Arte, pandemia e periferia: a arte de Francisco Mesquita e sua construção em novos tempos

Quando o mundo convoca um novo posicionamento, a arte faz parte dessa transformação

Poucas pessoas sabem, mas no dia 08 de maio, sábado passado, foi comemorado o Dia do Artista Plástico no Brasil. A data serve para homenagear e celebrar uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade: a pintura. Para a produção de uma obra de arte, é primordial o domínio das técnicas, assim como a criatividade, talento e sensibilidade na percepção do mundo. Essas características podem ganhar destaque desde a infância, ou serem afloradas em algum outro momento futuro da vida do artista.

O dia surgiu em homenagem ao pintor brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior, nascido na mesma data em 1851, considerado um ícone entre os nomes mais importantes das artes plásticas do século XIX no nosso país. Almeida Junior, como é mais conhecido, nasceu na cidade de Itu, interior de São Paulo. Precursor da temática regionalista na pintura, deu destaque a personagens anônimos, ao homem comum – que não pertencia à elite – em suas tarefas cotidianas e à cultura caipira numa época em que a arte brasileira era marcada pela monumentalidade voltada à arte europeia.

Desde a propagação do novo coronavírus, a população mundial precisou se isolar como principal forma de proteção. Muitas pessoas utilizam a arte como forma de distração, ocupação da mente e acalento emocional. Algumas delas puderam descobrir os artistas internos que estavam guardados dentro de si. E nesse momento, onde a crise provocada pela Covid-19 continua a acontecer de forma ainda mais grave, puderam transformar seus talentos e habilidades em fonte de renda.

Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior é uma dessas pessoas que se encontraram na arte e se encaixa na nova leva de artistas plásticos revelados pela pandemia. Francisco Mesquita, como assina suas obras, compartilhou com o Café Colombo a sua resistente jornada de autoconhecimento artístico e seu trajeto pela arte, nos contando como é viver dela em tempos tão sombrios. Confira:

Francisco Mesquita e autorretrato. Foto: Acervo pessoal

Quem é Francisco e como ele chegou na arte?

Meu nome é Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior, tenho 28 anos, sou natural da cidade de Barreiros, litoral sul de Pernambuco, mas vivi por muito tempo em Olinda, que é a cidade onde moro atualmente, na Comunidade do Monte.

Sou formado em Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco no Campus Garanhuns, cidade onde vivi no período de graduação e pude atuar como professor. No final de 2019, decidi dar um tempo da sala de aula por questões pessoais e acabei aceitando um emprego em Recife, em um coworking. 

Quando a pandemia chegou no ano passado, fui demitido em março de forma inesperada, acabei saindo sem auxílio e seguro desemprego. Nesse momento de dificuldade, a arte me encontrou. Quando as pessoas perguntam como foi o meu início e quais foram minhas referências para que eu me tornasse um artista plástico, eu costumo dizer que o meu primeiro contato com a arte foi no momento que eu decidi viver dela, aos vinte e sete anos de idade.

Como você percebeu e decidiu que poderia viver da arte?

Por algumas pessoas próximas me mostrarem possibilidades na arte, eu comecei a me aventurar e brincar em casa. Fiz desenhos e pintei com pó de café diluído em água, e, a partir disso, fui ganhando uma paixão. Eu percebi que tenho uma forte inclinação a tentar coisas novas e com isso fui tentando fazer minhas artes com outros materiais e outras técnicas, mesmo sem nenhum conhecimento sobre elas.

Já tinha feito uma colagem para presentear uma ex-namorada, então resolvi fazer colagem com recortes de revistas. Também fiz da foto de uma ex-colega de trabalho, que amou e me incentivou, me senti um Picasso, o artista. Graças a esses momentos de incentivo que eu comecei a me ver, de fato, como artista plástico. Eu não tinha nenhuma obra, nem sabia assinar meu nome artístico, mas eu já me considerava um artista. E isso nunca tinha acontecido na minha vida, eu nunca fui tão firme em uma decisão.

Francisco em seu processo de produção de colagem. Foto: Acervo Pessoal

Infelizmente a pandemia já dura mais de um ano. Como você começou a atuar nesse período, como foi seu primeiro ano no ramo da arte?

Esse primeiro ano de carreira artística foi de muito aprendizado. Eu pude me conhecer um pouco mais e entender a importância de lidar com os problemas de uma forma diferente. Não é fácil, é uma profissão com muitas dificuldades, mas é extremamente gratificante por tudo que pode ser aprendido e construído. Vendi algumas obras e tenho outras encomendas no momento.

Como você considera seu estilo artístico e quais materiais você utiliza?

O estilo que eu mais trabalho são os retratos. Quando iniciei com as obras de café, foi com esse estilo que me identifiquei. Faço retratos com giz pastel, colagem de revista ou com papelão. Nos meus trabalhos recentes tenho utilizado uma técnica mista, misturando todos esses materiais. 

O gosto por eles acabou me levando para diferentes composições na minha obra. Hoje eu busco mais fontes para a arte, pesquiso e estudo. Me apego ao realismo com pop arte, bem colorido, mas também faço obras subjetivas e surrealistas. Deixo a minha intuição levar sem me prender a algo fixo, sempre disposto para novos testes.

Parte de tela feita em base de papelão. Foto: Acervo Pessoal

Eu utilizava como base o papel-cartão, mas ele sofria muito com a cola, porque quando secava, ele ficava muito ondulado e eu tinha esse problema. Daí comecei a testar e a brincar com outros materiais. O papelão se apresentou para mim como o material que veio me fazer continuar, já que em determinado momento eu não tinha mais dinheiro para comprar papel, cola e revistas, porque, nem sempre, as revistas que eu tinha à disposição, tinham o conteúdo que precisava. Não precisava mais comprar papel, e percebendo também que o papelão tinha camadas, fui descobrindo esse material.

Vi que ele poderia servir não apenas como base para minhas obras, mas, também, poderia ser o protagonista. Esse material me fez ver o mundo de uma forma diferente, porque papelão é algo que se encontra com muita facilidade, mas a gente só vê como lixo. Junto ao papelão, que foi uma descoberta essencial para mim, os materiais que mais utilizo são o giz pastel oleoso e revistas.

Dá pra perceber que nas suas obras que cor, gênero e liberdade são questões bem pertinentes. Por quê?

Eu gosto de trazer muito o meu cotidiano e as pessoas que são referências para mim. Tanto na vida artística como na vida pessoal, eu sou cercado por pessoas negras. A maior parte das pessoas que eu retratei são negras. Tenho em mente planos futuros e telas que envolvem outras bandeiras que também quero levantar. Eu sou um cara que tento trazer discussões e faço da minha arte algo pra se refletir, então as questões raciais e sociais sempre estarão presentes.

Arte de Francisco Mesquita

Serena (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

Arte de Francisco Mesquita

Olhar Disfarçado (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

No Dia Internacional da Mulher você homenageou algumas figuras. Como esse projeto se consolidou?

A ideia foi homenagear três figuras para essa data tão importante. A primeira, uma mulher com grande importância para a cultura de Pernambuco, que é Lia de Itamaracá. A segunda, de grande relevância a  nível nacional, a primeira juíza negra do país, Mary Aguiar. E, a última, de maior importância em nível pessoal, que foi a minha mãe. A ideia foi trazer muito afeto, carinho e  representatividade, pois todas são mulheres negras.

Arte de Francisco Mesquita

Lia de Itamaracá (2021), giz pastel oleoso sobre papelão.

Recentemente, você também lançou o projeto Arte na rua, que levou suas obras aos bairros de Olinda. De onde surgiu a ideia e como foi desenvolvido?

O projeto Arte na rua tem vários objetivos. Minha primeira intenção é disponibilizar um tipo de arte diferente para as pessoas, uma arte acessível, a qual elas possam ver, tocar e até levar para suas casas. Promovendo uma divulgação física e presencial das obras, para que quem vê-las, tenha interesse em conhecer mais. Aproveitando a rua como uma forma além das redes sociais para ampliar a divulgação do meu trabalho, porque, de certa forma, elas podem limitar o acesso de quem não tem o hábito de utilizá-las. Também tenho o romantismo de escrever alguns pensamentos por trás das obras, fazendo analogia àquelas garrafas jogadas ao mar, uma certa visão romântica minha e que pode fazer sentido de alguma forma para o leitor.

Colocando em prática o projeto Arte na rua, onde deixa a tela Maria no Mato (2021) em espaço no bairro Bultrins. Foto: Acervo Pessoal

Como educador, qual a tua perspectiva para a arte, unindo sua formação inicial como professor e agora como artista plástico?

Vejo minha contribuição para uma mudança de oportunidades, no sentido de oportunizar novos caminhos para os jovens de hoje. Falo isso porque já fui convidado por professores para contribuir com suas aulas e gravar vídeos para seus alunos falando e ensinando sobre a arte. 

Também tenho um encontro que irá acontecer no fim de maio. Fui convidado por um representante da Gerência Regional de Educação de Olinda para participar de uma formação com outros professores, onde eu poderei passar minha experiência e possibilidade de levar outros materiais para sala de aula, principalmente no ambiente de escola pública. Sabemos que muitas vezes o maior empecilho de se construir projetos de arte em escolas públicas é a questão de orçamento e material, se a gente quebrar isso e começarmos a entender que a arte é muito mais profunda, nossa e natural do que se pensa, a gente faz arte com diversas possibilidades. É esse meu maior desejo, poder tornar a arte cada vez mais acessível nesses locais de carências.

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