A transição nos hábitos de consumir cultura

Vidas Duplas de Oliver Assayas é uma excelente reflexão sobre as incertezas que nos atravessam na contemporaneidade.

O isolamento social e as transformações tecnológicas. Como pensá-las?


Foto: divulgação

Muitos foram os processos de transição e transformação da cultura. A história nos mostra como as sociedades se dissolveram e se reinventaram em momentos de crise social. Não obstante, a produção cultural, de forma gradual ou em movimento ininterrupto, não cessa de produzir obras de arte que vão da literatura às artes visuais, estabelecendo e fixando, na história humana, tudo aquilo que nos é sensível e que partilhamos como atores de um grande organismo que nunca para e sempre se renova diante dos eventuais momentos de significantes incertezas. 

Nas últimas décadas, testemunhamos novos modos de socialização, assim como novos meios de consumo cultural. O digital chegou e delimitou território nas sociedades e relações sociais. Como dimensionar se já nos adaptamos aos novos meios, aos novos acordos sociais digitais? Historicamente, as comunidades humanas levaram muitas décadas para se restabelecerem diante das mudanças, outrora alavancadas pelas grandes guerras territoriais. No século XXI, nos deparamos com um inimigo invisível a olho nu, mas que instaurou, em poucos dias, um caos global de proporções ainda não verificáveis. 

A pandemia do Covid-19 nos posiciona diante de um espaço e tempo que exige de nós uma reflexão relativa aos locais que ocupamos. Surgem, então questionamentos. Nos perguntamos como proceder em um cenário de isolamento social que nos impõe uma individualidade extremada? Como dar conta das demandas e acordos sociais? Nos últimos meses, ainda que careçam de reflexões mais aprofundadas, assistimos a uma mudança significativa de hábitos. O contato humano agora se dá sob a mediação de redes sociais digitais – ainda que isso não seja uma novidade. Visto que nosso contato com o que se produz culturalmente – e não apenas culturalmente – já vem sendo mediado pelo digital há alguns anos, mas, agora, sob o espectro de um vírus, ele se faz único e exclusivo.

Em Doubles Vies (2018), traduzido no Brasil como Vidas Duplas, produção do ex-crítico de cinema, Oliver Assayas, por exemplo, a discussão percorre os meandros dos novos meios de consumir e experimentar a produção literária. A trama nos mostra, por meio de cenas de jantares – tipicamente franceses -, uma classe burguesa esclarecida, de uma geração outra, habituada à leitura mediada pelo objeto físico, palpável, discutindo as atuais possibilidades de contato tátil com a produção literária e os desafios postos, para o mundo editorial, que atravessa uma crise transicional. O sentimento nostálgico imprime um período de incertezas, de adaptação aos novos meios, à cultura do digital, que apela à praticidade e ao baixo custo. O debate insufla certa complexidade e envolve diversas camadas da produção editorial, econômica e social. 

Dois personagens do filme, o editor Alain (Guillaume Canet) e a jovem assistente e amante, Laure (Christa Théret), demarcam bem duas posições presentes no binarismo da cultura do livro impresso e dos digitais. Alain ocupa o lugar de um sujeito que carece de ajuda no enfrentamento dos percalços que permeiam a nova dinâmica editorial. A jovem traz, em seu espírito, a ânsia do novo, da transformação e ressignificação das relações de consumo da produção cultural. Ao passo que Alain permanece em resistência em relação aos novos meios – os famigerados blogs e e-book’s -, Laure encerra sua empreitada e parte para uma editora aberta às novas tendências do mercado editorial com foco no digital. O debate proposto na narrativa se faz cada vez mais necessário, principalmente em tempos de isolamento social, em que a mediação entre os sujeitos só se faz possível por meio de aparatos tecnológicos.  

Cena de Vidas Duplas. Foto: reprodução

Existem, ainda, dois pontos que merecem reflexão. O primeiro diz respeito à importância de um equilíbrio entre duas gerações, uma que se faz resistente em meio às mudanças globais advindas dos novos meios tecnológicos e outra que tece um discurso simplista pautado apenas no apelo mercadológico acerca das mudanças. O outro está associado ao nosso modo de conviver em sociedade, a pensar em como podemos resistir a um movimento que se faz totalitário. Nos resta a rendição? Mais lógico seria nos apropriarmos das infinitas possibilidades lançadas pelo novo, assimilarmos o que há de mais positivo nas novidades tecnológicas. 

Pensando na história da arte, que nos oferta plausíveis exemplos de cenários de transição social; jovens artistas de séculos passados, debateram-se para visualizar uma fórmula eficaz que contemplasse técnicas dos tempos clássicos ao novo, ao contemporâneo, que não cessa e se dá em um movimento de constantes adaptações e readequações; nessa instigante história, muitos foram os Alains e Laures, que contribuíram na mediação dos novos tempos. Me aproprio de João Cabral para melhor compor a reflexão acerca da necessidade de estarmos juntos, ao passo que separados pouco avançaremos na caminhada da renovação:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
(João Cabral de Melo Neto, 1966) 

Ao atravessarmos essa barreira imposta pelo coronavírus, voltaremos a nos relacionar como nos tempos de outrora? Como se dará o alvorecer após esse distanciamento social – posto agora pelo Covid-19 -, mas que vem sendo anunciado há décadas, como no filme de Assayas, cujo principal objetivo é mostrar a complexidade inerente às renovações sociais, das quais somos os principais atores e responsáveis pela organização do meio em que habitamos. As relações humanas clamam por atenção. Depois do isolamento nos restará apenas as relações virtuais? A experiência tátil será soterrada ou contemplaremos um equilíbrio dessas forças?  

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