Café Colombo

Há mais de 18 anos no ar, trazendo informações e debates sobre culturas e ideias.

Narrativas em imagens, histórias imperfeitas: sobre fotolivros

Nesta coluna inaugural, a pesquisadora Daniela Bracchi apresenta conceitos sobre a narrativa em fotolivro

Fotografia de “O livro do Sol” Gilvan Barreto: Divulgação

Você está acostumado a ver um filme, ler uma história, acompanhar os dramas de algum personagem, torcer para o desfecho de uma ação. Mas há algum tempo os fotolivros chamam a atenção como uma outra forma de narrativa. As imagens encadeadas em sequência ao longo do livro podem despertar emoções, nos fazer sonhar, argumentar sobre algum tema, propor uma nova sensibilidade. A presença do texto aqui é acessória. Ele pode existir, mas seria um ator adjuvante da narrativa, colaborando com a verdadeira estrela que são as imagens.

Se compararmos um fotolivro com um filme, sabemos que a imagem em movimento torna muito mais fácil exibir uma ação. A fala nos filmes ajuda a construir as características e gostos de um personagem. Já nos fotolivros os temas são construídos de maneira menos concreta, mais fluida e isso exige muito mais de nós. A tarefa é a de preencher as lacunas da narrativa. Por não ter um modo tão direto de mostrar a ação de um personagem e seus claros desdobramentos, é muito mais difícil descrevemos “sobre o quê” é um fotolivro em comparação ao modo como conseguimos contar um filme para alguém.

Mas para além da identificação clara de um arco narrativo, a maior dificuldade de nos aproximarmos desse tipo de obra é que estamos bem acostumados a olhar cada imagem como algo isolado. No fotolivro, no entanto, cada fotografia é como uma palavra e seu desenrolar dá espaço para construção de frases, histórias e tons emocionais. A poesia das imagens vai sendo construída pelo folhear de páginas. É uma espécie de passeio por entre fotografias, que nos permite parar, apreciar algo melhor, voltar um pouquinho e comparar uma imagem que já passou há muitas páginas atrás com outra que agora se apresenta. A falta de uma cadência temporal dada de antemão, tal como o cinema, abre possibilidades para impormos nosso ritmo nesse passeio.

Ilustrar o Fotolivro do Robert Frank

Fotografia de “The Americans” Robert Frank: Reprodução

Precisamos, então, construir esse fio que liga uma imagem a outra para finalmente explorarmos melhor a potência narrativa dos fotolivros. É uma experiência que pode ser fácil de explicar, mas que exige sensibilidade do leitor. Um exemplo rápido seria quando vemos no livro uma dupla de imagens. Imagine um retrato de uma pessoa convivendo ao lado da página com a imagem de uma planta. Se for um cacto, por exemplo, a imagem da planta empresta uma certa aridez e resistência à imagem da pessoa, que pode nos falar de sua personalidade. Mas o sentido muda se a planta escolhida for cheia de flores. Por isso que, tal como na literatura e também no cinema, os fotolivros constroem uma retórica. São metáforas, paradoxos e paródias que nos convidam a estarmos atentos ao desenrolar das imagens, assim como estamos sensíveis às nuances da montagem de um filme.

Os fotolivros apresentam uma vantagem em relação às fotografias expostas em museus ou galerias: o formato permite maior circulação. É bastante difícil termos acesso à uma exposição de fotos em algumas cidades, mas a forma compacta do livro circula de forma mais veloz, alcança mais pessoas, divulga mais amplamente o trabalho de um fotógrafo. Ainda assim, a sua difusão não é massiva e o que nos ajuda muito a conhecer as publicações são vídeos folheando fotolivros que circulam no youtube ou mesmo em sites de algumas editoras.

Os fotolivros, em formato físico mesmo, costumam circular em feiras de publicações independentes. Aqui no Nordeste temos a Feira Cria, mas a concentração desses eventos está no eixo Rio-SP com a Feira Plana e Feira Tijuana entre as maiores. Lá também se encontram livrarias especializadas, como a Lovely House. 

É natural que a região do país com maior número de fotógrafos seja também um grande polo de difusão das publicações, mas Pernambuco há algum tempo tem destaque nesse cenário. O que tem propiciado a produção constante de obras por aqui é, sem dúvida, o fato desse formato ser contemplado numa linha de financiamento do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que anualmente incentiva a produção de mil exemplares da obra de cada ganhador. Isso deixa Pernambuco em primeiro lugar nesse tipo de publicação no Nordeste. 

E há muita coisa boa produzida por aqui, em Pernambuco. Algumas imagens da publicação de 2013, O livro do sol, do pernambucano Gilvan Barreto ganharam o mais importante prêmio brasileiro de fotografia (o infelizmente extinto Conrado Wessel). O fotolivro se desenrola como uma jornada, na qual vamos esperando pelo aparecimento da água, vagando pelo sertão e encontrando seus rastros numa atmosfera de sonho.

Por fim, é muito interessante estudar como essas narrativas imagéticas em formato de fotolivro constroem histórias, climas afetivos, defendem ideais, criam novos mundos. É o que pesquisamos no Fotolab (laboratório de fotografia do agreste da UFPE) e talvez um fotolivro seja o formato da próxima história com a qual você vai se deparar. Meu conselho? Mergulhe. Olhos, mente e coração abertos.

Daniela Bracchi é professora do Núcleo de Design e Comunicação (NDC) da Universidade Federal de Pernambuco – Centro Acadêmico do Agreste (UFPE-CAA). Dedica-se à pesquisa e docência nas áreas de fotografia, semiótica e artes visuais.

Essa gente do Brasil, nessa gente de Chico Buarque

De Welton Humberto, estudante de economia e um aficionado por literatura e música


Foto: Divulgação

É óbvio que o jovem Chico Buarque, compositor de “Pedro Pedreiro 1966”, envelheceu e provando que o amanhã ninguém sabe, deu-se também à prosa num caminho de sucessos e estranhezas por parte da crítica e dos leitores, e assim nos trouxe à sua última obra, Essa Gente (2019). Um romance, não de fato, mas de estética epistolar.

A personagem que narra o livro é Manuel Duarte, escritor outrora aclamado, mas que, agora falido, passa pelas amarguras e vexames de quem cava desesperada e inutilmente o poço da criatividade, de onde só minam angústias, mágoas e indignação. Para além de Manuel Duarte, do seu bloqueio criativo e dos seus tantos problemas pessoais, há várias personagens como a juíza federal Marilu Zabala; Fúlvio, o velho amigo de infância; O latifundiário Napoleão Mamede; Agenor, o sargento do corpo de bombeiros que mora na periferia do Rio de Janeiro e tantos outros, circulando de forma orgânica numa narrativa que tem como maior objeto de exposição o Brasil contemporâneo.  

A forma como as relações são tratadas na obra remete sutilmente ao arquétipo do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda. Onde o amor e ódio presentes na sociedade brasileira são sentimentos íntimos a cada indivíduo e caminham “con cordis”, embaralhados nas mais diversas formas de se relacionar socialmente. Sentimentos estes inflamados pelo que citava Marc Bloch ao dizer que somos mais filhos do nosso tempo do que filhos de nossos pais, afirmação que parece ser um dos fios condutores da narrativa.

Foto: Divulgação.

O contato inicial com o livro é marcado pela personalidade ranzinza de Duarte, cheio de falhas morais, contradições e alguma humanidade. O seu mundo é cinza e destoa do verde e amarelo que agora cobre a superfície da elite carioca, na qual ele sempre esteve inserido. Mas pairando entre o peso estético da visão de mundo do narrador e a primazia de Chico Buarque ante as letras, o livro corre rápido diante dos nossos olhos e cada página lida se torna uma página lamentada, uma página a menos.

Duarte ou Buarque? 

A semelhança fonética dos sobrenomes traz uma experiência maliciosamente engenhosa à leitura. Não dá para enxergar Chico Buarque na persona de Manuel Duarte, mas não são poucas as vezes em que nos pegamos a flanar pelas afirmações e ideias ali presentes, no curioso exercício de tentar entender onde um cala e o outro fala. O que traz mais sabor para este jogo é o último álbum lançado por Chico, sob a batuta do maestro Luiz Claudio Ramos, Caravanas (2017). São incontáveis os momentos do livro nos quais as músicas ecoam como trilha da narrativa. 

Como exemplo temos o próprio Duarte, que no seu mar de falhas não cansa de ser o homem de “Tua Cantiga”, disposto a disputar o amor de alguém comprometido, ou a largar mulher e filhos para de joelhos seguir a amada da vez. Há também os antigos amigos e fãs que entoam a música “Desaforos” e nas horas vagas rogam pragas a Duarte por aí, pelo seu posicionamento político. E o Fúlvio, ah o Fúlvio, a figura que representa um dos maiores problemas existentes na nossa sociedade, o amigo de Duarte que saindo do Country Club destila todo o ódio cantado na canção “As Caravanas” em um homem com feições indígenas que estava encostado no muro do clube.

Passando-se na maior parte do tempo em 2019 e citando alguns dos acontecimentos que estamparam as manchetes de jornais do Brasil real, a ficção apresenta uma narrativa fluida e até vulgar, mas que não entra em desafeto com a tão conhecida polidez de Chico sobre a língua portuguesa. Essa Gente, considera quem vos escreve, merece ser lida. Pois além de trazer a visão do autor sobre os rumos políticos e sociais que o Brasil tomou, em uma narrativa singular, a chegada da obra deixa no leitor o sentimento de que, apesar de tudo, flores ainda nascem no asfalto.