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Tulio Carella, o Recife e a Memória Retecida


Montagem da companhia Teatro do Insólito do texto “Orgia: Diário Primeiro”, de Tulio Carella, Foto: Reprodução.

Talvez as águas do Capibaribe que receberam Italo Tulio Carella, professor de teatro recém chegado na cidade, lembrassem as águas do Rio da Prata, o mesmo que banhava a sua Buenos Aires quando decidiu aceitar o convite de Hermilo Borba Filho para dar aulas na Escola de Belas Artes, da então Universidade do Recife. Não se sabe o que ele trouxe em sua bagagem, mas se presume o que levou quando teve que sair daquela Recife efervescente cultural e intelectualmente do começo dos anos 1960. Anos depois, em 1965 ele lançaria um livro de poesia, Roteiro Recifense e, em 1968, Orgia, Diário Primeiro. Essas duas obras são unidas por laços de uma memória que é afetiva mas também sexual, e que se manifesta ao leitor de formas distintas: com tintas mais claras em Orgia e talvez mais camaleônica em Roteiro Recifense.

Tulio Carella já era um intelectual conhecido na Argentina e o propósito do convite de Hermilo Borba Filho se deu, provavelmente, para uma oxigenação no curso de teatro e ele caiu bem para essa  finalidade em um período no qual o Movimento de Cultura Popular, que teve no teatro um braço forte, estava começando a dar seus primeiros passos. Mas se por um lado os ecos dessa efervescência cultural se ouviam claramente em Pernambuco e em parte do mundo ocidental, existia um certo movimento de fechamento político e moral na latino-américa e Tulio Carella foi preso e torturado pelo Exército Brasileiro em 1961, por ter sido confundido com um traficante de armas para as Ligas Camponesas. Esse incidente foi o responsável pelo convite a sair da Universidade e do país, para o qual ele nunca conseguiu voltar até a sua morte, em 1977. Mas o fato maior é que ele guardava em seu apartamento, invadido enquanto estava preso, cadernos que eram os seus diários. O conteúdo destes cadernos descobertos mudou o rumo de sua estadia brasileira e provavelmente da sua vida. Anos depois esses cadernos, que provavelmente não mais existem, desembocaram em Orgia, diário primeiro, obra editada em 1968 por José Alvaro Editor e reeditada em 2011, pela Opera Prima.

Essas duas obras que Tulio Carella escreveu posteriormente à sua saída do Brasil e que são ligadas intrinsecamente a essa estadia recifense trazem uma memória afetiva que vem principalmente de um retroagir do autor, uma viagem para trás nas experiências que levou da cidade. Essa memória afetiva é também sexual e política, na medida em que ele assume a sua sexualidade para uma América Latina que se fechava moral e politicamente, e as duas obras representam muito disso.

Capa de “Orgia: Os diários de Tulio Carella”. Edição de 2011. Foto: Reprodução.

Roteiro Recifense se coloca como uma memória afetiva, um risco de saudade da cidade que o autor deixou para trás, e como ele mesmo apresenta no seu prefácio, são “Poemas escritos em Buenos Aires. Versos de pura nostalgia pernambucana, dedicado a los amigos Buenos y malos, ricos y pobres de la ciudad de Recife, rosa oscura del nordeste brasileño, donde el mar y los relojes tienen horas resueñas para el poeta.” Mas a obra é mais que isso. A maioria dos poemas trazem inscrita uma memória muitas vezes sexual,  sobretudo homoerótica, embora essa percepção tenha passado impune à certa parte da crítica jornalística da época, que a entendeu como de memória de alguém que sente saudades da cidade, e se Roteiro Recifense antecede Orgia cronologicamente em sua edição,  faz muito sentido enxergar a primeira como um abre alas da segunda, embora sejam obras estruturadas de formas diferentes: uma é uma seleção de poemas e a outra é uma escrita de si estruturada como romance. Mas em ambas há uma certa epifania de corpos, essencialmente masculinos, apolíneos e negros. E foram os negros naquele microcosmo do centro da cidade que inebriaram Tulio Carella, muito mais que a própria cidade e o seu grande salão intelectual. Vê-se isso na maioria dos poemas da seleção, e as imagens trazidas por eles são muito parecidas, há quase sempre algo que remete ao negro, como em 

LUMEM

Estás alegre porque eres

la sombra del sol.

Detrás de tu piel morena

rebrillan luces de oro

fino, enamorado,

en tersa combustión.

E em

MARINEROS

Carne de mar oscura

carne de marineros caboclos:

el agua salada.

tiene tantos secretos

como el agua dulce.

Con cuerpo inesperado

el caboclo cruza el mar

ardiente del verano

y traga a sorbos la negrura.

Em Orgia a memória é sobretudo homoerótica, e os relatos dos encontros intempestivos com os homens do centro da cidade são uma referência durante todo o texto. Essa é uma obra contundente de Tulio Carella, lançada dentro de uma coletânea erótica organizada por Hermilo Borba Filho. Nela o autor assume seus numerosos flertes e encontros com os homens, principalmente negros, e, embora as percepções sobre a cidade também estejam nela, é sobre isso que fala a obra, na qual está explícito que o que lhe “atrai no Recife é a atmosfera mortal, ou melhor imoral. Isto é a África com as vantagens do Ocidente. Vantagens que terei de abandonar um dia, como uma roupa velha.” E de fato teve que abandonar, com um pedido formal de saída da Universidade do Recife e em seguida do país, muito pelo conteúdo que encontraram nos seus cadernos-diários. Essa memória homoerótica foi transposta de alguma forma para Orgia, uma obra que amalgama relatos de uma escrita de si com alguns elementos de ficcionalidade, sem se saber ao certo onde um começa e o outro termina. 

Para Tulio Carella “o diário é isto que anota o bom e o mau amor, as tarefas cotidianas, as ambições secretas”, e foi em Orgia onde ele anotou essas impressões e relatos, usando artifícios estilísticos como mudanças na fonte tipográfica e na voz do narrador que servem para imprimir essa memória, que está principalmente em relatos como esse: “Na sombra da rua vejo um marinheiro negro, de braços compridos e mandíbula pronunciada. Parece esperar alguém e se desinteressa de mim depois de um olhar. Aproveito o fato de ele apoiar-se na parede para passar roçando-o e deixar que minha mão caia em sua braguilha.” Essa memória, conforme é retecida no texto, serviu para contestar uma ordem social vigente.

Parte dessa passagem do autor pela cidade pode ser resgatada por uma pesquisa historiográfica nos arquivos públicos nacionais brasileiros, mas muito dela provavelmente foi apagada por familiares e pela ditadura argentina. Nem Roteiro Recifense nem Orgia foram editadas no país natal do escritor até esses dias, e não constam dos catálogos eletrônicos das duas principais bibliotecas públicas do seu país natal, a Biblioteca Nacional Argentina e a Biblioteca do Congresso Argentino (no caso de Orgia, pois há um exemplar para consulta de Roteiro Recifense na Biblioteca do Congresso Nacional). Portanto, Tulio Carella reteceu a memória de sua passagem pelo Recife nessas duas obras e apesar dos silenciamentos que sofreu, elas ainda reverberam nos nossos dias como uma resposta, transgressiva e política, à violência sofrida nessa sua estadia em solo pernambucano. 

Sobre o autor: Moacir Japearson Albuquerque Mendonça. Cirurgião-Dentista licenciado em Letras Português-Inglês e mestrando em Estudos Literários pelo PPGLL-UFAL.

Referências: 

CARELLA, T. Orgia. Diário primeiro. Rio de Janeiro: José Alvaro Editor, 1968.

CARELLA, T. Orgia: os diários de Tulio Carella, Recife, 1960.  São Paulo: Opera Prima, 2011.

______. Roteiro Recifense. Recife: Imprensa Universitária, 1965.

Mary Shelley e o “Frankenstein”: uma crítica ao patriarcado


Mary Shelley, autora do romance “Frankenstein” . Foto: Reprodução

É difícil estar à altura das expectativas de seus pais. Quem poderia ter vivenciado isto melhor do que Mary Shelley, filha de dois dos mais radicais e proeminentes filósofos do século XVIII? Ela foi a filha de William Godwin, um grande filósofo político da Grã-Bretanha e Mary Wollstonecraft, também conhecida como a mãe do feminismo, que em sua obra pioneira, “A Reivindicação dos Direitos da Mulher”, apresentou o argumento da emancipação da mulher em uma sociedade patriarcal, que essencialmente exigia que as mulheres apenas “procriassem e apodrecessem”. Hoje, Shelley continua tão amplamente lida quanto seus pais, em grande parte devido ao seu primeiro trabalho ficcional “Frankenstein” ou “O Moderno Prometeu” (1818), sua publicação deu início ao gênero de ficção-científica. 

O gênero de ficção-científica foi inaugurado por uma jovem mulher, que tinha apenas 21 anos quando uma das obras mais influentes da literatura foi publicada em 1818.

Como dissemos, Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797, filha de dois dos escritores: William Godwin, utópico anarquista, e a feminista Mary Wollstonecraft, que morreu devido a complicações no parto. Depois de uma infância difícil com uma madrasta exigente, ela deixou sua casa aos 17 anos, com um dos colaboradores de seu pai, o poeta Percy Bysshe Shelley. Os dois se casaram logo após o suicídio da esposa de Percy, dois anos depois. O casamento foi infeliz, tumultuado pelos relacionamentos sexuais abertos “utópicos” de Percy Shelley e assombrado pelas mortes prematuras de três de seus quatro filhos. Aos 19 anos, em 1816, ao visitar Lord Byron com Percy, no Lago Genebra, os três se desafiaram a escrever uma história de terror. O resultado foi o romance “Frankenstein”, que seria publicado em 1818, se tornaria um sucesso popular instantâneo, e teria seu personagem principal transformado em um mito na literatura universal. Quatro anos mais tarde seu marido se afogou em um acidente de barco. Mary Shelley criou o filho com dificuldades, recebendo uma pensão anual de seu sogro, Sir Timothy Shelley, que se recusou a conhecê-la. Em 1844, com a morte do avô, o filho de Mary e Percy Shelley herda suas propriedades e Mary passa a ter uma situação financeira confortável. Ela nunca se casou de novo, mas continuou como escritora de sucesso até sua morte, em Londres, em 1851.

Ao seguir os passos de sua mãe, Shelley trabalhou em defesa das mulheres subjugadas na sociedade. No entanto, o traço da consciência feminista em seu trabalho foi largamente ignorado. Não foi, até as críticas feministas do final do século XX, que os estudiosos descobriram um ataque implícito à ciência e ao patriarcado em seu romance gótico “Frankenstein”, mostrando a consciência de Shelley da subjugação das mulheres em um mundo movido pela razão, pela ciência e pelo patriarcado. Isto pode ser uma surpresa porque “Frankenstein” mal apresenta um personagem feminino forte e independente e, ironicamente, a maioria das personagens femininas morre pela culminação do romance. Entretanto, foi justamente na negação das personagens femininas que Shelley procurou explorar sua questão mais relevante.

Frankenstein: edição comentada; Mary Shelley. Editora Zahar.

A obra Frankenstein gira em torno do personagem de mesmo nome, Victor Frankenstein, um cientista ambicioso que tenta desfazer o ciclo da natureza, trazendo de volta os mortos à vida. Em seu laboratório isolado, Victor consegue reanimar um cadáver – mas enojado com sua própria criação monstruosa, ele a abandona. A criatura, querendo ser amada e aceita pelo mundo, está cheia de raiva contra seu mestre e provoca estragos em sua vida, pedindo-lhe uma companheira para compensar sua existência solitária. Victor inicialmente concorda, mas percebendo que suas criaturas poderiam procriar e levar à aniquilação da raça humana, Victor rasga sua criação feminina em pedaços. O monstro jura vingança, levando  a trama a uma tragédia final.

A morte de personagens femininas no romance é o suficiente para questionar como a ciência e o desenvolvimento são essencialmente uma empresa masculina e subjugam as mulheres (uma teoria posteriormente defendida pelo ecofeminismo). Entretanto, a leitura feminista mais estimulante do romance foi feita por Anne Mellor em seu livro “Mary Shelley: Sua Vida, Sua Ficção, Seus Monstros”, em que Mellor afirma que Frankenstein é uma crítica feminista da própria ciência. A criação de um novo ser feita apenas por Victor, sem qualquer assistência feminina, pode ser interpretada tanto como antinatural quanto patriarcal. Mellor observa: “Ao tentar ter um bebê sem uma mulher, Victor Frankenstein falhou em dar a seu filho a maternidade e o cuidado que ele requer, o próprio alimento que Darwin explicitamente equiparou ao sexo feminino”.

Victor, assim, ao dar vida a uma criatura, não só usurpa o poder de Deus, mas também o das mulheres. Burton Hatlen, em seu ensaio “Milton, Mary Shelley e Patriarcado”, estende o argumento de Mellor ao apontar como, sob o mito patriarcal, o ato de criação é visto como exclusivamente masculino e a fêmea, na melhor das hipóteses, é visto como um “recipiente” que contém apenas a vida gerada pelos homens. A criatura, assim criada por Victor, não recebe nenhum amor, cuidado e afeto geralmente associados à feminilidade. Hatlen menciona que esta remoção da mãe de uma família patriarcal, reduz a criança ao mero status de um objeto. Filmes como Splice – A Nova Espécie (Vincenzo Natali) 2009, e Morgan – A Evolução (Luke Scott) 2016, que carregam o mito de Frankenstein também apontam o mesmo.

É importante entender o contexto no qual Shelley escreveu Frankenstein. O final do século XVIII foi um período de  Revolução Industrial, no qual houve a rapidez dos estabelecimentos das fábricas e máquinas. Em razão dessa supremacia das máquinas e do novo status quo, as mulheres (e os homens), cujos empreendimentos baseados em casas de campo entraram em colapso sob as pressões colocadas, em tese, pelo mercado capitalista durante a Revolução supracitada, ficaram desempregadas. Esta foi também uma época em que o domínio da ciência era inteiramente masculino. Parece haver um medo feminista em Shelley, pois ela viu os papéis femininos serem completamente negados em sua sociedade. Em uma era da engenharia genética, que procura criar híbridos de animais sem o ato natural de procriação, uma história cautelosa como a de Frankenstein não poderia ser mais relevante.

O filme biográfico “Mary Shelley” (2017), de Haifaa Al-Mansour, apesar de não ser inteiramente uma fiel interpretação da vida de Shelley, apresenta uma cena realmente memorável no final, quando uma jovem Mary (interpretada por Elle Fanning) vai a uma editora para que seu romance seja publicado. A editora está incrédula de uma história tão profunda de dor, culpa e perda escrita por uma mulher, rejeitando-a para ser obra de seu marido Percy Shelley. Mary responde apropriadamente: “Você ousa questionar a capacidade de uma mulher de experimentar a perda, a morte, a traição – tudo o que está presente nesta história – minha história!”

“Frankenstein” foi pioneiro no gênero de ficção científica e sua influência permeia a cultura popular, com muitas adaptações e recontagens. Mary Shelley já foi aclamada como uma figura revolucionária no gênero, mas as pessoas pouco sabem de sua postura feminista, que formou a mensagem central de seu romance de estréia e, também, o mais aclamado deles. Shelley, como uma jovem escritora, não se intimidou com seu legado familiar nem com sua associação com outros contemporâneos masculinos como Lord Byron e seu próprio marido Percy Shelley. No cânone romântico, se há uma mulher cuja influência não pode ser negada, ela é, de fato, Mary Shelley. Ou Mary ‘Wollstonecraft’ Shelley, como gostava de ser chamada.

A iminente obsolescência do álbum musical


“Eu realmente sinto que aqueles (artistas) que não estão indo bem no streaming são predominantemente pessoas que querem lançar música do jeito que se costumava lançar”, depoimento do CEO do Spotify, Daniel Ek. Foto: ObaBlog / Divulgação.

Uma importante mudança no mercado musical foi o processo que desembocou na digitalização da música e na praticidade de ouvi-la sem precisar de um CD. Artefato este considerado obsoleto atualmente e cuja existência atual muitas vezes se deve a uma memória afetiva. Décadas depois desse processo, pergunto: seria esse o futuro do álbum musical nas plataformas digitais de streaming?

Isso talvez soe um pouco exagerado (para mim mesmo soa). Mas foi isso que me pareceu quando li uma matéria que observava e analisava alguns depoimentos do CEO do Spotify, Daniel Ek, em uma entrevista concedida ao portal estrangeiro Musically. Entre outros depoimentos, o seguinte: “Você não pode gravar músicas uma vez a cada três ou quatro anos e achar que isso vai ser suficiente”. Ele falou isso sob o ponto de vista das métricas de engajamento de um artista com o seu público na plataforma de streaming. 

Curiosamente, quase no mesmo intervalo de tempo, ouço algo similar em um curso sobre o funcionamento do Spotify que estou concluindo para fins de gerenciamento artístico. Em uma das aulas o professor destaca que é importante para a saúde da conta do artista na plataforma digital que este mantenha uma consistência de lançamentos. A partir disso, reitera que o ideal seria um lançamento a cada dois meses ou ainda a cada mês! Isso seria importante para que o engajamento dos fãs do artista com a música dele estimule as métricas do Spotify a reconhecerem aquele artista enquanto bom (entenda aqui com uma boa quantidade de plays música)  e assim disponibilizar a música em playlists. Vale ressaltar que esta presença em playlists é um lugar bastante almejado por artistas por possibilitar que a música chegue a potenciais fãs usuários da plataforma.

Do ponto de vista do qual observo, muitas são as consequências que podem decorrer desse modus operandi da plataforma na carreira de artistas independentes. Isto é, aqueles artistas que não dispõem de uma equipe que o acompanhe cem por cento do tempo no gerenciamento de suas carreiras.

A dinâmica do streaming

Entretanto, uma curiosa consequência é a obsolescência do álbum musical e uma supervalorização do single, formato no qual apenas uma música é lançada como produto novo. Isso porque já que o ideal para as métricas do Spotify é manter uma constância de lançamentos a cada um ou dois meses, esse tempo não corresponde ao necessário para a disponibilização de conjunto maior de músicas de uma forma consistente. Imagine um álbum novo a cada dois meses! Além de que gravar música demanda investimento, não só financeiro, mas principalmente de tempo.

E não termina por aí. Colocar uma música nas plataformas de Streaming é só um ponto dentre os necessários em um processo de lançamento de nova obra musical. Isso porque a plataforma de streaming não vai recomendar a música do artista por si só para os ouvintes. Para isso ocorrer, é necessário que o artista mobilize pessoas para ouvir a música dele através de uma campanha de lançamento nos meios de comunicação e redes sociais digitais. Estas por sua vez demandam mais investimento de tempo e dinheiro para criação e promoção de conteúdo promocional

É a partir desse engajamento gerado através da campanha de lançamento que as pessoas atingidas pelos meios de comunicação chegam ao perfil do artista no Spotify. Quanto mais pessoas acessam a plataforma para ouvir a música, mais chances o artista tem de ser recomendado pelas métricas para outros usuários.

O que avalio a partir do exposto nesse texto e no que fica subentendido na entrevista dada por Daniel Ek, é que, para fins de engajamento, saúde das métricas do Spotify e, portanto, fins mercadológicos, lançar um álbum já não é mais proveitoso. Mais vale gravar a mesma quantidade de músicas e distribuir os lançamentos de cada uma em intervalos de um a dois meses. Agora, se formos analisar do ponto de vista trabalhista do artista, a quem cabe muitas vezes  gerenciar e até mesmo produzir o material de lançamento para cada música, fica a questão de onde ele vai reservar tempo para produzir o novo material a ser lançado com a devida atenção à qualidade artística da obra. E claro, atenção à qualidade do trabalho como um todo e à qualidade de vida.

A partir disso, artistas que acabam não aderindo à dinâmica de “novidade todo mês”, muitas vezes por falta de recursos, tendem a ser menos observados pelas métricas do streaming, consequentemente, menos recomendados, menos ouvidos, têm menos plays e são menos remunerados. Não que o valor pago do streaming seja satisfatório. Pelo contrário. Ele é alvo de críticas por boa parte dos artistas, muito embora seja quase indispensável para um profissional da música não disponibilizar seu trabalho nas plataformas digitais.

Capa do EP Isolamento Acústico, do artista Juvenil Silva. Foto: Divulgação

Eu digo quase porque há sim profissionais que dispensam o streaming. Seja por considerarem mais rentável ou como forma de protesto (ou ainda por ambos os motivos), há aqueles que seguem um caminho contrário ao mercado musical. Um deles é Juvenil Silva, que nos últimos meses têm produzido EPs intitulados “Isolamento Acústico” e, ao contrário de disponibilizar nas plataformas digitais, comercializa diretamente os álbuns através de boleto ou depósito bancário. 

Indústria Cultural e banalização

Tudo isso me faz lembrar do conceito de Indústria Cultural elaborado pelo crítico de arte Theodor Adorno, que refletiu, junto a Max Horkheimer no livro A dialética do Esclarecimento, sobre o padrão industrial na criação de uma obra de arte. Uma dessas reflexões chama a atenção para a banalização do consumo da música. Com base nisso, olho para o cenário atual dessa indústria cultural-musical e observo que um novo processo desenvolve seus passos: a banalização do lançamento de uma obra musical. Isso porque, em prol do engajamento, a espera e expectativa por um novo lançamento se torna coisa obsoleta. E, dessa forma, música nova tende a se tornar um acontecimento ordinário, do dia a dia, ou melhor, do mês a mês.

Para além disso, apesar dos possíveis benefícios mercadológicos, essa diluição de um álbum musical em singles traz consigo uma perda de valor artístico. Afinal de contas, um álbum não é somente uma coletânea avulsa e aleatória de músicas. Ele é dotado de uma unidade conceitual e narrativa que o torna um produto dono de uma mensagem artística própria. Isso ocorre através do diálogo conceitual, temático e sonoro entre as músicas em grandiosos álbuns como The Wall (1973), do Pink Floyd ou o Tropicália – Panis et Circenses (1968).

Na verdade, diferentemente do que disse Daniel Ek ao se referir ao álbum musical como um modelo de outros tempos, o que realmente me remete ao passado é o próprio lançamento de singles. Isso porque, antes dos lançamentos dos álbuns no formato de cds e até mesmo em discos de Vinil (LP), a forma na qual músicas eram lançadas, principalmente entre o início do século XX até por volta de 1950, se dava no formato do disco de 78 rotações. Neste disco cabiam apenas uma ou duas (curtas) músicas, assim como é o single dos dias atuais.

Isto é, a tecnologia possibilitou a transição dos 78 rotações para os discos de vinil e cds, formas de difusão do álbum de músicas. Curiosamente é também a tecnologia que ameaça a existência do álbum e valoriza o lançamento musical em um formato semelhante ao disco de 78 rotações. Isso faz do mercado fonográfico um cenário possível para uma próxima temporada de Dark cujo suspense, infelizmente, surte mais efeito nos artistas independentes.

 

Leia mais do mesmo autor aqui.

 

 

Jorge Amado: O eterno legado


Autor de obras como “Suor” (1934), e “O amor do soldado” (1947) faria 108 anos na última segunda (10). Foto: Reprodução – Todavia.

Nas ondas verdes do mar meu bem/ Ele se foi afogar/ Fez sua cama de noivo/ No colo de Iemanjá”

– Dorival Caymmi, “É doce morrer no mar”, lançada em 1954

“Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes, cinco nomes doces que todo o mundo o sabe”

– Jorge Amado, “Mar Morto”, 1936

Semana do aniversário de Jorge Amado, o baiano de Itabuna, nascido numa fazenda que hoje pertence a Ilhéus. Filho de fazendeiro e iniciado a Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, Jorge Amado deu voz ao povo preto numa época ainda mais marcada pelo racismo estrutural que a nossa. Falou de empoderamento feminino quando esse conceito ainda não existia. Em muitas de suas obras, denunciou os dissabores das relações abusivas, como em “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1966. Defendeu abertamente a libertação sexual das mulheres, àquela época expulsas de casa ao perderem virgindade antes do casamento, em “Tieta do Agreste”, de 1977. Além da problemática da queda da Ordem do Pai e do desmonte do Patriarcado, Jorge valeu-se da fábula bíblica do filho pródigo para denunciar crimes ambientais, já que havia iminência de instalação de uma fábrica de dióxido de titânio na Bahia. Tanto em “Jubiabá” (1935), quanto em “Tenda dos Milagres” (1969), e em muitos outros, Jorge antecipou-se ao debate sobre políticas inclusivas, afirmativas, identitárias, e de cotas para a população preta. “Tenda dos Milagres” é sua obra mais explícita sobre a importância e necessidade de reserva de vagas para população negra nas universidades e acesso ao ensino público de qualidade.

E o que dizer de Mar Morto, de 1936, uma crônica social sobre a precária situação dos pescadores da Bahia? Nossos tempos certamente reconfiguraram a questão, de modo que ela hoje aparece travestida na falácia dos “Micro Empreendedores” ou “Parceiros”, com bicicletas do Itaú, fazendo entregas de Ifood, e sendo motoristas de Uber. Nossos tempos fizeram nascer um termo que Jorge Amado não conheceu, mas que já no início de sua obra, falava de sua antipatia pelo assunto: uberização. “Mar Morto”, além de tudo isso, é o livro através do qual Jorge valeu-se da literatura fantástica e do mito yorubá sobre o amor de Yemanjá e Ogum, para denunciar opressão, desigualdades, e necessidades de implementação de direitos trabalhistas.

Em 1996, o escritor português José Saramago visita a Bahia e hospeda-se na casa de Amado. Essa amizade resultou em diversas cartas que desembocaram na publicação posterior e epistolar de “Com o mar no meio: uma amizade em cartas” (2017). Foto: Zélia Gattai/Acervo Zélia Gattai – Fundação Jorge Amado

Ah! Capitães da Areia, de 1937, sua obra mais lida nas escolas, e dos livros amadianos, o mais vendido. Hoje, meninos como Pedro Arcanjo são mortos pela polícia nas favelas do Rio de janeiro, e seus corpos velados sob gritos e apelos de que “bandido bom é bandido morto”. Naquela época, Capitães de Areia representou uma fresta de luz no debate acerca dos direitos da criança e do adolescente, cujo estatuto só foi implantado em 1990. Jorge, como Carlos Mariguella, viveu duas ditaduras: a do Estado Novo, de Getúlio Vargas, e a do Golpe civil-militar de 1964. Os anos de terror do Estado Novo estão retratados na trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”, de 1954.

Jorge Amado levou o Brasil para o mundo. Sendo nordestino e baiano, foi eleito deputado federal por São Paulo, e legislou na constituinte de 1946. Foi o principal autor da lei de liberdade de culto no Brasil, que descriminalizou o Candomblé, a Capoeira e o Samba. Jorge Amado era ateu, mas ocupou a quarta cadeira à direita, no Ministério de Xangô, acompanhado de figuras como Gilberto Gil e Dorival Caymmi, seu eterno amigo e parceiro. Além de romances e contos, Jorge Amado escreveu duas biografias: uma em homenagem a Luis Carlos Prestes – “O cavaleiro da Esperança”, de 1942 –, e “ABC de Castro Alves”, de 1941.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.

Conto | Cine Delirium

Cine Delirium
Ilustração de Lucas Santos

 Numa estreita rua, localizada em um bairro comercial, detentor de um caráter utilitarista, encontrava-se um edifício portador de uma arquitetura quase pungente, mas que agora, possuía uma fachada que fazia questão de expor que tinha sido levantado lá pelos anos 60.

Tirando o Cine Delirium, todas as construções ao redor eram cinzentas e estéreis; blocos idênticos de tijolos que não sentiam vergonha alguma de ostentar sua feiura insalubre.

Quem se aventurava a entrar naquele lugar, dava logo de cara com uma bilheteria, cuja cabine parecia saída de uma rodoviária antiga, na qual era impossível ver quem estava recebendo o dinheiro. Apenas era possível enxergar as mãos que empurravam os ingressos com certa rigidez.

O lugar era grande, muito alto e vazio. O eco que o som produzia nesse imenso salão, denunciava que, outrora, ele tinha sido habitado por vários objetos. No entanto, agora possuía apenas alguns cartazes e velhos panfletos; panfletos esses que davam o tom da pintura desbotada das paredes.

Ao atravessar a passagem que dava acesso à sala, sentia-se logo um cheiro acre que parecia ser uma mistura de água sanitária e desinfetante barato; um fedor que penetrava e ofendia qualquer nariz que se aproximasse do lugar. As pilastras e arabescos que um dia já foram dourados, passavam a impressão de que, em seu auge, o lugar era contemplado até pelo crítico mais purista. No entanto, atualmente soprava um ar de museu vazio, carregado de certa nostalgia decadente.

Estantes colossais subiam à altura quase indefinida do escritório, esse lugar escuro, iluminado apenas pelas chamas do incêndio branco do sol que escapavam através do basculante. Um homem de cabelos grisalhos, vestindo um figurino de bancário, entrou e caminhou em direção à mulher sentada atrás da escrivaninha.

– Já mancharam nossa pintura nova? Bando de vagabundos. Esses putos não tem mais o que fazer?

– A parede não é nova, a última vez que pintamos foi há dois anos – disse Marta.

Marta era uma mulher esguia de rosto adunco e pele morena. Mas o que mais chamava atenção eram seus olhos cansados. Resignados das constantes negativas recebidas pela vida.

– Cobrimos a pichação da semana passada ou não? Então é nova. Vou te falar, esses vagabundos que se dizem “protestadores”, tão protestando contra o que? Desde quando nosso trabalho não é honesto? Não vivemos em um mundo livre? Todo mundo não ganha o seu?

– São outros tempos. Outra geração. Os jovens de hoje têm muito mais acesso a informações e tem outra mentalidade. – Disse Marta enquanto abaixava a tela do seu notebook no qual jogava paciência com uma atenção monástica.

– Que se foda se é outra geração. Não se bate mais punheta? As pessoas não querem mais um relaxamento de qualidade? Sem correr o risco de ter que ver seu pinto no fundo da privada depois de uma mijada. É o melhor custo benefício que alguém pode encontrar pra ter uma grande experiência artística e ainda de quebra dar uma boa gozada. Porra de outros tempos. Antes os puritanos moralistas que enchiam o saco. Mas os puritanos e moralistas de hoje são tão burros que nem eles mesmos sabem o que querem e em que acreditam. Agora me aparece esses ditos “progressistas”. Parece que nesse “novo tempo” que tu fala, o progresso é tapar as bucetas que botam o pão na mesa. Só é permitido distribuir de graça agora. Cantarolar um som ridículo, rebolando e sentando em qualquer um, é liberdade, é progresso, é se tornar dono de si. Mas um filme bem feito, com todos os cuidados profissionais é “exploração”. Esses picas são uma piada. Não arrumam a própria cama e querem arrumar o mundo. Não enxergam a própria sujeira, e se por um milagre enxergam, ignoram. Mas o mundo? Ah, o mundo precisa ser salvo! Os coitados dos pratos não precisam ser resgatados do mosqueiro e da podridão. Quem precisa é o mundo. Mesmo que ele não tenha pedido ajuda nenhuma.

Quando Francisco começava a falar, não conseguia parar nem se quisesse. Gesticulava de modo que parecia estar regendo uma orquestra durante a execução de Carmina Burana ou dando uma palestra motivacional em um estádio de futebol. Fazia e vivia tudo de forma exagerada, como se fosse um guerreiro lutando por cada segundo da sua vida.

– Quais são os filmes da sessão de hoje? – Perguntou ele.

– “Rebuceteio: o retorno” e “No reino dos sentidos”.

– Ótimo. Tá vendo? Como alguém pode querer impedir a circulação de obras como essas? Não é essas coisas grotescas que se encontram por aí na internet. Eu tenho o máximo de cuidado estético na hora de comprar esses filmes. Eu aposto que nenhum desses ditos “progressistas” chegaram a assistir nem que seja dez minutos de qualquer um. – Sempre que ele falava a palavra “progressista”, balançava sua cabeça e fazia aspas com as mãos. -A maioria desses filmes mostram o valor da inocência e o prazer transgressivo da sua violação, Marta. O profano violando o sagrado, em tamanho colossal, bem na nossa frente. A nuance do contato. A sutileza brutal em que um corpo se choca no outro. Nesses filmes, a gente consegue se perder e imergir nessa realidade erótica de uma maneira que até Eros ficaria orgulhoso. Sentimos o cheiro, Marta. A gente consegue ver e sentir o cheiro da vida como ela é.

Toda vez que começava a falar do seu cinema e seus filmes, filmes esses sempre escolhidos a dedo, suas orbitas brilhavam. Era como se ele fosse André Bazin e os filmes que exibia fossem os Cidadão Kane da putaria underground. Seu Olimpo de fantasias agora era frequentado apenas por bêbados, prostitutas e homens que pulam a hora do almoço pra receber boquetes. Ou pra fazer boquetes. Mas ele não se importava. Como sempre se orgulhava em dizer, enxergava todos de igual pra igual. Seja ele o mendigo, a prostituta, ou o presidente do país. Clientes deveriam ser tratados com toda pompa e cortesia, como só poderiam ser. Se orgulhava de transmitir alguma experiência pra essas pessoas que, de outro modo, nunca teriam tido contato com algo desse nível. Jamais traíra seus princípios. Sempre agiu de acordo com seus valores e sua consciência. Sempre sustentado por seu lema de sacrifício, trabalho e deleite.

O cine Delirium, agora era visto pelos moradores da cidade como um lugar habitado por marginais e indivíduos sem densidade e caráter. Enxergavam-no como um templo impuro que jazia sob uma nuvem de mediocridade moral, coberto pela lama da degradação.

Francisco reclamava constantemente da situação atual, dessa regressão da sociedade e do próprio meio a qual dedicara toda a sua vida. Porém, o orgulho que sentia da sua vocação deixava seu ressentimento comendo poeira.

– Faltam algumas horas pra gente abrir – disse ele com uma voz mais tranquila – bota algum faroeste de Ford aí enquanto isso.

Sentado naquela multidão de cadeiras vazias, como um fantasma em meio a um cemitério abandonado, esperava com ansiedade de novato o momento em que a luz daria vida ao vazio branco da tela. Quando finalmente começou aquele ritual de imagens e cores, no qual sempre contemplava impassível, com uma concentração sacerdotal, foi transportado em uma viagem a seu passado.

Viu-se diante de uma enorme multidão que esperava com efusão pra entrar na sala e assistir a primeira exibição do controverso e famoso Garganta Profunda. Depois de muito esforço e insistência, ele conseguira a proeza da primeira exibição do filme no estado. Pra espanto de todos, em uma província remota no interior do Agreste. Além dos habitantes locais, várias pessoas de cidades vizinhas se fizeram presentes pra assistir aquele sucesso mundial.

A fila rodeava o quarteirão, uma multidão espumante e inquieta que parecia estar prestes a entrar em uma festa de Calígula. Até a polícia teve que ser acionada pra esfriar a temperatura dos mais animados. Jamais um evento assim causou tanto alvoroço nessa cidade interiorana. Olhando tudo aquilo, Francisco se sentia como Napoleão organizando seu exército. Seus olhos transmitiam apenas força e vigor. Nada o tirava do sério. O Fidel do pornô artístico. O líder detentor do poder de controlar as massas e apresentá-las àquilo que considerava a revolução da “arte de vanguarda”, da transcendência dos corpos; como costumava argumentar a todos do bar onde sempre tomava suas cervejas antes de voltar pra casa.

Alguns religiosos levantavam cartazes e balbuciavam sons inaudíveis, mas nem mesmo esses pareciam convictos de sua contestação. Naquele dia, havia uma aura na qual a curiosidade e os instintos mais primitivos superavam qualquer resquício de moralismo.

No momento em que a primeira leva da multidão se acomodou e as luzes se acenderam, ele sentiu alguma coisa dentro de si, uma sensação que apenas tinha experenciado na infância. De repente, seus olhos umedeceram. Porém, logo tratou de bater no próprio rosto e evocar Napoleão.

***

A casa de Francisco era cheia de grandes móveis, quadros coloridos e diversos objetos que nem ele mesmo lembrava qual função aqueles trecos exerceram em sua vida. Gostava de acumular coisas. Sua casa era o legítimo ninho do imperador de uma Roma caída, prestes a ser tomada por bárbaros.

Na cozinha quente, em frente da pequena televisão, estava Jana. Sua esposa tinha cabelos ligeiramente curtos, uma voz macia e uma fala provinciana que denunciava uma certa falta de sofisticação, mas um imenso e inocente charme.

Ao chegar do bar, no qual mantera o hábito religioso de beber suas cervejas após o expediente, Francisco sempre tomava um banho e sentava-se na mesa à espera do seu jantar.

Nesse dia, ao levar o prato de macaxeira e carne de sol que Francisco sempre amara, Jana, por um descuido, deixou um copo cair no chão.

– Tá maluca mulher? Presta atenção, porra! – Gritou Francisco com uma expressão furiosa.

De uns tempos pra cá, até o episódio mais corriqueiro era capaz de deflagrar um conflito arrasador. Gritarias, ameaças, e choros tornaram-se comuns no dia a dia daqueles dois. Talvez o pior momento do dia, tanto de Jana, quanto de Francisco, era quando ele voltava pra casa.

Francisco passara boa parte da vida oscilando da sensibilidade genuína à brutalidade, do carinho sincero a terrível irritação. Mas agora, sua hybris o dominava de modo que nem ele mesmo tinha consciência, congelando assim seu pêndulo dos sentidos apenas de um lado.

Após aquele grito ter saído de seu peito, ele caminhou em direção a porta de casa. Ao abri-la, a raiva que viera do nada, de repente deu lugar a dúvida e a confusão. Teve um impulso de escapar e fechar a porta com toda a força que possuía, contudo, sentiu o tempo paralisando, se enxergou como um ator em um teatro de máscaras de papelão. Toda a sua fúria parecia falsa, projetada pra combinar com uma vida de plástico.

Ao sair, encostou a porta e sentou no meio fio. Tentou desvendar o momento no qual chegara aquele ponto. O momento no qual até a queda de um copo se transformava na Terceira Guerra Mundial. Sua cabeça rebobinara, com uma velocidade típica das fitas cassetes que costumava assistir seus faroestes, na tentativa de buscar de onde surgira tanta raiva, mágoa e ressentimento. Voltou e passou por momentos felizes, momentos tristes, e outros momentos que não sabia nem como julgar. Mas nada de encontrar a causa, o inicio de tudo. O acontecimento principal que fizera o cordão da harmonia ser rompido. Nada. Nem uma morte de um duque. Nem mesmo uma invasão a algum país aliado. Chegou à conclusão de que NADA era a única coisa que podia fazer. Ele nem tinha idade pra mudanças mesmo. Mas pelo menos tinha seu cinema. Isso sabia que jamais poderiam tirar dele.

A Falência, de Júlia Lopes de Almeida


Júlia Lopes de Almeida, autora brasileira de livros como A Falência, A viúva Simões e A Intrusa. Foto: Divulgação.

No céu, sobre uma biga alada, a Marianne brasileira de Steckel, vestida à moda romana, mas com seu barrete francês na cabeça, carrega em uma mão a palma que indica o triunfo e, na outra, um escudo com o emblema da bandeira de Minas, baseado na Conjuração Mineira. É a imagem de uma mulher que representa a República vitoriosa, um dos mais importantes e populares símbolos republicanos desde a Roma Antiga à França Revolucionária. No Brasil, contudo, a alegoria feminina da República não teve tamanho êxito. Fez-se mais ilustre, positivamente, a imagem de Tiradentes e, quando não se estava tão satisfeito com o novo governo, a jovem, que representava liberdade e maternidade, transformava-se em prostituta ou mendiga. O caso é que, conforme Lilia M. Schwarz, por aqui, “as mulheres continuavam em casa, com vestimentas que lhes cobriam o corpo inteiro, e sem direito a participação política”.

A principal obra de Júlia Lopes de Almeida, “A Falência” (1901), é ambientada em 1891, o ano “em que o preço do café assumira proporções extraordinárias” e a Belle Époque brasileira já tinha presidente. Um dos primeiros livros naturalista-realistas de autoria feminina começa com uma descrição da frenética rua em que fica o armazém do português Francisco Teodoro no pico da hora de trabalho, quando “ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados’ em um Rio de Janeiro que “ardia sob o sol de dezembro”. Lá fora, a constante urgência da labuta; ao lado do armazém, dentro de seu gabinete, Teodoro repousava na tranquilidade de sua opulência à escrever cartas. Tendo desde menino trabalhado com o único objetivo de fazer fortuna, para o empresário o Brasil “era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio”, ainda que sob o governo da “maldita República”. Ironicamente, o patrimônio de Francisco Teodoro encontra a decadência através de arriscadas especulações durante o Encilhamento.

Como o título do livro evidencia, o principal acontecimento do romance é a falência de um dos mais prósperos homens do negócio cafeeiro. Todavia, é na família de Teodoro que está o eixo essencial do livro, particularmente em suas mulheres, ainda que os protagonistas masculinos tenham substancial destaque. Assim, com a certeza de que pouco lhe servia a fortuna se não a tivesse com quem compartilhá-la, Teodoro casa-se com a belíssima e pobre Camila, e com ela tem quatro filhos: as gêmeas pequenas Lia e Rachel, Ruth, a jovem violinista que apaga-se à arte acima de tudo e Mário, o desejado herdeiro a quem falta qualquer senso de responsabilidade. Ademais, a família acaba por receber uma sobrinha como agregada, Nina, uma espécie de Fanny Price, apaixonada pelo primo e com relações totalmente desiguais na casa: nem filha, nem criada. 

O palacete Teodoro, tal qual qualquer edifício de riqueza e popularidade, recebe visitas constantes. Uma, no entanto, se faz mais presente: Dr. Gervásio Gomes, que Teodoro considera já tão “de casa” que não percebe ser o amigo, o amante da mulher. Em cômica consonância com Aléxis Alexandrovitch, esposo de Ana Kariênina, o qual estremecia à ideia de que a mulher tivesse uma vida particular, Teodoro vê em Camila somente a estampa banal da figura feminina, mãe e esposa: “O lar é o seu altar; deslocada dele não vale nada”.


A Falência, portanto, é um romance de adultério que, para mim, singulariza-se devido à duas particularidades. A primeira está no fato de que não há moralismo ou fatalismo presente na narrativa do relacionamento entre Camila e Gervásio. Contrário à outros livros de mesma temática, tais quais “Madame Bovary”, “Ana Kariênina” e “O primo Basílio”, o destino de Camila não é conduzido à catástrofe por causa de sua ofensa, tampouco Júlia Lopes de Almeida exprime qualquer sentença apostólica direta ou indireta contra sua personagem. Longe disso, a própria Camila censura o julgamento arbitrário de autores homens quando propõem-se a tratar de romances como o que vive com Gervásio: “os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruimos”. E quase às lágrimas, continua, numa avaliação deveras complexa da autocracia masculina: “eu soube de muitas coisas e fingi ignorá-las, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lhas com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganá-lo pesa-me, pesa-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo”. Ao que Gervásio responde, na ingenuidade de quem, como homem, goza de certa permissividade para tais transgressões: “É extraordinário! Nunca julguei possível essa dualidade no amor.”

A propósito, Dr.Gervásio tem um dos melhores quadros de personagem do livro. Aceito no meio da família por ter salvo um dos filhos do casal do tifo, o médico não apaixona-se por Camila instantaneamente; era ela, ainda, muito mãe e esposa para chamar-lhe a atenção. No entanto, quando a exaustão dos seus deveres alivia-se, ela deixa de lado as velhas vestimentas ordinárias e vai moldando-se às inclinações do novo amigo, tornando-se quase que “uma obra sua”. De modo que, o exigente e (excessivamente!) autoconfiante doutor, encontra-se na casa da amante absolutamente todos os dias, para a total desconfiança dos conhecidos da família e ridícula ignorância do marido de Camila. 

Acho particularmente interessante, um dos episódios em que o Dr.Gervásio, à pedido de Teodoro, visita uma área pobre do Rio para examinar um dos empregados do armazém. Preocupado, essencialmente com a arte ou como diria Dostoiévski, com o sublime e belo, a religião de Gervásio é Dante e Camões. Logo, diante da cidade em sua forma mais grosseira, “uma cidade alheia, infernal, preocupada bestialmente pelo pão” (o que talvez indique o início das favelas), lhe parece sobretudo pitoresco que haja vida entre aqueles homens-máquinas, ou que ali haja, em especial, amor, onde vê apenas uma bela mulher, uma miragem em tal espaço. Esse momento se faz relevante, porque me parece ser essa figura quase angelical em um lugar tão proletário, um símbolo da pureza que traz o trabalho, um dos mais importantes recursos de redenção da maioria das personagens do livro. Para Gervásio, como puro e imperturbável burguês, a atividade significa muito pouco.

Contudo, é o trabalho que, curiosamente, socorrerá Camila no desamparo da falência seguida de suicídio do marido e da descoberta de que Gervásio já é casado e, portanto, não pode tirá-la da condição de indignidade social. Assim, primeiramente sob o domínio de um homem que, continuamente, a humilha (“É nas medíocres que se encontram as esposas”) e, depois sob império de um amante que a ama por ver nela “um reflexo perfeito da sua alma”, Camila descobre a liberdade junto às filhas, à sobrinha e à criada mais antiga, ao decidir que vai educar as gêmeas que são levadas para a casa da rica família de que Mário acaba por fazer parte através de um casamento meio apressado. Nina, enquanto cose à máquina, conclui: “Faz bem, tia. O trabalho distrai”.

Todavia, a autora não nos aborrece com uma romantização demasiadamente irrealista da pobreza ao associar trabalho à expiação. Duas de suas frases no romance – “Na sociedade há uma coisa ridícula: a pobreza. (…) A pobreza tem morrinha, é suja.”- , me lembraram uma das falas mais emocionantes da literatura russa, dita por Marmieládov em Crime e Castigo:  “Na pobreza ainda se conserva a nobreza dos sentimentos inatos; na miséria não há nem nunca houve ninguém que os conserve.” É com medo da pobreza, que pouco se diferencia da miséria para Francisco Teodoro, que o empresário falido se suicida. Em um momento, a filha Ruth pergunta ao pai: “Neste mundo então só há lugar para os ricos?”, e ele, desconsolado, responde: “Bem, sim…”, para depois quase profetizar que “o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada”.

É notável, também, os comentários da autora, que era abolicionista, sobre as criadas negras, apenas legalmente não escravas. Dentre tais personagens, a mais comovente é Sancha, empregada das tias de Camila, que é tão terrivelmente abusada que pede à Noca, a governanta “mulata” da família Teodoro, para comprá-la arsênico, porque pretende matar-se. Nesses casos, o trabalho do qual “surgiria a redenção do povo” através de seu “suor e lágrimas”, deixa de ser salvação para tornar-se violência. Deve incomodar ao leitor contemporâneo, porém, a adjetivação constante que Júlia faz dessas personagens que acaba por bestificar o sujeito negro. Impressiona, inclusive, que um dos seus romances anteriores tenha sido considerado por alguns críticos como comparável à um dos maiores clássicos antiescravistas da literatura americana A cabana do pai Tomás. Com efeito, apesar de progressista, Júlia ainda conservava certos preconceitos de seu tempo, então, como concordaria Alexandre Dumas, não julguemos um autor de uma época com preceitos de outra.

Finalmente, a segunda particularidade que faz de A Falência, um romance de adultério singular, é que a aventura romântica entre Camila e Gervásio, conforme se pode observar acima, não é o único centro fundamental do livro, como se presumiria de uma autoria feminina. Acredito que, longe disso, para a surpresa dos leitores que esperavam das mulheres a anacrônica permanência em um romantismo ultrapassado, Julia fez desse livro, um dos maiores romances da primeira metade do século XX, posterior à obra de Machado de Assis. Me agrada muitíssimo sua escrita pouco artificiosa, sem jamais deixar de ser poética – em dados capítulos pensei ler, mesmo que de longe, alguma das irmãs Brontë! Portanto, com um estilo que sugere o zolaísmo, caracterizante na vertente naturalista, Júlia escreveu uma crônica sagaz da burguesia carioca durante a Primeira República, “já em posse de todos os seus meios” como autora, tal qual bem disse José Veríssimo sobre esse que é o seu maior romance.


Júlia Lopes de Almeida foi a mais importante autora da Belle Époque brasileira. Talvez nossa primeira maior escritora. Com uma produção vasta da literatura ao jornalismo, da ficção às campanhas ambientalistas, Júlia foi uma das autoras (entre homens e mulheres!) de maior êxito em crítica e vendas de seu tempo, tendo, pelo menos, três grandes obras de alto valor literário:  A viúva Simões (1897), A Falência (1901) e A intrusa (1908). Apesar disso, ainda na primeira metade do século XX, sua obra foi caindo em ostracismo, algo que muitos consideram estranho, mas que parece ser mero resultado das seleções patriarcais do nosso cânone. É certo que Júlia quase entrou para a lista dos quarenta imortais da Academia Brasileira de Letras, que só veio à aceitar autoras mulheres na década de 1970. Portanto, incluiu-se seu marido, sem igual mérito literário, apenas para compensação da rejeição de Júlia, que sabia ter sido citada para o título. Não obstante, sua obra foi maior que o esquecimento imposto e, atualmente, há um justíssimo, ainda que deveras atrasado, movimento de resgate de seus livros. Faz-se, agora, essencial que reparemos o contínuo desaparecimento de figuras femininas na história de nossa produção artística e ler Júlia Lopes de Almeida é, sem dúvidas, um excelente ponto de partida.

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Celso Furtado: Da economia à cultura, a luta pelo desenvolvimento


Celso Furtado completaria 100 anos em 2020. Foto: Reprodução.

Sobre o autor: Welton Humberto é estudante de Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, e Agente de Pesquisa e Mapeamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Muito tem se falado sobre Celso Furtado nos últimos meses, sob a chancela do seu centenário. A comunidade acadêmica nunca largou a mão deste que, desde a publicação de Formação Econômica do Brasil (1959), é tido como um dos maiores pensadores das fundações econômicas, históricas e sociais do nosso país. Assim, esta vem produzindo, ainda que em tempos de pandemia, livros, artigos e palestras virtuais em torno de Furtado com um frenesi louvável. Mas não só a academia respira ares Furtadianos neste tão conturbado ano de 2020, alguns veículos de imprensa também. E é sobre tal fenômeno que me surge a pergunta que lançarei de forma imediata e que pretendo, aos moldes de um jovem admirador de Celso Furtado e curioso quanto aos assuntos do país, tentar resolver com você.

É o centenário de Celso Furtado que o coloca de forma calorosa nas discussões de 2020, ou é o acumulado do que nos trouxe até aqui, junto à trágica realidade social, econômica e cultural que vivemos neste fatídico ano que coloca, de forma tão calorosa, as comemorações do centenário de Celso Furtado?

Ousar responder tal pergunta exige que antes passemos por aspectos da vida e obra do ilustre homenageado. Para aspectos biográficos específicos, recomendo os “Diários Intermitentes 1937-2002” e a “Obra Autobiográfica”, ambos do próprio Celso Furtado. Porém, não posso me privar, mesmo assim, de trazer alguns fatos de sua biografia.

Celso Monteiro Furtado nasceu em Pombal, no interior da Paraíba, no dia 26 de Julho de 1920 e passou os seus primeiros 19 anos de vida no Nordeste, lugar onde  formou-se como indivíduo dividido entre a vasta biblioteca do pai, o advogado e professor de português que seguindo a tradição familiar viria a se tornar juiz, Maurício de Medeiros Furtado, e o contato com os grandes problemas econômicos e sociais enfrentados pela região. Em 1940 debanda ao Rio de Janeiro para estudar Direito. Começa ganhando a vida como jornalista da Revista da Semana e logo depois ingressa no serviço público, onde a temática da administração pública o fascina e vira seu objeto de estudo.

Em dezembro de 1944, após o término da faculdade, Celso Furtado é convocado à guerra e parte para a Itália junto da Força Expedicionária Brasileira, tornando quase um ano depois. Em 1947, dois anos após sua volta, Celso vai à Paris. Na capital da França, aprofunda os estudos relacionados à administração, economia, história, ciências sociais e defende a tese “A economia colonial brasileira nos séculos XVI E XVII” (1948), que o rendeu o título de doutor em economia pela Universidade de Paris-Sorbonne.

Para dar fluidez ao texto e vazão aos fatos, devo recorrer a narrativa com a efervescência com que tudo se deu na trajetória do nosso tão estimado pensador, após término dos seus estudos em Paris. De Sorbonne, Celso vai trabalhar, em 1949, na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), contribuindo de forma destacável para a formação da mais influente escola de pensamento econômico da América Latina. Em 1957, deixa a Cepal e vai para a Universidade de Cambridge, onde passa um ano dedicado à academia e retorna ao Brasil com os originais do seu livro “Formação Econômica do Brasil”, que é publicado em 1959, traduzido para 9 idiomas e tido como um marco na historiografia econômica.

Celso Furtado e Gilberto Gil: dois Ministros da Cultura do período democrático brasileiro. Foto: Reprodução.

Doravante, o brilhantismo teórico encontra a prática e ele vai assumir cargo de direção no BNDE, instituição na qual terá como foco a região Nordeste e suas questões. Idealiza e dirige a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e ali implanta suas políticas de desenvolvimento para a região até o seu exílio, em 1964, devido ao Golpe Militar.

Para Furtado, é no Nordeste que se mostram de forma potente todos grandes problemas estruturais do Brasil. São as desigualdades da própria região e o subdesenvolvimento relativo do Nordeste ante o Sudeste, ambos fragmentos de um país subdesenvolvido que mostram como, desde o Brasil colonial, a manutenção da concentração da renda e da riqueza, o atraso tecnológico e o modo de dominação social são peças dispostas no tabuleiro político, a fim de garantir, em tese, que um único grupo ganhe sempre o jogo da acumulação do capital, sacrificando o bem-estar social e desenvolvimento econômico. Seja da região Nordeste, seja do Brasil.

Cultura e Desenvolvimento 

Voltando do exílio, após a anistia política de 1979, além de se dedicar às atividades acadêmicas, Celso participou ativamente das discussões políticas do país, contribuiu para a elaboração do programa econômico do governo de Tancredo Neves e de 1986 a 1988 foi Ministro da Cultura do Governo Sarney (1985 – 1990). Pode parecer estranho, para quem está o conhecendo nestas linhas, que Furtado tenha sido indicado ao Ministério da Cultura. Afinal, o que diabos faz um economista administrando essa pasta?

Para tal pergunta, o próprio Furtado responde em vários momentos ao longo dos seus escritos, mas trago uma citação, em especial, do livro Cultura e desenvolvimento em época de crise (1984), no qual podemos encontrar a seguinte reflexão:

 “Na fase em que nos encontramos, de explosão dos meios de comunicação, o processo de globalização do sistema de cultura terá que ser cada vez mais rápido, tudo levando a crer que estamos fechando o ciclo que se abriu no século XVI. Todos os povos lutam para ter acesso ao patrimônio cultural comum da humanidade, o qual se enriquece permanentemente. Resta saber quais serão os povos que continuarão a contribuir para esse enriquecimento e quais aqueles que serão relegados ao papel passivo de simples consumidores de bens culturais adquiridos nos mercados. Ter ou não direito à criatividade, eis a questão.”

Para Celso Furtado, o Estado não devia apenas estimular o consumo de conteúdo cultural, mas sim trazer condições materiais para que a cultura nacional pudesse ser produzida e consumida, visto que a produção cultural é elemento primordial para o desenvolvimento de um povo. Como afirmou Furtado no Fórum dos Secretários da Cultura, em 1987:

“O Estado que assumimos é instrumento de um povo livre que, não obstante as desigualdades, luta para realizar um projeto de resgate da dívida social. Cabe a nós atuar em função desse projeto. Temos, por conseguinte, que nos preocupar profundamente com a questão das desigualdades sociais e regionais do Brasil, que limitam e inibem a difusão de valores do patrimônio de todos os brasileiros. O Brasil de hoje é marcado por profundas desigualdades no que respeita ao acesso a esses valores. Cabe ao Ministério da Cultura a responsabilidade maior no enfrentamento desse desafio. Por outro lado, temos enorme capacidade criativa que não chega a se manifestar em razão de constrangimentos sociais, o que constitui outro desafio para a política cultural. E ainda temos a necessidade de afirmar nossa identidade, de preservar sua integridade, em face da multiforme ofensiva da indústria cultural. Portanto, o Estado para nós é essencialmente o instrumento de um projeto de difusão de valores, de abertura de novos canais de comunicação, de descoberta de fontes de criatividade e de preservação da identidade de nossa cultura. É assim que pensamos aqui no ministério.”

Assim, Furtado foi o criador da primeira lei de incentivos fiscais à cultura, a Lei Sarney, cujo principal propósito era o de evidenciar a sociedade como um motor para a viabilização da produção cultural, com olhar especial para os aspectos regionais do país. Projeto que veio a ser consolidado em 1991 com a aprovação da Lei Rouanet.

Então, após a breve caminhada feita pela trajetória deste que dedicou a vida para entender e mudar o Brasil, a resposta à pergunta feita momentos atrás salta diante dos nossos olhos. É sim o acumulado do que nos trouxe até aqui, junto à nossa trágica realidade social, econômica e cultural que coloca, de forma tão calorosa, as comemorações do centenário de Celso Furtado. Pois nele, na sua leitura do Brasil e na sua atuação ante a realidade, encontramos esperança e vigor, não para repetir os mesmos passos, mas para que venhamos com o mesmo ímpeto dispor-nos a pensar e atuar na luta por um Brasil diferente.

E finalizando mais uma das incontáveis homenagens dirigidas a ele, deixarei algumas palavras de Celso Furtado no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Ciências – Trechos retirados do livro “Celso Furtado – A Esperança Militante” (2020) – um ano antes da sua morte, em 4 de junho de 2003:

“As ciências evoluem graças a agentes que são capazes de atingir e ultrapassar certos limites. Não basta armar-se de instrumentos eficazes. O valor de um cientista resulta da combinação de dois ingredientes: imaginação e coragem. Em muitos casos, cabe-lhe também atuar de forma consistente no plano político, portanto, assumir a responsabilidade de interferir no processo histórico. Não devemos esquecer que a ciência, essa maravilhosa criação do engenho humano, está condicionada pelos valores da sociedade onde é gerada… Se ajudam os homens a enfrentar uma profusão de problemas, também contribuem para conformar a visão do mundo que prevalece em certa sociedade. Assim, podem servir de cimento ao sistema de dominação social em vigor, e eventualmente justificar abusos de poder… Faço essas reflexões para enfatizar a responsabilidade que nos advém coletivamente na construção de um Brasil melhor. Somos uma força transformadora deste mundo. Cabe-nos, a nós, intelectuais e cientistas aqui presentes, balizar os caminhos que percorrerão as gerações futuras.”

(Celso Furtado – Discurso de posse na Academia Brasileira de Ciências, 4 de junho de 2003)

The Midnight Gospel e o poder da resiliência


The Midnight Gospel, série de animação da Netflix. Foto: Reprodução

Alguns propositalmente a esquecem, outros a escondem por trás de antigos retratos e da história. Os filósofos, misteriosamente, embarcam numa longa viagem para entendê-la. Se algo sei é que neste século ainda podemos celebrar uma das últimas – e únicas – verdades absolutas: a morte a todos visita.

É, paradoxalmente, um mistério sem mistério, o inesperado esperado. O que pode ajudar a nos reconciliar com esse conceito? O que compreender enquanto aguardamos a derradeira hora? Questões como essa invadiam a minha mente enquanto eu assistia ao The Midnight Gospel. Um conceito simples, que talvez não se aguentaria por si só se as conversas de Duncan Trussell Family Hour que o suportam, desconstruindo com serenidade e lucidez alguns dos maiores medos da nossa existência, não fossem tão extraordinariamente impactantes.

A nova série de animação da Netflix mergulha em cenários apocalípticos e deixa-se guiar por reflexões existencialistas sobre algumas das maiores inquietações da existência humana. Entre os cenários mais apocalípticos, bizarros e coloridos, somos convidados a ouvir e viajar por reflexões sobre o significado da vida, para onde vamos depois dela e como fazer a estranha travessia pelo meio.

A obra leva a assinatura de Pendleton Ward, animador e argumentista responsável pelo clássico Adventure Time (2010), e do humorista Duncan Trussell: “Midnight Gospel” mescla uma narrativa surreal e fantástica com clipes do podcast The Duncan Trussell Family Hour, apresentada – como o próprio título indica – por Duncan Trussell, também protagonista do programa. Ambientada num planeta extraterrestre, Clancy (Duncan em inglês, e Fábio Lucindo em português brasileiro) é um apresentador do espaço-cast, um “simulador de universos” que usa para explorar mundos em diferentes estados de caos e fragmentação que, no fundo, é a mesma coisa que um podcast, mas “vai para o espaço todo”. 

Por todos os momentos, senti que contemplava uma experiência extremamente íntima, um momento de comunicação genuíno e espiritual. A própria narrativa não faz questão de separar claramente os limites entre Duncan e Clancy, gerando muitos significados ao diluir os limites entre a realidade do desenho e a nossa. Em um dado momento, a mãe de Duncan/Clancy é entrevistada, e essas fronteiras ficam, como nunca, ainda mais turvas. No episódio 8, em um diálogo real entre Trussell e sua mãe (psicóloga que morreu em 2013), ela afirma: “Chorar quando precisar e encarar a morte, mesmo que tenha medo, não vai te machucar. Veja o que ela tem a ensinar. Ela é uma ótima professora, e não cobra nada”.

A mortalidade é uma sombra que fica pairando sobre as nossas cabeças a vida inteira, dançando entre pesadelos, sonhos, e lembranças. Transformamo-nos mesmo sabendo do destino final, convertemos-nos em pessoas diferentes a cada dia.

Assim como a Árvore da Vida da Cabala – símbolo que tem destaque no episódio 7 – e a tríade hindu, formada pelos deuses Vishnu, Shiva e Brahma, as informações do desenho podem se dividir em três categorias principais: vida, morte e renascimento. Um dos paradoxos mais legais da existência é que essas três forças (da preservação, da destruição, e da regeneração) funcionam no Universo simultaneamente, por meio de uma dança incrível.

A animação trata de assuntos como meditação e mindfulness – o aqui e o agora. Se há uma coisa que esse fenômeno invisível do novo coronavírus deixou claro é que nós não controlamos nada. Não controlávamos antes e não controlamos agora. Temos, apenas a ilusão de controle. Isso é algo evidente na série: é preciso um exercício de contemplação e introspecção. O personagem Clancy descobre que a única forma de interromper o ciclo de sofrimento de morte e vida é assumindo a nossa total falta de controle e aceitando a situação como ela é.

The Midnight Gospel toca na religião e no existencialismo da mesma forma que reflete sobre como lidar com a perda e a morte.
Reprodução: Netflix.

Todos estamos tendo experiências de luto, não só pelas pessoas que perdemos para a Covid-19. O luto da pandemia envolve fatores além da perda de pessoas queridas. É a perda do nosso mundo normal, de atividades, de encontros.

É difícil entender exatamente o que se sente ao ver as mortes em série provocadas pelo Coronavírus. Em geral, elas nos deixam comovidos e nos fazem pensar na finitude, na fragilidade da vida, nos nossos planos interrompidos e no mundo pós-pandemia, que é desconhecido.

O que talvez possamos aprender com a pandemia e com a ameaça da morte é transformá-la em uma aliada, aceitando o que passou e nos responsabilizando pelo porvir. É possível que, depois da pandemia, as pessoas fiquem com mais vontade de viver. Não se trata de uma resignação com a situação atual, mas uma mistura de indignação e esperança. “The Midnight Gospel” oferece ferramentas para lidar com questões existenciais antes trazidas por Sócrates, Epicuro, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche. Apesar de recorrente, a morte não é tratada da mesma forma por eles e apresenta variações de correntes e de pensamentos. De qualquer maneira, buscar entender essas teorias pode nos ajudar a ter uma relação de clareza e, obviamente, de menos sofrimento. A maioria acredita que a filosofia é capaz de tornar a nossa aceitação da morte algo mais branda, afinal, essa é uma das poucas certezas que temos e algo que nos torna iguais.

Os convidados dos episódios têm falas maravilhosas e oferecem métodos pragmáticos para atravessar o sofrimento e encontrar um lugar estável, e que não seja baseado nos noticiários. Essa forma diferente de entender o fim da existência pode ser útil em um momento no qual William Bonner nos lembra disso toda noite. 

O importante é cultivar a esperança, pois a desorganização interior provocada pela crise pode dar lugar a um novo equilíbrio. É necessário fazer uma reflexão profunda. Vai sobreviver a tudo isso quem tiver a capacidade de ressignificar seus sentimentos e relações, quem tiver capacidade de doar amor, de perdoar, de esquecer coisas que não têm muito sentido, de deixar o orgulho e passar a dar valor às pessoas. Procuramos conforto na ideia de que, mesmo perante o desespero, mesmo com a mutação de um sinistro novo mundo e a decadência do velho, sobreviverá o amor.

No entanto, os momentos verdadeiramente gratificantes de “The Midnight Gospel” são aqueles que dão lugar à vulnerabilidade, a exemplo da entrevista que Duncan Trussell – transformando o último episódio em sua contribuição principal – fez com sua mãe, Deneen Fendig, pouco antes de seu falecimento vítima de câncer de mama. De repente, o excesso de adrenalina dos universos a um passo do colapso sai de cena e é substituído pela tranquilidade de um sonho. Num leve mundo de ursinhos, um Clancy bebê é embalado por Deneen, que o leva num passeio pelas memórias que criaram juntos.

Os dois personagens envelhecem gradualmente, até Clancy ganhar o cabelo e a barba de Duncan e, antes de se metamorfosearem, adquirirem a forma de pequenos planetas numa rota de desintegração, lançam uma questão reflexiva: quando o dia de dizer adeus bate à porta para quem amamos, como é que se cuida de um coração partido? Para uma série com tanto a dizer sobre tantos assuntos diferentes, a resposta é fantasticamente tocante em sua simplicidade. “Você chora! Você chora…”

Ouro Velho, Mundo Novo: onde a poesia se fez necessária


“Ouro Velho, Mundo Novo”, de Lucas Santos . Foto: Lucas Santos.

Em minha relação pessoal com a poesia, alguns momentos considero importantes. Creio que o primeiro tenha sido quando apresentei oralmente uma resenha do primeiro livro de poesias que li: Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Ainda tenho esse livro na minha estante, repleto de anotações indicando o significado outrora desconhecido de algumas palavras e cheio de lembranças do instigante estranhamento ao enxergar nestas as mesmas palavras não apenas gramática e linguagem, mas sentimento!

Um segundo momento foi quando li Arte de Amar, de Manuel Bandeira. Foi um choque positivo na descrição poética do amor para um garoto que até então tinha apenas a visão dos românticos sobre o tema.

Um outro momento tão impactante quanto foi ao ler o poema Emergência, de Mário Quintana. Nestes versos me deparei com as seguintes frases que mudaram minha forma de enxergar a poesia:

“Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela

abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

— para que possas, profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.”

Em tempos de pandemia e isolamento, quando os olhares se voltam mais atenciosos e suplicantes para as artes, esse poema nunca fez tanto sentido.

Contudo, nas últimas semanas, deparei-me com um trabalho audiovisual que resulta para mim tão significativo e importante no conhecimento sobre a poesia quanto os textos e poetas já citados aqui. Importância não somente atribuída como tal pelo conteúdo poético, mas também por chamar atenção para outra forma de entender e perceber o que é poesia.

Ouro Velho, Mundo Novo

Essa obra em questão é a série documental Ouro Velho, Mundo Novo, dirigida pelo caruaruense Cláudio Assis e pelo recifense Lírio Ferreira. O tema da série é o universo da poesia popular presente na região do sertão do Pajeú Pernambucano e do Cariri Paraibano. Assim, aborda o início histórico e místico da poesia na região, seus importantes personagens e o percurso até a contemporaneidade.

A série estreou em junho deste ano com o oferecimento do Canal Brasil e está disponível gratuitamente no site Globosat Play. É interessante destacar que o título da série leva o nome de dois municípios que estão na divisa dessas duas regiões do sertão já citadas: Ouro Velho (PB) e Mundo Novo (PE).

Os personagens emblemáticos da poesia que nasce nessa região são apresentados por meio de entrevistas ou arquivos intercalados por um narrador que ganha voz e corpo na figura do poeta, compositor e vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado, José Paes de Lira, conhecido como Lirinha.

A presença dele nesse papel fez um enorme sentido para mim. Não apenas por ser alguém cuja vida e trabalho estiveram ligados à poesia popular, mas porque foi o trabalho da banda Cordel do Fogo Encantado que começou a me despertar interesse e atenção para a riqueza da poesia popular de Pernambuco. Não que eu não soubesse da existência dessa poesia antes de conhecer a banda. Entretanto, uma coisa é saber que existe, outra é se interessar pela existência. E parafraseando Saramago: “uma coisa é ver, outra é reparar”.

Além de Cordel, outro grupo que posteriormente me fez fitar os olhos com mais atenção na poesia nordestina foi o grupo Em Canto e Poesia. Este, por sua vez, é formado pelos netos de Louro do Pajeú, cuja história e legado são abordados no terceiro episódio da série.


Cartaz oficial da série Ouro Velho, Mundo Novo. Foto: Divulgação

Inclusive, uma coisa pela qual a série adquire importância é o fato de reunir em um mesmo produto informações de diferentes poetas que se encontram esparsas e espalhadas. Além disso, poucos são os registros audiovisuais e biográficos de poetas populares.

Entretanto, para além da função documental, a série traz diversas reflexões sobre o universo poético e sobre a poesia popular. Entre elas a necessidade da poesia onde a vida é difícil, a relação entre poesia e espaço e o machismo na poesia do repente.

Inclusive, este último tema tem como cerne a história e obra da poeta e repentista Maria Alexandrina da Silva, conhecida Mocinha de Passira. Uma das poucas mulheres da cantoria de viola que se destacou em uma arte totalmente dominada pelo sexo masculino a ponto de ser o único nome da cantoria de viola a ser nomeado Patrimônio Vivo de Pernambuco. A título de curiosidade, vale destacar a grande influência de Mocinha no trabalho do artista Siba.

Ademais, outra importante questão trazida a debate pela série é a universalidade desses artistas populares.

Louro do Pajeú também é Maiakovski!

A série confronta através de seus personagens os limites do regional, originariamente geográficos, que acabam de forma errônea limitando a poesia a certos espaços e públicos. Errônea pois toda a obra audiovisual mostra o quanto a poesia popular é forte, intensa e, inclusive, criteriosamente técnica como qualquer outra interpretada de forma mais valorosa. 

Afinal de contas, toda poesia parte de uma região e discute questões universais a partir de um determinado espaço. Todavia, enquanto umas são percebidas como universais, outras têm seus cursos limitados por uma espécie de seca de ignorância.

Talvez essa limitação da poesia do sertão enquanto regional deva-se ao caráter popular, valor mutável com o tempo e que em nada diminui a força poética do verso. A poesia de Fernando Pessoa, por exemplo, ao definir o poeta como um fingidor de uma dor que deveras sente tem tamanha intensidade tal qual a definição que Pinto do Monteiro dá do poeta: “é aquele que tira de onde não tem, e bota onde não cabe”.

Outra possível fator da limitação do regional talvez seja o baixo prestígio da poesia popular dado o número de poetas sem formação educacional formal. No que concerne a esse tema, a série traz a brilhante resposta de Pinto de Monteiro, quando indagado sobre a existência de poetas analfabetos. A Cascavel do Sertão responde: “O estudo é só o verniz da peça, o artista é o que ele faz da peça”. Entenda aqui a peça como a poesia.

A partir dessas questões abordadas e de muito mais, a série se torna um marco na minha forma de enxergar a poesia popular. Isso porque, em parte, me apresenta de forma reunida e entrelaçada a história e obra de poetas que antes que esquecidos, sequer são levados em conta no que se ensina de poesia em escolas tradicionais (com exceção de colégios em São José do Egito, que possuem no ensino fundamental a matéria de poesia popular).

Em outra parte, porque traz à tona a nobreza poética e intensidade dessa poesia que nasce no sertão, e com isso confronta a ideia limitante de que essa mesma poesia, embora geograficamente regional, como qualquer outra, é essencialmente universal, também como qualquer outra. Dessa forma, isso me leva a concordar com o jornalista Xico Sá quando afirma no terceiro episódio: “Regional um caralho. Louro também é Maiakovski”.

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Eis o homem

Conto | Eis o Homem

I

Sempre se considerara um homem focado. Vivia por seus objetivos. Comia bem. Se orgulhava de sua inteligência acima da média. Abrira mão de sua carreira artística para ter uma vida estável. Evitava animais, filhos ou qualquer coisa que pudesse ameaçar sua paz. Para dormir, engolia pílulas que preenchiam os frascos que empilhavam-se sobre seu criado mudo. Ao acordar, bebia o combustível que descia aos jatos da cafeteira instantânea. Sua locomotiva de pele e ossos funcionava a todo vapor.

Mas um dia aconteceu uma coisa terrível. Teve notícias de que um vírus surgido lá do outro lado do planeta chegara até sua cidade, trazendo consigo uma quarentena. O maldito vírus cruzou um oceano imenso para tirar dele aquilo que sempre mais temera perder: sua liberdade.

II

Em casa, sozinho, percebeu algo que nunca havia percebido. O tempo. A passagem do tempo. Se viu nadando, afogando-se, sendo sugado pelos ponteiros do relógio que todos os dias marcavam as mesmas horas. Um eterno retorno sádico. Sentiu sua alma sendo desvelada das coisas superficiais que outrora cobria esse buraco. Aquilo que achava ser a verdade, aquilo que nem possuía consciência de que poderia ser outra coisa, se esvaiu grão após grão.

Tudo o que fazia o entediava. As palavras que manchavam os papéis dos livros que tanto amara, palavras que o deixava em êxtase, apenas por ter o privilégio de se deleitar com aquelas sintaxes formidavelmente estruturadas; palavras que pareciam ter sido escritas por algum deus, e que agora já não significava mais nada. Passou a viver apenas em sua mente. Alimentava memórias que há muito haviam sido perdidas no subsolo do seu ser.

Lembrou-se de um dia no qual caminhava a noite sobre as areias com sua doce companheira, quando decidiram entrar no mar. Aquela escuridão total que unificava o céu e as águas, a energizava, fazendo com que o brilho dos seus olhos fosse a única fonte de luz no perímetro que ocupavam. No entanto, aquilo o assustava. Tinha a sensação de caminhar em direção ao nada. O negrume molhado e frio, era para ele um pesadelo. Precisou reunir todas as forças para esconder aquele pavor da morte – que vez ou outra batia à sua porta – mas que agora atravessava sua espinha de forma dolorosa. Só foi capaz de extrair a força que precisava da faísca daqueles olhos, os quais detinham o enorme poder de deixar sua mente calma.

Porém, agora, ele se deu conta de que seus impulsos incontroláveis fizeram tudo o que podiam para afastar da sua vida aqueles olhos. Aqueles olhos inteligentes, maduros e afetuosos. Pela primeira vez, refletiu que sua vida era movida por desejos superficiais. Desejos esses que se deu conta nem mesmo serem verdadeiramente dele. Tudo o que tinha de sólido, belo e sublime, deixou que escorresse. Fez com que escorresse.

Tentou usar todas as armas ao seu alcance para frear sua obstinada mente, uma mente que carregava uma vontade inexorável de se debruçar sobre a abundância do passado. Tentou se agarrar a seus estudos de filosofia; a todo aquele conhecimento que sempre se orgulhou possuir.  “A vida é feita daquilo que faço e daquilo que me acontece. Não tem como refazer o passado. Viva no presente.” disse ele em voz alta. Mas nada disso adiantou. No fundo, sabia que tudo isso não passava de conhecimento fajuto. Um artifício no qual se apoiava para expelir toda sua inteligência. Toda sua sabedoria vazia. Sabedoria que não servia para nada além de inflar seu ego e impressionar os outros. Jamais pôs aqueles conhecimentos em prática. Jamais o que saia de sua boca ganhara uma função real, uma função no mundo da vida. Pois nunca saíra do piloto automático. Nunca. Até aquele dia. Ao se dar conta de tudo que perdeu, de tudo o que nunca foi capaz de enxergar; todos os afetos primordiais da vida humana, o contato próximo com a família, a conversa com os amigos, os abraços de conforto, o conselho maternal em um momento de angústia. Ao se dar conta que destruiu tudo o que realmente importa: ele desabou.

“Estaria sozinho se tivesse feito tudo diferente?”

Sentiu seu peito e sua cabeça derreterem, como se fritassem batatas no centro de sua alma. Sentiu a terra se mover de forma alucinante, de maneira que nenhum professor de geografia jamais explicara a seus alunos. Então chorou. Chorou como se fosse um bebê consciente de ter sido arrancado do conforto do nada e posto no meio do campo de batalha desse mundo trágico.

III

Em uma manhã ensolarada, após a sexta badalada do sino da sua cabeça, acordou com uma sensação jamais sentida desde quando foi expulso da infância. Enxergava beleza nas coisas mais ordinárias que habitavam ao seu redor. O canto dos pássaros, agora era o que uma peça de Bach jamais fora para ele. Contemplou a árvore, cujas folhas bailavam em sua varanda. Deixou o vento tocar seu rosto, como se fosse o carinho da mulher mais delicada que já pisou no universo. Seu café percorreu sua língua, como se fosse o elixir da vida. Já não era mais aquele ser ridículo, atormentado e fraco. Estava tomado por uma coragem avassaladora. Poderia escalar montanhas, atravessar florestas ou caçar o predador mais temível da terra, coisas essas que jamais imaginara fazer. Sentiu-se unificado com o universo. Um só com Deus.

Duas semanas depois, seu corpo foi encontrado sobre chão da varanda. Jazia ao lado de um bilhete que continha apenas apenas duas palavras: Ecce Homo.