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I May Destroy You e a importância de falar sobre violência sexual


Pôster da série I May Destroy You. Foto: Reprodução/Divulgação.

Cerca de 120 milhões de meninas em todo o mundo − mais de uma de cada dez − sofreu violência sexual ao longo de sua vida, segundo dados do Unicef. Em nível mundial, uma de cada 14 sofreu algum tipo de agressão sexual − abusos com ou sem penetração, por exemplo − por parte de alguém que não é seu parceiro, como aponta um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o maior relatório global feito até agora. É um número assustador de casos que no entanto, segundo especialistas, não mostram a radiografia real do que elas consideram uma epidemia silenciosa.

Os abusos sexuais são, de tal modo, uma epidemia silenciosa com um alto custo social. Quem os sofre costuma se calar pela culpa, pelo estigma e pelo medo. Algumas mulheres começam a falar sobre a violência sofrida denunciando o agressor. Todas as mulheres têm uma história sobre abuso sexual para contar. Enquanto você está lendo isso, em algum lugar, uma mulher está sendo violentada.

Lembro-me de uma vez, em uma manhã de setembro, eu mudar a rota do meu destino. Todos os dias eu e minha colega íamos juntas à faculdade. Eu esperava o primeiro ônibus. Eram dois. Depois a encontrava para pegarmos o segundo e seguirmos para a (ex) Universidade Federal Rural de Pernambuco, hoje, Universidade Federal do Agreste de Pernambuco. Mas, por algum motivo do qual não me recordo, eu desci no ponto de ônibus errado, e então tive que caminhar mais alguns quarteirões para ir de encontro à colega. Por vezes me culpei. “Eu não deveria ter descido três pontos antes do qual meu segundo ônibus passaria”. Era por volta das 7h30 da manhã. Em uma cidade do interior, não era comum ter pessoas transitando pela rua tão cedo, exceto as que levariam seus filhos à escola, ou sairiam para trabalhar. Por isso eu me sentia segura. No entanto, aquele foi um dia estranho. Como de costume, caminhei até chegar a parada de ônibus para que pudesse ir para a universidade, eis que um estranho aproximou-se. Me assustei por achar que seria assaltada, (infelizmente, nesta sociedade capitalista onde nem todos têm a mesma oportunidade, essas coisas acontecem) ser roubada seria a melhor das hipóteses naquele momento. Mas não foi o que aconteceu. Esse desconhecido se achou no direito de tocar o meu corpo e me dizer palavras esdrúxulas. Além de exercer seu privilégio de “poder” físico (um homem, três vezes maior que eu), o que me deixou muito chateada. Não reagi, não tive forças. Apenas chorei de vergonha e frustração por ter minha liberdade invadida daquele jeito. 

Sim, caro leitor. Você pode achar que não foi “tão grave” quanto poderia ser, não obstante, a situação infracional mencionada é um exemplo da elevada quantidade de abusos sexuais a que muitas mulheres são submetidas, todos os dias, em nosso país.

No mais, o artigo 215 do Código Penal prevê o delito de violação sexual mediante fraude, com a seguinte redação: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima: Pena – reclusão, de 02 a 06 anos”.

O abuso sexual deixa sequelas na vida das vítimas difíceis de serem apagadas.

Eu não poderia deixar de citar um dos casos mais impactantes dessa semana, em que houve a divulgação da audiência do processo criminal destinado a apurar o estupro da digital influencer Mariana Ferrer, ocorrido em 2018. A promotoria, que se manifestou pela absolvição do estuprador André Camargo Aranha, alegou a tese de “estupro culposo”, inexistente no Código Penal.

Mariana foi humilhada, desacreditada, desvalorizada e, novamente, agredida na audiência. Há muitas “marianas” espalhadas pelo nosso país. Em uma sociedade machista, a violência contra a mulher é estrutural e estruturante. Esse caso expõe a nossa sociedade e a necessidade de se definir o que é estratégia de defesa e o que é ataque às vítimas, sua privacidade e intimidade devem ser preservados.

Baixando a timeline do twitter, me deparei com a capa da série “I May Destroy You”, exibida no Brasil pela HBO. A imagem e o título me chamaram atenção e comecei a assistir. Antes mesmo de qualquer detalhe técnico da produção ou até mesmo de falar da capacidade quase única de Michaela Coel, autora de Chewing Gum, em cena e no roteiro, a definição da série, para mim, só pode ser possível pensando além do simples ato de assisti-la. Baseia-se livremente em fato que aconteceu com a autora/atriz. 

A história se passa em Londres, onde a escritora Arabella Essiedu (Michaela Coel) precisa entregar seu novo livro para uma editora hype que está alavancando sua carreira. Arabella, que sai para beber com os amigos, é drogada e sofre estupro. Acorda no dia seguinte com flashes do ocorrido e precisa, a partir de então, lidar com o fato, além de descobrir quem a abusou. Dessa forma, ela passa a questionar o que aconteceu de fato e muito da história se desenrola a partir de perguntas e descobertas.

O interessante de pensar na obra é justamente perceber os detalhes de como certas questões são abordadas em tela. Dito isto, fica o aviso para os leitores desta coluna: aspectos importantes da obra de Coel serão expostos a seguir.

A noite de bebedeira desencadeia os futuros traumas que se apresentarão na vida de Arabella. Durante a saída com os amigos, a jovem escritora é abusada sexualmente quando fica inconsciente por conta de uma droga desconhecida na bebida e o tema só é revelado ao espectador enquanto a própria protagonista vai relembrando os momentos obscuros vividos por ela. Arabella não lembra de nada e seu desconforto causam também uma inquietação constante a quem assiste os episódios. 

A forma como Arabella lida com os traumas e o que tenta recordar geram alguns dos pontos altos dos episódios. Foto: Reprodução.

A história é baseada no abuso sexual que a própria Michaela sofreu em 2016 quando fez uma pausa no trabalho para se encontrar com um amigo em um bar. Nesta noite, ela foi agredida sexualmente por dois homens e se viu voltando à consciência no escritório de produção da Fremantle Media, onde trabalhava, com o celular quebrado. Nas 24 horas seguintes, ela lentamente começou a entender que a imagem do homem que aparecia em sua cabeça não era ilusão ou loucura, mas uma vivência da noite anterior.

Michaela tratou de deixar no olhar a falta de conhecimento sobre o trauma, a angústia provocada pela mistura de saber e não-saber. Como criadora e roteirista, aborda a questão dramática, vivenciada até mesmo no âmbito pessoal e que já relatou anteriormente, mas deixa a marca da ironia tratando o assunto de uma forma diferente sem perder a carga que o mesmo requer. 

Mesmo que o tema central da série já seja denso por si só, ele não é o único a preencher o total de 12 episódios, cada um com 30 minutos de duração. Outros assuntos como o machismo, o racismo, veganismo e a intolerância latente dos dias de hoje estão lá nas falas e vivências dos demais personagens da história. 

Diferentes formas de abuso em distintos relacionamentos estão em cenas como a que, em uma relação sexual, o homem que Arabella está transando tira o preservativo sem que ela saiba. Ou quando o amigo dela marca um encontro por aplicativo com outro homem, mas se recusa a ter relações com ele, que termina por cometer estupro, também são abordados.

Para mim, encontrar conteúdos como este tem sido importante nos últimos tempos. É gigante a notoriedade dessa discussão levantada em todas as suas nuances, em um tema que ainda não conseguimos evoluir como sociedade. Hoje entendemos melhor sobre essas agressões. Antes, nós apenas ignorávamos. Nós mulheres, agora, temos a voz para gritar e apontar para o que sofremos. Estamos diante da mudança, elevando o tom da conversa e assegurando nossos corpos. Depois de uma semana triste vivida no Brasil pela forma como o Estado e a Justiça falharam com Mari Ferrer, vítima de estupros sucessivos, fica clara a necessidade e a urgência de séries como “I May Destroy You”. Michaela Coel se abre para mostrar os próprios traumas ao passo em que propõe refletir sobre algo real, sobre a vida que cerca nossa tal modernidade e as relações de então.

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“Do Meu Coração Nu”: A virtuosidade e sensibilidade sonora-social de Zé Manoel

Capa do álbum “Do Meu Coração Nu”, o terceiro de inéditas do artista Zé Manoel. Foto: Divulgação

Não me lembro exatamente a primeira vez que ouvi o trabalho de Zé Manoel. Tenho uma vaga lembrança de, há uns bons anos atrás, assistir a algum vídeo no YouTube no qual ele cantava ao piano, mas por algum motivo que eu mesmo desconheço (e se lembrasse agora me arrependeria), não cheguei a mergulhar mais no trabalho dele. Porém esse tardio (re)encontro com a obra do compositor e pianista se deu semana passada, quando despretensiosamente busquei por seu mais novo álbum “Do meu coração nu”, lançado no dia 26  de outubro pelo selo “Joia Moderna”. Desde então (inclusive enquanto escrevo esse texto) não canso de ouvi-lo.

Falo encontro tardio pois Zé Manoel, originário de Petrolina-PE,  já desenvolve há um bom tempo um trabalho artístico que conta com 4 álbuns de estúdio e 2 gravados ao vivo. Destes, o mais recente álbum é o terceiro com inéditas, os anteriores são “Canção e Silêncio” (2015) e “Zé Manoel” (2012). Ambos os álbuns são belíssimos e já deixam visível a sensibilidade sonora, o virtuosismo delicado e as notas precisas – das músicas mais lentas às mais movimentadas pelo samba e jazz na MPB –  de Zé Manoel. Contudo, há algo especial em “Do Meu Coração Nu”. 

Na verdade, não é somente um fator. Acredito que há muitos motivos que fazem deste mais recente disco uma obra que dá vontade de ouvir do começo ao fim, e de novo, e de novo. 

O Álbum

Para além das diversas funções que a filosofia, a psicologia e a crítica possam dar para arte, uma que pessoalmente me parece bastante importante é a função da arte de sensibilizar o indivíduo. Sem dúvidas esse já é um papel que o conjunto da obra do pianista cumpre. Mas, nesse álbum, toma uma proporção ainda maior. 

A música que abre o álbum, “História Antiga”, lançada como single em Junho, já dá uma ideia da proporção de toda a sensibilidade que a música não somente é, mas também suscita em quem a ouve. A canção remete a momentos em que o povo negro, devido ao preconceito institucionalizado e a políticas ultrapassadas, tem vidas usurpadas . Em certo momento a letra lembra o homicídio cometido por agentes do exército brasileiro contra Evaldo Rosa e Luciano Macedo, mortos após ação que terminou com o disparo de mais de oitenta tiros dos agentes contra o carro de Evaldo Rosa. 

Em certo trecho da faixa Zé Manoel canta “Fecho os olhos e me lembro de uma história que me dá vontade de chorar” e, deixando também o meu coração nu nesse texto, essa música também me deu vontade de chorar. Toda essa potência emocional é explorada de uma forma artisticamente bela, por mais triste que seja o tema abordado.

O preconceito racial também é posto em reflexão a partir da declamação dos versos da poeta Bell Puã e da faixa subsequente, “Pra Iluminar o Rolê”. A canção é um jazz leve e contemporâneo tanto pelo vocabulário quanto pela adição de sintetizadores e de arranjos minuciosos na guitarra.

A sonoridade leve também é representada pela faixa “Não Negue Ternura”, uma canção delicada e que conta com a brilhante participação de Luedji Luna. Vale destacar que a artista também lançou em outubro seu mais novo álbum de inéditas, “Bom mesmo é estar debaixo d’água”. Além dela, o álbum ainda conta com a participação da cantora Gabriela Riley na música “Wake my Divine” e do grupo Bongar, que aproxima ainda mais a obra da temática e sonoridade afro brasileiras na segunda canção do disco, “No Rio das Lembranças”. 

É, inclusive, sobre a influência da cultura afro brasileira na música interpretada como “essencialmente brasileira” a que se refere o trecho do interessante depoimento do arranjador e compositor brasileiro, Letieres Leite, também responsável por arranjos e metais do álbum de Zé Manoel. No trecho Letieres afirma “Toda música brasileira é afro brasileira” e um grandioso exemplo dessa afirmação é o próprio “Do meu coração nu”. Esse depoimento de Lutieres também funciona como uma introdução a “Adupé Obaluaê”, música que soa a mais visivelmente influenciada não só pela sonoridade da cultura originariamente afro brasileira, mas também pela cultura religiosa de origem africana. Vale ressaltar nessa música o teclado mais ritmado do álbum.

Outro depoimento importante tanto pelo conteúdo quanto para a compreensão das narrativas do álbum é o trecho retirado do documentário “O Negro da Senzala ao Soul”, no qual a historiadora e ativista do movimento negro, Beatriz Nascimento, reitera o quanto a história do povo negro é negligenciada e contada a partir do ponto de vista do povo branco. A partir desse depoimento, Zé Manoel traz a música “Notre Histoire”, uma canção em francês que reitera a importância de se contar essa história omitida. Contudo, o próprio álbum pode ser observado enquanto uma forma musical de narrar, tanto no que lhe é de mais ancestral quanto o que lhe é contemporâneo.

O álbum ainda conta com a música “Canto pra Subir”, uma canção romântica sobre o fim de um relacionamento, mas com um ar de aceitação e de percepção de que o término é a melhor opção no momento. Assim, apesar de ser sobre o fim, não é imbuída de um clima triste como “Canção e Silêncio”, do álbum homônimo de 2015, e “Acabou-se assim”, do primeiro álbum de Zé Manoel. Duas belas músicas que abordam o mesmo tema, mas sob uma perspectiva diferente.

Para além das questões que envolvem cada música, outro importante fator para o caráter especial do álbum foi o contexto social. Além da pandemia, 2020 foi o ano de discussões e reflexões mundiais suscitadas com o movimento Vidas Negras Importam (ou Black Lives Matters), que chamou a atenção para o preconceito social e institucional que incidiu não somente sobre George Floyd, mas que afeta toda uma população negra das periferias brasileiras e mundiais, que nem sempre têm disponível a gravação e midiatização do que acontece à surdina.

Contudo, através “do coração nu de Zé Manoel”, percebemos intensos e profundos sentimentos que atingem o povo negro e também a sociedade como um todo, especialmente a brasileira. Isso porque expõe sonora e poeticamente não somente aquilo que é belo e leve e rico na cultura afro brasileira e negra, mas também aquilo que entristece, que “dá vontade de chorar” e que expõe o preconceito no meio social e nas instituições governamentais.

Por isso, à você que eventualmente lê esse texto agora, um conselho: não deixem passar a oportunidade de mergulhar na obra de Zé Manoel como me aconteceu há uns anos atrás. Principalmente agora com esse novo álbum. O que ele tem para passar é belo, é emocionante, e é necessário.

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A marca incerta que é a humanidade

Pessoas fotografadas no bairro Universitário em Caruaru durante o isolamento social. Foto: Dyego Mendes.

Eu sempre gostei de assistir filmes de ficção científica. Ao final deles, sempre imaginava como será o nosso fim. Existirá um fim concreto? Ou essas suposições são mera retórica para o homem deixar de ser menos ruim? Não sei! Deixei de ter resposta para algumas coisas, para várias coisas, para muitas, muitas coisas… 

É pouco provável que você neste instante me dê atenção, ou melhor, não a mim, mas o que penso e por isso escrevo. O medo aumentou e tem tumultuado cidades e vilas, ricos e pobres. O mundo, nessa hora, se vê pequeno e ainda se nota ausência de solidariedade. Se eu tenho medo? Todos nós temos medo do desconhecido que permeia nossa vida. A morte se encaixa nessa avenida que todos vamos tomar sem saber para onde. Não sei se encontraremos dia ou noite, claridade ou escuridão, por isso tenho medo. Eu gosto de andar pelas ruas da cidade pois é no dia a dia que eu posso ver no rosto do povo o que eles estão sentindo, se há esse medo, angústia ou desespero, se há rancor ou tudo misturado! 

Esses dias estão sendo vividos como um turbilhão de sentimentos conflitantes. Paro e sento-me na calçada olhando para o fim da avenida. Acima de mim, o sol se põe e a noite começa a querer chegar… e entre ambos eu enxergo um fundo tosco que não é claridade ou escuridão mas incerteza. A humanidade sempre caminhou com as incertezas; as religiões se arvoram em ter certezas; algumas correntes filosóficas se arvoram em ter certezas, e quando ocorre um acontecimento inesperado que ninguém sabe dizer o porquê, chegamos a uma boa conclusão: a nossa vida, em essência, é mera incerteza caminhante nessa avenida que é a vida.

As tragédias geram terror e piedade em nós. Nelson Rodrigues já dizia que a tragédia merece reverência! O que isso quer dizer? O terror é o medo que a gente sente, a piedade? Todos nós somos fracos, inúteis e medíocres, o vírus está por aí por que e para quê? Por nada. Ele não quer dizer nada, é apenas mais um dos muitos e vários acontecimentos históricos que a humanidade passa, e para quê? Para nada. E além de tudo isso o mais importante a frisar é a piedade. Enquanto muitos estão em casa se resguardando, outros ainda estão lá fora tentando fazer o mínimo para que a civilidade continue.

Nunca na nossa história vivemos em tranquilidade. Ao mesmo tempo que amamos, nos alegramos e gozamos, vivemos com rancor, tristeza, morte e dúvidas. O mal do nosso século será cada vez mais as pestes em forma de vírus que, por conta do mundo interligado, se alastra. O que fazer? Não acreditar que a sociedade sairá dessa circunstância, pelo contrário, os desafios já se apresentam como a desigualdade social que sempre existiu mas alguns só agora se deram conta. Também não procuro criar pânico no vizinho. A vida já é angustiante, tentemos amenizá-la de alguma forma, sobretudo ajudando o outro que nesse momento difícil tanto tem precisado.

Depois cada qual que viva com as suas mazelas. Nossos antepassados tiveram as suas. Nós que vivamos com as nossas, mas e o medo? Se tiver que embarcar agora que seja. Uma hora a de ser assim. Agora volto para casa, tomo um banho, continuo um romance, tomo uma xícara de café e depois abraço Morfeu.

Colaboração de Emerson Barbosa, mestrando em História e apaixonado por Literatura.

Melancolia e Angústia em ‘Diário da Queda’

O peso simbólico do campo de concentração é algo que perpassa o romance de Laub. Foto: Reprodução.

Em um Bar Mitzvah, uma turma de ricos garotos judeus acidenta deliberadamente um humilde gói, de nome João, que estava fazendo aniversário. Um desses garotos é o narrador de “Diário da Queda”, livro de Michel Laub. O narrador, que não tem nome, faz uma viagem por suas memórias, partindo desse acontecimento da queda e passando por seus conflitos internos e familiares repleto de melancolia, angústia e incomunicabilidade.

Em “Diário da Queda”, Laub escreve uma prosa em forma de anotações separadas por números, como uma espécie de lista que transmite o fluxo de pensamento do narrador, nos permitindo uma aproximação íntima da história e de seus personagens.

A partir da queda de João, tomado pela culpa, o narrador conta como começou a questionar instituições aparentemente sólidas da vida como a relação com sua família e o comportamento da comunidade judia.

Seu avô era um judeu sobrevivente de Auschwitz, que veio ao Brasil em busca de um recomeço após ter perdido toda a família em um campo de concentração. Após chegar aqui, casou-se com uma brasileira e formou outra família. No entanto, a sombra de Auschwitz nunca saiu de suas costas: já perto do fim da sua vida, se trancava no escritório, onde escrevia vários cadernos de anotações que continham algo como uma enciclopédia de verbetes. Esses verbetes eram totalmente idealistas, no qual o avô cria uma realidade ideal, como espécie de fuga do mundo cruel que o massacrou. A exemplo, a descrição do verbete que fala do porto: “Local onde se reúne o comércio ambulante que trabalha sob regras estritas de controle fiscal e higiene”.

Esse ressentimento com o mundo impedia que esse homem atormentado se relacionasse afetivamente com outras pessoas. Ele não conversava com seu filho, ou demonstrava qualquer forma de carinho, e, ao terminar os cadernos de anotações, se mata em seu escritório. Seu filho, que tinha 14 anos, é obrigado a arrombar a porta, e encontra o pai morto, o que o mudaria pelo resto da vida.

Auschwitz é uma herança maldita. É como se os judeus tivessem que carregar o peso e a angústia de todos os antepassados que morreram nos campos de concentração. Aos treze anos, o narrador era bombardeado na escola judia e em casa pelo discurso de como o antissemitismo é uma espiral de ódio fundada na inveja da inteligência, da força de vontade e da riqueza dos judeus. No entanto, esse discurso não o afetava. A queda do gói o afetava mais do que as histórias de Auschwitz.

Em uma discussão com o pai, o narrador lhe diz que não liga para o judaísmo e muito menos para o que aconteceu com seu avô. Seu pai, ao ouvir isso lhe dá uma surra. Como diz em suas anotações mais para frente, essa foi a primeira vez que seu pai lhe tocou em 13 anos.

Até esse momento, o relacionamento entre pai e narrador era de distância. Não tinham contato além do que demanda as convenções sociais e dos discursos intermináveis do pai sobre o antissemitismo e as histórias de Auschwitz. No entanto, essa briga é um ponto de virada para os dois. Um dia depois, o pai vai conversar com o filho e é aí que ele mostra o caderno do avô.

Michel Laub, autor de “Diário da Queda”. Foto: Renato Parada.

Por ter crescido sem afeto, e visto o cadáver fresco do avô do narrador ao se matar, o pai tornou-se um homem frio, distante e melancólico. Cresceu sem saber nada de seu progenitor. Por isso, ele se agarrava em relatos de outros judeus, como no livro “É Isto Um Homem?”, seu preferido. Esse ato de buscar outras histórias mais parece uma forma de muleta, algo para preencher a lacuna deixada pela incomunicabilidade do seu pai. Ele repete as histórias incessantemente e fala do genitor como se fosse um grande herói. No entanto, o que podemos observar no subtexto, pelo menos sob a visão do narrador, é que ele guarda um grande rancor e um ódio dessa linhagem. Sua vida foi arruinada por uma espécie de egocentrismo do seu pai, cujo ressentimento e inabilidade de lidar com seu trauma passaram, no momento do suicídio, o legado fúnebre ao filho.

Aos 14 anos, o narrador começa a beber. Recebendo a herança familiar de falta de comunicação e impossibilidade de afetos, além de seus próprios problemas jamais superados como a queda de João, ele se refugia na bebida, o que vai durar até os seus 40 anos. Seu comportamento autodestrutivo parece um sintoma de sua incapacidade de aguentar a dura realidade da vida.

Quando está com 40 anos, seu pai recebe o diagnóstico de Alzheimer. Após o diagnóstico, o pai começa a escrever suas próprias memórias. Porém, seu ato é diferente do avô. O avô queria escapar da realidade, criar um mundo ideal. Já o pai, mais parece que escreve suas memórias como uma tentativa de segurá-las, como se escrevendo tudo que conseguisse lembrar – enquanto ainda estivesse consciente – sua memória não escorria da sua mente até não restar mais nada. O avô escrevia sobre o ideal, o pai sobre o real – ou o mais próximo possível disso.

Após a doença, e vários conflitos em relacionamentos pessoais, como o com sua terceira esposa, o narrador decide parar de beber e mudar a sua vida. Com essa decisão, ele também resolve ter um filho. E é nessa linhagem que está a mudança. Ao final do livro, descobrimos que o Diário da Queda são os relatos que o narrador está escrevendo para seu filho.

Essa é a forma que ele encontrou para quebrar essa herança maldita da incomunicabilidade e ressentimento de sua família. Escrevendo sobre seus sentimentos, suas angústias, e seus conflitos internos, o narrador pretende criar um laço de proximidade com seu filho. Assim como criou conosco, leitores que tiveram a sorte de acessar esta bela obra.

Buddies: Arthur Bressan e o cinema de urgência


Imagem extraída do filme Buddies (1985). David Schachter  (à esquerda) e Geoff Edholm (à direita). Foto: Reprodução.

Nomes e datas sobressaltam na tela. Eles aparecem ao ritmo do som de uma velha impressora matricial, formando uma lista que parece interminável. O que todos esses nomes teriam em comum? Seriam de mortos vítimas da AIDS nos Estados Unidos, nos primeiros anos da década de 1980. Os dados são aparentemente ficcionais e surgem na primeira cena do filme “Buddies” (1985), primeira obra cinematográfica a respeito do tema. O roteiro foi escrito em cinco dias e filmado em nove, uma rapidez que se assemelha à urgência das questões tratadas no filme.

 O cineasta Arthur J. Bressan Jr. assina o roteiro, a direção e a produção deste que seria o último filme de sua carreira, já que veio a falecer dois anos após o lançamento da obra, vítima de complicações em decorrência do HIV. A trajetória de Arthur Bressan no cinema é permeada de referências ao universo homossexual, sendo considerado um dos pioneiros do cinema gay na década de 1970. Com produções que passeiam por curtas, documentários, longas ficcionais e filmes de conteúdo erótico, o cineasta recebeu maior atenção dos críticos a partir de obras como “Passing Strangers” (1974) e “Abuse” (1983), além do documentário “Gay USA” (1977), registro histórico das passeatas pelos direitos da comunidade LGBTQIA+.

Em Buddies, acompanhamos a história de Robert Willow (Geoff Edholm), paciente de um hospital de Nova York que passa a ser visitado regularmente por David Bennett (David Schachter), um voluntário – buddy – que integra um programa de assistência a portadores de HIV/AIDS. A narrativa é construída a partir desse encontro entre os dois personagens, que são praticamente os únicos a aparecerem em cena. Pontualmente, conhecemos outros personagens apenas como vozes ao telefone, ou os vemos como vultos em segundo plano.

David é um diagramador freelancer de livros e impressos. Seu interesse em se tornar voluntário do programa surgiu enquanto estava trabalhando em uma publicação de textos a respeito da síndrome. Os detalhes sobre a sua vida, como o relacionamento estável que mantém com seu namorado Steve, ou o convívio afetuoso com seus pais, estão presentes nas conversas com Robert no quarto do hospital. Inicialmente, os encontros são marcados por diálogos tímidos, sobretudo por Robert, reticente com a bondade do estranho.

Na medida em que os encontros ocorrem, a relação entre eles se torna mais intensa. Temas como sexo, política e a questão dos direitos para a comunidade gay são abordados de maneira quase didática. Vale ressaltar que a obra é produzida durante o governo do presidente Ronald Reagan, que além de ignorar o crescente número de casos, dificultava a concessão de verbas para os estudos sobre o vírus. A luta pelo acesso aos medicamentos e os debates em torno do tema podem ser vistos também no filme “Clube de Compras Dallas” (2013) de Jean-Marc Vallée.

Robert trabalhava como jardineiro quando foi acometido pelo vírus. Sua fragilidade ante a iminência da morte aparece na narrativa como um jogo dual: a revolta e o medo são contrabalanceados pela consciência e elaboração racionais sobre a doença. Em uma das cenas mais fortes do filme, David apresenta para Robert alguns textos que compõem o livro no qual está trabalhando, uma coletânea de artigos com “diferentes pontos de vista” sobre a AIDS. Em um deles, a síndrome é descrita como um castigo de Deus, uma espécie de “vingança da natureza sobre uma minoria antinatural arrogante e desrespeitosa pela lei elementar”. As indagações sobre o discurso fundamentalista são enfatizadas por Robert e retomadas por David em uma outra passagem, quando este afirma que “muitas pessoas imaginam que Deus é exatamente como elas são. Uma grande cópia de si mesmas”.

Arthur J. Bressan Jr. produziu filmes como “Passing Strangers” (1974), “Abuse” (1983), e o documentário “Gay USA” (1977). Foto: Reprodução.

A escritora e ativista Susan Sontag no livro “AIDS e suas metáforas” (1989) problematiza os discursos que reforçavam estigmas sobre os portadores do vírus nos primeiros anos da síndrome. Segundo a autora, a AIDS seria uma doença “que leva muitos a uma espécie de morte social que precede a morte física”. Isso aparece de forma clara no filme, como na cena em que Robert ironiza os protocolos impostos pelo hospital aos visitantes, ou quando relata sobre o medo dos amigos mais próximos. O programa de voluntariado, que proporcionou o encontro dos protagonistas, ilustra a importância daqueles que se faziam presentes no momento mais crítico da epidemia.

Os primeiros casos foram noticiados em meados de 1981. O boletim emitido pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, descrevia o caso de cinco jovens homossexuais da Califórnia internados com pneumonia. Todos apresentavam um quadro semelhante, o que fez despertar um alerta na comunidade científica. Após a emissão do primeiro boletim, os meios de comunicação passaram a relatar o aparecimento de novos casos. Neste período, muitos profissionais de saúde adotavam um discurso moralista que, muitas vezes, aproximava-se do conservadorismo religioso ao condenar a conduta sexual dos indivíduos. Rapidamente, a doença até então pouco conhecida, passou a ser chamada de “peste gay”.

A sensibilidade na forma como o tema é retratado em “Buddies”, humanizando o portador do vírus no período em que Hollywood evitava o assunto, é algo que merece destaque. Ao longo da história do cinema, a homossexualidade foi constantemente representada de maneira pejorativa. Através de personagens caricatos, com enredos que aproximavam os homossexuais à um comportamento criminoso e doentio, os filmes atuavam no imaginário popular como uma espécie de dispositivo cultural, alimentando os discursos conservadores a respeito da comunidade LGBTQIA+. Para um melhor entendimento a respeito das representações da homossexualidade no cinema, vale a pena conferir o documentário “The Celluloid Closet” (1995), escrito e dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, e baseado no livro homônimo de Vito Russo.

Arthur Bressan faz da sua obra um grito político em que a palavra de ordem é urgência. Era preciso questionar a ausência de uma representação humanizada sobre os portadores da síndrome (na imprensa, no cinema e nos debates públicos); era preciso indagar as autoridades sobre o descaso nos investimentos na área da saúde, com pesquisas que visassem oferecer uma sobrevida melhor aos pacientes; era imprescindível problematizar os discursos fundamentalistas que culpabilizavam as vítimas; era preciso ressaltar a importância política dos grupos que lutavam pelos direitos em jogo; era urgente falar sobre afeto, empatia e esperança.

Em uma trágica ironia do destino, além do diretor Arthur Bressan, o ator Geoff Edholm faleceu anos mais tarde por complicações em decorrência do HIV. Em 2018, após uma intensa mobilização de Roe Bressan, irmã de Arthur, o filme foi restaurado e encontra-se disponível em plataformas com serviços de streaming a exemplo do Mubi. Ao abordar a relação entre política, ciência e religião, em temas como o fundamentalismo e a criminalização das minorias, a obra permanece atual, viva e pulsante. Um convite a todas as pessoas que acreditam no poder mobilizador da arte. Como diria Caio Fernando Abreu em sua “Última carta para além dos muros”: a vida grita. E a luta, continua.

* Rodrigo Araújo é doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco e desenvolve pesquisas na área de História Contemporânea e História do Brasil República.

Sex and the City, (1998) – Foto: Reprodução/IMDb

5 séries que abordam o tema da sexualidade feminina


“Sex and the City” é uma série baseada no romance de Candice Bushnell. Foto: Reprodução.

O filósofo francês Michel Foucault, nos seus estudos sobre sexualidade humana, pôs em evidência as forças, disposições e  estratégias que condicionaram o cotidiano das pessoas. Em seu livro “Na Vontade de Saber”, a sexualidade é abordada como efeito de relações de força materializadas em discursos e práticas sociais ou, em termos foucaultianos, “em formas de poder e saber”. Poder, nesse sentido, seria um discurso moral sobre os corpos, resultando na sua identificação como sujeito de suas ações, de seus pensamentos, de seus desejos, de suas verdades. O corpo, suas sensações, prazeres, anatomia, disposições, tudo é colocado em análises discursivas e de poder: a igreja, as instituições disciplinares, a ciência e a medicina. Essas instâncias teriam como invariante a regra fundamental de posicionar os indivíduos em um esquema confessional, no qual o que era dito poderia ser usado contra ou favor dele, pois o que ele dizia tinha um estatuto de verdade sobre si. Assim, Foucault caracterizou a sexualidade como uma experiência discursiva, como algo que, para se tornar real e ser reconhecido, teria que passar pelo julgamento da palavra. A proposta foucaultiana da sexualidade, como objeto histórico, romperia com uma abordagem segundo a qual as várias formas de experiência do sexual, ao longo do tempo. Isto é, a sexualidade não precisaria mais do discurso das instituições para ser validada.

Sexo é um tabu, sabemos. Mas o que também já descobrimos é que falar sobre ele é necessário – até porque, para naturalizar tudo o que ele envolve em sociedade, temos que externalizar nossas dúvidas, desejos, fantasias. Por razões culturais o sexo até há algum tempo era visto somente como algo ligado a reprodução: o prazer era reprimido, por ser considerado pecaminoso ou moralmente condenável. A marginalização da sexualidade tem raízes firmadas na história. De tal modo, um novo entendimento sobre as mudanças sociais se mostra necessário porque as contribuições femininas e os direitos femininos têm sido um tema central nos papéis sociais, econômicos e políticos mundialmente. Mulheres são educadas por mulheres, numa sociedade onde a virilidade e o prestígio do macho estão longe de serem apagados. As mulheres são educadas para agirem como filhas e mães sem passar pelo estágio de mulher, uma vez que o campo religioso, especialmente católico, ao longo dos anos, construiu representações desiguais entre o feminino e o masculino, através de seu mito de criação, com a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Esta simbologia retratada no Velho Testamento foi, e muitas vezes ainda o é, usada para designar papéis e posições de gênero, assim como para criar representações femininas. A Eva pecadora e a Virgem Maria assexuada, imagem dupla feminina como que desde sempre acompanhando a história corporal das mulheres.

Hoje em dia, muito se fala em empoderamento feminino como parte da luta por direitos iguais. Mas será que as mulheres estão empoderadas de seu prazer? É necessário desconstruir os pensamentos a respeito deste tema.

Listei 5 séries com personagens incríveis, mulheres que vão em busca de seu prazer sem medo de serem julgadas:

Sex and the City, HBO (1998 – 2003)

Sex and the City, (1998) – Foto: Reprodução/IMDb

Baseada no livro homônimo da escritora Candice Bushnell, “Sex and the City” mostra a agitada vida de quatro belas mulheres solteiras e bem sucedidas de Nova York. Enquanto procuram pelo seu “Sr. Certinho”, quatro amigas se divertem pelos clubes da cidade, compartilham ousadas conversas sobre sexo e comentam as últimas novidades da moda. A série focaliza na história de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) e suas três melhores amigas. Com o decorrer das temporadas, a escritora Carrie, que também narra os episódios, tenta ter vários relacionamentos sérios, mas parece sempre ficar presa ao “Sr. Big” (Chris Noth) em um relação complexa e irresistível para os dois. Por outro lado, enquanto Samantha (Kim Cattrall), a mais velha das amigas, é a mais confiante de sua própria sexualidade e a mais extrovertida, Charlotte (Kristin Davis) é a mais conservadora e otimista do grupo, sempre em busca de um amor romântico. Enfim, acompanhamos Miranda (Cynthia Nixon), uma advogada extremamente cínica nos seus pontos de vista, principalmente quando se trata de homens. Essa mistura de personalidades em uma trama divertida e ousada, que traz uma boa dose de humor, drama e romance, é o que fez “Sex and the City” ser uma das séries mais aclamadas pelo público e pela crítica, tendo recebido diversos prêmios e nomeações, incluindo mais de 50 indicações ao Emmy, e ganhado 7 deles, além de 24 indicações ao Globo de Ouro, dos quais levaram  8 estatuetas, durante suas seis temporadas.

Girls, HBO (2012 – 2017)

Girls, 2012 – Foto: Reprodução/Divulgação.

Girls é uma série de TV norte-americana transmitida originalmente pelo canal HBO. A história é ambientada em Nova York e lança um olhar cômico sobre as humilhações e raros triunfos de um grupo de garotas com 20 e poucos anos. A série é centrada em Hannah (Lena Dunham), uma jovem escritora que trabalha em uma editora no SoHo, e suas amigas Jessa (Jemima Kirke), uma professora e aspirante a artista, Marnie (Allison Williams), uma assistente de relações públicas que quer trabalhar com questões ambientais e Shoshanna (Zosia Mamet), uma estudante de Marketing. Lena Dunham não teve problemas em aparecer nua logo nos primeiros episódios. A criadora da série exibe seios, barriga, bumbum, celulite e pelos pubianos sem pudor. É comum ver em Girls cenas dela nua em seu cotidiano, tomando banho ou se trocando. Ao mostrar seu corpo gordinho, Lena se coloca como representante de um movimento que há anos luta contra a hipersexualização da mulher e a representação de padrões de beleza na mídia. As críticas em relação à nudez excessiva foram muitas mas a ousadia de Lena de se mostrar como uma mulher imperfeita colabora para a diversidade na TV. Em Girls, as protagonistas não transam apenas porque estão apaixonadas, e nem apenas com seus parceiros. Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna já fizeram sexo por desejo, por curiosidade, por frustração, por interesse ou simplesmente porque não tinham nada melhor para fazer. Girls também foi inovadora nesse ponto: o sexo quase explícito, com discussões sobre IST’s e genitália, também era inédito para personagens jovens que ainda estão descobrindo sua sexualidade, nem sempre de forma prazerosa.

No Brasil, a série foi transmitida pelo canal HBO e pelo streaming HBO GO.

Masters of Sex, HBO (2013 – 2016)

Masters of Sex, 2013 – Foto: Reprodução/Divulgação.

Masters of Sex é uma série adaptada da obra de Thomas Mailer, intitulada “Masters of Sex: The Life and Times of William Masters and Virginia Johnson, The Couple Who Taught America How to Love”, de 2010. A atração narra as vidas, romances e trajetórias pouco usuais de William Masters (Michael Sheen) e Virginia Johnson (Lizzy Caplan), cientistas pioneiros no estudo da sexualidade humana. Por mais que esteja estudando o prazer, William não tem a menor ligação com ele. De uma forma velada, o roteiro se adianta em mostrar que o sexo não é fluído na vida do médico. Até mesmo para fins de reprodução, ele não funciona bem na vida do mesmo. Casado, William enfrenta uma série de problemas de fertilidade. Virginia é sua antítese. Indo de encontro a toda repressão que a rondava, ela vivia o sexo plenamente, entendendo e buscando a satisfação do próprio corpo. Isso se refletia no seu sucesso social, na sua postura perante o mundo, mais livre, mais relaxada. William logo se fascina pela evidência de que sucesso e competência não precisam estar atrelados a um comportamento severo. Virginia se torna indispensável e começa a contribuir ativamente para o estudo. Dr. Masters segue num processo de descoberta pessoal ao mesmo tempo em que desbrava os tabus do sexo. Virgínia acaba funcionando para ele como um exemplo vivo das muitas respostas que podem ser encontradas no corpo e na alma de uma mulher. É fascinante notar como o estudo acaba funcionando como um tratado de permissão para o prazer feminino, uma renúncia à centralização do macho e, virando por isso mesmo, uma obra maldita, que faz com que a série seja ainda mais estimulante.

Chewing Gum, Netflix (2015 – 2016)

Chewing Gum, 2015 – Foto: Reprodução/Divulgação.

A série acompanha a vida de Tracey Gordon (Michaela Coel), uma jovem criada por uma família religiosa que decide perder a virgindade aos 24 anos de idade. O problema é que ela não faz ideia de como fazer isso, pedindo conselhos para sua melhor amiga, Candice (Danielle Isaie). Tracey desafia sua repressora educação protestante por vias insólitas e ela reza para perder a virgindade, a princípio com seu noivo, frio e indiferente como um mármore que respira. Ele é um coquetel de mau gosto que mistura sexismo, homossexualidade e certa dose de colonialismo para tentar amargar sua vida. Mas ela é muito mais nobre do que sua performance avacalhada possa sugerir. Ela o apoia em sua orientação sexual. E sua busca por amor e sexo continua. Assim, ela vai bater na porta de um relacionamento inter-racial e dá de cara com um white loser que do alto de sua branquitude lança mão de fantasmas racistas para acertar seu coração, buscando capturá-la com sua suposta superioridade racial. Mas ainda assim a Tracey sai por cima, mostrando o quão falhos são os truques que ele traz na cartola.

Fleabag, BBC (2016 – 2019)

Fleabag, 2016 – Foto: Reprodução/IMDb

Fleabag ganhou o Emmy 2019 de Melhor Série de Comédia e Phoebe Waller-Bridge como Melhor Atriz em uma Série de Comédia. Além dela, estão no elenco Olivia Colman, Andrew Scott, Sian Clifford e Brett Gelman. 

Fleabag é um mergulho na mente fervilhante de uma mulher inteligente, sexual, inquieta e devastada pelo luto, em seu dia a dia na vida moderna de Londres. Uma mulher autêntica que tenta retomar sua vida, enquanto rejeita a ajuda de qualquer um que tente se manter ao seu lado durante a sua crise. Solteira, com 30 e poucos anos, Fleabag é uma mulher solitária. Logo no começo, vemos cenas dela com seu namorado e já conseguimos entender que ela não é boa para se relacionar. Os homens até gostam dela, mas acabam irritados com a sua personalidade. Parece que muito acontece na cabeça da personagem, mas nada é exteriorizado, ficando tudo abrigado em seu cérebro, em pensamentos acelerados e que não permitem a demonstração de sentimentos. E não é só em relacionamentos afetivos e sexuais que isso acontece, mas também com a família. Na série, a protagonista precisa lidar com seu pai e sua madrasta, sua irmã e seu cunhado. A sua irmã, Claire (Sian Clifford), é uma das pessoas que sentem mais dificuldades em lidar com a personalidade da Fleabag, mas que claramente nem pensa em desistir disso. Como um bom drama, a relação entre as duas é de cumplicidade e proteção, mesmo que não seja dito em palavras e quase nunca em atitudes. Mas um dos maiores dramas da série é a relação de Fleabag, sua melhor amiga e um porquinho da índia. Essa ligação é mostrada ao longo das duas temporadas, com flashbacks do passado que justificam os acontecimentos do presente e as atitudes da protagonista. Se existisse na vida real, Fleabag seria uma inacreditável ser possível existir. Intensa, impulsiva, absurdamente irônica e misteriosa. Essa seria a definição perfeita para a personagem.

Patativa do Assaré: A poesia por trás do Dia do Nordestino


Patativa do Assaré é um dos poetas populares mais importantes do Brasil. Foto: Fernando Travessoni

Passará de Assaré

Do céu da boca

A voz tão rouca

A trova louca, trova louca

Oh letra bem escrita sem papel

– “Passarim de Assaré” (1979), de Fagner e Fausto Nilo

Desde 2009, em 8 de Outubro, celebra-se o dia do Nordestino, criado por meio do Legislativo da capital São Paulo. Sabe-se que a idealização do dia do Nordestino nessa cidade específica nada tem de obra do acaso. O caminho trilhado de diversos pontos do Nordeste com destino à capital paulista foi muitas vezes realizado, de forma árdua e precária, por famílias nordestinas e retratado tanto na literatura regionalista de 30 quanto nas  artes visuais, a exemplo de Os retirantes, de Cândido Portinari. Todo esse movimento também resultou no conhecimento da cidade enquanto aquela não situada no Nordeste com mais nordestinos residentes.

Contudo, a data que visa homenagear e celebrar a diversidade e riqueza do Nordeste tem como iniciativa – ou mote, já introduzindo o vocabulário característico da poesia nordestina – uma homenagem ao centenário de um importante personagem cultural oriundo da região. Normalmente, ao falar em cultura e Nordeste, é comum já surgir o nome de Luiz Gonzaga. Porém, o sujeito em questão é o Antônio Gonçalves da Silva, o célebre Patativa do Assaré. 

O poeta, cordelista, repentista e agricultor, falecido em 8 de Julho de 2002, completaria 100 anos em 2009. Mas porque a celebração de seu centenário justificaria a celebração de toda a diversa cultura nordestina?

Pro Nordeste, a poesia

“Deus quando fez o mundo / fez tudo com primazia … Para o Sul deu a riqueza / pro Planalto, a beleza / pro Nordeste, a poesia”. Esses versos do cordel “O Nordeste é Poesia”, atribuídos ao poeta popular Zé Bezerra, independentemente da constatação factual e social dos primeiros versos, deixa em destaque a importância que a poesia tem na identidade do povo nordestino. Patativa do Assaré, além de outras classificações, foi um dos principais expoentes dessa poesia típica e popular do Nordeste. Mas o que a faz tão singular e característica?

Acredito que os motivos são deveras diversos e profundos para abordar na coluna de uma forma que não fique muito extenso para o gênero. Mas alguns pontos são importantes e cabíveis de destacar de forma introdutória à poesia nordestina e também ao próprio Patativa. 

Pra gente aqui cê poeta e fazer rima compreta

não precisa professor,

basta ver no mês de maio

um poema em cada gaio

e um verso em cada flor.

– “Cante lá que eu canto cá”, Patativa do Assaré 

O primeiro e talvez mais evidente, seja o vocabulário, léxico e expressões que há muito tempo já são característicos do próprio nordestino. Então essa coloquialidade, juntamente à prosódia, talvez seja o que há de mais característico da poesia popular nordestina.

Outro fator bastante típico é a própria diversidade de subgêneros dentro do gênero abrangente da poesia popular. Entre eles está o cordel, a embolada, a glosa e a canção de viola. O repente, vez ou outra citado enquanto gênero poético, refere-se na verdade aos versos que são criados na hora enquanto o poeta recita na companhia de uma viola ou pandeiro. Improvisou e fez na hora, já é repente.

Outros dois elementos bastante característicos em todos esses subgêneros poéticos são o verso metrificado ou ritmo e a rima. Curiosamente tanto o ritmo quanto a rima possui uma mesma origem etimológica latina, que significa “repetição de coisas iguais para criar um efeito estético”. Isso é afirmado pelo poeta, pesquisador e escritor Bráulio Tavares na série Poetas do Repente. Cito já para deixar uma indicação de conteúdo para aprofundar no tema da poesia popular nordestina.

Pra poesia, Patativa do Assaré

Muitos são os poetas populares reconhecidos enquanto geniais, influentes e perspicazes. É o caso de Zé Limeira ou “O poeta do absurdo”, Zé da Luz, Ivanildo Vila Nova, Novinha de Passira, Pinto do Monteiro e Lourival Batista. Esses últimos, inclusive, já citei em outra coluna aqui no Café Colombo. Nesse contexto, o que explica o reconhecimento que se sobrepõe ao poeta Patativa do Assaré?

Se falar contra a injustiça é ser político, então sou político.

– Patativa do Assaré

Muito desse destaque se deve ao fato de suas poesias conterem reiteradamente temas sociais, políticos e de classe retratando muitas vezes situações dos nordestinos, no sertão ou cidade, injustiçados econômica e socialmente. Entre seus poemas são frequentes temas como a reforma agrária, no cordel “A terra é naturá”; a desigualdade social, em “Brasil de Cima e Brasil de Baixo”; a crítica ao poder governista, do municipal ao nacional, em poemas como “Prefeitura sem Prefeito e “Teia de Aranha”

Os temas de sua poesia rimavam metrificadamente com o contexto social, político e até cultural do Brasil entre as décadas de 60 e 70. Momento histórico não só de movimentos a favor da reforma agrária e contra a acentuada desigualdade social potencializada pelo governo militar, mas também uma época da politização da MPB em figuras como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Geraldo Vandré. 

A poesia de Patativa não só falava dos sofrimentos do nordestino, mas os denunciava, muitas vezes de uma forma lírica e ao mesmo tempo intensa. Um dos poemas mais tocantes do poeta é a “A morte de Nanã”, que versa sobre a morte de sua própria filha devido à desnutrição em virtude da falta de trabalho, alimento e seca.

Eu vendo meu burro,
Meu jegue e o cavalo
Nós vamo’ a São Paulo
Viver ou morrer.
– Triste Partida, Patativa do Assaré

Além disso, a época de meados do século XX ainda é fortemente marcada pelo êxodo dos nordestinos em direção a São Paulo. E sobre essa temática Patativa do Assaré escreveu “Triste Partida“, que deve seu reconhecimento nacional à musicalização e gravação desse poema por Luiz Gonzaga em seu álbum de 1964, também intitulado “Triste Partida”.

Outros pontos que valem o destacar no reconhecimento de Patativa do Assaré são os registros escritos e fonográficos de sua obra. Devido à origem frequentemente humilde e ao caráter oral da poesia popular, poucos foram os poetas do gênero no século XX que chegaram a ter suas obras gravadas, seja em suporte sonoro ou escrito. Sendo assim, Patativa do Assaré é um dos poucos que chegaram a ter livros publicados. Inclusive, o primeiro livro, “Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa” (1956), só chegou a ser publicado graças ao patrocínio de um admirador do poeta, o professor e jornalista José Arraes de Alencar.

Além da palavra escrita, os versos de Patativa do Assaré também ocuparam lugar no espaço fonográfico e LPs. Além da já citada música lançada por Luiz Gonzaga, Fagner, que já gravou diversos poetas, musicou também o poema “Vaca estrela e Boi Fubá”, de Patativa. Foi também Fagner o responsável pela produção musical do primeiro LP de Patativa do Assaré, “Poemas e Canções” (1979). Outros LPs com obras de Patativa são “A Terra é naturá” (1980) e “Patativa do Assaré – 85 anos de Poesia” (1995). Neste último LP houve as participações de outros ilustres repentistas como as duplas Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio e Otacílio Batista e Oliveira de Panelas. 

A poesia de Patativa do Assaré, que chegou a ser estudada em universidades fora do Brasil, em países como a França e Portugal, pouco é estudado nas instituições brasileiras do ensino básico ao superior, mesmo no próprio Nordeste. Entretanto, faz-se importante o resgate da obra de Patativa neste momento da história brasileira, em que as diferenças entre o “Brasil de cima e o Brasil de baixo” se tornam mais evidentes com o aumento da desigualdade social e com o voraz taxamento de comunista quando alguém defende políticas públicas, assim como aconteceu com o poeta no período ditatorial. 

É neste contexto sócio-político que sua poesia permanece um grandioso exemplo da utilização da arte enquanto um instrumento de denúncia social e sensibilização da sociedade para suas demandas mais urgentes e suas injustiças mais gritantes. E que o futuro do Brasil se mostre como Patativa do Assaré idealizou: 

…Em vez deste grande apuro,

Todos vão tê no futuro 

um Brasi de cada um. 

Brasi de paz e prazê, 

De riqueza todo cheio, 

Mas, que dono do podê 

Respeite o direito alheio. 

Um grande e rico país 

Munto ditoso e feliz, 

Um Brasi dos brasilêro, 

Um Brasi de cada quá, 

Um Brasi nacioná 

Sem monopolo estrangêro.

– Brasil de Cima e Brasil de Baixo, Patativa do Assaré

Sobre o parecer ser

A alma que não tem objetivo estabelecido se perde,

pois, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar nenhum.

Michel de Montaigne

São Jerônimo escrevendo – Caravaggio. Foto: Reprodução

Ninguém é. E, ao mesmo tempo, todos são. Como, em um mundo com uma infinidade de opções, acontecimentos, informações, todo mundo sabe tanto sobre tantas coisas? Parece que vivemos em um universo habitado por milhares de Aristóteles. Uma vez me disseram que os sábios eram raros; mas, nos dias de hoje, desconfio dessa afirmação. 

“Você está errado. Sim. Você está errado!” Sentenciam eles, juízes da verdade. Detentores da razão. Como eu poderia discordar? Tanta segurança. Tanta certeza. Devo ser um asno, porque a exemplo de Sócrates, apenas sinto que nada sei quando estou frente a tamanha pluralidade de assuntos. E olha que leio. Leio. Leio. Num ou noutro tema até posso ter algum domínio, falar com certa propriedade. Porém, quanto mais assuntos escavo, quanto mais informações absorvo, mais eu me deparo com a incerteza.

Tantas perspectivas. Tantas nuances. Como fazem esses sábios do nosso tempo para possuírem esse monte de certezas? Nossos Aristóteles. Os gênios das redes sociais. Jamais conheceram uma aporia. Tão sabedores. Como encontram fácil a verdade. Talvez precisem só de um vídeo no YouTube. Ou apenas visualizar alguns stories. E pronto. Eureka!

Como eu queria ser sábio assim! Mas será que eles realmente são? Quando Górgias fala que “nada é”, dá até calafrios. É assustador. Será que essa convicção tão certeira, tão exata, não é medo de não ser? Mas eles parecem ser. Formam comunidades inteiras parecendo ser. Derrote o inimigo! Destrua-o com essas palavras tão ansiosas e raivosas expelidas ao agredir seu teclado! Ah, geração tão sábia. E eles ainda dançam…

Mas a partir de quais princípios esses sábios dançarinos chegam ao encontro de verdades tão absolutas? 

Um filósofo da rua – daqueles que nunca são lembrados pela história – certa vez me falou que todos esses “sábios”, detentores da certeza ideológica, se veem lutando em favor da limpeza e do bem, cuja única forma de purificação seria através de sua causa. Todo ímpeto que possuem é destinado a combater os nefastos, disse-me ele. 

“Mas sabe quem é mesmo nefasto? Aquele que imagina que é puro, esse sim é nefasto! Eu sou puro, eu sou nefasto!”

Será? Não sei. Porém, às vezes tendo a concordar com ele. Após morderem aquela maldita maçã, os humanos nunca mais foram os mesmos; orgulho e vaidade se tornaram medida de tudo.

E quanto a tu, Prometeu, o que tinha naquele fogo? Será que era a extrema sabedoria, a verdade que a minha geração julga ter encontrado? Você deveria cuidar melhor do seu irmão, Prometeu. Mas talvez seja ele, Epimeteu, o rei da nossa era. A era dos tolos. Condenados a viver sem objetivos. Submetidos ao vazio da falta de valores concretos. Movidos por ressentimento. Obrigados a  vestir máscaras de bondade. Fadados a criar ídolos de plástico.

Mas, o que eu sei? Nada. Vivo correndo de patinete atrás do vento, assim como todos os outros. Pior. Eles conhecem a verdade. Já eu, só conheço a dúvida.

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Sócrates e uma reflexão sobre momentos extremos

Intimidade e alheamento em “Maboque”, de Tina Vieira


Livro “Maboque” de Tina Vieira, editora Quelônio. Foto: Divulgação.

Ao lado de Encarna, Leonor vai à Ribeira. Faz tempo que a primeira não vê o rio Douro e, diante dela, a segunda não consegue, com certa culpa, não ver um “sonho roto”  — uma senhora cheia de achaques que precisa dela mais pela companhia que pelo cuidado e que teima a continuar vivendo, mesmo tendo envelhecido “sem cruzar a linha de chegada”. Então, paga um táxi para que ela veja mais uma vez a paisagem de sua juventude. Já sob a brisa do rio, entre algumas lojas de souvenirs, Leonor compra um azulejo com um poema de Fernando Pessoa: “Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão entrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos”. Leonor, enfermeira, vive de meter-se na intimidade dos outros, uma privacidade puramente superficial, que nada diz demasiadamente, apesar da ilusão de transparência. Logo, ela, uma profissional em espiar pelo “buraco da fechadura” de seus pacientes, não sabe quem é o próprio pai, com quem conviveu por toda a vida. 

É assim que, a protagonista de “Maboque” (2020), primeiro livro de Tina Vieira, publicado pela editora Quelônio, percebe-se ainda mais alheia à tudo, quando precisa enterrar seu pai. Depois de uma cerimônia estranhamente vazia, de gente e sentido, Leonor entra na casa de sua família, aparentemente repleta apenas de memórias dos outros, mas que não deixam de dizer algo sobre ela, alguma coisa, porém, quase inalcançável. No centro dessa incógnita, está o pai, recentemente falecido; um parente que jamais conseguiu, de fato, entender em sua sisudez, doença hereditária. E, consequentemente, como tudo que se torna enigma, ele também se transforma em fascinação e mania — Leonor é uma personagem edipiana que, na ausência do pai, involuntariamente, deixa o seu subsolo na esperança de aproximação com qualquer figura remotamente paterna: em dado momento, o autoritário amigo/namorado Fernando e, em seguida, até mesmo, o velho Joaquim, esposo de uma de suas pacientes. Porém, o pai biológico continua à espreita, como um espectro fundamental que a persegue e, no entanto, quem era? 

À essa pergunta, ele mesmo responde. A narrativa em primeira pessoa de Leonor é, esporadicamente, interrompida pela interferência de Carlos, o pai, que diante da iminência da morte escreve uma espécie de diário epistolar à filha, na tentativa de finalmente existir para ela ao contar-lhe sobre si, uma vez que, “uma história sem contar, é uma história que não existe”. Antes das cartas, ela sabe sobre ele apenas o captável à observação: um homem nascido em Portugal, nos anos 40, viúvo e austero demais – jamais a tinha abraçado. Paradoxalmente, chorava assistindo novelas da Globo, em cenas tristes e felizes. Também chorava em companhia de animais e, às vezes, parecia chorar sem motivo algum, ainda que disfarçadamente; um fenômeno chamado labilidade emocional, que Leonor prefere denominar como “angústia de viver em estado bruto”. 

Carlos, entretanto, é português, angolano e brasileiro. Nascido em Portugal, é obrigado a sair de casa para trabalhar cedo demais, um abandono que não esquece e também não perdoa; durante toda a juventude odeia os pais, mas depois, na velhice, culpa-se por isso: “tudo correu conforme a ordem natural das coisas, tão natural que chega a ser estúpida: cada um faz o que pode, com a certeza de que está a fazer o melhor. Ou, pelo menos, o melhor naquela altura. Eu não fui diferente deles”. Mais tarde, vai tentar a vida em Angola, quando prova, pela primeira vez, a fruta que dá nome ao livro: “Sentado naquele quintal em mangas de camisa, descalço, na companhia de pessoas que nada sabiam da minha infância, com um maboque aberto nas mãos e o caldo amarelinho a escorrer pelos cantos da boca, senti que tudo me seria permitido”.  E Leonor que acreditava serem os figos sua fruta preferida!

Com efeito, depois que vai embora de Angola, Carlos nunca mais come maboques, uma dádiva angolana inacessível no Brasil e em Portugal, bem como a pretensa liberdade espiritual que, também, só experimenta nas ruas de Luanda. Pobre e insignificante a vida inteira, sua branquitude e nacionalidade faz dele gente no meio dos negros de um país colonizado em constante exploração. Porém, mesmo sob o julgo das diferenças sociais, Carlos faz um amigo angolano, o primeiro e o único. Portanto, começa a viver, de fato, em outro continente, com outro trabalho, outras relações, outra vida, uma que, fatalmente, é interrompida muito depressa: Carlos volta à Portugal e casa-se com a mãe de Leonor. A filha, no entanto, nasce somente no Rio de Janeiro, dois anos depois que o casal decide mudar-se para o Brasil, onde Carlos adquire nova pátria, ao encontrar outras paixões, que não o maboque, em terras brasileiras.

Embora o Rio se torne, para ele, uma casa, é apenas mais uma, dentre outras que, agora, não consegue mais esquecer. Assim, Carlos, meio português, meio angolano e meio brasileiro, não é, inteiramente, nada. Não obstante, vai esperar a morte em Portugal, num último ensaio de pertencimento — “pois aqui o tens, pai, o bendito solo português. De que te serve?”. E, antes do fim, no delírio que parece ser sempre precedente, chega a ver a mãe com um maboque na mão, como se ela a tivesse algum dia provado. Pois então, adianta pouco, a liberdade que Carlos busca no Brasil e em Angola, porque, no último minuto, sabe que é somente o nono filho, insubstancial, escravizado muito cedo, sem que, ainda, consiga livrar-se do que foi em Luanda e no Rio. Como bem disse Pessoa, de que adianta as paisagens, “se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma”?

Tamanho estrangeirismo, vivenciado por pai e filha, é essencial na narrativa e é, sem dúvidas, um dos fatores mais interessantes do livro, que mescla, em construção e linguagem, a cultura de três continentes. Tal qual o pai, Leonor é “portuga” para o Brasil e, “brazuca”, para Portugal, e, durante a infância, o aceita resignadamente, “sem ainda ainda ter consciência de não pertencer a nenhum lugar”. Quando a mãe morre, dois anos antes do pai, Leonor vai à Portugal e, mesmo depois que ele também falece, continua em Porto, adiando qualquer decisão permanente sobre onde ser “estrangeira de uma maneira menos nociva, na cidade onde nasci e meu sotaque não chama a atenção de ninguém, dando a ilusão momentânea de que pertenço ao lugar, ou no país de origem dos meus pais, onde ninguém me conhece e, portanto, não preciso ter vergonha de nada”. 

Logo, Leonor sabe que estrangeiro é uma colocação desfavorável, uma denúncia de incomunicabilidade, porque tudo que está fora de nós, nos é estranho. Todavia, o parentesco se coloca como paradoxo: Carlos é alheio à Leonor, mas se faz presença intrínseca e inelutável, “num quartinho discreto, sem se fazer notar, salvo quando assomava a cabeça na porta e surpreendia por não ter reparado na sua presença antes”. Conquanto o pai se faça mistério, este se mostra, curiosamente, parte fundamental de Leonor que, só de vez em quando, ela consegue vislumbrar, e não sem alguma inquietude: “preocupa-me a procissão que caminha por dentro”. Procissão essa que se configura do pai, tal qual dos pais dele, os avós indiferentes, que ele próprio passa a entender como semelhantes. Equitativamente, Carlos vê-se na filha em seu retraimento reflexivo. Aí está a herança paterna, esse estrangeirismo de tudo, inclusive de si mesmo. 

Em certo momento, Fernando, o namorado, diz que as pessoas têm uma determinada trilha sonora, menos musical e mais conceitual, uma composição feita de lembranças e pensamentos contínuos. Para ele, Leonor é a trilha sonora de um filme de Lars Von Trier, não sabe qual. Ela, no entanto, viu do diretor apenas “Dançando no Escuro” e a desagrada a comparação. No filme, Bjork interpreta Selma, uma imigrante tcheca que trabalha no Estados Unidos como operária e, guarda, com afinco impressionante, todo o dinheiro que consegue juntar para operar o filho – ambos possuem uma doença hereditária que resulta em cegueira. Selma já está quase cega e faz pouquíssimo por si mesma, contentando-se em “sonhar acordada” – na sua imaginação, a vida é um musical, o que torna sua história muito bonita, mas, sem dúvidas, frustrante: “Passei todo o filme com vontade de dar uma surra na protagonista, sacudi-la, fazê-la despertar, reagir, sair do delírio bobalhão em que parecia estar imersa a maior parte do tempo, abraçar a vida, a sua, não a do filho”. E, contudo, gosto da associação, porque faz todo sentido. Leonor, também, vive parcamente e é apaziguada com muito pouco — Selma sustenta-se de música e, ela, de memória, a sua e as dos outros. Assim, Leonor chega a conclusão de que sequer existe: “Que as funções vitais estejam cumprindo o que se espera delas não deveria ser requisito suficiente para dar uma pessoa como viva”.

Não obstante, a memória que a alimenta é pouco confiável, tal qual sempre é, em natureza, essa “costureira caprichosa”, nas palavras de Virginia Woolf. Sua imagem do pai, então, nada mais é que um amontoado de lembranças discutíveis, idealizações e interpretações completamente parciais, “imaginação sensível de nós mesmos”, um esforço contra o vácuo: “Uma biografia é sempre uma reconstrução onírica da realidade”. E, no entanto, a elaboração que Carlos faz da própria figura é pouco melhor; ainda que Pessoa esteja certo e, de fato, nunca possamos desembarcar de nós, expressar plenamente à si é um projeto ingênuo, pois que, nem Carlos o conhece por inteiro — “Quantas vidas cabem na vida de um homem?” —, tampouco se conhece Leonor, sobressaltada com suas “procissões” internas. 

Como resultado, a narrativa é repleta de vaivéns tendenciosos — a palavra vai de um ao outro, na tentativa de construir um único retrato de família, todo romântico — a filha busca entender o pai e o que de seu restou nela e, Carlos, procura fazer-se entender, calado a vida inteira. Porém, a voz lógica de Fernando chega aos ouvidos da consciência de Leonor: “Não confunda a representação do objeto com o objeto em si. Esse é um erro primário”. Portanto, Maboque é um livro de prosa fragmentada, em voz, tempo e espaço. Mas estas peças distintas convergem-se de maneira  coerente, apesar de serem perceptivelmente diferentes. A narradora Leonor não compartilha a mesma linguagem do narrador Carlos e, a constância com a qual disputam a narração, sem causar descontinuuidade, é uma qualidade considerável na escrita de um autor estreante. 

Aliás, a escrita de Tina Vieira já é bastante madura na percepção das intimidades de seus personagens, mesmo os menos relevantes. É curioso este antagonismo entre a impossibilidade de apreensão do outro, sobre quem “nunca saberás nada, deveras importante” e, ao mesmo tempo, essa ficção repleta de inserção e perspicácia. Quem sabe, como dizia Proust, a literatura não faça mesmo melhores julgamentos das pessoas (não só ficcionais), que a nossa mera observação de comuns espectadores? Assim, o narrador deixa de ser personagem de vez em quando, ainda que a maior parte da narrativa oscile entre as vozes limitadas de Leonor e Carlos. Em suma, “Maboque” é um lançamento nacional contemporâneo interessantíssimo, de uma autora nascida em Luanda e criada no Brasil, com uma observação sagaz de países tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão análogos. É, também, interessante o trabalho da editora Quelônio, em particular, a coleção Valsa de Esquina, uma série de literaturas, visto que a produção atual “desconhece limites de gênero, estilo ou tema”. Pois o romance recortado de Tina Vieira ilustra bem essa ideia.

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Como Brigitte Bardot revolucionou o cinema nos anos 1950


Brigitte Bardot em Viva Maria!, 1965 – Foto: Reprodução/IMDd

Brigitte Bardot, atriz e dançarina, completa 86 anos no dia 28 de setembro. Uma francesa com um Je ne sais quoi tipicamente parisiense. Criada em uma família de cultura tradicional, Brigitte Anne-Marie Bardot, teve uma criação extremamente rígida em sua infância. Seu pai, Louis Bardot, foi um industrial da alta burguesia, e casou-se com sua mãe, Anne-Marie, no ano de 1933.

Aos 15 anos de idade, em 1949, incentivada por sua mãe, Bardot iniciou a vida de modelo, estreando na revista Elle. O trabalho feito pela atual modelo chamou atenção de diversos profissionais, inclusive do cineasta Roger Vladim, que viria a tornar-se seu marido. Em 1952, aos 17 anos, apareceu pela primeira vez nas telinhas, atuando no filme “Le Trou normand”. No mesmo ano, após 2 meses de namoro, Brigitte e Roger se casaram.

Foi então que surgiu a Nouvelle Vague: um movimento artístico do cinema francês. A nova estética, que foi inspirada no neorrealismo italiano, começou a crescer fora da França. Roger, apostando nessa estratégia, escalou Brigitte para o papel principal do filme “E Deus Criou a Mulher”, gravado no ano de 1956. Ficou mundialmente famosa aos 23 anos, em 1957. Neste período ela passou a ser conhecida pelas suas Iniciais B.B. A partir daí, a atriz tornou-se o maior símbolo sexual de sua época. O filme, que contava a história de uma jovem moradora de uma cidade litorânea, causou grandes discussões e polêmicas. Porém, quando chegou aos EUA, estourou em bilheteria, e transformou BB em um fenômeno da noite para o dia.

E Deus Criou a Mulher, 1954 – Foto: Reprodução/Youtube

Em 1954, Brigitte Bardot fez tanto sucesso em “E Deus Criou a Mulher”, que a frase “E Deus Criou a Mulher… mas o diabo inventou Brigitte Bardot!” foi criada a partir de sua sensualidade apresentada no filme, que gerou muitas discussões, e acabou sendo proibido em alguns países, além de ter sido condenado pela atual Liga da decência católica.

Toda sua fama se deve a diversos fatores, tanto pessoais, quanto profissionais. Sua personalidade autêntica, e seus ideais modernos a fizeram ser considerada uma mulher à frente de seu tempo. Por conta disso, mesmo não ganhando nenhum prêmio importante no cinema, Brigitte recebia grande parte da atenção da imprensa americana – o que era bem incomum, visto que a imprensa dos EUA só dava foco a atrizes também americanas.

Era conhecida não só por sua ousadia e personalidade, mas também por seus looks ousados e seu jeito despretensiosamente sensual. Seu olhar marcado e seus cabelos longos e loiros, sempre soltos ou semi-presos, influenciaram uma geração de mulheres dos anos 50 e 60. Sempre era vista com roupas ou super comportadas ou extremamente sensuais – e era exatamente este o seu charme. Com seu jeito de se vestir, Brigitte deixou um legado de empoderamento, liberdade e naturalidade. Nos filmes, Bardot usava pouca roupa e foi a primeira mulher a aparecer sem meias nas telas, quebrando paradigmas e padrões estéticos.

O Príncipe e a Parisiense, 1957 – Foto: Reprodução/IMDb

Em “O Príncipe e a Parisiense” (1957), a atriz aparece em cena dentro de uma banheira, e exibe suas pernas.

O Príncipe e a Parisiense, 1957 – Foto: Reprodução/IMDb

Em 1958, Brigitte fez até uma cena de cinta-liga, um escândalo para a época.

Amar é minha profissão, 1958 – Foto: Reprodução/IMDb

De toalha, em “O Desprezo”, dirigido por Jean-Luc Godard, a atriz aparece deitada em uma cama falando ao telefone, em 1963

O Desprezo, 1963 – Foto: Reprodução/IMDb

E em 1969, apareceu nua em “Les Femmes”, ao lado de Maurice Ronet:

Les Femmes, 1969 – Foto: Reprodução/IMDb

Apesar de ter sido um Sex-Symbol nas décadas de 50 e 60, ela não se deu muito bem com a fama. A atriz disse em uma entrevista que ninguém pode imaginar até que ponto foi espantoso. Um calvário. Já não podia viver daquele jeito. Uma vez que, devido ao sucesso, era constantemente perseguida pelos Paparazzis.

Em 1973, BB anunciou a aposentadoria. Desde então, se dedica a causa animal. Em seu livro de memórias, Larmes de combat (Lágrimas de combate), ela escreve sobre sua luta pelos direitos dos animais, a criação de uma fundação que busca protegê-los e denuncia a caça, os zoológicos, o uso de pele e o consumo de carne de cavalo. Brigitte abriga animais resgatados em sua casa em Saint-Tropez, França. Segundo ela, eles são sua “família próxima”

Brigitte Bardot atualmente

Fotos: Reprodução/Instagram @brigittebardotbb

Além da personalidade ativista, Bardot continuou não seguindo regras e padrões de beleza impostos pela sociedade. Resolveu não fazer plásticas e deixou que a velhice tomasse seu rumo natural. Ainda assim, continuou a ser uma mulher forte, autêntica e, claro, continuou a andar fora do caminho comum, e a seguir seu próprio destino.