Asas do Desejo e o teatro da vida

Desejo, morte e existência na obra do diretor alemão Wim Wenders

Trecho do filme do diretor alemão, conhecido também por obras como “Paris, Texas” e “A Lisbon Story”. Foto: Reprodução.

A câmera flutua em um som melancólico sobre uma cidade de edifícios antigos. No alto de um prédio, um homem de sobretudo escuro e grandes asas observa o tráfego de pessoas no asfalto. Crianças olham para cima e veem a silhueta daquele ser intrigante. É assim que Wim Wenders nos insere em seu mundo onírico de uma Berlim dilapidada, enferrujada e abandonada. Nessa cidade, na qual carrega no espaço urbano e na memória a herança da guerra, não existe cor – enfatizado pela fotografia em preto e branco, nem sequer uma flor ou um pedaço de grama; mas existe uma grande carga de desilusão e solidão nos quais a paz insiste em trazer consigo.

Sobre o céu desse lugar marcado pelo trivial pairam anjos. Esses seres atemporais caminham sobre a terra – invisíveis, em outra frequência –  desde o início de tudo, observam e ouvem os pensamentos dos humanos como se fossem uma espécie de estações de rádio sintonizadas ao mesmo tempo. Ouvir e observar as histórias daquelas vidas parece ser a função de suas existências. Porém, não são observadores frios e distantes, como cientistas analisando suas cobaias. Não, estão mais para espectadores que amam aquilo que veem, chegam até trocar anotações do que presenciaram, como cinéfilos apaixonados após assistirem a bons filmes. 

Em “Asas do Desejo”, quase tudo parece girar em torno da simpatia. Sim, simpatia e não empatia. Os anjos apenas podem sentir pelos humanos, sendo assim incapacitados de se sentir como eles. Nunca experienciaram a sensação de um toque, de um sabor ou até mesmo de ver uma cor. Nesse sentido, a eternidade desses seres é marcada pela distância abismal daqueles a quem acompanham a todo instante. Assistindo de forma passiva, desde o princípio, a tudo o que se passa naquela tribo de sofridos e primitivos mortais, esses anjos voyeurs tornaram-se essencialmente humanistas. O máximo que conseguem influenciar na realidade é com um singelo toque de esperança detentor do poder de acalentar os desesperados. Embora seja eficaz em alguns momentos, esse toque não é imperativo, como comprova o homem que o recebeu, mas mesmo assim se atirou de um prédio, causando uma grande dor no anjo Cassiel.

Apesar de presenciar toda a dor, dúvidas e traumas da realidade, o anjo Damien nutre a vontade de viver. Mesmo faltando nele as sensações concretas da vida, mesmo sendo um ser onírico e atemporal que o faz inumano, o desejo e admiração de Damion pelo prosaico faz com que seja difícil chamá-lo de outra coisa a não ser humano. 

Mas o que faria um anjo, um ser atemporal, dar o salto de coragem e se tornar mortal? A resposta não seria outra senão o desejo pelo sexo oposto. Quando Damion vê pela primeira vez a trapezista Marion, seu amor pelo secular é canalizado em apenas um ser. Ao assistir encantado aquela mulher angelical flutuar em seu trapézio, pela primeira vez, o filme tem um vislumbre do colorido.

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Desejo, vida e morte são alguns dos ingredientes que movem a trama de Asas do Desejo. Foto: Reprodução.

Ela entra em seu trailer e se despe; Damian tenta tocá-la, mas sua expressão é de frustração. O voyeur por excelência, melancólico por sua função de ver. As curvas que trazem cor e beleza à vida: inalcançáveis, mesmo estando a centímetros de distância. 

Movido pelo intenso desejo, Damian se integra à realidade por completo. O colorido agora se transforma no protagonista da tela. Muda-se o fio narrativo do observador. O anjo voyeur, que já era demasiado humano, tornou-se agora um exibicionista, um personagem do teatro que sempre fora espectador.

Damian abandonou o que não podia mais suportar. O amor pela mulher o fez compreender que o imperativo era agora. Saiu de seu lugar elevado rumo ao mundano. Largou o privilégio de espectador da história em prol do reino dos sentidos.

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