Atualidade e tradição pernambucana se encontram no som e na poesia da Banda Do Carmo

Em novo álbum intitulado "Conto de Voinha", a banda caruaruense Do Carmo explora a sonoridade de gêneros da cultura popular de forma não tradicional.

Vocalista da Banda do Carmo em apresentação. Foto: Divulgação.

A primeira impressão que tive quando ouvi a primeira faixa do álbum Conto de Voinha, da banda caruaruense Do Carmo, foi me sentir em uma espécie de filme de ficção científica que se passasse no Sertão (Bacurau?). Isso porque os efeitos sonoros em As patativas de Zé de Biu lembram os das primeiras edições de Star Wars, que, de forma surpreendente, se unem a uma poesia claramente nordestina e a cantos de patativas! Essas junções, que à primeira vista podem causar estranheza, introduzem todo o conteúdo do álbum, uma vez que já dá uma ideia do que a obra se trata: uma maneira não tradicional de se enxergar e de se fazer ouvir temas, gêneros e formas poéticas da cultura popular.

Essa ideia também está bem representada na arte da capa do disco, na qual uma personagem – a voinha que inspirou o nome e a ideia do álbum – é pensada a partir de duas identidades: uma mais fantasiosa, folclórica e outra mais tradicional, simples e real. Esse aspecto da tradicionalidade e simplicidade nordestina se encontra já no nome do próprio álbum, no uso do termo voinha. Isso porque é uma particularidade da região nordestina o uso do diminutivo como um meio de demonstrar na linguagem a intimidade e carinho em relação a uma pessoa.

Álbum Conto de Voinha. Foto: Reprodução/Instagram

Ao observar a diferença entre a primeira música e a segunda é possível concluir que a canção As patativas de Zé de Biu demonstra o lado mais experimental da banda, enquanto “Atira Colo”, a faixa seguinte, dá início aos resultados atingidos após essa possível fase de experimentação, e a partir daí a essência da banda começa a ser mostrada.

O interessante é que durante todo o álbum é possível perceber a influência de mais de um aspecto ou gênero da cultura popular. Tanto que, logo depois da experimental primeira faixa, já se ouve um pandeiro ligeiro que me remeteu a um samba de coco ou ao pandeiro do primeiro álbum de Cordel do Fogo Encantado. Mas, antes que eu falasse “Arreia”, ouço o contra-baixo elétrico, que distancia Do Carmo de Cordel, e o violão de aço, que afasta a ideia de um tradicional grupo de coco. Além disso, ouve-se nessa mesma faixa uma zabumba acompanhada do triângulo, célebres instrumentos percussivos utilizados no tradicional forró, gênero musical tão imbricado na cultura do Agreste. Tudo isso se junta aos efeitos eletrônicos que atribuem uma atmosfera imaginária e folclórica. Isto é, na segunda faixa já ouço uma retomada do forró e do samba de coco, que com os efeitos digitais até me lembram músicas como A Sereia e Andrelina, do álbum Maga Bo apresenta Coco Raízes de Arcoverde, que, se não for uma influência da Banda Do Carmo, poderia muito bem ser.

O gênero musical coco também se faz presente na segunda faixa do álbum do grupo, Embolada de Caruaru, que como próprio nome diz se trata de um coco de embolada, ou coco de repente, repleto de personagens que marcaram a história da cultura caruaruense em uma narrativa popular e urbana. Mas nem só de coco e forró vive a Banda Do Carmo quando o assunto é inspiração. A contagiante O baque do meu som revela outra matriz cultural pernambucana também revisitada pela banda: o maracatu nação. As alfaias marcam, junto com a zabumba, o compasso da delicada e poética Casa de Pedra, o conto de voinha menos experimental e mais liricamente forte.

Talvez seja em Casa de Pedra que a linguagem poética da essência da Banda do Carmo se mostra mais evidente. Linguagem esta que não se resume apenas a uma forma coloquial, mas que mistura esse falar do cotidiano popular nordestino com palavras da sociedade atual. Um exemplo disso é o uso de palavras como “uber” no meio de uma poesia repleta de expressões e gírias características do interior do Nordeste. Na letra dessa música, ou melhor, em sua poesia, o encontro entre a tradição e o contemporâneo rompe os limites da música tocada e atinge a cantada, o que torna a faixa culturalmente rica e gostosa de ouvir pra quem entende e se identifica com seus significados.

Aproveitando o ensejo em que falo sobre essência, outra música que me chamou bastante a atenção e que também considero uma música-síntese da banda Do Carmo é A Cabrueira. Essa música me soou extremamente contagiante durante toda sua duração. As doze cordas do violão vibram em uma frequência eletrizante, os efeitos sonoros digitais criam novamente uma atmosférica sonora e folclórica d’A Cabrueira, o refrão, assim como o de “Casa de Pedra”, tem uma potência melódica que facilmente perdura na mente do ouvinte após o final da canção.  N’A Cabrueira, especificamente, o refrão é montado por cima de ataques dos instrumentos divididos de uma forma não comum e não repetitiva, uma quebra rítmica cuja força faz total sentido com a potência do significado da letra da música. O pandeiro filho do samba de coco mantém um ritmo acelerado e enérgico do início ao final da música.

Talvez ao começar a ouvir o álbum, assim como foi minha primeira impressão, o ouvinte geral estranhe o experimentalismo da primeira e também de outras faixas do álbum. Entretanto, é necessário ter em mente que as experimentações são necessárias para o autodescobrimento de um artista. É se explorando e experimentando caminhos diferentes que bandas e artistas definem uma identidade própria e uma fuga do lugar comum. A partir disso, o experimentalismo é parte do processo de construção e melhoramento da arte e que, quase sempre, tem ótimos frutos. No caso da Banda Do Carmo, o experimentalismo rendeu frutos dentro do mesmo álbum. Portanto, Canto de Voinha é um registro não só da identidade e das características que definem a banda enquanto tal, mas também de parte do processo de experimentação que levou a essa identidade.

Cabe ainda ressaltar que nesse texto deixei de falar de outras faixas do álbum que merecem sim ser ouvidas para entender melhor a obra e a banda como um todo. Todavia, as músicas que citei aqui são aquelas que acredito serem as representantes mais fiéis do que é e do que vem a ser a Do Carmo e as que mais possuem raízes na cultura popular de Pernambuco. 

Além disso, é preciso ter em mente que observar e cantar as tradições do passado da cultura pernambucana e/ou nordestina com o olhar e a voz da atualidade não é apenas um atributo da Banda do Carmo, na cidade de Caruaru. Há também outras bandas que dividem esse olhar atual para o passado, cada uma a seu modo, como a Rasga Mortalha, a 70 mg e a Vimana. Mas estas são assuntos para outros momentos. Assuntos que certamente vão render muito e para além do Café Colombo e do Agreste.

Link para álbum Conto de Voinha no spotify.

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