Artigo de opinião

O lugar onde habita o vazio: a arte como espaço de representação

Fernanda Misao em fotografia experimental sobre como a ausência poderia ser retratada em uma imagem. Foto: Acervo pessoal

“Como expressar um sentimento da ordem do inapreensível? Do inconsciente? Como transformá-lo em imagem? A fotoperformance O Lugar Onde Habita o Vazio (2020). Composta por 9 autorretratos, a série é uma tentativa de expressar o afeto que não mente: a angústia. Em tempos de tantas mortes e incertezas, a arte vem expressar aquilo que não é possível ser alcançado com palavras e transborda através do corpo.”

É assim que a produtora, fotógrafa e taróloga Fernanda Misao introduz a sua série de fotografias intitulada O Lugar Onde Habita o Vazio (2020), que segundo a artista, nasceu após um processo de investigação interna. “Sempre fui uma pessoa que gosta de compreender o que há por trás do funcionamento psíquico humano. Estudo comportamento e psicologia há muitos anos e durante a pandemia, em 2020, buscando ocupar a cabeça e seguindo essa minha curiosidade, comecei a estudar psicanálise sob um viés Lacaniano e pensando formas de mesclar esses estudos com minhas áreas de atuação: cinema e fotografia”, conta Misao sobre como surgiu a ideia da série de fotografias. 

Nove fotografias de arte de tons avermelhados com uma corda vermelha, as imagens vão ficando distorcidas.

O Lugar Onde Habita o Vazio (2020), Fotoperformance produzida durante a pandemia da Covid-19. Foto: Divulgação/Reprodução

Seria possível definir arte? É possível chegar a um consenso para responder essa pergunta de forma objetiva? O fato é que essas perguntas surgem porque não há uma forma única de representar. A arte, dentro de suas diversas funções, pode ter o papel de contar histórias, provocar reflexões, educar e representar a realidade, assim como pode se abster de significação, bastando-se em si mesma. No entanto, Misao se aproxima de dois aspectos dessas significações para representar sua arte: imaginação e expressão. “A proposta de fotoperformance surge da tentativa de simbolizar o inalcançável, mediante a representação imagética: a angústia. Tão presente no nosso dia a dia pandêmico, o isolamento, as mortes, as incertezas, o contexto político, tudo isso alcança espaço dentro do vazio inerente à existência humana”, afirma. 

A fotógrafa também menciona que “as fotografias são pensadas como uma sequência, onde os fios vermelhos, simbolizando essa vida pulsante em nós, se misturam a um emaranhado de emoções que escapam à palavra e se apresentam por intermédio dessa imagem, que vai perdendo a nitidez e se tornando abstrata à medida que a sensação de angústia aumenta.” Mente e corpo estão em sintonia na obra de Misao. O corpo pode ser lido e interpretado, podendo ser, inclusive, a própria expressão da arte. Assim como Ney Matogrosso usou a voz e o corpo durante a performance da banda Secos & Molhados em 1970, durante a ditatura militar no Brasil, com uma apresentação provocativa, gerando revolta dos conservadores ao se apresentar com um visual andrógino – o mesmo utilizado por David Bowie no alter ego Ziggy Stardust. Apesar dos dois artistas serem de contextos diferentes, ambos utilizaram o corpo como forma de se enunciar. 

Similarmente, no que se refere a uso do corpo como expressão artística, Fernanda Misao, atravessada pelo simbólico, o imaginário e o real, criou a série de fotografias performáticas como forma de representar um sujeito suspenso, nas quais, o contexto pandêmico proporciona na mente humana: tormento e aflição. “A partir da psicanálise, eu compreendi que o psiquismo humano funciona atravessado por três registros: simbólico, imaginário e real. Sendo que o simbólico seria o lugar da linguagem, onde o sujeito se expressa consciente ou inconscientemente através dos significantes. O imaginário seria um registro psíquico do ego, onde esse sujeito busca encontrar a completude através de uma projeção de algo externo a ele, e por fim temos o real, que não deve ser confundido com a noção de realidade, pois, para Lacan, o real seria o impossível, aquilo que o sujeito não alcança através da linguagem, da mente consciente. O sentimento se expressa em nossas ações e também através de produções artísticas”, descreve. O interesse pela mente, corpo, movimento e a busca pelo eu estão muito presentes na vida da artista e estão presentes em trabalhos de fotografia dela como o espetáculo Meia Noite (2019), de Orun Santana, onde o artista, apresenta a capoeira como elemento do movimento e a relação com o corpo marcado pela memória, pela sua trajetória e ancestralidade.

Corpo, memória e ancestralidade nas fotografias do espetáculo Meia Noite de Orun Santana em 2019. Foto: Divulgação/Reprodução

Na história, em um contexto semelhante ao da Covid-19, que foi a Gripe espanhola, muitos artistas também expressaram esses sentimentos através da arte, a exemplo de Egon Schiele, o pintor morreu aos 28 anos, vítima da gripe espanhola, três dias depois de perder a mulher, também para a gripe e grávida de seis meses. Egon Schiele, pintou sobretudo autorretratos que apresentavam um homem observador de si mesmo. No entanto, as pinturas não correspondiam a identidade visual do artista, que buscava com formas distorcidas, gestos e movimentos que causam estranheza –  esse é o papel da arte moderna e contemporânea, não se ocupar da busca pelo belo, no sentido formal e estético da arte – na tentativa de encontrar um eu desconhecido, do mesmo modo, que os autorretratos que Misao apresenta na fotoperformance coloca a própria experiência do mundo e sua mente a disposição das fotografias. 

Hoje, a busca pela arte se tornou mais frequente na tentativa de fugir da realidade, isoladas em casa, as pessoas buscam na arte uma forma de lidar com a angústia através da música, do cinema ou literatura. Para os artistas, esses sentimentos de melancolia acabam por transbordar em suas expressões artísticas na perspectiva e urgência do contemporâneo que requer transmitir as sensações que, muitas vezes, é seguida de crítica e denúncia do contexto político, uma espécie de pedido de socorro. Ao longo da história, a arte foi se modificando e contrapondo-se a um modelo anterior, dialogando quase sempre com o contexto social e político na qual estava inserida. O Lugar Onde Habita O Vazio representa a incompletude e a aflição à medida que as fotografias perdem a forma, ao mesmo tempo em que provoca uma crítica política sobre a representação do caos. 

Tal qual Bertolt Brecht em sua peça teatral, A santa Santa Joana dos Matadouros (1929-1931), ambientada nos matadouros da cidade de Chicago. Nela, o autor propõe que a arte deveria ser mais do que entretenimento, um instrumento de reflexão. Uma das principais críticas do artista era ao capitalismo e o modo como o sistema – segundo ele – promovia desvalorização dos trabalhadores em virtude do falho modo de produção e distribuição de lucros de tal política. A representação da angústia também está presente na literatura, o livro Angústia (1936), do escritor modernista Graciliano Ramos, corresponde ao período de 1930. O monólogo interior é o eixo central da narrativa de Graciliano Ramos, que apresenta um personagem sufocado pela angústia, em detrimento dos conflitos pessoais aliados a questões políticas do país. 

O existencialismo, a solidão e as mortes causaram no mundo um sentimento de suspensão, na medida em que a atual política não favorece o acolhimento, tampouco, soluções eficientes para barrar a desordem que deu lugar a um sentimento de estagnação e incertezas. Nesse sentido, os elementos visuais são a matéria prima da artista, que os representam de modo a alcançar seu objetivo, seja expressar suas próprias emoções, ideias, visões de mundo ou provocar reações no público. Essa é a alma do artista independente, ele é real. Nessa perspectiva, Fernanda Misao é a essência do que é ser um artista livre, ela coloca na arte tudo aquilo que sente aliados ao processo criativo da fotografia. Com isso, a fotografia expandida foge da homogeneidade visual repetida em exaustão e apresenta outras possibilidades de expressão do imaginário. Como disse o pesquisador Rubens Fernandes Junior, a fotografia expandida é uma espécie de resistência e libertação.  

Posto isso, a arte independente de Misao não só causa reflexão, como também provoca incômodo e vulnerabilidade. Através de um viés de criação, isto é, a importância está no que a obra provoca, o seu motivo contempla basicamente um sentimento geral durante a pandemia: o aniquilamento. Representado também em outra obra sua de fotografia, Humores da quarentena (2020), que se trata de uma série de autorretratos feitos com o propósito de lidar com “O ócio, a apatia, o desânimo, o medo, a ansiedade, a falta de produtividade, a impaciência, a raiva, a revolta, a impotência, o tesão, a insônia, os surtos, a falta de libido, o desamparo, as incertezas e os hiatos.”, conta.

A fotoperformance de Misao refere-se a algo que vai além da realidade. O que a aproxima muito do surrealismo – corrente que se manifesta através do universo dos sonhos e do inconsciente. O curta-metragem Um cão andaluz (1928) de Buñuel, escrito com parceria de Salvador Dalí, é um exemplo disto. As cenas podem causar angústia e desconforto, semelhantes às sensações de um sonho – ou de um pesadelo. A questão é: Por que essas obras existem? O lugar onde habita o vazio está concentrado na experiência que vai além do processo fotográfico. A artista lança um olhar sobre o mundo ao mesmo tempo que busca olhar para dentro de si, deixa transbordar em imagens um sentimento preso dentro de um vazio interior. Contudo, no que se refere a imagens que traduzem sentimentos, está o Ensaio sobre o Silêncio (2020), com direção geral e concepção artística da bailarina Taciana Gomes, as fotografias foram feitas para divulgação do espetáculo que estreia online dia 28 de Julho. Misao descreve como “Silêncio: o grito intenso e visceral das profundezas de si.” O projeto foi selecionado no prêmio festival Funarte Acessibilidança Virtual do mesmo ano, na qual a fotógrafa atuou como Direção de Fotografia, Edição e Montagem.

Cinco imagens de dançarinos em performance, duas fotos preto e branco e três coloridas, fazendo movimentos com o corpo misturando arte e movimento

Fotografias do Ensaio sobre o Silêncio: espetáculo de dança (2020). Foto: Divulgação/Reprodução

Fernanda Misao nasceu no Maranhão em 1990 e mora no Recife há mais de cinco anos. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Dentre suas contribuições para a produção cultural Pernambucana, está o curta Playlist, filme ganhador do prêmio de melhor curta no júri da crítica do Festival de Caruaru em 2020, onde atuou como Assistente de Direção e Produtora Executiva. Também realizou o roteiro e direção do documentário É Amor que Chama. Além disso, desenvolveu trabalhos importantes como assistente de produção no curta-metragem Marie (2019), dirigido por Leo Tabosa, e atuou como produtora de arte no curta-metragem Até 10 (2019), dirigido por Gabriel Coêlho.

Triste visionário e um homem de seu tempo: o Brasil real de Lima Barreto é o mesmo dos nossos dias

o escritor Lima Barreto em uma foto tirada durante a sua internação no Hospício Nacional de Alienados. Na foto: a blusa possui listras finas, um único botão na parte superior e um bolso  no lado esquerdo. O escritor está com uma fisionomia séria; possui olheiras; um olhar impenetrável e cabelos cacheados.
 Retrato de Lima Barreto, da ficha de internação no Hospício Nacional de Alienados. Rio de Janeiro, 1914. Foto: Divulgação

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que na sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Lima Barreto em crônica publicada na Gazeta da Tarde em 4 de maio de 1911.

O mês que marcou a abolição formal da escravatura no Brasil é também o mês de nascimento de um dos maiores e mais injustiçados nomes negros da literatura brasileira, o escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1922). O autor de Triste fim de Policarpo Quaresma denunciou a exclusão, a discriminação e lutou pela efetiva igualdade e liberdade, que pareciam muito vivas após a lei de abolição. Em sua crônica Maio ele descreve esse sentimento até mesmo entre as crianças da época, “Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres? Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enrolamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!”  

Neto de escravizados e filho de pais livres, Lima Barreto teve coragem de denunciar o racismo, as injustiças sociais na pós-abolição e fazer críticas políticas à República. Lima Barreto transportou para a literatura sua insatisfação. Se tornou um intérprete do Brasil ao criar um projeto literário próprio, atuando muitas vezes como personagem das obras. O triste fim de Policarpo Quaresma, uma de suas obras mais conhecidas, é considerada uma das peças chaves para a literatura brasileira. Publicada pela primeira vez em Folhetins no Jornal do Comércio em 1911 e impressa em livro em 1915, ganhou traduções em vários idiomas como espanhol, francês, inglês e alemão. Na obra, Lima descreve a vida política do Brasil após a proclamação da República – lê-se golpe – e denuncia a hipocrisia da sociedade moldada em valores europeus. 

Com o período pós-emancipação e a chegada da República, acreditava-se muito na utopia pela inclusão social. Porém, a realidade foi outra com os estrangeirismos e a pobreza que migrava da capital para as periferias do Rio de Janeiro. Com isso, morando no subúrbio e diante das injustiças de sua época aliadas à descaracterização da cultura e da sociedade brasileira, os problemas sociais, a pobreza e a questão racial constituem o núcleo central da literatura de Lima Barreto. O autor projeta em suas obras sua própria experiência de homem negro e pobre do subúrbio do Rio. Sua literatura em trânsito acompanha sua rotina que seguia a linha do trem da central do Brasil, unindo e separando o centro do subúrbio carioca. Com uma literatura em oposição à belle époque brasileira, o estilo do não corresponde às tendências de linguagem artística que o Brasil tentou reproduzir da Europa. Ele escreve acima de tudo sobre o real, e tece críticas à república, ao jornalismo artificial e a literatura que não lida com as questões da realidade da época. 

A capital do Brasil na época, o Rio de Janeiro, passou por um processo de modernização urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos – que ficou conhecido como o prefeito demolidor. Seguindo o modelo art nouveau, Pereira Passos modificou o perfil da cidade derrubando o velho e feio, para dar lugar ao novo e moderno, nesse sentido, o branqueamento surge como um projeto político, já que o velho e o feio eram associados à população negra. Aí está a influência direta na literatura crítica do Lima Barreto, que explica sua aversão a diversas formas de modernização. “Uma remota tolice que foi a tal república. No fundo, o que se deu em 15 de novembro foi a queda do partido liberal e a subida do conservador, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados.” Escrito em Coisas do reino de jambon (1956). 

O período que compreende o pré-modernismo não é, de fato, um estilo artístico-literário porque não há uma linha estética-ideológica dominante. A produção dessa fase de transição absorve a influência do simbolismo e do realismo/naturalismo. Porém, a literatura do Lima Barreto se destaca de forma bastante definida, mostrando o Brasil real que a elite tentava esconder. Com um tom jornalístico e expressões coloquiais, Lima monta um painel social do Brasil dos excluídos e dos marginalizados, sendo inclusive, o autor mais preocupado em descrever com detalhes as cores e os traços físicos das personagens, variações de tons de pele negra que antes não era uma preocupação evidenciar com tanto cuidado. Em Clara dos Anjos (1922), obra ambientada no subúrbio carioca – mais especificamente em Todos os Santos, bairro em que o Lima Barreto morava – é onde mais aparece essas definições de pele e traços negros.

Nota-se que, o problema da falta de definições do que hoje chamamos de cor social e cor local, se tratava de questões econômicas, políticas e principalmente de exclusão social. A questão da cor, a pobreza, a escravidão e os problemas da pós-abolição não era visto como algo importante, segundo Lilia Schwarcz em seu livro intitulado Lima Barreto – Triste visionário, publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras. O livro apresenta uma biografia do sujeito social do Lima Barreto, assim como uma releitura do pensamento do pré-modernista, buscando aprofundar a brasilidade e as lacunas sociais que outrora eram denunciadas por ele através de suas obras. 

No livro, a historiadora e antropóloga explica que a questão da exclusão racial foi um dos motivos para a Kodak, durante muito tempo, não utilizar filmes adequados para captar a cor da pele negra, a configuração permitia impressões de fotos muito esbranquiçadas dificultando identificar a cor negra e muito menos suas variações. Entretanto, o problema, ao que parece, não era exclusivo da tecnologia, mas da falta de importância na diversidade étnica e social que o Lima Barreto fez questão de representar em seus personagens. Hoje, muitos anos depois, são estudados na antropologia os termos; cor  local, cor social e colorismo. 

Talvez só agora, 100 após sua morte, a sociedade esteja realmente preparada para a modernidade do Lima, pois as lutas pelos direitos da população negra estão sendo discutidas com mais importância, pelo menos em comparação a antiga república. O mês em que foi promulgada a Lei áurea no Brasil – que só foi possível, além de pressão política, por meio de campanha popular aliada à resistência de pessoas escravizadas – também é lembrado como o mês que tornou populares as discussões sobre racismo e o descaso com a população negra. A morte de George Floyd, afro-americano assassinado por Derek Chauvin, um policial branco em 25 de maio de 2020, deu início ao Black Lives Matter e diversas outras manifestações contra o racismo. 

Outro fato que destaca a coincidência mórbida foi a operação policial violenta que resultou na morte de mais de 25 pessoas na favela de Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 6 de maio deste ano. Tal operação, que resultou na morte de um policial e colocou a vida dos moradores da favela em risco, é resultado da falta de planejamento da secretaria de segurança na atuação dos militares. É válido lembrar que a segurança pública se trata de um dever do estado e é um direito constitucional que deve ser exercido para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, como diz a constituição de 1988. 

Em um país que tentou ocultar o seu passado em virtude do processo de branqueamento da sociedade, muitos escritores negros tiveram sua imagem distorcidas ou até mesmo esquecidas pela história. Essa triste tentativa de exclusão e apagamento incluiu intelectuais negros como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Luís Gama, abolicionista que mesmo sendo negado a cursar direto e receber o diploma da antiga faculdade de direito da USP, aprendeu o oficio assistindo as aulas como ouvinte e com isso libertou aproximadamente 500 escravos judicialmente. Além do próprio Lima Barreto, que por muito tempo não teve o reconhecimento que merecia como homem intelectual importante para as questões sociais, sendo até mesmo impedido de ocupar um espaço na Academia Brasileira de Letras. 

Lima Barreto, que dizia que iria escrever a história da escravidão no Brasil, de certa forma o fez. Escrevendo sobre as transformações que camuflou a pobreza do Rio de forma que a periferia fosse quase invisível, jogada para as laterais da cidade. A verdade é que se ele enfrentou a dura vida do período da Primeira República quase que solitário. Hoje, Lima nos permite atravessar a fronteira do passado com seu legado que é, além de tudo, os seus escritos e a sua coragem, e passa ter cada vez mais reconhecimento póstumos, (aqui coloca um ponto e inicia a frase em letra maiúscula) a exemplo da homenagem na Festa Literária de Paraty (FLIP) no ano de 2017 e o do monólogo Traga-me a cabeça de Lima Barreto! apresentado pelo ator Hilton Cobra em 2019. Livremente inspirada nas obras do Lima Barreto, especialmente Cemitério dos vivos, a belíssima obra de ficção, fala sobre a eugenia como projeto de desenvolvimento, suscitada a partir do questionamento racista de como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias, se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores.

Internado duas vezes no Hospital Nacional de Alienados entre os anos de 1914 e 1918 em decorrência do alcoolismo, morreu jovem aos 41 anos, no mesmo ano que aconteceu a semana de arte moderna no Rio de Janeiro. De mim para mim, tenho certeza de que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há seis anos me assoberba, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro.”  Lima Barreto em Diário de Hospício escrito entre os anos de 1919 e 1920. O diário foi publicado pela editora Companhia das Letras postumamente, em 1953 e em 2010, incluindo o romance inacabado O Cemitério dos Vivos, sobre a loucura e sua percepção.