Buddies: Arthur Bressan e o cinema de urgência

Recentemente restaurado, Buddies foi o primeiro filme a abordar o tema da AIDS no cinema em 1985

Imagem extraída do filme Buddies (1985). David Schachter  (à esquerda) e Geoff Edholm (à direita). Foto: Reprodução.

Nomes e datas sobressaltam na tela. Eles aparecem ao ritmo do som de uma velha impressora matricial, formando uma lista que parece interminável. O que todos esses nomes teriam em comum? Seriam de mortos vítimas da AIDS nos Estados Unidos, nos primeiros anos da década de 1980. Os dados são aparentemente ficcionais e surgem na primeira cena do filme “Buddies” (1985), primeira obra cinematográfica a respeito do tema. O roteiro foi escrito em cinco dias e filmado em nove, uma rapidez que se assemelha à urgência das questões tratadas no filme.

 O cineasta Arthur J. Bressan Jr. assina o roteiro, a direção e a produção deste que seria o último filme de sua carreira, já que veio a falecer dois anos após o lançamento da obra, vítima de complicações em decorrência do HIV. A trajetória de Arthur Bressan no cinema é permeada de referências ao universo homossexual, sendo considerado um dos pioneiros do cinema gay na década de 1970. Com produções que passeiam por curtas, documentários, longas ficcionais e filmes de conteúdo erótico, o cineasta recebeu maior atenção dos críticos a partir de obras como “Passing Strangers” (1974) e “Abuse” (1983), além do documentário “Gay USA” (1977), registro histórico das passeatas pelos direitos da comunidade LGBTQIA+.

Em Buddies, acompanhamos a história de Robert Willow (Geoff Edholm), paciente de um hospital de Nova York que passa a ser visitado regularmente por David Bennett (David Schachter), um voluntário – buddy – que integra um programa de assistência a portadores de HIV/AIDS. A narrativa é construída a partir desse encontro entre os dois personagens, que são praticamente os únicos a aparecerem em cena. Pontualmente, conhecemos outros personagens apenas como vozes ao telefone, ou os vemos como vultos em segundo plano.

David é um diagramador freelancer de livros e impressos. Seu interesse em se tornar voluntário do programa surgiu enquanto estava trabalhando em uma publicação de textos a respeito da síndrome. Os detalhes sobre a sua vida, como o relacionamento estável que mantém com seu namorado Steve, ou o convívio afetuoso com seus pais, estão presentes nas conversas com Robert no quarto do hospital. Inicialmente, os encontros são marcados por diálogos tímidos, sobretudo por Robert, reticente com a bondade do estranho.

Na medida em que os encontros ocorrem, a relação entre eles se torna mais intensa. Temas como sexo, política e a questão dos direitos para a comunidade gay são abordados de maneira quase didática. Vale ressaltar que a obra é produzida durante o governo do presidente Ronald Reagan, que além de ignorar o crescente número de casos, dificultava a concessão de verbas para os estudos sobre o vírus. A luta pelo acesso aos medicamentos e os debates em torno do tema podem ser vistos também no filme “Clube de Compras Dallas” (2013) de Jean-Marc Vallée.

Robert trabalhava como jardineiro quando foi acometido pelo vírus. Sua fragilidade ante a iminência da morte aparece na narrativa como um jogo dual: a revolta e o medo são contrabalanceados pela consciência e elaboração racionais sobre a doença. Em uma das cenas mais fortes do filme, David apresenta para Robert alguns textos que compõem o livro no qual está trabalhando, uma coletânea de artigos com “diferentes pontos de vista” sobre a AIDS. Em um deles, a síndrome é descrita como um castigo de Deus, uma espécie de “vingança da natureza sobre uma minoria antinatural arrogante e desrespeitosa pela lei elementar”. As indagações sobre o discurso fundamentalista são enfatizadas por Robert e retomadas por David em uma outra passagem, quando este afirma que “muitas pessoas imaginam que Deus é exatamente como elas são. Uma grande cópia de si mesmas”.

Arthur J. Bressan Jr. produziu filmes como “Passing Strangers” (1974), “Abuse” (1983), e o documentário “Gay USA” (1977). Foto: Reprodução.

A escritora e ativista Susan Sontag no livro “AIDS e suas metáforas” (1989) problematiza os discursos que reforçavam estigmas sobre os portadores do vírus nos primeiros anos da síndrome. Segundo a autora, a AIDS seria uma doença “que leva muitos a uma espécie de morte social que precede a morte física”. Isso aparece de forma clara no filme, como na cena em que Robert ironiza os protocolos impostos pelo hospital aos visitantes, ou quando relata sobre o medo dos amigos mais próximos. O programa de voluntariado, que proporcionou o encontro dos protagonistas, ilustra a importância daqueles que se faziam presentes no momento mais crítico da epidemia.

Os primeiros casos foram noticiados em meados de 1981. O boletim emitido pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, descrevia o caso de cinco jovens homossexuais da Califórnia internados com pneumonia. Todos apresentavam um quadro semelhante, o que fez despertar um alerta na comunidade científica. Após a emissão do primeiro boletim, os meios de comunicação passaram a relatar o aparecimento de novos casos. Neste período, muitos profissionais de saúde adotavam um discurso moralista que, muitas vezes, aproximava-se do conservadorismo religioso ao condenar a conduta sexual dos indivíduos. Rapidamente, a doença até então pouco conhecida, passou a ser chamada de “peste gay”.

A sensibilidade na forma como o tema é retratado em “Buddies”, humanizando o portador do vírus no período em que Hollywood evitava o assunto, é algo que merece destaque. Ao longo da história do cinema, a homossexualidade foi constantemente representada de maneira pejorativa. Através de personagens caricatos, com enredos que aproximavam os homossexuais à um comportamento criminoso e doentio, os filmes atuavam no imaginário popular como uma espécie de dispositivo cultural, alimentando os discursos conservadores a respeito da comunidade LGBTQIA+. Para um melhor entendimento a respeito das representações da homossexualidade no cinema, vale a pena conferir o documentário “The Celluloid Closet” (1995), escrito e dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, e baseado no livro homônimo de Vito Russo.

Arthur Bressan faz da sua obra um grito político em que a palavra de ordem é urgência. Era preciso questionar a ausência de uma representação humanizada sobre os portadores da síndrome (na imprensa, no cinema e nos debates públicos); era preciso indagar as autoridades sobre o descaso nos investimentos na área da saúde, com pesquisas que visassem oferecer uma sobrevida melhor aos pacientes; era imprescindível problematizar os discursos fundamentalistas que culpabilizavam as vítimas; era preciso ressaltar a importância política dos grupos que lutavam pelos direitos em jogo; era urgente falar sobre afeto, empatia e esperança.

Em uma trágica ironia do destino, além do diretor Arthur Bressan, o ator Geoff Edholm faleceu anos mais tarde por complicações em decorrência do HIV. Em 2018, após uma intensa mobilização de Roe Bressan, irmã de Arthur, o filme foi restaurado e encontra-se disponível em plataformas com serviços de streaming a exemplo do Mubi. Ao abordar a relação entre política, ciência e religião, em temas como o fundamentalismo e a criminalização das minorias, a obra permanece atual, viva e pulsante. Um convite a todas as pessoas que acreditam no poder mobilizador da arte. Como diria Caio Fernando Abreu em sua “Última carta para além dos muros”: a vida grita. E a luta, continua.

* Rodrigo Araújo é doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco e desenvolve pesquisas na área de História Contemporânea e História do Brasil República.

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