A munição liga as histórias do clipe Texas e a realidade brasileira

Clipe em formato de curta-metragem da banda Diablo Angel, faz críticas a atual ânsia da população por armamento

Joelma Andrade, personagem principal do curta-metragem da música “Texas” de Diablo Angel. Foto: Reprodução/ Youtube

A banda recifense Diablo Angel, formada pela vocalista Kira Aderne, o guitarrista Tárcio Lua e o baterista Walman Filho, lançou recentemente o clipe da música “Texas” produzido pela Filmaço Produções. O curta, dirigido pelo cineasta Felipe Soares, reflete sobre a atual ânsia da população por armamento. Nele, a personagem principal Joelma Andrade tem seu filho, Mário Andrade, assassinado a tiros pela Polícia Militar em 2016, no bairro do Ibura em Recife.

A faixa “Texas”, presente no álbum “Futuro” (2019) do trio, simboliza uma realidade cada vez mais presente: o crescente apelo político pelo armamento da população e o desprezo com a vida alheia. Análogo a questão apresentada, estão as histórias de Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen, no qual reflete esse descaso. Essas seis crianças foram mortas durante ações policiais nas periferias da zona metropolitana do Rio de Janeiro em 2019 e ainda não tiveram suas investigações concluídas.

Por vias semelhantes, observamos a história do adolescente João Pedro Matos, 14 anos, assassinado na segunda-feira (18), mais uma vítima do erro da polícia. O garoto foi executado durante uma operação policial, apoiada pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), chefiada pelo Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Segundo as informações disponibilizadas pela Folha de São Paulo, João morreu dentro de casa, enquanto brincava com seus primos e amigos, na Ilha de Itaoca, Complexo do Salgueiro, na cidade de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro. A operação que ocasionou a morte do  adolescente tinha o objetivo de cumprir dois mandatos de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa.

O garoto foi morto após os policiais que sobrevoam a área no helicóptero da Polícia Cívil detectarem atitudes suspeitas. Os policiais invadiram a casa do primo do adolescente e atiraram cerca de 70 vezes, de acordo com pessoas que visitaram a cena do crime. “A Polícia Militar em si já se diz: ‘preparada para matar’ ’’, como alega Joelma no clipe em relação à  onda de crimes policiais rotineiros.

Após ser baleado, João foi levado de helicóptero pelos policiais que não contactaram a família do menino. O corpo foi encontrado na terça-feira (19), no Instituto Médico Legal (IML). Em entrevista ao programa Encontro com Fátima Bernardes, na TV Globo, os pais de João afirmaram que ao chegarem na casa em que ocorreu o assassinato, viram todos os outros adolescentes fora da casa, exceto seu filho. “Chegamos lá e encontramos os adolescentes fora da casa, no chão, como bandidos, como porcos, como lixo. Coisa que eles não são. Cinco adolescentes, mas o total era seis. Faltava um e esse um era o meu filho, que já estava baleado. Botaram ele num blindado e levaram para socorrer. E eu perguntando: ‘o que aconteceu?’ Fomos encontrar o meu filho depois de 17 horas no IML com um tiro de fuzil, morto”, relata.

Seja na capital pernambucana ou na região metropolitana do Rio de Janeiro, a violência policial é, inicialmente, uma questão de nível federal. Assim como é figurado no clipe, o ódio e a bala é naturalizado. Em certo trecho, o telespectador é alienado após ver um vídeo do então Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), se divertindo com uma arma.

Trecho do clipe curta-metragem “Texas” do trio Diablo Angel. Foto: Reprodução/YouTube

Na mesma semana em que João Pedro foi assassinado, o número de mortes ocasionadas pela pandemia da COVID-19 chegou a mais de 20 mil. Nesse sentido, o Presidente Jair Bolsonaro mostra cada vez mais o papel do seu governo genocida. A prioridade é: abandonar boa parte da população que sofre com o vírus, enquanto arma a outra metade. Na última sexta-feira (22), foi divulgado o vídeo da Reunião Ministerial de 22 de Abril, após decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello. O objetivo é verificar se houve interferência do Presidente Bolsonaro na Polícia Federal, diante das acusações feitas pelo ex Ministro Sérgio Moro. Além de afirmar interferência na Polícia Federal, Bolsonaro reitera o seu plano na presidência: “quem não aceitar as minhas bandeiras, Damares: família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado. Quem não aceitar isso, está no governo errado”.

Um dia depois, foi aprovado a portaria que eleva de 200 cartuchos por ano para 300 por mês que civis com porte ou posse de armas podem comprar. Na reunião Bolsonaro também marca seu discurso pró armamento em razão da liberdade individual. “Povo armado jamais será escravizado” afirma. Porém, contestamos: o povo armado é aquele que sempre escravizou?

O clipe de “Texas” reflete o impacto de ideologias como as defendidas pelo Presidente, em vidas como a de João Pedro e sua família. A questão levantada pelo clipe, não é sobre o porte ou posse de armas por civis ou militares, mas como a vida, principalmente, de periféricos e de negros, comumente é acertada pela bala perdida do Estado.






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