Cais do Agreste: coletivo de artistas movimenta a cena independente de Caruaru

O projeto é uma iniciativa de um grupo composto por nove artistas da região e pretende alcançar novos públicos

“Cais… Em terras Agrestinas… 

O embarque e o desembarque… 

 Um movimento, que une… 

Agrega… Se faz Plural.”

Kelly Moura

Cais, no dicionário: substantivo masculino que significa a “estrutura que permite e facilita o embarque e o desembarque de cargas e passageiros”. Em Caruaru, esse significado se expande em um novo projeto intitulado Coletivo de Artistas Independentes do Agreste (CAIS). Da união do compositor e cantor Everson di Melo e do produtor musical, cantor e compositor Matheus Ferraz, surgiu o mais recente projeto musical caruaruense que se concretiza numa movimentação que tem rendido bons frutos. O projeto teve início no ano passado, final de agosto.

A ideia do Cais é ser um coletivo. Não uma banda com uma liderança específica, mas um conjunto de compositores e artistas que contribuem entre si. Everson diz que “o próprio nome Cais já traz o significado sobre esses barquinhos que estavam isolados nessa tempestade da pandemia. Eu estava meio sem sentido, sem saber se iria voltar para a arte ou não, e o coletivo foi um norte. Foi um cais literalmente, a gente conseguiu ancorar ali e ver que tinha muita coisa em comum”.

Os dois precursores se conheciam desde pequenos. Matheus seguiu sua carreira tocando em bares e Everson trabalhando no ramo das drogarias. No ano passado, o então farmacêutico sentiu uma necessidade de voltar a compor. Em setembro, Matheus postou um vídeo no Instagram que chamou a atenção do colega e em meio  aos comentários, surgiu o convite para um encontro na casa do compositor para conversar, mostrar e tocar um pouco das suas composições individuais.

Na outra semana, Matheus foi novamente à casa de Everson e levou a produtora cultural Kelly Gomes. Era mais um momento de encontro para tocar e compartilhar experiências e trabalhos que estavam sendo feitos por cada um.

Dias depois, ele propôs que sua amiga, a cantora e compositora Bianca Mota, também fosse a um desses encontros. A partir disso, foi começando a frequência de reuniões nas quintas à noite. Em seguida, veio o músico, compositor e poeta Gael Vila Nova e a intérprete Gabriella Lorena, amiga de Everson. Logo depois, entrou no grupo o cantor e compositor Janduhy Nascimento, ex-integrante da banda caruaruense 70 Mg e o designer e produtor musical Murilo Carmo. Na sequência, o ator e intérprete Jackson Freire que também sugeriu o ator e produtor cultural Rosberg Adonay.

Kelly gostou muito do que viu e percebeu que essas reuniões poderiam dar em algo mais. “Isso tem que sair dessa sala, tem que ir para o mundo”, ela disse. Com isso, pensaram em se organizar mais seriamente e submeter o projeto no Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), um dos mecanismos de fomento e difusão da produção cultural do estado. 

Muitos, são projetos autônomos, como o Cais do Agreste. Ano passado, dos 242 projetos selecionados, 39 são de proponentes que nunca antes haviam aprovado projetos em editais governamentais, o que equivale a uma renovação superior a 15%. O edital deste ano ainda está na fase de pré-análise documental, previsto para ser divulgado até o final do mês. Além disso, editais como a Lei Aldir Blanc tem auxiliado na captação de recursos para a viabilização de muitos projetos autônomos em Pernambuco.

O grupo pretende se organizar de uma forma colaborativa, a fim de dar visibilidade à produção e auxiliar na carreira individual dos artistas. Foto: Arquivo pessoal

A experiência da produtora cultural se consolidou como uma grande aliada para o processo de inscrição. Cada integrante possui composições individuais, e a parceria entre os nove acarretou na produção de mais uma. Com o agravamento da pandemia, o projeto teve suas atividades paradas durante um período, mas recentemente voltaram a se reunir de forma remota e as composições continuaram acontecendo. O desenrolar das atividades acabou rendendo o @caisdoagreste, página do Instagram iniciada em março, para divulgar o trabalho.

Além disso, irão sair esse ano o single de Gael Vila Nova e o EP de Bianca Mota com participação de Ferraz, Paulo Marcondes, Petrucio Cruz e Isabela Moraes. O coletivo participa contribuindo na produção desses lançamentos individuais. “A gente quer poder contribuir ao máximo, seja com divulgação, com a mão de obra. Um faz a guitarra, o outro faz a produção, e assim a gente se ajuda”, diz.

Em relação ao futuro do Cais do Agreste, o coletivo considera também a inserção de artistas que morem em outras cidades além de Caruaru. “A ideia é ser um coletivo que consiga abraçar artistas da região,  pessoas com essa vontade de participar em conjunto. Juntos, ajudamos as pessoas individualmente e enquanto coletivo”, afirma. 

Everson conta que além do perfil do Instagram, o coletivo tem planos de iniciar um canal no YouTube, com vídeos em melhor qualidade. Nele, o foco será mostrar o andamento dos processos. Pela pandemia e a dificuldade de se encontrarem, eles não estavam conseguindo produzir com tanta precisão para a plataforma. 

A maior parte do trabalho é autoral, mas também são feitas algumas releituras e homenagens. O foco nesse formato se dá porque quase todos os participantes têm músicas que estão paradas, e o Cais se consolida como uma porta para mostrar um pouco do trabalho de cada colaborador.

O coletivo pretende montar espetáculos na intenção de formatar uma espécie de espetáculo musical. De forma similar ao coletivo Reverbo, que reúne artistas independentes de forma colaborativa, o projeto reúne diversas experiências e influências artísticas no campo musical, as quais pretendem mostrar, no palco, uma mescla de manifestação teatral aliada à música.

O Cais do Agreste tem importância pelo seu foco em fomentar e estimular a cultura, principalmente pela grande carência existente em tantas regiões e, ainda que de forma menor, presente também em Caruaru. Há, cada vez mais, a necessidade da geração de movimentos que abracem a coletividade como um foco de esperança. O coletivo segue dando continuidade aos seus processos de criação, composições e parcerias, mostrando a garra e força de quem caminha de mãos dadas.

Cais do agreste

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