Luiz Ribeiro

Estudante de Comunicação. Cantor e compositor. Gosta de falar/escrever sobre música, cinema e literatura.

Obrigado, Caruarus

Caruaru faz 163 anos. Sendo uma cidade que cresce a cada dia, seu legado cultural segue mais forte que nunca.


Rua da Matriz em 1910. Imagem colorizada. Foto original: Hélio Florêncio.

Caruaru é múltipla. Falar dessa cidade do Agreste de Pernambuco é falar de uma atividade cultural pulsante, diversa e, por que não, cosmopolita. Pensar essa mesma cidade implica em não esquecer de sua importância e participação em inúmeros movimentos culturais que marcaram a sociedade brasileira. Justo quando completa 163 anos, esse simbolismo se torna ainda mais forte. 

Dentre as figuras responsáveis pela divulgação de Caruaru pelo Brasil e pelo mundo, cabe destacar os irmãos Condé. Elísio, João e José, caruaruenses, dedicaram-se desde cedo à literatura e às artes: José tornou-se autor de livros como o clássico “Terra de Caruaru”, e de novelas como “Vento do amanhecer em Macambira” e “Um ramo para Luísa”. Elísio, ainda que médico de formação, destacou-se ao lado dos irmãos como co-fundador do Jornal de Letras, caderno cultural do Jornal do Brasil. 

Mesmo morando no Rio de Janeiro, o apreço por Caruaru acabaria por engajá-los a promover, em 1957, como parte das comemorações do centenário da cidade, uma caravana em direção ao município com escritores influentes da época, como Jorge Amado e Lygia Telles: o projeto durou três dias e fez com que o nome de Caruaru fosse parar em grande parte dos impressos do país. A programação, por sua vez, contou com apresentações musicais e ampla participação popular.

Como afirma o historiador José Veridiano dos Santos, em sua dissertação “Falas da Cidade: um estudo sobre as estratégias discursivas que constituíram historicamente a cidade de Caruaru (1950-1970)”, o poeta e escritor Manuel Bandeira, durante a caravana, se ofereceu para compor um hino para o município centenário:

Meu Caruaru centenário
Não há o que te chegue aos pés
Recife tem Olegário
Tu tens os irmãos Condés 
(Manuel Bandeira)

Dez anos depois que a caravana literária dos irmãos Condé abrilhantou o centenário caruaruense, foi nessa mesma localidade em que convencionou-se chamar de “Capital do Forró” – graças à composição homônima de Jorge de Altinho e Lindú –, que ocorreu o chamado big bang tropicalista: em 1967, ao passar pelo Recife em turnê, o jovem Gilberto Gil demonstrou interesse em conhecer a Banda de Pífanos de Caruaru. Dentre aqueles que estiveram na comitiva que levou Gil para conhecer os tocadores de pífano, destaca-se o caruaruense Carlos Fernando, compositor e produtor cuja importância na modernização do frevo-canção e na criação de numerosos projetos musicais daria, por si só, diversos outros escritos. Mas logo nos debruçaremos sobre ele. 

Ao chegar em Caruaru, o então pré-tropicalista Gil atentou-se à sonoridade dos pifes e achou-a extremamente parecida com a canção “Strawberry Fields Forever”, single dos Beatles lançado naquele ano. Da fusão de gêneros aparentemente tão distintos em forma, conteúdo e origem, figurou-se a gênese do que se conheceu posteriormente como “Tropicália”, movimento que agitou as estruturas artísticas da época e influenciou artistas de forma contínua.

Tropicália, Beatles e Pífanos. Capa do álbum “Tudo Isso é São João” (1999), da Banda de Pífanos de Caruaru. Foto: Reprodução.

Regressemos à Caruaru e ao supracitado Carlos Fernando. Em 2007, 50 anos depois da caravana dos Condé e 40 anos depois da fusão tropicalista de Gilberto Gil, o compositor e produtor lança o álbum “Crônicas Musicais de Caruaru”. Ao lado de cantores como Geraldo Azevedo, Geraldo Amaral e Alceu Valença, bem como de instrumentistas como Paulo Rafael, Fernando comemora os 150 anos de sua terra natal com onze canções proustianas – isto é, com uma estética muito semelhante àquela instituída pelo escritor Marcel Proust, cuja obra-prima, “Em Busca do Tempo Perdido”, é fundamental na literatura do século XX – sobre a cidade. 

Nessas músicas, Fernando recorda personagens e lugares que conheceu na juventude: Maria Pequena, prostituta da rua da Matança, zona de bordéis da cidade; o Social Guanabara, casa noturna que não tinha portas e recebia os insones das frias madrugadas de junho; o Bar de Belo, cujo dono, após ouvir sobre a Revolução Cubana numa rádio captada de Moscou, “deflagra”, numa noite, uma intentona em que todos pudessem comer e beber de graça; a Saldanha da Gama, rua em que passou a infância; a Rua da Matriz, onde se reunia a classe intelectual da cidade. Nesta última, como canta Geraldo Azevedo na canção homônima, o jovem Carlos Fernando descobre a “metáfora”.

As imagens que Fernando evoca, ao afirmar que Caruaru pode ser “Roma pegando fogo” e representar uma “cidade-luz”, ou ainda que um personagem pode ser um “Chaplin”, denota impressões, cheiros e sentimentos de um autor específico, inserido em um tempo também característico. Sobre a Rua da Matriz, Carlos Fernando lembra:

Os renascentistas e os gênios chaplinianos
Da cultura acesa de um agreste nu
Fincado no torrão seco
Alegre e triste
Em uma agrestina comunhão
Rua da Matriz das meninas lindas
Do sobrado colonial
Da sorveteria Lira
Que aroma doce de fruta do verão
(C. Fernando)

Sobre o sol que invadia a cidade balneária de Balbec, onde o Narrador de “Busca” passou boa parte de sua adolescência, Proust descreve:

“Convencido de que estava ‘sentado no molhe’ ou no interior do boudoir, de que nos fala Baudelaire, perguntava-me se ‘o sol raiando sobre o mar’, do poeta, não seria aquele – bem diverso do dos raios da tarde, simples e superficiais como setas douradas e trêmulas – que naquele momento queimava o mar como um topázio, fazia-o fermentar, tornava-o louro e leitoso como a cerveja, espumante como o leite, enquanto, por alguns instantes, sobre ele passeavam aqui e ali grandes sombras azuis, obra sem dúvida de um deus que parecia se divertir em deslocá-las, movimentando um espelho no céu” (Marcel Proust)

Álbum “Crônicas Musicais de Caruaru” (2007), de Carlos Fernando. Foto: Reprodução.

De todo modo, me ponho a pensar: ao lermos sobre a caravana literária dos Condé e a gênese tropicalista de Gil, ou mesmo ao adentrarmos nos relatos memorialistas e poéticos de Carlos Fernando, ressignificamos a nossa própria ideia a respeito do município: ele é múltiplo, esconde inúmeras cidades em uma só. Cada uma se forma a partir do ponto de vista de cada habitante. O que distingue o trabalho de Carlos Fernando, talvez, seja a iniciativa de descrever e imortalizar suas próprias memórias em algo tão profundo e complexo como o fazer musical. 

Ao ouvir as canções – algumas delas lançadas em outros projetos e compactos –, montamos em nossa cabeça um quadro representativo de um território que, embora distinto e único, se mostra absolutamente fascinante. Dessa forma, por que não criarmos, assim, a nossa própria Caruaru? Em uma data como essa, por que não parabenizar todas essas cidades de uma só vez? 

Salve, Caruarus. Obrigado, Caruarus.

Pra frente, Brasil?

Regina Duarte e seu apreço escancarado pelo regime ditatorial


A secretária de Cultura em sua posse no começo de março. Foto: Adriano Machado / Agência Reuters

Há quem diga que a nostalgia mova o homem. Inspirados pelo passado, enxergando-o de uma forma específica no presente, somos capazes de nos impulsionar para o futuro. Entretanto, parece que um tipo peculiar de nostalgia move nossa excelentíssima secretária da cultura. Na última quarta-feira (07), questionada em entrevista ao CNN sobre os horrores da ditadura militar, Regina Duarte se limitou apenas a minimizar as mortes que ocorreram no período compreendido entre 1964 e 1985 – ainda que a Anistia, em 1979, e a Constituição Cidadã, promulgada em 1988, sejam argumentos de outras proposições históricas –, e a cantarolar o hino setentista “Pra frente, Brasil”.

Composto em 1970 por Miguel Gustavo para comemorar a primeira transmissão televisiva de uma copa do mundo no país, “Pra frente, Brasil” procurava mostrar, tangencialmente, que nossa nação, naquela época, progredia como nunca. Que, sob o jugo dos militares, ia “de vento em popa”. Algo que se provou não condizer exatamente com a verdade: mesmo após uma década de elevado desenvolvimento econômico, houve alta concentração de renda por parte de elites e aprofundamento das desigualdades sociais. Ouro de tolo, como Raul Seixas cantou.

De todo modo, parece claro que a nostalgia que Duarte demonstrou, ao recordar a canção, é muito semelhante a de seus outros colegas de governo e, principalmente, de seu chefe em comando. Jair Bolsonaro, auto-intitulado outsider político, evocou, ainda como deputado, o coronel e torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra como herói nacional e “pavor de Dilma Rousseff” em seu pronunciamento na votação do impeachment da então presidente. Em 2020, já eleito para o cargo máximo do Executivo, recebeu para uma visita o Major Curió, militar responsável pela repressão durante a Guerrilha do Araguaia e apontado pela Comissão da Verdade como um dos torturadores, no estado do Pará, da Casa Azul, centro clandestino do período.

Classificado pelo senador roraimense Chico Rodrigues, do DEM, como um momento “histórico”, o encontro com o Major Curió se atrela a constante participação de Bolsonaro em manifestações anti-democráticas, organizadas por seus seguidores, e revela um apreço e fascínio desmedidos pela ditadura, substituída por uma narrativa que a compreende como uma revolução “a favor da liberdade” e “contra o comunismo”. Em meio a tantas barbaridades, está Regina Duarte. 

Como artista e cidadão, me pergunto: será válido sugerir a Duarte que, se procura figuras precedentes para se inspirar, pense em ministros como Celso Furtado, cujo trabalho na Cultura tornou possível a primeira lei de incentivos fiscais à área, e desembocou no que hoje conhecemos como Lei Rouanet; ou mesmo como Gustavo Capanema que, mesmo na pasta da Educação, ao lado de Heitor Villa-Lobos, foi fundamental na implementação do ensino de música nas escolas e na formação de inúmeros musicistas? Seria pedir demais, em meio a um cenário de crise extrema, com toda uma cadeia produtiva em colapso, que apresente propostas coesas?

É preciso destacar que o canto de Regina Duarte, aparentemente despreocupado e alegre, não é isolado. É o canto de uma presidência que, soltando um reverberante “e daí?”, se posiciona contra todo tipo de medida democrática e técnica, e ignora as mais de 11.000 vidas perdidas durante a pandemia da COVID-19. Ao mesmo tempo, é a presidência que lamenta a “morte” de empresas, num discurso que parece apenas contemplar as inevitáveis perdas econômicas.

Não chamemos um governo como esse – e seus integrantes – de louco. Não o patologizemos. São perversos. Dão curso a uma lógica autoritária. Entretanto, no que tange à oposição, às instituições e aos outros poderes, cabe a elas apenas produzir – válidas, porém até certo ponto – notas de repúdio? Será preciso ações mais duras? É pertinente questionar.

Pra frente, Brasil? Em um momento assim, é algo pouco provável.

Reflexões sobre o sertão de nosso isolamento

Como três obras, de linguagens artísticas e tempos diferentes, podem ajudar a compreender nossa época e a nós mesmos?

Uma das peças narrativas do livro “Dog Days – Bogota”, do fotógrafo americano Alec Soth. Foto: divulgação.

Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
– “Genipapo Absoluto” (1989), de Caetano Veloso

Ao terminar de ler “Vento do Amanhecer em Macambira”, novela de 1987 do escritor pernambucano José Condé, não pude deixar de notar – com a consternação e a sensação de enorme lacuna que uma boa obra deixa – certa semelhança em relação a outra produção: o filme “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, dos diretores Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Entre formas específicas de se construir enredos e personagens, essas duas peças, de linguagens artísticas e tempos tão diferentes, parecem se comunicar.

De 2009, a produção cinematográfica retrata – guiada pela voz em off do protagonista – a viagem de um geólogo cearense a serviço do governo em direção ao interior do Nordeste: em meio a uma separação, o geólogo sai de Fortaleza em mil pedaços e, ao passo que executa seu trabalho, em meio àquela imensa planície sertaneja, e conhece inúmeras pessoas ao longo da estrada, vai, pouco a pouco, reconstruindo-se.

O romance de Condé, por sua vez, é ambientado nos anos 1950 e narra, também em primeira pessoa, os conflitos existenciais de um funcionário público que sai do Recife para o interior onde nascera para, também, executar uma missão do governo. Acompanhado inicialmente do colega Albérico, a personagem retoma o contato com lugares que, apesar de terem lhe testemunhado os primeiros passos, pouco se assemelham a ele: uma vez em Poti e, posteriormente, em Macambira, em busca de notícias de Lívia, um amor juvenil relembrado durante a viagem, as lembranças da infância e da adolescência emergem e começam a guiá-lo. Ele não consegue sair dali sem tentar descobrir o que acontecera com sua antiga – e até então pouco lembrada, diferente do drama do geólogo – paixão.

Assim, após essa breve apresentação, lhes convido ao questionamento: o sertão, mesmo que ligado a signos extensivamente utilizados, como a seca, a desigualdade, o coronelismo e as crendices populares, também pode se desconstruir semanticamente e configurar-se como o lugar do encontro do ser humano consigo mesmo, uma espécie de laboratório existencial e, à primeira vista, solitário? Por enquanto, nos contentemos em refletir sobre essas personagens que, por uma razão ou outra, se vêem obrigadas a realizar um trabalho qualquer e, tendo apenas como companhia o descampado sertanejo, começam a refletir sobre a vida, num exercício filosófico que demanda, antes de tudo, isolamento. 

Para lembrar um chavão exaustivamente usado por jornais, revistas e textos em geral, é seguro afirmar que, “em tempos de pandemia”, esse isolamento – sempre que é possível exercê-lo –, ainda que dentro de casa, nos leva a searas semelhantes às do geólogo e do funcionário público? De fato, pensamos em nós mesmos; no nosso lugar neste mundo; naqueles que nos cercam; e, continuamente, nas nossas experiências e lembranças. Somos, em meio ao caos de uma pandemia, impelidos à essa espécie de mergulho interior.

Dessa forma, destaco outro aspecto de “Vento do amanhecer…” e “Viajo porque preciso…”: o caráter essencial e misterioso da memória nas nossas vidas. Inventamos a linguagem para lidarmos com a natureza que nos cerca. Exercemos o ato de lembrar como parte do nosso eterno esforço enquanto raça humana de conferir sentido a essa mesma natureza. De levar, racionalmente, ordem ao caos. Esse sentido se aprofunda à medida em que a arte pode ser usada como uma forma de recriar a lembrança, numa busca incessante por uma experiência que não queremos que suma, como Serge Gainsbourg canta, sur la rivière du souvenir – pelo rio da memória.

A obra-prima de Marcel Proust foi publicada em sete volumes, os três últimos postumamente.

Tal procedimento estético tem um precedente célebre: “Em Busca do Tempo Perdido”, magnum opus extremamente debatido do francês Marcel Proust. Nele, somos imersos no universo de fins do século XIX que o Narrador, ora deitado em sua cama em Paris, ora após comer uma madeleine, tradicional bolinho francês, relembra: num átimo, provocado pelo que o autor entende como “memória involuntária”, a personagem se vê em Combray, pequena vila do interior da França em que nasceu e viveu a infância. As famílias do lugar, envoltas na rígida etiqueta francesa; as longas descrições das catedrais da vila; as reflexões acerca de sua curiosa decepção ao ver que a Duquesa de Guermantes, da aristocracia local, não se assemelhava aos reis e rainhas dos vitrais das igrejas, implicam numa busca para que aquilo tudo, existente apenas em seus pensamentos – já que todos que compartilharam daqueles anos em Combray se foram –, não se perca. Afirma um Proust nostálgico:

Em mim, tantas coisas foram destruídas, coisas que eu julgava fossem durar para sempre, e se construíram novas, dando origem a penas e alegrias novas que eu não teria podido prever então, assim como as antigas se tornaram difíceis de compreender (PROUST, 2016, p. 48).

Na obra de Aïnouz e Gomes, o geólogo se vê às voltas com as lembranças de um relacionamento acabado. Em “Vento do Amanhecer em Macambira…”, as experiências de infância, da família, e dos primeiros amores, obcecam e deslumbram o protagonista. Guardadas as devidas proporções, Macambira e o sertão, ou mesmo Combray, se assemelham como metáforas da reflexão existencial e se revelam de forma diferente para cada transeunte.

São nessas viagens em direção a nós mesmos, em nossa obrigatória reclusão, nos nossos quartos “escuros” e solitários, semelhante a Proust, que ativamos um pouco desse caráter extremamente criador e abismal da memória e do isolamento como chaves para tais meditações? Metáforas à parte, são em obras como a de Proust, de Condé e da dupla Aïnouz/Gomes, em uma estética introspectiva e íntima, que se produz aquilo que, afinal, parece cumprir uma das mais importantes funções da arte: antes de tudo, inquietar.

Referências

PROUST, M. Em Busca do Tempo Perdido: Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.