Thamara Amorim

Graduanda em Comunicação Social na UFPE. Escreve um pouco sobre literatura clássica e contemporânea, nacional e estrangeira. Mas (quase) sempre sobre literatura.

Ivan Ilitch somos nós

Em meio à pandemia do coronavírus, uma releitura de “A morte de Ivan Ilitch” de Liev Tolstói


Liev Tolstói foi um escritor russo, autor de livros como Ana Kariênina e Guerra e Paz, entre outros romances, contos e novelas. Foto: Divulgação.

Aparentemente, cresceram as buscas por “A peste”, de Albert Camus. É também notável o crescimento das vendas de livros como “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “Estação Onze”, de Emily St. John Mandel; desde que se iniciou o surto mundial da Covid-19, as pessoas passaram a ler mais sobre pandemias. Não todas! Algumas preferem buscar o alento imaginativo da literatura para refugiarem-se: Stephenie Meyer vai lançar mais um livro para a saga “Crepúsculo” . Vi uma extraordinária quantidade de pessoas adultas nas redes sociais relendo “Harry Potter ” e outros clássicos juvenis; de repente, estamos sob o agridoce feitiço da nostalgia. Também vi pessoas que, a propósito, pouco leem, comprando livros políticos como “1984” e “A revolução dos bichos”, de George Orwell; assistindo ao desastre – longamente iniciado! – que é o atual governo, sentimos a necessidade de pensar a história, o fascismo, e como que chegamos à tão degradante ponto?! Por outro lado, vi gente que não consegue mais ler. As atividades silenciosas e reflexivas tornaram-se tão labirínticas no nosso mundo frenético e globalizado que, quando este mesmo mundo pára, e paramos junto com ele, o silêncio e a reflexão nos aborrecem tremendamente.

Enquanto escrevo esta coluna, há 66 dias que não vou sequer até a calçada. Seguramente, é a maior quantidade de tempo que passei dentro de casa, do quarto para cozinha, da cozinha para sala de estar e, novamente, para o quarto…Durante esse período passei por todas as fases literárias citadas acima. A primeira delas, assim que as notícias formais e os trending topics do Twitter passaram a me sobrecarregar, foi a desesperada tentativa de esquecer a situação atual e ler desenfreadamente. Depois, no suprassumo da consequente nostalgia que persegue os isolados, comecei a reler alguns dos meus livros preferidos da infância e adolescência, experiência das mais interessantes e menos estéticas: alguns livros devemos deixar nos bons (e pouco exigentes) dias da puberdade. Mais tarde, já um pouco afastada dos noticiários, me peguei adicionando inúmeros livros sobre surtos virais na minha lista da Amazon, excessivamente curiosa acerca dos padrões históricos das pandemias. E então, motivada pela culpa do deliberado desligamento das notícias escabrosas do país, me deparei às voltas com  Žižek, Krenak e Marx – atualmente penso mais em como “tudo que é sólido desmancha no ar”. Finalmente, em meio ao torpor e a inquietação da excruciante situação nacional, à beira de uma ressaca literária, fui até a estante, meio nostálgica e meio sombria, e decidi reler “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Liev Tolstói. 

A releitura desse, que é um dos livros mais importantes na minha formação como leitora, foi, sem dúvidas, acertada. Em face da trajetória de um homem que, sozinho, espera a morte, sob o constante frenesi da hipocondria e o entorpecimento da sensação de negação e irrealidade, me perguntei: O que acontece quando nossos medos são válidos? Durante uma pandemia, a morte parece mais palpável, e os temores que a acompanham parecem menos com mania e obsessão para, subitamente, se tornarem legítimos. Logo, passamos a consumir o fim, o trivial ou o apocalíptico mais vorazmente. Claro, a morte sempre foi um tema de grande interesse público e continuará sendo, pois ainda em sua ausência, se faz inerente à nossa vida. Assim, poderia ter relido outros livros (Todos os homens são mortais, O diário de um homem supérfluo, Hamlet, O lobo do mar…), e pensei em todos eles. No entanto, o que me fez escolher essa novela de Tolstói, além da minha característica preferência pelo autor, foi a vontade de observar como uma vida simples se depara com a doença e com a morte e, mais importante, sente medo; experiência tão distinta e, curiosamente, similar à nossa, ainda que não estejamos doentes. O que me interessava, portanto, era pensar o desafio da ordinariedade, pois é com ela que estamos isolados em casa: nossa vida, por mais corriqueira e pacata que pareça, em constante revista. Parece vulgar demais falar da necessidade de reflexão durante a quarentena (assunto tão comum nos meus grupos familiares do Whatsapp), mas não é necessidade, é uma consequência do isolamento e, afinal, que há de mais vulgar que nós mesmos? 

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A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e, contudo, das mais terríveis.” 

Alto funcionário público, pertencente à burguesia russa, casado comodamente com uma mulher que o exaspera, pai de filhos que pouco o concernem, obcecado pelo trabalho e por sua posição social, Ivan Ilitch vive como qualquer senhor da classe média moscovita do século XIX. Depois de uma decepção profissional, sobe de cargo e o aumento de salário é suficiente para que compre uma nova casa, onde decide decorar os aposentos originalmente, com todas as qualidades da moda atual, claro. Durante a decoração, no entanto, machuca o lado esquerdo do corpo e adoece: encontra a morte pela primeira vez e toda a sua confortável vida perde o sentido. 

Primeiro, não há sintomas e orgulha-se de sua saúde: “Felizmente eu sou um tanto atleta. Outro no meu lugar, estaria morto.” – a semelhança com certo discurso contemporâneo é angustiante. Em seguida, ao perceber-se doente, irrita-se. É uma inconveniência tamanha, que não cabe nos horários de Ivan Ilitch. Mas ao questionar-se sobre a seriedade do problema, compreende que a situação é mais que apenas inconveniente – lembremos que a “gripezinha” já matou mais de 16 mil pessoas só no Brasil.  Por conseguinte, de pronto aterroriza-se. Sente-se demasiadamente só e a saúde e normalidade costumeira das outras pessoas o perturba. De médico em médico, sem a certeza de diagnóstico, cai em superstições,  questiona a ciência, surpreende-se com a própria insanidade. De início, o medo expressivo em adição à aparente regularidade do comportamento das pessoas ao seu redor, parece hipocondria e isola-se.

No isolamento da morte, então, acha o sofrimento de tal intensidade que parece irreal: “Não é possível que todos os homens estivessem condenados a sofrer um medo assim”. E, em um dos momentos que considero dos mais grandiosos na obra de Tolstói, Ivan Ilitch relembra o silogismo de Kiesewetter: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”. O protagonista, homem razoável, nota que a mortalidade de Caio é nada menos que plausível. Não obstante, a sua, tão homem quanto Caio, é impossível. Quem é Caio de quem nada sabemos? Quais são suas lembranças, de quê brincou na infância, por quem e pelo quê se apaixonou? Por qual ideia discutiu? Caio não tem nenhuma de nossas particularidades. E, apesar disso, na primeira vez que li esse trecho, achei que Caio éramos nós. Depois da releitura, contudo, penso que não somos Caio. Caio é, de fato, uma abstração científica e racional: nós somos a simplicidade, a vulgaridade e a tragédia de Ivan Ilitch. 

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Evidentemente, nem todo mundo vai morrer de coronavírus, apesar dos áudios hiperbólicos que às vezes recebo no Whatsapp. Esta não é a primeira e nem será a última pandemia, além de que, muitos de nós não teremos grandes problemas se infectados. Todavia, não sabemos exatamente para que país voltaremos depois disso e um surto como esse é bem mais que só uma crise sanitária. Decerto ficamos mesmo mais fatalistas.

Lembro do primeiro capítulo do livro, que inicia-se com a descoberta da morte de Ivan pelos seus amigos e colegas de trabalho. Acompanhamos, sobretudo, Piotr  Ivánovitch, conhecidamente amigo do protagonista, obrigado à ir ao funeral, sem muita disposição para isso. Na presença do conhecido morto sente-se chocado de medo, mas, depois, ao encontrar-se na sala contígua com o indiferente Schwarz, esquece-se da morte, destino de Ivan Ilitch e não dele, e vê-se muito tentado a jogar cartas. Contudo, aparece a viúva que, sabendo ser ele amigo do falecido e, também, advogado, o chama aos aposentos do marido para uma conversa. A mulher conta dos assustadores últimos dias do morto e Piotr, novamente, perturba-se: “Três dias de horríveis sofrimentos e depois a morte! É coisa que pode acontecer a mim também, a qualquer momento!”. Mas ao fim da conversa, sai Piotr e percebe que ainda é cedo; vai à casa de um amigo vivo jogar uma partida. Em contrapartida, no isolamento não temos a mesma sorte de Piotr. Sob o constante fluxo de notícias intimidantes, bem como, aos primeiros rumores da infecção de nomes conhecidos, nos deparamos com a morte e, diante do abismo coletivo, olhamos para o nosso abismo individual, sem sequer poder sair e, quem sabe, mitigar as preocupações. Em vez disso, temos que desinfetar as compras, higienizar o celular, passar álcool nas maçanetas, checar se nosso parente do grupo de risco tem seus talheres limpos e separados…

“Estar nu diante do mundo”

A busca por adequação diante dos estigmas que cercam a homossexualidade em “O que te pertence”, de Garth Greenwell, e “O quarto de Giovanni”, de James Baldwin


Foto divulgação

“Eu sou o homem, eu sofri, eu estava lá.” É esta a memorável frase de Walt Whitman no poema Canção de mim mesmo (1855) que serve de epígrafe a O quarto de Giovanni (1956), segundo romance de James Baldwin, uma das mais impressionantes obras da literatura estadunidense. Mais tarde, no seu primeiro livro O que te pertence (2016), Garth Greenwell escreve sobre o desejo de “estar nu diante do mundo”, sentimento de Whitman no mesmo poema usado por Baldwin, que seu inominado protagonista jamais entendeu, até estar em uma trilha em Blagoevgrad na Bulgária, “observando sementes que caíam como a neve, (…) o que eram essas sementes, senão o ímpeto procriador do mundo”. E, subitamente, sem que nunca antes tenha experimentado pela Canção uma ternura tão forte quanto seus alunos sempre sentiam, encontra-se ansiando pelas palavras do poeta: “Irei à margem junto ao bosque e ficarei sem disfarces e nu, Estou louco que ela entre em contato comigo.

Baldwin abre seu livro com Whitman porque, assim como ele, em O quarto de Giovanni também “canta a si mesmo”. A despeito da dissipação identitária que seus editores achavam que tinha sofrido ao escrever um romance sem personagens negros, quando era essa sua designada recognição e seu público, o autor, ainda sob os braços da ficção, narra um pouco de seu envolvimento com Lucien, um jovem sueco à quem dedica o livro. De maneira similar, o faz Garth Greenwell na narrativa do jovem americano expatriado na Bulgária, que tem um acentuado tom autobiográfico, e que depois entende-se a sua segunda obra, Cleanness (2020), uma característica literária na qual alguns vêem um toque proustiano. Não sei se vai tão longe, mas sua estreia como autor é excepcionalmente promissora e O que te pertence é considerado, por boa parte da crítica americana, o “romance gay dos nossos tempos”.

Reprodução: Capa do romance “O que te pertence”, Garth Greenwell, Todavia, 2019

O narrador, tal qual foi o próprio Greenwell, é professor, vindo do Kentucky para trabalhar no American College of Sofia na Bulgária. O autor não o nomeia, mas o faz ao garoto de programa búlgaro com quem o protagonista mantém uma intrincada relação de obsessão e dependência, Mitko, nome da primeira parte do livro, publicada como novela antes de Greenwell engrandecê-la ao nível de romance. E é, de fato, um processo de engrandecimento, pois a partir daí o livro desenvolve-se de maneira vertical: o que pode aparentar, inicialmente, concernir muito mais à atmosfera sexual, o famoso lugar comum da literatura LGBT, avança à uma construção tão bem sucedida da psicologia de personagens que me peguei pensando em Dostoiévski, Katherine Mansfield e, especialmente, James Baldwin. 

Evidentemente, as narrativas se assemelham, mesmo Greenwell admite a inspiração: o narrador de O quarto de Giovanni, o também americano David, muda-se para Paris onde envolve-se com um jovem italiano chamado Giovanni, e o relacionamento entre ambos tem muito da complexa fixação que vemos no romance de Greenwell. A começar por seus narradores, tanto o professor quanto David deixam a moderna America para partirem, o primeiro para a pobre e tradicional Bulgária, o segundo para a bela e libertária França. Perante a face do deslocamento de onde pertenciam, e talvez, como indica David ao questionar se nossa casa não é uma “condição irrevogável”, ainda pertençam, os dois personagens encontram-se deliberadamente desterrados. Mas, pensar na casa como determinante, esse espaço de onde Whitman diz nascermos “aqui, de pais nascidos aqui de pais daqui, e seus pais também”, é perceber David e o professor tal qual o eram em Nova Iorque ou no Kentucky: dois meninos vacilantes sob a exclusão que persegue a não-heteronormatividade. 

O quarto de Giovanni, James Baldwin, Companhia das Letras, 2018

Suas circunstâncias, no entanto, são distintas. David escolhe Paris pela aura de autonomia que acredita encontrar em tal lugar, vindo de um espaço em que a homossexualidade, percebida em si mesmo desde a adolescência, é ilegal. Já o professor, que cresce no sul dos Estados Unidos durante o surto de Aids, não fita o estigma de criminoso, mas da imoralidade, do que é sujo. Relembra a primeira vez que apaixona-se, ainda muito jovem, por um garoto com quem passa a noite abraçado em seu quarto na casa do pai, onde acorda com o odor vexatório do vômito de seu amigo. Mais tarde, o mesmo garoto encontra-se com uma repentina namorada sob a supervisão vergonhosa e, perturbadoramente, excitante do professor que, depois, encerra-se na “dor da exclusão” sem desistir da escassa “satisfação do desejo” que sente naquele momento, embora, diferente de David, seja abertamente homossexual. 

O professor não admite o “armário”, mas decide mudar-se para um país em que o armário, ainda aberto, é inevitável. Em diversos momentos, a sutileza da indignidade com a qual é tratado em certos ambientes o afeta. David, todavia, vai à Paris em busca de alforria, mas Paris só liberta os escravos à noite, o que não o livra da clandestinidade. “Estar nu diante do mundo”, portanto, acaba por ser apenas um exercício de palavras, já que David e o protagonista de Greenwell escolhem, de maneiras distintas, a contenção. Mas afinal, como afirma David, “as pessoas que julgam ter força de vontade e controlar o próprio destino, só conseguem continuar acreditando nisso tornando-se peritas em enganar a si próprios.” Ambos desfrutam de pouca possibilidade de escolha sobre eles mesmos, quando as narrativas que existem à seu respeito são extremamente limitadas: à um, o crime de pederastia, ao outro, à vergonha da doença. 

Logo, a clandestinidade se faz persistente nos dois livros e, é em cenários furtivos que o professor conhece Mitko e David, Giovanni. Os dois primeiros acham-se nos banheiros do Palácio Nacional da Cultura, ambiente sabidamente promíscuo. Mitko, no entanto, age com extrema desenvoltura e agrada de pronto ao professor, mais tarde,  de joelhos sozinho em um dos boxes: depois de pago, Mitko efetua a primeira de suas traições, finge um orgasmo e vai embora antes de satisfazer inteiramente seu cliente. Cliente ou priáteli, a ambígua palavra búlgara para amigo, que usa tanto com ele, quanto para designar a maioria dos homens com os quais negocia, sem deixar de conferir à mesma palavra um certo tom de maior intimidade quando refere-se ao americano. Este, bem como o livro de Baldwin, é um texto de linguagem, e a combinação de inglês e búlgaro, tal qual a de inglês e francês na narrativa de Giovanni, marca a comunicação nos dois romances e entre eles. 

Curiosamente, Giovanni é italiano. Contudo, o francês (não traduzido) está na maioria de suas falas e há sempre algo de afetação e magnetismo em todas elas, que fazem de David e dos outros rapazes no bar onde Giovanni trabalha e, pela primeira vez se encontram, instantaneamente encantados. “Vive L’Amérique”, diz com ironia em certo ponto da conversa inicial que os levará ao quarto. Saem do bar, para ir à outro, Giovanni, David e mais dois personagens, que ambos concordam serem desprezíveis, sendo um, o chefe de Giovanni e o outro, seu amigo. Lá um dos personagens secundários diz ao orgulhoso narrador: “Se você ficar se protegendo o tempo todo, vai acabar preso dentro do seu próprio corpo sujo, pra sempre, pra todo sempre – como eu.” Com efeito, a pretensa virilidade de David cessa e já naquele dia vai ao quarto de Giovanni, onde a saída é tão estreita quanto o recinto:  “Está mais do que claro que você ia ter que conhecer meu quarto mesmo, mais cedo ou mais tarde”.

Mitko jamais leva o professor à lugar nenhum que seja seu, porque não há lugar nenhum para Mitko, sua exclusão é tamanha que sua existência parece absurda. Chega a dizer: Men mé niama, esquisita expressão búlgara explicada pelo professor como “Estou acabado, ou Não estou aqui, literalmente Não existe nenhum eu”. Há o tempo inteiro grande mistério acerca do personagem que vemos em todos os momentos ao lado do narrador, de quem depende financeiramente inúmeras vezes, seja no quarto dele ou em um hotéis ou outros ambientes públicos. O espaço de Mitko é sempre noturno e urbano. A Bulgária é contexto essencial na narrativa e aparece o tempo todo com substanciais detalhes, numa empreitada de ser contradição e explicação a respeito do casal. Porém, gostaria de saber mais sobre como o professor chegou ao país, ainda que tenha esclarecido a escolha controversa de um lugar conhecidamente conservador: “Talvez fosse o caso, simplesmente, de eu querer que o mundo tivesse um sentido, e que o sentido que eu queria que ele tivesse fosse de castigo.”

Essa lógica de castigo também assombra David, a tal ponto que o quarto de Giovanni, onde passa a morar por um período, torna-se asfixiante e claustrofóbico. Giovanni, aflito em seu desamparo, sob a frequente ameaça da miséria e da prostituição (destino já certo de Mitko), o questiona: “Ça ne manques pas, les chambres. O mundo está cheio de quartos – quartos grandes, pequenos, redondos, quadrados, quartos bem altos e bem baixos -, tem quarto de tudo que é tipo! Em que tipo de quarto você acha que o Giovanni deveria morar? Quanto tempo acha que levei para encontrar o quarto onde estou? E desde quando, desde quando você odeia tanto o quarto? Desde quando? Desde ontem, desde sempre? Dis-moi.” Efetivamente, a frustração do desentendimento desemboca em violência nos dois relacionamentos. Mitko bate no professor quando este o manda embora pela primeira vez; Giovanni e David se martirizam de maneira mais sutil.

É desejo do próprio E. M. Foster que Maurice (1971), romance gay escrito em 1913, seja publicado postumamente, quando encontrará leitores mais novos que seu autor. Então, garante em seu posfácio ter sido uma escolha “vital” deixar que o livro se passe em uma “Inglaterra onde ainda era possível perder-se”, quando suas florestas não tinham perecido depois de duas grandes guerras, “não há floresta ou charneca para onde escapar hoje” e a natureza extensa e profunda era imprescindível a um final feliz para um casal homossexual, condição que Foster tinha ao escrever o romance. Certamente, a Bulgária ainda tem suas florestas, e é perante a relva quase erótica, para Whitman “a flâmula do meu ânimo, cerzida em esperançoso tecido verde”, que o professor faz a maioria das descobertas sobre si mesmo, ao ar livre, a despeito de sua “vida de inibição e chances perdidas”. É ao ar livre, do mesmo modo, que David vai ao encontro de sua própria casa numa manhã que lhe “pesa nos ombros” e abandona o que foi ali. Mas o que descarta, “o vento devolve”. Estar nu diante do mundo, seguramente, não inclui armários.

Poeta ou Poetisa?


Foto: Divulgação.

Na janela da sala dos Musgrove, a paciente Anne Elliot debate com Capitão Harville sobre a inconstância do amor das mulheres. Harville fundamenta-se nos livros para afirmar que as mulheres são demasiadamente instáveis, porventura um leitor assombrado pela indignação de Hamlet, Harville, certamente, lembra de “Leviandade, teu nome é mulher”. Anne, então, argumenta que nenhuma referência aos livros pode jamais ser admitida: “Os homens tiveram todas as vantagens contra nós, (…) a pena estava em suas mãos”. De fato, ao lado deles, o Capitão Wentworth move uma pena que decidirá o futuro de Anne, lhe escreve a carta na qual a pede em casamento, trecho que tornou-se um dos mais importantes da obra de Jane Austen.  

Entre meus amigos leitores, acredito só conhecer dois que leram alguma coisa de Austen. Um livro só e jamais comentam sobre a autora. Outros preferem dizer que ela não faz o seu estilo, estilo esse que permite Balzac e Wilde, ambos, assim como ela, preocupados em retratar a burguesia de seu país e época. O caso é que apesar do gênio de Jane Austen, ainda há um incômodo substancial com sua obra por parte de muitos leitores, especialmente homens, que tendem a considerar seus livros, usando uma expressão já antes empregada por Otto Maria Carpeaux, “tea-table romances”. Tal estigma fixou-se possivelmente por seus livros serem protagonizados por mocinhas confinadas à salas de estar e bailes, a experiência corrente da mulher de classe média na era regencial inglesa, quando a experiência dos homens de mesma classe e tempo nos interessa até hoje. Ou talvez por que a assinatura feminina seja, para muitos, ainda que inconscientemente, um atestado de inferioridade intelectual. Ora, a pena masculina decidiu a vida das mulheres dentro e fora da ficção por séculos, não é à toa esse afastamento da literatura produzida por elas.

É uma verdade universalmente conhecida que, na história da literatura, as aparições de mulheres e homens são desiguais por completo. Temos poucas mulheres no cânone e, no Brasil, ainda não superamos nossa mania de Clarice. Longe de mim querer afastar qualquer leitor de sua obra no ano de seu centenário, mas, talvez, seja o momento de pararmos de citar A hora da estrela como prova única de que as mulheres figuram em nossa biblioteca e, quem sabe, ler Carolina Nabuco, Maria Firmino dos Reis ou Júlia Lopes de Almeida, nomes que nos passam inteiramente despercebidos da escola à livraria. Não se nega o brilhantismo de Clarice Lispector, bem como, não se deveria negar a existência de outras gigantes, principalmente quando alguns autores meia-boca conseguiram e ainda desfrutam de considerável aclamação. 

Foi pensando em tais desigualdades históricas que, em seu ensaio Um teto todo seu, Virginia Woolf (ou sua narradora ficcional, Mary Seton) criou a famosa anedota sobre Judith, a irmã talentosa de Shakespeare que, apesar de tentar a sorte pelo mesmo caminho que o irmão, não consegue suceder por causa das pressões patriarcais: às mulheres faltavam educação, oportunidade e dinheiro, sobretudo antes do século XVIII. Por conseguinte, há pouco tempo desde que as mulheres passaram a escrever e serem publicadas, e menos ainda desde que sua literatura deixou de ter pseudônimo. Como se dá, assim, tal aceitação tão tardia? Com séculos de disparidade entre a pena masculina e feminina, será que a questão que assolou Virginia Woolf em 1928, já pode ser esgotada?

Em 1977, Clarice Lispector entrevistou Lygia Fagundes Telles. Na introdução dessa entrevista, Clarice fez uma observação curiosa: na língua portuguesa, diversamente de várias outras, se usa poetas e poetisas, autor e autora. Para ela, o termo poetisa ridiculariza a poeta mulher. Portanto, conclui, “falemos dela (Lygia) como ótimo autor”. Não é exclusividade de Clarice esse afastamento da identificação feminina na literatura, a própria Virginia Woolf reclama ser fatal para a obra de um autor que ele fale a partir de seu gênero. Outras autoras se negaram a aceitar o peso de sua assinatura: ninguém quer ser uma “escritora feminina”. Isto porque, um livro escrito por uma mulher carrega previamente, certas nódoas. A mais fatal delas, é a maldição do chick-lit. Chamo de maldição porque essa marca persegue e, muitas vezes, confina a maioria das autoras de grande circulação no mercado. Basta observar as capas internacionais horrendas da tetralogia napolitana de Elena Ferrante, livros de substancial qualidade literária, escondidos no invólucro deselegante da literatura de banca de jornal. Aparentemente, os motivos são comerciais, mas nem todos os livros escritos por homens passam pela pressão de terem as capas novelescas de Dan Brown. 

Tal estigma afasta leitores de todos os gêneros. Lamentavelmente, um livro de autoria feminina nas mãos de uma mulher ainda pode transformá-la na figura juvenil, pouco intelectual e mais ingênua das mocinhas austenianas, Catherine Morland, envergonhada de não ter lido Pope ou a última edição do Spectator, esperando ansiosamente voltar aos braços de Udolpho em seu quarto, com a certeza de que esse tipo de leitura é melhor ser feita à meia-luz. Lá fora, citamos Dostoiévski. É que não nos agrada compartilhar o gosto das mulheres, porque seus interesses e entretenimentos são quase sempre ridicularizados. Queremos ser o conflituoso Konstantin Levin, leitor voraz de Schopenhauer, David Copperfield que refugia-se em Dom Quixote em sua infância terrível, ou ainda Yuri Jivago, preocupado com a arte em Crime e Castigo mesmo em tempos turbulentos. 

Todavia, vale dizer que não estamos mais na desolação quase completa de Woolf em uma das bibliotecas de Oxbridge, na tentativa de achar solução para o problema da relação entre as mulheres e a ficção. O problema não se resolveu, mas já percebemos nossas disparidades históricas e muitos de nós nos incomodamos com a consequente herança disso na literatura até a contemporaneidade. Projetos (justíssimos!) como o Leia Mulheres espalham-se pelo país inteiro. E aqui, em terras pernambucanas, também temos nossas contribuições. A revista Hexágono, fundada pelo autor Sidney Rocha, traz, em sua segunda edição, ensaios sobre seis autoras do século XIX ao XX, que nasceram e/ou viveram em Pernambuco, entre elas, nossa tão citada Clarice e outras que ainda valem a pena conhecer, tais como, Edwiges de Sá Pereira, primeira mulher nomeada a Academia Pernambucana de Letras e, a poeta Celina de Holanda . É possível ler a revista, ambas as edições, no site: https://arevistahexagono.wixsite.com/hexagono

Foto: Reprodução

Com efeito, alguns podem ainda argumentar que mulheres já recebem grandes prêmios, como Ana Paula Maia, única pessoa a ganhar duas vezes o Prêmio São Paulo de Literatura. Ou que mulheres já são citadas com dignidade pela crítica, como é o caso de Ana Cristina Cesar e Natalia Borges Polesso, vencedora do Jabuti de 2016. No entanto, a assimetria da aceitação entre homens e mulheres na literatura ainda é tão aflitiva que nos traz à memória o escritor inglês Arnold Bennett, desconsiderando a maioria das mulheres romancistas, com exceção de Emily Brontë, ou aquele leitor que só consegue falar de Lispector, como se citar uma ou poucas mulheres extinguisse o transtorno. Então, até o momento não é hora de darmos por concluído o assunto. Inclusive porque, se não nos é possível, como sociedade, respeitar os corpos das mulheres, já é certo respeitarmos suas mentes? Porém, aqui não iremos tão longe! Vamos apenas concluir com a recomendação de observarmos nossas leituras, às vezes a falta de autoras é surpreendente e, claro, simbólica.