Conto

Rotina

Costureiras em facção de Santa Cruz do Capibaribe nos anos 1980. Divulgação/José Romildo Bezerra

Ela atravessa um mar de silêncio.

Enquanto todos estão em suas casas, provavelmente dormindo ou tomando um tranquilo café da manhã, ela move seus pés freneticamente em direção ao trabalho. Mais cedo, ao acordar, comeu apenas um pão, tomou um banho e logo saiu para a rua. 

O vento sopra uma leve brisa matinal, e como se irredutível, ela continua a caminhar pelas ruas da cidade preguiçosa, que, relutante, aos poucos vai ganhando vida.

Uma outra mulher surge em seu caminho. Curiosamente, ou talvez não, possui as vestes idênticas às dela e também tem o mesmo caminhar frenético. 

Ambas se olham e se cumprimentam: haviam acabado de chegar.

Uma escadaria enorme é tomada pelas pisadas rápidas das duas mulheres, e de mais outras e outros que marcham rumo a mais um dia.

No cômodo único, eles se dispersam indo cada um para uma máquina em específico.

Ela enxuga o suor que escorre pelo lado esquerdo do rosto, e então aperta o botão ON, e como uma orquestra bem estridente, todos fazem a mesma coisa e o inconfundível som invade seus ouvidos.

O dia de fato se inicia.

O relógio, alinhado exatamente no centro do salão, indica que as horas vão passando.

Sete… Oito… Nove…

Uma pequena pausa para comer alguma coisa.

Dez… Onze… 

Linhas se cruzam e caminham sobre o tecido.

Doze…

A orquestra de sons pausa o seu concerto. Ela caminha para fora do cômodo.

E então o mesmo caminho da manhã volta a se repetir, mas desta vez, sob um sol escaldante. Aquilo que poderia ser apenas uma caminhada se transforma em uma prova de resistência, onde o prêmio final é chegar em casa a tempo.

Um almoço rápido, quase não dá para sentir o gosto que a comida poderia oferecer.

E novamente, a caminhada retorna.

O sol ainda castigando lá de cima.

Com o rosto todo molhado, e com a respiração arrastada, o mesmo trajeto, a mesma escada.

Ela se senta novamente, aperta o mesmo botão.

O som se espalha pelo salão e se junta aos outros.

Uma tarde se inicia.

Uma… Duas… Três…

Quatro… Cinco… Seis…

O sol vai embora dando lugar a uma lua prateada que, resplandecente, sorri do céu.

Sete… Apenas um pão, e um pequeno copo de café.

Oito… Ela boceja pela primeira vez.

Nove… Seus braços já não se movem como anteriormente.

Já não consegue caminhar com maestria sobre o tecido.

Dez…

Onze…

Enfim, ela aperta o botão vermelho OFF.

Com sono, levanta e devagar desce a escada de cimento cinza.

Pela rua fria, agora, ela caminha, assim como na manhã daquele mesmo dia. Seus olhos vão se acostumando à escuridão.

O semáforo no cruzamento agora só mostra o amarelo, ela atravessa.

Suas pernas cansadas a levam para casa. Suas mãos estão azuis.

Ela chega em casa.

Sem pensar vai direto para o banheiro e toma um banho demorado. Depois, se encaminha para o quarto. 

Seu filho está bem? Sim, dorme num sono profundo. Ele não tinha visto sua mãe chegar.

Em sua cabeça, apenas a cama agora tem sentido.

Ela se joga sobre os lençóis, e com um baque no infinito, ela finalmente chega ao mundo dos sonhos, porém, não conseguirá lembrar amanhã.

Assim, é a rotina de quase todas as mulheres onde eu moro.

É sempre assim… 

Assim, sempre.

Augusto Vinícius Oliveira da Silva é graduando em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, e também escritor. Entre boas doses diárias de café, gosta de observar os pequenos detalhes da vida e refletir sobre eles por meio de seus escritos.

fotografia de homem sentado. pensando.

CONTO | Vitória, vitória

por Sidney Rocha

fotografia de homem sentado, de casaco. pensando com suas mãos no rosto, e sua sombra refletida na parede. A imagem está em tons terrosos.
Imagem ilustrativa. Foto: Tomi Rantanen/Flickr
Se abrissem a corcunda do menino-belchior a canivete — isso deveriam ter feito no primeiro momento — descobririam lá dentro o busto calvo de Voltaire. O garoto caminhou toda a infância os olhos cavando o chão, para o filósofo poder rir melhor quando visse o mundo do rapaz, cidade, rua, casa, quarto e, se o espelho do banheiro pudesse alcançar o vidro do box,  ele mesmo se veria trepado nas espáduas do garoto-belchior.

Em alguns momentos onde a filosofia se melecava de biologia, Voltaire contemplava lá embaixo a única mulher a valer a pena para o rapaz-belchior. Mas quando Gorete tentava abraçar seu amor sonhando o futuro (o futuro que se dá pra sonhar múltiplo em seis segundos) terminava por acertar o narigão de Zadig, do filósofo, ou meter o dedo naquele olhão de pedra terrível. Por isso tudo acabava sem gozo e com vergonhosa melancolia, um para cada lado. Como o poetinha pendia de costas, ombros enconchados, restava a Gorete admirar pelo resto da noite o olho de brasa crepitando na intransponível face de nuvem de Voltaire, falando do fim das paixões e do quanto nenhum belo crânio de mulher pode virar o dele etc etc etc

Por essa e outras companhias, sabemos do patriota-belchior se alistar em duas guerras, mas nem ele nem Voltaire tinham qualquer serventia à vanguarda ou retaguarda, e passaram invisíveis pelos campos de batalha e pelas divisões. Então o humanista-belchior terminou mesmo por vencer ainda muito jovem na diplomacia.

Gostava de passar o dia com a bunda na cadeira, a sufocar Voltaire contra o espaldar de veludo, escrevendo discursos para o general. Assim, quando faltavam ideias sobre finanças, mercado, cubarnejões ou capitalismo ou o mundo liberal ou ardis de enfeitiçar o país goela a fora, ele empurrava a focinho do busto contra a cadeira até Voltaire retornar do inferno da sufocação com ideias novas e originais sobre política e nunca sobre o amor.

Embora todos na embaixada respeitassem o humanista-belchior, e no país o tomassem por gênio, não disfarçavam as risadas quando o aleijão aparecia na tv, o calombo pendendo à direita, falando sobre poesia, teatro, política. A voz era a sua, cuidava daquilo que o coração estava à borda, explicava-nos às lágrimas Gonçalves Dias e Dante e sobre as virtudes mas, do nada, era como se lhe tapassem a boca com a mão violenta de carrara, e a partir dessa hora por ele falava o sofista louco, a pedra exibida, o crítico literário, a escandalosa tumefação flamejante. E o humanista-belchior corria dali e passava muitos dias detestando-se o espelho. 

Os anos passam. O triste-belchior já estava cansado de servir aos governos amarelos e azuis. Precisava lutar todos os dias com a sempre impossível de carregar cabeça alegre do monstrengo da corcunda.

E ocorreu assim: o maduro-belchior, já as têmporas vencidas, entrou no meu consultório e pediu de joelhos para que eu o salvasse, apartando-o do fantasma mais cruel com o qual uma criança fora obrigado a conviver. Sem modéstias, tenho alguma experiência nisso, mas o caso do humanista-belchior resultava complicado. Parte dele já era mármore. Incisões assim são menos traumáticas se o paciente tem os ossos moles da pouca idade e alguma fé nas mágicas. 

Era tarde.

Agora, eu não podia cortar a carne sem fazer sangrar a pedra. 

“Mesmo assim, corte”.

Seria necessário amordaçar a herma ou o busto, se pudesse abrir a montanha, e calar sua voz de arara com tantas opiniões sobre inflação, juros, la Divinne Comédie-Française, logopeias, tributações, mas também a descrença nos livros, o que era afinal nenhuma fé nos homens, e nisso incluía sem dó seu anfitrião, o miserável humanista-belchior, quase desmaiado de dor e vergonha e torpor sobre a maca.

“Não me importa como, aparte-me desse tumor”, pediu o homem.

“Foda-se, frouxo”, gritava o diabo branco dentro do calo.

Os especialistas sabem, mas é preciso explicar: a pele dos poetas tem menos camadas que a dos padres ou açougueiros. Têm sensibilidade física, o bisturi pode atingir mesmo as emoções de um poeta como o humanista-belchior e aleijá-lo para o amor, por exemplo, ou para o riso, para sempre.

Os anos passam. O triste-belchior já estava cansado de servir aos governos amarelos e azuis. Precisava lutar todos os dias com a sempre impossível de carregar cabeça alegre do monstrengo da corcunda.

Também sabem os melhores davis: geme estranha alma no interior do mármore, de modo que eu lutava contra forças muito estranhas quando rompi os músculos redondos das costas do paciente-belchior. Avancei com o bisturi, desprendi o latíssimo do dorso e o ancorei com a pinça, e pude ver dentro do nódulo, do poço sanguíneo da corcunda, minarem os olhos vivíssimos do filósofo. Tinha ainda alguma doçura, como os do pobre-poeta-humanista-belchior.
 

“Largue-me, deixe-me aqui”, pediu e, pelo encanto dos analgésicos, também cansado, dormiu.

Enfim, tive paz para serrar, limar, torcer, afastar, soprar, espremer, rasgar, cerzir, destampar, desmontar vértebras e tirar lascas de fogo com marteladas na coluna, e um golpe a menos de romper as escápulas; manobras nada diferente dos planos econômicos ou qualquer cirurgia das escolioses.

Oito horas depois repuxei completamente o humanista-belchior para fora de Voltaire. 

Alguém da embaixada ou do exército veio à sala e o levou para longe, costurado, inconsciente, vencido e vencedor, ensanguentado e sem sangue, vivo, refém de algum milagre, de modo a não me sentir à vontade em rezar nem pedir pelo depauperado-belchior.

O busto?

O busto você pode ver aqui, logo quando entra na minha sala. 

Ontem, porque a tv ligada, ouvimos a voz do humanista-belchior.

Virei-me. A estatueta virou-se, também, a pele ainda cicatrizando.

Acendiam-se os tenebrosos fachos do golpe militar no país, e os olhos do porta-voz-belchior nos pareceram nódulos duros, calcários, pesados, lendo a ordem-do-dia.

“A filosofia vence sempre”, disse o busto de Voltaire, o rosto escuro, a lágrima — certamente efeito colateral.

 

Sidney Rocha é cearense, nasceu em 1965 em Juazeiro do Norte. É escritor, poeta e editor. O autor tem 5 títulos publicados. Em 2012, foi vencedor do 54º prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas pela obra O Destino das Metáforas .

 

Nota: conto originalmente publicado na edição número 5 da revista Café Colombo, em janeiro de 2016.