Ariano Suassuna: amante obstinado da identidade nordestina

O artista faleceu aos 83 anos, e ocupa lugar de destaque na cultura brasileira

O artista ganhou reconhecimento mundial com a obra O Auto da Compadecida. Foto: Antônio Duarte.

Em 2014, no dia 23 de julho, o renomado escritor, poeta e dramaturgo brasileiro Ariano Vilar Suassuna, faleceu na cidade do Recife. Amante e defensor da identidade e do  folclore nordestino, dono de um humor inconfundível, o artista deixou seu nome gravado na literatura e no teatro nacional.

Paraibano, nasceu em 16 de junho, na cidade de Nossa Senhora das Neves, conhecida hoje por João Pessoa. Filho do ex-governador da Paraíba João Suassuna e de Rita de Cássia Villar, foi o oitavo entre os nove filhos do casal. 

Após o assassinato do seu pai, durante a revolução de 1930, a família se mudou para a Taperoá, uma cidade localizada no interior do Estado. Nesta época, Ariano deu início aos estudos primários e passou a ter contato com a cultura regional por meio dos sons de violas e das apresentações de mamulengos. 

Mudou  para o Recife em 1938, onde estudou nos colégios Americano Batista, Oswaldo Cruz e Ginásio Pernambucano. Em 1945, estreou na literatura com o poema “Noturno” publicado pelo Jornal do Comércio.

Primeira estrofe do poema Noturno de Ariano Suassuna

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, em 1946 e, no mesmo ano, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto a Hermilo Borba Filho e outros colegas de classe. No ano seguinte, escreveu sua primeira peça chamada “Uma Mulher Vestida de Sol” e “Cantam as Harpas de Sião”, em seguida.  Em 1950,  concluiu o curso de Direito, dedicando-se à advocacia e ao teatro. 

Ariano Suassuna ficou reconhecido por sua obra-prima “Auto da Compadecida” (1955), uma peça teatral em forma de auto — de grosso modo, uma composição teatral cômica de linguagem simples, composta por um único ato  —, cultura popular e tradição religiosa. A peça foi encenada pela primeira vez no Teatro Adolescente do Recife, em 1957. Ainda no mesmo ano, conquistou a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A obra foi traduzida em nove idiomas e representada no exterior. 

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”

Ariano Suassuna.

Filme O auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes. Foto: Divulgação/Filme

A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1968 e, só 31 anos depois, apresentada em formato de minissérie pela Rede Globo. Com o sucesso desta última adaptação, em 2000, ganha seu espaço nos cinemas. Deste então, nome da peça recebeu o acréscimo do artigo “o” tornando-se “O Auto da Compadecida”. O filme recebe a participação de Rosinha, Vicentão e Cabo Setenta, personagens das obras “Torturas de um Coração” e “O Santo e a Porca”, também escritas pelo autor. 

O Auto da Compadecida continua sendo repercutido e inspirando muitas pessoas. Recentemente, alunos do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, criaram a radionovela  “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, inspirada nas fortes críticas trazidas por Ariano  a temas como a corrupção e a exploração da pobreza. A ação faz parte do projeto de extensão Literatura nas Ondas da Rádio, que tem como objetivo veicular radionovelas que são adaptações de obras literárias produzidas por autores nordestinos. Confira a entrevista produzida pela equipe do Café Colombo clicando aqui para saber mais sobre a iniciativa. 

No ano de 1956, Ariano abandonou a advocacia e passou a lecionar na Universidade Federal de Pernambuco, onde mais tarde foi nomeado diretor do Departamento de Extensão Cultural da instituição. Além de escritor, ocupou cargos políticos e atuou como  membro do Conselho Estadual e Federal de Cultura de Pernambuco. 

Em 19 de janeiro 1957, casou  com Zélia de Andrade Lima, com quem teve seis filhos. No mesmo ano, escreveu a peça “O casamento suspeitoso”, uma comédia que carrega características da literatura de cordel e dos folguedos populares nordestinos. A obra conta a história do casamento entre Geraldo e Lúcia, que havia planejado casar apenas com interesse pela fortuna do rapaz. 

Em 1970, fundou o Movimento Armorial. A iniciativa buscava orientar as mais diversas expressões artísticas —  dança, literatura, música, cinema e outras — na criação e valorização dos aspectos eruditos  da arte a partir da cultura popular nordestina. Faziam parte do movimento o músico Antônio Madureira, o autor Francisco Brennand, o jornalista Raimundo Carrero

No ano de 1971, lançou a obra “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, inspirado no evento ocorrido no município de São José do Belmonte, próximo à  Recife. Realizado em 1836, foi criado uma seita na tentativa de reviver o rei Dom Sebastião, que havia desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, na África, e tornou-se lenda em Portugal.  Com mais de 15 livros e 18 peças de teatro, Ariano passou ocupar a cadeira de nº 32 na Academia Brasileira de Letras, em 1990. Já em 1993, foi eleito para a cadeira nº 18 da Academia Pernambucana de Letras. Em 2000, ocupou a cadeira de nº 35 da Academia Paraibana de Letras.

Já aposentado pela UFPE, foi convidado, em 2007, pelo  ex-governador   Eduardo Campos para assumir a Secretaria Especial de Cultura de de Pernambuco. No segundo mandato do governador, passou a integrar a Assessoria Especial do Estado. 

O escritor percorreu o Brasil ministrando aulas-espetáculos em teatros e universidades. O célebre artista, faleceu aos 83 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Com personagens e tramas cativantes, Ariano Suassuna deixou um grande legado de obras dentro da cultura popular nordestina.  

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