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Godard – 10 filmes do iconoclasta do cinema

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Se a realização é um olhar, a montagem é um batimento do coração. Antever é próprio de ambos: mas o que uma procura antever no espaço, a outra procura no tempo.

Jean-Luc Godard – Cahiers du Cinéma nº 65

No final da década de 40, um jovem intelectual e ávido leitor franco-suíço descobria nas salas escuras de Paris uma intensa paixão pela imagem em movimento. Em 1952, junto com seus amigos cinéfilos, conhecidos como “jovens turcos” por suas ideias radicais, Jean-Luc Godard passou a escrever para a revista Cahier du Cinéma onde publicava textos críticos nos quais atacavam o chamado “cinema de qualidade” francês e defendiam e glorificavam o cinema clássico americano baseado na sua tese de “cinema de autor”, no qual o diretor é o artista principal, aquele que escreve com sua câmera. 

Essa fase crítica foi de extrema importância na obra de Godard como diretor. Mesmo em sua carreira de cineasta, ele nunca deixou de ser uma espécie de crítico, um artista que reflete sobre seu ofício. 

Nos seus filmes, Godard examina e comenta sobre o  processo de criação, a história e a mitologia do cinema. Seu espírito iconoclasta aparece em sua desconstrução da linguagem na qual o intuito é investigá-la, estudá-la através dos fragmentos captados por sua lente. 

Já no início de carreira surgiu como um dos promissores cineastas da Nouvelle Vague – famoso movimento do cinema moderno – no qual sua câmera funcionava como uma espécie de martelo usado para demolir a mise-en-scène clássica. Nessa fase, Godard buscou evidenciar a sujeira, romper com o cinema invisível, direcionar suas lentes para a costura do vestido, sobretudo com sua estilização da montagem fragmentada. Nesse sentido, grande parte da obra de Godard gira em torno de fazer um cinema consciente de que é cinema.  

Em uma difícil missão,  trago aqui dez filmes para iniciar na extensa filmografia deste que é um dos cineastas mais icônicos da história da sétima arte.

ACOSSADO (1960)

Esse é um dos filmes mais relevantes de Godard e seu primeiro longa-metragem. O filme acompanha um criminoso que mata um policial e foge para Paris, onde se encontra com uma mulher enquanto é perseguido pela polícia. A obra tem várias referências do cinema policial americano e possui um roteiro livre, com uma mise-en-scène quase documental, repleto de  improvisações dos atores, além da inovação nos diversos jump cuts (cortes em um mesmo plano) e na decupagem fragmentada. Acossado ficou conhecido como um dos filmes mais importantes da Nouvelle Vague e está presente em quase todos os almanaques de cinema.

VIVER A VIDA (1962)

Ao contrário de Acossado, essa obra possui um maior foco na narrativa e, através de doze contos episódicos, acompanhamos uma mulher parisiense em sua entrada no mundo da prostituição. Mesmo mantendo sua decupagem mais livre, os planos fixos e a direção mais formalista marcam uma abordagem mais metódica de Godard.

O DESPREZO (1963)

Paul Javal é um escritor que é contratado para refazer – com um toque mais comercial – o roteiro de um novo filme sobre Ulisses, que será dirigido por Fritz Lang – interpretado por ele mesmo. Porém, durante a produção, o casamento de Paul com Camille – interpretada por Brigitte Bardot – entra em crise e vai se desintegrando pouco a pouco, assim como sua consciência de artista. O filme discute a relação entre a arte como produto e como um movimento interior do ser, desse modo, Godard insere dentro da obra reflexões e questionamentos sobre o cinema. Nesse filme ele faz um movimento dialético, busca um realismo com planos sequências longos, mas, após estabelecer esse clima naturalista, ele rompe isso totalmente – em momentos pontuais – inserindo uma montagem estilizada, desconexa e irreal.

O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (1965)

Um dos filmes de Godard mais conhecidos pelo público geral, a obra acompanha Pierrot, um homem entediado com a superficialidade à sua volta, que foge de Paris com uma mulher perseguida por assassinos da Argélia, e vai até o Mar  Mediterrâneo onde levam uma vida afastados de regras e convenções. O filme gira em torno do movimento, de um certo escapismo e é caracterizado por sua montagem fragmentada. Ao contrário das obras anteriores, nesse filme a mise-en-scène possui uma estética bastante plástica e passa uma certa leveza juvenil, explorando uma grande riqueza visual através das cores, das panorâmicas da paisagem mediterrânea e da direção de arte. 

A partir da metade dos anos 60, Godard cria o Grupo Dziga Vertov junto com Jean Pierre Gorin com o intuito de fazer filmes  políticos. Mesmo nessa fase de militante, que dialoga com o momento vivido pela França com os protestos de jovens e trabalhadores, não há um apelo sentimental e panfletário em suas obras. Em vez disso, Godard propõe reflexões conceituais sobre os temas discutidos – sua lente ainda é dotada de um caráter ontológico.  Seus filmes são confusos e fragmentados – o que é motivo de crítica por muitos – porém ainda assim possuem uma evolução rítmica bem articulada e elementos que juntos criam um universo de possibilidades em seus significados.

A CHINESA (1967)

Um pequeno grupo de estudantes franceses estuda Mao com o intuito de descobrir sua posição no mundo e de como transformar o mundo em uma comunidade maoísta através terrorismo. Neste filme Godard explora uma mise-en-scène teatral a partir de cenários e atuações “artificiais”. Mesmo tratando de temas ideológicos como o maoísmo, não há um didatismo comumente visto em filmes desse gênero, e a desconstrução narrativa característica de seu cinema ainda está presente.

TUDO VAI BEM (1972)

Através da vida de um casal em Paris, essa obra reflete sobre relacionamentos e revoluções e aborda uma greve em uma fábrica e a situação dos trabalhadores nela. O filme possui um teor mais teatral, chegando até a mostrar cenários como palcos em momentos pontuais. Durante as filmagens, Godard sofreu um sério acidente que o deixou em coma, por conta disso o filme foi mais dirigido por Jean-Pierre Gorin do que ele.

Após sua fase política, Godard junto com sua esposa Anne-Marie Miéville, outra cineasta, fundaram um estúdio de experimentações audiovisuais chamado Sonimage, no qual produziram trabalhos para a televisão focado na experimentação digital. 

FRANCE/TOUR/DÉTOUR/DEUX/ENFANTS (1977)

Série produzida para a tv francesa, é uma das mais importantes desta fase. Nessa série, crianças são entrevistadas e dialogam sobre perguntas variadas, do cotidiano ao existencial. Através desse formato, há uma reflexão sobre elementos essenciais da linguagem e da comunicação Além disso, também há uma crítica ao ambiente urbano e à civilização.

Já na década de 80 Godard entra em uma fase na qual seu cinema mistura elementos das fases anteriores, como o narrativo, o político e da experimentação em vídeo. 

SALVE-SE QUEM PUDER (1980)

Primeiro grande longa de Godard após a fase política, é um exame das relações sexuais, em que três protagonistas interagem de diferentes maneiras e combinações. A obra é filmada em película, no entanto possui características da montagem em vídeo, como pausas nas imagens e slow motion. Além disso, também há um retorno à premissa da mulher que vende seu corpo, temática exibida em filmes da Nouvelle Vague.

PAIXÃO (1983)

Nessa obra, Godard nos insere em um set de filmagem e explora a natureza do trabalho, do amor e da produção cinematográfica.  Ele recria pinturas clássicas com os próprios atores e as coloca em outra dimensão, tendo um “filme dentro do filme” e reconstrói com fidelidade os elementos das pinturas de artistas como Rembrandt e Goya, principalmente com o uso da luz, que cria uma nova dimensão a essas obras . Também há um viés político e narrativo, sobretudo quando se foca na personagem de Isabelle Huppert, que interpreta uma operária.

Nos últimos anos Godard passou a fazer filmes mais ensaísticos, como documentários que misturam linguagem poética, cenas de ficção e imagens de arquivos. A obra que mais se destaca nesse período é:

ADEUS À LINGUAGEM (2014)

Filme experimental gravado em 3D, possui cenas de ficção – na qual apresenta um paralelo entre um casal e um cachorro-, no entanto, a beleza e riqueza do filme está na exploração imagética, no apuro sensível de misturar o ficcional e o documentário, de fundir linguagens totalmente diferentes em uma mesma obra. Podemos enxergar esse filme como uma síntese do cinema de Godard, no qual sempre busca explorar a riqueza do cinema, seu não determinismo, sua capacidade de, mesmo através do uso de diversos elementos à primeira vista excludentes, jamais perder sua essência sensorial e simbólica.

Alfredo Bosi, um dos grandes nomes da crítica literária, morre aos 84 anos

“Louvo a praxe desta e de todas as academias pela qual cada novo eleito dirige a palavra não só aos confrades que o estão acolhendo, mas também aos companheiros que se foram, convidando-os a retornar, ainda que por breves momentos, à companhia dos que os conheceram em carne e osso, ou apenas pelo testemunho dos seus escritos. A memória que, no verso de Camões, ‘os homens desenterra’, é, neste caso, o mais grato dos deveres. É minha vez de convidar-vos a me acompanhar nesta viagem de reconhecimento”

(Alfredo Bosi em seu discurso de posse na cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras)

Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras e professor da USP,  morre de Covid-19 | Jovem Pan
Alfredo Bosi também era professor da USP e membro da Academia Brasileira de Letras.

Um nome que certamente todos os acadêmicos das Letras reconhece: Alfredo Bosi. Um dos maiores críticos da literatura brasileira, que com seu discurso mediador orientou os alunos de Letras a um estudo mais aprofundado e um enfoque mais ligado à dimensão social da literatura por parte da crítica.

História concisa da literatura brasileira (1970), normalmente é o livro em que temos o primeiro contato com o Alfredo Bosi na faculdade de Letras, um livro fundamental para todos que se propõem a começar a compreender a literatura brasileira, do período colonial até as tendências contemporâneas. Em outra obra de referência para a área, Dialética da colonização (1992), baseado nas interpretações dos intelectuais de 30, o crítico busca caracterizar historicamente os aspectos que constituem o Brasil fomentando uma reflexão sobre a situação cultural do nosso país.

Além disso, ainda sobre a importância do legado nas obras de Alfredo Bosi para a crítica literária e para nossas letras, na parte introdutória de O pré-modernismo (1966), Bosi, de forma sucinta, dialoga sobre o período cultural que se estende nas manifestações realista-parnasiana e do simbolismo, período de transição que foi o pré-modernismo, que precedem o modernismo brasileiro. Certamente as obras dele são referência para mim e para os estudantes de Letras, a quem o Bosi dedica muitas de suas obras. é uma grande perda, lamentável ainda mais pelas circunstâncias.

É um grande prazer cursar Letras, pelo oficio e pelos grandes nomes dos críticos que fazem parte da vida acadêmica dos alunos de letras, que através dos estudos dos principais representantes de cada período da nossa literatura, nos ajuda a entender a sociedade, cultura e política, com grande lucidez crítica.

O professor Bosi se torna eterno. Em seu discurso de posse a primeira frase dita por Bosi foi “A primeira palavra que me cabe dizer aos confrades desta Casa de Machado de Assis é a mais simples e ao mesmo tempo a mais densa: – obrigado!”. Assim, como estudante de Letras que tem a honra de estudar as obras do Alfredo Bosi, e por todo seu legado na literatura, eu digo: obrigada!

Religião e feminismo em ‘A bruxa’

Cartaz de divulgação do filme. Divulgação.

Anya Taylor-Joy, vencedora do Globo de Ouro por interpretar Beth Harmon em O gambito da rainha (2020), aclamada série da Netflix, vem ganhando cada vez mais espaço nas telas de cinema. Com apenas 24 anos, a atriz é dona de um currículo invejável, e dentre seus principais trabalhos está A bruxa (2015), de Robert Eggers, um dos meus filmes favoritos, e um terror psicológico que pode fazer o telespectador repensar muitas de suas crenças.

Expulsos por heresia do povoado em que viviam, uma família composta pelo patriarca William (Ralph Ineson), a matriarca Katherine (Kate Dickie), e mais cinco filhos, peregrinos em pleno século XVII, na nova Inglaterra, se dirigem a uma floresta, onde se isolam para manter uma plantação de milho. Ao chegarem no local, o medo vem à tona quando Samuel, filho recém-nascido do casal, é raptado das mãos de Thomasin (Anya Taylor-Joy), protagonista da trama. A partir daí, inicia-se uma série de sinais realizados por forças sombrias e desconhecidas. 

O longa de Robert Eggers – produzido pela brasileira RT Features, que dispôs de um baixo orçamento para as gravações -, traz consigo um  terror psicológico sem derramamento de sangue na tela. The Witch utiliza dos artifícios da época para dar o mistério necessário às suas cenas cinzentas. Ao ser ambientado no século XVII, época em que a famosa “caça às bruxas” estava constantemente presente, toda e qualquer ação externa ou em protesto à igreja ou à religião católica era considerada bruxaria.

Dando o tom do filme, Eggers escolhe uma frase marcante de um dos personagens principais da trama para caracterizá-la: “não é fácil se levantar em dias cinzentos, o diabo mantém fechados nossos olhos”. É o que comenta William, enquanto trabalha na plantação de milho com Caleb (Harvey Scrimshaw), seu filho do meio. A fala resume a iluminação e fotografia do filme, com imagens sem saturação, advindas de velas dentro do claustrofóbico casebre da família, dando um ar sombrio e presenteando a produção com cenas escuras e cobertas de fumaça, alusões prováveis a presença constate do diabo naquele rincão. A mata é sempre ressaltada, desde o primeiro momento, como se realmente algo estivesse esperando pelos protagonistas dentro da floresta, observando-os. Essa sensação vem de cenas focadas nas árvores, ao decorrer do filme, e com a presença de um fundo musical lúgubre (a música, curiosamente, só está presente em takes onde a floresta é o foco).

A montagem é organizada em referência à histórias coloniais que culminaram no julgamento de mulheres consideradas bruxas. Os ataques eram causados pelo fanatismo religioso, representado pela família, e resultou em mulheres queimadas nas fogueiras. Tocando no ponto principal do filme, Thomasin, a filha mais velha, em seus prováveis 15 anos, começa a apresentar os primeiros sinais de mudança corporais com a puberdade, e acaba despertando sentimentos confusos no irmão mais novo, e até mesmo no pai. A perseguição da mãe, acusando-a de diversas façanhas, faz com que a menina se sinta sozinha e odiada em sua própria casa. O filme retrata a luta diária e exclusão de Thomasin por ser acusada de bruxaria por seus pais e irmãos.

Anya Taylor-Joy na produção de Eggers. Divulgação.

Se o espectador assiste A bruxa com os olhos voltados para “um filme de terror satânico”, não vai perceber todo o peso histórico das acusações à personagem de Joy. A produção é totalmente voltada para o psicológico dos personagens e, consequentemente, de quem a está assistindo. A primeira vez que vi, me perguntei porque era considerado um filme de terror, até entender que na verdade não existe nenhum “ser sombrio”, a ameaça é a própria família da menina, que com todo o julgamento religioso, se auto destrói. 

O longa surpreende ao fugir dos filmes de terror clichês, fazendo com que o espectador se identifique com a trama, que é de uma premissa verossímil. Eggers surpreende pelo bom gosto ao escalar o elenco infantil extremamente talentoso, a bela construção de imagens e a progressão inteligente do roteiro, fazendo com que ao assistir, nós nos sintamos presos e inconformados com as atitudes da família e seu fanatismo religioso.

Cuidado, a partir de agora contém spoilers. Se não assistiu ao filme, pare por aqui.

O ápice do filme vem com a morte de Caleb que, por meio de magia, tem sua alma entregue ao “mal”. Ao acusarem Thomasin de ser a responsável pelo ato, os pais trancam a menina e seus irmãos gêmeos no celeiro com “Black Phillip”, o bode preto da fazenda. A cena mostra a lenda de que bruxaria e satanismo estão completamente ligados, sendo a bruxa representada por uma mulher velha que se transforma em animais para seduzir e amaldiçoar os homens. Os acontecimentos decorrentes, fazem com que o espectador se pergunte “quem é a bruxa?”, trazendo assim a deixa para a cena final, uma das mais belas e significativas imagens de todo o longa. 

O foco é dado na morte da mãe por Thomasin, que se livra de todo o seu passado sombrio e de sofrimento. O sentimento de liberdade é retratado na personagem que, ao matar a mãe, tira seu vestido sujo de sangue e adormece. Após acordar encontra-se com o bode e o desejo de se juntar às bruxas, sendo esta a cena mais representativa de todas. Thomasin e seu coven, desnudos e cantando ao redor do fogo, se elevam, voando, numa ação que podemos interpretar como a liberdade da mulher, com seus corpos, com suas escolhas, com seu próprio ser. A menina se opôs a toda sua realidade e passa a enxergar o mundo com outros olhos, olhos de bruxa. Uma representação impecável do feminismo e do julgamento da família, que não sabe lidar com a presença de uma jovem mulher dentro de casa, as acusações de bruxaria remetem a tantas mulheres queimadas na Idade Média, simplesmente por serem sábias ou até mesmo por cozinhar. O filme traz a liberdade feminina, a liberação de amarras antigas e enraizadas, e reflete como os entes da família podem se tornar os grandes vilões na vida de uma jovem mulher.

Ivan Bulhões: o legado do “rei do forró”

Ivan Fernandes Bulhões. Foto: Izaías Rodrigues/Divulgação.

É em meio a um mês de março devastador para todo o Brasil, com as mortes diárias em decorrência da COVID-19 batendo recordes assustadores, que Ivan Fernandes Bulhões faleceu, deixando as “águas deste março” ainda mais salgadas. O célebre radialista e compositor estava internado desde o último dia 7 do mês em decorrência de um acidente vascular cerebral e, no dia 20 de março, não resistiu.

Contudo, não é certo dizer que apenas a partir de sua morte, Ivan Bulhões entra para a história. O “rei do forró” – como ficou conhecido dentro do meio forrozeiro da região por ajudar a divulgar e lançar diversos artistas do gênero – começou a fazer parte da história do rádio, do estilo musical e de Caruaru e região desde que chegou na capital do Agreste em 1962.

Apesar de ter construído sua carreira no rádio e na cultura em Caruaru, Ivan Fernandes de Bulhões era alagoano. Ele nasceu no dia 12 de março de 1930 na Usina Utinga Leão, no município de Rio Largo, em Alagoas, a quase 30 km da capital do estado, Maceió. Dos sete aos 14 anos morou na capital alagoana até que, em 1944, chegou a Recife com planos de ir para o Rio de Janeiro, onde sua família tinha parentes. Entretanto, após seu pai conseguir emprego na Base Aérea do Recife, estabeleceram-se na capital pernambucana.

Foi em Recife que Ivan começou sua trajetória no campo da comunicação enquanto cronista esportivo no Diário da Noite, um jornal vespertino do grupo Jornal do Commercio do Recife que circulou até o início dos anos oitenta. É como correspondente do Diário que Ivan chega a Caruaru em 1962 e, no mesmo ano, é chamado pelo Radialista Cordovil Dantas para trabalhar na Rádio Cultura em programa esportivo.

Mestre do Rádio

Apesar de afirmar em entrevista a Hérlon Cavalcanti que nunca pensou “em trabalhar em rádio”, foi nessa área que Ivan não somente se consolidou, mas também tornou-se uma referência regional. Tanto que, como bem afirma o jornalista Givanildo Silveira, passou a ser considerado como um professor por outros profissionais da área. Além de ser considerado um dos maiores fenômenos do rádio, como é classificado por Tony Gel, ex-diretor da Rádio Liberdade que fora colega de trabalho de Ivan Bulhões e atualmente é deputado estadual por Pernambuco.

Após certa insistência de Cordovil, Ivan começa a trabalhar na rádio Cultura e, após três meses trabalhando no programa esportivo, é contratado pela Rádio Jornal, na época a Rádio Difusora. É nesse momento que o ex-correspondente do Diário da Noite se destaca pela produção do “A Hora da Justa”, programa policial pioneiro no rádio da época. Entretanto, destaque ainda maior vale para o programa “Aquarela nordestina”.

Esse programa, que contava com Ivan Bulhões como locutor e produtor, era voltado para a cultura popular da região e servia como um espaço de divulgação de artistas, compositores, músicos e assuntos ligados ao forró, modelo de programa que Bulhões levou por toda sua carreira, nas três rádios em que fez história: Liberdade, Cultura e Difusora (atualmente Rádio Jornal). 

E foi a existência de programas como esses, que tocavam forró e seus subgêneros o ano inteiro, um fator primordial para a construção da imagem de Caruaru como “A Capital do Forró”. Isso porque, como bem aponta o pesquisador Philipe Sales, as rádios eram na época o principal meio de comunicação entre as cidades e bastante comum nas casas populares. Dessa forma, como havia poucas emissoras de rádio no interior do Nordeste, as três emissoras caruaruenses da época – rádios Liberdade, Difusora e Cultura – cobriam boa parte do agreste, sertão e até de estados vizinhos a Pernambuco.

Dessa forma, programas como o de Ivan Bulhões, que continha na programação a presença de artistas a exemplo de Luiz Gonzaga, mas também artistas pequenos da região, popularizavam o gênero e seus intérpretes. 

Rei do forró

Ivan sempre gostou de forró e comenta que apreciava muito Luiz Gonzaga, artista bastante ouvido por sua mãe. Além de divulgar em seu programa, passa, ainda na década de 60, a participar ativamente do gênero com a criação da “Caravana Ivan Bulhões”. A caravana consistia em um conjunto de músicos da cidade de Caruaru e região que se apresentava em cima de um caminhão, inicialmente pelos bairros de Caruaru, posteriormente pelas cidades do entorno, como bem fala em entrevista concedida ao pesquisador Philipe Sales:

“Aqui em Caruaru o São João era feito nos bairros. Era uma coisa maravilhosa em todos os sentidos. Eu tive minha caravana. Não era minha, no caso era da rádio que eu trabalhava, no caso a Difusora; Lídio Cavalcante tinha o da Liberdade [Rádio Liberdade] e a gente então combinava: “Eu vou fazer um show na segunda feira”, já na época do São João, né? “Eu vou fazer no Vassoural”. Ele dizia: “Eu vou fazer na Vila Kennedy”, que é o outro lado, pra não confrontar. E a gente fazia. Eu saía, a rádio divulgando. (Ivan Fernandes de Bulhões, 16/03/2017).”

Entre outros artistas fizeram parte dessa caravana, estão Jacinto Silva, Joana Angélica, Bau dos Oito Baixos, Walmir Silva, Azulão e muitos outros, que, além de Caruaru, chegaram a diversas outras cidades e estados do Nordeste apresentando os artistas de forró da Capital do Agreste. 

Capa do Aquarela Nordestina: Volume 1, lançado em 1978. Divulgação.

Devido ao projeto da Caravana e aos seus programas de forró nas rádios em que trabalhou, Ivan foi um personagem importante não somente para a divulgação de artistas de Caruaru e da região, mas também para o lançamento de muitos outros artistas para o mercado do forró e a popularização do gênero. Tal influência se dava de forma tão direta que o próprio radialista escolheu o nome artístico de alguns artistas, como é o caso de Walmir Silva.

Além de produtor da caravana e radialista, Ivan também foi compositor bastante presente no repertório de artistas de forró, principalmente dos caruaruenses. O primeiro compacto da carreira solo de Azulão (1965) já continha composição do radialista: Eu sou sozinho, parceria entre Bulhões e Juarez Santiago, outro importante personagem para o forró e para Caruaru. Além de Azulão, gravaram também músicas de Ivan os artistas Walmir Silva, Jacinto Silva, Sebastião do Rojão, Gilvan Neves, Abdias dos Oito Baixos, entre outros, totalizando em média cerca de 50 músicas com diferentes parceiros. 

Além das músicas gravadas por diversos artistas, Ivan chegou a gravar 4 LPs com integrantes da Caravana do Ivan Bulhões: Aquarela Nordestina volume 1, 2 e 3; e Ivan Bulhões e seus convidados (1987). Vale salientar que para essas coletâneas, o radialista e compositor  chamou  artistas pouco conhecidos, com a intenção de ajudar na divulgação de seus  nomes. Durante toda a sua carreira, buscou fortalecer não só artistas, mas principalmente o forró. Dessa forma, enquanto o gênero for escutado, dançado e celebrado em Caruaru e região, e enquanto durar “Capital do Forró” como título da cidade , o legado de Ivan Bulhões continuará a existir.

Leia mais do mesmo autor aqui.

Referências:

AZEVEDO, Antônio Marcos de. Ivan Bulhões, há 48 anos com seu “quara-qua-quá. Antônio Marcos de Azevedo, Nelson Menezes Araujo e Rosemberg Santos Gonçalves. Caruaru : FAVIP, 2010. 

IMPRESSÃO CULTURAL. Programa Impressão Cultural Homenagem Ivan Bulhões e Walmir Silva. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XN7J_zkmgr0&ab_channel=Impress%C3%A3oCultural Acessado em: 23 de março  2021

SILVA, Philipe Moreira Sales. Ser forrozeiro em Caruaru: prática musical, mudança e continuidade na “capital do forró”. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em Música, UFPB, 2017.

SILVA, Philipe Moreira Sales. Das rádios às caravanas do forró: desenvolvimento da música de Caruaru através das mídias locais. Artigo submetido no XXIX Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música, Pelotas, 2019.

Do verbo ao silêncio: “Ó Zé Régio! Eu, Dionízio” de Paulo Gervais

Capa do livro "Ó Zé Régio! Eu, Dionízio,", de Paulo Gervais.

Capa do livro, recém-chegado a nossa redação. Sarah Coutinho/Divulgação.

“Não são as coisas senão o que sentir delas”. Quando li esse verso do Paulo Gervais em seu livro Ó Zé Régio! Eu, Dionízio, lançado pela editora Vacatussa neste mês de março, me veio à mente uma correlação com o próprio olhar-fazer poético. Enxergo pessoal e atualmente a poesia como uma atribuição não apenas de significados, mas também de sentidos e de sentimentos às coisas, sejam cotidianas ou extraordinárias. Uma herança talvez de Manoel de Barros, quando afirma que a poesia se dirige à sensibilidade. Ou talvez por ecoar em minha mente o poema “Meu Olhar” de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, que expressa:

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos) 

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… 

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos

Talvez esses versos ecoem também na poesia de Gervais, até porque em seu poema número 12 do livro recém-lançado, escreve: “Invejava o mestre Caeiro/ a exterioridade pura e simples das coisas”. Embora se perceba que a “filosofia dos sentidos” se faça presente, a simplicidade de Caeiro não é, na mesma medida, presente em Gervais; percebe-se, pelo contrário, um complexo de referências culturais. Eu, de cá, invejo o Caeiro por sua pupila que enxergava poesia no simples, e agora também invejo, igualmente no bom sentido e em outros aspectos, o Paulo Gervais.

Mas não o faço somente pelo histórico do poeta garanhuense, que conquistou o IV Prêmio Pernambucano de Literatura com seu livro anterior, Paulatim. Faço-o pelo conjunto de sentidos que Ó Zé Régio! Eu, Dionízio carrega. Sentidos observados nas coisas pelo poeta que carregam em si sentidos de outros olhares. É o que se pode perceber até mesmo no título, que de certa forma introduz a obra a partir da referência a Zé Régio e a Dionísio. 

O primeiro, José Régio, é um poeta do modernismo português, filho de Deus e do Diabo, cuja poesia já é referenciada no primeiro poema do livro. Isso já introduz uma influência modernista frequente no ritmo dos poemas desta obra de Gervais, que não está necessariamente ligado à métrica, mas à expressão, diferentemente da forma padronizada utilizada como suporte poético nos seus livros anteriores. Tal uso não necessariamente se trata de uma ruptura, mas de uma nova expedição por outros caminhos da poesia.

O que move o meu coração

se não é o que foge

e em mim é privação e possibilidade de posse?

Contudo, Gervais caminha com sua poesia a um modo dionisíaco, isto é, próprio da liberdade e intuitividade do deus grego. Liberdade tanto estilística como também temática uma vez que a obra se compõe de poemas criados entre 2011 e 2019 que vão da solidão, ao amor e à finitude humana.

Outra questão também perceptível no título e presente em toda obra é a presença nada disfarçada do eu-lírico, que vez ou outra soa um tanto dramático e teatral na expressividade, por exemplo, no uso da interjeição de lamento “Ó”. Por mais que não seja algo que me agrada de um todo, me parece bastante coeso ao contexto clássico que envolve a imagem de Dionísio e a teatralidade que lhe faz referência (uma vez que também é conhecido como o deus do teatro), além de atribuir ao verbo a tonalidade de um cântico.

No entanto, vale ressaltar o contexto não somente clássico ou mesmo modernista português: o cotidiano agrestino se faz presente tanto em paisagens pessoais do autor, quanto a partir de elementos compartilhados entre os dias do agreste pernambucano, como é o caso dos elementos do pife e do barro. Além disso, é o som, também, uma narrativa explorada por Paulo Gervais, o que admite uma noção de passagem do tempo juntamente com as partes que destacam dois momentos distintos: a manhã e a noite, cujo poemas, no primeiro caso, fazem relações a cânticos, enquanto que, no segundo, destacam o retorno do verbo, da poesia ao que muitas vezes é sua origem e semente: o silêncio.

Leia mais do mesmo autor aqui.

Ok Computer: o aprisionamento no melhor disco de todos os tempos

Capa do terceiro álbum do grupo do Reino Unido. Radiohead/Divulgação.
 

Há pouco mais de  20 anos, em um antigo castelo inglês, a banda britânica Radiohead escreveu seu nome para sempre na história do rock. Em 21 de maio de 1997, foi lançado o Ok Computer, que muitos consideram como um dos últimos grandes álbuns do rock mundial, e, que opara mim, é o melhor disco já criado na história da música.

No início da década de 90 na Inglaterra, o britpop estava em plena ascensão com os irmãos “bad boys” do Oasis e os seus “rivais” do Blur. Essas bandas apresentavam crônicas do cotidiano inglês, sem deixar de exalar o anti-heroísmo do rock n’ roll, mesclando riffs rápidos e baladas que embalavam o coração dos jovenzinhos que lotavam os estádios na época.

É nesse cenário que também surge o Radiohead. Em seu primeiro álbum, Pablo Honey (1993), a banda até carrega algumas características do britpop, porém, já tinha em seu DNA algumas diferenças marcantes que os tornariam únicos no mundo da música. Ao contrário do espírito de rockstar do Oasis, Radiohead surge como a banda dos esquisitões, dos isolados, dos losers, os representantes ideais daqueles que não conseguem ficar com a mulher amada e apanham dos valentões no recreio.

Isso fica claro em seu primeiro hit, Creep, onde Thom Yorke expressa – por meio da voz única e melancólica que lhe é característica – a intensa baixa autoestima de um jovem que nutre um amor platônico: 

“You’re so fucking special,

I wish i was special, 

But i’m a creep” 

No entanto, o hit de sucesso que os deixou conhecidos mundialmente, se tornou uma maldição para esses jovens esquisitões britânicos. Mesmo após o lançamento do ótimo álbum The Bends (1995) – disco onde o Radiohead já começa uma forte mudança em sua sonoridade e dá indícios do que está por vir – a banda ainda vivia atormentada pelo fantasma do one hit wonder.

Ser conhecido como “a banda de Creep” irritava os membros do Radiohead – irritação que aparentemente perdurou, levando a banda a ficar 7 anos, de 2009 a 2016, sem tocá-la ao vivo – a ponto de Thom Yorke iniciar uma campanha contra a música, pregando, em todos os lugares que frequentava, as palavras “Creep is a bad song” (Creep é uma música ruim). 

Porém, em maio de 1997, Radiohead deixa de ser uma banda conhecida mundialmente por apenas um hit para se tornar uma das melhores e mais influentes bandas da história da música.

O caráter paradoxal

Se hoje, época em que a tecnologia está intrinsecamente conectada a nossas vidas, ainda discutimos os benefícios e os malefícios dela; no fim dos anos 90, discutir sobre tecnologia era discutir sobre o desconhecido. O fim do milênio se aproximava. Computadores e internet se aprimoravam, mas o mundo ainda tinha como base o analógico. Alguns acreditavam que a tecnologia finalmente traria a utopia; não existiriam mais guerras, doenças ou dificuldades cotidianas. Já outros acreditavam na distopia, que as máquinas carregariam consigo o fim da humanidade no novo milênio. 

É nesse contexto que surge Ok Computer, disco de vanguarda que traz em seu cerne essa dicotomia paradoxal. Uma obra que mistura instrumentos orgânicos – caracterizado por três guitarras – com elementos eletrônicos cujos toques e ruídos digitais se encaixam perfeitamente, formando assim, junto ao falsete melancólico de Yorke, uma grandiosa unidade artística. Ok Computer é um disco que coloca um ponto final em uma era, mas que, ao mesmo tempo, marca o início de uma nova.

O melhor álbum de todos os tempos

No momento em que os sons do futuro pararam de ecoar nas paredes de pedra do castelo medieval onde o disco foi gravado, e os executivos da Capital Records puderam ouvir o resultado, a sensação foi de desânimo e descrença. O que antes era otimismo em uma banda que vinha despontando no cenário, virou decepção, alterando assim a previsão de cópias a serem lançadas de 2 milhões para apenas 500 mil tiragens. Para aqueles executivos detentores de um tino de vendas apurado, aquilo era um suicídio comercial. 

Eles não poderiam estar mais errados. O álbum conseguiu o difícil feito de ser aclamado tanto pelo público quanto pela crítica especializada. Em menos de um ano após seu lançamento, Ok Computer já tinha ultrapassado a marca de mais de 2 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. A crítica o recebeu logo de cara com enorme entusiasmo: “ A Última Grande e Sincera Banda de Rock” “A Última Grande Esperança do Rock de Arena” e “A Grande Banda”, eram títulos de artigos críticos que clamavam o disco como “uma obra-prima de visionários”.

Entretanto, ser bem recebido na época de lançamento não quer dizer muita coisa. Muitas obras são aclamadas no lançamento e esquecidas com o passar do tempo. Não foi o caso do Ok Computer. Como toda obra-prima, o tempo apenas o consolidou como um clássico da música mundial. Em dezembro de 2020, a tradicional Revista Spin lançou uma lista com os 35 melhores álbuns dos últimos 35 anos, na qual o disco estava presente em primeiro lugar. Muitos anos antes, na Revista Q, uma antiga publicação mensal britânica, o Ok Computer já tinha aparecido em primeiro lugar na lista de melhores álbuns de todos os tempos, à frente de dinossauros clássicos como Beatles, Bob Dylan e The Smiths.

Mas por que esse álbum de estética iconoclasta fez tanto sucesso e se tornou um clássico eterno?

Há diversas interpretações e tentativas de explicar o porquê dessa obra ser um clássico que toca gerações. Por um lado, há o contexto já mencionado aqui, o fato de ter captado o espírito do tempo da época de seu lançamento; tecido avisos sobre o rumo que a sociedade está tomando; e tocado diretamente em temas que afligiam boa parte das pessoas no fim do milênio, como a angústia causada pelo esfarelamento das relações, a perda da individualidade humana e a consequente “robotização” dos indivíduos, tendo tudo isso tanto nas letras quanto em sua arquitetura sonora.

Essa é uma visão verdadeira e pertinente. No entanto, para mim, há algo mais. Há nesse álbum um espírito mágico, certeiro, universal, que poucas obras humanas conseguiram alcançar. 

O Radiohead cria nesse disco um exímio sistema harmônico – mesmo com elementos de caos dissonante – no qual inserem toda a primazia técnica alinhada a um tema profundo e um imaginário de símbolos riquíssimos, formando assim um todo único que culmina em uma obra-prima. 

Aprisionamento e o espírito universal

Considero o Ok Computer como um álbum conceitual. Não quero dizer com isso que as músicas formam um padrão narrativo linear. Não. A estrutura do álbum funciona como se fosse uma junção de contos; narrativas sonoras ligadas por um mesmo tema e atmosfera, tema esse que não é a alienação tecnológica ou seus efeitos, mas sim o aprisionamento e a tentativa desesperada em se livrar dele. 

Existem diferentes tipos de cenários onde os personagens estão enclausurados em situações desoladoras, nas quais são incapazes de sair, a não ser pela via da imaginação. Desse modo, há um constante conflito entre realidade e imaginário, aprisionamento e fuga, que tem como principal efeito a dialética da esperança e desesperança. 

O Aprisionamento em si mesmo

A ramificação principal é o que chamo a grosso modo de: “aprisionamento em si mesmo”. A característica marcante aqui é a de indivíduos perdidos e incapazes de se encaixar em seus ambientes, tomados assim por sentimentos de fuga, revolta e ressentimento.

Subterranean Homesick Alien começa com uma harmonia calma, composta por guitarras e teclados com ecos que formam uma atmosfera etérea, com sons que nos remetem a espaçonaves. O narrador da música, representado por um Yorke de voz doce e serena, se mostra isolado e insatisfeito com as pessoas e o lugar onde vive.

I live in a town where you can’t smell a thing

You watch your feet for cracks in the pavement

Up above, aliens hover

Making home movies for the folks back home

Of all these weird creatures who lock up their spirits

Drill holes in themselves and live for their secrets

They’re all uptight, uptight

O que se destaca nessa música é a tentativa de fuga através da imaginação, na qual a liberdade só é alcançada fora da vida real. O narrador imagina alienígenas carregando-o para um passeio pelo universo, onde ele poderia enxergar e apresentar às pessoas ao seu redor a beleza do cosmos e o sentido da vida, podendo assim finalmente se sentir bem.

I’d tell all my friends, but they’d never believe

They’d think that I’d finally lost it completely

I’d show them the stars and the meaning of life

They’d shut me away, but I’d be all right

All right, all right, all right

Let Down segue a mesma linha de SHA, porém, o conflito e angústia interior são marcadas com mais intensidade tanto pela melodia e harmonia quanto pela letra. Aqui, a dialética desesperança/esperança está presente de forma clara na própria métrica da música. O narrador inicia o primeiro verso expondo seu vazio e decepção com a repetição das situações medíocres do cotidiano ao seu redor.

Transport, motorways and tramlines

Starting and then stopping

Taking off and landing

The emptiest of feelings

Disappointed people

Clinging on to bottles

And when it comes it’s so

So disappointing

Temos 3 refrões em Let Down. Após o primeiro refrão, a música ganha um pré-refrão na qual o narrador expõe um lapso de esperança – nem tão esperançosa assim – de que um dia “criará asas”, numa alusão a liberdade e fuga dessa realidade sufocante. 

One day I’m going to grow wings

A chemical reaction

Hysterical and useless

Hysterical and

Desse modo, a estrutura da música fica: verso (desesperança) – pré-refrão (esperança) – refrão (desesperança). Além disso, há na música uma intensidade crescente, como se a cada bloco a angústia fosse acumulando no peito de Thom Yorke, culminando assim em uma explosão de sentimentos no refrão final.

Let down and hanging around

Crushed like a bug in the ground

Let down and hanging around

Karma Police conta com uma progressão de acordes onírica – que me remete aos melhores filmes de terror –  protagonizada por um violão e um piano. A música inicia com um narrador ressentido com o mundo, que invoca a “polícia do carma” para punir as pessoas que o irritam, como um homem que parece “um rádio dessintonizado” ou uma menina que possui um “cabelo de hitler” que o “deixa doente”.

Karma police, arrest this man

He talks in maths, he buzzes like a fridge

He’s like a detuned radio

Karma police, arrest this girl

Her Hitler hairdo is making me feel ill

And we have crashed her party

Mas é no segundo verso da música que ele expressa o motivo de toda sua irritação ressentida, e encontramos o tema de forma mais clara. Aqui, o narrador expõe sua insatisfação com sua vida e o sistema, ao afirmar que deu tudo o que podia, mas que nunca é o suficiente, estando ainda estagnado, preso à “folha de pagamento”.

Karma police, I’ve given all I can

It’s not enough, I’ve given all I can

But we’re still on the payroll

Electioneering é  a música mais Rock n’ Roll do álbum, caracterizada pelos fortes riffs de guitarra e intensas distorções. No tema, ela segue a linha de Karma Police, ao falar sobre o aprisionamento do indivíduo ao sistema. 

Diferente de todas as outras músicas do álbum, o que se destaca aqui é a forte ironia acerca das falsas promessas políticas. No primeiro verso, o narrador repete, de forma sarcástica, frases proferidas por políticos: “Eu não vou parar, eu não vou parar por nada” ou “Eu sei que posso contar com seu voto”. 

I will stop, I will stop at nothing

Say the right things when electioneering

I trust I can rely on your vote

No refrão, o narrador ironiza o fato de que enquanto os políticos evoluem, o indivíduo retrocede, nesse ciclo ininterrupto de falsas esperanças e promessas de areia.

When I go forwards you go backwards

And somewhere we will meet

When I go forwards you go backwards

And somewhere we will meet

Já em Fitter Happier, encontramos um grande manifesto sobre uma espécie de robotização; o aprisionamento das aparências e da busca artificial da perfeição. 

Na música, uma voz robótica e desprovida de nuances – que parece que saiu do computador de Stephen Hawking – lista, com um melancólico piano ao fundo, várias qualidades e objetivos que aparentemente constituem uma vida perfeita.

Fitter, happier, more productive

Comfortable

Not drinking too much

Regular exercise at the gym

Three days a week

Getting on better with your associate employee contemporaries

No entanto, a música vai tomando um rumo crescente a um sarcasmo mais explícito, culminando assim na frase mais crítica e cínica do álbum inteiro:

Calm fitter, healthier and more productive

“A pig in a cage on antibiotics” (Um porco preso em uma gaiola sob o efeito de antibióticos)

E finalmente chegamos em No Surprises, a última música desse tópico de temas, e a mais angustiante e desesperançosa do disco – uma tarefa bem difícil -, na qual reúne todos os sentimentos e assuntos abordados nas canções anteriores. 

No Surprises é sobre o despertar desesperado do porco preso na gaiola sob efeitos de antibióticos. Toda a música é conduzida por um Glockenspiel (jogo de sinos), que cria uma espécie de “atmosfera de canção de ninar sufocante”.  

Aqui, o narrador expressa sua asfixiante angústia e vazio, mesmo tendo “uma casa tão bonita” e um “jardim tão bonito”. Logo na primeira estrofe, ele critica coisas como o “emprego que te mata lentamente”, ou o governo “que não fala por nós”. 

A heart that’s full up like a landfill

A job that slowly kills you

Bruises that won’t heal

You look so tired, unhappy

Bring down the government

They don’t

They don’t speak for us

No entanto, o que torna essa música a mais angustiante e desesperançosa de todo o álbum?

No Surprises acentua de forma explícita, com seu contraste entre letra e melodia de canção de ninar, o desespero do narrador aprisionado no vazio de sua vida. No último refrão da música, enquanto a primeira voz de Thom Yorke diz de forma melancólica: “Sem alarmes e sem surpresas”, a segunda voz clama em desespero “Tire-me daqui”. E, para sair desse vazio, a única forma encontrada é passar pelo “Último surto”, pela “ Última dor de barriga”, e dar um “Aperto de mão de monóxido de carbono”, em uma clara alusão ao suícidio por intoxicação.

I’ll take a quiet life

A handshake of carbon monoxide

And no alarms and no surprises

No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

Silent

Silent

This is my final fit

My final bellyache with

No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises (let me out of here)

Please

O aprisionamento mental

Este tópico é constituído por duas músicas. Aqui, os indivíduos estão completamente presos em sua mente, dominados por paranoias e torturados psicologicamente.

A primeira é Paranoid Android, um milagre sonoro, daqueles que acontecem poucas vezes na história. A estrutura da música é formada por 4 seções distintas, com compassos e tonalidades variadas que se alternam ao longo dela. Não existe refrão. Não existe ponte. A escolha por criar uma rapsódia – digna do Queen – intensifica e enriquece o tema da instabilidade psicológica.

Marcada pela falta de linearidade, o narrador  começa a primeira parte pedindo para que as vozes na sua cabeça o deixem em paz. 

Please, could you stop the noise? I’m trying to get some rest

From all the unborn chicken voices in my head

Enquanto ele se pergunta: “O que é isso?”, uma voz robótica – que pode ser interpretada como uma das vozes na sua cabeça – responde: “Eu posso ser paranóico, mas não sou um androide”. 

What’s that?

(I may be paranoid, but no android)

What’s that?

(I may be paranoid, but no android)

Temas recorrentes no álbum como raiva, melancolia e o consequente ressentimento aparecem aqui durante o surto mental do narrador. A paranoia e a falta de sentido linear duram por todas as partes da música, às vezes por meio da raiva, outras por meio da angústia.

You don’t remember

You don’t remember

Why don’t you remember my name?

Off with his head, man

Off with his head, man

Why don’t you remember my name?

I guess he does

Rain down

Rain down, come on

Rain down on me

From a great height

From a great height, height

Se Paranoid Android tem um narrador em surto que ouve vozes, em Climbing Up The Walls o narrador é a própria voz. 

“Climbing Up The Walls” é uma expressão inglesa usada quando alguém está nervoso e ansioso. Com uma harmonia inspirada no compositor atonal Krzysztof Penderecki, essa música possui uma seção de cordas com 16 violinos diferentes, em diferentes tons, guitarras e vocais distorcidos e sobrepostos que criam um clima de pânico caótico e arrepiante. 

O tema dessa música é o pânico de estar preso na própria mente. No primeiro verso, o narrador fala que é “a chave que tranca sua casa”,  “o picador no gelo”. Há nesta imagem uma forte ameaça criada pela sensação abstrata da dor, porém, isso é expresso por meio de um falsete suave de Thom Yorke, criando-se, através do contraste, uma sensação ainda mais aterrorizante. 

I am the key to the lock in your house

That keeps your toys in the basement

And if you get too far inside

You’ll only see my reflection

It’s always best with the covers up

I am the pick in the ice

O pânico é algo silencioso, interno, sem escapatória. O aprisionamento mental é marcado pela desesperança. Não há nem uma fagulha de esperança. A dor e a agonia serão eternas. Isso fica claro no pré-refrão quando o narrador diz de forma suave:  “Não grite nem toque o alarme. Você sabe, somos amigos até morrermos”.

Do not cry out or hit the alarm

You know we’re friends ‘till we die

No refrão, o tom suave contínua e o narrador intensifica o sentimento de desespero e da impossibilidade de desvencilhamento já estabelecido antes: “Em todos os lugares que você for, eu estarei lá”, chegando a criar uma imagem abstrata como “abra seu crânio, e eu estarei lá”, que deixa claro a incapacidade de fuga.

And either way you turn

I’ll be there

Open up your skull

I’ll be there

Climbing up the walls

O aprisionamento romântico

Se nos outros tópicos o que se destacava era o aprisionamento e a desesperança, no aprisionamento romântico o que se destaca é a esperança e a tentativa de fuga. Como nos outros, os indivíduos estão atormentados em busca de uma saída. No entanto, aqui há uma ação mais ativa em busca dela, motivada pelo amor. 

Criada para o filme Romeu + Julieta (1996) de Baz Luhrmann’s, Exit music (For a Film) aborda os temas da esperança, fuga e desespero de jovens amantes.  Essa música é mais uma do álbum na qual não há refrão, além de ser dividida em duas partes.

A primeira é composta apenas pelo violão e a voz quase sussurrada de Thom Yorke, levada por toques calmos no instrumento. Nessa primeira parte, o narrador acorda sua amada para fugir antes que “tudo desmorone”.  

Wake from your sleep

The drying of your tears

Today we escape

We escape

Pack and get dressed

Before your father hears us

Before all hell

Breaks loose

Toda a música gira em torno dessa situação sombria e aterradora que é estar oprimido por algo, sem poder desfrutar do amor. Em Exit Music, temos dois amantes apavorados – “Respire, continue respirando. Não perca o controle” – na tentativa de fugir de um desfecho que já está marcado pelo destino. Sendo Romeu e Julieta uma história universalmente conhecida no Ocidente, todo mundo já sabe o seu final, o que torna a música ainda mais trágica: é como se soubéssemos que toda essa tentativa seria em vão. 

Na segunda parte, a intensidade da música cresce, tanto no ritmo quanto na letra. A raiva e a revolta tornam-se protagonista. Do peito de Thom Yorke sai o grito contra tudo, não apenas contra aqueles que querem separá-los, ou contra as normas sociais, mas sim contra o próprio cosmos e seus desfechos sádicos e absurdos. 

And you can laugh

A spineless laugh

We hope your rules and

Wisdom choke you

And now we are one

In everlasting peace

We hope

That you choke

That you choke

Em um álbum predominantemente marcado pela desesperança, Lucky é um facho de luz de esperança no fundo do mar. Lucky – como o próprio título já denuncia – é sobre um homem otimista, que possui esperança de uma grande mudança, acreditando assim que uma série de coisas boas irá acontecer em sua vida. No entanto, essa “sorte”, ainda continua no campo da possibilidade, como um desejo, um sentimento, uma esperança, e não um fato da realidade, como podemos constatar no primeiro verso:

I’m on a roll

I’m on a roll this time

I feel my luck could change

O motivo de sua esperança em fugir da situação em que se encontra está no seu amor por Sarah. No refrão, o narrador cria metáforas trágicas e sufocantes, nas quais Sarah é sua salvadora, aquela que o livrará dos piores momentos, das piores desgraças, e ele será seu super-herói, permanecendo assim à beira do precipício, mas sem jamais cair.

Kill me, Sarah

Kill me again with love

It’s gonna be a glorious day

Pull me out of the aircrash

Pull me out of the lake

Cause I’m your superhero

We are standing on the edge

O círculo 

Escrevi anteriormente que o Ok Computer era uma obra conceitual, mas não respeitava uma estrutura contínua. Sustento minha afirmação. Entretanto, há uma grande exceção a essa regra. 

A primeira música do disco, Airbag, fala sobre um homem que “nasceu novamente” após sobreviver a um acidente de carro. 

In a fast german car

I’m amazed that I survived

An airbag saved my life

Já na última música, The Tourist, temos um homem angustiado que está no seu carro em alta velocidade, enquanto uma voz o manda ir devagar.

Sometimes I get overcharged

That’s when you see sparks

They ask me where the hell I’m going

At a thousand feet per second

Hey man, slow down, slow down

Idiot, slow down, slow down

Isso nos mostra que Ok Computer é formado por uma estrutura circular, sendo a primeira música continuação da última. Podemos dar um passo além nessa chave de interpretação: não só uma letra complementa a outra, como também é possível identificar uma pista crucial na própria harmonia da música.

No último refrão de The Tourist, o narrador que está em terceira pessoa suplica através da voz de Thom Yorke: “Ei cara, vá devagar. Vá devagar”. Então sua voz cessa. Restam apenas os instrumentos, que vão abaixando de volume lentamente. E é aí que surge uma sineta. Um ruído solitário que vibra, e seu som ecoa e se espalha até desaparecer no silêncio do fim do disco. 

Ora, essa sineta é o som da batida do carro que liga uma música à outra. O elo de encontro que torna o Ok Computer um eterno retorno. Começamos com Airbag, a música mais esperançosa do álbum, onde o narrador, depois de uma “explosão interestelar”, está “de volta para salvar o universo”. E terminamos em The Tourist, o homem que vagueia a toda velocidade pela eterna estrada. 

Nesse sentido, o Ok Computer é uma jornada circular, onde, de uma forma ou de outra, terminamos no mesmo lugar. Sempre que o ouvimos, viajamos nessa eterna dialética entre a esperança e desesperança. Onde após todo o final, renascemos como a fênix, para mais um novo dia, uma nova jornada, não importando o seu destino.

Thom Yorke

Thom Yorke no clipe de No Surprises. Foto: Reprodução

Em minha concepção mais romântica e idealista, acredito que há na música uma característica que se difere de todas as artes. A música é a forma mais pura de expressão que ser humano pode alcançar. Não é necessário ter uma cultura prévia. Não é necessário pensar. Nem mesmo é necessário ter o básico de interpretações de símbolos. É preciso apenas um bom ouvido e uma alma aberta. Os sons saídos de uma obra intensa e profunda tem o potencial de tocar qualquer espírito humano independente do seu estado e da sua capacidade de acepção.

Este disco consegue alcançar esse mais alto grau da experiência humana em relação a uma obra de arte. Há naqueles sons uma força de expressar o invisível de modo que se tornam visíveis dentro de nosso ser. Sua sensibilidade pungente tem a capacidade de desvelar sonhos que vão além do real; de reviver o passado e atualizar o futuro; de produzir paixões como tristeza, esperança e entusiasmo, em uma simbiose caótica e catártica. 

Ok Computer é uma obra que não é apenas para se ouvir, mas para sentir e imergir em suas camadas de sons que nos proporcionam uma experiência transcendental. Deixo aqui meu agradecimento a essa obra-prima que parece que veio de outra galáxia; mas, que na verdade, é fruto de tudo aquilo que é humano, demasiado humano.


Realismo fantástico, sociedade e pandemia na “Coleção Solidária” da Vacatussa


Na imagem, os três livros publicados na Coleção Solidária: “Restos de Família”, de Diogo M. de Almeida, “Trilogia da Febre”, de Cristhiano Aguiar e “Abrigo”, de diversos autores. Foto: Editora Vacatussa/Divulgação.

“De que serve a literatura em meio a tantas perdas, mortes, crise econômica e desemprego?”

A pergunta acima, embora, eu suponho, tenha sido feita pela maioria dos que produzem e/ou consomem literatura desde o terrível ano passado (que parece não ter passado, pelo menos no Brasil), é parte da introdução de três livros de contos da editora pernambucana Vacatussa. As respostas para tal questionamento – esse “para quê” na arte literária – são sempre muito complexas: para uns, como Antonio Candido, os livros são um “direito”. Para outros, como Virginia Woolf, conquanto em meio à tragédia, a leitura pode ser “êxtase”. Para muitos leitores, é um hábito de imersão, como era para Emma Bovary  – uma necessidade de usar a ficção como fuga. Há, igualmente, os que não pretendem fugir com o passaporte da literatura, mas pensar através dela a realidade  – era isso que autores políticos, como Tolstói ou Hugo, faziam. Logo, essa é uma pergunta que, por ter muitas respostas, não tem nenhuma. Entretanto, cercados de doença e isolamento, a maioria de nós, leitores, continuamos lendo, não obstante vejamos a conjuntura atual e o papel social e/ou artístico dos livros de maneiras diferentes.

Assim, para os que ainda vêem sentido na leitura de ficção, a Vacatussa lançou, em 2020,  a “Coleção Solidária” – três livros de contos escritos por autores, em maioria, nordestinos, dentre os quais, alguns nomes inéditos, bem como, outros já consagrados. O primeiro volume publicado foi “Restos de Família” do natalense Diogo M. de Almeida, uma coletânea de quinze pequenas narrativas sobre os (inúmeros) dilemas familiares. A seguir, por autoria do paraibano Cristhiano Aguiar, “Trilogia da Febre”, com três textos sobre três surtos diferentes – todos, de alguma forma, muito similares ao que enfrentamos atualmente. Por último, foi lançado “Abrigo”, um livro com dez contos sobre temas distintos, por diversos autores, entre eles, vencedores do Prêmio Jabuti, tais quais o cearense Sidney Rocha (“O destino das metáforas”) e a carioca Carol Rodrigues (“Sem vista para o mar”).

Devido à pandemia, os livros foram publicados somente em formato digital, disponíveis para compra na Amazon e, também, para empréstimo no Kindle Unlimited. Toda a renda provinda das vendas dos e-books é destinada à ONG Samaritanos Recife, uma organização voluntária que defende os direitos de pessoas em situação de rua. Portanto, os títulos, além da qualidade de conteúdo, comportam, também, um outro atributo, embora de cunho social e, assim, não necessariamente relevante à literariedade dos textos – de qualquer modo, aos que não agradarem os livros, podem, pelo menos, regozijar-se de terem auxiliado, de alguma maneira, uma causa importante. Para mim, contudo, a coleção é envolvente por si mesma: acabei por ler todos os volumes de uma só vez, pois os três são bastante intrigantes e, por conseguinte, um leva ao outro. São consistentes, do mesmo modo, em atmosfera, mesmo tratando-se de temas diferentes: as três seleções de contos são tristes e pilhéricas em seus absurdos fantásticos e, simultaneamente, muito reais. 

Sobre “Restos de Família” de Diogo M. de Almeida

“Restos de Família” inicia a coleção com quinze contos de Diogo M. de Almeida, autor do livro – também de contos – “Eu ando só” (2012). Os textos foram escritos entre 2018 e 2020 e foram publicados, primeiramente, nas redes sociais do escritor. Posteriormente, foram organizados por Thiago Corrêa Ramos em e-book para a Vacatussa. Em uníssono, todas as narrativas contornam as diversas facetas de um mesmo tema (e dos mais complexos): família. Tamanha complexidade, contudo, ordenadas em pouquíssimas linhas de textos bastante curtos – leitura rápida, mas nem tão fácil, dado que a linguagem tragicómica da pena que os escreveu sempre conclui cada texto em impacto. 

O livro começa com um pai e uma filha que moram juntos e, contudo, estão a quilômetros de distância em tudo. Ou quase: “O passado era o único território consensual entre os dois”. Esse mesmo passado parece estar contido em um quadro ordinário que, em sua suposta vulgaridade, traz (e leva) o que resta de vigor neste pai idoso e meio inerte. A seguir, uma mãe chega em casa e percebe que seu lugar foi tomado por outra pessoa, depois de ter sido, por tanto tempo, ausente, ao ponto de esposo e filhos esquecerem de seu rosto. É, também, na ânsia de resgatar a família perdida, que marido e mulher vão à praia desfazer-se de suas diferenças, alucinados por um “sonho de filme americano” – mas Hollywood é, afinal, romântica demais. Adiante, um menino tem como amigo uma ideia e, outro, um bot na internet (dois dos textos mais interessantes do livro). Dois espetáculos medonhos: uma criança só conhece a mãe no seu funeral, através de um estranho tagarela e um jovem rico sonha com a oportunidade de torturar o pai diante da família inteira. 

Neste livro, algumas falas comuns se tornam contos, tais quais, “Dizem que ser mãe é padecer no paraíso”, uma das frases mais ouvidas pelos filhos, ou “Eu não pedi para nascer”, esta, por sua vez, tão ouvida pelos pais  – ambos os textos são desconcertantes; o primeiro pelo macabro e, o segundo, pela irracionalidade, que explicada, é quase lógica. É, também, bizarro, um primo meio gato e meio humano, bem como o macaco que quer ser bípede, apesar de seu pai, um quatro-patas conservador. A indiscrição alheia é parte essencial da coletânea, do mesmo modo que parece ser impreterível mesmo nas melhores famílias e, portanto, a tia que não cansa de perguntar sobre o relógio biológico de suas sobrinhas “solteironas”, e a madame rica que “considera” a doméstica como parente, têm suas próprias linhas. Inclusive, essas essencialidades do conceito “família” estão por toda parte na literatura de Diogo Almeida, mesmo quando transfiguram-se em absurdos cômicos ou em demasias assustadoras: isto é, do amigo imaginário ao animal rebelde, as contradições inelutáveis que existem na união de seres correlatos e, concomitantemente, tão distintos, se fazem presentes em cada texto. 

Naturalmente, alguns contos são melhores que outros: muitos são espantosos, devido ao horror ou ao fantástico; da mesma maneira, certas passagens são engraçadas e, outras, tristes – em textos curtíssimos, como é o caso dos reunidos neste livro, tais efeitos na experiência literária só são alcançados por maturidade de escrita. Portanto, vários contos são bastante bons. Os demais, porém, me soaram um pouco sensacionalistas, cercados de uma dramaticidade exorbitante que tornou-os um tanto imoderados ou pouco “sutis” – coisa de dois ou três, logo, nada que desmereça uma coletânea de quinze. Sendo assim, o livro abre muito bem a “Coleção Solidária”, indicado, principalmente, para quem se interessa pelas complexidades de um tema tão tolstoísta quanto “família”, pelo realismo fantástico que permeia os contos e, quem sabe, interesse, particularmente, aos leitores do terror social da argentina Mariana Enriquez e, até, aos que leem o artista de mangá japonês Junji Ito, já que não falta esquisitice (às vezes, quase body horror) na literatura de Diogo M. de Almeida.

Sobre a “Trilogia da febre” de Cristhiano Aguiar

O segundo volume da coleção, “Trilogia da Febre”, é composto por três contos do escritor paraibano Cristhiano Aguiar, autor de “Na outra margem, o Leviatã” (2018). Conforme indica o título do livro, os textos reunidos nele – dois originais e uma reedição – ruminam acerca do cenário contemporâneo, através de narrativas em todo análogas ao realismo fantástico e à ficção científica. Para os leitores que, sob a atmosfera pitoresca e inédita desta (desgovernada) crise sanitária, leram (ou releram) “A peste” de Camus, “O amor nos tempos do cólera” de Gabo e “Estação Onze” de Emily St. John Mandel; ou os que foram buscar alegorias da pandemia em livros menos óbvios, tais quais “A metamorfose” de Kafka; e mesmo os que mergulharam na literatura sci-fi de Orwell ou Bradbury; isto é, aos que interessam-se em pensar a atualidade por meio da ficção, esta pequena trilogia é uma leitura muito pertinente. 

No primeiro conto, “Anda-Luz”, um menino precisa atravessar um sertão devastado pela doença (a “febre”), para entregar um bilhete a um cangaceiro. Acordado ainda de madrugada pela mãe, Chiquinho sai de casa com medo da morte com quem se depara a cada passo: num vaga-lume em seu brilho final, no deserto do isolamento e da devastação que a peste deixa, ou num enforcado solitário no meio do caminho. Contudo, também encontra vida – adota um gato barulhento a quem chama de Chicote e, bem como a maioria das crianças solitárias, imediatamente, ama: “Agora, Chiquinho pensou, a gente é dois.” Assim, ambos seguem sob a sedução de toda e qualquer superstição que o menino consegue lembrar para proteger a si e a seu gato na atmosfera mágica dessa madrugada sertaneja. Logo, “Anda-Luz” conquista, especialmente, em virtude dos diversos clássicos do Nordeste e da infância, em um tom regionalista e onírico que envolve cada passo de Chiquinho e Chicote.

O melhor conto da trilogia é, no entanto, o segundo, “As onças”. Nele, a catástrofe é uma revolta desses animais, que trancam os moradores da cidade em suas casas, sob o risco constante de morte por dilaceramento: cada pessoa pode tornar-se uma “vontade” das onças que espalham-se rapidamente pelo país inteiro – um cenário de horror dos mais lúgubres. Diana e sua mãe, entretanto, precisam sair para comprar suprimentos essenciais e remédios para seu pai doente. Fora de sua casa, embora seguindo todas as medidas de segurança, mãe e filha têm de enfrentar o desconhecido em um lugar que, antes, lhes era tão familiar: “A rua, a cidade e suas onças invasoras eram esse livro que se abre e sobre o qual se esquece” – aos que permanecem em distanciamento social, a sensação de reconhecimento é inelutável. Gosto, em especial, de dois momentos nesse conto: o encontro com uma das ameaças que, no entanto, também sofre (toque deveras sensível esse de humanizar os que desumanizamos); e o final, tão kafkiano e surpreendente, quando o texto já parecia completo. 

O terceiro, “Firestarter”, acompanha um grupo de entusiastas de incêndios, que enxergam “prazer na fumaça”, não obstante carregue “risco e morte” – já dizia Dostoiévski, a humanidade sempre arrebata-se pela desgraça alheia (e, até mesmo, pela própria). Assim, é ao redor dos rostos desolados daqueles para quem o fogo é tragédia, que esses curiosos fotografam, celebram e analisam as queimadas, todas distintas e maravilhosas entre si. A caminho de mais um espetáculo de chamas, o narrador, fascinado pelo fogo, relembra a primeira vez que o viu, em um evento bradburiano: queimavam livros, “dinossauro(s) que o meteoro esqueceu de exterminar”. “Firestarter” é, talvez, o mais evidentemente atual dos três textos, mesmo em sua ficção de tal maneira imaginativa, visto que, seu cenário nos é bastante conhecido – um lugar atormentado pelo extermínio, pela fome e pela ignorância, por onde o fogo, um “deus que passeia”, incendeia quase desafrontadamente, mas que, no meio da desolação, ainda reflete fantasia, alienação e beleza.

Logo, todos os contos desta trilogia, ainda que próximos ao absurdo, são metáforas sensíveis de uma contemporaneidade tão digna da ficção científica: consequentemente, bastante simbólicos. Todavia, a linguagem de Cristhiano Aguiar, que consegue simular vozes distintas e, ao mesmo tempo, soar, consistentemente, bonita e verossímil, é o ponto mais alto desse livro – as palavras causam muito mais efeito em sua composição, do que devido aos acontecimentos insólitos que descrevem. Portanto, os textos desta coleção são potentes, principalmente, em suas delicadezas e particularidades, embora sejam todos cercados pelo extraordinário. 

Sobre “Abrigo”, vários autores

A última coletânea, que contém dez contos de autores novos e consagrados, organizados por Cristhiano Aguiar e Thiago Corrêa Ramos, apesar do título, carrega um certo cheiro de morte e desolação, talvez tão acentuado quanto em “Trilogia da Febre” – todas as estórias parecem imbuídas de uma marcada atmosfera de afastamento, seja pelo túmulo, pela memória, por um nevoeiro fantástico ou um horror meio estrangeiro e meio nosso, ou até mesmo por isolamentos práticos, tais quais a pobreza, a pandemia, um voo de adeus e desconforto na classe econômica de um avião barulhento e, de repente, silencioso (como as despedidas), ou os porões da infância e da inocência: todos os contos são tristes e, logo, assustadores. Ademais, todos os contos, também, são bons – surpresa bem-vinda, uma vez que sou uma leitora cética de coletâneas de autores diferentes, sem negar, claro, que muitas possam se sair bem, como é o caso desta. 

O que me incomoda, por vezes, neste tipo de coleção, é que me parecem aleatórias, ainda que compartilhem de um mesmo tema, como se a razão daqueles textos estarem juntos fizesse pouco sentido literário, ou, quem sabe, a junção de autores novos e antigos servisse muito mais como propaganda de uns ou outros. Nesses casos, alguns dos selecionados para o livro são tão superiores aos demais que a sensação de ter lido alguma coisa incompleta é óbvia. Evidentemente, isso pode acontecer com coletâneas de um escritor só e, diversas vezes, acontece, já que um texto não depende somente de quem o escreve para se fazer coesão, pelo menos em qualidade, com o resto das obras de uma mesma assinatura. “Abrigo”, no entanto, compõe uma harmonia de vozes bastante distintas, mas maduras, embora em diversas etapas da travessia literária

O livro tem início com a vitória de Mané Menino sob o rei de Nego Damião, em um jogo de praça numa cidadezinha do interior, no mesmo dia em que a pandemia chega de vez a um país mais preocupado com politização e evangelização de uma doença sem partido ou religião, do que com a segurança de seus habitantes: tremendamente familiar. O conto “Coração-de-Nego”, de Renata Santana, centraliza uma trivialidade que se torna, de repente, essencial, quando é depravada de seu ritual diário, devido ao distanciamento social: o que fará o arrogante Nego Damião depois de perder publicamente para Mané Menino, sem oportunidade de revanche, visto que, agora, seu adversário não sai mais de casa? Este é um texto sobre a solidão e a tragédia dos “velhos de praça” em um tempo que é ainda mais inexorável com os que já assoviam as canções de sua própria (e outra) época.

O próximo é um testamento sem ponto nem vírgula de alguém que tem uma palavra para cada um de seus oito irmãos, sem deixar de ser, ele mesmo (o narrador), um alguém sem nome, tão hermético quanto seu texto: apesar de intitular-se “Todas as Palavras”, o conto de Marcelino Freire é um dos mais misteriosos dessa coletânea. É, também, um dos mais bonitos e, talvez, controversos – esse testamento, embora tão obscuro, ao mesmo tempo, parece uma confissão em voz alta (sugiro que assim o leitor o leia). 

No “Calçadão”, de Camilla Inojosa, madames voam – “nem pareciam andar na rua” – de salto alto, sob o olhar sonhador de Maria, que, com a desculpa de ver a lua na praia, fantasia o dia em que ela saberá voar em sapatos chiques, para a inveja de outros infelizes. Contudo, não pode se demorar, pois em casa, enquanto a mãe trabalha como doméstica fora, precisa preparar o jantar dos irmãos e do tio agregado, que fede horrivelmente à violência patriarcal e espera dela mais do que o cuscuz pronto e quente. Maria é uma Leontina jovem demais, além de um tipo tão palpável quanto a pandemia do primeiro conto.

“Horror adentro”, de Oscar Nestarez, tem coerência inegável com seu título: um turista em Yerevan, na Armênia, depara-se com um desejo rubro, ou uma “Morte Vermelha”, a quem persegue por ruas e ruas até o âmago desse lugar estrangeiro, que, simultaneamente, lhe é tão familiar. A perseguição, no entanto, acaba em um enigma torturante com ares de “O Poço e o Pêndulo”. A propósito, o texto todo tem um e outro toque de Poe ou, pelo menos, assim me pareceu.  

No conto de Débora Ferraz, “Inocência”, um porão em uma casa velha inicia um pleito entre duas meninas: a que visita pergunta à moradora se dá para criar um animal ali e ela decide mentir – “Eu crio um gato aqui”. A mentira, porém, vai ficando cada vez mais insustentável, tal qual a inocência mesma de quem a inventou. Este é um dos textos de que mais gostei, por causa de sua agonia nostálgica e seu terror sutil – a solidão das crianças (a mentira, o abandono) é das mais delicadas e tristes.

“Viagem de ida e volta”, um dos primeiros textos do autor Gilvan Lemos (1928-2015), é sobre a clássica dicotomia entre um campo saudoso e um suposto progresso “intruso”. Depois de três anos fora, um filho volta para casa do pai e reencontra uma fazenda vizinha, onde brincava quando criança, mas que, agora, está quase abandonada, depois que seu dono fica viúvo e eternamente preso às memórias de sua falecida esposa, tal qual o viajante – apesar de não mais viver no interior, carrega uma nostalgia romanesca pelo cenário de sua infância. Tema comum na literatura nacional da primeira metade do século passado, o conto foi originalmente publicado em 1948, na revista Alterosa.

Em “Tem coisas que não se afogam”, de Joana Rozowykwiat, cabelos vermelhos flutuam na margem de um rio de sangue que atravessa uma cidadezinha estagnada em sua história de massacres e brutalidade. Um “morador invisível”, embora tente escapar da maldição que assola o município – “Terreirinho é dor. (…) Terreirinho machuca a gente. Lugar de calvário e morte” –, acaba por encontrar seu destino trágico ao decidir o de uma forasteira mal-vinda. Tal qual no texto de Camilla Inojosa, a violência contra as mulheres faz-se etapa irremediável na narrativa. 

“Não faz muito tempo que o mundo sumiu. Um ano ou uma eternidade” – Na familiar distopia (como todas as boas são), de Diogo Monteiro, “Esta sala, estes quartos e este silêncio”, uma neblina engole toda a paisagem exterior à janela de um menino. Subitamente, a névoa toma as ruas, os vizinhos, a escola, deixando apenas ele, sua mãe e seu pai, numa casa fechada para o nada que há fora dela. Esse é o conto mais esquisito de toda a coletânea, cercado de seres misteriosos, profecias apocalípticas e cenas absurdas. No entanto, é esse tom kafkiano que perturba o leitor com sua paradoxalidade: bem como seu título, o texto todo nos parece análogo demais à nossa realidade atual. 

“A festa”, de Carol Rodrigues, é menos fantástico e, no entanto, seu acontecimento central é deveras insólito. No conto, um policial persegue um casal de idosos que é abordado e levado da praça por uma mulher enraivecida, para curiosidade agonizante do personagem – “a situação com os velhos me coça e eu não durmo nunca mais se não souber”. A resolução do caso surpreende, uma vez que o casal está metido em um cenário tão presumivelmente jovem e, ao mesmo tempo, tão velho. “A festa” é um adeus.

Por fim, Sidney Rocha encerra (muito bem) a coletânea com o conto “Fique tranquila”. Um homem se encontra “na mais estranha das fronteiras: a vizinhança das poltronas de um avião”. No meio dessa estranheza, uma senhora não para de reclamar do barulho que faz a máquina e, depois, de seu terrível silêncio – ela que é, contudo, a criatura mais barulhenta presente. Talvez fale tanto, especialmente, porque a quietude do abandono que carrega é insuportável de comportar sozinha. A mesma espécie de silêncio, porém, acompanha o narrador, que tenta em vão acalmar a mulher ou acalmar a si mesmo: ambos em um voo de morte e despedida. Este texto me interessou em particular pela delicadeza da narrativa e pela força da linguagem, uma vez que não há no enredo nada, particularmente, excepcional, sendo o cenário e as memórias que cercam o narrador e sua vizinha de viagem pouco incomuns – no entanto, esse conto é um dos mais bonitos, devido a um ar, em certo sentido, quase “sonial”, que parece intrometer-se na aparente banalidade da conversa dos dois e no ato mesmo de voar – dos pássaros e dos homens.

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Em síntese, a “Coleção Solidária” da Vacatussa, uma editora pernambucana de catálogo interessantíssimo, é um pequeno tesouro de livros curtos, embora a leitura dos breves textos organizados nos três volumes seja complexa, visto que, a maioria dos contos têm um cunho profundamente social, não obstante sejam, em especial, literariamente engenhosos.

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Wandavision: A estreia da Marvel no Disney+

 

Capa da série Wandavision. Foto: reprodução/ Disney. 

Você já deve ter percebido que as madrugadas de sexta-feira estão sendo tomadas por fãs de super-heróis, com as novas produções no universo cinematográfico da Marvel Studios, conhecido popularmente pela sigla UCM. A produtora que entrou na tão esperada fase 4, comemorou sua estreia na nova plataforma de streaming da Disney, o Disney+. A fase 1, marcou a vida de muitos telespectadores, foi iniciada em 2008 e finalizada em 2019. Marcada por heróis conhecidos e amados, os Vingadores, cuja a composição conta com filmes como: Homem de Ferro (2008), Thor (2011) e Capitão América: Primeiro Vingador (2011). A fase de estreia da Marvel nos cinemas foi finalizada com a superprodução Vingadores: Ultimato (2019), que atualmente é o campeão de bilheteria mundial.

A pandemia de COVID-19 e suas complicações acabaram mudando o calendário do UCM. inicialmente o foco seria a história da Viúva Negra (Scarlet Johansson), única vingadora sem um filme solo. Para iniciar a quarta fase, e mudando os planos da produtora, foi estreada com muito sucesso a minissérie Wandavision, estrelada por Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff e Paul Betany no papel de Visão.

Com sua primeira aparição 2014 na cena pós credito de “Capitão América 2: O soldado invernal” (para mim, um dos melhores filmes da Marvel Studios). Wanda Maximoff, também conhecida como “Feiticeira Escarlate”, tornou-se uma das mais poderosas personagens do UCM. Após perder seus pais, uma órfã criada junto com seu irmão gêmeo Pietro por um casal de ciganos, os Maximoff, é cobaia de um experimento e ganha seus poderes. Diferentemente da grande maioria, a feiticeira adquiriu suas habilidades, não nasceu com elas. Ao se juntar aos vingadores, a mutante conhece o androide Visão. O personagem que fora criado pelo vilão Ultron, com a função de derrotar o grupo de heróis, se rebela contra seu criador, mostrando ser totalmente diferente de sua personalidade original. Tanto Ultron como Visão foram inseridos na franquia em ‘Vingadores: Era de Ultron” (2015).

Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, em “Vingadores 2: Era de Ultron” (Imagem: Marvel Studios/Disney/divulgação

O projeto estava planejado para ser lançado em meados de 2021, porem teve seu lançamento adiantado e marcou com grandiosidade o início de uma nova era de filmes e seriados da produtora. Com episódios lançados toda sexta-feira, as 5 da manhã no Disney+, a serie inicialmente se mostra inspirada em sitcons. Com seu primeiro episódio gravado em frente a uma plateia de verdade, o piloto foca na década de 50. O casal vive em um adorável subúrbio, com figurinos espetaculares e cenas em preto e branco. Os episódios seguintes vão transitando entre as décadas de 60, 70, 80 e 90. Se engana quem pensa que a série é uma simples obra com um leve humor, conforme o tempo passa, é revelado cada vez mais sobre o que aconteceu após Ultimato, e como a feiticeira está criando uma realidade perfeita, mostrando que nem tudo é o que parece.

Cheia de surpresas a cada fim de episódio, e deixando seus fãs cada vez mais ansiosos para a quarta fase do UCM, a minissérie está se tornando um dos trabalhos mais inovadores da nova era. Mas todo esse sucesso não é à toa, dirigido por Matt Shakman (Game of Thrones) e sendo a porta de entrada de novos personagens importantes, a série liga seu roteiro ao filme Doutor estranho 2: no multiverso da loucura. Previsto para 2022, o novo longa do Dr. estranho, inicialmente seria um filme de terror, no entanto, por estar ligada a Disney, e sempre obtendo sucesso garantido em seus longas, a Marvel decidiu não partir para uma nova formula em seus filmes, já que seus telespectadores não estão acostumados com cenas muito assustadoras.

Wandavison traz surpresas que prometem fazer os fãs do casal surtarem em suas casas. A série ao longo de sua evolução apresenta personagens que nunca haviam aparecido no universo, e outros que se foram. Acompanhamos então a nova realidade da Wanda, onde não se sabe os limites de seus poderes, ou se realmente ela está fazendo tudo isso sozinha. O que será que vem por aí?

Fevereiro sem frevo: aglomeração de lembranças

Em registro audiovisual e em uma Olinda desconhecida por fevereiro, Wagner Duarte executa ao saxofone o célebre frevo “Hino do Elefante de Olinda”. Foto: Diego Nigro

De Colombina o infantil borzeguim

Pierrot aperta a chorar de saudade.

O sonho passou…

Manuel Bandeira

O mês de março já é visto na próxima curva da estrada e acabamos de passar pelo Carnaval a uma velocidade de 10 Megabytes, 15 MB, 3 ou 4G. O vi rapidamente pela janela cibernética. Olhei suas ruas estreitas e vazias e seus habitantes: senhores de idade olhando de seus portões o não-movimento das ruas, como se vissem caminhar suas próprias lembranças, suas próprias saudades, sem se reconhecer. Afinal, todos mudaram muito no último ano, pois nada como tempos difíceis para envelhecer o ser humano, para a criança crescer, à força, deixando para depois pequenos sonhos e grandes reencontros.

Eu sou um observador e ao mesmo tempo um desses habitantes olhando para minhas lembranças nessa cidade do espaço-tempo pernambucano chamada Carnaval. Boa parte do meu tempo dessa época passei em Caruaru, onde nasci, um dos pontos mais importantes no mapa carnavalesco até a primeira metade do século XX. Depois disso, declínio devido a evasão de parte da população pro litoral durante as festas e à diminuição do patrocínio dos clubes da elite para os blocos. Isso culminou no esquecimento da tradição carnavalesca por lá, de tal forma que boa parte dos mais novos habitantes nem sequer fazem ideia da história carnavalesca local. Como qualquer outra dessas terras brasileiras, herda do país o problema com a história cultural, tanto que se perguntar quem é o caruaruense Carlos Fernando poucos saberão quem é e o tamanho de sua importância para o frevo. Eu mesmo não sabia até um tempo atrás. Mas o espírito de Carnaval tem sido renovado por lá, desde quando, em um dia desses, um tal Bar Confraria da Sucata deu o pontapé inicial no processo de reciclar a festa.

Também passei pelo bairro de Bezerros da cidade Carnaval, com seus papangus fazendo as papagaiadas que os tornaram símbolos do carnaval no Agreste. Vivi boas e loucas tardes por lá. De Bezerros, seguindo o rastro do sol nascente durante o equinócio, chega-se a Recife, outro ponto importante para a festa e cujo silêncio de agora no Marco Zero seria irreconhecível nas Condições Normais de Aglomeração e Frevo – uma expressão cultural que nem rima, nem faz par com o isolamento social. O Rio Capibaribe não reconhece o reflexo que cria. As pontes do Antigo não reconhecem sua vaziez. O asfalto se desanima com tão poucos passos apressados para o show que acabaria de começar. E o ar chora um assovio que imita a última nota tocada no último frevo do último bloco de rua que por ali passou no ano passado.

Porém o caso é mais grave em Olinda. Lá o vento chora seco, o silêncio é o eco de outros silêncios, as ladeiras estão pra baixo e nos 4 cantos ninguém chegou. O sítio histórico parece mais histórico que de costume. Nele, há mais passado que presente, e nenhum futuro que se possa afirmar.

Até que um saxofonista aparece. Não é uma lembrança. É todo o bloco da saudade em um homem só e em um só instrumento. O ladrilho anda com ele e as ladeiras se inclinam no grau de costume. A música rasga o silêncio educadamente, pedindo licença, e o silêncio canta com ela, o vento canta com ela, e é até possível ouvir o coro da multidão que ali se encontrava no ano passado.

Aliás, que ano passado?! Viramos a curva do ano, passamos por janeiro como quem passa por um sonho, sem saber ao certo se realmente foi curto ou se apenas passou rápido, e cá estamos em fevereiro sem frevo e sem freio. 2020 não acabou. O ano novo não começou. Enquanto o frevo não for dançado pelas ladeiras, as marchinhas não forem entoadas nos blocos por multidões, os papangus não tomarem as ruas do Agreste e os tambores dos maracatus não ecoarem pelas ruas do Recife Antigo, o começo do ano para o folião pernambucano será apenas uma formalidade, e não um sentimento.

Leia mais do mesmo autor aqui.

Últimos Dias

Últimos Dias (2005) de um espírito agonizante

Tendo em Kurt Cobain uma clara inspiração, Gus Van Sant nos entrega uma obra potente. Foto: Reprodução.

Our revels now are ended. These our actors,

As I foretold you, were all spirits and

Are melted into air, into thin air.

A Tempestade – William Shakespeare

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” (2005) acompanha Blake, um músico que mora em uma mansão fria e vazia e que foge de todo e qualquer contato com o mundo exterior. Blake se arrasta entre a floresta e sua casa como um zumbi que se move em direção a um destino inexistente. Suas roupas são sujas e desgastadas, sua expressão é nula; em sua casa habita um grupo de amigos, mas eles raramente se encontram, Blake os evita como pode; o ambiente interno da casa é quase uma extensão da floresta que existe do lado de fora.

Em “Últimos Dias” parece não existir uma narrativa propriamente dita. Não há ação. Quase não há diálogos. Não há grandes sentimentos saídos de um grande artista. Não, há apenas um não-personagem que se confunde com o espaço em que habita. O drama sempre está suspenso. Toda vez que parece que haverá algo, uma certa tensão, uma realização concreta, Gus Van Sant nos remove, deixando-nos com a sensação de um coito interrompido. 

Nesse sentido, todo o filme é construído em torno da ausência. O desafio pós-moderno de Van Sant – que pode fazer muita gente dormir de tédio – é filmar alguém que já não está mais lá. Blake não fala, apenas balbucia. Ele é um homem privado de si mesmo. Um homem abjeto que não passa de um somatório de ruídos cacofônicos. 

No entanto, existem duas cenas nas quais seu espírito emite alguma luz e mostra que ainda está ali. 

A primeira é quando Blake está em uma sala com vários instrumentos. Então ele vai tocando um a um, em uma sobreposição, e pela primeira vez, presenciamos vida e harmonia. A câmera está do lado de fora da janela e vai se afastando pouco a pouco enquanto as camadas do som vão se preenchendo, até culminar em uma bela catarse de sensações sonoras. Por não existir quase nenhuma ação concreta ao longo do filme, esse momento torna-se extremamente poderoso; tal qual uma pequena fonte de luz acesa na escuridão. 

Na segunda, já próxima ao fim do filme, a câmera não se mexe, o quadro é estático. Há apenas Blake e seu violão – em uma posição característica de Kurt Cobain – seus cabelos loiros e sujos cobrindo seu rosto. O corpo desaparece e a protagonista é apenas a voz, apenas o talento, que ecoa as palavras de maneira visceral e hipnotizante “É uma longa e solitária jornada que vai da morte ao nascimento”. 

Cena do filme de Van Sant, diretor de obras como “My Own Private Idaho” (1991) e “Good Will Hunting” (1997). Foto: reprodução.

Como já sabemos, os últimos dias de Kurt Cobain preconizam um suicídio. Van Sant, se fosse um cineasta mais convencional, poderia tentar explicar os motivos para alguém cometer tal ato, ou até mesmo julgar. Não seria o suicídio o ato mais brutal que alguém poderia cometer a si mesmo? Ou seria o ato mais covarde? Ou, quiçá, o mais heroico? O diretor se abstém dessas prerrogativas e filma apenas o estado de seu protagonista, minimiza o roteiro e foca na abordagem, no protagonismo da forma. 

Não importa o porquê. Nem mesmo o como. Em “Últimos Dias”, sentimos o espaço. O vazio. A desolação. A partir da construção da mise-en-scène, sem acontecimentos dramáticos aparentes, Van Sant nos permite contemplar o lento apagar de uma estrela. 

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