A história de Jorge

Uma história sempre há de ser contada. O que se esconde atrás de um bem-sucedido e (aparentemente) feliz atormentado? O que nos separa do desconhecido? Conto de Thiago Muniz para o Café Colombo.

Ilustração de Lucas Santos

Em meio ao céu escuro e denso, uma lua perdida deixava um rastro na água e iluminava três homens sentados na areia fumando seus malboros. O mais velho deles, detentor de uma longa barba grisalha e cabelos bem penteados, deu um longo trago e tomou a palavra.

– Vou contar uma história. Os senhores já pensaram sobre o amor? Eu acho que não, são muitos jovens pra conhecer um sentimento assim. Quando se é jovem, se é deslumbrado. O mundo é um imenso campo de possibilidades clamando pra serem descobertas e vivenciadas. Pensando bem, não sei se é sobre amor, sobre desejo, sobre ódio… Pois bem, não vou ficar divagando, vamos direto à história.

Imaginem um rapaz de grande talento. Grande futuro. Tudo que fazia dava certo. Cresceu colecionando medalhas dos campeonatos de futsal, natação e vôlei que sempre disputava pela escola. Suas notas? Impecáveis. Nunca recebia nada menos que 9. Seu pai o venerava e toda vez que aparecia uma visita não se dava o trabalho de esconder sua felicidade por ter criado o primeiro futuro médico da família. Já a mãe, ah, a mãe o tratava como o futuro libertador da humanidade.

– Tá com fome? Vou fazer a torta que tu gosta. Quer mais bolo? Eu levo no teu quarto com refrigerante.

Tinha uma infinidade de amigos que o adulavam e o seguiam. Por onde passava as meninas suspiravam, desmaiavam, e as mais corajosas até chegavam a mandar cartinhas. Esse jovem jamais conheceu a palavra dificuldade. Vocês devem estar pensando “esse cara deve ser um metido, um puta chato de galocha”. Mas eu lhes digo, e podem confiar na minha palavra, existia algo inexplicável nele. Não havia nele sequer um pequeno traço de orgulho ou superioridade. Mesmo parecendo não precisar fazer o mais leve esforço pra conquistar o que quer que seja, possuía uma modéstia, um tipo de essência natural que vinha de dentro. Então, os anos foram se passando, e o talento, a leveza, o estilo de um verdadeiro dândi de coração puro continuou com ele, mesmo após entrar na faculdade de medicina e conseguir os melhores estágios na mais conceituada universidade.

Foi aí que conheceu Maria. Ah, meus jovens, posso lhes afirmar, aquela mulher provinciana vinda do interior despertava o interesse de todos que a conhecessem. Seu rostinho delineado pelas mãos de Deus tinha o poder de injetar sangue até mesmo no coração mais seco que a olhasse de relance. As palavras saídas de seus incríveis lábios carnudos sempre eram acompanhadas por uma risada ingênua e meio desengonçada que possuía a função inconsciente de pontuar cada frase. Mas, em vez disso quebrar seu encanto, todos se derretiam ainda mais ao perceber que ela não era uma deusa intocada que fizera a gentileza de descer um pouquinho do seu olimpo. Não. Isso só a transformava na humana mais pura que alguém já pudera ter conhecimento, os gestos e movimentos de seu corpo só transmitiam simplicidade e uma inexorável ausência de fingimento.

Casaram-se…

Ora, não havia a chance de um par tão perfeito dar errado. Foram unidos pela natureza divina. Maria, uma amante da arte e da arquitetura, cuidou de tudo, como sempre cuidara. Cobriu toda a extensão do papel de parede na parte esquerda da sala com quadros, réplicas de grandes obras, mas também originais de seus conhecidos e adorados contemporâneos. Colou fotos tiradas dos baús empoeirados – tanto da família dela quanto da dele. Geladeira inoxidável de quatro portas. Pia de mármore Italiano. Cama king size com mola do Himalaia. Era o paraíso das casas. Espírito, conforto e beleza.

Se não me engano, existe um filósofo que diz que a vida é uma constante oscilação entre o desejo e o enfado. Pois então, pela primeira vez, pouco mais de um ano vivendo no paraíso a dois, esse Apolo do estetoscópio conheceu a vida dos meros mortais. Em determinado momento tudo está bem como sempre esteve. Ele acorda, olha aquele rosto com duas maçãs rosadas, alisa seus cabelos negros, beija sua têmpora. Mas de repente… De repente seus pensamentos saem do controle. Parece que o mundo ficou preto e branco. Ou mais colorido… Há tantas criaturas fascinantes naquele hospital. Nunca tinha reparado nessa loira antes. Olha o rabo daquela morena. Como devem ser os pelos dessa ruiva? Esse homem puro e incorruptível que nunca fez nada além de cumprir seus objetivos e sua função de ser perfeito, agora não consegue mais parar de pensar em quantas bucetas existem por debaixo de saias justas prontas pra serem corrompidas, implorando pra serem defloradas.

O que vocês fariam nessa situação? De um lado, a pureza da mulher dos sonhos. Do outro, a infinidade de cavernas molhadas a serem exploradas. O que leva as pessoas a escolherem passar uma vida inteira juntos? Existem coisas de uma ordem maior nessa escolha, ou no fundo não passa de algo banal, irracional, uma fuga amedrontada da solidão? Me digam o que vocês acham! “Até que a morte nos separe”, e quem diabos sabe em quantos anos a morte vai chegar? Existe muito barulho no período entre a vida e a morte.

“Ela bota margarina na torrada. Mas quem é que bota margarina na torrada? Pra que eu compro manteiga então? E essa carne? Essa carne parece sola de sapato! Com tanto conhecimento, ela não aprendeu que carne se faz mal passada? Não se coloca roupa preta junto de outras cores, acho que eu mesmo vou ter que passar a lavar minhas próprias roupas, ainda mais essa. Meu deus, não quero nem pensar naquela risada insuportável…” Passou a encontrar defeitos nas coisas mais ordinárias. Sua paciência já não existia. Como era possível não amar mais aquela mulher? Tanta bondade, tanta atenção, e ainda um jeitinho infantil que encanta a todos… Ame sua mulher seu idiota! Ame ame ame! Mas só sabia odiar. Quanto mais se reprimia, mais rancor surgia. Em vez de gritar, sempre sorria. Porém, a odiava – ou se odiava – mais que tudo.

– Vou embora.

– O que? Deixa de brincadeira, tô ocupada fazendo a lista da feira.

– Não é brincadeira. Não precisa guardar nem mandar nada meu. Só vou embora.

– Vai pra onde?

– Não sei.

– Do que tu tá falando? Tá endoidando?

– De nada. Não torna as coisas mais difíceis do que já são.

– O que eu fiz? Me diz o que eu fiz que eu não faço mais. Me desculpa. Me perdoa.

– Não fez nada. Não peça desculpas.

– Não me deixe agora, Jorge. Não me deixe. 

As palavras entravam pelos ouvidos dele como a fumaça desse cigarro. Nem sentia raiva, nem tristeza, nem remorso. Talvez não existisse nada em sua alma além de silêncio. O único som ouvido depois disso, foi o ruído da porta se fechando nas costas dele.

Não cabe a mim narrar o que se passou com eles depois daquele dia. Mas digo pra vocês, até hoje, todas as noites antes de fechar os olhos, ele lembra daquela cena. E todas as noites, ele diz alguma coisa diferente. Mas no fundo sabe que isso é tudo em vão. Sabe que se tivesse a chance de voltar no tempo, se tivesse esse poder que os homens dariam tudo pra ter, se tivesse essa chance… Aconteceria tudo outra vez. Por anos pensou, pensou, pensou. Mas nada disso importa agora. Passado tanto tempo, ele ganhou experiência suficiente pra saber que só tem o provisório. Chegou a conclusão definitiva de sua vida. Sim. Foi amaldiçoado com a incapacidade de ter algo duradouro. Mas quem foi o demiurgo que balançou essa varinha maldita?

Bem, acho que já falei demais. Tá na minha hora. Boa noite, meus amigos. Boa noite.

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