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Pietá por Carrascoza


João Anzanello Carrascoza, autor brasileiro de livros como Trilogia do adeus e Caderno de um ausente. Foto: Divulgação.

A virgem segura seu filho morto no colo. O homem, que parece velho demais para ser filho de tal mãe, mesmo inconscientemente, está deitado com alguma graciosidade no ventre conhecido: esta não é a primeira vez que está entre os braços de Maria, mas é certamente a última. Maria, entretanto, também carrega um ar de leveza um tanto contraditório ao momento — o que há de mais popular que crer ser a pior tragédia de uma mãe a perda de seu filho? A (mais conhecida) Pietá, escultura de Michelangelo feita em 1499, é um dos maiores símbolos da mitologia cristã, a materialização artística do sofrimento de Maria, também conhecida, dentre outros títulos, como “Nossa Senhora das Dores”, “das Lágrimas”, “do Pranto”, “das Angústias”… Contudo, no último livro de João Anzanello Carrascoza, “Conto para uma só voz” (2020), a imagem do sofrimento pela morte de um filho é a do pai.

Não é a musa de Homero

quem aqui canta, 

nem estamos nel mezzo del camin

como Dante,

tampouco vão zarpar dessas palavras

as naus lusíadas que Camões pôs a velejar.

Aqui quem canta é a dor 

(e o espanto) de um homem.

O trecho acima abre a história, pouco extraordinária, de um pai que perdeu o filho. Conforme expresso no início de seu texto, Carrascoza escreve sobre um homem comum que, correntemente nesta vida, encontra-se com a morte. Conquanto, não há conformidade possível em perder um filho tão novo e, com “espanto”, o protagonista, que sequer tem nome, bem como os outros personagens do livro, não consegue formular uma continuação para sua vida, ainda que os ruídos do mundo e o nascer do sol tenham sido os mesmos diante de sua tão ordinária ruptura. Embora não seja Dante ou Homero, os versos de Carrascoza refletem com muita beleza a história desse homem simples, que nada tem de épico como os clássicos que o autor cita, sem deixar de ser também lírico. Porém, apesar do trecho acima, não se deixe enganar pela estrutura poética; há muita poesia no livro, mas é, com efeito, um conto em versos.

Publicada pela nova — e interessantíssima! — editora Nós, a obra pode soar semelhante à um dos romances impressos pela mesma editora anteriormente, “O peso do pássaro morto” (2007), estreia de Aline Bei, também escrito em formato similar. Todavia, o livro de Bei narra as diversas perdas da vida inteira de uma mulher, enquanto o conto de Carrascoza é mais pontual: sublinha a manhã do dia posterior à morte do filho do protagonista (a perda fatal!), mesclada à algumas evocações de memórias extremamente ordinárias e, por isso, emocionantes — a madeleine de Proust (citada, a propósito, no fim do capítulo 2) tem sua influência comovente no livro. Pai e filho no parque, na festa junina, assistindo à um programa de televisão… São essas as cotidianas recordações que se fazem cenários na poesia do autor: O fato que se deu entre os dois / começa numa manhã de domingo, / é tão singelo, / que ninguém — ou quase  — /  escolheria para revivê-lo / com a seiva das palavras. / (…) metade dos leitores fecham o livro nessa parte”. Acredito, entretanto, que o leitor não o fecha, porque há visível graça em tamanha simplicidade.

Pietà, de Michelagelo Buanorroti, data de 1499. Foto: Divulgação/Vaticano

Pensei bastante, enquanto lia Carrascoza, em um dos mais impressionantes contos de Katherine Mansfield, As filhas do falecido coronel (1920), que acompanha as jovens Constantia e Josephine uma semana depois da morte do pai, outrossim, quase somente decorrido em um momento único. Espanta, talvez, a simplicidade aparentemente frívola, com a qual as irmãs se perguntam se devem tingir as camisolas de preto ou a quem devem dar a cartola e o relógio de ouro do pai, ao mesmo tempo em que sentem culpa por terem, inevitavelmente, enterrado o falecido, tal era a soberania do parente, e acabam por derramar lágrimas repletas de banalidade mas, ainda assim, genuínas. Acontece que, na narrativa canônica, os pais morrem antes dos filhos. Isso não significa que não há bastante dor no processo — quem há de mensurar tais coisas? —, porém, como parte do nosso consciente coletivo, essa é uma ideia antiga e aceita com a qual nos deparamos assim que, pela primeira vez, descobrimos a morte. Por isso, para o protagonista de Carrascoza, a inversão dos termos é enfrentada com assombro, bem como, com dor incalculável. Presumivelmente, Constantia e Josephine viam a possibilidade da morte do pai doente como razoável, e, assim, visualizam o luto com certa perspectiva de liberdade de uma autoridade déspota. Mas não há nada de “razoável” no falecimento de uma criança e o futuro do homem “órfão de filho” nada tem de animador: “Tudo que o filho não viveu / morre com ambos”.

No entanto, sequer sabemos como morre seu filho: o texto é, sobretudo, sobre a dor “de quem fica”, sobre o vazio e a ausência de vitalidade de quem ainda não morreu:só para si / (e para o universo) / ocorreu a sua morte, / para o pai / é a vida doendo a todo instante. Com pungente sofrimento, então, o personagem rememora momentos triviais entre pai e filho, no silêncio que, majoritariamente, é a natureza mesma do amor desses dois homens, sem, contudo, deixar de ser amor. A maternidade carrega o mito da santidade e, consequentemente, da obrigação instantânea de afeto, ainda enquanto a mulher nem ao menos deu à luz: Mãe e filho nascem se amando, / mesmo se depois seja ódio que os una, / mas não é o que se sucede / entre pai e filho, / terão de se gerar / um no outro / por engenho e arte de ambos”. Não concordo plenamente com a citação, mas é interessante perceber que o que lemos não é a formação e desenvolvimento da relação desses parentes, algo que lembro de ver com mais frequência na literatura pelo ponto de vista da paternidade, e sim, a aflição da perda de um pai, que bom ou não, próximo ou não, pouco importa; o garoto falecido é mais lembrança que personagem. Além de nome e causa da morte, faltam ao filho idade e personalidade: de fato, o óbito deste, poderia ser o de qualquer um: “não vai doer muito / (para alguns quase nada), / saber que morreu um menino, / no mundo inteiro eles morrem, / – quem sentirá sua falta / senão o pai, a mãe, / um avô distante, / a professora da escola / os amigos do bairro?”. O conto é a história dessa falta.

É uma pragmática assustar-se com livros contemporâneos escritos em versos. Recentemente, com o trend das — quase sempre! — péssimas poesias de Instagram, esse tipo de narrativa é sempre cercada de questionamentos pertinentes como, “será tal texto apenas a exposição de um exagero no uso do enter, pretensiosamente estético, que nada tem de formante no livro?”.  Sobre o conto de Carrascoza, digo que não. A quebra linguística na narração do autor, me parece de coerente significação tanto estilisticamente, quanto narrativamente. As rupturas que se dão não somente pela constituição em versos, como também no uso recorrente de travessões e parênteses, em tudo se parecem com a quebra na normalidade da vida do protagonista e ressoam notável profundidade psicológica, principalmente, na consequente ênfase de certas expressões. Essa é a Odisseia de um homem que tenta levantar da cama, passar pelo quarto desconcertante de seu filho morto, ir à cozinha para, finalmente, começar o dia com a mais importante das refeições e, por conseguinte, continuar a viver.

Gosto, particularmente, da metalinguística de Carrascoza. Há tanta literatura no texto, além de sua própria literariedade, que o livro acaba por pensar não somente o luto, como também, a própria narrativa e o contar dela. São diversos os trechos marcados por essa (tão atraente) característica, dentre os quais destaco: “o que faz uma história  / é tudo que lhe falta, / o que nela havia de excesso / e lhe foi retirado, / como o bloco de pedra / onde Michelangelo viu a estátua. / A primeira palavra no papel / elimina mil possibilidades, / o desfecho deve ir para onde/ aponta sua faísca inicial, / e, como quem observa pelo retrovisor, / para ir adiante,/ às vezes, / é preciso olhar para atrás”. Ah, o poder da literatura de retratar a nós e a si própria!

Carrascoza abre o quarto capítulo da seguinte maneira: “Não temos / uma escultura  sublime / feita no mármore / os contornos delineados / depois de extrair da pedra seu excesso, / a Pietá, / o filho morto no colo da mãe, / (…) Temos / um pai e seu filho, / aquele aos pés desse, / obra talhada / não em rocha, / mas na matéria fluida da escrita”. Logo, o autor escolhe retratar a manhã do dia depois a morte do filho do protagonista, que, para um observador distante, pode parecer como qualquer outra, tal é a estranha rotina que se segue mesmo em face da morte, quase como a feição pouco destroçada de Maria, sendo, contudo, a imagem da aflição. Não obstante, a dor do pai órfão continua dor, sem que seja preciso o choro histriônico da primeira descoberta da morte ou a descrição do lento padecimento de anos depois. Desse modo, bem como a Pietá, o novo de livro de Carrascoza é um retrato (poético!) do luto de uma família que, de tão simples, parece menos magnífico, conquanto, apesar disso e, talvez por isso, grandioso.

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‘São João na roça é bem melhó’: forró e identidades nordestinas


Antologia do forrozeiro caruaruense Camarão lançada em 2018 por um selo alemão com o título “Trilha sonora imaginária para um filme de faroeste (1964-1974)” (tradução live). Foto: Divulgação/Analog Records

Quando eventualmente aludimos a uma suposta identidade cultural nordestina, quase sempre vêm à mente as tradicionais comemorações juninas com os diversos signos a ela associados: o forró, as comidas típicas, os fogos de artifício, a indumentária matuta e o cenário decorado com bandeirinhas coloridas e balões, entre outros elementos. Todavia, por mais contraditório que pareça, é no bojo de processos de modernização econômica e integração cultural do Nordeste ao restante do país que toda essa simbologia junina tradicional passa a ser percebida pelo grande público como signo de identidade nordestina.

O forró, como música e poesia, tem muito a dizer sobre as experiências históricas e cotidianas da região, mas é impossível imaginar sua aderência à memória coletiva dos nordestinos não fosse o papel fundamental desempenhado pelas rádios e pela indústria fonográfica nacional na formatação, distribuição e consumo deste gênero musical por todo o país.

Com o advento de meios de comunicação de massa como o rádio e a televisão comerciais a partir dos anos 1930 e 1950, respectivamente, as populações de diferentes regiões brasileiras – antes relativamente isoladas umas das outras devido às imensas distâncias geográficas – tornam-se culturalmente mais próximas ao compartilharem, mais intensamente, fluxos simbólicos comuns. Num país pobre e de dimensões continentais como o Brasil, no qual a circulação das formas de cultura letrada ainda se restringia, na época, a uma parcela ínfima da população, os fluxos radiofônicos e audiovisuais desempenhariam um papel central na formação de uma moderna cultura nacional.   

Neste projeto de integração nacional levado a cabo por empreendimentos de comunicação de massa, emergem novas representações de identidade regional que circulam nacionalmente e legitimam as diferenças culturais no interior da nação. É daí que brota um novo regime de visibilidade do Nordeste como espaço não apenas da fome e da seca, mas também de festas populares e sonoridades telúricas. O forró é a linguagem musical que vai sintetizar esta nova imagética já a partir dos anos 1950, com artistas como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro alcançando projeção nacional pelas ondas das rádios. Citamos aqui dois exemplos entre inúmeros sucessos musicais que, ao longo de décadas, teceram verdadeiras crônicas dos festejos juninos no Nordeste rural.   

“A fogueira tá queimando 

Em homenagem a São João 

O forró já começou 

Vamos gente, rapa-pé nesse salão

Dança Joaquim com Zabé

Luiz com Yaiá 

Dança Janjão com Raque 

E eu com Sinhá

Traz a cachaça Mane!

Que eu quero ver 

Quero ver paia avuar”

(São João na roça, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1962)

“Como é bom São João na roça

Vamos brincar!

Como é bom São João na roça

Vamos festejar!

Como é bom São João na roça

Num arrasta-pé

Como é bom São João na roça

Quando tem muita mulher

Quero tocar fogo na fogueira

Quero ver balão subir

Se formou a brincadeira, vou entrar

Não vou sair

Piririn Piririn Piririn toca sanfona num tom só

Piririn Piririn Piririn São João na roça é bem melhó”

(São João na roça, de Antonio Barros e Jackson do Pandeiro, 1963)

Narrativas da Diáspora

Sucesso comercial incontestável na então capital federal durante a primeira metade da década de 1950, o baião atingiu um público urbano que não se restringia à massa de migrantes nordestinos. Contudo, atingia a este público de maneira especial, tanto pelas sonoridades familiares como pelas referências nostálgicas ao sertão natal. A partir daquela década, a diáspora se intensifica e milhões viriam a deixar o Nordeste rumo a uma vida melhor nas metrópoles sudestinas. É exatamente no auge desse processo migratório, entre 1950 e 1990, que o forró se consolida – também a partir de uma poética da migração –  como signo de nordestinidade. Compositores como Gordurinha, Guio de Moraes, Zé Dantas e Rosil Cavalcanti, entre outros, contribuíram para a construção deste filão de narrativas, conforme podemos verificar nos exemplos abaixo:

“eu fui para São Paulo procurar trabalho

E não me dei com o frio (…)”

(Meu Enxoval, de Gordurinha e José Gomes, 1958)

“quando eu vim do sertão seu moço do meu bodocó

A maleta era um saco e cadeado era um nó

Só trazia a coragem e a cara

Viajando no pau-de-arara

Eu penei, mas aqui cheguei”

(Pau-de-arara, de Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952)

“Fui pra cidade do Rio de Janeiro,

Trabalhei o ano inteiro, fiz até serão

A vida do Paraíba não foi brincadeira

Fui servente de pedreiro pra ganhar o pão”

(Radinho de pilha, de Namd e Graça Góis, 1979)

Em vários momentos, uma melhora das condições de vida na região natal acena com um retorno idílico:

“Já faz três noites
Que pro norte relampeia
E a asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da plantação”

(A Volta da Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1950)

“se meu Deus der um jeito

De chover todo ano

se acaba o desengano

meu viver lá é certo

no meu Cariri,

pode se ver de perto

quanta boniteza, pois a natureza

é um paraíso aberto”

(Meu Cariri, de Dilú Melo e Rosil Cavalcanti, 1953)   

É muito comum se alardear a relevância que tiveram as redes de televisão, a partir dos anos 1960, para a unificação de um mercado simbólico nacional a partir da centralização da produção e da difusão de conteúdos padronizados para todo o país. Contudo, a indústria musical já vinha há muito desempenhando este papel, distribuindo fonogramas em escala nacional pelo menos desde os anos 1920. As ondas de rádio, por sua vez, a partir dos anos 1930, se encarregavam de levar aos ouvidos de um número ainda maior de pessoas as novidades musicais.

Todavia, a impossibilidade técnica de se construir um aparato radiofônico em rede, que integrasse o país a partir de um único centro emissor, fez com que a atuação das rádios se restringisse ao âmbito local/regional e proporcionou um diálogo mais próximo destes meios de comunicação com as comunidades em que se inseriam. A este propósito, podemos citar o notório papel desempenhado pelas rádios caruaruenses a partir de 1950 na legitimação do baião e de outros gêneros associados ao forró como representativos de uma cultura local/regional pelo interior do Nordeste. Mas isso já é assunto para o próximo artigo desta série.  

Aceita minha ideia, abundam os exemplos


Antígona, de Sófocles. Foto: Divulgação/Dialético.

CLITEMNESTRA 

Elas estão seguras nos quartos das virgens.

AGAMÊMNON 

Deves-me obediência! 

CLITEMNESTRA 

Nesta hora, não! Juro pela deusa de Argos! Aqui fora a competência é toda tua, mas em casa e quando o assunto são as bodas de uma filha, tenho o direito de tomar as providências! 

AGAMÊMNON 

O homem de bom senso deve ter em seu lar uma boa mulher e sempre dócil; se não for assim, não case! 

(Ifigênia em Áulis, de Eurípides)

HÉCUBA (para AGAMÊMNON) 

Nenhum mortal pode considerar-se livre. Uns são escravos da riqueza, outros da sorte, pois ora as prescrições da lei, ora os caprichos da maioria nos impedem de seguir nossas inclinações, submissos aos desejos. Levando em consideração os teus receios e as concessões à multidão onipotente, incumbo-me de te livrar desses temores.

AGAMÊMNON 

E como essas mulheres vencerão os homens?

HÉCUBA 

Elas são numerosas; isso lhes dá força, e com a sua astúcia serão invencíveis. 

AGAMÊMNON 

Por certo o número é temível; quanto ao resto, a raça das mulheres não é confiável. 
HÉCUBA 

Por quê? Não foram as mulheres que venceram seus pretendentes, os filhos do rei Egito, e assassinaram todos os homens de Lemnos? Aceita minha ideia; abundam os exemplos.

(Hécuba, de Eurípides)

CREONTE 

A submissão, porém, é a salvação da maioria bem mandada. Devemos apoiar, portanto, a boa ordem, não permitindo que nos vença uma mulher. 770 Se fosse inevitável, mal menor seria cair vencido por um homem, escapando à triste fama de mais fraco que as mulheres!

(Antígona, de Sófocles)

Existe uma pedagogia interessante nas tragédias gregas. A primeira, mais óbvia, é de que podemos aprender com a arte, por meio da beleza ou da contemplação da dor alheia sem precisar arriscar os destinos de uma cidade em nome do funeral de um parente, como fez Antígona. A segunda, que pode ser assumida a partir da premissa anterior é que a bondade não nos salva do terrível. A família de Príamo e Hécuba sofre males inimagináveis apesar da retidão com que tratam os amigos e os inimigos. Convenhamos, é fácil, muito fácil, amar os amigos, já ser leal com quem lhe é opositor é até hoje um farol nos estudos da Ciência Política sobre democracia. Mas este texto não é exatamente sobre isso, mesmo que esteja sendo escrito durante tempos estranhos em que a proteção da vida cede lugar à produção do horror por parte do líder do Executivo e de seus apoiadores, todos protagonistas de atos de tirania shakespeariana típicas de um Coriolano. 

Viajemos à Grécia. Os trechos de peças expostos acima ajudam a sensibilizar, pela expressão poética que trazem, a reivindicação da participação das mulheres no espaço decisório da política desde os tempos de Sófocles, Eurípides e Ésquilo. É simples: a mais clichê e vulgar definição de separação entre gêneros está na divisão entre público e privado, sendo a rua o lugar do homem e, a casa, o da mulher. Retornemos ao presente. Essa grotesca divisão atravessa nosso imaginário e está até mesmo em matérias escritas por mulheres sobre profissionais que não continuam exercendo atividades consideradas essenciais durante o período de quarentena. A reportagem de capa do Jornal do Commercio de 05 de abril de 2020, assinada pela repórter Cynthia Leite não fazia referência a uma única mulher profissional de saúde, enquanto entrevistava homens médicos das mais variadas especialidades. Ou seja, se piscarmos os olhos, baixarmos a crítica, desaparecemos fácil da rua e somos devolvidas obedientes ao lar, como queria Agamêmnon.

A história do espaço público e das instituições políticas modernas é a história da acomodação do ideal de universalidade à exclusão e à marginalização das mulheres e de outros grupos sociais subalternizados. Vem sendo contada por intelectuais feministas de um modo que explicita as conexões e as tensões entre patriarcado e capitalismo, desvenda o caráter patriarcal do pensamento e das instituições políticas modernas e as matrizes de dominação que são ao mesmo tempo patriarcais, racistas e colonialistas (BIROLI, 2017, posição 3876).

Biroli (2017) aponta que o direito ao voto e a disputa de eleições não foram traduzidos em condições igualitárias de participação das mulheres na política. Pensar essa participação na política é também pensar nas diretrizes de políticas públicas que possam trazer transformações que permitam maior inserção das mulheres nos espaços de poder. A construção de conhecimento é um dos mais importantes. Na modernidade, apesar dos eventos recentes relacionados ao Executivo Nacional, é a ciência a deusa que norteia os rumos da sociedade, a sacerdotisa de Apolo que profetiza quais as melhores escolhas que as comunidades devem tomar em conjunto. As relações de gênero, classe, sexualidade, etnia, raça e geração surgem como atravessamentos e obstáculos à participação das mulheres em espaços institucionais de tomada de decisão do âmbito estatal. Por isso, é alarmante que abundem dados sobre a lastimável queda de submissão de artigos científicos assinados por mulheres desde o fenômeno da Pandemia do Coronavírus em 2020. Os gráficos compilados em uma das mais tradicionais revistas de Ciências Sociais brasileira não deixam dúvidas: a desigualdade de gênero se fortaleceu diante do complexo cenário em que a tríade doença, isolamento e cuidados com a casa dominaram as tomadas de decisão de toda a sociedade. 

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Brasil: Feminismo interseccional versus conservadorismo

As barreiras institucionais são ampliadas quando são pensadas as condições de participação de mulheres negras, indígenas, e trabalhadoras do campo. Desde que as categorias de gênero, raça e classe se enraizaram no pensamento feminista, as mulheres produzem conhecimento para que as pautas assumam, mesmo que fora dos espaços de disputa eleitoral, características mais radicais de defesa de agendas como a dos limites da democracia brasileira, limites estes pressionados pela tríade de categorias acima. Democracia pressupõe ampliação de agentes nas tomadas de decisão e nas dinâmicas de pressão e descompressão que possibilitam inserir transformações efetivas nas estruturas da sociedade. Para Biroli, a ampliação das diferenças entre os movimentos de mulheres de maneira produtiva pode ser atribuída à origem do ativismo de muitas mulheres em grupos marxistas e socialistas e também no protagonismo das mulheres negras na contestação de pautas que remetem a problemas de raça e hierarquia de classe. 

Da década de 1960 em diante, com a pílula anticoncepcional e outras mudanças no campo da cultura e da economia, houve modificações profundas tanto nas dinâmicas de trabalho quanto no âmbito da sexualidade, cujo impacto foi percebido nas relações familiares e de gênero. Desde 1970, os movimentos feministas batalharam pela ampliação da atuação da mulher para que não haja uma redução ao papel de mãe – tanto do ponto de vista do trabalho quanto do ponto de vista da saúde, incluindo o debate sobre a autonomia da mulher sobre a gravidez e o planejamento familiar.

Na década seguinte, durante a redemocratização brasileira e elaboração da Assembleia Constituinte de 1988, propostas gestadas entre os movimentos progressistas se transformaram em pautas consequentes à politização da noção de gênero, dentro de uma perspectiva interseccional. Persistiu, como entrave maior entre os grupos de mulheres, a falta de consenso sobre o aborto. O domínio das mulheres sobre nossos próprios corpos ainda persiste como a última e mais difícil fronteira a ser derrubada pela luta feminista.    

Posteriormente, os avanços foram enfraquecidos nos anos 1990, durante o Governo Collor, quando houve o desmonte do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) a partir da junção entre a implementação de políticas neoliberais e o conservadorismo nas pautas de gênero, raciais e da sexualidade (BIROLI, 2017). Os avanços voltaram a acontecer por meio de ações implantadas durante os anos 2000, nos governos de Lula e na gestão da primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff. Podemos citar a Lei Maria da Penha em 2006; a Lei do Feminicídio e a PEC das Domésticas, ambas de 2015, além de programas de combate à homofobia e de inclusão de mulheres no meio científico. 

Com o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência, aconteceu um recrudescimento de reações conservadoras que se organizaram a partir dos movimentos de junho de 2013 e da eleição de 2014. Duas bandeiras que miram diretamente nas questões de gênero, dos direitos sexuais e reprodutivos se configuraram como aglutinadoras do campo conservador: os acusadores da “ideologia de gênero” e da “Escola sem Partido”. São demonstrações que indicam o rechaço dos grupos religiosos, católicos e expressos principalmente pelos evangélicos e sua bancada parlamentar aos progressos obtidos durante dos anos 2000 em diante. A reação foi mais facilmente percebida pela saída desses grupos da base aliada desses governos. A institucionalização da agenda de gênero em programas e em áreas técnicas de ministérios como o da Educação e o da Saúde e que foram incorporadas ao âmbito da seguridade, da assistência social e do trabalho, confrontando “o enquadramento conservador da família, da conjugalidade e da sexualidade, sem que correspondesse às opiniões e aos interesses predominantes no Congresso Nacional” desagradaram conservadores (BIROLI, 2017, posição 4222). 

Os principais agentes nos espaços institucionais contrários à agenda feminista são os grupos religiosos conservadores, católicos e evangélicos, que têm investido em restrições ao debate sobre gênero, sexualidade e políticas públicas. O Governo Bolsonaro é o epíteto melhor acabado desses grupos. Os movimentos de mulheres têm buscado meios de atuação alternativos como mecanismo de pressão ao campo institucional, dispondo de estratégias de mobilização e de visibilidade como manifestações de rua e mobilização via Internet por meio de redes sociais. Essas ideologias conservadoras, baseadas na conexão entre ordem familiar e ordem política, estiveram intensamente ligadas durante a ditadura e “revelavam os padrões das relações entre a Igreja católica e o Estado na ditadura brasileira e nos regimes autoritários vigentes em outros países latino-americanos no período” (BIROLI, 2017, posição 3961). 

Enquanto esses grupos ganham espaço na política institucionalizada, no âmbito legislativo e no governo federal, novos grupos de feministas surgem, impulsionados pelas redes sociais e, principalmente, entre jovens. O racismo e a desigualdade surgem dentro deste contexto como articuladores discursivos, dentro do pluralismo característico da fase contemporânea dos movimentos de mulheres (ALVAREZ APUD BIROLI, 2017, posição 4326).

Grupo Women’s Liberation marcha em apoio ao Partido dos Panteras Negras, em 1969. Foto: Divulgação/David Fenton.

Fraser (1990) sugere a ideia de esfera pública de Habermas como fonte teórica para pensar as consequências políticas da confluência de discursos da agenda política das mulheres. A esfera pública é designada aqui como o teatro nas sociedades modernas na qual a participação política é encenada pelo meio da fala, diferente do uso simplificado que apenas diferencia o espaço público do espaço privado, sendo este o ambiente doméstico ou familiar. A esfera pública é uma arena institucionalizada de interação discursiva. Fraser distingue essa arena do estado e a demarca como um lugar de produção e de circulação de discursos que podem, em princípio, ser críticos do estado (FRASER, 1990, p. 57). 

A noção de contrapúblicos subalternos é posta por Fraser numa revisão crítica da esfera pública habermasiana e surge pela contestação feita por grupos politicamente minoritários nos espaços amplos de interação discursiva. Os contrapúblicos subalternos atuam em arenas discursivas paralelas criando e fazendo circular contradiscursos para “formular interpretações antagonistas de suas identidades, seus interesses e suas necessidades” (BIROLI, 2017; FRASER, 1990). O exemplo que Fraser dá é a reivindicação das feministas de que a violência doméstica não é uma questão privada, mas sim uma forma sistemática de dominação masculina mais ampla. O assunto foi levado a público e se tornou um consenso partilhado amplamente. A conclusão imediata é que é necessária à democracia a garantia de oportunidades às minorias para transformar consensos que pertencem ao passado e que o lugar de negociação e enfrentamento é a esfera pública, incluindo aí a arena do debate acadêmico. 

Nós e Antígona, Clitemnestra e Hécuba

Tomo as personagens das tragédias como alegorias, com metáforas que podem inflar um alargamento das reflexões que construímos sobre nosso próprio tempo. Se Hécuba interpela Agamêmnon e menciona eventos passados em que mulheres agiram de maneira a definir os destinos outrora estabelecidos por homens, Clitemnestra define limites do espaço de atuação do esposo, mesmo que ela tome para si a gestão da casa, do lar e da vida da prole. Lembremos que, na Grécia, a cidadania não era disponível às mulheres. Antígona, última peça da Trilogia Tebana, apresenta os efeitos práticos da limitação discursiva destinado às mulheres: a própria voz dela deveria ser negada pelo governante, Creonte, seu tio e provável genro. A fala de cada uma dessas personagens ressoa na história da Estética como registros do risco percebido pelos homens da voz das mulheres no espaço público e da potência de insurgência e de ampliação de horizontes discursivos que nós representamos como agentes de transformações das estruturas sociais. 

É resvalar no óbvio apontar que é próprio da pesquisa no campo da estética mirar no legado da arte para compreender o páthos de um tempo. As tragédias gregas surgem no ápice daquela civilização. São, parafraseio Williams, a forma bem acabada de uma cultura em seu esplendor. Salvando as devidas proporções, há um enaltecimento ao pluralismo que, mesmo distante daquilo que entendemos como plural hoje, está próximo da abertura característica das sociedades contemporâneas. 

A diminuição da participação das mulheres na produção científica é um sinal de fechamento da nossa sociedade. Se nós estamos sem produzir porque monitoramos o calendário das tarefas escolares dos nossos filhos, se somos o centro do cuidado das crianças e dos familiares mais velhos, as pautas progressistas, que ancoraríamos com a produção do conhecimento a partir das nossas agendas e demandas, se tornam enfraquecidas. Se a quarentena isola mais as mulheres que os homens, a sociedade se torna ainda mais fechada e o debate diminuído. Confinada a pluralidade de pensamento frutificada pelas mulheres, perde, mais ainda, a democracia brasileira contemporânea.

Referências Bibliográficas

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AZOULAY, Ariella. Potential History: Thinking through Violence. Critical Inquiry, v. 39, n. 3, p. 548–574, 2013. Disponível em: <https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/670045>. Acesso em: 15 ago. 2019.

___________________. The civil contract of photography. New York: Zone books, 2010. 

BIROLI, Flávia. Gênero e Desigualdades: Limites da Democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2001. 

BUCK-MORSS, Susan. Hegel e o Haiti. São Paulo: N-1 edições, 2017.

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BUTLER, Judith. Antigone’s claim: Kinship between life and death. Columbia University Press, 2002.

DIDI-HUBERMAN, Georges (org.) Levantes. Edições Sesc, 2017.

EAGLETON, Terry. A ideologia da Estética. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

 _______________. Walter Benjamin o hacia una crítica revolucionaria. Madrid: Ediciones Cátedra, 1998.

________________. Doce violência – a ideia do trágico. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

Mariana Nepomuceno, 36, está no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE. Depois de estudar televisão, literatura e barroco, resolveu procurar nos levantes políticos recentes a persistência do sofrimento, do horror e da compaixão, efeitos típicos das peças trágicas. É professora do Laboratório de Comunicação da Faculdade Pernambucana de Saúde. Durante a quarentfena, dá aula, pesquisa, escreve e, principalmente, coordena a intensa agenda de atividades de Antonio, de 5 anos. 

Unorthodox e o papel da mulher na sociedade


Unorthodox” é uma minissérie da Netflix com 4 episódios inspirado na biografia da escritora Deborah Feldman. A obra conta a história de Esty (Shira Haas), uma menina judia de 19 anos que prepara uma fuga da sua comunidade no bairro de Williamsburg, no Brooklyn (Nova York), para Berlim, na Alemanha, o lugar onde sua mãe Leah (Alex Reid) decidiu ir quando fugiu e a deixou com o pai e os avós. 

Numa comunidade que vive sob as normas mais rígidas do judaísmo, ao se casar com Yanky (Amit Rahav), a garota percebe que não se encaixa naquele universo, se sente aprisionada a uma vida que não quer levar e então foge para a capital alemã.

A série nos mostra uma realidade que, até pouco tempo, estava fechada entre as quatro paredes morais da comunidade ultra-ortodoxa e organiza-se de forma a recuperar “os seis milhões perdidos”, o que na psicanálise é conhecido como “sublimação” ou seja, uma forma saudável de superar o trauma psíquico — dificilmente ocorrerá. O genocídio é historicamente muito recente. A jovem vai em busca da liberdade justamente no país onde ocorreu o holocausto.

Unorthodox nos faz refletir sobre conceitos, preconceitos, cultura, sociedade, convivência. Para quem vive distante da realidade dos judeus ultra-ortodoxos, é possível que se desenvolva um sentimento de empatia em relação a Esty e que subitamente as suas dores pareçam nossas e as suas conquistas também. A procura dela pela liberdade secular e a coragem de “burlar” as regras pode levar-nos a esperar que tudo dê certo e que ela consiga livrar-se de um sistema opressor e que não parece pertencer ao século XXI, com muita supressão da liberdade pessoal.

Vemos a pequena liberdade de Esty ser ainda mais reprimida ao aproximar-se da data de seu casamento: o fato de ter de explorar a sua maior paixão (tocar piano) às escondidas, a segregação de homens e mulheres através de uma cortina durante o casamento, ser obrigada a usar uma peruca. O mais importante não é a perda de sua autonomia, mas sim os passos que ela enfrenta para conseguir se emancipar.

Casamento de Esty e Yanky. Fonte: Unorthodox – Netflix. Foto: Reprodução.

Cinco momentos são essenciais para Esty alcançar seu objetivo:

I- A aventura de Esty começa no Sabat (ou Shabbat), o dia sagrado dos judeus ortodoxos, reservado para o descanso semanal. O eruv, um arame simbólico colocado nas imediações da residência da comunidade judaica para que se possam transportar objetos da “propriedade privada” para a “propriedade pública” e vice versa – sem ele estas atividades são proibidas. Teoricamente, isso impossibilitaria a jovem judia de concluir o seu plano de fugir definitivamente ela hesita, sobretudo por causa das vizinhas que teimam que sair de casa sem o arame é pecado, mas a vontade de encontrar a sua voz fala mais alto e ela acaba indo embora.

II – Ao chegar a Berlim, a garota não demora muito até fazer amigos que a convidam para ir nadar com eles. Durante a viagem, uma judia israelita (Yael) e um homossexual muçulmano (Axmed) brincam com a destruição da Segunda Guerra Mundial: “Podemos ir tirar uma selfie no Memorial aos Judeus Mortos da Europa!”, diz Yael, ao que Axmed sugere “Essa ideia é o máximo! O Memorial dos Homossexuais é mesmo do outro lado da rua. E já que estamos aqui, vamos ao dos Sinti e Roma também!”. Esty assiste perplexa à leviandade com que se fala da tragédia que matou mais de seis milhões do seu povo. Ao chegar ao lago, todos se despem, atiram-se na água sem nenhuma preocupação e Esty arregala os olhos por tanta liberdade. Robert, o seu primeiro amigo em Berlim, vira-se para ela e diz: “Está vendo aquela casa do outro lado do lago? A conferência onde decidiram matar os judeus dos campos de concentração em 1942 começou ali”. Esty, perplexa, pergunta como é que eles nadam nesse lago – a resposta: “Um lago é só um lago (…) Você pode nadar até onde quiser”. O primeiro mergulho de Esty parece quase um batismo, uma lavagem espiritual de libertação de tudo aquilo que sofreu durante os seus 19 anos.

III- Para os judeus hassídicos Satma, as mulheres não podem mostrar nenhuma parte do seu corpo, sob pena de serem consideradas indecentes e até lascivas. Em várias culturas, cortar o cabelo significa acabar uma vida e começar uma nova, mas ao ser obrigada a raspar o cabelo no dia do seu casamento, Esty perde uma das suas poucas liberdades. A partir de então, passa a usar uma peruca (sheitel), muito mais adequada para mulheres casadas. O momento onde a jovem finalmente tira a peruca é um dos mais bonitos e emocionantes de toda a série, marcando o início da auto-descoberta da jovem.

IV- Nos flashbacks ao passado, vemos as dificuldades que Esty teve com as relações sexuais no casamento. Para a sua comunidade, o prazer sexual da mulher não importa e a principal preocupação é fazer com que o homem se sinta como um verdadeiro “rei”. A sua vida íntima é conhecida por toda a família do marido, que fazem questão de relembrá-la inúmeras vezes que a sua obrigação é, apenas, ter bebês para repor a população perdida durante a guerra. Durante quase um ano, as tentativas são inúteis e, acima de tudo, dolorosas. As aulas de “educação” sexual para nada servem e o regime em que o ato acontece é tudo menos agradável. Depois da sua primeira saída à noite numa discoteca techno em Berlim, experimenta um batom vermelho pela primeira vez. É a primeira vez que se sente bonita e desejada – Esty não sabe o significado de prazer e, por isso, o momento em que finalmente tem relações sexuais por vontade própria mostra-se importantíssimo enquanto ponto de partida para a sua emancipação sexual.

V- Podemos argumentar que o exponente máximo de autodeterminação é a candidatura de Esty a uma bolsa especial para refugiados e pessoas em circunstâncias complicadas, no Conservatório de Música onde estudam os amigos. Durante anos, teve aulas de piano às escondidas com a pessoa que a ajudou a fugir, e acha que isso é suficiente para passar no teste. Durante um “dinner party“, Yael insiste que Esty toque alguma coisa, revelando que, na verdade, o seu talento musical resume-se a alguma sensibilidade. A rejeição, apesar de dura, é importante para que ela possa explorar e encontrar a sua verdadeira voz. As tentativas de cancelar a candidatura não são bem-sucedidas e, por isso, a jovem muda a sua estratégia. No dia da sua audição, perante a bancada de músicos experientes e hiper-talentosos, os seus amigos, a sua mãe, e Yanky, Esty canta uma “música proibida” entre a sua comunidade. As mulheres não podem ouvir música, nem tocar, e muito menos cantar em público. 

A submissão da personagem Esty aos ditames tradicionais do judaísmo, na série Unorthodox, da Netflix. Foto: Reprodução.

O momento em que a menina mostra o seu talento é um dos mais comoventes de toda a trama e sintetiza aquilo que realmente compõe Unorthodox: uma jovem reprimida em busca da sua voz.

Todas as coisas que acontecem a Esty se devem, além de ao machismo estrutural do qual os judeus não escapam, ao machismo particular reproduzido pelo judaísmo, principalmente o ortodoxo. Não se trata de campo ideológico. Trata-se de poder: ainda que a maior parte das religiões monoteístas seja patriarcal, quem tem poder, tem legitimidade para exercer o machismo; quem tem mais poder ainda, pode exercer o machismo sem ser condenado internacionalmente. Com uma média de 6 a 7 filhos por famílias, os ortodoxos respondem a uma demanda. Nesse contexto, a mulher serve meramente como procriadora. Proíbem as mulheres de cantar publicamente, de aparecer em outdoors ou de ser premiadas. 

É fundamental que o esclarecimento da mulher sobre sua situação de escrava da família e do marido seja posto em prática, uma vez que as mulheres só conseguirão qualquer tipo de emancipação quando alcançarem a liberdade intelectual. De acordo com um texto de 1922 da escritora brasileira Maria Lacerda de Moura, “[…] enquanto não souber pensar, (a mulher) será instrumento passivo em favor das instituições do passado. E ela própria, inconsequente, trabalhará pela sua escravidão”. Maria, cuja obra dialoga com seus contemporâneos e com autores clássicos, era pioneira nos estudos de gênero no Brasil no século 20 e foi profundamente engajada, com uma visão radicalmente libertária e que interrogava sobre o lugar da mulher na formação de nossas sociedades.

Em “Unorthodox”, Esty mostra uma coragem audaciosa, em contraste à submissão ainda corrente das mulheres à autoridade da Família, do Estado e da Igreja. Rompe com tudo isso, representando fielmente e com autenticidade uma realidade que a grande maioria de nós desconhecia. Os desafios que Esty enfrenta por ter uma vida diferente não se resumem a uma simples mudança. Ela teve que fugir, enfrentar a perseguição e decidir por si mesma o seu futuro e o futuro daqueles à sua volta. A última cena nos deixa esperançosos que o seu futuro e o de toda uma geração será repleto de oportunidades.

O maior e mais saudoso São João do Mundo

Uma reflexão sobre a relação entre Nordeste, saudade, música e São João

Estação Ferroviária, um dos polos culturais do São João de Caruaru. Foto: Arnaldo Felix e Janaína Pepeu / Divulgação

Cadê aquele balãozinho, Siá Filiça,
que coloria o meu lugar? –
Siá Filiça”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino

Junho e seu frio chegaram. Entretanto, esse frio junino não será amenizado pelo fogo de fogueiras avulsas em calçadas, resquício urbano da tradição rural; ou então pela dança, ligeira de um forró ou lenta e aconchegante de um xote. Tampouco será amenizado pelo calor irônico das noites lotadas no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga, em Caruaru. Mais difícil ainda: um frio incapaz de ser amenizado até por abraços, pois abraçar é se arriscar e manter distância, um ato de amor.

Junho chegou! E junto dele, esse frio que só encontra antídoto em lençóis e agasalhos, outrora abandonados, e no acalento das memórias de um passado recente.

Junho chegou de repente, sem dar avisos coloridos como antes, bateu na porta… e eu não o reconheço.  

Como caruaruense nato, cresci acostumado ao perfume de fumaça deste mês, às suas saudáveis aglomerações, e a ouvir o som de rojões marcando o compasso da música que ecoa pela noite da cidade. Tudo isso falta devido à pandemia do novo coronavírus, mas uma coisa deste Junho me é familiar, embora desta vez se faça maior que em outros anos: a nostalgia.

De fato, a nostalgia e lembrança do passado especificamente desta época são incomensuráveis por haver saudades não só do São João, mas também de amigos, da vida social e de sair de casa (para aqueles que na medida do possível e acertadamente evitam sair de casa). Entretanto, essa nostalgia e até mesmo a saudade sempre foram temas explícitos e implícitos nos festejos juninos.

Nordeste do Passado

A princípio a festa junina é conhecida como típica do Nordeste, cujas raízes remetem a um passado rural no qual se comemora o período de colheita, em especial do milho. Além disso, várias outras características da festa em Caruaru remetem à cultura “tradicional” do Nordeste, como é o caso da gastronomia, da religiosidade, das quadrilhas, dos personagens e da música.

Todavia, no livro A Invenção do Nordeste e outras artes, o autor, Durval Muniz de Albuquerque, nos convida a uma reflexão interessante sobre o quanto a cultura conhecida como tipicamente nordestina é construída tendo por base práticas e discursos regionalistas que alicerçam a região sobre pilares da tradição e da saudade de um passado.

Em seu trabalho, Durval apresenta esse resgate do passado na criação da imagem do Nordeste como um movimento coordenado pela elite nordestina, no fim da primeira década do século XX, que teve dois fatores principais.

Antes de tudo, o primeiro foi a globalização e suas mudanças nas relações sociais e econômicas capitalistas; já o segundo, a nacionalização das relações de poder e a concentração deste em um estado. Isso ameaçou o poder da elite nordestina e deu origem a uma tentativa de manter o poder na região. Um poder cuja extensão, me permitam afirmar, se mostrou e mostra coronelista e historicamente ultrapassada. A partir disso, muito do que se entende por cultura nordestina seria uma construção nostálgica.

Para atingir tal fim, uma importante ferramenta – além da produção literária de Gilberto Freyre e do romance de trinta citadas também no livro – foi a música, mais especificamente o forró e seus sub-gêneros tradicionais como o baião, xote e o xaxado.

Capa da 5ªedição do livro “A invenção do Nordeste e outras artes” / Foto divulgação

A música nostálgica

Esse gênero musical, essencial para a configuração da festa junina, tem suas origens na música de Luiz Gonzaga. Música esta cujo público ouvinte era formado, majoritariamente, por migrantes nordestinos residentes no Sudeste do Brasil e moradores das capitais nordestinas. Isto é, pessoas que moravam em metrópoles que tinham um passado situado no interior do Nordeste.

Estas pessoas encontravam na música de Gonzaga, que remete a temas e sonoridades do interior nordestino, uma identificação enquanto pertencente a uma comunidade em comum e uma volta ao tempo e às memórias idílicas do passado. 

Dessa forma, o baião e consequentemente o forró, são gêneros concebidos no meio urbano, em um clima de saudade compartilhado do passado interiorano. 

Ouvindo a músicas célebres do forró assim que junho chegou – talvez para tentar matar uma saudade que no fim das contas só foi alimentada – notei o quanto a nostalgia e saudade se fazem presentes em boa parte das canções que sempre fizeram parte de uma festa junina. Exemplos destas canções são Siá Filiça e Lembrança de um beijo, gravadas por Santanna; Asa Branca e A vida do viajante, gravadas por Luiz Gonzaga; Caruaru do Passado, gravada por Azulão; Confidências, de Petrúcio Amorim, e tantas outras músicas saudosas.

Assim, é possível perceber muito frequentemente na trilha sonora do São João um eu-lírico nostálgico, distante de sua terra natal, de pessoas queridas, de momentos vividos ou de paixões arrebatadoras.

São João da saudade

Isso não significa dizer que o São João é uma festa que olha unicamente para o passado. O Palco Principal das celebrações com estilos majoritariamente contemporâneos e o palco Azulão no qual artistas de diferentes gêneros musicais se apresentam são provas disso. Tampouco significa que toda a cultura popular não passa de uma ilusão criada pelas elites nordestinas do início do século XX. Em contrapartida, permite-nos observar que a origem da festa tem profundas ligações com uma espécie de culto ao passado. Além disso, permite constatar que a relação deste mês com a saudade já vem de um bom tempo.

É devido a essa mistura entre a saudade imbricada na cultura e música do São João com a impossibilidade de compartilhar a alegria dessas festividades com amigos, familiares e paixões, que a saudade existente nesse mês é duplicada. Mas se, como disse o poeta popular Pinto do Monteiro, “saudade de amor ausente não é saudade, é lembrança / saudade só é saudade quando morre a esperança”,

pode-se concluir, então,
que basta mantermos a esperança,
pra toda essa saudade virar uma lembrança
e ser cantada noutra festa de São João.

Turismo Cultural e Pós Pandemia em Pernambuco

Por Roberta Albuquerque


O caboclo de lança, também chamado de lanceiro ou caboclo de guiada, é um dos personagens do Maracatu Baque Solto, uma tradição cultural de Pernambuco que atrai inúmeros turistas ao longo dos anos. Foto: Paulo Camelo

Apesar das incertezas sobre o “novo mundo” pós covid-19, os impactos sociais, ambientais e econômicos advindos da pandemia já são reais e significativos. O setor de serviços, segundo o IBGE, responsável por 74% do PIB nacional, teve uma redução de 1,6% no primeiro trimestre de 2020, trazendo grandes preocupações aos responsáveis pela economia.

O setor de turismo, segmento responsável por 10% do PIB nacional, chora o amargo cenário de desemprego e falência, com queda de 30% no mês de março comparado a fevereiro deste ano. Em Pernambuco a atividade que respondia por uma parcela de 3,9% do PIB regional, em 2019, registrou queda, de 33,1% na comparação entre fevereiro e março do ano corrente.

A OMT (Organização Mundial do Turismo), acompanhando esses impactos lastimáveis, recorreu aos representantes legais das federações, fazendo apelos para que os setores responsáveis pelo segmento de turismo pensassem estratégias criativas para conseguir sobreviver e superar este momento, pois preveem uma recuperação longa, do mercado, entre 5 e 7 anos.

O MTur (Ministério do Turismo), apresentou uma proposta de movimentar o turismo nacional através da regionalização dos Estados. Para eles, o cenário pós pandemia apresentará fronteiras internacionais sem previsão de reabertura, pessoas mais cautelosas nas viagens, diminuindo o período de estadias e distâncias percorridas, além de se tornar responsável pelo perfil de um turista que realiza mais viagens de carro, e evita aglomerações e riscos de compartilhar ambientes com pessoas desconhecidas.

Há especulações sobre o perfil do “novo” consumidor, sendo ele mais consciente, mais solidário e prezando por mais higiene. Os estabelecimentos de hospedagens, transportes e gastronomias precisarão reestruturar-se para atender maiores exigências de vigilância sanitária também.

Dentro desse processo de regionalização, apresentado pelo Mtur, identifica-se a existência de um mapa apresentando os Estados e Distrito Federal, com suas respectivas potencialidades regionais. Em Pernambuco, já tivemos políticas públicas de interiorização do Estado, o projeto PE conhece PE, no qual eram apresentadas rotas turísticas distribuídas de acordo com sua similaridade econômica e cultural.

Rotas como “Engenhos e Maracatus”, Cangaço e Lampião”, Poesia e Cantoria”, Fé e Arte”, História e Mar; entre outras aparecem nesse mapa de regionalização do Mtur. São 13 no total.

A ideia que apostamos para o Turismo nesse período pós pandemia, caminha junto com a proposta de regionalização. Primeiro, por ser palpável aos nossos recursos; segundo por não depender de uma sazonalidade temporal para ocorrer. A cultura está lá, enraizada no nosso povo, tão faminto de valorização e prestígio; e terceiro, por já ter sido alvo de políticas públicas em outros momentos, e já termos um plano já mais ou menos fundamentado.

Precisamos pensar estratégias de forma a envolver o trade turísticos (meios de hospedagens, transportes, alimentação, agências) em acreditar e investir no potencial cultural do Estado, fomentando esse segmento turístico. Essas ações devem ser pensadas juntamente com órgãos públicos responsáveis por estes segmentos e comunidade local (representantes de comunidades), a fim de amenizar os impactos negativos causados à comunidade local decorrente pela implementação da atividade.

Utilizar o turismo e a cultura como elementos para movimentar a economia permitirá que a sustentabilidade do setor turístico prevaleça, diversificando as oportunidades que são tão restritas ao turismo de sol e mar. Tipificação tão forte na nossa região.

Pensar cultura, é pensar a identidade de um povo, e nós pernambucanos, temos esse sentimento de pertencimento aflorado e muitas riquezas culturais a serem valorizadas. Do litoral ao sertão, atendemos segmentos do turismo de sol e mar às vinícolas do São Francisco. A fé do sertanejo na missa do vaqueiro, aos monumentos históricos dos engenhos de cana de açúcar. A gastronomia particular do cuscuz com charque, da tapioca, do bode assado, do bolo de rolo entre outros, com seus aromas e sabores particulares. A delicadeza dos artesanatos que transitam entre extremos do barro à renda, carregando história e identidade de um povo. Os festejos de momo que não se limitam às cidades de Recife e Olinda com o fervoroso frevo, mas adentra o interior com os Papangus de Bezerros, Caretas de Triunfo e Caiporas de Pesqueiras. Entre tantas outras histórias e cantos que estão disponíveis para serem visitados, apreciados e valorizados.

Roberta Albuquerque é professora de Administração. Turismóloga pelo IFPE, Albuquerque é mestre em Administração pela UFPE com uma dissertação sobre as relações de poder no Maracatu Rural. Pesquisa sobre Turismo Cultural, Consumo e Identidade.

Nos 50 anos de seu falecimento, algumas reflexões sobre Álvaro Lins e sobre nossos dias


Opera Mundi: Álvaro Lins: o escritor notável e a empatia que virou ...

O crítico Álvaro Lins. Foto: Divulgação/ Opera Mundi.

Há exatos dez anos eu escrevia, em artigo jornalístico para a Revista Continente, a respeito da Biblioteca que pertenceu a Álvaro Lins (1912-1970), e que foi doada à cidade de Caruaru há, agora, 50 anos, mas que nunca recebeu o tratamento merecido. Escrevi naquela ocasião: “O ano de 2010 marca os 40 anos do falecimento desse grande intelectual pernambucano, que exerceu as atividades de jornalista, crítico cultural, historiador, professor, pesquisador, escritor e diplomata. Tratava-se de um grande humanista, um pensador que não compreendia a atividade crítica literária de forma isolada, sem suas conexões com a realidade histórica e com os demais fenômenos culturais. Em 2012, será o centenário do nascimento de Álvaro Lins, oportunidade para a cidade de Caruaru lhe prestar homenagem, tratando com maior zelo o valioso patrimônio público que são seus livros”. Uma década, eu dizia, desde então… E pouco ou nada mudou em relação às condições da biblioteca e do acervo. Uma vergonha para Caruaru e, em particular, para seus políticos

Tentarei, nas próximas linhas, para além das lamentações e queixas, tentar justificar a importância desse crítico e de seu legado intelectual, ainda que me parece surreal que a própria cidade – que o homenageia superficialmente com nomes de rua e de escola – não o faça.

Um crítico, uma outra circunstância

Houve um tempo – uma época difícil de conceber para nós que nascemos e nos formamos após o advento de meios de comunicação como a TV, o cinema e, mais recentemente, a internet – em que a literatura e, claro, os escritores literários, assumiam um papel de centralidade no universo da cultura; outras artes e saberes pareciam orbitar ao redor da arte da palavra: era a literatura, pois, a fonte primordial por onde se desenvolvia o debate intelectual. “Uma época em que intelectuais eloquentes e eruditos lançavam-se na primeira pessoa, discorrendo ampla e digressivamente sobre as obras, ou a partir delas”, assim a jornalista e professora Cláudia Nina, em seu panorâmico Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas, apresenta um dos períodos mais ricos da crítica literária no Brasil. Tal modalidade, em que os autores, a partir de sua perspectiva individual e abordagem multidisciplinar, emitiam juízos de valor sobre livros, temas e autores do momento, ficou conhecida no país como crítica de rodapé (o nome deriva da posição que esse tipo de texto ocupava na diagramação dos jornais). Essa prática, muito inspirada no modelo francês de críticos-jornalistas como Jules Lemaître e Sainte-Beuve, era taxada, de forma um tanto simplificadora e mesmo pejorativa, como impressionista. O declínio desse gênero nos jornais no Brasil está diretamente ligado ao momento em que a crítica acadêmica toma corpo no País com a promessa de uma análise de caráter mais “teórico” e “científico”.

O crítico literário caruaruense Álvaro Lins (1912-1970), falecido no Rio Janeiro, foi justamente um dos protagonistas desse momento de crise e de transição da crítica no Brasil. Talvez seja esse protagonismo, paradoxalmente, um dos fatores que lhe condenou ao ostracismo intelectual, no final da vida, e ao quase completo esquecimento de sua obra e do seu pensamento nos dias de hoje. O conjunto da obra crítica e historiográfica desse autor, que foi durante mais de 20 anos o crítico mais influente do país – tempo em que manteve seu rodapé no importante Correio da Manhã do Rio de Janeiro –, encontra-se até hoje arbitrariamente relegado, desprezado indistintamente por jornalistas, críticos e acadêmicos. 

Álvaro Lins foi um tipo de intelectual polivalente: jornalista, crítico cultural, historiador, professor, investigador, escritor e diplomata. Era, em resumo, um grande humanista, um polímata: um pensador que não podia conceber a crítica literária como disciplina isolada, nem a literatura sem suas conexões com a realidade histórica e com os demais fenômenos da cultura. Assim, em seu labor de crítico literário, o essencial era a capacidade de conexão entre sua perspectiva – única e intransferível – e as diferentes áreas do conhecimento que investigava. O teor impressionista das análises literárias que Lins realizava, sempre mencionado por seus críticos, não era meramente uma resposta precipitada e subjetiva diante de uma obra artística, mas sim uma cadeia ampla de relações, que incluía a sensibilidade imediata, a classificação, a comparação histórica e, por fim, a valoração estética, que só se fazia possível em estreita correspondência com toda a cadeia de relações mencionada. De fato, sua abordagem marcadamente personalista de crítica era de caráter impressionista, mas isso não impedia a utilização, em seus textos críticos, de conhecimentos históricos, estéticos, artísticos e de metodologias rigorosas de investigação. 

Além disso, o impressionismo crítico se relaciona também à capacidade intuitiva do intérprete, que se faz essencial principalmente no momento da análise de obras contemporâneas, que ainda não foram encaixadas dentro daquilo que chamamos cânone literário. A palavra cânone tem origem grega e se referia a um tipo de régua, um instrumento de medição, portanto. Era exatamente esse o papel que os críticos que militavam nos jornais tinham que cumprir semanalmente: enfrentar-se a obras no momento em que estas eram publicadas, assumindo o constante risco do julgamento de valor, na tentativa de “prever” qual o lugar que esses novos textos iriam desempenhar dentro da dinâmica vida literária. 

Nunca houve por parte de Álvaro Lins um desprezo em relação à teoria literária e à produção da crítica acadêmica, mas ele nunca colocava o método – que considerava uma importante ferramenta – antes da intuição autônoma: pertencia à linhagem dos hermeneutas que buscam no texto literário não somente uma investigação formal, mas a articulação entre o mundo imaterial das ideias e das ficções e o mundo real, da agitação social e das significações e valores individuais.

Interior do livro “História literária de Eça de Queirós”, publicado por Lins em 1939. Foto: Acervo pessoal

Álvaro Lins viveu num momento de crise e de transição na crítica literária brasileira (e mundial). A diminuição da influência e da participação no debate de ideias dos críticos tradicionais – entre os quais se encontrava o crítico pernambucano –, nos jornais e revistas está, pois, relacionada, seja de forma determinante ou indireta, com o momento em que a crítica acadêmica se desenvolve no Brasil com a promessa de um novo paradigma de análise literária, mais teórico e científico. O estilo personalista, livre, digressivo e impressionista de crítica literária, no qual A. Lins era reconhecidamente um mestre (o “Imperador da Crítica”, segundo Carlos Drummond de Andrade), passou a ser sistematicamente rechaçado por alguns dos representantes dessa nova onda teórica que começava a ganhar peso institucional no Brasil. Era recorrente a acusação por parte dos teóricos da literatura de que o humanismo e a abordagem que se utiliza de elementos impressionistas seriam características que marcam um tipo de crítica diletante, ultrapassada, basicamente subjetivista e carente de rigor e método.

De resto, é importante assinalar que outro fator determinante foi, como mencionei no início deste artigo, a perda da centralidade que a literatura tinha na vida cultural do país e no mundo, com a chegada dos novos meios de comunicação audiovisuais. 

Novas perspectivas para a crítica e as lições de Álvaro Lins

No entanto, em face do atual momento de efervescência no mercado editorial brasileiro e das possibilidades que as novas mídias digitais fornecem para a atividade crítica, o juízo de valor sobre obras pode voltar a assumir centralidade e importância fundamental. A profusão inabarcável de lançamentos à espera de divulgação, qualificação e seleção abre um espaço natural em jornais e revistas para diversos modos de abordagem literária – as resenhas, os press releases, os artigos acadêmicos e os ensaios eruditos podem conviver harmoniosamente em uma mesma publicação. Contudo, a velha e boa crítica, carregada das idiossincrasias, polêmicas e de julgamentos de valor, é material raríssimo no nosso jornalismo. A leitura hoje dos ensaios críticos de Álvaro Lins pode ser muito pertinente neste sentido. Será que os leitores contemporâneos repudiam esse tipo de crítica? Penso que não, e basta ver a grande influência e repercussão que os chamados booktubers – muitos deles “impressionistas” – desfrutam atualmente.  

Vivemos uma época bastante diferente daquela em que os rodapés faziam as cabeças do público leitor, e as obras literárias parecem não mais assumir as mesmas funções e ocupar os mesmos espaços na vida das pessoas. A literatura perdeu a centralidade cultural que já possuiu; e está longe de ter a mesma influência e a mesma representatividade. Essa repercussão social que a literatura já teve pode ser retomada? Nesse aspecto, sou pessimista… Isso não significa que os críticos literários caíram na irrelevância, mas somente que ocupam outra posição num mercado cultural que, com o desenvolvimento social, tecnológico e econômico das duas últimas décadas, abriu-se e se tornou muito mais rico e complexo. A efeméride dos 50 anos de seu falecimento pode ser a ocasião ideal para repensarmos o papel que a literatura e a crítica ainda podem desempenhar, e que relevância a leitura de obras literárias ainda pode ter em um tempo como o nosso.

Sócrates e uma reflexão sobre a pandemia

Sócrates e uma reflexão sobre momentos extremos


Sócrates e uma reflexão sobre a pandemia.

A Morte de Sócrates -Jacques-Louis David. Foto: Reprodução.

Momentos antes de ter que ingerir cicuta após ser condenado à morte, Sócrates se livra de suas correntes e chega a uma reflexão “Me fazia mal e agora me dá prazer. Que estranho! O prazer e a dor estão tão próximos um do outro, que quando o homem deseja um, deve sofrer do outro”

Sócrates tinha postura de indagar a todos que acreditavam saber o que significava virtudes como “justiça, belo, bem”. Seu intuito era provar que os ditos sábios nada sabiam, assim como ele. Essa conduta irritava a aristocracia Ateniense, que deu um jeito de se livrar desse “pentelho” acusando-o pelo pretexto de “corromper a juventude e profanar os deuses”.

Sua condenação causa um certo mal-estar, pois fica claro que não é justa. Assim, os discípulos dele conseguem a chance de tirá-lo do destino da morte com a condição de sair de Atenas e não mais voltar. No entanto, Sócrates nega. 

Por que alguém negaria a possibilidade de se manter vivo? Não seria a vida o maior princípio moral? Sócrates abdica da vida em favor da ordem da cidade. De sua virtude. O maior princípio moral para Sócrates é ser um homem virtuoso, respeitar as leis da pólis, mesmo que estas estejam equivocadas. Sócrates deixou-se morrer por seus princípios.

Ora, mas o que podemos tirar disso? 

Sócrates

Cena do filme Sócrates (1971), de Roberto Rossellini. Foto: Reprodução.

Vivemos em um mundo acelerado. Constantemente bombardeados de informações, mensagens, trabalhos e coisas a conquistar. Estar sempre em movimento tornou-se norma. Devemos acordar mais cedo, trabalhar mais, reduzir nosso horário de almoço, talvez almoçar fazendo outra atividade. Mas também temos que comer bem. Fazer exercícios. Porque se não a máquina biológica irá parar, antes mesmo de você conseguir alcançar o sucesso, tornando-se assim em fracasso.

Entretanto, onde fica o espaço para a alma? Não no sentido religioso, mas no sentido singular do indivíduo. Alcançar objetivos, comer bem, manter o corpo em forma, é importante. No entanto, os seres humanos também necessitam de um sistema de valores que vai além do material e fisiológico. Quando a alma é deixada de lado, somos acometidos pelo horror da existência, o niilismo toma conta trazendo o desespero. Talvez em alguns mais cedo, talvez em outros no fim da vida. 

Imersos em nossa modernidade líquida, na qual os valores escorrem entre nossos dedos, nos afastamos de nossa cultura, de nossa tradição, seja com a religião ou em algo que sobreponha o mero materialismo diário.

Vivendo sempre em busca de um fim material, tudo se torna meio. Tornamo-nos escravos do nada. E é em momentos extremos, que temos a oportunidade de enxergar que há um outro lado. Aquele que só conhece a busca pelo prazer superficial, torna-se dormente. Para reconhecer a capacidade alegradora do prazer, é preciso conhecer a dor, assim como refletiu Sócrates.

É na desaceleração que podemos observar que existe um mundo vasto a um palmo do nosso alcance. É na dor que há a chance de reconhecer que os prazeres da alma estão nos pequenos momentos, naquele simples carinho no fim de tarde, no caminhar sob o vento que perpassa seu rosto, no cheiro que exala do encontro da cebola com a manteiga quente, no abraço apertado e aconchegante antes de dormir.

Não acredito que magicamente o mundo se tornará um lugar melhor. Nem, ao contrário de Houellebecq, acredito que se tornará pior. O mundo continuará sendo o mundo. Com suas divergências e contingências. 

Pois a ordem precisa nascer do caos. É através do caos, é tomando consciência do nosso abismo, que surge a chance de encontrarmos a ordem interior. Não existe felicidade sem tristeza. A vida não está, nem de um lado, nem do outro do pêndulo. A vida é o pêndulo. A jornada do pêndulo. O seu movimento, o seu encostar em uma extremidade e outra. Porque no fim, é a falta de movimento que causa frustrações. No fim, são as badaladas que importam.


Sócrates e uma reflexão sobre a pandemia.

A Morte de Sócrates -Jacques-Louis David. Foto: Reprodução.

Momentos antes de ter que ingerir cicuta após ser condenado à morte, Sócrates se livra de suas correntes e chega a uma reflexão “Me fazia mal e agora me dá prazer. Que estranho! O prazer e a dor estão tão próximos um do outro, que quando o homem deseja um, deve sofrer do outro”

Sócrates tinha postura de indagar a todos que acreditavam saber o que significava virtudes como “justiça, belo, bem”. Seu intuito era provar que os ditos sábios nada sabiam, assim como ele. Essa conduta irritava a aristocracia Ateniense, que deu um jeito de se livrar desse “pentelho” acusando-o pelo pretexto de “corromper a juventude e profanar os deuses”.

Sua condenação causa um certo mal-estar, pois fica claro que não é justa. Assim, os discípulos dele conseguem a chance de tirá-lo do destino da morte com a condição de sair de Atenas e não mais voltar. No entanto, Sócrates nega. 

Por que alguém negaria a possibilidade de se manter vivo? Não seria a vida o maior princípio moral? Sócrates abdica da vida em favor da ordem da cidade. De sua virtude. O maior princípio moral para Sócrates é ser um homem virtuoso, respeitar as leis da pólis, mesmo que estas estejam equivocadas. Sócrates deixou-se morrer por seus princípios.

Ora, mas o que podemos tirar disso? 

Sócrates

Cena do filme Sócrates (1971), de Roberto Rossellini. Foto: Reprodução.

Vivemos em um mundo acelerado. Constantemente bombardeados de informações, mensagens, trabalhos e coisas a conquistar. Estar sempre em movimento tornou-se norma. Devemos acordar mais cedo, trabalhar mais, reduzir nosso horário de almoço, talvez almoçar fazendo outra atividade. Mas também temos que comer bem. Fazer exercícios. Porque se não a máquina biológica irá parar, antes mesmo de você conseguir alcançar o sucesso, tornando-se assim em fracasso.

Entretanto, onde fica o espaço para a alma? Não no sentido religioso, mas no sentido singular do indivíduo. Alcançar objetivos, comer bem, manter o corpo em forma, é importante. No entanto, os seres humanos também necessitam de um sistema de valores que vai além do material e fisiológico. Quando a alma é deixada de lado, somos acometidos pelo horror da existência, o niilismo toma conta trazendo o desespero. Talvez em alguns mais cedo, talvez em outros no fim da vida. 

Imersos em nossa modernidade líquida, na qual os valores escorrem entre nossos dedos, nos afastamos de nossa cultura, de nossa tradição, seja com a religião ou em algo que sobreponha o mero materialismo diário.

Vivendo sempre em busca de um fim material, tudo se torna meio. Tornamo-nos escravos do nada. E é em momentos extremos, que temos a oportunidade de enxergar que há um outro lado. Aquele que só conhece a busca pelo prazer superficial, torna-se dormente. Para reconhecer a capacidade alegradora do prazer, é preciso conhecer a dor, assim como refletiu Sócrates.

É na desaceleração que podemos observar que existe um mundo vasto a um palmo do nosso alcance. É na dor que há a chance de reconhecer que os prazeres da alma estão nos pequenos momentos, naquele simples carinho no fim de tarde, no caminhar sob o vento que perpassa seu rosto, no cheiro que exala do encontro da cebola com a manteiga quente, no abraço apertado e aconchegante antes de dormir.

Não acredito que magicamente o mundo se tornará um lugar melhor. Nem, ao contrário de Houellebecq, acredito que se tornará pior. O mundo continuará sendo o mundo. Com suas divergências e contingências. 

Pois a ordem precisa nascer do caos. É através do caos, é tomando consciência do nosso abismo, que surge a chance de encontrarmos a ordem interior. Não existe felicidade sem tristeza. A vida não está, nem de um lado, nem do outro do pêndulo. A vida é o pêndulo. A jornada do pêndulo. O seu movimento, o seu encostar em uma extremidade e outra. Porque no fim, é a falta de movimento que causa frustrações. No fim, são as badaladas que importam.


Sócrates e uma reflexão sobre a pandemia.

A Morte de Sócrates -Jacques-Louis David. Foto: Reprodução.

Momentos antes de ter que ingerir cicuta após ser condenado à morte, Sócrates se livra de suas correntes e chega a uma reflexão “Me fazia mal e agora me dá prazer. Que estranho! O prazer e a dor estão tão próximos um do outro, que quando o homem deseja um, deve sofrer do outro”

Sócrates tinha postura de indagar a todos que acreditavam saber o que significava virtudes como “justiça, belo, bem”. Seu intuito era provar que os ditos sábios nada sabiam, assim como ele. Essa conduta irritava a aristocracia Ateniense, que deu um jeito de se livrar desse “pentelho” acusando-o pelo pretexto de “corromper a juventude e profanar os deuses”.

Sua condenação causa um certo mal-estar, pois fica claro que não é justa. Assim, os discípulos dele conseguem a chance de tirá-lo do destino da morte com a condição de sair de Atenas e não mais voltar. No entanto, Sócrates nega. 

Por que alguém negaria a possibilidade de se manter vivo? Não seria a vida o maior princípio moral? Sócrates abdica da vida em favor da ordem da cidade. De sua virtude. O maior princípio moral para Sócrates é ser um homem virtuoso, respeitar as leis da pólis, mesmo que estas estejam equivocadas. Sócrates deixou-se morrer por seus princípios.

Ora, mas o que podemos tirar disso? 

Sócrates

Cena do filme Sócrates (1971), de Roberto Rossellini. Foto: Reprodução.

Vivemos em um mundo acelerado. Constantemente bombardeados de informações, mensagens, trabalhos e coisas a conquistar. Estar sempre em movimento tornou-se norma. Devemos acordar mais cedo, trabalhar mais, reduzir nosso horário de almoço, talvez almoçar fazendo outra atividade. Mas também temos que comer bem. Fazer exercícios. Porque se não a máquina biológica irá parar, antes mesmo de você conseguir alcançar o sucesso, tornando-se assim em fracasso.

Entretanto, onde fica o espaço para a alma? Não no sentido religioso, mas no sentido singular do indivíduo. Alcançar objetivos, comer bem, manter o corpo em forma, é importante. No entanto, os seres humanos também necessitam de um sistema de valores que vai além do material e fisiológico. Quando a alma é deixada de lado, somos acometidos pelo horror da existência, o niilismo toma conta trazendo o desespero. Talvez em alguns mais cedo, talvez em outros no fim da vida. 

Imersos em nossa modernidade líquida, na qual os valores escorrem entre nossos dedos, nos afastamos de nossa cultura, de nossa tradição, seja com a religião ou em algo que sobreponha o mero materialismo diário.

Vivendo sempre em busca de um fim material, tudo se torna meio. Tornamo-nos escravos do nada. E é em momentos extremos, que temos a oportunidade de enxergar que há um outro lado. Aquele que só conhece a busca pelo prazer superficial, torna-se dormente. Para reconhecer a capacidade alegradora do prazer, é preciso conhecer a dor, assim como refletiu Sócrates.

É na desaceleração que podemos observar que existe um mundo vasto a um palmo do nosso alcance. É na dor que há a chance de reconhecer que os prazeres da alma estão nos pequenos momentos, naquele simples carinho no fim de tarde, no caminhar sob o vento que perpassa seu rosto, no cheiro que exala do encontro da cebola com a manteiga quente, no abraço apertado e aconchegante antes de dormir.

Não acredito que magicamente o mundo se tornará um lugar melhor. Nem, ao contrário de Houellebecq, acredito que se tornará pior. O mundo continuará sendo o mundo. Com suas divergências e contingências. 

Pois a ordem precisa nascer do caos. É através do caos, é tomando consciência do nosso abismo, que surge a chance de encontrarmos a ordem interior. Não existe felicidade sem tristeza. A vida não está, nem de um lado, nem do outro do pêndulo. A vida é o pêndulo. A jornada do pêndulo. O seu movimento, o seu encostar em uma extremidade e outra. Porque no fim, é a falta de movimento que causa frustrações. No fim, são as badaladas que importam.

O paradoxo entre a experiência tátil e a transição nos hábitos de consumir cultura

O isolamento social e as transformações tecnológicas. Como pensá-las?


Foto: divulgação

Muitos foram os processos de transição e transformação da cultura. A história nos mostra como as sociedades se dissolveram e se reinventaram em momentos de crise social. Não obstante, a produção cultural, de forma gradual ou em movimento ininterrupto, não cessa de produzir obras de arte que vão da literatura às artes visuais, estabelecendo e fixando, na história humana, tudo aquilo que nos é sensível e que partilhamos como atores de um grande organismo que nunca para e sempre se renova diante dos eventuais momentos de significantes incertezas. 

Nas últimas décadas, testemunhamos novos modos de socialização, assim como novos meios de consumo cultural. O digital chegou e delimitou território nas sociedades e relações sociais. Como dimensionar se já nos adaptamos aos novos meios, aos novos acordos sociais digitais? Historicamente, as comunidades humanas levaram muitas décadas para se restabelecerem diante das mudanças, outrora alavancadas pelas grandes guerras territoriais. No século XXI, nos deparamos com um inimigo invisível a olho nu, mas que instaurou, em poucos dias, um caos global de proporções ainda não verificáveis. 

A pandemia do Covid-19 nos posiciona diante de um espaço e tempo que exige de nós uma reflexão relativa aos locais que ocupamos. Surgem, então questionamentos. Nos perguntamos como proceder em um cenário de isolamento social que nos impõe uma individualidade extremada? Como dar conta das demandas e acordos sociais? Nos últimos meses, ainda que careçam de reflexões mais aprofundadas, assistimos a uma mudança significativa de hábitos. O contato humano agora se dá sob a mediação de redes sociais digitais – ainda que isso não seja uma novidade. Visto que nosso contato com o que se produz culturalmente – e não apenas culturalmente – já vem sendo mediado pelo digital há alguns anos, mas, agora, sob o espectro de um vírus, ele se faz único e exclusivo.

Em Doubles Vies (2018), traduzido no Brasil como Vidas Duplas, produção do ex-crítico de cinema, Oliver Assayas, por exemplo, a discussão percorre os meandros dos novos meios de consumir e experimentar a produção literária. A trama nos mostra, por meio de cenas de jantares – tipicamente franceses -, uma classe burguesa esclarecida, de uma geração outra, habituada à leitura mediada pelo objeto físico, palpável, discutindo as atuais possibilidades de contato tátil com a produção literária e os desafios postos, para o mundo editorial, que atravessa uma crise transicional. O sentimento nostálgico imprime um período de incertezas, de adaptação aos novos meios, à cultura do digital, que apela à praticidade e ao baixo custo. O debate insufla certa complexidade e envolve diversas camadas da produção editorial, econômica e social. 

Dois personagens do filme, o editor Alain (Guillaume Canet) e a jovem assistente e amante, Laure (Christa Théret), demarcam bem duas posições presentes no binarismo da cultura do livro impresso e dos digitais. Alain ocupa o lugar de um sujeito que carece de ajuda no enfrentamento dos percalços que permeiam a nova dinâmica editorial. A jovem traz, em seu espírito, a ânsia do novo, da transformação e ressignificação das relações de consumo da produção cultural. Ao passo que Alain permanece em resistência em relação aos novos meios – os famigerados blogs e e-book’s -, Laure encerra sua empreitada e parte para uma editora aberta às novas tendências do mercado editorial com foco no digital. O debate proposto na narrativa se faz cada vez mais necessário, principalmente em tempos de isolamento social, em que a mediação entre os sujeitos só se faz possível por meio de aparatos tecnológicos.  

Cena de Vidas Duplas. Foto: reprodução

Existem, ainda, dois pontos que merecem reflexão. O primeiro diz respeito à importância de um equilíbrio entre duas gerações, uma que se faz resistente em meio às mudanças globais advindas dos novos meios tecnológicos e outra que tece um discurso simplista pautado apenas no apelo mercadológico acerca das mudanças. O outro está associado ao nosso modo de conviver em sociedade, a pensar em como podemos resistir a um movimento que se faz totalitário. Nos resta a rendição? Mais lógico seria nos apropriarmos das infinitas possibilidades lançadas pelo novo, assimilarmos o que há de mais positivo nas novidades tecnológicas. 

Pensando na história da arte, que nos oferta plausíveis exemplos de cenários de transição social; jovens artistas de séculos passados, debateram-se para visualizar uma fórmula eficaz que contemplasse técnicas dos tempos clássicos ao novo, ao contemporâneo, que não cessa e se dá em um movimento de constantes adaptações e readequações; nessa instigante história, muitos foram os Alains e Laures, que contribuíram na mediação dos novos tempos. Me aproprio de João Cabral para melhor compor a reflexão acerca da necessidade de estarmos juntos, ao passo que separados pouco avançaremos na caminhada da renovação:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
(João Cabral de Melo Neto, 1966) 

Ao atravessarmos essa barreira imposta pelo coronavírus, voltaremos a nos relacionar como nos tempos de outrora? Como se dará o alvorecer após esse distanciamento social – posto agora pelo Covid-19 -, mas que vem sendo anunciado há décadas, como no filme de Assayas, cujo principal objetivo é mostrar a complexidade inerente às renovações sociais, das quais somos os principais atores e responsáveis pela organização do meio em que habitamos. As relações humanas clamam por atenção. Depois do isolamento nos restará apenas as relações virtuais? A experiência tátil será soterrada ou contemplaremos um equilíbrio dessas forças?  

Ivan Ilitch somos nós

Em meio à pandemia do coronavírus, uma releitura de “A morte de Ivan Ilitch” de Liev Tolstói


Liev Tolstói foi um escritor russo, autor de livros como Ana Kariênina e Guerra e Paz, entre outros romances, contos e novelas. Foto: Divulgação.

Aparentemente, cresceram as buscas por “A peste”, de Albert Camus. É também notável o crescimento das vendas de livros como “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “Estação Onze”, de Emily St. John Mandel; desde que se iniciou o surto mundial da Covid-19, as pessoas passaram a ler mais sobre pandemias. Não todas! Algumas preferem buscar o alento imaginativo da literatura para refugiarem-se: Stephenie Meyer vai lançar mais um livro para a saga “Crepúsculo” . Vi uma extraordinária quantidade de pessoas adultas nas redes sociais relendo “Harry Potter ” e outros clássicos juvenis; de repente, estamos sob o agridoce feitiço da nostalgia. Também vi pessoas que, a propósito, pouco leem, comprando livros políticos como “1984” e “A revolução dos bichos”, de George Orwell; assistindo ao desastre – longamente iniciado! – que é o atual governo, sentimos a necessidade de pensar a história, o fascismo, e como que chegamos à tão degradante ponto?! Por outro lado, vi gente que não consegue mais ler. As atividades silenciosas e reflexivas tornaram-se tão labirínticas no nosso mundo frenético e globalizado que, quando este mesmo mundo pára, e paramos junto com ele, o silêncio e a reflexão nos aborrecem tremendamente.

Enquanto escrevo esta coluna, há 66 dias que não vou sequer até a calçada. Seguramente, é a maior quantidade de tempo que passei dentro de casa, do quarto para cozinha, da cozinha para sala de estar e, novamente, para o quarto…Durante esse período passei por todas as fases literárias citadas acima. A primeira delas, assim que as notícias formais e os trending topics do Twitter passaram a me sobrecarregar, foi a desesperada tentativa de esquecer a situação atual e ler desenfreadamente. Depois, no suprassumo da consequente nostalgia que persegue os isolados, comecei a reler alguns dos meus livros preferidos da infância e adolescência, experiência das mais interessantes e menos estéticas: alguns livros devemos deixar nos bons (e pouco exigentes) dias da puberdade. Mais tarde, já um pouco afastada dos noticiários, me peguei adicionando inúmeros livros sobre surtos virais na minha lista da Amazon, excessivamente curiosa acerca dos padrões históricos das pandemias. E então, motivada pela culpa do deliberado desligamento das notícias escabrosas do país, me deparei às voltas com  Žižek, Krenak e Marx – atualmente penso mais em como “tudo que é sólido desmancha no ar”. Finalmente, em meio ao torpor e a inquietação da excruciante situação nacional, à beira de uma ressaca literária, fui até a estante, meio nostálgica e meio sombria, e decidi reler “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Liev Tolstói. 

A releitura desse, que é um dos livros mais importantes na minha formação como leitora, foi, sem dúvidas, acertada. Em face da trajetória de um homem que, sozinho, espera a morte, sob o constante frenesi da hipocondria e o entorpecimento da sensação de negação e irrealidade, me perguntei: O que acontece quando nossos medos são válidos? Durante uma pandemia, a morte parece mais palpável, e os temores que a acompanham parecem menos com mania e obsessão para, subitamente, se tornarem legítimos. Logo, passamos a consumir o fim, o trivial ou o apocalíptico mais vorazmente. Claro, a morte sempre foi um tema de grande interesse público e continuará sendo, pois ainda em sua ausência, se faz inerente à nossa vida. Assim, poderia ter relido outros livros (Todos os homens são mortais, O diário de um homem supérfluo, Hamlet, O lobo do mar…), e pensei em todos eles. No entanto, o que me fez escolher essa novela de Tolstói, além da minha característica preferência pelo autor, foi a vontade de observar como uma vida simples se depara com a doença e com a morte e, mais importante, sente medo; experiência tão distinta e, curiosamente, similar à nossa, ainda que não estejamos doentes. O que me interessava, portanto, era pensar o desafio da ordinariedade, pois é com ela que estamos isolados em casa: nossa vida, por mais corriqueira e pacata que pareça, em constante revista. Parece vulgar demais falar da necessidade de reflexão durante a quarentena (assunto tão comum nos meus grupos familiares do Whatsapp), mas não é necessidade, é uma consequência do isolamento e, afinal, que há de mais vulgar que nós mesmos? 

——

A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e, contudo, das mais terríveis.” 

Alto funcionário público, pertencente à burguesia russa, casado comodamente com uma mulher que o exaspera, pai de filhos que pouco o concernem, obcecado pelo trabalho e por sua posição social, Ivan Ilitch vive como qualquer senhor da classe média moscovita do século XIX. Depois de uma decepção profissional, sobe de cargo e o aumento de salário é suficiente para que compre uma nova casa, onde decide decorar os aposentos originalmente, com todas as qualidades da moda atual, claro. Durante a decoração, no entanto, machuca o lado esquerdo do corpo e adoece: encontra a morte pela primeira vez e toda a sua confortável vida perde o sentido. 

Primeiro, não há sintomas e orgulha-se de sua saúde: “Felizmente eu sou um tanto atleta. Outro no meu lugar, estaria morto.” – a semelhança com certo discurso contemporâneo é angustiante. Em seguida, ao perceber-se doente, irrita-se. É uma inconveniência tamanha, que não cabe nos horários de Ivan Ilitch. Mas ao questionar-se sobre a seriedade do problema, compreende que a situação é mais que apenas inconveniente – lembremos que a “gripezinha” já matou mais de 16 mil pessoas só no Brasil.  Por conseguinte, de pronto aterroriza-se. Sente-se demasiadamente só e a saúde e normalidade costumeira das outras pessoas o perturba. De médico em médico, sem a certeza de diagnóstico, cai em superstições,  questiona a ciência, surpreende-se com a própria insanidade. De início, o medo expressivo em adição à aparente regularidade do comportamento das pessoas ao seu redor, parece hipocondria e isola-se.

No isolamento da morte, então, acha o sofrimento de tal intensidade que parece irreal: “Não é possível que todos os homens estivessem condenados a sofrer um medo assim”. E, em um dos momentos que considero dos mais grandiosos na obra de Tolstói, Ivan Ilitch relembra o silogismo de Kiesewetter: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”. O protagonista, homem razoável, nota que a mortalidade de Caio é nada menos que plausível. Não obstante, a sua, tão homem quanto Caio, é impossível. Quem é Caio de quem nada sabemos? Quais são suas lembranças, de quê brincou na infância, por quem e pelo quê se apaixonou? Por qual ideia discutiu? Caio não tem nenhuma de nossas particularidades. E, apesar disso, na primeira vez que li esse trecho, achei que Caio éramos nós. Depois da releitura, contudo, penso que não somos Caio. Caio é, de fato, uma abstração científica e racional: nós somos a simplicidade, a vulgaridade e a tragédia de Ivan Ilitch. 

——

Evidentemente, nem todo mundo vai morrer de coronavírus, apesar dos áudios hiperbólicos que às vezes recebo no Whatsapp. Esta não é a primeira e nem será a última pandemia, além de que, muitos de nós não teremos grandes problemas se infectados. Todavia, não sabemos exatamente para que país voltaremos depois disso e um surto como esse é bem mais que só uma crise sanitária. Decerto ficamos mesmo mais fatalistas.

Lembro do primeiro capítulo do livro, que inicia-se com a descoberta da morte de Ivan pelos seus amigos e colegas de trabalho. Acompanhamos, sobretudo, Piotr  Ivánovitch, conhecidamente amigo do protagonista, obrigado à ir ao funeral, sem muita disposição para isso. Na presença do conhecido morto sente-se chocado de medo, mas, depois, ao encontrar-se na sala contígua com o indiferente Schwarz, esquece-se da morte, destino de Ivan Ilitch e não dele, e vê-se muito tentado a jogar cartas. Contudo, aparece a viúva que, sabendo ser ele amigo do falecido e, também, advogado, o chama aos aposentos do marido para uma conversa. A mulher conta dos assustadores últimos dias do morto e Piotr, novamente, perturba-se: “Três dias de horríveis sofrimentos e depois a morte! É coisa que pode acontecer a mim também, a qualquer momento!”. Mas ao fim da conversa, sai Piotr e percebe que ainda é cedo; vai à casa de um amigo vivo jogar uma partida. Em contrapartida, no isolamento não temos a mesma sorte de Piotr. Sob o constante fluxo de notícias intimidantes, bem como, aos primeiros rumores da infecção de nomes conhecidos, nos deparamos com a morte e, diante do abismo coletivo, olhamos para o nosso abismo individual, sem sequer poder sair e, quem sabe, mitigar as preocupações. Em vez disso, temos que desinfetar as compras, higienizar o celular, passar álcool nas maçanetas, checar se nosso parente do grupo de risco tem seus talheres limpos e separados…