As miudezas da poesia solar de Ágnes Souza

“Quantas vidas me couber, amar uma mulher” diz o poema que inicia a segunda obra da poetisa pernambucana

Por Anna Clara Oliveira e Luiz Ribeiro

“Quantas vidas me couber, amar uma mulher” diz o poema que inicia a segunda obra da poetisa pernambucana

A poetisa Ágnes Souza. Foto: Fernanda Valente/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com a poetisa pernambucana Ágnes Souza, que lançou recentemente o livro de poesia “Pouso”. Ela nos contou sobre o processo evolutivo da sua carreira enquanto mulher lésbica e poetisa, e sobre o processo de evolução da sua escrita, que tem se modificado desde a publicação do seu primeiro livro “Re-cordis”(2016), além de falar sobre suas inspirações enquanto artista. Ágnes ainda relatou a experiência de publicar um trabalho poético no contexto da atual pandemia. Confira:


Como tem sido sua trajetória enquanto mulher LGBT e poetisa, e quando você se descobriu como tal? 

Eu sempre fui uma criança muito quieta. E lia muito. Meu pai é professor de português e durante a minha infância, nos anos 1990, ele recebia muitas coleções. E esses processos andaram juntos, mas para inserir essa temática na minha escrita demorou um pouco, porque eu tinha muita insegurança. Meu primeiro livro, é um livro muito neutro. Se vocês sairem procurando gênero ali, não vão encontrar muita coisa. Mas acho que isso foi muito do meu processo de amadurecimento como pessoa, como artista também, esse processo de entender a minha sexualidade, de entender como isso influenciava as minhas pesquisas, as minhas leituras.

Como se deu o processo criativo e a história de “Pouso”? O que mudou do seu último trabalho para ele?

Desde o processo de edição do primeiro livro, que se chama “Re-cordis”, eu estava escrevendo muito, e chegou um momento em que não dava mais para entrar esse material. Já não se comunicava mais com o primeiro livro. Fui guardando, amadurecendo os poemas, e deixando um pouquinho na gaveta para ver como eles funcionariam. Acredito que em meados de 2018, fui atrás da mesma editora que lançou meu primeiro livro. É uma editora independente chamada Moinhos, de Belo Horizonte. Ele participou de um financiamento coletivo para ser editado. Mas isso de ir atrás de editora foi um percurso árduo. Hoje, encontramos mais editoras independentes, do que na época em que lancei meu primeiro trabalho, em 2016. Muita coisa já mudou, essa é a maior diferença: encontrarmos, hoje em dia, editoras mais abertas a publicarem pessoas desconhecidas. Enquanto ao meu processo, eu sento, escrevo, repito aquilo na cabeça às vezes no banho. Não tem nada teórico e metódico por trás. Fui só respeitando esse processo de como as coisas vinham.

Livro “Pouso”, publicado pela editora Moinho, em 2020. Foto: Divulgação/ Facebook.

Quais são suas principais inspirações enquanto artista? Você menciona muito o “infraordinário”, termo utilizado pela escritora Marília Garcia. O quanto ele ajudou a moldar a forma final de “Pouso? 

As inspirações de “Pouso” vêm de dois lados. Vem do meu lado leitora, porque eu leio muita poesia, mas também veio das pessoas da rua, do meu andar na rua. Na época que eu estava escrevendo “Pouso”, morava no centro do Recife, na Boa Vista. Ouvia muito as pessoas conversando, passeava muito por praças. Pegava uma coisa aqui, outra ali. Esse conceito de “infraordinário”, de Marília Garcia, está nos seus livros “Parque das Ruínas” (2019), e o “Câmera Lenta” (2017), em que ambos  falam sobre o cotidiano. Não encontraremos temáticas absurdas, de momentos históricos, de coisas pontuais, mas veremos  esses detalhes do dia a dia; justamente o conceito do “infraordinário”. Na minha escrita sempre coloquei isso, mesmo não tendo conhecimento sobre esse conceito. Juntei o que eu já tinha descoberto, através de Marília Garcia. Mas fora ela tem poetas como Angélica Freitas, Júlia de Carvalho Hansen, Simone Brantes, a portuguesa, Matilde Campilho, além de outros autores, como Valter Hugo Mãe, Victor Heringer, pessoas que se a gente parar para pensar um pouquinho, sempre tem essa coisa do cotidiano, essa coisa das miudezas, no que eles escrevem. 

Como é lançar um trabalho poético no contexto da pandemia?

Várias crises. Eu tive várias questões porque, no nosso cronograma com a editora, o livro sairia próximo ao dia 18 de abril, mas veio a pandemia. A responsabilidade de não colocar ninguém em risco. A vantagem é que eu não tenho experiência com editora grande, mas a minha experiência com editora pequena é essa liberdade que eles nos dão para escolher. Meu editor me perguntou se eu queria aguardar ou se eu queria lançar. Eu passei horas pensando. O livro já estava na pré-venda. Tinham pessoas que haviam comprado. Não achei legal deixar essas pessoas esperando tanto. Como a gente não tem previsão de nada, eu optei lançar por uma live, mas morrendo de medo, pela falta de experiência. Eu sou professora, sou acostumada a falar, mas falar em frente a uma câmera, foi algo novo. Foi um susto, como tudo o que tem aparecido, porque tudo tem sido novidade, mas que também trouxe surpresas positivas para o meu trabalho, que é esse contato que eu nunca imaginei, como vocês.

No poema “Há umas semanas eu queria ter 30 anos”, você menciona os múltiplos estados de espírito a partir das idades. Várias escritoras e poetisas se debruçaram sobre o processo de velhice, aludindo ao chamado “memento mori”, seja ela uma morte literal ou figurativa. Como você enxerga esse processo nas artes?

Eu sempre gostei muito de música, de peças de teatro, de livros, que tragam um pouco a gente para a realidade. Tem muita coisa acontecendo no mundo. Tudo é muito efêmero. Claro que não podemos se apegar a coisa da finitude, senão adoecemos. Você precisa trabalhar com esses vários lados da moeda. Alguns poemas têm um teor mais negativo, e de alguma forma eu tento enxergar uma beleza naquilo, ou vice-versa. Tem uma coisa muito positiva, mas que também tem esse lado mais melancólico. Eu acho que “Pouso” caminha por esses dois lados: tem poemas muito apaixonados, muito positivos, muito solares, a coisa do exterior, de amar alguém, de observar alguém, mas também tem muita coisa sobre despedida, finitude, sobre as marcas, sejam elas físicas ou  emocionais. São coisas que eu gosto de ver e que eu trago para o que eu faço, de alguma forma.

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