As biografias de uma ovelha negra

Em coluna escrita no calor da hora, o pesquisador e biógrafo Gustavo Alonso reflete sobre o livro de memórias da cantora e compositora Rita Lee

Capa do LP Rita Lee, de 1969. Divulgação.

Menos de um mês depois, os críticos se dividiram acerca do conteúdo de Rita Lee: uma autobiografia. André Barcinski considerou a autobiografia rasa por não aprofundar dramas e personagens da trajetória da cantora: “A cantora fez uma espécie de diário escrito em linguagem adolescente, em que se recusa a falar a fundo sobre sua carreira, passa voando ou ignora informações relevantes, e gasta boa parte do tempo acertando contas com o passado e remoendo antigos ressentimentos”. Segundo Barcinski, Rita “exala rancor por todos os poros”, especialmente em relação aos ex-colegas Mutantes, a quem a cantora de fato escreve palavras duras. Chega a chamar a família Dias Batista, e não apenas Sergio e Arnaldo, de pouco asseada e ultra soberba.

Já o crítico Pedro Alexandre Sanches defendeu Rita: “Um de nossos maiores ícones femininos de juventude e rebeldia hoje é uma senhora grisalha, senhora dona da própria história: quantas delas já se assumiram com tanta nitidez, antes de Rita Lee?” Sanches argumenta neste e em outros textos que Rita teve a carreira marcada pela luta contra o machismo da MPB e dos Mutantes, linha adotada pela própria Rita em sua argumentação ao longo do livro. 

O crítico Mauro Ferreira gostou da obra de Rita, divergindo de Barcinski quanto ao veredito “profundidade”: “Longe de ter feito autobiografia chapa branca, Rita de Sampa apresenta livro com todas as cores vivas da vida, sem carregar no drama, mas sem escondê-lo quando ele existiu. […] Rita Lee Jones faz no livro um sedutor balanço existencial, sem saudosismo, já enxergando no horizonte a finitude”.

A polêmica em torno do livro de Rita Lee pode ser melhor entendida constatando que se trata de mais uma reencenação da discussão do papel do sujeito na construção de biografias no meio musical brasileiro. O crítico Mauricio Stycer, ao comentar o texto original de Barcinski, tocou nesta ferida: “André, justamente por tudo que você falou, acho que o livro é um documento importante e ajuda a entender a Rita. Sobre os Mutantes, recomendo livro do Carlos Calado, A Divina Comédia dos Mutantes.”

Publicado em 1995, o livro de Calado, A Divina Comédia dos Mutantes, era então a primeira obra a tratar em profundidade a carreira do trio paulistano. Rita Lee nunca gostou da obra. Prefere exaltar Rita Lee mora ao lado, biografia autorizada escrita pelo jornalista Henrique Bartsch. Original de Ribeirão Preto, Bartsch trocou emails por anos com Rita. Escreveu seu livro criando uma personagem fictícia que seria vizinha de Rita Lee (daí o “mora ao lado”). Ao contar a biografia de Barbara Farniente, uma fã oculta de Rita Lee, Bartsch conseguiu criar o que um historiador chamou de “metabiografia”, livrando-se de possíveis complicações jurídicas. Quando Rita Lee mora ao lado foi publicado em 2006 Rita leu os originais e deu seu aval: “Um belo dia resolvi dar uma folheada e não consegui largar até terminar. Meus bichinhos de estimação ficaram espantados em me verem rir e chorar por várias vezes, me emocionando com passagens de minha vida que eu nunca vivi”.

Em sua autobiografia publicada este ano, Rita relembrou ambos os livros, reafirmando seu veredito: “Papo vai, papo vem, Bart, como eu o chamava, perguntou se poderia escrever uma biografia-ficção minha misturando fatos reais com o mundo de fantasia. Como nunca proibi biografias (salvo uma cujo português era tipo ‘nós vai nós vem’) dei carta branca. Meses depois, recebi uma cópia, adorei e carimbei meu aval no livro. […] Aliás, comparando esse livro com aquele lamentável A divina comédia dos Mutantes, os delírios ficcionais de Bart foram muito mais próximos do real do que as masturbações literárias do outro pretensioso autor que melhor faria ficar calado. Sei que nenhum dos ex-membros dos Mamutes [sic] considera tal livro merecedor de crédito, portanto o escolho como nossa melhor biografia-lixo.”

Rita Lee em noite de autógrafos de sua autobiografia. Divulgação/Ale Frata/Estadão Conteúdo.

A publicação de Rita Lee insere-se no contexto do crescimento das autobiografias de artistas. Há no mercado nacional autobiografias escritas (com ou sem ghostwriters) de figuras do meio musical tão distintas quanto Nelson Ned, Lobão, Caetano Veloso, Ronaldo Bôscoli, Gilberto Gil, Dado Villa-Lobos, Daniel, Leonardo, Lucas Silveira (da banda Fresno), Erasmo Carlos, Luiz Gonzaga, Anastácia, Humberto Gessinger, Valesca Popozuda, Cesar Camargo Mariano, André Midani (diretor de gravadora), Nelson Motta, Luis Carlos Miele, João Gordo, entre outros. Sem contar as inúmeras biografias e perfis artísticos.

Em 2013 estourou a então chamada “batalha das biografias” na qual artistas do grupo autointitulado “Procure saber” buscou proibir biografias não autorizadas. Uma disputa entre editores e autores versus artistas se instaurou. Entre os integrantes do “Procure saber” estavam Roberto Carlos, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Chico Buarque, Marisa Monte, Baby do Brasil, Zezé Di Camargo & Luciano, Adriana Calcanhoto, entre outros. A polêmica chegou ao auge em 2015, quando a questão foi levada ao STF, que por fim confirmou a interpretação constitucional favorável a não autorização prévia para biógrafos escreverem sobre qualquer pessoa pública. O caso detonador foi o de Paulo César de Araújo, que desde 2007 tinha seu livro Roberto Carlos em detalhes proibido em todo território nacional e teve prisão pedida pelo rei na época. Em plena campanha pró-censura, Roberto declarou: “O biógrafo narra uma história que não é dele, é do biografado. A partir do momento em que ele escreve, ele passa a ser dono desta história. Isto não é certo”. E Roberto completou, ignorando completamente o papel de um pesquisador e dos autoenganos da memória: “Ninguém poderá dizer o que eu senti e o que eu passei. Por que isso aí só eu sei”.

As biografias e a autobiografia de Rita e as demandas em torno delas, sejam favoráveis ou contrárias, se inserem nos contextos de cada época. Quando Calado escreveu A divina comédia dos Mutantes em 1995 não era prática comum que biografados insatisfeitos processassem os autores e Calado passou incólume, mesmo angariando desagrados. O livro de Bartsch foi escrito já nos anos 2000, quando começou a se avolumar os casos de livros suspensos, embargados, censurados e proibidos. Bartsch teve que inventar um recurso para não ser processado, seja por Rita ou por qualquer outra figura insatisfeita que aparecesse no livro. 

Nelson Motta, que na época escrevia a biografia de Tim Maia e temia eventuais processos, chegou a comentar com o próprio Bartsch sobre essa questão, como relatou o autor: “Pelos velhos problemas em como se conduzir uma biografia, para não ficar sujeito a futuros processos, geralmente por pessoas que estão sem dinheiro, ou advogados que acham que vão ganhar uma bolada da editora, Nelson estava pensando em talvez criar um personagem fictício para contar algumas coisas de Tim Maia. Daí ele me falou: ‘li seu livro, achei a sacada de colocar um personagem para aguentar algumas broncas genial, e criei um suposto ‘amigo de Tim, que vai contando histórias e tem uma relação de amor e ódio com o cantor’. E completou dizendo: ‘Quer dizer, pessoal, que eu conheço muito bem a Rita Lee, e tudo que está escrito nesta biografia é verdade, muito bem disfarçada pelo Henrique [Bartsch]'”

Tática semelhante adotou Paulo Cesar de Araújo, mas sem criar ficção. Em 2014 ele publicou O réu e o rei, no qual contou em detalhes o processo que Roberto Carlos moveu contra ele censurando-o por seu livro anterior. Como se tratava das próprias memórias de Paulo Cesar, embaralhava-se os limites do dizível, já que toda memória performa várias individualidades. Roberto não o processou e, como dissemos, no ano seguinte o STF deu parecer favorável aos biógrafos. 

Nos dias atuais, diante da polêmica do livro autobiográfico de Rita, um novo cenário se abre. Por um lado, a autora foi questionada como incapaz de se recordar (ou querer lembrar) de sua própria história. Por outro lado, parte dos elogios à obra defendem sua escrita como “corajosa” e elencam direitos da mulher “empoderada”, temática militante que aflora cada vez mais nas redes sociais como se fossem legitimadores em si de fatos sociais.

Cabe então refletirmos, agora mais livremente e sem a sombria aura dos biografados-censores da década passada: o que faz uma boa biografia ser de fato boa, seja ela escrita de próprio punho, por ghostwriter ou por um biógrafo? Muitas vezes se confunde o trabalho de autor e artista, como se toda biografia de alguém endeusado tivesse que ser necessariamente boa. Não é. A biografia é uma arte em si, um estilo literário que tem valores próprios. Um bom artista pode ou não dar uma boa biografia. Esteja ele engajado na luta mais nobre, seja ele um canalha, não é a moral que deve dar as balizas para se julgar um bom texto. A autobiografia de Rita tem valor em si. Seduz, tem ritmo, é bem escrita e traduz muito da própria artista e suas qualidades e limitações. 

Por tudo isso sua autobiografia é passível de crítica, pois o que se critica não é a Rita artista, mas uma determinada escrita. A autobiografia, assim como qualquer biografia, não é “a” vida do sujeito. Ao contrário, trata-se de um olhar específico a partir de determinado momento histórico acerca da vida de alguém. Por ser parcial, esta escrita pode (e precisa sempre) ser criticada, analisada, refletida. Que bom que agora podemos discutir abertamente, superando, aos poucos, às vezes mais lentamente do que gostaríamos, ranços autoritários do passado recente.

Coluna publicada em 2016.

Gustavo Alonso é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Fez doutorado-sanduíche na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris-França). Mestre pela UFF, a dissertação de mestrado foi publicada sob o título de Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, pela Editora Record em 2011. Gustavo é sanfoneiro e faz parte da banda pernambucana Joana Francesa.

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