Colunas

Fevereiro sem frevo: aglomeração de lembranças

Em registro audiovisual e em uma Olinda desconhecida por fevereiro, Wagner Duarte executa ao saxofone o célebre frevo “Hino do Elefante de Olinda”. Foto: Diego Nigro

De Colombina o infantil borzeguim

Pierrot aperta a chorar de saudade.

O sonho passou…

Manuel Bandeira

O mês de março já é visto na próxima curva da estrada e acabamos de passar pelo Carnaval a uma velocidade de 10 Megabytes, 15 MB, 3 ou 4G. O vi rapidamente pela janela cibernética. Olhei suas ruas estreitas e vazias e seus habitantes: senhores de idade olhando de seus portões o não-movimento das ruas, como se vissem caminhar suas próprias lembranças, suas próprias saudades, sem se reconhecer. Afinal, todos mudaram muito no último ano, pois nada como tempos difíceis para envelhecer o ser humano, para a criança crescer, à força, deixando para depois pequenos sonhos e grandes reencontros.

Eu sou um observador e ao mesmo tempo um desses habitantes olhando para minhas lembranças nessa cidade do espaço-tempo pernambucano chamada Carnaval. Boa parte do meu tempo dessa época passei em Caruaru, onde nasci, um dos pontos mais importantes no mapa carnavalesco até a primeira metade do século XX. Depois disso, declínio devido a evasão de parte da população pro litoral durante as festas e à diminuição do patrocínio dos clubes da elite para os blocos. Isso culminou no esquecimento da tradição carnavalesca por lá, de tal forma que boa parte dos mais novos habitantes nem sequer fazem ideia da história carnavalesca local. Como qualquer outra dessas terras brasileiras, herda do país o problema com a história cultural, tanto que se perguntar quem é o caruaruense Carlos Fernando poucos saberão quem é e o tamanho de sua importância para o frevo. Eu mesmo não sabia até um tempo atrás. Mas o espírito de Carnaval tem sido renovado por lá, desde quando, em um dia desses, um tal Bar Confraria da Sucata deu o pontapé inicial no processo de reciclar a festa.

Também passei pelo bairro de Bezerros da cidade Carnaval, com seus papangus fazendo as papagaiadas que os tornaram símbolos do carnaval no Agreste. Vivi boas e loucas tardes por lá. De Bezerros, seguindo o rastro do sol nascente durante o equinócio, chega-se a Recife, outro ponto importante para a festa e cujo silêncio de agora no Marco Zero seria irreconhecível nas Condições Normais de Aglomeração e Frevo – uma expressão cultural que nem rima, nem faz par com o isolamento social. O Rio Capibaribe não reconhece o reflexo que cria. As pontes do Antigo não reconhecem sua vaziez. O asfalto se desanima com tão poucos passos apressados para o show que acabaria de começar. E o ar chora um assovio que imita a última nota tocada no último frevo do último bloco de rua que por ali passou no ano passado.

Porém o caso é mais grave em Olinda. Lá o vento chora seco, o silêncio é o eco de outros silêncios, as ladeiras estão pra baixo e nos 4 cantos ninguém chegou. O sítio histórico parece mais histórico que de costume. Nele, há mais passado que presente, e nenhum futuro que se possa afirmar.

Até que um saxofonista aparece. Não é uma lembrança. É todo o bloco da saudade em um homem só e em um só instrumento. O ladrilho anda com ele e as ladeiras se inclinam no grau de costume. A música rasga o silêncio educadamente, pedindo licença, e o silêncio canta com ela, o vento canta com ela, e é até possível ouvir o coro da multidão que ali se encontrava no ano passado.

Aliás, que ano passado?! Viramos a curva do ano, passamos por janeiro como quem passa por um sonho, sem saber ao certo se realmente foi curto ou se apenas passou rápido, e cá estamos em fevereiro sem frevo e sem freio. 2020 não acabou. O ano novo não começou. Enquanto o frevo não for dançado pelas ladeiras, as marchinhas não forem entoadas nos blocos por multidões, os papangus não tomarem as ruas do Agreste e os tambores dos maracatus não ecoarem pelas ruas do Recife Antigo, o começo do ano para o folião pernambucano será apenas uma formalidade, e não um sentimento.

Leia mais do mesmo autor aqui.

Últimos Dias

Últimos Dias (2005) de um espírito agonizante

Tendo em Kurt Cobain uma clara inspiração, Gus Van Sant nos entrega uma obra potente. Foto: Reprodução.

Our revels now are ended. These our actors,

As I foretold you, were all spirits and

Are melted into air, into thin air.

A Tempestade – William Shakespeare

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” (2005) acompanha Blake, um músico que mora em uma mansão fria e vazia e que foge de todo e qualquer contato com o mundo exterior. Blake se arrasta entre a floresta e sua casa como um zumbi que se move em direção a um destino inexistente. Suas roupas são sujas e desgastadas, sua expressão é nula; em sua casa habita um grupo de amigos, mas eles raramente se encontram, Blake os evita como pode; o ambiente interno da casa é quase uma extensão da floresta que existe do lado de fora.

Em “Últimos Dias” parece não existir uma narrativa propriamente dita. Não há ação. Quase não há diálogos. Não há grandes sentimentos saídos de um grande artista. Não, há apenas um não-personagem que se confunde com o espaço em que habita. O drama sempre está suspenso. Toda vez que parece que haverá algo, uma certa tensão, uma realização concreta, Gus Van Sant nos remove, deixando-nos com a sensação de um coito interrompido. 

Nesse sentido, todo o filme é construído em torno da ausência. O desafio pós-moderno de Van Sant – que pode fazer muita gente dormir de tédio – é filmar alguém que já não está mais lá. Blake não fala, apenas balbucia. Ele é um homem privado de si mesmo. Um homem abjeto que não passa de um somatório de ruídos cacofônicos. 

No entanto, existem duas cenas nas quais seu espírito emite alguma luz e mostra que ainda está ali. 

A primeira é quando Blake está em uma sala com vários instrumentos. Então ele vai tocando um a um, em uma sobreposição, e pela primeira vez, presenciamos vida e harmonia. A câmera está do lado de fora da janela e vai se afastando pouco a pouco enquanto as camadas do som vão se preenchendo, até culminar em uma bela catarse de sensações sonoras. Por não existir quase nenhuma ação concreta ao longo do filme, esse momento torna-se extremamente poderoso; tal qual uma pequena fonte de luz acesa na escuridão. 

Na segunda, já próxima ao fim do filme, a câmera não se mexe, o quadro é estático. Há apenas Blake e seu violão – em uma posição característica de Kurt Cobain – seus cabelos loiros e sujos cobrindo seu rosto. O corpo desaparece e a protagonista é apenas a voz, apenas o talento, que ecoa as palavras de maneira visceral e hipnotizante “É uma longa e solitária jornada que vai da morte ao nascimento”. 

Cena do filme de Van Sant, diretor de obras como “My Own Private Idaho” (1991) e “Good Will Hunting” (1997). Foto: reprodução.

Como já sabemos, os últimos dias de Kurt Cobain preconizam um suicídio. Van Sant, se fosse um cineasta mais convencional, poderia tentar explicar os motivos para alguém cometer tal ato, ou até mesmo julgar. Não seria o suicídio o ato mais brutal que alguém poderia cometer a si mesmo? Ou seria o ato mais covarde? Ou, quiçá, o mais heroico? O diretor se abstém dessas prerrogativas e filma apenas o estado de seu protagonista, minimiza o roteiro e foca na abordagem, no protagonismo da forma. 

Não importa o porquê. Nem mesmo o como. Em “Últimos Dias”, sentimos o espaço. O vazio. A desolação. A partir da construção da mise-en-scène, sem acontecimentos dramáticos aparentes, Van Sant nos permite contemplar o lento apagar de uma estrela. 

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Asas do Desejo e o teatro da vida

Nação, etnia e comunidade em “Pachinko” de Min Jin Lee


Na foto, Min Jin Lee, autora de “Free Food for Millionaires” (2007) e “Pachinko” (2017). Foto: Divulgação.

Uma combinação entre o pinball e o slot machine, pachinko é o jogo mais popular do Japão e, contudo, um dos mais controversos. O jogador deve inserir o dinheiro na máquina e, em troca, ele recebe bolinhas de prata, que custam de um a quatro ienes e podem ser trocadas por prêmios. Apesar de competições de aposta serem proibidas no país, o pachinko ocupa uma área cambaleante entre o legal e o ilegal, permanecendo ativo devido à seus lucros exorbitantes: as mais de 18,000 casas do jogo, espalhadas pelo Japão, faturam bem mais que os  cassinos de Las Vegas, cerca de 25 trilhões de ienes. A reputação desse entretenimento é seriamente afetada por seu caráter vicioso e sua associação com a Yakuza. Ademais, a maioria dos donos dos estabelecimentos são etnicamente coreanos, como é o caso de Mozasu, que faz fortuna com o seu negócio, na tentativa (infrutífera) de não mais encaixar-se no estigma de “segunda classe” a que são condenados todos os zainichis, coreanos que moram em território japonês. Apesar disso, o personagem não se envergonha de seu trabalho, já que, para ele, pachinko é muito mais que simples sorte ou azar: “Mozasu acreditava que a vida era como esse jogo, no qual o jogador pode ajustar o botão e, no entanto, esperar pela incerteza dos fatores que ele não pode controlar. Ele entendia por que seus clientes queriam jogar algo que parecia tão fixo, mas que deixava espaço para aleatoriedade e esperança”.

“A história falhou conosco, mas não importa.” – é assim que inicia-se o segundo livro da escritora coreana-americana Min Jin Lee, “Pachinko” (2017), sugerindo a atmosfera que se seguirá em suas mais de 500 páginas. O romance segue a trajetória de uma família, desde sua formação no início do século vinte, em uma Coréia sob dominação japonesa e, posteriormente, sua fuga para o Japão e seu estabelecimento no país, até o fim dos anos 80. A obra foi altamente elogiada depois de sua publicação, bem mais do que o livro anterior da autora, “Free Food for Millionaires” (2007), tornando-se, rapidamente, um best-seller. “Pachinko”, considerado um dos melhores livros de 2017 segundo o The New York Times, foi recomendado por Barack Obama e figurou na lista dos finalistas do National Book Award, maior premiação literária dos Estados Unidos. No Brasil, depois de entrar na coleção do Clube Intrínsecos, assinatura mensal de livros da Intrínseca, a editora o publicou para os não-assinantes no fim de Dezembro de 2020. E, em terras brasileiras, o romance também parece que fará sucesso.

Com efeito, a história dos imigrantes coreanos no Japão é pouco sabida. Sobre isso, a própria Min Jin Lee, que também é historiadora e socióloga, afirma que tamanha falha histórica tem mais haver com a falta de documentos dessas pessoas, muitas vezes analfabetas ou pobres demais para ter tempo ou condições de documentar a própria vida, do que com um apagamento proposital. De qualquer maneira, sua saga familiar surge na ideia de contar – ficcionalmente – a biografia dessa comunidade gigante (há mais de seiscentos mil coreanos no Japão) e, contudo, negligenciada. O livro, pois, começa durante a ocupação japonesa da Coreia, com o casamento arranjado entre Sunja, uma moça de um vilarejo pequeno, próximo à Busan, na área que hoje é a Coréia do Sul, e Isak Baek, um pastor presbiteriano de Pyongyang, na atual Coréia do Norte. A união se dá depois que Sunja engravida de um dos negociantes do mercado de peixes, Koh Hansu, que, posteriormente, descobrimos ser um yakuza. Em 1933, após o casamento, ambos vão para Osaka, no Japão, onde moram o irmão e a cunhada de Isak, Yoseb e Kyunghee. A partir disso, acompanhamos as tentativas de sobrevivência dessa família, e de alguns figurantes com os quais essa se relaciona, durante períodos dramáticos (Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra Fria), em um local hostil à sua mera existência – ora, como uma boa saga, “Pachinko” é um livro triste. 

Dentre os muitos personagens do romance, um dos mais curiosos é Noa, o primeiro filho de Sunja, fruto de seu caso com Hansu, um homem casado e, apesar de coreano, bastante bem-sucedido no Japão. O jovem, ainda aos oito anos, tem alguns segredos – um deles é que, há algum tempo, ele deixou de acreditar em Deus, depois que seu pai, Isak (Noa não sabe de Hansu), é preso pela polícia japonesa, envolvido em um caso político/religioso. O outro, e o mais interessante deles, é que ele odeia ser coreano e, acima de tudo, tem certa repulsa por Ikaino, o pobre bairro onde ele e a maioria dos imigrantes da Coréia moram em Osaka, já que, ainda que esses pessoas conseguissem dinheiro o suficiente para mudar-se, não era fácil, para eles, locomover-se no país, devido ao preconceito. Portanto, ainda muito pequeno, Noa esforça-se para ser o melhor aluno da escola, aparentemente irredutível a toda e constante descriminação sofrida e, mesmo quando a Segunda Guerra obriga ele e sua família a deixarem Osaka e, consequentemente, parar de frequentar o colégio, o menino jamais perde o empenho e a vontade de estudar. Quanto a isso, Hansu, que não tem filhos homens com sua esposa, decide patrociná-lo usando a desculpa de ser um amigo da família e um coreano patriota. Noa, então, ingressa em Waseda, uma das maiores universidades japonesas.

Nascido em território japonês, conquanto etnicamente coreano, a narrativa hegemônica que Noa tem sobre si mesmo e sua família são os inúmeros e execráveis estigmas ao redor dos zainichis: um povo menor, preguiçoso, sujo e criminoso. Nas ruas de Ikaino, o menino depara-se várias vezes com sujeira e crime, com homens bêbados nas portas de casa e com vícios em álcool e apostas. Na escola, a maioria dos alunos não lhe dirigem a palavra e, os professores, impressionados com sua capacidade intelectual, o chamam de “bom coreano”. Hansu o convence de que a única maneira de separar-se do preconceito é estudando e, por consequência, enriquecendo. O próprio, porém, só tem dinheiro por causa de sua conexão com o crime organizado. Assim, Noa acostuma-se com a ideia de ser o “bom selvagem” nos mínimos detalhes: “Koh Hansu havia, com frequência, mencionando que um homem deveria aparentar o seu melhor todos os dias. Para os coreanos, isso era especialmente importante: Pareça limpo e bem arrumado. Em todas as situações, mesmo nas que você tem o direito de sentir raiva, um homem coreano deve falar calma e sobriamente”.

Já em Waseda, estudando literatura inglesa, deslumbrado pela nova facilidade de sua vida, Noa começa a namorar a japonesa Akiko, outra das personagens mais intrigantes do livro. A jovem, de uma família de negociantes de classe média, estuda sociologia e não tem medo de questionar os professores sobre qualquer questão política e social, além de muito orgulhar-se de não ser racista como os pais: ela até namora um coreano! Todavia, como Noa perceberá, Akiko em nada se diferencia dos outros que, em maioria, o discriminam e ignoram: “Vê-lo apenas como coreano – bom ou ruim – era o mesmo que vê-lo simplesmente como um mau coreano. Ela não conseguia enxergar sua humanidade e Noa percebeu que isso era o que ele mais desejava: ser visto como um ser humano.” Fetichismo étnico é um dos tópicos mais relevantes deste livro e, não somente Noa, mas, principalmente, as personagens femininas, têm de aprender a conviver com ele. 

Pouco antes de morrer, devido à extrema violência policial, Isak diz à Noa: “Viver todos os dias na presença daqueles que se recusam a reconhecer sua humanidade requer grande coragem”. No entanto, depois de saber que seu pai não é um pastor honesto e intelectual, e sim um yakuza, Noa acredita que nada pode mudar sua essência “suja e criminosa”, tal qual a do resto dos zainichis. Então desiludido e com um ódio extremo de si mesmo, o jovem deixa a faculdade e afasta-se da família na tentativa de tornar-se japonês à força. Contudo, embora tenha abandonado seu sobrenome coreano e se casado com uma mulher que sequer desconfia de suas origens, a única oportunidade de trabalho que consegue é em uma casa de pachinko, bem como a maioria da sua comunidade: “Para um coreano, todas as opções eram uma merda.”

Noa muito me evocou um outro personagem, do mesmo modo interessante, Akira Kido de “A man” (2018), do escritor japonês Keiichiro Hirano, infelizmente ainda não publicado no Brasil. Akira também é etnicamente coreano, mas há muito tempo, sequer conhece sua herança histórica: fala apenas a língua japonesa e não convive, de fato, com outros zainichis, além de envergonhar-se de ser igualmente um deles. Porém, depois do grande terremoto ocorrido no Japão em 2011, ressurge com força total a onda nacionalista e racista contra chineses e coreanos no país inteiro. Pela primeira vez, Akiro se vê completamente cercado e aterrorizado pela ideia de fazer parte de uma minoria, mesmo anos depois da geração de Noa, quando a situação parecia melhor para todos os imigrantes: “É insuportável ter sua identidade sumarizada por uma coisa e somente uma coisa, e que outras pessoas tenham total controle do que ela é”.

Quanto a isso, Mozasu, citado no primeiro parágrafo, meio-irmão de Noa e filho biológico de Isak e Sunja, tenta não se importar em ser um “mau coreano”, mas deseja ser, pelo menos, um coreano rico. Desse modo, Mozasu não vai bem nos estudos, mas bate em qualquer um que levante a voz para ele e, por conseguinte, acaba deixando a escola e começando a trabalhar com pachinko ainda muito novo. Depois de algum tempo, torna-se, de fato, riquíssimo. O dinheiro, no entanto, pouco lhe serve para estabelecer um status social de dignidade, pois que, diferentemente do irmão, Mozasu jamais esconde suas origens. Nascido no Japão, o personagem sente-se completamente expatriado – jamais viu a Coreia antes de adulto e no país em que nasceu é tratado como estrangeiro: “Coreanos como eu não podem sair daqui. Para onde iríamos? Mas os coreanos em casa também não estão mudando. Em Seul, pessoas como eu são chamadas de bastardos japoneses e, no Japão, eu sou apenas outro coreano sujo, independentemente de quanto dinheiro eu ganho ou quão bom eu sou”. 

Seu filho, Solomon, demora mais um pouco para sentir essa “anomalia histórica” na pele. Estuda, desde pequeno, em uma escola internacional e segue a ordem dirigida a todos os zainichis com algum dinheiro: é um dever para com a comunidade estudar e jamais ser visto como um cidadão menor. Logo, Solomon gradua-se na Universidade de Columbia nos Estados Unidos. Quando volta para o Japão, já empregado em uma firma inglesa, dirigida localmente por um japonês, Solomon servirá apenas para um negócio: tentar fazer com que uma senhora coreana venda sua propriedade, quando a mesma decide vendê-la apenas para outro compatriota. Depois de algumas complicações, contudo, Solomon é demitido com a desculpa de que ele e seu pai devem ter relações com Yakuza, já que os negócios de pachinko são muito associados com o crime organizado, algo que sequer o diretor da empresa realmente pensa:  “‘Todo mundo sabe, Solomon. No Japão, você é um coreano rico ou um coreano pobre e, se você for um coreano rico, há uma casa de pachinko em seu background.’”

Não obstante, apesar do foco dado aos personagens masculinos nesta resenha, são as mulheres as grandes protagonistas do romance. Mais de uma vez, a mãe de Sunja, Youngjin, afirma que “o destino da mulher é sofrer”. Com efeito, talvez as maiores tragédias do livro estejam destinadas às personagens femininas. A própria Sunja começa, ainda aos 16 anos, sendo ludibriada e estuprada por um homem muito mais velho, que a assombra pelo resto da vida. Kyunghee, esposa do irmão de Isak, Yoseb, cuida do marido intolerante e doente por toda a juventude, desistindo de qualquer objetivo pessoal, e Yumi, esposa coreana de Mozasu e mãe de Solomon, tem uma infância povoada de prostituição e alcoolismo. Yumi, apesar de ser quase uma figurante, tão rápido entra e sai da história, tem um dos plots mais tristes: bem como Noa, odeia suas origens e sonha, desesperadamente, com o dia em que se mudará para Los Angeles, onde, segundo sua narrativa embriagada de imperialismo americano, não há preconceito ou racismo. Yumi acaba morrendo em um acidente de carro antes de poder usar o inglês que ensaiava todos os dias. No funeral, Solomon acalma uma das convidadas inconsoláveis: “Não chore. (…) Mamãe está na Califórnia.”

Capa da edição estadunidense de “Pachinko”. Foto: Reprodução.

Porém, não são apenas as mulheres zainichis que têm como destino o sofrimento. Hanako, primeiro amor de Solomon, é filha de um casal japonês de reputação destruída e, portanto, ela se torna uma outsider. Hanako acaba por trabalhar com pornografia e morre muito jovem de AIDS. A segunda namorada de Solomon é Phoebe, uma coreana americana que ele conhece na Universidade. Phoebe não aceita o passado da Coréia, a colonização e o racismo ainda vigente e, então, quando muda-se com ele para o Japão, conversa constantemente sobre suas posições políticas. Solomon não entende: “Sim, alguns japoneses acham que coreanos são escórias, mas alguns coreanos o são.” Com seus amigos novaiorquinos, Phoebe também não tem muito sucesso: “Eles ficavam incrédulos em acreditar que os japoneses educados e amigáveis que eles conheciam podiam achar que ela fosse, de alguma maneira, criminosa, preguiçosa, suja ou agressiva (…) Logo, Phoebe parou de falar sobre isso com seus amigos americanos.” Este é um ponto central: a estereotipação absolutamente racista e xenofóbica de um leste asiático capitalista, desenvolvido e quase místico em sua civilidade, ajuda a apagar ainda mais as problemáticas destes e entre estes países. Essa regra não se aplica a todo o leste, entretanto: China e Coréia do Norte, por exemplo, têm péssimas reputações no Ocidente e as razões para isso são bastante óbvias.

Isto posto, “Pachinko” é um livro, de fato, interessantíssimo. Apesar de tudo, o mesmo carrega um tom novelesco em sua narrativa que me incomodou ligeiramente. Isso não chega a destituí-lo de sua força e qualidade literária, mas talvez ele fosse maior se tivesse um número menor de páginas e alguns detalhes e repetições a menos – interessa pouco, às vezes, que o autor se explique demais na tentativa de, quem sabe, educar o leitor sobre certos tópicos, porque a potência de seu romance pode ser o suficiente. Ademais, a aparição constante de inúmeros personagens que, em pouco tempo, somem da história, cansa o leitor em certos momentos, o que, claro se explica pelo fato de que o livro é uma saga que se estende por quase um século inteiro. No entanto, em alguns capítulos isso faz com que a trama torne-se um tanto anticlímax, já que, assim que nos interessamos demasiadamente por um personagem ou por algo prestes a acontecer com ele, a autora sumariza tudo em poucas palavras. Concordo com Proust: ocasionalmente, os escritores esquecem que há um leitor entusiasmado pela narração de alguns episódios. Em contrapartida, há outros momentos não muito curiosos na obra que são, quase, excessivamente detalhados.

O narrador de “Pachinko” é onisciente e está a par das inúmeras perspectivas dos muitos personagens do livro, um estilo de escrita que Min Jin Lee escolheu, propositalmente, por ser seu “favorito ponto de vista para narrativas de comunidades”. Tal modo de contar histórias era o mais popular na Europa oitocentista e, portanto, é fácil lembrar de livros como “Anna Kariênina” (1877) de Liev Tolstói, por exemplo, ao ler o romance de Lee. O título do clássico russo, “Anna Kariênina”, parece insuficiente quando há tantos protagonistas e figurantes nas 800 páginas do livro e, ainda assim, todos tão bem explorados através desse narrador que, ao mesmo tempo que é distante, parece ser, em sua complexidade, os próprios personagens. Nisso, “Pachinko” poderia ser mais específico. Logo, me contradigo: possivelmente, o último é um romance que poderia, de fato, ganhar em excelência se fosse menor, mas, possivelmente, poderia ser melhor se tivesse mais páginas. 

Contudo, tais características não afetam sobremaneira a literariedade da narrativa, porque suas qualidades estão acima de suas falhas, para além de qualquer importância histórica e social que carregue. Indubitavelmente, Min Jin Lee escreve como historiadora e socióloga e a mesma o afirma. Sua frase inicial (“A história falhou conosco…”) é sua tese e o livro inteiro está cercado por tais ideias e, até mesmo, por certo senso de ativismo, conquanto não seja nenhum panfleto. Lee não esquece que está escrevendo literatura e isso é essencial na construção de qualquer bom romance, em particular, um de ficção, tal qual o seu. Portanto, o livro não merece ser lido apenas por seu caráter político, embora seja um de seus grandes atributos – “Pachinko” é sagaz e é bonito em sua composição e delicadeza, a despeito de algumas inconstâncias. Assim, esse é um best-seller digno do hype e da recepção obtida. Do mesmo modo, a história da comunidade zainichi também deveria ganhar popularidade e, ler a obra de Lee é, sem dúvidas, um bom ponto de partida para conhecê-la.

*As citações de “Pachinko” foram traduzidas da obra original (em inglês) por nós.

Leia a coluna Missa do Galo: dois contos de natal, de Thamara Amorim

O jogo da fruição estética: sobre a “Diva” de Juliana Notari

A intervenção de Notari provocou as mais diversas polêmicas e discussões nas redes sociais. Foto: Reprodução.

“On jouit, sans le critiquer, de ce qui est conventionnel ; ce qui est véritablement nouveau, on le critique avec aversion” – Walter Benjamin

Por Aluizio Câmara

A obra de Juliana Notari, intitulada “Diva”, que se constitui em uma intervenção na paisagem da Mata Sul de Pernambuco (uma Land Art), vem causando tamanha polêmica que Nathalie Heinich deveria acrescentar um posfácio no seu célebre “A Arte contemporânea exposta à rejeição”, tratando da criatividade artística ofuscada pela coletividade. Grosso modo, toda obra é menos um objeto do que um reflexo momentâneo de uma produção individual que pode, mas não precisa, estar em conformidade com o pensamento coletivo ou com a expectativa do público, como pensou Quatremère de Quincy nas chamadas “Relações Úteis” da “destinação moral da obra de arte”. A obra de Juliana representa um acúmulo de anos a fio de pesquisa e experimentações.

Para acrescentar, cito o filósofo Jean-Marie Schaeffer quando ele afirma, em livre tradução, que “a dimensão estética é uma propriedade relacional e não uma propriedade do objeto”. Portanto, para fruir a obra de arte é necessária uma mínima disposição em jogar o jogo, por assim dizer. Jogar o jogo da exposição significa fruir a obra em camadas, que iniciam pela sua representação iconográfica e se estende pela sua iconologia, que não pode prescindir do propósito da obra, da criação intencional, do que está além do que pode ser percebido através do olhar. 

Primeiro ponto sobre o sentimento de rejeição à obra de Juliana é o seu reconhecimento enquanto arte. A pergunta “isso é arte?” correu solta pelas redes sociais que, invariavelmente, se apressam em julgar e sentenciar aquilo que oferece possibilidade de desequilíbrio coletivo. Vimos todo tipo de destrato à obra “Diva”. Um tipo de rejeição categorizada por Nathalie Heinich há tempos, e que termina por questionar o papel institucional da própria Usina de Arte Santa Terezinha, porque instituições mais consolidadas conseguem dirimir a dissonância cognitiva atrelada à recepção da obra de arte não convencional, evitando que a gente volte mais de 100 anos no tempo para discutir o assunto que Robert Mutt (Marcel Duchamp) lançou com a sua obra “A fonte” em 1917, em New York. Um exemplo disso é colocar um urinol numa calçada qualquer de um centro de cidade e uma placa dizendo que se trata de uma obra de arte. Dificilmente alguém concordaria. Já o mesmo urinol em um Museu de Arte, com o título “A Fonte”, hoje é facilmente reconhecido e aceito enquanto obra pioneira e crucial de Marcel Duchamp. 

Vejo, nesse ponto, uma discussão possível e frutífera, além de uma excelente oportunidade para a Usina de Arte Santa Terezinha expressar seu propósito enquanto lugar de exposição e toda sua intensidade depositada no intuito de ressignificação cultural. Afinal, estamos falando de uma antiga usina de cana-de-açúcar, um lugar cuja arte vem paulatinamente modificando sem que a história seja abrandada.  

A obra de Juliana Notari também abre espaço para uma discussão sobre o feminismo: muita gente falando sobre as representações da mulher, que podem acontecer sem condenação, porque não se pode tentar enfraquecer a compreensão da autora acerca do tema sem que pareça uma imposição coletivista sobre a liberdade de expressão e o sentido mesmo da criação artística, do olhar idiossincrático e autoral e de um fazer caligráfico que a criação oferece ao mundo. A Arte não é uma tradução literal e impositiva, mas uma mensagem passível de interpretação, porque para que ela exista é necessário haver processo, exposição e recepção.

Diva é uma divindade, uma deusa ou uma musa inspiradora, em sua etimologia. Mas a “Diva” de Juliana não é nada disso, tampouco uma vagina propriamente dita, porque “Diva” é uma representação artística de uma vagina. Assim como o cachimbo de Magritte não é um cachimbo, como ele mesmo afirmou (Ceci n’est pas une pipe), mas uma pintura de um cachimbo, uma representação de um cachimbo. Em todo caso, mesmo que Juliana chamasse sua “Diva” de vagina, seria a proposta da artista sobre a vagina, como anteriormente propôs a obra de Christina Machado, “Impressões sobre a minha Vagina”, uma série de modelagens em cerâmica feitas utilizando como matriz a vagina da artista, uma obra auto referencial. “Diva” expressa um feminismo que emerge das considerações de Juliana sobre o tema, porque ela não representa o coletivo das mulheres e tampouco todo acúmulo do movimento feminista ao longo dos últimos 50 anos. 

Talvez o ponto nevrálgico da Land Art de Juliana Notari não esteja propriamente na sua exposição e nem na sua recepção, mas no seu processo. Primeiramente, na divulgação dos nomes nos agradecimentos da postagem da artista, possivelmente ainda mais evidenciada pelo Instagram (há uma diferença entre quem tem conta e quem não tem, quando marcamos as pessoas que citamos). Há uma repetição de práticas atualmente condenáveis porque ela nos fala sobre a diferenciação que damos ao tratamento das pessoas, no uso dos nomes com sobrenomes e os nomes e apelidos. Também importa a questão da mão de obra empregada para realização da Diva. As quarenta mãos dos homens que trabalharam sob “sol a pino”, dita de forma espontânea, pode suscitar uma indevida interpretação da exploração dos trabalhadores que confeccionaram a obra, acusada ainda de ter sido feita em tempos pandêmicos e de trazer problemas nesse sentido. 

A Diva em construção. Foto: Reprodução.

Esses aspectos podem até demonstrar certa insensibilidade, mas dificilmente seria uma práxis inata em Juliana. Seriam pontos a mais para discutirmos em uma oportunidade futura, numa conversa transdisciplinar que verse sobre antropologia e sociologia da arte. Ainda penso na série fotográfica de Lula Cardoso Ayres sobre os trabalhadores e as trabalhadoras da cana nos anos 50. Tem muito peso e muita ferida nas mãos e na história dessa turma, mas acusar a artista de fazer parte dessa exploração me parece demasiado.

Acredito que a artista, cuja trajetória acompanho com entusiasmo há anos, formulará melhor essas questões e atenuará os ataques, dando-nos a oportunidade de fruir sua obra através de considerações mais generosas, com toda a contundência que merecem os temas nela evocados. Há muitas questões levantadas nessa obra monumental que merecem discussões acaloradas, mas que sejam feitas de forma construtiva. Não podemos aceitar os ataques de ignorância e mesquinhez através de pessoas que jamais distinguiriam as possibilidades infinitas da arte. Esse ódio à arte a gente combate com MAIS ARTE. Acredito na tal “vitória, de dor maior”, de João Cabral, “de brando sobre o duro, do grão amassando a mó”.

Aluizio Câmara (@aluiziocamara) é pesquisador e artista plástico Possui licenciatura em História pela Universidade Católica de Pernambuco; Mestrado em Estética e ciências da Arte na em Sorbonne; e Diploma Especial de Museologia – Ecole du Louvre – Paris – França.

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O que se esquece ao guardar as luzes de ano novo

O que se esquece ao guardar as luzes de ano novo

Foto: Museu WEG de Ciência e Tecnologia

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre –

Carlos Drummond de Andrade

Hoje ouvi minha mãe se perguntar se já deveria retirar os piscas-piscas da sala após algum tempo já ter passado da virada de ano novo. Do meu quarto, pensei comigo mesmo que poderia deixar um pouco mais e de alguma forma ela também pensou assim. Não sei por qual motivo. Talvez pelo apego à aparente beleza que o pisca-pisca agrega à sala. Entretanto, para além da beleza de uma estrela terrestre, gosto de pensar no pisca-pisca como uma mensagem metafórica sobre o quanto a impermanência deixa as coisas mais especiais na vida.

Embora reconheça que pensar no quão as coisas mudam constantemente seja algo recorrente, principalmente em um novo ano, às vezes esqueço disso ao longo do período que passa e encaro as coisas como se fossem durar muito tempo. E então, passada a virada do ano, guardo junto com os piscas-piscas essa consciência sobre a finitude das coisas, adormeço tais reflexões e volto ao piloto automático de cada dia.

Lembro inclusive que foi a partir de tais reflexões sobre a impermanência e sobre um sentimento de urgência de viver que comecei o já velho 2020: buscando enxergar o quanto a impermanência da vida e de tudo que envolve viver é a graça da coisa; afinal seria algo de fato especial se não acabasse nunca?

Esses pensamentos pouco duraram no início do ano: se tem uma coisa que 2020 começou a ensinar desde março é que por mais transcendente que esse tipo reflexão possa parecer, a mudança não é tão bonita nem tão fácil como em um pisca-pisca. Toda a pandemia jogou na cara a impermanência da vida, do abraço, dos shows ao vivo, da reunião entre amigos. Mudanças duras, cruas e difíceis de aceitar até hoje. Quem dera todo o processo de percepção sobre mudança fosse pacífico e calmo como o acender-se e apagar-se de luzes de ano novo.

Também gosto de pensar que a noite ilumina os piscas-piscas tanto quanto, segundo Manoel de Barros, escurecer acende os vagalumes. E o quanto aquilo que é negativo pode, de alguma forma, reverter em algum tipo de crescimento. E, a partir disso, enxergar aquilo que obscurece como aquilo que acende uma outra luz. Em se tratando de pandemia, talvez isso até se dirija a parte da população, entretanto sabe-se que outra parte continuará a nadar em oceanos de ignorância.

Há outra mensagem que também podemos tirar de toda essa carga de pontos de vista positivos que embriagam um ano novo e suas luzes cintilantes: a de que cada ano é sempre um pouco como um pisca-pisca. Com seus tempos de luz e leveza, tempos de escuridão e dificuldade. Com ou sem pandemia, iremos sempre depositar naquilo que é novo, tudo o que o velho não foi; naquilo que acende, tudo o que aquilo que apaga não é capaz de nos dar; e naquilo que é 2021, tudo o que 2020 não correspondeu, como a vacina contra a Covid-19, embora para os brasileiros essa realidade ainda pareça um futuro incerto.

Entretanto, é necessário estar atento pois, muitas vezes, passada a virada de ano, guardamos as luzes e junto com elas essa noção de impermanência, de urgência de viver e da importância de renovação constante. Às vezes somos ainda mais negligentes e também colocamos próximos a elas aqueles sonhos e metas de ano novo, e os esquecemos junto com os piscas-piscas, numa caixa destinada à poeira, em cima do armário, até serem novamente abertos no próximo dezembro.

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Asas do Desejo e o teatro da vida

Trecho do filme do diretor alemão, conhecido também por obras como “Paris, Texas” e “A Lisbon Story”. Foto: Reprodução.

A câmera flutua em um som melancólico sobre uma cidade de edifícios antigos. No alto de um prédio, um homem de sobretudo escuro e grandes asas observa o tráfego de pessoas no asfalto. Crianças olham para cima e veem a silhueta daquele ser intrigante. É assim que Wim Wenders nos insere em seu mundo onírico de uma Berlim dilapidada, enferrujada e abandonada. Nessa cidade, na qual carrega no espaço urbano e na memória a herança da guerra, não existe cor – enfatizado pela fotografia em preto e branco, nem sequer uma flor ou um pedaço de grama; mas existe uma grande carga de desilusão e solidão nos quais a paz insiste em trazer consigo.

Sobre o céu desse lugar marcado pelo trivial pairam anjos. Esses seres atemporais caminham sobre a terra – invisíveis, em outra frequência –  desde o início de tudo, observam e ouvem os pensamentos dos humanos como se fossem uma espécie de estações de rádio sintonizadas ao mesmo tempo. Ouvir e observar as histórias daquelas vidas parece ser a função de suas existências. Porém, não são observadores frios e distantes, como cientistas analisando suas cobaias. Não, estão mais para espectadores que amam aquilo que veem, chegam até trocar anotações do que presenciaram, como cinéfilos apaixonados após assistirem a bons filmes. 

Em “Asas do Desejo”, quase tudo parece girar em torno da simpatia. Sim, simpatia e não empatia. Os anjos apenas podem sentir pelos humanos, sendo assim incapacitados de se sentir como eles. Nunca experienciaram a sensação de um toque, de um sabor ou até mesmo de ver uma cor. Nesse sentido, a eternidade desses seres é marcada pela distância abismal daqueles a quem acompanham a todo instante. Assistindo de forma passiva, desde o princípio, a tudo o que se passa naquela tribo de sofridos e primitivos mortais, esses anjos voyeurs tornaram-se essencialmente humanistas. O máximo que conseguem influenciar na realidade é com um singelo toque de esperança detentor do poder de acalentar os desesperados. Embora seja eficaz em alguns momentos, esse toque não é imperativo, como comprova o homem que o recebeu, mas mesmo assim se atirou de um prédio, causando uma grande dor no anjo Cassiel.

Apesar de presenciar toda a dor, dúvidas e traumas da realidade, o anjo Damien nutre a vontade de viver. Mesmo faltando nele as sensações concretas da vida, mesmo sendo um ser onírico e atemporal que o faz inumano, o desejo e admiração de Damion pelo prosaico faz com que seja difícil chamá-lo de outra coisa a não ser humano. 

Mas o que faria um anjo, um ser atemporal, dar o salto de coragem e se tornar mortal? A resposta não seria outra senão o desejo pelo sexo oposto. Quando Damion vê pela primeira vez a trapezista Marion, seu amor pelo secular é canalizado em apenas um ser. Ao assistir encantado aquela mulher angelical flutuar em seu trapézio, pela primeira vez, o filme tem um vislumbre do colorido.

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Desejo, vida e morte são alguns dos ingredientes que movem a trama de Asas do Desejo. Foto: Reprodução.

Ela entra em seu trailer e se despe; Damian tenta tocá-la, mas sua expressão é de frustração. O voyeur por excelência, melancólico por sua função de ver. As curvas que trazem cor e beleza à vida: inalcançáveis, mesmo estando a centímetros de distância. 

Movido pelo intenso desejo, Damian se integra à realidade por completo. O colorido agora se transforma no protagonista da tela. Muda-se o fio narrativo do observador. O anjo voyeur, que já era demasiado humano, tornou-se agora um exibicionista, um personagem do teatro que sempre fora espectador.

Damian abandonou o que não podia mais suportar. O amor pela mulher o fez compreender que o imperativo era agora. Saiu de seu lugar elevado rumo ao mundano. Largou o privilégio de espectador da história em prol do reino dos sentidos.

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Os Amantes da Ponte-Neuf e a inocência dos sentidos, por Thiago Muniz

Missa do Galo: dois contos de natal


Na foto, Machado de Assis, autor de Dom Casmurro e outras obras. Ao lado, a contista e romancista Lygia Fagundes Telles, autora de As meninas. Foto: Divulgação.

Na noite de natal, enquanto o marido está com a amante, Conceição, em seu roupão branco, vai até a sala, onde encontra o agregado, Nogueira, a ler, muito entretido, “Os três mosqueteiros”, esperando para ir com o vizinho à missa natalina na corte.  Em intimidade secretiva, os dois iniciam uma conversa que o jovem, mais tarde, dirá jamais ter entendido, embora, para a maioria de nós, pareça inteiramente explícita em sua sensualidade inadequada: um milagre de natal erótico e, conquanto, quase imaginário. Este é o enredo do conto, talvez, mais célebre de Machado de Assis, “Missa do Galo” (1893). Um texto de clímax aparentemente inerte, embora nada infrutífero. 

Escrever um conto não é um exercício simples, “apesar da aparente facilidade”. Assim pensava o próprio Machado, mais conhecido por seu romances, sem que tivesse deixado de escrever duzentas narrativas menores, grande parte delas de valor excepcional, tal qual o resto de sua obra: não é novidade para ninguém que o autor tenha sido um dos maiores escritores da literatura brasileira, no seu tempo, com certeza o maior. Há quem diga, inclusive, como o fez a crítica Lúcia Miguel Pereira, que Machado de Assis tenha se saído melhor nos contos que nos romances e poesias. De qualquer forma, o certo é que “Missa do Galo” é uma pequena obra-prima, e as reverberações de suas poucas páginas são evidências bastante convincentes disso.

Em 1977, o escritor pernambucano Osman Lins reuniu uma série de autores dispostos a reescreverem o conto machadiano, num livro que foi intitulado “Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema”. No prefácio, ele diz que o objetivo era uma homenagem a Machado e “através dele, à arte da ficção”, ainda que não seja sem certo receio que se mexe num texto de tamanho porte. Na coletânea, o próprio Osman Lins e outros contistas, tais quais, Antonio Callado, Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles, apropriam-se de perspectivas diferentes para recontar os eventos daquela véspera de natal. Um parte da personagem de Conceição, outro de Nogueira, outro do marido, Menezes, mas somente o de Lygia está fora e, ao mesmo tempo, inteiramente dentro da narrativa. Sobre isso, Lins coloca no prefácio que, em sua reescritura, a autora está “manipulando um ‘eu’ onisciente”, enquanto busca apoderar-se do conto, “luta por modificá-lo e vê que tal tentativa é vã”.

Escolho, então, a adaptação de Lygia Fagundes Telles para pôr em destaque junto à de Machado, não só pela importância tremenda da autora, mas porque no momento que a li, senti-me em sincronia substancial com seu narrador impotente a espreitar a sala de estar de Conceição. No conto de Lygia, quem narra não é nenhum dos personagens envolvidos na trama, não está sequer dentro da casa, espia pela janela, com a luz de um lampião e, contudo, sabe demasiadamente o que se passa na cabeça de todos os envolvidos, apesar de contradizer suas certezas continuamente. Inquieta-se com o desenrolar (ou não) das coisas, sempre clamando para que, enfim, algo aconteça, tendo em mãos apenas conjecturas: “Queria ser exata e só encontro imprecisão, mas sei que tudo deve ser feito assim mesmo, dentro das regras embutidas do jogo”. É um jogo que nós, leitores, jogamos a todo momento. Por isso, o personagem de Lygia é quase um inseto, um fantasma, um ser presente que, aparentemente, não interfere na narrativa, mas que, ao mesmo tempo, assemelha-se à imagem do leitor em contato com o conto machadiano. Também nós encontramos os protagonistas já escritos, a situação pulsante em sua nulidade e, também nós nos sentimos impotentes diante dela, muito embora, a manipulamos o tempo inteiro. 

No livro “A personagem de ficção”, o crítico Anatol Rosenfeld afirma que a literatura, apesar de suas muitas camadas, só tem de sensivelmente real, os tipos impressos em suas páginas, e, portanto, tudo que se afigura concreto, a partir da escrita do autor e, claro, da nossa própria leitura, não é tão certo assim. Logo, é com frustração que o “leitor” de Lygia encara a conversação entre Nogueira e Conceição:  “Quero entender por que ele não entende o que me parece transparente mas não estou tão segura assim dessa transparência, ah, se ao menos acontecesse alguma coisa meu Deus!” Essa “coisa”, sempre prestes a acontecer, mas que nunca, de fato, ocorre, se insinua, principalmente, através da sensibilidade de Machado de descrever o nada através de todos os objetos simbólicos da narrativa. Um dos que mais me chama atenção, entre todos eles, é o roupão de Conceição. 

É fundamental compreender que não era conveniente, no século XIX, que uma mulher, casada ou não, estivesse na companhia de um jovem solteiro em trajes de dormir, como faz Conceição, com desenvoltura impressionante. Esse detalhe não aparenta passar despercebido por Nogueira, pois que, de imediato à chegada da moça, lemos: “Vestia um roupão branco, mal-apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica”. Mais tarde, o roupão continua a aparecer, um tanto personagem por si próprio. A propósito, não é a primeira vez que um roupão se faz tão relevante na narrativa de Machado, em “A mão e a luva” (1874), o roupão de Guiomar chega a nomear um capítulo. Bem como em “Missa do Galo”, Guiomar conversa secretamente com um homem, usando a mesma vestimenta. No capítulo do romance em que a cena está, o autor descreve a roupa da personagem em seus mínimos detalhes, o que não acontece no conto, sem que, entretanto, a peça não se faça essencial no texto: Guiomar, em seu roupão, é tão “dissimulada” quanto Capitu em seu vestido de chita e, assim, também apresenta-se Conceição, pelo menos naquela noite.  

O Nogueira de Lygia, no entanto, faz mais evidente sua atração pela imagem noturna da personagem feminina: “Toda a fragilidade na cintura, ele adivinha nas reticências do roupão amplo, confuso, tantos panos, pregas. Bonito babado (aquilo não é um babado) que lhe contorna o pescoço e vai descendo, que curiosas essas roupas de alcova, ele pensa e sorri, fascinado”. Em outras passagens, é o narrador que nota esse detalhe: “Deixou travesseiro e quarto numa disponibilidade sem espartilho, livre o corpo dentro do roupão que arrepanhou sem muito empenho para que a barra não arrastasse, a outra mão fechando a cintura, ah, essas roupas para os interiores!”, e ainda: “Dirá que dormia, acordou há pouco e então veio sem muita certeza de encontrá-lo. Mas sabemos que nem se deitou na larga cama com coberta de crochê, por que mentiu? Para justificar o roupão indiscreto (acordei e vim)”. Segundo Lygia, “sabemos” que a roupa de Conceição pode ser uma evidência de suas intenções menos castas do que seriam durante o dia, em seus vestidos cotidianos, conformada com sua condição direita

Isto posto, é sensato concordar com Roland Barthes: “Pode-se esperar do vestuário que ele constitua um excelente objeto poético”. E, contudo, o ápice do fascínio de Nogueira, talvez, tenha sido a vista dos braços nus de Conceição, outro tema comum na literatura machadiana. Em “Dom Casmurro” (1899), os braços de Capitu têm um capítulo particular e outro de seus contos retrata o magnetismo dessas partes, hoje, pouquíssimo interessantes em tal aspecto. Mas, na sala de estar do escrivão, com as mangas do roupão abertas, os braços de Conceição, que insinuam-se naturalmente na posição em que está (com o rosto sobre as mãos), são responsáveis por uma impressão grande no  jovem, ainda que não tenha sido a primeira vez que os tenha visto. Esse momento sugere certa indiscrição da personagem feminina. No romance mais famoso do escritor, Bentinho tortura-se com a cena imaginária dos braços de Capitu, à mostra no seu vestido de baile,  em contato com o casaco de outros homens, ao que, mais tarde, condena a personagem a usar apenas vestidos de manga. Os braços de Capitu são simbólicos na ideia de traição que se torna obsessão para Bentinho. Não dissonante, os de Conceição, são, igualmente, significativos na interação inadequada entre ela e Nogueira.

É imprescindível, também, que se faça noite durante o conto, tanto para que Conceição, mais de dez anos mais velha que Nogueira, deixe sua austeridade de mulher casada, quanto para que o jovem deixe de vê-la como “apenas simpática”. Primeiramente, o roupão só seria possível muito tarde ou muito cedo, mas a conversa íntima e clandestina só poderia se dar sob a permissão do sono e da ausência dos outros. Não seria igualmente necessário que fosse escuro para que Conceição se sentisse à vontade com a ideia daquele encontro? O Nogueira de Lygia esclarece: “A frouxidão da conversa, por que durante o dia as conversas não são assim frouxas? Ainda de dia ela parece tão objetiva, eficiente e agora essa inconsistência. Efêmera nas frases, nas ideias. E eterna na essência como a noite”. Já o de Machado admite que a impressão que teve dela no momento é que de insípida “ficou linda, ficou lindíssima.” No fim, descobrimos que Conceição não era a mesma que fora naquela espera pela missa: “Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera”. Quem sabe, era o contrário?

Mas por que seria essa uma história, de certa forma, natalina? Em uma leitura apressada, o fato de ser natal pode passar despercebido ao leitor, pois que, o conto de Machado não é nenhum texto dickensiano e, logo, o cenário da festividade é menos categórico na narrativa, sem, claro, perder relevância nela: não é a toa que seu título seja “Missa do Galo”, celebração católica que acontece, tradicionalmente, à meia-noite do dia 25 de dezembro. Se não fosse pela missa, Nogueira, presumivelmente, estaria, como o resto da casa, dormindo. Em consequência, sua espera pelo vizinho na sala possibilita a conversa entre ele e Conceição. Contudo, que esta estivesse acordada também pode ter haver com a data. 

O conto se passa entre 1861 e 1862, cerca de quarenta anos depois da Independência do Brasil, durante o império de D. Pedro II. Nesse período, em território nacional, não se comemorava o natal como hoje fazemos ou, pelo menos, antes da pandemia. Isto é, não era incomum que a maioria das pessoas fossem à missa e, os que não quisessem, escolhessem dormir sem maiores compromissos com amigo secreto ou peru. O feriado era mais religioso que festivo e, assim, faz sentido que Conceição se ressentisse da falta de tato do marido em visitar a amante naquela noite. Na reescritura de Lygia, a autora, apropriando-se de uma personagem ausente no conto de Machado, a mãe de Conceição, faz evidente o imoralismo de Menezes: “Que procure suas distrações fora do lar, muito natural, (…) mas isso de não respeitar nem a noite de natal!”. Desse modo, Conceição que “resignara-se” e “acostumara-se” com o adultério, pode ter sentido uma inquietação capaz de tirá-la de seu quarto, em horas e trajes inapropriados, afim de entabular uma interação com o agregado pouco inocente para um data tão religiosa, bem como o próprio marido. Tamanha atmosfera de erotismo, ainda que sutil, em um dia sagrado, é um paradoxo próprio da ambiguidade moral presente na maioria das obras de Machado, bem como, é uma característica fundamental da literatura lygiana.

Com efeito, o profano e o sagrado se misturam algumas vezes no conto. Em dado momento, Conceição queixa-se dos quadros na parede, ao que Nogueira diz serem retratos do “principal negócio” de seu marido – mulheres. Ela argumenta que sejam velhos e manchados, além de achá-los indecorosos: “eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.” O paralelo com o nome da personagem é instantâneo: ela se chama Conceição, tal qual um dos títulos da Virgem Maria, a “Imaculada”. Similarmente, ela é, com frequência, conhecida como “santa”, a “boa Conceição!”. Porém, a situação em que se encontra pouco tem haver com tais denominações.

Portanto, ao mesmo tempo que pode ter se ofendido com o descaramento do marido em não ficar em casa nem no natal, de maneira similar, ela flerta com Nogueira. E, entretanto, nada acontece. À vista disso, o narrador de Lygia diz que esperar que as coisas se dessem mais satisfatoriamente entre os dois, seria equivalente a desejar um milagre. Mas não seria, de alguma maneira, milagroso, que aquela senhora, tão resignada aos abusos do marido e à sua própria condição, tenha tido coragem para deixar seu quarto naquela noite? Assim, a consumação de qualquer sensualidade furtiva não se faz tão necessária à subversividade da personagem, porque já é muito que tenha sequer se rebelado contra a própria solidão, condição comum à grande parte das mulheres de seu tempo, sem que nunca tenha sido escusável qualquer revolta da parte delas.

Desnecessário dizer que o narrador é pouco confiável. O próprio o admite ao afirmar que suas impressões da noite lhe surgem “truncadas  ou confusas”: “Contradigo-me, atrapalho-me”. Em consequência, os acontecimentos não nos são dados de maneira exata, visto que são contados muitos anos depois por um personagem que diz serem estes confusos e pouco compreensíveis – outra causa de desconfiança, tamanha ingenuidade diante de uma conversa que é escrita pelo mesmo de maneira bastante sugestiva. O “eu” de Lygia se questiona: “Não entendo – o jovem dirá quando lembrar o encontro e a conversa com a senhora que vai aparecer daqui a pouco, não entende?” Se o conto parece, para a maioria dos leitores, absolutamente sensual, por que seu narrador apresenta-se tão simplório, embora ele tenha total parte no desenrolar da reunião? Mais um dos mistérios do texto, esse personagem tão “nítido”, mas tão “distante”.

Logo, é a inocência de Nogueira que mais nos perturba, já que se, possivelmente, tivesse tomado qualquer iniciativa, o conto deixaria sua estagnação. Diante disso, o narrador lygiano revolta-se: “E os dois de mãos abanando, fala mais baixo! ela suplica. E o grande relógio empurrando seus ponteiros, quando ambos se juntarem, estarão se separando, ela no quarto, ele na igreja – tão rápido tudo, mais uns minutos e o vizinho virá bater na janela, vamos? Perdidos um para o outro, nunca mais aquela sala, naquela noite, vocês sabem que dentro de alguns minutos será o nunca mais?” Todavia, Nogueira é jovem demais e Conceição cautelosa demais – o que, de fato, poderia ter acontecido? Pelo contrário, é esse “nunca mais” que se faz tão fascinante no conto machadiano, nada dependente de um clímax absurdo: Machado, tal como Lygia, era tão grande contista quanto Tchekhov ou Katherine Mansfield e, assim, seus textos não precisavam de excessos. Portanto, o leitor pode apagar a luz do lampião tranquilamente, sem que tenha presenciado um espetáculo histriônico, mas, com certeza, tendo espiado um episódio de uma sutileza e vigor somente possível para os mestres.

Os últimos leitores

Jorge Luis Borges no seu apartamento em 1981. Foto: AP/Eduardo Di Baia.

Por Elcias Moreira Nunes Júnior

De fato, é preocupante um país em que 30% da população nunca comprou um livro e 44% jamais leu um ao longo de sua vida. Esta informação foi repassada na 4ª edição da pesquisa “Retratos  da Leitura” (reunida em livro lançado na Bienal de São Paulo em 2016 pela Editora Sextante), encomendada pelo Instituto Pró Livro, coletada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), entidade mantida pelo Sindicato  Nacional dos Editores de Livros (Snel), Câmara Brasileira do  Livro (CBL) e Associação Brasileira de Editores de Livros  Escolares (Abrelivros). 

Foram ouvidas 5.012 pessoas, dentre as quais alfabetizadas e não alfabetizadas. Conforme o Ibope, os dados coletados representam 93% da população brasileira. 

Neste cenário, nada positivo, considero que o livro “O último leitor” do  escritor argentino Ricardo Píglia (Companhia das Letras 2006) seria uma excelente opção para leitura; tanto ao leitor iniciante quanto ao experiente, pois trata-se da história da leitura no mundo ocidental.

Para o primeiro tipo de leitor a importância de  lê-lo seria pelo fato de apresentar os grandes livros, autores e  personagens da literatura universal, já para o segundo tipo de  leitor seria revisitar os clássicos através da perspectiva de um  leitor como foi o ensaísta argentino, falecido aos 75 anos em  Buenos Aires. 

O livro é composto por seis ensaios, cujo objetivo principal reside na descrição de leitores reais e imaginários, ou seja, estes últimos seriam personagens de livros numa abordagem metalinguística. “O que é um leitor?”, questionamento lançado e ao mesmo tempo respondido: o leitor ideal seria o escritor Jorge Luis Borges, um apaixonado pela leitura, cuja visão ficou  comprometida de tanto ler. 

No segundo ensaio, “Uma narrativa sobre Kafka”, é retratada a correspondência por cartas do escritor austríaco, em uma faceta pouco conhecida do público, com Felice Bauer, sua mais obstinada  leitora e sua suposta amante platônica. 

“Leitores imaginários”, uma homenagem aos mestres da literatura policial: Conan Doyle, Raymond Chandler, Fiódor Dostoiévski e Edgar Allan Poe — considerado por muitos o pai do gênero policial — cujo  personagem o detetive Auguste Dupin, que surge no livro Os Assassinatos da Rua Morgue, leitor contumaz, é o foco principal deste ensaio. 

O guerrilheiro, médico e escritor argentino Ernesto Che Guevara é homenageado em “Rastro de leituras”, um conjunto de relatos sobre seu comportamento como leitor assíduo e focado, de  acordo com relatos oficiais e registros fotográficos, pois lia em  meio às guerrilhas de Cuba, Congo e Venezuela com uma  tranquilidade assustadora. 

Anna Karenina, personagem criada  pelo escritor russo Liev Tolstói, é descrita no livro com o mesmo título, lendo um romance inglês dentro de um vagão de trem,  recebendo a análise arguta de Píglia. 

No último ensaio, “De que é feito o Ulisses?”, constrói-se uma análise acerca da estrutura do livro “Ulisses”, de James Joyce, cuja construção teve como modelo “A Odisseia” de Homero, pois alguns elementos na narrativa ficam sem referências no contexto, motivos estes que tornam diversas partes do livro indecifráveis. 

Que não sejamos os últimos leitores, mas que sejamos sim  leitores constantes; leitores com propósitos e referências de bons  leitores, sejam estes reais ou irreais, ficcionais ou históricos. 

A leitura da literatura universal, ainda nos dias atuais, é uma das ferramentas essenciais para a compreensão das transformações sofridas pelo homem ao longo da história. Através da literatura transpomos os limites do tempo e do espaço. 

Ou ainda, pelas palavras de  Borges, “o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, então que tenhamos memória para o esquecimento, que tenhamos  imaginação para criarmos um mundo melhor.

Elcias Moreira Nunes Júnior é escritor e jornalista manaura. É criador do Selo Editorial Temporal que surgiu da sua experiência para resolver um grande problema: encontrar uma editora para publicar os seus livros com a qualidade desejada. Publicou seu segundo livro “Crônicas em papel de pão” (2017) pelo próprio selo. Seu título mais recente, “As horas tristes” (2019), foi publicado pela Editora Penalux.

Um crítico nunca é apenas um crítico

Ailton Krenak é um dos mais proeminentes críticos, filósofos e escritores brasileiros. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Por Daniel Prestes da Silva

Desde a perda de espaço da crítica literária nos principais e mais importantes impressos periódicos, nas décadas finais do século XX no Brasil, tem-se a ideia de que ela perdeu, junto com este espaço, a influência e o poder diretivo na produção literária e na formação do gosto dos leitores e na consagração de autores. Essa impressão torna-se ainda mais aguda não só por essa retirada da crítica da vida literária cotidiana nos periódicos, mas com as possibilidades que a internet deu aos leitores de poderem estabelecer novas formas de compartilhar seus gostos literários, por meio de plataformas para blogs, fotos e vídeos, sem a necessidade de ter na figura do crítico literário o mediador e divulgador da matéria literária. Contudo, ainda que esses fatores deem essa aparência, consideramo-la equivocada.

E por que consideramos isso?

Embora o espaço do jornal tenha sido o grande espaço para os críticos literários, eles não atuavam apenas nele e suas ideias, postas em prática nos textos que produziam para as revistas e jornais, também circulavam de outras maneiras, e em outros suportes.

Por exemplo, no início da atividade crítica no Brasil no século XIX, os críticos literários, além de julgarem e avaliarem nos periódicos as obras publicadas, eram também escritores de prosa de ficção em nosso nascente mercado editorial, mas não só. Eles participavam da vida pública por meio da atuação política e do sistema formal de ensino. Neste último, é preciso ainda destacar que, enquanto professores, além de ensinar os preceitos de avaliação e de composição do que consideravam Literatura nos cursos de bacharelado existentes à época, como o do Colégio Dom Pedro II, produziam para esses cursos coletâneas de textos e manuais de ensino de Literatura. Ou seja, a influência e o poder de alcance dos críticos e da crítica literária ultrapassavam a atividade e a materialidade dos textos impressos publicados nos periódicos, porque as ideias sobre as formas de escrever e avaliar as obras circulavam em vários suportes.

A situação não se modifica com a virada do século. No século XX, surgem os primeiros cursos de graduação e de pós-graduação em Letras que formarão um conjunto de críticos literários com uma base crítica que se pretende científica, pautada em noções e normas teóricas de análise e avaliação dos textos literários. Eles disputarão o espaço da imprensa periódica impressa com aqueles que não frequentaram os bancos acadêmicos dos cursos de Letras. A princípio se pensará que eles venceram a disputa, mas mudanças de diversas ordens fazem com que o próprio impresso perca espaço na vida das pessoas, o que os levou a “perder” esse lugar de atuação. Contudo, eles não pararam de atuar aqui e ali, com contribuições nesses periódicos, bem como em outros voltados ao meio literário, portanto mais especializados. Também passaram a se dedicar ainda mais no processo de cientificização e teorização da Literatura, editando e escrevendo para revistas acadêmicas dedicadas ao tema. Em suma, periódicos e textos especializados que servem como suporte para o ensino de e sobre Literatura nos cursos universitários e que também circulam em formato livro e em edições de obras literárias com paratextos críticos e explicativos.

Não obstante, enquanto professores universitários, eles também formavam/formam os profissionais que atuariam/atuam no ensino básico, o que faz com que as teorias, conceitos e concepções sobre Literatura, que norteiam o trabalho da crítica literária, tornem-se um conhecimento com maior divulgação. Ainda no que se refere ao ensino, ainda que eles não tenham poder de decisão, colaboram com a elaboração de políticas de promoção do livro e da leitura. Numa perspectiva mais ampla do mercado editorial, eles organizam coletâneas, são escritores de ficção, atuam como editores de casas editoriais, fazem curadoria de eventos e são juízes de prêmios literários. Trabalhos esses que fazem circular as ferramentas que o crítico lança mão no momento de fazer o seu principal ofício: avaliar e julgar autores e obras. Este trabalho, inclusive, desdobra-se atualmente na formação de novos escritores, com os diversos cursos de escrita criativa por eles ministrados.

São alguns exemplos dessa atuação diversa, Natália Borges Polesso, escritora, doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS e tradutora; Socorro Acioli, professora universitária ministrando cursos voltados para escrita ficcional e escritora; Milton Hatoum, escritor que foi durante muitos anos professor universitário; e Cristhiano Aguiar, escritor, professor e pesquisador de Literatura, que contribui com textos críticos em diversos periódicos literários.

Todas essas atuações em diversos espaços do campo literário encontram-se no ponto de concepção do que é Literatura, do que faz um texto ser isso. Ainda que pensemos que não, obras que discutem e dão voz a identidades antes invisibilizadas, como mulheres, pessoas não-brancas e LGBTQIA+ passam também pela atuação da crítica. Isso porque essas discussões estão sendo debatidas e teorizadas, até mesmo ensinadas, não só nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras, mas em outros cursos de áreas afins.

Esses trabalhos estão em uma esfera do campo literário macro. Numa perspectiva micro, elas ajudam a compor o gosto literário, por muitas vezes se dedicarem a obras e autores que consideram bons, fazendo com que eles se tornem lidos e, por conseguinte, mais conhecidos de um público mais amplo. Forma-se assim a concepção sobre boas obras e fornece aos leitores comuns ferramentas de análise e exemplos de obras bem escritas, chanceladas por editores de casas editoriais, por prêmios literários e outros leitores que compartilham entre si as impressões que têm do que leem, como ocorre em blogs, canais literários do YouTube ou perfis que falam sobre Literatura no Instagram, por exemplo.

Assim, entendemos que o trabalho do crítico acaba se diluindo como um rizoma, como capilares, em uma espécie de microfísica do poder no campo literário, porque não consideramos a atuação desse agente literário como somente a produção de textos analíticos e avaliadores de obras literárias, mas como todas as outras formas nos quais esse pensamento analítico e julgador adquirem em diversos espaços em que o crítico atua. Maneira de estar presente no meio literário que não é prerrogativa dos nossos tempos, mas que se torna mais aguda no momento em que vivemos, em que há uma diversidade que exige sermos sujeitos multitarefa; que diferentemente de esfacelar, pulverizar a influência da crítica literária, a propaga como se fosse uma erva daninha, ou como se diz atualmente, viraliza. Deste modo, poderíamos considerar a crítica como uma espécie de Matrix, na qual até mesmo as tentativas de fuga e esfacelamento do poder são programações de script do próprio sistema, a fim de manter a estrutura operante de maneira adequada.

Daniel Prestes da Silva é Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA) e Professor de Língua Portuguesa da Rede Estadual de Ensino do Pará (SEDUC-PA). Também edita o jornal literário independente, colaborativo e gratuito Jamburana – tremor literário; faz comentários sobre livros no Danvorador de Livros. Instagram: @danprestess / @jornaljamburana / @danvoradordelivros

Ecos da Live

Imagem “live”. Foto: Boomerang Music

Normalmente, ao chegar o fim de ano, é comum esse sentimento de que o tempo passou rápido demais, de que a gente piscou e já se passou outro ano. Entretanto, essa sensação parece um pouco mais forte neste 2020. Pisquei em março – que às vezes me parece outra era e de certa forma o é – e abri o olho em dezembro deste ano. De fato, um ano histórico, não no melhor sentido da palavra devido à pandemia da covid-19 e todas as suas consequências. E, no que tange ao meio artístico e musical, uma das principais entre as diversas consequências que, sem dúvidas, também marcam o ano e toda essa área, é a popularização da live.

Sob a recomendação de evitar aglomerações para conter o contágio da doença, shows foram suspensos ou cancelados e a live foi explorada não só enquanto um paliativo do show ao vivo, mas também enquanto uma forma de manter ativa a relação entre artista e público. O apoio deste último foi ainda mais importante na manutenção dos trabalhos de artistas independentes. 

Mas de todo esse contexto já estamos carecas de saber e cansados de viver. Contudo, cabe a pergunta de quais são as possíveis consequências dessa popularização das lives na relação entre artista e público e no modo de usufruir a música que tanto marcou este ano.

O artista sem filtros

Como defendia o teórico da comunicação Marshall McLuhan, os meios de comunicação não são apenas trucagens mecânicas, mas sim novas linguagens com possibilidades inéditas de expressão através das quais nos relacionamos. E assim também funcionam as lives.

Diferentemente das transmissões de shows geralmente feitas por TVs ao vivo, acompanhadas de uma superprodução e técnica em palcos, as lives ficaram marcadas pela ideia de intimidade e proximidade com o artista. No Instagram ou no YouTube, muitas lives realizadas nesse período foram transmitidas no próprio perfil ou canal do artista, dentro de sua casa, e acompanhados por poucos instrumentos, ou até por apenas um violão.

Além disso, as lives em redes sociais possibilitam uma interação virtual em tempo real, seja através de chats abertos ou até mesmo via áudio, no caso de shows exclusivos em plataformas como a Zoom.

Inclusive, um interessante exemplo do uso da Zoom enquanto espaço de show virtual é o projeto Ágora Sonora”, criado pela produtora cultural Twilla Barbosa. Esse projeto funciona como uma casa virtual de lives na qual diversos artistas, em sua maioria pernambucanos, se apresentam para ouvintes limitados através da plataforma zoom (a partir de novembro o projeto começou a apresentar as lives em site próprio). Assim, os ouvintes, que pagam uma taxa de em média R$ 20,00 por pessoa, podem assistir a um show exclusivo e intimista, e, entre as canções, interagem e conversam com o artista.

Outro exemplo de exploração desse caráter intimista, pessoal e interativo em tempo real das lives na relação entre público, música e artista foi a utilização da plataforma Twitch pelo artista Marcelo D2. Diferentemente da Zoom, que funciona como uma vídeo chamada na qual todos os participantes compartilham vídeo e áudio, a Twitch é uma plataforma de streaming de lives transmitidas a partir de um canal, que segue uma lógica similar ao Youtube e que também permite aos inscritos a interação com tempo real através de um chat. O site, no ar desde 2011, possibilita que determinadas lives sejam acessadas somente a um público assinante do canal, ou seja, um público que paga determinada taxa por mês para ter acesso a um conteúdo exclusivo.

O caso de Marcelo D2 é inovador uma vez que disponibilizou ao público assinante de seu canal lives durante todo o processo de produção do seu álbum “Assim tocam os meus tambores” (2020), lançado no mês de setembro. E, com a interação em tempo real, o público assinante comentava e até opinava, em contato direto com D2, sobre questões vinculadas à letras de músicas, por exemplo. Com essa alternativa, o artista possibilitou uma maior interação, engajamento e uma alternativa fonte de renda à medida que entregou um conteúdo e oportunidade exclusiva aos assinantes interessados não somente em ter acesso à produção, mas até mesmo participar desse processo.

Além desses exemplos, o que dizer também sobre a live de Ivete Sangalo cantando de roupão em sua sala para rede nacional enquanto seu esposo lavava louça? Ou então sobre um show à la Ofertório de Caetano Veloso e seus filhos na frente de sua estante repleta de simbologias culturais? Ou ainda as lives cotidianas, pessoais e repleta de ilustres convidados da cantora Tereza Cristina?!

Era da intimidade?

Esse modelo mais intimista de se relacionar com um artista e com a música que este produz tem conquistado ainda mais o público consumidor de música. Isso se dá de tal forma que, segundo uma pesquisa independente realizada pela startup Flow Creative Core entre junho e agosto deste ano, 40% das 613 pessoas brasileiras entrevistadas, com idades entre 18 e 35 anos, concordam completamente com a afirmação “prefiro ver shows em formato mais intimista com artistas mais próximos do público e para poucos convidados.”.

Como também defende McLuhan, os meios tecnológicos não são meros mediadores de uma mensagem, mas são eles a própria mensagem e geram mudanças em determinado contexto social. Assim, a live, enquanto meio técnico de comunicação, também não funcionaria apenas enquanto uma mediadora na relação entre artista-público-música, mas sua própria usabilidade permite uma nova forma de expressão e interação que também tende a modificar (e tem modificado, com base nos dados da pesquisa citada) essa relação.

Dessa forma, esse aprofundamento da intimidade na relação artista-público se torna um interessante efeito da popularização deste forma alternativa de fazer shows que, mesmo já não tão popular como em outro momento deste ano, ainda terá seus efeitos ecoando pelo cenário musical brasileiro. Entretanto, ainda cabe perguntar: a live foi uma medida passageira ou ainda nos acompanhará no pós-pandemia? E além da valorização da intimidade, que outras consequências acompanham em coro esse eco da live?

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