Ecos da Live

Reflexões e apontamentos sobre os efeitos da popularização da live na relação artista-público-música para além de 2020 e da pandemia

Imagem “live”. Foto: Boomerang Music

Normalmente, ao chegar o fim de ano, é comum esse sentimento de que o tempo passou rápido demais, de que a gente piscou e já se passou outro ano. Entretanto, essa sensação parece um pouco mais forte neste 2020. Pisquei em março – que às vezes me parece outra era e de certa forma o é – e abri o olho em dezembro deste ano. De fato, um ano histórico, não no melhor sentido da palavra devido à pandemia da covid-19 e todas as suas consequências. E, no que tange ao meio artístico e musical, uma das principais entre as diversas consequências que, sem dúvidas, também marcam o ano e toda essa área, é a popularização da live.

Sob a recomendação de evitar aglomerações para conter o contágio da doença, shows foram suspensos ou cancelados e a live foi explorada não só enquanto um paliativo do show ao vivo, mas também enquanto uma forma de manter ativa a relação entre artista e público. O apoio deste último foi ainda mais importante na manutenção dos trabalhos de artistas independentes. 

Mas de todo esse contexto já estamos carecas de saber e cansados de viver. Contudo, cabe a pergunta de quais são as possíveis consequências dessa popularização das lives na relação entre artista e público e no modo de usufruir a música que tanto marcou este ano.

O artista sem filtros

Como defendia o teórico da comunicação Marshall McLuhan, os meios de comunicação não são apenas trucagens mecânicas, mas sim novas linguagens com possibilidades inéditas de expressão através das quais nos relacionamos. E assim também funcionam as lives.

Diferentemente das transmissões de shows geralmente feitas por TVs ao vivo, acompanhadas de uma superprodução e técnica em palcos, as lives ficaram marcadas pela ideia de intimidade e proximidade com o artista. No Instagram ou no YouTube, muitas lives realizadas nesse período foram transmitidas no próprio perfil ou canal do artista, dentro de sua casa, e acompanhados por poucos instrumentos, ou até por apenas um violão.

Além disso, as lives em redes sociais possibilitam uma interação virtual em tempo real, seja através de chats abertos ou até mesmo via áudio, no caso de shows exclusivos em plataformas como a Zoom.

Inclusive, um interessante exemplo do uso da Zoom enquanto espaço de show virtual é o projeto Ágora Sonora”, criado pela produtora cultural Twilla Barbosa. Esse projeto funciona como uma casa virtual de lives na qual diversos artistas, em sua maioria pernambucanos, se apresentam para ouvintes limitados através da plataforma zoom (a partir de novembro o projeto começou a apresentar as lives em site próprio). Assim, os ouvintes, que pagam uma taxa de em média R$ 20,00 por pessoa, podem assistir a um show exclusivo e intimista, e, entre as canções, interagem e conversam com o artista.

Outro exemplo de exploração desse caráter intimista, pessoal e interativo em tempo real das lives na relação entre público, música e artista foi a utilização da plataforma Twitch pelo artista Marcelo D2. Diferentemente da Zoom, que funciona como uma vídeo chamada na qual todos os participantes compartilham vídeo e áudio, a Twitch é uma plataforma de streaming de lives transmitidas a partir de um canal, que segue uma lógica similar ao Youtube e que também permite aos inscritos a interação com tempo real através de um chat. O site, no ar desde 2011, possibilita que determinadas lives sejam acessadas somente a um público assinante do canal, ou seja, um público que paga determinada taxa por mês para ter acesso a um conteúdo exclusivo.

O caso de Marcelo D2 é inovador uma vez que disponibilizou ao público assinante de seu canal lives durante todo o processo de produção do seu álbum “Assim tocam os meus tambores” (2020), lançado no mês de setembro. E, com a interação em tempo real, o público assinante comentava e até opinava, em contato direto com D2, sobre questões vinculadas à letras de músicas, por exemplo. Com essa alternativa, o artista possibilitou uma maior interação, engajamento e uma alternativa fonte de renda à medida que entregou um conteúdo e oportunidade exclusiva aos assinantes interessados não somente em ter acesso à produção, mas até mesmo participar desse processo.

Além desses exemplos, o que dizer também sobre a live de Ivete Sangalo cantando de roupão em sua sala para rede nacional enquanto seu esposo lavava louça? Ou então sobre um show à la Ofertório de Caetano Veloso e seus filhos na frente de sua estante repleta de simbologias culturais? Ou ainda as lives cotidianas, pessoais e repleta de ilustres convidados da cantora Tereza Cristina?!

Era da intimidade?

Esse modelo mais intimista de se relacionar com um artista e com a música que este produz tem conquistado ainda mais o público consumidor de música. Isso se dá de tal forma que, segundo uma pesquisa independente realizada pela startup Flow Creative Core entre junho e agosto deste ano, 40% das 613 pessoas brasileiras entrevistadas, com idades entre 18 e 35 anos, concordam completamente com a afirmação “prefiro ver shows em formato mais intimista com artistas mais próximos do público e para poucos convidados.”.

Como também defende McLuhan, os meios tecnológicos não são meros mediadores de uma mensagem, mas são eles a própria mensagem e geram mudanças em determinado contexto social. Assim, a live, enquanto meio técnico de comunicação, também não funcionaria apenas enquanto uma mediadora na relação entre artista-público-música, mas sua própria usabilidade permite uma nova forma de expressão e interação que também tende a modificar (e tem modificado, com base nos dados da pesquisa citada) essa relação.

Dessa forma, esse aprofundamento da intimidade na relação artista-público se torna um interessante efeito da popularização deste forma alternativa de fazer shows que, mesmo já não tão popular como em outro momento deste ano, ainda terá seus efeitos ecoando pelo cenário musical brasileiro. Entretanto, ainda cabe perguntar: a live foi uma medida passageira ou ainda nos acompanhará no pós-pandemia? E além da valorização da intimidade, que outras consequências acompanham em coro esse eco da live?

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