia Valuska dos outros habitantes daquela cidade. Para a população que lota o pátio onde está o circo, aquele bicho enorme causa apenas desconfiança e asco. Valuska é um personagem lírico, que funciona como um observador passivo, um ser deslocado, ingênuo e sensível inserido naquele universo caótico.

Não obstante, é a outra atração do circo que realmente movimenta a narrativa e as pessoas daquela cidade. O Príncipe tem a função de válvula incitadora do caos na pequena cidade. Ele não possui nenhuma ideologia definida, seu objetivo é apenas promover a desordem e acender o desejo de destruição presente nos seres humanos daquela cidade provinciana e afastada. Seres insatisfeitos com a própria vida, que nem sabem a causa real, à espera do primeiro motivo para saciar seu anseio pela destruição e acabar com a ordem vigente – que, na sociedade, diferentemente da natureza, é artificial – iniciando assim o processo de desintegração.

Foto: Reprodução

Sendo um dos maiores diretores da história do cinema, Tarr apresenta essa figura ideologizada do Príncipe de maneira magnífica. Por ter o papel de válvula incitadora do caos e da destruição, nunca vemos sua forma real. Ele fala com o dono do circo por meio de um intérprete, e apenas vemos sua sombra e ouvimos sua voz – que é em outra língua – através dos sentidos de Valuska. Estimulados pelas ideias caóticas do Príncipe, os habitantes da cidade saem destruindo e colocando fogo em tudo que veem pela frente.

A primeira vez em que a câmera deixa de acompanhar Valuska, é quando a multidão tomada de raiva caminha de forma ordenada, quase militar, em direção ao hospital da cidade. Com a chegada da multidão enfurecida ao hospital, vemos uma cena que sintetiza toda a beleza e a pureza do cinema de Béla Tarr.

A cena é filmada em um take longuíssimo – como todo o filme – com a câmera indo sempre para frente. Ao entrar no hospital, os personagens seguem em direção as alas da enfermaria, destruindo tudo o que veem em seu caminho e agredindo os pacientes. A câmera segue a ação, porém, de forma mais lenta que os personagens. Na maioria das vezes, ela entra nas salas no meio da destruição ou no seu fim. 

Porém, na última ala, algo diferente acontece. Dois homens se movem em direção a uma cortina de plástico e a arrancam de forma brusca. Mas de repente, param. A música sobe. Lentamente, a câmera, que está nas costas dos homens, revela uma figura pelada de aparência decrépita. Os homens se viram. Em outra velocidade. Mais lenta. É como se aquela figura raquítica tivesse os despertado do seu transe de fúria e destruição. A horda deixa o hospital em conjunto, de forma parecida com a que entraram, mas agora, seu ritmo é mais lento,  na mesma velocidade da câmera. 

Esse instrumento, que se torna um olho do divino nas mãos de Tarr, os observa indo embora a distância, depois se vira lentamente para a direita. No final do seu movimento, encontramos Valuska. Imóvel. Com um olhar distante, como jamais visto durante todo o filme. Esse espectador passivo e inocente presenciou todo o massacre. Seu olhar vazio reflete a atrocidade por ele presenciada. Na cena seguinte, vemos apenas as silhuetas dos homens indo embora lentamente, como peças de uma engrenagem que acabou de cumprir seu trabalho no cosmos. 

Preso nesse mundo cruel e insidioso no qual não pertence, Valuska sucumbe à loucura. Sua mente agora habita as sombras e seu olhar para sempre estará vagando no infinito vazio, nunca mais voltando a ser o mesmo de quando viu aquele ser de curvas grandiosas e fantásticas. A figura observadora que era aquele homem inocente, é mais uma atingida pelo peso e crueldade inerente à vida, a qual não poupa ninguém. 

Ao visitar Valuska no hospital, o Sr. Estszter faz planos para o futuro, onde estes possam morar juntos e aproveitar as coisas pequenas da vida, mesmo sabendo que esse dia nunca irá chegar. Ele reafinou seu piano, desistindo de sua busca filosófica pela pureza, e aceitando a tragicidade do cosmos.

A Baleia está destruída. A cidade está destruída. Mas o exército está de volta, para retomar a ordem, assim como aqueles corpos cambaleantes voltando a se mover no salão do bar. E como disse Valuska, ainda não acabou. O universo continuará se movendo. O mundo continuará girando. Porque, no fim de tudo, nada importa. O cosmos é indiferente.

 

*Béla Tarr afirma em diversas entrevistas que seus filmes não possuem metáforas.

A Harmonia Werckmeister

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