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Como Brigitte Bardot revolucionou o cinema nos anos 1950


Brigitte Bardot em Viva Maria!, 1965 – Foto: Reprodução/IMDd

Brigitte Bardot, atriz e dançarina, completa 86 anos no dia 28 de setembro. Uma francesa com um Je ne sais quoi tipicamente parisiense. Criada em uma família de cultura tradicional, Brigitte Anne-Marie Bardot, teve uma criação extremamente rígida em sua infância. Seu pai, Louis Bardot, foi um industrial da alta burguesia, e casou-se com sua mãe, Anne-Marie, no ano de 1933.

Aos 15 anos de idade, em 1949, incentivada por sua mãe, Bardot iniciou a vida de modelo, estreando na revista Elle. O trabalho feito pela atual modelo chamou atenção de diversos profissionais, inclusive do cineasta Roger Vladim, que viria a tornar-se seu marido. Em 1952, aos 17 anos, apareceu pela primeira vez nas telinhas, atuando no filme “Le Trou normand”. No mesmo ano, após 2 meses de namoro, Brigitte e Roger se casaram.

Foi então que surgiu a Nouvelle Vague: um movimento artístico do cinema francês. A nova estética, que foi inspirada no neorrealismo italiano, começou a crescer fora da França. Roger, apostando nessa estratégia, escalou Brigitte para o papel principal do filme “E Deus Criou a Mulher”, gravado no ano de 1956. Ficou mundialmente famosa aos 23 anos, em 1957. Neste período ela passou a ser conhecida pelas suas Iniciais B.B. A partir daí, a atriz tornou-se o maior símbolo sexual de sua época. O filme, que contava a história de uma jovem moradora de uma cidade litorânea, causou grandes discussões e polêmicas. Porém, quando chegou aos EUA, estourou em bilheteria, e transformou BB em um fenômeno da noite para o dia.

E Deus Criou a Mulher, 1954 – Foto: Reprodução/Youtube

Em 1954, Brigitte Bardot fez tanto sucesso em “E Deus Criou a Mulher”, que a frase “E Deus Criou a Mulher… mas o diabo inventou Brigitte Bardot!” foi criada a partir de sua sensualidade apresentada no filme, que gerou muitas discussões, e acabou sendo proibido em alguns países, além de ter sido condenado pela atual Liga da decência católica.

Toda sua fama se deve a diversos fatores, tanto pessoais, quanto profissionais. Sua personalidade autêntica, e seus ideais modernos a fizeram ser considerada uma mulher à frente de seu tempo. Por conta disso, mesmo não ganhando nenhum prêmio importante no cinema, Brigitte recebia grande parte da atenção da imprensa americana – o que era bem incomum, visto que a imprensa dos EUA só dava foco a atrizes também americanas.

Era conhecida não só por sua ousadia e personalidade, mas também por seus looks ousados e seu jeito despretensiosamente sensual. Seu olhar marcado e seus cabelos longos e loiros, sempre soltos ou semi-presos, influenciaram uma geração de mulheres dos anos 50 e 60. Sempre era vista com roupas ou super comportadas ou extremamente sensuais – e era exatamente este o seu charme. Com seu jeito de se vestir, Brigitte deixou um legado de empoderamento, liberdade e naturalidade. Nos filmes, Bardot usava pouca roupa e foi a primeira mulher a aparecer sem meias nas telas, quebrando paradigmas e padrões estéticos.

O Príncipe e a Parisiense, 1957 – Foto: Reprodução/IMDb

Em “O Príncipe e a Parisiense” (1957), a atriz aparece em cena dentro de uma banheira, e exibe suas pernas.

O Príncipe e a Parisiense, 1957 – Foto: Reprodução/IMDb

Em 1958, Brigitte fez até uma cena de cinta-liga, um escândalo para a época.

Amar é minha profissão, 1958 – Foto: Reprodução/IMDb

De toalha, em “O Desprezo”, dirigido por Jean-Luc Godard, a atriz aparece deitada em uma cama falando ao telefone, em 1963

O Desprezo, 1963 – Foto: Reprodução/IMDb

E em 1969, apareceu nua em “Les Femmes”, ao lado de Maurice Ronet:

Les Femmes, 1969 – Foto: Reprodução/IMDb

Apesar de ter sido um Sex-Symbol nas décadas de 50 e 60, ela não se deu muito bem com a fama. A atriz disse em uma entrevista que ninguém pode imaginar até que ponto foi espantoso. Um calvário. Já não podia viver daquele jeito. Uma vez que, devido ao sucesso, era constantemente perseguida pelos Paparazzis.

Em 1973, BB anunciou a aposentadoria. Desde então, se dedica a causa animal. Em seu livro de memórias, Larmes de combat (Lágrimas de combate), ela escreve sobre sua luta pelos direitos dos animais, a criação de uma fundação que busca protegê-los e denuncia a caça, os zoológicos, o uso de pele e o consumo de carne de cavalo. Brigitte abriga animais resgatados em sua casa em Saint-Tropez, França. Segundo ela, eles são sua “família próxima”

Brigitte Bardot atualmente

Fotos: Reprodução/Instagram @brigittebardotbb

Além da personalidade ativista, Bardot continuou não seguindo regras e padrões de beleza impostos pela sociedade. Resolveu não fazer plásticas e deixou que a velhice tomasse seu rumo natural. Ainda assim, continuou a ser uma mulher forte, autêntica e, claro, continuou a andar fora do caminho comum, e a seguir seu próprio destino.

‘Narciso em Férias’ e a segunda abolição


Para o documentário, o cantor e compositor brasileiro regravou “Hey Jude” (Lennon/McCartney), uma lullaby do grupo inglês The Beatles que pode ser aludida aos seus dias de cárcere. Foto: Reprodução.

O subsolo do Narciso enjaulado

Era 27 de dezembro de 1968 quando Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso teve sua casa invadida, sem maiores explicações, a pretexto de participar de um interrogatório que, muito antes de acontecer, serviu de justificativa para que sua prisão fosse decretada. O crime, adivinhem, hoje nós chamamos de Fake News.

Sim. Caetano foi preso por uma mentira, um boato, 14 dias depois da promulgação do Ato Institucional Número 5 (AI5), decreto que revogou direitos civis e políticos e autorizou ao Regime ditatorial militar a agir com mão de ferro. O que nós chamamos 52 anos depois de Fake News, e que culminou com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil foi a falsa notícia vinculada pelo então apresentador de televisão,vinculado ao Regime Militar, Randal Juliano , de que os dois haviam desrespeitado os símbolos nacionais ao cantar uma paródia do hino nacional e atear fogo à bandeira brasileira. Tratava-se de uma Fake News, evidentemente, como depois Caetano, com testemunhas a seu favor, pôde comprovar.

Apesar disso, a prisão durou de 27 de dezembro de 1968 a 19 de fevereiro de 1969, embora a história do artista com o enfrentamento do regime militar não tenha terminado por aí, já que após a prisão propriamente dita, veio a prisão domiciliar em Salvador, e por último, o Exílio em Londres.

Entretanto, o documentário “Narciso em Férias”, que participou do Festival de Cinema de Veneza e estreou ontem no Brasil pela Globo Play, dedica-se exclusivamente à narração em primeira pessoa da experiência penitente do artista: do instante da invasão de seu apartamento, da troca de sela, de seu interrogatório, dos dias vividos no cárcere, até o instante de libertação e retorno para a prisão domiciliar em Salvador. “Quando a gente é preso uma vez, a gente é preso para sempre” decreta Veloso, com voz soturna, citando Rogério Duarte.

A segunda abolição

Com o devido respeito à história de um homem preso pela ditadura militar iniciada em 1964, e com o intuito de acrescentar às suas palavras sobre a tortura psicológica de ver um carro na prisão enquanto aguardava o interrogatório, eu complementaria dizendo que, com o tempo, mudam apenas as maneiras com as quais nos relacionamos com nossas prisões. O documentário “Narciso em Férias” recebeu esse título em razão de que, durante a prisão, Caetano não teve acesso a espelhos e, portanto, não viu sua imagem refletida.

O documentário “Narciso em Férias” foi produzido por Paula Lavigne e lançado no Festival de Veneza. Sobre sua prisão, Caetano cita Rogério Duarte: “quando a gente é preso, é preso para sempre”. Foto: Reprodução.

Se me permitem uma licença poética, como no longa-metragem o próprio Caetano cita “um negócio de Freud com Marx”, é bom não esquecer que o Narciso (de Freud) diz respeito à maneira como cada pessoa relaciona-se consigo mesma a partir do outro (sua imagem). Nesse sentido, é extremamente necessário prestar atenção às palavras de Caetano quando denuncia (do lado de Marx) a partir da própria prisão, as desigualdades de classes sociais e o racismo (mesmo não sendo negro): “Eles nos tratavam como se não fossemos gente e como se eles mesmos não fossem gente como nós. Gil tinha direito ao violão só porque tinha ensino superior. Não precisa assistir Tropa de Elite pra saber que isso existe. Esse negócio de que com o preso preto e pobre pode fazer tudo tem que acabar”

De acordo com Caetano Veloso, esse fenômeno é a reafirmação da escravidão. De tal modo, em última observação, afirmo que é preciso lutar para que haja a nova e segunda abolição. Enquanto o Presidente da República nega a existência da ditadura militar que prendeu e tenta cafajestizar a imagem do Brasil, Caetano, subversivo e desvirilizante, leva do Brasil para o mundo o seu testemunho de um autêntico, vivo e legítimo patriotismo brasileiro.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.

Ferreira Gullar: a pluralidade da poesia

Ferreira Gullar, nome artístico de José Ribamar Ferreira. Foto: Folha de S.Paulo/Divulgação.

Uma parte de mim é permanente

Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem

Outra parte linguagem

– Traduzir-se, de Ferreira Gullar

Hoje Ferreira Gullar completaria 90 anos caso estivesse vivo. Ferreira Gullar… Por um bom tempo carreguei esse nome com certo conhecimento e desconhecimento ao mesmo tempo. Isso porque não conhecia a fundo quem foi, o que tinha feito ou mesmo sequer havia lido algum poema seu consciente de que se tratava de uma obra do Gullar.

Ao mesmo tempo, é um nome conhecido, importante e, sobretudo, poético. Não somente por ser o nome de um poeta, mas por ser inventado e, como o próprio José de Ribamar Ferreira – nome de nascimento de Gullar – afirmava, a poesia e a própria arte inventam novas realidades. Por isso poético, ou seja, inventado pela e para a poesia inventiva.

Vim conhecê-lo um pouco mais nesse período de quarentena em virtude da pandemia do novo coronavírus, momento em que chega a mim a frase dita por Gullar de que “A arte existe porque a vida não basta”. Frase esta que poderia muito bem ser usada como resposta sucinta do aumento do consumo de arte desde que se iniciou a decretação de isolamento social em março. Foi esta frase que me levou a buscar responder: quem afinal é o sujeito cujo nome eu carregava em meu esquecimento?

A pluralidade poética

Além de poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor, Gullar foi um subversivo. Não só por assim ser considerado durante o regime de ditadura militar, mas também assim o foi na poesia. Ele mesmo falava que era contra a maré da vez. Assim, pelo caráter revolucionário, Gullar possui em sua obra poética diferentes estilos e até mesmo obras com a ausência de um estilo específico.

O poeta iniciou sua produção com textos sob influência do simbolismo e parnasianismo presentes no seu primeiro livro: “Um pouco acima do chão” (1949). O lançamento do livro se deu antes de Gullar se deparar com a fase modernista, que a primeira impressão lhe causou rejeição, e num segundo momento, a aceitação.

Bebendo do modernismo e da quebra de padrões poéticos que o caracterizou, Ferreira começa um processo de contestação não apenas dos padrões da poesia, mas até mesmo dos padrões da linguagem. Tal conflito chega a um momento em que Gullar diz ter desintegrado a linguagem e a partir daí a reconstruído, de uma forma que possibilitasse o surgimento da linguagem ao mesmo momento em que nascia o poema. O resultado desse processo foi o seu segundo livro: “A luta corporal” (1954). Essa foi uma das obras que marcaria o início do movimento Concretista brasileiro, um movimento de vanguarda artística da época que tinha influência direta da arte visual concreta.

Porém, revolucionário poético que era, Gullar rompe tempos depois com o concretismo ao julgar que os padrões desse modelo de poesia, construída visualmente e sem discurso, estavam tomando caminhos deveras racionais e objetivos. Isso estava se dando de tal forma que parte do movimento concretista chegou a cogitar que a poesia seria feita a partir de então sob a influência de fórmulas matemáticas, o que de fato nunca chegou a acontecer segundo Gullar. Dessa forma, ele torna-se um dos precursores do neoconcretismo, que foi um movimento artístico iniciado no final da década de 50 que tinha influências no concretismo, mas que permitia espaço para a subjetividade e rejeitava a racionalização extrema da arte.

Posteriormente Gullar explorou também a poética do cordel e, entre os cordéis escritos por ele, destaca-se “João Boa-Morte cabra marcado para morrer” (1962), cujo título inspirou o clássico documentário brasileiro Cabra Marcado Para morrer (1984), dirigido por Eduardo Coutinho.

Poema Sujo

Apesar da qualidade dos poemas de diferentes estilos explorados pelo poeta, o seu poema/livro mais conhecido e ao qual foi atribuído mais importância social foi aquele que não obedecia a nenhum estilo especificamente. A obra em questão é “Poema Sujo”, longo poema escrito durante os meses de maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, período da ditadura militar em que Gullar se encontrava em exílio.

“O homem está na cidade como uma coisa está em outra

e a cidade está no homem que está em outra cidade”

Segundo o próprio poeta, é um livro diferente de tudo que ele havia feito, tanto pelas condições extremas na qual se encontrava devido ao exílio, quanto pelos padrões estilísticos da obra. Entretanto, não é um poema sobre exílio, mas um resultado do exílio, no qual o próprio Gullar tenta resgatar o país de origem no que ele tinha de mais afetivo, de mais próximo dele. Dessa forma, ocorre um mergulho num mundo de memórias tristes, dramas, miséria, sofrimento, coisas perdidas e ao mesmo tempo, de belezas pessoais e subjetivas.

Escrito como a última coisa que Gullar pensara que escreveria, Poema Sujo foi trazido por Vinícius de Moraes para o Brasil em uma gravação em áudio do próprio Gullar e, devido à repercussão que teve para os intelectuais no país, tornou possível as condições necessárias para que o poeta retornasse ao Brasil.

Foto do lançamento de Poema Sujo no Rio de Janeiro, sem a presença de Gullar devido ao exílio. Foto: site hypeness/Divulgação.

Para além da poesia

A obra artística de Gullar ecoou não somente pela poesia, mas, através dela, se fez presente também em outras vertentes artísticas. A primeira, cuja estreita relação já foi apontada aqui, é a arte visual. Essa relação se dá de uma forma de via de mão dupla, uma vez que foi bebendo das artes visuais que Gullar desenvolve sua colaboração nos movimentos concretista e neoconcretista e continuou exercendo uma importante função na inspiração do poeta. Tamanha era a influência que, em entrevista ao Roda Viva, programa televisivo da TV Cultura, em 2011, Gullar chegou a afirmar que lia mais livros sobre arte visual do que sobre literatura.

O próprio Gullar fez das artes visuais um hobby e chegou a fazer exposições com peças de sua autoria em 2014, chamada A revelação do avesso. A sua presença no mundo cinematográfico também já foi citada com o filme Cabra Marcado Para Morrer, no qual não apenas escreveu o cordel que inspirou o nome do filme como também é autor da narração.

Na vertente artística do teatro, Gullar ainda participou do grupo Opinião, durante os primeiros anos da ditadura. Foi nesse período que escreveu, junto a Oduvaldo Vianna Filho, a peça Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come, obra que através do humor contestava normas de conduta, valores e regras sociais.

Enquanto músico, talvez o espaço de repercussão de sua poesia que mais me chamou atenção foi na música. A primeira boa surpresa após começar a pesquisar sobre o poeta foi perceber o seu nome enquanto compositor de Borbulhas de Amor, canção gravada por Fagner e traduzida por Gullar da música espanhola, Borbujas de Amor, de Juan Luis Guerra. Entretanto, Fagner ainda gravou outros poemas de Gullar, entre eles Traduzir-se, que nomeia o álbum de 1981 daquele que ficou conhecido como um dos componentes do grupo Pessoal do Ceará; e Cantiga para não morrer talvez minha preferida das que foram musicadas pelo cantor e compositor cearense que na gravação de Fagner também é conhecida como Me leve

Além das músicas em parceria com Fagner, também vale destacar a presença da poesia de Gullar na meio musical através da canção Definição da Moça, feita em parceria com Adriana Calcanhotto e Onde Andarás, presente no primeiro álbum solo de Caetano Veloso. Outro célebre artista a cantar versos do poeta foi Milton Nascimento, que musicou e cantou trecho do Poema Sujo na música Bela, Bela.

Ferreira Gullar faleceu em 4 de dezembro de 2016 e deixou como legado a profundidade existencial, subversividade e abrangência de sua poesia, arte e intelectualidade.

“E na história dos pássaros

os guerreiros continuam vivos.”

Ferreira Gullar

Leia mais do mesmo colunista aqui.

A história de Jorge


Ilustração de Lucas Santos

Em meio ao céu escuro e denso, uma lua perdida deixava um rastro na água e iluminava três homens sentados na areia fumando seus malboros. O mais velho deles, detentor de uma longa barba grisalha e cabelos bem penteados, deu um longo trago e tomou a palavra.

– Vou contar uma história. Os senhores já pensaram sobre o amor? Eu acho que não, são muitos jovens pra conhecer um sentimento assim. Quando se é jovem, se é deslumbrado. O mundo é um imenso campo de possibilidades clamando pra serem descobertas e vivenciadas. Pensando bem, não sei se é sobre amor, sobre desejo, sobre ódio… Pois bem, não vou ficar divagando, vamos direto à história.

Imaginem um rapaz de grande talento. Grande futuro. Tudo que fazia dava certo. Cresceu colecionando medalhas dos campeonatos de futsal, natação e vôlei que sempre disputava pela escola. Suas notas? Impecáveis. Nunca recebia nada menos que 9. Seu pai o venerava e toda vez que aparecia uma visita não se dava o trabalho de esconder sua felicidade por ter criado o primeiro futuro médico da família. Já a mãe, ah, a mãe o tratava como o futuro libertador da humanidade.

– Tá com fome? Vou fazer a torta que tu gosta. Quer mais bolo? Eu levo no teu quarto com refrigerante.

Tinha uma infinidade de amigos que o adulavam e o seguiam. Por onde passava as meninas suspiravam, desmaiavam, e as mais corajosas até chegavam a mandar cartinhas. Esse jovem jamais conheceu a palavra dificuldade. Vocês devem estar pensando “esse cara deve ser um metido, um puta chato de galocha”. Mas eu lhes digo, e podem confiar na minha palavra, existia algo inexplicável nele. Não havia nele sequer um pequeno traço de orgulho ou superioridade. Mesmo parecendo não precisar fazer o mais leve esforço pra conquistar o que quer que seja, possuía uma modéstia, um tipo de essência natural que vinha de dentro. Então, os anos foram se passando, e o talento, a leveza, o estilo de um verdadeiro dândi de coração puro continuou com ele, mesmo após entrar na faculdade de medicina e conseguir os melhores estágios na mais conceituada universidade.

Foi aí que conheceu Maria. Ah, meus jovens, posso lhes afirmar, aquela mulher provinciana vinda do interior despertava o interesse de todos que a conhecessem. Seu rostinho delineado pelas mãos de Deus tinha o poder de injetar sangue até mesmo no coração mais seco que a olhasse de relance. As palavras saídas de seus incríveis lábios carnudos sempre eram acompanhadas por uma risada ingênua e meio desengonçada que possuía a função inconsciente de pontuar cada frase. Mas, em vez disso quebrar seu encanto, todos se derretiam ainda mais ao perceber que ela não era uma deusa intocada que fizera a gentileza de descer um pouquinho do seu olimpo. Não. Isso só a transformava na humana mais pura que alguém já pudera ter conhecimento, os gestos e movimentos de seu corpo só transmitiam simplicidade e uma inexorável ausência de fingimento.

Casaram-se…

Ora, não havia a chance de um par tão perfeito dar errado. Foram unidos pela natureza divina. Maria, uma amante da arte e da arquitetura, cuidou de tudo, como sempre cuidara. Cobriu toda a extensão do papel de parede na parte esquerda da sala com quadros, réplicas de grandes obras, mas também originais de seus conhecidos e adorados contemporâneos. Colou fotos tiradas dos baús empoeirados – tanto da família dela quanto da dele. Geladeira inoxidável de quatro portas. Pia de mármore Italiano. Cama king size com mola do Himalaia. Era o paraíso das casas. Espírito, conforto e beleza.

Se não me engano, existe um filósofo que diz que a vida é uma constante oscilação entre o desejo e o enfado. Pois então, pela primeira vez, pouco mais de um ano vivendo no paraíso a dois, esse Apolo do estetoscópio conheceu a vida dos meros mortais. Em determinado momento tudo está bem como sempre esteve. Ele acorda, olha aquele rosto com duas maçãs rosadas, alisa seus cabelos negros, beija sua têmpora. Mas de repente… De repente seus pensamentos saem do controle. Parece que o mundo ficou preto e branco. Ou mais colorido… Há tantas criaturas fascinantes naquele hospital. Nunca tinha reparado nessa loira antes. Olha o rabo daquela morena. Como devem ser os pelos dessa ruiva? Esse homem puro e incorruptível que nunca fez nada além de cumprir seus objetivos e sua função de ser perfeito, agora não consegue mais parar de pensar em quantas bucetas existem por debaixo de saias justas prontas pra serem corrompidas, implorando pra serem defloradas.

O que vocês fariam nessa situação? De um lado, a pureza da mulher dos sonhos. Do outro, a infinidade de cavernas molhadas a serem exploradas. O que leva as pessoas a escolherem passar uma vida inteira juntos? Existem coisas de uma ordem maior nessa escolha, ou no fundo não passa de algo banal, irracional, uma fuga amedrontada da solidão? Me digam o que vocês acham! “Até que a morte nos separe”, e quem diabos sabe em quantos anos a morte vai chegar? Existe muito barulho no período entre a vida e a morte.

“Ela bota margarina na torrada. Mas quem é que bota margarina na torrada? Pra que eu compro manteiga então? E essa carne? Essa carne parece sola de sapato! Com tanto conhecimento, ela não aprendeu que carne se faz mal passada? Não se coloca roupa preta junto de outras cores, acho que eu mesmo vou ter que passar a lavar minhas próprias roupas, ainda mais essa. Meu deus, não quero nem pensar naquela risada insuportável…” Passou a encontrar defeitos nas coisas mais ordinárias. Sua paciência já não existia. Como era possível não amar mais aquela mulher? Tanta bondade, tanta atenção, e ainda um jeitinho infantil que encanta a todos… Ame sua mulher seu idiota! Ame ame ame! Mas só sabia odiar. Quanto mais se reprimia, mais rancor surgia. Em vez de gritar, sempre sorria. Porém, a odiava – ou se odiava – mais que tudo.

– Vou embora.

– O que? Deixa de brincadeira, tô ocupada fazendo a lista da feira.

– Não é brincadeira. Não precisa guardar nem mandar nada meu. Só vou embora.

– Vai pra onde?

– Não sei.

– Do que tu tá falando? Tá endoidando?

– De nada. Não torna as coisas mais difíceis do que já são.

– O que eu fiz? Me diz o que eu fiz que eu não faço mais. Me desculpa. Me perdoa.

– Não fez nada. Não peça desculpas.

– Não me deixe agora, Jorge. Não me deixe. 

As palavras entravam pelos ouvidos dele como a fumaça desse cigarro. Nem sentia raiva, nem tristeza, nem remorso. Talvez não existisse nada em sua alma além de silêncio. O único som ouvido depois disso, foi o ruído da porta se fechando nas costas dele.

Não cabe a mim narrar o que se passou com eles depois daquele dia. Mas digo pra vocês, até hoje, todas as noites antes de fechar os olhos, ele lembra daquela cena. E todas as noites, ele diz alguma coisa diferente. Mas no fundo sabe que isso é tudo em vão. Sabe que se tivesse a chance de voltar no tempo, se tivesse esse poder que os homens dariam tudo pra ter, se tivesse essa chance… Aconteceria tudo outra vez. Por anos pensou, pensou, pensou. Mas nada disso importa agora. Passado tanto tempo, ele ganhou experiência suficiente pra saber que só tem o provisório. Chegou a conclusão definitiva de sua vida. Sim. Foi amaldiçoado com a incapacidade de ter algo duradouro. Mas quem foi o demiurgo que balançou essa varinha maldita?

Bem, acho que já falei demais. Tá na minha hora. Boa noite, meus amigos. Boa noite.

O anjo pornográfico: pequenos recortes para pensar aspectos da arena política brasileira contemporânea


Nascido em 1912, o autor de obras como “O Anjo Negro” e “A Dama do Lotação” faria 108 anos em 2020. Foto: Reprodução

Durante essa pandêmica quarentena paguei algumas dívidas de leituras. Uma delas foi “O anjo pornográfico”, a famosa biografia do escritor e jornalista Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. Essa era uma dívida que muito me incomodava, tendo em vista que nutro um grande fascínio pela persona do biografado e pelo próprio sucesso que o livro alcançou, desde o seu lançamento no já longínquo ano de 1992 (foi o vencedor do prêmio Jabuti na sua categoria no ano seguinte).

Ler “O anjo pornográfico” com tanto atraso me confirmou um prejuízo que eu já suspeitava acumular, pois a obra tem méritos enormes, que vão desde o primoroso trabalho de pesquisa, passando pelo estilo fluido de Castro, até o cuidado editorial (entre outros tantos acertos). No entanto, lê-la nessa distância temporal e, mais destacadamente, no presente momento da vida pública brasileira, trouxe-me algumas conexões (e reflexões) interessantes. É sobre essa relação obra/realidade atual do país que gostaria de comentar neste pequeno artigo, destacando dois trechos da biografia que me levaram a inferências sobre posturas/práticas políticas dos nossos (supostos) pólos ideológicos nos dias que correm, um para cada lado.

O primeiro excerto do livro que destaco aqui é a abertura do capítulo 19, intitulado “O tarado de suspensórios”, que retrata um pequeno instantâneo da luta do político Carlos Lacerda contra o então presidente Getúlio Vargas. De acordo com Ruy Castro, na sua estratégia anti-getulista, Lacerda precisava primeiro destruir o jornalista Samuel Wainer e o seu “Última Hora”, jornal em que Nelson Rodrigues trabalhava na circunstância dessa querela. Estando, pois, empregado na empresa de Wainer, as “bordoadas” do udenista sobraram para o tal anjo pornográfico:

“O tarado Nelson Rodrigues!”, gritava Carlos Lacerda pela rádio Globo em 1953. “Um dos instrumentos do plano comunista da “Última Hora” para destruir a família brasileira!” 

Carlos Lacerda citava Marx e Engels, para mostrar o péssimo conceito que os dois filósofos alemães tinham da família, e lia trechos de “A vida como ela é…”, para provar que Nelson Rodrigues fazia parte do insidioso movimento comunista internacional. Quem ouvisse Carlos Lacerda falando aquilo pelo rádio, e não conhecesse Nelson, era bem capaz de acreditar. Mas qualquer um que já tivesse trocado duas palavras com ele só podia rir. (Castro, 2001, p. 243)

A passagem nos faz lembrar que a retórica anticomunista já era utilizada no país muito antes da ascensão da força política que atualmente ocupa nosso governo federal. Na historiografia nacional podemos facilmente constatar que as hostilidades aos comunistas já aconteciam desde as primeiras décadas do século passado, sendo intensificadas após a Intentona Comunista em 1935. Mas a semelhança dos discursos nos salta aos olhos. E um mesmo propósito: ativar uma maquinação ideológica para desqualificar opositores e colocar no debate/espaço público brasileiro temas e convicções extemporâneos, frequentemente centrados no apelo confuso à religião e à moral. “Vai haver uma limpeza como nunca houve antes nesse país. Vou varrer os vermelhos do Brasil. Ou vão embora ou vão para cadeia”, vociferou o então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral (ou seja, 65 anos após Carlos Lacerda!) na sua famosa transmissão para a avenida Paulista. Obviamente, o despropósito do presidente é muito maior. Lacerda não foi testemunha da queda do muro de Berlim e nem de toda derrocada do Leste Europeu que assistimos ao fim do século XX, eventos que desvelaram, definitivamente, um modelo político nada desejável. Diante disso, torna-se inevitável pensarmos o “fantasma do comunismo” como uma desatinada estratégia retórica sem vínculos muito concretos com a nossa realidade (ainda que setores da esquerda no país insistam na crença em caminhos pouco democráticos e supostamente redentores para a “nossa salvação”). 

Edição da editora Companhia das Letras da biografia “O anjo pornográfico”. Foto: Reprodução.

O segundo trecho está logo adiante, no capítulo 22 da obra, intitulado “O sangue em flor”. Trata-se de outra citação de terceiros, dessa vez do jornalista e escritor mineiro Paulo Mendes Campos. Na sua crítica à peça de Nelson “Os sete gatinhos”, que acabara de estrear (era outubro de 1958) no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro, P.M.C. escreveu: 

O mundo perde sempre um pouco da sua potencialidade trágica quando um preconceito é destituído. Se admitirmos, por hipótese, um mundo mentalmente asséptico, varrido de todos os preconceitos, estejamos certos de que o drama e a tragédia desaparecerão dos palcos. (Castro, 2001, p. 287)

De forma ousada, Paulo Mendes Campos sintetiza nesse excerto o teatro livre e sem concessões de Nelson Rodrigues. “Os sete gatinhos” narra em sua trama a história de uma família na qual quatro irmãs se deixavam prostituir pelo pai para que a caçula se casasse virgem – uma tragicomédia que expõe as vísceras de uma realidade suburbana brasileira, permeada de preconceitos e contradições. Parafraseando o próprio Nelson, o que ele nos oferece é a vida como ela é… 

Ao ler o fragmento de Paulo Mendes Campos acima, podemos facilmente nos lançar a pergunta: como seria hoje a recepção dessa sua crítica por parte da nossa atual esquerda identitária? Mesmo considerando que o leitor, como já nos alertou um teórico alemão, “nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua compreensão é justa” (Iser, 1979, p.87), desconfio que, muito provavelmente, ela não teria um bom acolhimento. No entanto, o que vemos nas palavras do autor de “O Amor acaba” não se trata de uma exaltação de ideias que nos remetem a discriminação e/ou a intolerância. O que elas nos trazem é a valorização do exercício teatral mimético, transferidor, cujo efeito catártico nos oferece antes a possibilidade de enxergarmos nossos valores e sentimentos e, aí sim, nos dando a chance de nos livrarmos dos preconceitos.

Eis dois pequenos recortes, retirados da minha leitura extemporânea d’O anjo pornográfico, que me levaram a aspectos/inferências da arena política brasileira contemporânea. Nessa condução, a admirável biografia me reafirmou aquilo que aprendemos desde cedo, que a literatura sempre nos consente unir a obra do escritor com a realidade do leitor, onde este último busca discernir como texto e repertório/experiência (aqui pode ser até mesmo um momento político) se encadeiam – esses são os motores do processo de significação. Um livro nunca é o mesmo, seja a cada releitura ou mesmo em sua primeira e distante leitura atemporal, como no caso descrito neste texto. O trabalho de Ruy Castro também me confirmou outra velha lição: “a literatura permite àquele que lê pensar e até organizar/reorganizar a complexidade que é a vida”. (Cassiano/Tofalini, 2012, p.1) 

Sobre o autor: Doutor em Estudos de Literatura pela PUC-Rio, Roberto Azoubel atualmente é Coordenador de Literatura na Secretaria de Cultura de Pernambuco.

Referências Bibliográficas:

CASSIANO, Luzia de Queiroz; TOFALINI, Luzia Aparecida Berloffa. Romance regionalista e denúncia social. In: PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. O professor PDE e os desafios da escola pública paranaense, 2009. Curitiba: SEED/PR., 2012. V.1. (Cadernos PDE). Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2009_uem_portugues_artigo_luzia_de_queiroz_cassiano.pdf>. Acesso em 23/08/2020. ISBN 978-85-8015-054-4.

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Hans Robert Jauss et al.; coordenação e tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. 

Quem tem medo de literatura russa?


Ilustração de Lucas Santos

Os russos, constantemente, encabeçam o topo dos catálogos da boa e alta literatura. Assim, quase sempre imaginamos três tipos de leitores para tais brilhantes livros: intelectuais da elite, geralmente de meia-idade, sentados em sua vasta biblioteca com um copo de vinho em uma mão e o livro na outra; são leitores inteligentes, experientes e, claro, estão à altura das ironias fantásticas de Gógol ou da poesia histórica de Pushkin. O outro tipo de leitor é o jovem hipster pseudo-cult, que conversa em mesa de bar sobre os temas mais banais da filosofia com um vocabulário (de bêbado) rebuscado e banca de erudito por ter lido Memórias do Subsolo, mas não sabe muito bem diferenciar Dostoiévski de Bukowski. Por fim, temos o leitor socialista, interessado na literatura soviética, que chora lendo Górki e Ostrovsky. Mas e quando você não se encaixa em nenhuma das categorias acima, para que ler literatura russa?

Para nada. Concordo com Italo Calvino: os clássicos só devem ser lidos por amor, quando já se pode estar fora da obrigação desanimadora da escola.  O que não significa dizer que não possam servir à qualquer propósito educacional ou social: podem, mas, um leitor comum, isto é, que não trabalha ou estuda literatura, não precisa, necessariamente, ler isto ou ou aquilo. Literatura é, sobretudo, arte e, como tal, já se basta. Ou seja, se não é pela impressionante arte russa de contar o absurdo como plausível (acordar sem nariz ou conversar com um monge negro que mais ninguém vê), ou a capacidade perturbadora de retratar a indignidade humana com tão poucas reservas, que te interessa, sobretudo, como leitor, porque dar-se ao trabalho? Além do mais, fico com os românticos – de que adianta ler se não para experienciar a amizade literária da qual Proust falava? 

Contudo, é comum querer ler alguma coisa e, por causa do rótulo de genialidade e obscuridade que há sobre ela, não sentir-se à vontade para isso. Neste caso, acredito que se deve, de fato, indicar e, portanto, desestigmatizar tais livros. Não negarei, no entanto, que é possível se estar intelectualmente despreparado para esta ou aquela leitura, quiçá, todo leitor passa por isso, provavelmente, diversas vezes na vida. Mas essa é uma questão meramente temporária: talvez te falte a leitura deste outro livro primeiro, ou quem sabe seja importante ler sobre tal assunto ou simplesmente amadurecer. A primeira vez que li Madame Bovary, aos 15 ou 16 anos, achei tremendamente maçante; hoje, acho genial. 

Mas me permitindo dar um propósito social à leitura dos russos, e aqui no Brasil, especialmente: deixar de lado a mentalidade de Guerra Fria e os muitos estereótipos negativos que ainda pesam sobre a Rússia, é tarefa que lendo a literatura produzida no país se faz com maior facilidade. Calvino também dizia que “os clássicos servem para nos dizer quem somos e aonde chegamos”. E, com efeito, a literatura é capaz de ser um meio de entender uma cultura e sua História. Por conseguinte, faz-se, talvez, necessário ler os próprios russos, a fim de pensar o período tsarista, a Revolução, a URSS e até a contemporaneidade, para além da narrativa ocidental hegemônica. Entretanto, neste texto não iremos tão longe a ponto de alcançar o presente; ler literatura russa contemporânea é, para mim, um exercício que se faz depois de ter lido o passado.

Nem tão passado assim! Como diria Vladimir Nabokov, a literatura russa é um “evento recente”. Não só para nós, não-russos, que tendemos à limitar sua produção literária ao século XIX e ao início do século XX. Para o próprio Nabokov, o sumo da literatura russa foi, efetivamente, escrito nesta época, o que chega a ser assombroso, dado que não havia uma tradição literária fortemente estabelecida no país, como na Inglaterra ou na França, por exemplo. Contudo, aqui não entrarei em detalhes históricos. A quem interessar, leia Lições de literatura russa de Nabokov, livro bem mais explicativo e completo que um texto de indicações de leitura para iniciantes poderia chegar à ser: ainda que o desprezo pela produção soviética e a cabeça deveras conservadora e patrícia do autor nos faça revirar os olhos de vez em quando.

Atentarei, pois, à literatura produzida durante todo século XIX, a chamada Era de ouro e, na primeira metade do século XX, Era de prata. Isto posto, segue-se uma lista de livros que considero acessíveis, o que, de maneira alguma, significa serem inferiores; algumas das obras citadas são de importância primordial para a produção literária e, acessibilidade não diverge de complexidade. Não indicarei, pois, livros não publicados no Brasil, nem esgotados. Abaixo, também não recomendarei Oblomov ou Vida e Destino para quem não leu nada de literatura russa ou, no máximo, algum curto Tolstói ou Dostoiévski – esta é uma lista para iniciantes. Se você já é um russófilo experiente, o texto a seguir não é para você.

Nicolai Leskov (1831-1895). Foto: Divulgação.

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk – Nicolai Leskov (1865)

Dentre seus contemporâneos, Leskov é um dos menos conhecidos autores da literatura russa do século XIX. A despeito disso, como colocado por David McDuff, depois de Gógol, é um dos mais “quintessencialmente russos” na tradução da alma e do caráter de sua época e país. Paradoxalmente, sua literatura tem curiosa correspondência com a tradição inglesa, assim como a de Turguêniev, sempre acusado de ser mais europeu que russo. O caso é que Leskov é um escritor de paradoxos e sua mais célebre novela, Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, é prova disso: não é sem curiosidade que lemos tal título, que indica a existência de uma heroína shakespeariana associada a um emblema de nobreza, situada em um distrito sem a menor importância na Rússia oitocentista.

A jovem Katerina Lvovna leva “uma vida angustiante na casa rica do sogro, casada por cinco anos com um homem descarinhoso; todavia, ninguém prestava, como de praxe, a mínima atenção àquelas angústias dela”. Em tal tediosa situação, Katerina acaba apaixonando-se por um criado da propriedade, em consequência de quem passa a cometer atrocidades tremendas, contadas por um narrador amoral que jamais trai a frieza com que Katerina age em todos os seus crimes.  Não é a toa que Walter Benjamin via em Leskov um jornalista que tornou-se um escritor, e é isso que faz da novela tão perturbadora e, sem dúvidas, genial, mesmo escrita em uma linguagem tão simples que beira a vulgaridade. Para mim, a protagonista é uma das melhores personagens femininas da Europa do século XIX, além de extremamente universal. Portanto, uma ótima porta de entrada para literatura russa.

Ivan Turguêniev (1818-1883). Foto: Divulgação.

Diário de um homem supérfluo – Ivan Turguêniev (1850)

Penso que sempre se é indicada sua novela Primeiro amor, para uma introdução na obra do autor. Mas, apesar de achá-la interessantíssima e até bastante parecida com o nosso Dom Casmurro, prefiro este diário, por causa de seu efeito e influência, para figurar numa lista como a que escrevo agora. Rejeitado literariamente por Dostoiévski e desestimado pessoalmente por Tolstói – os dois quase se enfrentaram em duelo, antes da política de não violência que Tolstói adotou depois de sua revolução espiritual! –, Turguêniev é sempre tido como menor dentre os mais famosos dos seus contemporâneos. Não é incomum ouvir a crítica de que sua obra é pouco original, mais européia que russa e, principalmente, muito repetitiva. Sobre ser (um pouco!) repetitiva, moderadamente concordo. Mais de resto, fico ao lado dos que veem no autor, um dos melhores escritores do século XIX. 

Em Diário de um homem supérfluo, Tchulkatúrin descreve, em mais ou menos 20 dias, sua vida insignificante, com um humor melodramático somente comparável em impacto às Memórias do subsolo de Dostoiévski. Assim como este último, é um livro para sofrer de vergonha alheia, com um dos duelos mais ridículos da literatura, que nem Dumas fez igual. E apesar da narrativa, aparentemente palerma, nesta novela, Turguêniev criou uma figura literária que incorporou-se por completo na produção russa de seu tempo e mudou os rumos da crítica: agora, interessava rastrear o homens supérfluos antes e depois de Tchulkatúrin – coisa de grande autor, sem dúvidas. Dá-se que, escrito durante o período entre a Revolta Dezembrista de 1825 e a emancipação dos servos em 1861, o homem russo se descobria desmotivado com o despotismo czarista e o anacronismo da nação: o nobre russo era o mujique do resto da Europa. Assim, como bem colocado por Samuel Junqueira, no excelente prefácio à edição da Editora 34, naquele momento, só podia haver heróis como Tchulkatúrin, que, à propósito, muito inspirou o conceito do oblomovismo, central na literatura russa da segunda metade do século XIX.

Filme Tio Vânia (дядя ваня) de Andrei Konchalovsky – 1970. Foto: Divulgação.

Tio Vânia – Anton Tchekhov (1898)

O que Doutor Jivago mais gostava em toda literatura russa, era o “espírito infantil” de Pushkin e Tchekhov, ambos preocupados com o cotidiano mais ordinário, “decorrentes de suas vocações de escritor”. Não é a toa que Rilke afirmava não apresentar nenhum problema ao bom autor um cenário muito pobre ou estático, o escritor saberia tirar desse, sua poesia mais prolífica. Discordando de Tolstói, que achava a narrativa teatral de Tio Vânia estagnada demais, acredito que essa peça é uma prova extraordinária do que pensava Jivago e Rilke. Isto posto, a literatura de Tchekhov pode soar como tediosa ou pouco interessante fora do contexto russo, mas, longe disso, essa é uma das qualidades que fazem do autor um dos mais universais. Os conflitos morais de Tio Vânia nos são comuns há muito tempo e, provavelmente, sempre serão, enquanto envelhecermos. Surpreendentemente, os primeiros rascunhos dessa peça foram escritos quando Tchekhov estava ainda na escola.

Vânia e sua sobrinha Sônia (impressionante personagem!), cuidam de uma grande propriedade, na qual passam a morar um velho professor universitário, pai de Sônia, e sua jovem e lindíssima esposa, espécie de Anna Kariênina menos corajosa. Na casa ainda moram a feminista mãe de Vânia, uma velha criada e um agregado, além de ser constantemente visitada por um belo e idealista médico, às vezes quase tão deprimido quanto Vânia. O protagonista, aos 57 anos, percebe-se envelhecer em uma vida vã e odeia o professor quase tal qual odeia a si mesmo.  Como bem disse Marie Carnicke, as peças de Tchekhov “não são cômicas, trágicas, melodramáticas, realistas, impressionistas ou simbolistas; são tudo isso de uma vez só”. Sempre acho os finais de Tchekhov extremamente emocionantes, não devido à acontecimentos memoráveis, muito pelo contrário, são enternecedores muito mais em virtude de um esforço de linguagem que somente um grande autor, como foi Tchekhov, seria capaz de fazer em circunstâncias tão medíocres. Em Tio Vânia, as falas finais são de uma melancolia tão perturbadora, bem como, esplêndida, que não surpreende saber que Gorki chorou quando viu a peça pela primeira vez. A peça foi adaptada para o cinema por Andrei Konchalovsky em 1970, um dos filmes mais lindos da era soviética, que vale muitíssimo a pena conferir.

Anna Akhmátova (1880-1966). Foto: Divulgação.

Anna Akhmátova (1889 – 1966)

Anna Akhmátova é uma das mais conhecidas autoras da geração de prata da literatura russa. Junto com Boris Pasternak (meu primeiro poeta russo), Ossip Mandelstam e Marina Tsvetáeva, fazia parte do grupo dos quatro grandes poetas da Rússia do século XX. Autora bastante prolífica, sua produção poética estreou em 1907 e foi até 1965, um ano antes de sua morte. Portanto, Akhmátova produziu durante todo o período de revoluções e estabilização do sistema soviético, o que espelhou-se em seus poemas, que foram, ao longo dos anos, tornando-se cada vez mais patrióticos e políticos. Em Réquiem de 1961, escreveu: “Não, não foi sob um céu estrangeiro,/ nem ao abrigo de asas estrangeiras –/ eu estava bem no meio de meu povo,/ lá onde o meu povo infelizmente estava.” Como consequência, foi duramente perseguida e humilhada, tendo sua obra quase desaparecido da literatura até a era de Khrushchov. Não é a toa que em Canção do Encontro Final de 1911, tenha escrito: “Eu, na mão direita, calcei a luva da mão esquerda” – Akhmátova era uma mulher e cidadã soviética pouco convencional durante toda a sua vida. A propósito, o eu lírico feminino está presente em suas obras como uma figura de intensa melancolia e solidão, mas, ainda, de romantismo e, até, misticismo; sua poesia lembra a de Emily Brontë, abundante em musicalidade. Portanto, a poesia de Akhmátova não é, somente política. A autora ousou falar de si mesma, de suas individualidades, da arte poética e, sobretudo, da condição feminina, quando o mundo ao seu redor parecia deveras inadequado para isso.  

No Brasil, há uma pequena antologia com algumas poesias da autora, publicada pela Editora L&PM, que inclui seu Poema sem herói (1940-1965), considerado pela própria autora, seu texto mais importante.

Filme O Mestre e Margarida (Мастер и Маргарита) de Iúri Kara – 1994. Foto: Divulgação.

O Mestre e Margarida – Mikhail Bulgákov (1966)

O Diabo chega à Moscou! Ele e seu séquito – um gato quase humano de tão pretensioso, um assistente falsário, uma bruxa belíssima e um capanga que é o completo oposto – transformam a cidade em um pandemônio ou, quiçá,  revelam o pandemônio que ela já era. Enquanto isso, deparam-se com um escritor frustrado e meio louco, autor de um romance censurado sobre Pôncio Pilatos e, sua amante Margarida, que tenta bravamente livrar-se da sujeição marital e reencontrar seu amado. Este livro é de uma comicidade teatral e musical tremenda! A narrativa move-se de maneira tão surpreendente, com um ritmo quase cinematográfico, que faz o leitor passar as páginas com curiosidade até o fim da leitura. 

É por tal motivo que indico o romance de Bulgákov, com total ciência de que, entre todas as recomendações deste texto, essa é a mais desafiadora. O realismo fantástico do autor pode, de fato, assustar, mas logo nas primeiras páginas, lê-se uma escrita tão maliciosa e profundamente pilhérica, que é difícil não rir, pelo menos, algumas vezes. E depois, claro, assustar-se com a maldade com que Bulgákov trata os próprios personagens – certamente, fazer uma sátira impávida do governo soviético, da sociedade literária da época e, principalmente, da natureza humana, era um objetivo que o autor levou muito à sério: era preciso coragem para escrever tal livro e Bulgákov quase foi preso em 1926 por causa do mesmo, que só chegou à ser publicado em 1960, vinte anos depois de sua morte. Assim, esse é o livro de publicação mais tardia dessa lista, depois, inclusive, do período chamado “era de prata”, mas que foi escrito ainda durante a primeira metade do século XX.

Indico fortemente, sem nenhuma obrigatoriedade, que se assista a ópera Fausto de Charles Gounod ou, ao menos, escute-a antes da leitura desse livro, pois é possível encontrá-la com legendas na internet e é, também, possível ouví-la. Não diria que faz uma diferença tremenda, mas é certo que Bulgákov assistiu à essa ópera mais de 40 vezes antes de escrever O Mestre e Margarida. O Fausto russo, então, tem mais a ver com  a obra musical de Gounod do que com o livro de Goethe.

Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Foto:Divulgação.

O eterno marido – Fiódor Dostoiévski (1870)

O tão temido Dostoiévski! Certa vez participei de uma leitura coletiva de Crime e Castigo. Tínhamos um mês para ler as quase 600 páginas de um dos livros mais emblemáticos dentro e fora da Rússia, um romance que a gente demora para ler quando compra, mas nunca esquece de ter comprado; quem nunca teve medo de Dostoiévski? Chegado o fim do mês e, consequentemente, o dia da discussão, mais da metade dos participantes não conseguiram terminar o livro, inclusive os organizadores do projeto. Ouvindo as razões dos leitores que não concluíram o romance, achei que havia apenas uma inexperiência com a literatura dostoievskiana; nós, os que terminamos, já líamos o autor há algum tempo. Logo, o medo e a resistência que muitos leitores têm quanto  à Dostoiévski, tem mais a ver com péssimas iniciações, como resolver primeiramente ler Crime e Castigo, O idiota ou Os Irmãos Karamazov; e com a etiqueta de ininteligibilidade que leva consigo o autor, como se somente os mais versados e brilhantes leitores conseguissem lê-lo: em maioria, quem perpetua esse discurso, pouco leu de Dostoiévski ou portaria-se menos como Raskólnikov.

Em O eterno marido, o quarentão Veltchanínov sofre terrivelmente com uma crise de meia-idade. Torna-se ressentido do passado, um tipo Nekhludov menos moralista e, chega a perder certas memórias de tão perturbado que está. No ápice de sua hipocondria, percebe-se observado por um homem, a quem, inicialmente não reconhece e tem medo de estar sendo perseguido. Mais tarde, descobre que o sujeito, Trussótski, é o marido da falecida Natália, com quem teve um caso. O livro, tão inquietante quanto Bartleby de Melville, por exemplo, é sobre o embate psicológico entre essas duas figuras perturbadas, unidas por uma personagem que nunca, de fato, está em cena. Escrito durante os anos 60, período muitíssimo conturbado politicamente, Dostoiévski, como um “escritor social”, não gostou muito de o ter escrito, mas, literariamente, o romance não deixa de ser uma obra-prima. Esse livro é um pouco maior do que os que normalmente são recomendados para começar a ler o autor, porém, é ainda bastante curto, não passa das 200 páginas. Recomendo, principalmente, porque é uma obra que se lê de uma vez, é difícil fechá-la e deixar para mais tarde; a tensão narrativa te deixa alerta e curioso o tempo todo. Acredito, com certeza, que se o clube de leitura, visto que havia mais inciantes na produção russa, tivesse sido de O eterno marido, teríamos, pelo menos em maioria, concluído a leitura.

Liév Tolstói (1828-1910). Foto:Divulgação.

A morte de Ivan Ilitch – Liév Tolstói (1886)

O maior clichê das indicações de por onde começar a ler literatura russa! Logo, pensei bastante se deveria mesmo colocá-lo na lista, mas, para mim, é o melhor livro para iniciar-se na arte de Tolstói. Decerto, muita gente que não lê, com frequência, literatura russa ou o autor, pelo menos, já leu essa novela. Assim, se você for uma das pessoas que só leu Ivan Ilitch dos russos ou de Tolstói, sinta-se à vontade para ler, talvez nesta ordem, a Trilogia Infância, Adolescência e Juventude; A felicidade conjugal e/ou Senhores e Servos. Se quiser passar aos grandes romances, Anna Kariênina é fascinante e ímpar até na produção tolstoiana, extremamente filosófico e, ainda assim, novelesco, portanto, um bom começo: menos assustador que Guerra e Paz e menos “doutrinador” que Ressurreição

Não me demorarei acerca de A morte de Ivan Ilitch, pois já escrevi um texto somente sobre o livro. No entanto, não poderia fazer uma lista como esta e deixar o nome do, possivelmente, melhor autor russo e, com certeza, meu escritor preferido dentre todos os oitocentistas russos ou não. Tolstói é indispensável e o maior motivo pelo qual me apaixonei pela literatura do leste europeu, então, indubitavelmente, indico sua obra sem pensar duas vezes.

Tulio Carella, o Recife e a Memória Retecida


Montagem da companhia Teatro do Insólito do texto “Orgia: Diário Primeiro”, de Tulio Carella, Foto: Reprodução.

Talvez as águas do Capibaribe que receberam Italo Tulio Carella, professor de teatro recém chegado na cidade, lembrassem as águas do Rio da Prata, o mesmo que banhava a sua Buenos Aires quando decidiu aceitar o convite de Hermilo Borba Filho para dar aulas na Escola de Belas Artes, da então Universidade do Recife. Não se sabe o que ele trouxe em sua bagagem, mas se presume o que levou quando teve que sair daquela Recife efervescente cultural e intelectualmente do começo dos anos 1960. Anos depois, em 1965 ele lançaria um livro de poesia, Roteiro Recifense e, em 1968, Orgia, Diário Primeiro. Essas duas obras são unidas por laços de uma memória que é afetiva mas também sexual, e que se manifesta ao leitor de formas distintas: com tintas mais claras em Orgia e talvez mais camaleônica em Roteiro Recifense.

Tulio Carella já era um intelectual conhecido na Argentina e o propósito do convite de Hermilo Borba Filho se deu, provavelmente, para uma oxigenação no curso de teatro e ele caiu bem para essa  finalidade em um período no qual o Movimento de Cultura Popular, que teve no teatro um braço forte, estava começando a dar seus primeiros passos. Mas se por um lado os ecos dessa efervescência cultural se ouviam claramente em Pernambuco e em parte do mundo ocidental, existia um certo movimento de fechamento político e moral na latino-américa e Tulio Carella foi preso e torturado pelo Exército Brasileiro em 1961, por ter sido confundido com um traficante de armas para as Ligas Camponesas. Esse incidente foi o responsável pelo convite a sair da Universidade e do país, para o qual ele nunca conseguiu voltar até a sua morte, em 1977. Mas o fato maior é que ele guardava em seu apartamento, invadido enquanto estava preso, cadernos que eram os seus diários. O conteúdo destes cadernos descobertos mudou o rumo de sua estadia brasileira e provavelmente da sua vida. Anos depois esses cadernos, que provavelmente não mais existem, desembocaram em Orgia, diário primeiro, obra editada em 1968 por José Alvaro Editor e reeditada em 2011, pela Opera Prima.

Essas duas obras que Tulio Carella escreveu posteriormente à sua saída do Brasil e que são ligadas intrinsecamente a essa estadia recifense trazem uma memória afetiva que vem principalmente de um retroagir do autor, uma viagem para trás nas experiências que levou da cidade. Essa memória afetiva é também sexual e política, na medida em que ele assume a sua sexualidade para uma América Latina que se fechava moral e politicamente, e as duas obras representam muito disso.

Capa de “Orgia: Os diários de Tulio Carella”. Edição de 2011. Foto: Reprodução.

Roteiro Recifense se coloca como uma memória afetiva, um risco de saudade da cidade que o autor deixou para trás, e como ele mesmo apresenta no seu prefácio, são “Poemas escritos em Buenos Aires. Versos de pura nostalgia pernambucana, dedicado a los amigos Buenos y malos, ricos y pobres de la ciudad de Recife, rosa oscura del nordeste brasileño, donde el mar y los relojes tienen horas resueñas para el poeta.” Mas a obra é mais que isso. A maioria dos poemas trazem inscrita uma memória muitas vezes sexual,  sobretudo homoerótica, embora essa percepção tenha passado impune à certa parte da crítica jornalística da época, que a entendeu como de memória de alguém que sente saudades da cidade, e se Roteiro Recifense antecede Orgia cronologicamente em sua edição,  faz muito sentido enxergar a primeira como um abre alas da segunda, embora sejam obras estruturadas de formas diferentes: uma é uma seleção de poemas e a outra é uma escrita de si estruturada como romance. Mas em ambas há uma certa epifania de corpos, essencialmente masculinos, apolíneos e negros. E foram os negros naquele microcosmo do centro da cidade que inebriaram Tulio Carella, muito mais que a própria cidade e o seu grande salão intelectual. Vê-se isso na maioria dos poemas da seleção, e as imagens trazidas por eles são muito parecidas, há quase sempre algo que remete ao negro, como em 

LUMEM

Estás alegre porque eres

la sombra del sol.

Detrás de tu piel morena

rebrillan luces de oro

fino, enamorado,

en tersa combustión.

E em

MARINEROS

Carne de mar oscura

carne de marineros caboclos:

el agua salada.

tiene tantos secretos

como el agua dulce.

Con cuerpo inesperado

el caboclo cruza el mar

ardiente del verano

y traga a sorbos la negrura.

Em Orgia a memória é sobretudo homoerótica, e os relatos dos encontros intempestivos com os homens do centro da cidade são uma referência durante todo o texto. Essa é uma obra contundente de Tulio Carella, lançada dentro de uma coletânea erótica organizada por Hermilo Borba Filho. Nela o autor assume seus numerosos flertes e encontros com os homens, principalmente negros, e, embora as percepções sobre a cidade também estejam nela, é sobre isso que fala a obra, na qual está explícito que o que lhe “atrai no Recife é a atmosfera mortal, ou melhor imoral. Isto é a África com as vantagens do Ocidente. Vantagens que terei de abandonar um dia, como uma roupa velha.” E de fato teve que abandonar, com um pedido formal de saída da Universidade do Recife e em seguida do país, muito pelo conteúdo que encontraram nos seus cadernos-diários. Essa memória homoerótica foi transposta de alguma forma para Orgia, uma obra que amalgama relatos de uma escrita de si com alguns elementos de ficcionalidade, sem se saber ao certo onde um começa e o outro termina. 

Para Tulio Carella “o diário é isto que anota o bom e o mau amor, as tarefas cotidianas, as ambições secretas”, e foi em Orgia onde ele anotou essas impressões e relatos, usando artifícios estilísticos como mudanças na fonte tipográfica e na voz do narrador que servem para imprimir essa memória, que está principalmente em relatos como esse: “Na sombra da rua vejo um marinheiro negro, de braços compridos e mandíbula pronunciada. Parece esperar alguém e se desinteressa de mim depois de um olhar. Aproveito o fato de ele apoiar-se na parede para passar roçando-o e deixar que minha mão caia em sua braguilha.” Essa memória, conforme é retecida no texto, serviu para contestar uma ordem social vigente.

Parte dessa passagem do autor pela cidade pode ser resgatada por uma pesquisa historiográfica nos arquivos públicos nacionais brasileiros, mas muito dela provavelmente foi apagada por familiares e pela ditadura argentina. Nem Roteiro Recifense nem Orgia foram editadas no país natal do escritor até esses dias, e não constam dos catálogos eletrônicos das duas principais bibliotecas públicas do seu país natal, a Biblioteca Nacional Argentina e a Biblioteca do Congresso Argentino (no caso de Orgia, pois há um exemplar para consulta de Roteiro Recifense na Biblioteca do Congresso Nacional). Portanto, Tulio Carella reteceu a memória de sua passagem pelo Recife nessas duas obras e apesar dos silenciamentos que sofreu, elas ainda reverberam nos nossos dias como uma resposta, transgressiva e política, à violência sofrida nessa sua estadia em solo pernambucano. 

Sobre o autor: Moacir Japearson Albuquerque Mendonça. Cirurgião-Dentista licenciado em Letras Português-Inglês e mestrando em Estudos Literários pelo PPGLL-UFAL.

Referências: 

CARELLA, T. Orgia. Diário primeiro. Rio de Janeiro: José Alvaro Editor, 1968.

CARELLA, T. Orgia: os diários de Tulio Carella, Recife, 1960.  São Paulo: Opera Prima, 2011.

______. Roteiro Recifense. Recife: Imprensa Universitária, 1965.

Mary Shelley e o “Frankenstein”: uma crítica ao patriarcado


Mary Shelley, autora do romance “Frankenstein” . Foto: Reprodução

É difícil estar à altura das expectativas de seus pais. Quem poderia ter vivenciado isto melhor do que Mary Shelley, filha de dois dos mais radicais e proeminentes filósofos do século XVIII? Ela foi a filha de William Godwin, um grande filósofo político da Grã-Bretanha e Mary Wollstonecraft, também conhecida como a mãe do feminismo, que em sua obra pioneira, “A Reivindicação dos Direitos da Mulher”, apresentou o argumento da emancipação da mulher em uma sociedade patriarcal, que essencialmente exigia que as mulheres apenas “procriassem e apodrecessem”. Hoje, Shelley continua tão amplamente lida quanto seus pais, em grande parte devido ao seu primeiro trabalho ficcional “Frankenstein” ou “O Moderno Prometeu” (1818), sua publicação deu início ao gênero de ficção-científica. 

O gênero de ficção-científica foi inaugurado por uma jovem mulher, que tinha apenas 21 anos quando uma das obras mais influentes da literatura foi publicada em 1818.

Como dissemos, Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797, filha de dois dos escritores: William Godwin, utópico anarquista, e a feminista Mary Wollstonecraft, que morreu devido a complicações no parto. Depois de uma infância difícil com uma madrasta exigente, ela deixou sua casa aos 17 anos, com um dos colaboradores de seu pai, o poeta Percy Bysshe Shelley. Os dois se casaram logo após o suicídio da esposa de Percy, dois anos depois. O casamento foi infeliz, tumultuado pelos relacionamentos sexuais abertos “utópicos” de Percy Shelley e assombrado pelas mortes prematuras de três de seus quatro filhos. Aos 19 anos, em 1816, ao visitar Lord Byron com Percy, no Lago Genebra, os três se desafiaram a escrever uma história de terror. O resultado foi o romance “Frankenstein”, que seria publicado em 1818, se tornaria um sucesso popular instantâneo, e teria seu personagem principal transformado em um mito na literatura universal. Quatro anos mais tarde seu marido se afogou em um acidente de barco. Mary Shelley criou o filho com dificuldades, recebendo uma pensão anual de seu sogro, Sir Timothy Shelley, que se recusou a conhecê-la. Em 1844, com a morte do avô, o filho de Mary e Percy Shelley herda suas propriedades e Mary passa a ter uma situação financeira confortável. Ela nunca se casou de novo, mas continuou como escritora de sucesso até sua morte, em Londres, em 1851.

Ao seguir os passos de sua mãe, Shelley trabalhou em defesa das mulheres subjugadas na sociedade. No entanto, o traço da consciência feminista em seu trabalho foi largamente ignorado. Não foi, até as críticas feministas do final do século XX, que os estudiosos descobriram um ataque implícito à ciência e ao patriarcado em seu romance gótico “Frankenstein”, mostrando a consciência de Shelley da subjugação das mulheres em um mundo movido pela razão, pela ciência e pelo patriarcado. Isto pode ser uma surpresa porque “Frankenstein” mal apresenta um personagem feminino forte e independente e, ironicamente, a maioria das personagens femininas morre pela culminação do romance. Entretanto, foi justamente na negação das personagens femininas que Shelley procurou explorar sua questão mais relevante.

Frankenstein: edição comentada; Mary Shelley. Editora Zahar.

A obra Frankenstein gira em torno do personagem de mesmo nome, Victor Frankenstein, um cientista ambicioso que tenta desfazer o ciclo da natureza, trazendo de volta os mortos à vida. Em seu laboratório isolado, Victor consegue reanimar um cadáver – mas enojado com sua própria criação monstruosa, ele a abandona. A criatura, querendo ser amada e aceita pelo mundo, está cheia de raiva contra seu mestre e provoca estragos em sua vida, pedindo-lhe uma companheira para compensar sua existência solitária. Victor inicialmente concorda, mas percebendo que suas criaturas poderiam procriar e levar à aniquilação da raça humana, Victor rasga sua criação feminina em pedaços. O monstro jura vingança, levando  a trama a uma tragédia final.

A morte de personagens femininas no romance é o suficiente para questionar como a ciência e o desenvolvimento são essencialmente uma empresa masculina e subjugam as mulheres (uma teoria posteriormente defendida pelo ecofeminismo). Entretanto, a leitura feminista mais estimulante do romance foi feita por Anne Mellor em seu livro “Mary Shelley: Sua Vida, Sua Ficção, Seus Monstros”, em que Mellor afirma que Frankenstein é uma crítica feminista da própria ciência. A criação de um novo ser feita apenas por Victor, sem qualquer assistência feminina, pode ser interpretada tanto como antinatural quanto patriarcal. Mellor observa: “Ao tentar ter um bebê sem uma mulher, Victor Frankenstein falhou em dar a seu filho a maternidade e o cuidado que ele requer, o próprio alimento que Darwin explicitamente equiparou ao sexo feminino”.

Victor, assim, ao dar vida a uma criatura, não só usurpa o poder de Deus, mas também o das mulheres. Burton Hatlen, em seu ensaio “Milton, Mary Shelley e Patriarcado”, estende o argumento de Mellor ao apontar como, sob o mito patriarcal, o ato de criação é visto como exclusivamente masculino e a fêmea, na melhor das hipóteses, é visto como um “recipiente” que contém apenas a vida gerada pelos homens. A criatura, assim criada por Victor, não recebe nenhum amor, cuidado e afeto geralmente associados à feminilidade. Hatlen menciona que esta remoção da mãe de uma família patriarcal, reduz a criança ao mero status de um objeto. Filmes como Splice – A Nova Espécie (Vincenzo Natali) 2009, e Morgan – A Evolução (Luke Scott) 2016, que carregam o mito de Frankenstein também apontam o mesmo.

É importante entender o contexto no qual Shelley escreveu Frankenstein. O final do século XVIII foi um período de  Revolução Industrial, no qual houve a rapidez dos estabelecimentos das fábricas e máquinas. Em razão dessa supremacia das máquinas e do novo status quo, as mulheres (e os homens), cujos empreendimentos baseados em casas de campo entraram em colapso sob as pressões colocadas, em tese, pelo mercado capitalista durante a Revolução supracitada, ficaram desempregadas. Esta foi também uma época em que o domínio da ciência era inteiramente masculino. Parece haver um medo feminista em Shelley, pois ela viu os papéis femininos serem completamente negados em sua sociedade. Em uma era da engenharia genética, que procura criar híbridos de animais sem o ato natural de procriação, uma história cautelosa como a de Frankenstein não poderia ser mais relevante.

O filme biográfico “Mary Shelley” (2017), de Haifaa Al-Mansour, apesar de não ser inteiramente uma fiel interpretação da vida de Shelley, apresenta uma cena realmente memorável no final, quando uma jovem Mary (interpretada por Elle Fanning) vai a uma editora para que seu romance seja publicado. A editora está incrédula de uma história tão profunda de dor, culpa e perda escrita por uma mulher, rejeitando-a para ser obra de seu marido Percy Shelley. Mary responde apropriadamente: “Você ousa questionar a capacidade de uma mulher de experimentar a perda, a morte, a traição – tudo o que está presente nesta história – minha história!”

“Frankenstein” foi pioneiro no gênero de ficção científica e sua influência permeia a cultura popular, com muitas adaptações e recontagens. Mary Shelley já foi aclamada como uma figura revolucionária no gênero, mas as pessoas pouco sabem de sua postura feminista, que formou a mensagem central de seu romance de estréia e, também, o mais aclamado deles. Shelley, como uma jovem escritora, não se intimidou com seu legado familiar nem com sua associação com outros contemporâneos masculinos como Lord Byron e seu próprio marido Percy Shelley. No cânone romântico, se há uma mulher cuja influência não pode ser negada, ela é, de fato, Mary Shelley. Ou Mary ‘Wollstonecraft’ Shelley, como gostava de ser chamada.

A iminente obsolescência do álbum musical


“Eu realmente sinto que aqueles (artistas) que não estão indo bem no streaming são predominantemente pessoas que querem lançar música do jeito que se costumava lançar”, depoimento do CEO do Spotify, Daniel Ek. Foto: ObaBlog / Divulgação.

Uma importante mudança no mercado musical foi o processo que desembocou na digitalização da música e na praticidade de ouvi-la sem precisar de um CD. Artefato este considerado obsoleto atualmente e cuja existência atual muitas vezes se deve a uma memória afetiva. Décadas depois desse processo, pergunto: seria esse o futuro do álbum musical nas plataformas digitais de streaming?

Isso talvez soe um pouco exagerado (para mim mesmo soa). Mas foi isso que me pareceu quando li uma matéria que observava e analisava alguns depoimentos do CEO do Spotify, Daniel Ek, em uma entrevista concedida ao portal estrangeiro Musically. Entre outros depoimentos, o seguinte: “Você não pode gravar músicas uma vez a cada três ou quatro anos e achar que isso vai ser suficiente”. Ele falou isso sob o ponto de vista das métricas de engajamento de um artista com o seu público na plataforma de streaming. 

Curiosamente, quase no mesmo intervalo de tempo, ouço algo similar em um curso sobre o funcionamento do Spotify que estou concluindo para fins de gerenciamento artístico. Em uma das aulas o professor destaca que é importante para a saúde da conta do artista na plataforma digital que este mantenha uma consistência de lançamentos. A partir disso, reitera que o ideal seria um lançamento a cada dois meses ou ainda a cada mês! Isso seria importante para que o engajamento dos fãs do artista com a música dele estimule as métricas do Spotify a reconhecerem aquele artista enquanto bom (entenda aqui com uma boa quantidade de plays música)  e assim disponibilizar a música em playlists. Vale ressaltar que esta presença em playlists é um lugar bastante almejado por artistas por possibilitar que a música chegue a potenciais fãs usuários da plataforma.

Do ponto de vista do qual observo, muitas são as consequências que podem decorrer desse modus operandi da plataforma na carreira de artistas independentes. Isto é, aqueles artistas que não dispõem de uma equipe que o acompanhe cem por cento do tempo no gerenciamento de suas carreiras.

A dinâmica do streaming

Entretanto, uma curiosa consequência é a obsolescência do álbum musical e uma supervalorização do single, formato no qual apenas uma música é lançada como produto novo. Isso porque já que o ideal para as métricas do Spotify é manter uma constância de lançamentos a cada um ou dois meses, esse tempo não corresponde ao necessário para a disponibilização de conjunto maior de músicas de uma forma consistente. Imagine um álbum novo a cada dois meses! Além de que gravar música demanda investimento, não só financeiro, mas principalmente de tempo.

E não termina por aí. Colocar uma música nas plataformas de Streaming é só um ponto dentre os necessários em um processo de lançamento de nova obra musical. Isso porque a plataforma de streaming não vai recomendar a música do artista por si só para os ouvintes. Para isso ocorrer, é necessário que o artista mobilize pessoas para ouvir a música dele através de uma campanha de lançamento nos meios de comunicação e redes sociais digitais. Estas por sua vez demandam mais investimento de tempo e dinheiro para criação e promoção de conteúdo promocional

É a partir desse engajamento gerado através da campanha de lançamento que as pessoas atingidas pelos meios de comunicação chegam ao perfil do artista no Spotify. Quanto mais pessoas acessam a plataforma para ouvir a música, mais chances o artista tem de ser recomendado pelas métricas para outros usuários.

O que avalio a partir do exposto nesse texto e no que fica subentendido na entrevista dada por Daniel Ek, é que, para fins de engajamento, saúde das métricas do Spotify e, portanto, fins mercadológicos, lançar um álbum já não é mais proveitoso. Mais vale gravar a mesma quantidade de músicas e distribuir os lançamentos de cada uma em intervalos de um a dois meses. Agora, se formos analisar do ponto de vista trabalhista do artista, a quem cabe muitas vezes  gerenciar e até mesmo produzir o material de lançamento para cada música, fica a questão de onde ele vai reservar tempo para produzir o novo material a ser lançado com a devida atenção à qualidade artística da obra. E claro, atenção à qualidade do trabalho como um todo e à qualidade de vida.

A partir disso, artistas que acabam não aderindo à dinâmica de “novidade todo mês”, muitas vezes por falta de recursos, tendem a ser menos observados pelas métricas do streaming, consequentemente, menos recomendados, menos ouvidos, têm menos plays e são menos remunerados. Não que o valor pago do streaming seja satisfatório. Pelo contrário. Ele é alvo de críticas por boa parte dos artistas, muito embora seja quase indispensável para um profissional da música não disponibilizar seu trabalho nas plataformas digitais.

Capa do EP Isolamento Acústico, do artista Juvenil Silva. Foto: Divulgação

Eu digo quase porque há sim profissionais que dispensam o streaming. Seja por considerarem mais rentável ou como forma de protesto (ou ainda por ambos os motivos), há aqueles que seguem um caminho contrário ao mercado musical. Um deles é Juvenil Silva, que nos últimos meses têm produzido EPs intitulados “Isolamento Acústico” e, ao contrário de disponibilizar nas plataformas digitais, comercializa diretamente os álbuns através de boleto ou depósito bancário. 

Indústria Cultural e banalização

Tudo isso me faz lembrar do conceito de Indústria Cultural elaborado pelo crítico de arte Theodor Adorno, que refletiu, junto a Max Horkheimer no livro A dialética do Esclarecimento, sobre o padrão industrial na criação de uma obra de arte. Uma dessas reflexões chama a atenção para a banalização do consumo da música. Com base nisso, olho para o cenário atual dessa indústria cultural-musical e observo que um novo processo desenvolve seus passos: a banalização do lançamento de uma obra musical. Isso porque, em prol do engajamento, a espera e expectativa por um novo lançamento se torna coisa obsoleta. E, dessa forma, música nova tende a se tornar um acontecimento ordinário, do dia a dia, ou melhor, do mês a mês.

Para além disso, apesar dos possíveis benefícios mercadológicos, essa diluição de um álbum musical em singles traz consigo uma perda de valor artístico. Afinal de contas, um álbum não é somente uma coletânea avulsa e aleatória de músicas. Ele é dotado de uma unidade conceitual e narrativa que o torna um produto dono de uma mensagem artística própria. Isso ocorre através do diálogo conceitual, temático e sonoro entre as músicas em grandiosos álbuns como The Wall (1973), do Pink Floyd ou o Tropicália – Panis et Circenses (1968).

Na verdade, diferentemente do que disse Daniel Ek ao se referir ao álbum musical como um modelo de outros tempos, o que realmente me remete ao passado é o próprio lançamento de singles. Isso porque, antes dos lançamentos dos álbuns no formato de cds e até mesmo em discos de Vinil (LP), a forma na qual músicas eram lançadas, principalmente entre o início do século XX até por volta de 1950, se dava no formato do disco de 78 rotações. Neste disco cabiam apenas uma ou duas (curtas) músicas, assim como é o single dos dias atuais.

Isto é, a tecnologia possibilitou a transição dos 78 rotações para os discos de vinil e cds, formas de difusão do álbum de músicas. Curiosamente é também a tecnologia que ameaça a existência do álbum e valoriza o lançamento musical em um formato semelhante ao disco de 78 rotações. Isso faz do mercado fonográfico um cenário possível para uma próxima temporada de Dark cujo suspense, infelizmente, surte mais efeito nos artistas independentes.

 

Leia mais do mesmo autor aqui.

 

 

Jorge Amado: O eterno legado


Autor de obras como “Suor” (1934), e “O amor do soldado” (1947) faria 108 anos na última segunda (10). Foto: Reprodução – Todavia.

Nas ondas verdes do mar meu bem/ Ele se foi afogar/ Fez sua cama de noivo/ No colo de Iemanjá”

– Dorival Caymmi, “É doce morrer no mar”, lançada em 1954

“Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes, cinco nomes doces que todo o mundo o sabe”

– Jorge Amado, “Mar Morto”, 1936

Semana do aniversário de Jorge Amado, o baiano de Itabuna, nascido numa fazenda que hoje pertence a Ilhéus. Filho de fazendeiro e iniciado a Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, Jorge Amado deu voz ao povo preto numa época ainda mais marcada pelo racismo estrutural que a nossa. Falou de empoderamento feminino quando esse conceito ainda não existia. Em muitas de suas obras, denunciou os dissabores das relações abusivas, como em “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1966. Defendeu abertamente a libertação sexual das mulheres, àquela época expulsas de casa ao perderem virgindade antes do casamento, em “Tieta do Agreste”, de 1977. Além da problemática da queda da Ordem do Pai e do desmonte do Patriarcado, Jorge valeu-se da fábula bíblica do filho pródigo para denunciar crimes ambientais, já que havia iminência de instalação de uma fábrica de dióxido de titânio na Bahia. Tanto em “Jubiabá” (1935), quanto em “Tenda dos Milagres” (1969), e em muitos outros, Jorge antecipou-se ao debate sobre políticas inclusivas, afirmativas, identitárias, e de cotas para a população preta. “Tenda dos Milagres” é sua obra mais explícita sobre a importância e necessidade de reserva de vagas para população negra nas universidades e acesso ao ensino público de qualidade.

E o que dizer de Mar Morto, de 1936, uma crônica social sobre a precária situação dos pescadores da Bahia? Nossos tempos certamente reconfiguraram a questão, de modo que ela hoje aparece travestida na falácia dos “Micro Empreendedores” ou “Parceiros”, com bicicletas do Itaú, fazendo entregas de Ifood, e sendo motoristas de Uber. Nossos tempos fizeram nascer um termo que Jorge Amado não conheceu, mas que já no início de sua obra, falava de sua antipatia pelo assunto: uberização. “Mar Morto”, além de tudo isso, é o livro através do qual Jorge valeu-se da literatura fantástica e do mito yorubá sobre o amor de Yemanjá e Ogum, para denunciar opressão, desigualdades, e necessidades de implementação de direitos trabalhistas.

Em 1996, o escritor português José Saramago visita a Bahia e hospeda-se na casa de Amado. Essa amizade resultou em diversas cartas que desembocaram na publicação posterior e epistolar de “Com o mar no meio: uma amizade em cartas” (2017). Foto: Zélia Gattai/Acervo Zélia Gattai – Fundação Jorge Amado

Ah! Capitães da Areia, de 1937, sua obra mais lida nas escolas, e dos livros amadianos, o mais vendido. Hoje, meninos como Pedro Arcanjo são mortos pela polícia nas favelas do Rio de janeiro, e seus corpos velados sob gritos e apelos de que “bandido bom é bandido morto”. Naquela época, Capitães de Areia representou uma fresta de luz no debate acerca dos direitos da criança e do adolescente, cujo estatuto só foi implantado em 1990. Jorge, como Carlos Mariguella, viveu duas ditaduras: a do Estado Novo, de Getúlio Vargas, e a do Golpe civil-militar de 1964. Os anos de terror do Estado Novo estão retratados na trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”, de 1954.

Jorge Amado levou o Brasil para o mundo. Sendo nordestino e baiano, foi eleito deputado federal por São Paulo, e legislou na constituinte de 1946. Foi o principal autor da lei de liberdade de culto no Brasil, que descriminalizou o Candomblé, a Capoeira e o Samba. Jorge Amado era ateu, mas ocupou a quarta cadeira à direita, no Ministério de Xangô, acompanhado de figuras como Gilberto Gil e Dorival Caymmi, seu eterno amigo e parceiro. Além de romances e contos, Jorge Amado escreveu duas biografias: uma em homenagem a Luis Carlos Prestes – “O cavaleiro da Esperança”, de 1942 –, e “ABC de Castro Alves”, de 1941.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.