Colaborações

Quando o mundo enlouquece

Comício do Partido Nazista em Nuremberg. Max Ehlert/Divulgação.

Quem era esse homem que enlouquecera o país? Como era possível que uma nação culta e educada aceitasse e glorificasse um discurso assentado no ódio e na morte: ódio e morte aos intelectuais e artistas, à diversidade de ideias e de modos de ser, aos opositores da “raça” ariana (judeus, ciganos, homossexuais, mestiços), aos opositores do regime (socialistas, comunistas, sociais-democratas, liberais), aos deficientes físicos e mentais. Quem era esse sujeito que os religiosos (em particular, os luteranos e calvinistas) diziam ser a segunda pessoa mais importante a pisar na terra depois de Jesus Cristo?!

Norbert Elias (1897-1990), então um jovem sociólogo judeu, precisava ver e ouvir pessoalmente quem era esse homem que todos falavam (como se ele fosse uma espécie de Vice-Deus encarnado na terra) e que parecia encerrar os sentimentos e as crenças mais profundas de uma “comunidade”. No caso, a “comunidade” germânica. 

E, um belo dia, lá foi Norbert Elias ver e ouvir pessoalmente o homem que vinha enlouquecendo as mentes e os corações dos seus conterrâneos. Foi, mas foi morrendo de medo. Temia que as pessoas que compunham aquela multidão descobrissem que ele, Norbert Elias, não era ariano, mas sim judeu. Depois de dez minutos de discurso proferido pelo Semi-Deus, ele percebeu que apesar daquele homem ter uma altura insignificante, uma compleição física pouco atraente, um bigode que dava ao seu rosto traços caricaturais, um corte de cabelo que lembrava o de uma criança boba e, principalmente, gestos de um celerado, ele tinha, infelizmente, uma retórica sedutora; seu discurso, apesar de absurdo, tinha uma lógica dentro daquela falta de lógica e de racionalidade. Era a lógica da irracionalidade, das grandes narrativas míticas, das grandes verdades que se querem eternas; era a lógica que jamais será crítica de si mesma, que jamais admitirá o contraditório, que se baseia em crenças cegas (como são as crenças dos fundamentalistas e dos que abraçam os discursos identitários e racistas); era a lógica dos que refutam as provas e os argumentos científicos; era a lógica daqueles que nunca serão críticos dos seus próprios métodos e teorias. 

Então, Norbert Elias concluiu: em alguns meses esse senhor vai poder realizar cada ponto cantado e decantado dessa sua fala inflamada. No caso, matar e destruir tudo aquilo que eu, Norbert Elias, considero de mais precioso na vida (o debate, o contraditório, a diversidade e a convivência étnica, cultural, de ideias e de modos de ser). Todos ou quase todos os meus conterrâneos, cegamente, depositarão nele o seu apoio. Pior: irão morrer por suas ideias. E vão apoiá-lo porque assim como ele e a sua retórica, cada germânico carrega apenas e somente ódio no coração e sangue nos olhos.

Norbert Elias, sociólogo nascido alemão. Judeu, saiu do país natal para fugir dos nazistas. Divulgação.

Norbert Elias voltou para casa e avisou aos pais que deixaria a Alemanha. Tentou convencê-los do mesmo. Seu pai não entendia a resolução do filho. Não entendendo, perguntava-lhe: por que eu tenho que ir embora? Eu nunca fiz nada? Eu sou um bom cidadão? Era tudo verdade. Nada daquilo parecia ter lógica. Uma vida inteira de trabalho não podia ser desfeita de um dia para o outro. Mas a decisão de Norbert Elias estava tomada. Era o ano de 1933. Sozinho, rumou para a França; depois, para o Reino Unido. Salvou a sua pele.

Meses depois, tal como previra, Hitler dava início as prisões e mortes dos judeus, homossexuais, ciganos, deficientes físicos e mentais, opositores do regime, opositores da “raça” ariana, intelectuais e artistas. Entre milhares de presos, estavam os seus pais. Ele, o então jovem sociólogo, nunca mais os veria. Nem os pais, nem mais ninguém da sua família. Ele, agora, era a única pessoa a carregar o DNA do que um dia fora uma família. Enquanto isso, na Alemanha, corpos continuavam a virar cinzas e todos continuavam a pedir mais sangue. Mas a História é cheia de sutilidades metafísicas. Quando a hecatombe estava consumada e a Guerra perdida, todos os que destilaram ódio por todos os poros e pediram cada vez mais sangue fingiam, agora, que nada sabiam daquele sangue que fora clamado e defendido em praça pública, nos jornais, nas revistas, nos rádios, nas bancas escolares, nos livros e nas falas de filósofos e ideólogos, nos bares e restaurantes, nos almoços e jantares de família. Os mais cínicos (sim, eles não só existem, como constituem uma boa maioria daqueles que se intitulam “cidadãos de bem”) apenas respondiam, quando interrogados, que cumpriram ordens ou que não foram informados dos horrores dos campos de concentração e de extermínio. Eles, os “cidadãos de bem”, precisavam, agora, ficar de bem com o mundo, com os amigos, com a família e com as suas consciências. Principalmente, com as suas consciências. O passado foi o que passou. Por que relembrar? 

Ao fim e ao cabo, a História parece ser apenas isso: de um lado, uma sucessão de mulheres e homens, indiferente de “raça” e nacionalidade, promovendo o terror, a dor e o sofrimento de terceiros, construindo e destruindo impérios, e proclamando que tudo isso é em nome de algum Deus ou de alguma crença política, racial, cultural ou econômica; de outro, quando a poeira dos fatos assentam, todos querendo sair bem na fotografia, todos querendo apaziguar os monstros alimentados em suas consciências. A História, ao fim e ao cabo, é a História da má consciência humana e nunca guardou e nem guarda bons sentimentos.

Anco Márcio Tenório Vieira é doutor em Literatura. Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras/UFPE. É autor de Luiz Marinho: o sábado que não entardece (FCCR, 2004), Adultérios, biombos e demônios (PPGL, 2009) e Dante, a poesia e a sua forma cristã (PPGL/Editora UFPE, 2017).

Cidade Finada: poética da pandemia

Li Cidade Finada, coletânea de poemas escritos por Thiago Medeiros, em março de 2021. Coincidentemente, foi o mês em que completamos o marco de um ano do surto de COVID-19. O livro é intitulado a partir de uma reflexão do autor ao observar uma antiga rua no centro de Caruaru, sua cidade natal. Uma vez que costumava ser extremamente movimentada antes da pandemia, agora esta rua se encontrava vazia com as medidas de lockdown: vislumbrando pela janela as lojas fechadas e a ausência de circulação de pessoas, Medeiros vê uma cidade morta. O título também se faz presente no primeiro poema da compilação.

É nesse contexto de confinamento, sem ter para onde fugir, com as rodovias fechadas, que a escrita surge como escape. Mesmo pensando que a possibilidade de escrever sobre a pandemia fosse acontecer somente após o evento histórico, Cidade Finada nasce ainda durante esse momento.

Ruas vazias e isolamento são a tônica da coletânea de poemas. Emilio Morenatti/AP.

Thiago Medeiros é autor, poeta, e músico caruaruense, responsável pela “Oficina Levante Literário”. Idealizador de outros projetos e saraus, foi o Vencedor do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP), edição 2020, na categoria poesia. Em 2019 lançava o seu livro de contos Claro É o Mundo À Minha Volta, pela editora Patuá, e em 2020 lançou sua primeira coletânea de poemas, Cidade Finada pela Editora Telucazu. Produzida durante o período de isolamento social em decorrência do novo Coronavírus, é a primeira coletânea de poemas do contista, agitador cultural e escritor de Caruaru.

Thiago começou escrevendo contos, e ao descobrir a oficina literária de Raimundo Carreiro, escritor recifense, começou a se empenhar, e como consequência, teve dois livros publicados. Devido à quarentena, foi afetado também por uma descontinuidade narrativa, e percebendo que não estava conseguindo produzir um material continuado na prosa, acolheu e foi acolhido pela poesia, mesmo não possuindo costume.

Capa de Cidade Finada, do caruaruense Thiago Medeiros. Telucazu/Divulgação.

Os poemas distribuídos ao longo da coletânea não possuem títulos, e são apenas enumerados.  De acordo com o próprio escritor, ele se encontrava em um estado tão conturbado, que a possibilidade de nomeá-los não existia; no entanto, garanto que a falta de um batismo não deixa significados para trás. Na obra, nós, leitores, somos tratados como íntimos, e somos apresentados ao âmago do autor, imergindo em sua ternura ao falar sobre a vida. Despedidas, percepções quanto a um amor divino, medos,  paternidade, e relações interpessoais são apenas alguns dos tópicos que somos guiados a refletir através de seus versos.

pois se a história
é narrada por
vencedores

não seremos nós
a estampar
editoriais

É um livro belíssimo, sensível, e cheio de vida. Um trabalho com diversas experiências pessoais, que disseca o seu ‘Eu’ de uma forma crua, e vulnerável em uma obra demasiadamente humana. Uma criação que deve ser lida, sentida, e digerida, registrada por um poeta que escreve para não esquecer de si mesmo.

De certa forma, essa empreitada estética que parte de uma busca para não obliviar-se revela, ao invés de uma bravata literária qualquer, uma bandeira e militância na luta contra a psico-fobia. Thiago, por ser diagnosticado com transtorno de bipolaridade, teve a literatura sempre presente em sua vida nos momentos de crise, como uma possibilidade para se encontrar. Na pandemia, essa escrita se fez ainda mais necessária e, assim, surge uma sublimação para ressignificar o momento em que vive na cidade finada.

Também tive a oportunidade de convidar Thiago para participar de um bate-papo virtual no meu Instagram onde além do lançamento, discutimos o papel da arte e da escrita no momento da pandemia para a saúde mental. Aprofundamos ainda mais as discussões, nos debruçando sobre a realidade do escritor brasileiro, que não pode ser romantizada, e nem a escrita vista como algo místico, vinda apenas da inspiração.

Card da live com o autor Thiago Medeiros e seu Cidade Finada. Heitor Menezes/Divulgação.

Após conversar com Thiago, a coletânea ganhou ainda mais vida e significado. Ao pensar que já conhecemos boa parte da essência do criador, percebemos que, na verdade, em sua criação está apenas presente uma pequena parte do que lhe é intrínseco.

É por isso que enxergo Cidade Finada como uma das minhas leituras mais afáveis do ano de 2021, me fazendo pensar nas possibilidades de ressignificação, e reviver o tanto que foi vivido, e que, por outro lado, também deixamos viver nesse último ano. Uma obra que se faz completa, e nos diz tanto de seu autor, que não conhecê-lo se faz impossível. 

Heitor Menezes é bacharel em Relações Internacionais, e atualmente acadêmico em Psicologia. Administra o perfil no Instagram @psiheitormenezes, onde posto resenhas literárias para interessados em psicologia e aficionados em literatura.

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Karol Conká e a falsa justiça de quem cancela o cancelador

Karol Conká e a falsa justiça de quem cancela o cancelador. Quais os efeitos reais de uma prática que silencia e exclui quem ousa errar?

Karol Conká (ao meio), Gabriela Pugliesi (à direita) e Kevin Hart (à esquerda), os cancelados. Montagem: Stephanie Sá.

Desde que foi anunciada como participante da 21ª edição do Big Brother Brasil, a rapper Karol Conká tem sido o foco de diversos comentários na internet. Se, num primeiro momento, o anúncio foi motivo de celebração, a trajetória da cantora dentro da casa não fez jus às altas expectativas de seus fãs e seguidores, e reacendeu a discussão sobre os limites do cancelamento e os reais efeitos desse movimento que promete fazer “justiça com as próprias mãos” de modo distorcido.

Mais do que coreografias do TikTok ou tendências do Instagram, esse é o real fenômeno da internet no momento: a prática de um linchamento virtual disfarçado de militância. Não à toa, o termo “cultura do cancelamento” foi eleito como a expressão do ano em 2019 pelo Dicionário Macquarie, e tem ficado ainda mais forte com o passar do tempo.

Ao longo das quatro semanas que passou no reality show, Karol vivenciou os dois lados da moeda, cancelando e sendo cancelada quase que simultaneamente. Durante o programa, a participante foi peça-chave em conflitos graves que envolveram tortura psicológica, xenofobia e narrativas distorcidas. No tribunal da internet, que é rápido e nem sempre preciso, há quem já tenha apresentado até diagnósticos: mitomania, perversão, transtorno de personalidade.

Seja qual for a motivação por trás de comportamentos tão nocivos, o inegável é que a participação gerou uma comoção nacional. Memes, tweets e até anúncios publicitários coroaram a eliminação como um espetáculo midiático de proporções grandiosas. Por isso, não houve muita surpresa quando a rapper atingiu o recorde de rejeição no programa.

Eliminada com 99,17% dos votos, Karol entrou para história do reality e agora terá que lidar com o resultado do índice de desaprovação no dito mundo real. Aqui fora, não tem prova do líder, jogo da discórdia ou divisões como VIP e xepa. Mas tem, em muitas situações, linchamentos virtuais, ameaças à integridade física e consequências muito mais graves que meramente usar uma fantasia temática e dançar quando toca uma música.

Do lado de cá, mais que a “vilã da edição” ou “Karol Conká”, quem habita o mundo é Karoline dos Santos Oliveira, que não é só figura pública e (má) jogadora,  é também mulher, mãe e, como às vezes esquecem, humana. Karol pode ser antiética, desrespeitosa e tantos outros adjetivos que são gritados à torto e à direito nas redes sociais, mas ela é gente.

O caráter cruel do comportamento que ela assumiu ao longo da edição é notório, beira a unanimidade. Quem assistiu ao programa, seja na íntegra ou nos trechos distribuídos na internet, sabe que o que ela fez não se faz. Foram cenas angustiantes, que despertaram, inclusive, diversos gatilhos em muitos que estavam assistindo.

Mas quem disse que cancelar o cancelador é motivo de glória? Quem disse que julgar na internet, xingar a família e incentivar uma perseguição é menos danoso que excluir um participante ou espalhar mentiras dentro de um reality? Como é possível chamar de “justo” um movimento que resulta na necessidade de um esquema especial de segurança para que uma ex-BBB não seja agredida na rua? 

É nesse ponto que ficam ainda mais evidentes as contradições dessa dinâmica tão presente na internet, especialmente quando analisamos o aspecto racial desse conflito. É impossível observar essa situação sem evidenciar o impacto que a negritude de Karol tem nos xingamentos que são deferidos a ela. Mais do que críticas à sua conduta, muitos têm se aproveitado dessa pose de “justiceiros” para legitimar ofensas racistas e reforçar estereótipos que agridem diretamente às pessoas negras.

Enquanto se apontam como detentores de uma fantasiosa verdade absoluta, os canceladores geram efeitos reais e, muitas vezes, permanentes na vida dos que são cancelados. Evidência disso é o resultado desse processo na vida de Karol, que teve contratos rompidos e trabalhos perdidos, e se tornou um dos vários nomes que ilustram esse movimento de boicote.

Nesse cenário de pandemia que temos vivenciado, por exemplo, as métricas de cancelamento viraram outras e têm sido combinadas às normas determinadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, uma das primeiras influenciadoras canceladas nesse contexto foi Gabriela Pugliesi, que chegou a perder mais de R$ 3 milhões em contratos depois de ter publicado registros de uma festa com amigos.

Outro caso que gerou repercussão, desta vez a nível internacional, envolveu a cerimônia do Oscar de 2019 e fez com que a premiação não tivesse um apresentador oficial pela primeira vez em 30 anos. Isso porque o evento seria apresentado pelo comediante Kevin Hart, que foi cancelado dois dias antes da solenidade por tweets homofóbicos feitos em 2009 e 2010.

E não são só os famosos que são atingidos por essa prática. No ano passado, uma professora de teatro de Nova York foi alvo de uma movimentação na internet por supostamente ter cochilado durante uma reunião online sobre justiça racial. Mesmo alegando que estaria apenas piscando no momento em que a videochamada foi registrada, a estadunidense foi acusada de racismo e motivou uma petição de 2 mil pessoas que exigiam sua demissão.

Não à toa, o medo do cancelamento tem virado a grande questão do momento. Especialistas das áreas de Educação e Psicologia tem se dedicado, inclusive, a analisar esse fenômeno e as consequências práticas que ele carrega. Nesse aspecto, uma afirmação é consenso: essa estratégia é pouco pedagógica e não resulta em mudanças concretas.

É natural que a expansão dos movimentos sociais e o aumento das discussões sobre questões como machismo, racismo e homofobia venham acompanhados de um olhar mais crítico sobre a vida. A consciência sobre problemas estruturais é algo que não dá para “desver” ou ignorar, isso é fato.

Mas o contrário de cancelamento não é a conivência, é o diálogo. Buscar uma postura que seja menos rígida e castradora diante de falas problemáticas e preconceituosas é justamente dar espaço para que transformações menos superficiais sejam realizadas e para que mais pessoas possam ter consciência sobre os discursos que têm sido reproduzidos.

Ninguém nasce completamente desconstruído, é sempre um processo. O prefixo “des” não faz parte dessa palavra por acaso. Ele vem justamente para evidenciar que essa jornada passa pela quebra de conceitos pré-estabelecidos e enraizados numa sociedade que é fundamentada em tantos preconceitos.

Parte do problema é o fato de que, acompanhado da discussão sobre cancelar, vem o medo de “passar pano”. Mas a vida não existe só nessa dualidade tão radical e simplista, há também um caminho do meio que ainda pode ser desbravado. É possível encontrar um equilíbrio entre criticar o que há de errado e não se deixar levar pela onda de desumanização de quem erra.

Ao invés de reproduzir modelos de linchamento e silenciamento, é bem mais produtivo apostar em dinâmicas que incentivem as trocas e deixem espaço para as mudanças. Até porque, se tem uma lição que Karol nos deixa, é que o cancelador também pode ser cancelado. E é mais difícil estar do lado que recebe os dedos apontados e as acusações agressivas.

Quanto ao BBB, nos resta comemorar que a participante Karol Conká foi eliminada. Mas sem esquecer que a vida de Karoline continua e que, como todo mundo, ela seguirá errando, acertando, aprendendo e tropeçando. E o maior conforto de quem desejou sua saída pode ser entender que respeitar a humanidade dela é justamente ter a empatia que tanto a faltou. 

Stephanie Sá é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e especialista em Mídias Digitais e Comunicação Empresarial pela Unifavip Wyden. 

Cena de Boca (Conto)


Pina Bausch, diretora e bailarina, em “Café Müller”, obra de 1978.

Por Marco Polo Guimarães

A atriz desta vez não está no palco, seu lugar natural, sua terra-mãe. Ela está na plateia. Sozinha na plateia. Observa a boca de cena coberta pela cortina de veludo cor de vinho. Se se prestar atenção, talvez olhando de perto, vê-se que é uma cortina peluda. Provavelmente esquenta o que cobre, o que veda aos olhos. O palco. E todas as possibilidades que podem acontecer no palco. Mas não se move. Nem sequer uma brisa estremece de leve sua superfície, provocando iridescências em seus brilhos discretos, em suas dobras verticais, frágeis colunas de tecido. A atriz sobe ao palco e começa a examinar as cortinas. Será que a quem tem mais imaginação ela pode insinuar a presença de algumas formas, figuras, talvez narrativas? Será ela um elaborado tapete no qual o espectador tem que adivinhar sua trama? Suas possíveis tramas? Suas impossíveis tramas? Seus segredos e mistérios? E, como nos tapetes, será que seu avesso esconde um universo de nós, pontas soltas, emaranhado caótico de fios que oscilam numa quase imperceptível sobreposição de tons monocromáticos? O que há por trás da cortina? O que ela esconde da atriz que, ávida, olha insistentemente vários pontos de sua opaca superfície? E tenta e tenta e tenta e nada vê. E se joga exausta para trás no chão, ante uma plateia vazia e silenciosa, embora iluminada pelo grande lustre de cristal que paira no alto feito uma nave espacial abandonada.

Mas, quando já se desespera e pensa em desistir, a atriz nota um leve estremecer na cortina. Ergue-se atenta. E percebe um suave ronronar que se acopla ao zumbido tão contínuo que quase já não se nota do ar-condicionado. É mais um sibilar que um ronronar. O som que se supõe que as serpentes fazem quando exploram o ambiente com suas línguas bifendidas. O ondular das cortinas (agora se vê: são duas, laterais, antes unidas como se fossem só uma), o ondular das cortinas se intensifica e agora não há mais dúvida, o ciciar vem das engrenagens e roldanas acionadas para abri-las, lado a lado, deixando ver ao centro primeiro uma fenda, depois um espaço, depois um grande abismo, para onde a atriz mergulha correndo. E ao fundo do abismo aparece um ator. Um ator bailarino, que é ela própria, a atriz, transmutada. Ainda na sombra. Embora, agora que o palco está totalmente aberto, exposto, já se note o crescer paulatino de uma onda luminosa. Uma onda que acende um tom vermelho sangue. O ator bailarino, que permanecia imóvel, começa a abrir os braços, joga a cabeça para trás, dá um passo para a frente, como se estivesse pronto para voar.

E neste instante irrompe a orquestra. Primeiro num suave naipe de violinos e cellos, depois acordando para um tema repetitivo, insistente, mas sempre, cada vez mais, um tom acima. Para depois descer rodopiando numa súbita mudança de timbres para metais graves e agudos misturados. A essa altura o ator bailarino está dançando. Às vezes para, como se ouvisse um silêncio que ninguém mais escuta. Depois dá um salto, como se levasse um susto ou visse uma fera, um tigre de neve ou um dragão de fogo. A intervalos aleatórios ele para e se auto acaricia, ora com suave sensualidade ora freneticamente, ora de modo sutil ora desavergonhadamente.

Mas ele não sabe mais nada. Sabe apenas que precisa dançar. E interpretar o que já está fora de qualquer interpretação. Ele já nem mesmo tem controle sobre seu corpo, que é arremessado em todas as direções, como se dominado por ventanias irresistíveis. Ele oscila para um lado e para outro. Para a frente e para trás, numa convulsão. Às vezes estaca, olhando para os lados como se buscasse ver, desesperadamente, algo de que sua vida dependesse. Às vezes rodopia até cair. E logo pula, se levanta. E dança.

A essa altura a orquestra sobe cada vez mais alto, num crescendo turbilhonante em que todos os instrumentos parecem esgotar todas as suas potencialidades, até que os timbales rufam num estrondo de trovões e os pratos ressoam como relâmpagos cegando a atriz-ator-bailarino que se estica toda curvada para trás, como um arco retesado a ponto de se partir e, finalmente, tremendo pelo corpo todo, dela jorra um fluxo de prazer que inunda todo o teatro de repente repleto de manequins nus e cegos que de pé aplaudem e urram em uníssono: Bravo! Bravo! Bravo! Bravo! Bravíssimo!

Subitamente tudo silencia e as luzes se apagam. No centro do palco, iluminada por um foco de luz e abraçada imaginariamente ao ator bailarino, a atriz goza. E tudo que se ouve são seus arquejos, gemidos, soluços e gritos.

Marco Polo Guimarães é escritor, poeta, cantor e compositor. Faz parte do Ave Sangria, antológico grupo de rock psicodélico. Seu conto “Cena de Boca” foi publicado originalmente na terceira edição da Revista Café Colombo, em 2015.

Amar não acaba (ou a tentativa de dizer o que eu sinto de Clarice)


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Clarice Lispector, em 1961. Foto: Claudia Andujar.

Comecei a ler Clarice Lispector em 2009, a partir de uma escolha aleatória que fiz, explorando os livros das estantes de uma biblioteca recém inaugurada na rua de minha casa, em Sítio dos Nunes, distrito localizado no sertão do Pajeú pernambucano. Eu tinha 15 anos e, com minha pouca leitura – por falta de acesso, incentivo ou vontade -, estava diante de “Perto do Coração Selvagem”, justamente o primeiro romance escrito pela autora, publicado em 1944. Foi o meu primeiro contato com a esfinge. A comunicação com Joana, personagem principal do romance, parecia ser de uma dificuldade bastante confortável: estranhamente, os seus questionamentos e anseios conversavam com necessidades e questões que habitavam em mim àquela época. Questões que eu não sabia dar nome. Consigo dizer que me identificar com o que Clarice escreveu era animador e estranho, enquanto estava perdida numa adolescência confusa, cheia de tato e de uma necessidade infinita de ajustes.

Tenho a impressão de que falar do impacto e do susto que é estar diante das palavras de Clarice Lispector, sem antes ter topado com algo equivalente, já parece coisa batida, mas, também, é coisa necessária e inevitável. Eu sinto que estabelecer contato com a introspecção lispectoriana é como entrar no labirinto de Minotauro, disposta a enfrentar a criatura, sem um novelo de linha para garantir o retorno de toda a confusão. As mensagens são telegráficas, construídas em códigos que, talvez, nem a própria Clarice tenha tido a intenção de construir como coisa difícil. Arrisco dizer que seu texto é uma fuga das suas próprias incompreensões na esperança de que alguém a salve de estar só, encarando a sua própria imagem e o seu próprio espírito.

Já são onze anos de conversa com Clarice. Seria lógico que, calejada, já tivesse propriedade e segurança para discorrer sobre qualquer assunto que envolva o seu nome – pelo menos, é o que se espera de quem se mete a sustentar a imagem de admirador de qualquer ser, não é mesmo? Acontece que, até hoje, eu guardo a sensação do “primeiro encontro”. Clarice Lispector me espanta na mesma medida, mesmo quando as nossas conversas se repetem com os mesmos temas.

Nessas conversas a que eu me refiro, Clarice usa um idioma sem tradução, cujo entendimento não se apoia em palavra. Isso exige corpo e espírito para sentir e comunicar. Como ela mesma disse: “ou toca ou não toca”. O contato precisa ser alinhado, para que o sentido encontrado, dentre vários, seja o que ela teve a intenção de lançar. Quem tem a sorte de atingir o nervo da palavra de Clarice, quem consegue traduzir os seus códigos, transcende e se perde na impossibilidade de explicá-la, porque tudo é sensação. O descrever não está pronto. E essa coisa inacabada me apaixona. Eu sigo perdida e satisfeita.

Se Clarice pudesse ler o que escrevo agora, eu incluiria neste texto uma mensagem que lhe agradecesse o acolhimento. Diria que eu ainda tento capturar a sua simplicidade e que, pretensiosamente, eu ouso dizer que me encontro em sua subjetividade. Também aproveitaria o espaço para dizer que a desordem angustiante e cotidiana que me rodeia, encontra o prumo em suas palavras, que é onde ela vive agora.

Géssica Amorim é formada em Letras, estudante de Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste. Além de fotógrafa amadora e repórter do Observatório da Vida Agreste (OVA). Atualmente, Géssica também escreve sobre os impactos da pandemia no cotidiano de moradores e moradoras de cidades do sertões do Pajeú e Moxotó.

A marca incerta que é a humanidade

Pessoas fotografadas no bairro Universitário em Caruaru durante o isolamento social. Foto: Dyego Mendes.

Eu sempre gostei de assistir filmes de ficção científica. Ao final deles, sempre imaginava como será o nosso fim. Existirá um fim concreto? Ou essas suposições são mera retórica para o homem deixar de ser menos ruim? Não sei! Deixei de ter resposta para algumas coisas, para várias coisas, para muitas, muitas coisas… 

É pouco provável que você neste instante me dê atenção, ou melhor, não a mim, mas o que penso e por isso escrevo. O medo aumentou e tem tumultuado cidades e vilas, ricos e pobres. O mundo, nessa hora, se vê pequeno e ainda se nota ausência de solidariedade. Se eu tenho medo? Todos nós temos medo do desconhecido que permeia nossa vida. A morte se encaixa nessa avenida que todos vamos tomar sem saber para onde. Não sei se encontraremos dia ou noite, claridade ou escuridão, por isso tenho medo. Eu gosto de andar pelas ruas da cidade pois é no dia a dia que eu posso ver no rosto do povo o que eles estão sentindo, se há esse medo, angústia ou desespero, se há rancor ou tudo misturado! 

Esses dias estão sendo vividos como um turbilhão de sentimentos conflitantes. Paro e sento-me na calçada olhando para o fim da avenida. Acima de mim, o sol se põe e a noite começa a querer chegar… e entre ambos eu enxergo um fundo tosco que não é claridade ou escuridão mas incerteza. A humanidade sempre caminhou com as incertezas; as religiões se arvoram em ter certezas; algumas correntes filosóficas se arvoram em ter certezas, e quando ocorre um acontecimento inesperado que ninguém sabe dizer o porquê, chegamos a uma boa conclusão: a nossa vida, em essência, é mera incerteza caminhante nessa avenida que é a vida.

As tragédias geram terror e piedade em nós. Nelson Rodrigues já dizia que a tragédia merece reverência! O que isso quer dizer? O terror é o medo que a gente sente, a piedade? Todos nós somos fracos, inúteis e medíocres, o vírus está por aí por que e para quê? Por nada. Ele não quer dizer nada, é apenas mais um dos muitos e vários acontecimentos históricos que a humanidade passa, e para quê? Para nada. E além de tudo isso o mais importante a frisar é a piedade. Enquanto muitos estão em casa se resguardando, outros ainda estão lá fora tentando fazer o mínimo para que a civilidade continue.

Nunca na nossa história vivemos em tranquilidade. Ao mesmo tempo que amamos, nos alegramos e gozamos, vivemos com rancor, tristeza, morte e dúvidas. O mal do nosso século será cada vez mais as pestes em forma de vírus que, por conta do mundo interligado, se alastra. O que fazer? Não acreditar que a sociedade sairá dessa circunstância, pelo contrário, os desafios já se apresentam como a desigualdade social que sempre existiu mas alguns só agora se deram conta. Também não procuro criar pânico no vizinho. A vida já é angustiante, tentemos amenizá-la de alguma forma, sobretudo ajudando o outro que nesse momento difícil tanto tem precisado.

Depois cada qual que viva com as suas mazelas. Nossos antepassados tiveram as suas. Nós que vivamos com as nossas, mas e o medo? Se tiver que embarcar agora que seja. Uma hora a de ser assim. Agora volto para casa, tomo um banho, continuo um romance, tomo uma xícara de café e depois abraço Morfeu.

Colaboração de Emerson Barbosa, mestrando em História e apaixonado por Literatura.