Entrevistas

Estamos Vivos: O grito autobiográfico de Isabela Moraes

Por Sarah Coutinho e Dyego Mendes


Ensaio produzido produzido para o disco de Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Os editores do Café Colombo, Sarah Coutinho e Dyego Mendes realizaram uma entrevista com a cantora e compositora pernambucana Isabela Moraes que lançou no dia 22 de maio, o seu primeiro disco “Estamos Vivos”. Com um misto de incertezas ocasionados pela quarentena e a poesia nos versos que revelam suas vivências, Isabela descreve com certeza os caminhos que a trouxeram até aqui e os sentimentos envoltos pela arte que a acompanha desde a infância. Confira: 

Como foi seu processo enquanto artista? 

Eu comecei a escrever quando aprendi a ler. Tinha curiosidade e muita sede pela leitura. Sempre fui muito apaixonada. Tenho uma lembrança do dia que juntei as palavras e aprendi a formá-las. Meu pai também colecionava livros de literatura de cordel. Esses livrinhos de literatura de cordel foram as minhas primeiras diversões na leitura, eu me viciei neles. Quando a gente lê uma poesia, automaticamente, cantamos ela. Você lê porque ela rima, há uma melodiazinha ali. Eu acredito que de tanto ler esses livrinhos, meu cérebro começou a fazer música. Escrevendo as minhas canções, meus primeiros exercícios — que eu chamo de exercício — , percebo que é algo que vou exercitar até o fim da minha vida. Criei o meu mundo dentro do meu quarto através da escrita. Um mundo paralelo onde eu era totalmente livre. 

Antes da música, houve outra área que te interessava? 

Eu dizia que queria ser jornalista ou psicóloga, sempre falava essas coisas. Entrei depois na faculdade de jornalismo em Recife, e fui tentando levar esse sonho adiante até que a música me fisgou. Eu comecei ensaiando em bandas de garagem e me apaixonava cada vez mais. Eu era muito tímida e não tinha coragem de botar minha cara para cantar, dizer que era cantora. Só que nesses ensaios, as coisas foram ficando mais sérias. Tinha 16 anos, quando recebi um convite profissional para começar a cantar numa banda de baile. Meu irmão me acompanhava sempre. Até que da banda de baile, eu saí e fui fazer com uns dos componentes dessa banda voz e violão. Nessa época, fui inserindo minhas composições para ver se as pessoas se identificavam com minhas músicas. 

Como foi o processo de sair da área do jornalismo para a música?

Eu comecei a fazer música que era algo que já vinha fugindo. Fui me apaixonando, me entregando cada vez mais, e vendo que era isso que me tomava por inteira. Eu tinha 18 anos quando recebi um convite para cantar nos Emirados Árabes e foi meu primeiro emprego recebendo. Voltando dos Emirados, fiquei em Recife durante 15 anos e não voltei mais à Caruaru. Em Recife, fazia a faculdade e cantava à noite. Fiz muitos shows em Recife, rodando por Pernambuco. Os professores foram tomando conhecimento dos motivos das minhas faltas, começaram a ir aos meus shows, e perdoavam. Conversei com a minha mãe sobre me entregar inteiramente para música e ela não concordou  na época. E não é que estudando, você não pode cantar, mas eu decidi me entregar a música como quem se entrega ao vestibular, a uma faculdade da vida. 

Como foi a experiência em São Paulo? Expandiu os horizontes? 

Fui para São Paulo com a intenção de passar duas semanas e passei 7 anos. Conheci muitos produtores, inclusive, os meus que são os mesmos de Almério, Tadeu e Andrea. Ele também foi a São Paulo, passou alguns meses morando comigo, gravou o disco dele e músicas minhas. Nesses tempos, conheci Mariana Aydar, que gravou músicas minhas e Dani Black. Fiz vários projetos por lá e abri algumas portas maravilhosas. Fui galgando esses espaços através da batalha árdua do dia a dia. Sou muito apaixonada por essa coragem e esse ímpeto que me deu. Agradeço demais a essa luz divina e ao sofrimento que me permitiu ir à cidade; Também passei por festivais em São Paulo que me amadureceram muito como intérprete porque eu sempre valorizei muito mais esse meu lado compositora, por ter isso comigo desde criança. Nunca tinha participado de festivais, não gosto da competitividade, acho que na música você não precisa dizer quem é melhor. Tem gosto para tudo no mundo.  

Como foi lançar um disco durante nesse período de isolamento social atravessado por tantas incertezas?

Na verdade, o disco estava sendo programado para ser lançado com todo calor humano possível, como sempre foi. Está sendo um desafio lançar o disco em plena pandemia, é tudo muito incerto. Mas eu confesso que tem sido uma fase muito boa para mim. Porque esse disco chegou nesse momento tão angustiante, e medo para a gente. Eu costumo dizer que as minhas palavras voltaram pra mim no momento que eu mais precisava delas. As entrevistas, a correria do disco estão me salvando. Me ocupam de uma maneira muito gostosa e eu espero que o disco esteja fazendo o mesmo bem para as pessoas que estejam ouvindo ele. Mas há o outro lado das coisas. O disco fala sobre esses assuntos essenciais da vida como a gente sentir o agora, celebrar, viver sem medo, dizer que ama, não esperar o amanhã porque vem um momento como esses e nos pega de surpresa. O título “Estamos Vivos” não é por um acaso. Eu já vinha brindado nos shows e pedindo que as pessoas não tivessem medo de viver com tudo que elas são. E sempre tirava um momento do show pra gente gritar “Viva, estamos vivos!”. Eu tô muito feliz e muito apaixonada pelo meu disco. 

Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Como se deu o processo de produção das músicas do disco?

Pouquíssimas canções são recentes. A maioria já caminha comigo ao longo dos anos nos shows ao vivo. Eu sempre fui uma pessoa muito do ao vivo, do aqui e agora. Como também sou compositora, gosto que outros artistas gravem minhas canções. Eu não tinha nenhuma ambição sobre o disco, sempre me realizei muito através de outras pessoas gravando minhas composições. São músicas com as quais eu já tenho grande intimidade. Escrevi essas canções no período em que morei em São Paulo. São canções que estão comigo há muito tempo. A maioria são autobiográficas, pouquíssimas coisas eu invento, grande parte são vivências mesmo. Naturalmente, algumas se tornaram mais íntimas minhas e, por isso, foram escolhidas para compor o disco. 

Como está sendo a divulgação do álbum?

Nós temos a assessoria da gravadora que é encarregada dessa parte. Eles contactam as pessoas, artistas e a impressa. É uma equipe grande, que é bem diferente da maneira com a qual eu vinha trabalhando, porque até então eu era uma artista independente. Por mais que tenha mudado a lógica da gravadora no Brasil, você continua sendo independente, mas se tem toda uma equipe que dá todo um aparato para que se consiga ir mais longe. Então, a gravadora tem esse papel. Eu fico muito aliviada porque foram 22 anos de carreira independente e agora eu consigo me preocupar com outras coisas, como ensaios, lives e outros processos, enquanto o pessoal cuida da parte de divulgação. Atualmente, eu conto a equipe da gravadora DeckDisc e meus produtores, Tadeu Gondim e André Brasileiro, que cuidam desse trabalho com tanto esmero. “Estamos Vivos” está em todas plataformas digitais e onde eles podem galgar espaço para o disco, eles o fazem com afinco e de maneira muito sábia. 

Tem previsão de alguma coisa para além das plataformas digitais?

Por enquanto é isso. Não sabemos quanto vai durar essa crise, então continuaremos pelas vias digitais. O show de estreia do disco ia ser no Teatro Santa Isabel, em Recife. Eu tinha ficado muito feliz com essa possibilidade tão desafiadora e ao mesmo tempo excitante, mas continua sendo desafiador e excitante, só que de outra forma. Vêm novidades por aí, os clipes de quarentena que estamos produzindo são uma delas. No São João, sairá o primeiro deles. É da canção “Do Contra” e também estamos trabalhando no faixa a faixa do disco que vai sair em breve. Mudou a forma, mas continuamos trabalhando bastante.

Atualmente você está morando em Caruaru?

Assim que soube da pandemia, eu corri para cá. Eu sou nascida e criada em Caruaru. É um lugar no qual me sinto segura. Minha família mora aqui, minha mãe, minha vó. Quando soube do isolamento, pensei: vou para o meu porto seguro. Eu tenho uma casa aqui, que é meu descanso, minha parada. A mente precisa desse lugar para dar vasão à escrita e, algumas vezes, apenas ao descanso. 

Além da pandemia que estamos vivenciando, soma-se a ela uma crise política. Com relação à classe artística e aos incentivos, qual tem sido a repercussão disso tudo?

Desde antes da pandemia, a classe artística já vinha sendo bastante prejudicada pelo Governo atual. Já havia um movimento de boicote à música, teatro, cinema e às artes plásticas que é anterior à Covid-19. Esse processo apenas foi intensificado. O Governo não tem intenção nenhuma de apoiar as artes no geral. O que tem acontecido são movimentos paralelos ao Governo. Os próprios artistas estão se juntando e se apoiando. Eu faço parte de um projeto lindo chamado Ágora Sonora. São lives que acontecem através da plataforma Zoom, nas quais as pessoas contribuem comprando seu ingresso para assistir ao show de um determinado artista. A iniciativa é encabeçada pela produtora e amiga querida Twilla Barbosa. Esse projeto tem salvado muitos artistas. Nós temos recebido muito mais do que recebíamos antes da pandemia. Claro que se tivéssemos apoio governamental seria muito mais fácil, mas, se esperarmos por ele, morremos de fome. É isso que tem acontecido. São esses projetos que os próprios artistas e produtores têm inventando para ajudarem a si mesmos e ajudarem os colegas que viabilizarão o enfrentamento dessa crise política.  

As miudezas da poesia solar de Ágnes Souza

Por Anna Clara Oliveira e Luiz Ribeiro

“Quantas vidas me couber, amar uma mulher” diz o poema que inicia a segunda obra da poetisa pernambucana

A poetisa Ágnes Souza. Foto: Fernanda Valente/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com a poetisa pernambucana Ágnes Souza, que lançou recentemente o livro de poesia “Pouso”. Ela nos contou sobre o processo evolutivo da sua carreira enquanto mulher lésbica e poetisa, e sobre o processo de evolução da sua escrita, que tem se modificado desde a publicação do seu primeiro livro “Re-cordis”(2016), além de falar sobre suas inspirações enquanto artista. Ágnes ainda relatou a experiência de publicar um trabalho poético no contexto da atual pandemia. Confira:


Como tem sido sua trajetória enquanto mulher LGBT e poetisa, e quando você se descobriu como tal? 

Eu sempre fui uma criança muito quieta. E lia muito. Meu pai é professor de português e durante a minha infância, nos anos 1990, ele recebia muitas coleções. E esses processos andaram juntos, mas para inserir essa temática na minha escrita demorou um pouco, porque eu tinha muita insegurança. Meu primeiro livro, é um livro muito neutro. Se vocês sairem procurando gênero ali, não vão encontrar muita coisa. Mas acho que isso foi muito do meu processo de amadurecimento como pessoa, como artista também, esse processo de entender a minha sexualidade, de entender como isso influenciava as minhas pesquisas, as minhas leituras.

Como se deu o processo criativo e a história de “Pouso”? O que mudou do seu último trabalho para ele?

Desde o processo de edição do primeiro livro, que se chama “Re-cordis”, eu estava escrevendo muito, e chegou um momento em que não dava mais para entrar esse material. Já não se comunicava mais com o primeiro livro. Fui guardando, amadurecendo os poemas, e deixando um pouquinho na gaveta para ver como eles funcionariam. Acredito que em meados de 2018, fui atrás da mesma editora que lançou meu primeiro livro. É uma editora independente chamada Moinhos, de Belo Horizonte. Ele participou de um financiamento coletivo para ser editado. Mas isso de ir atrás de editora foi um percurso árduo. Hoje, encontramos mais editoras independentes, do que na época em que lancei meu primeiro trabalho, em 2016. Muita coisa já mudou, essa é a maior diferença: encontrarmos, hoje em dia, editoras mais abertas a publicarem pessoas desconhecidas. Enquanto ao meu processo, eu sento, escrevo, repito aquilo na cabeça às vezes no banho. Não tem nada teórico e metódico por trás. Fui só respeitando esse processo de como as coisas vinham.

Livro “Pouso”, publicado pela editora Moinho, em 2020. Foto: Divulgação/ Facebook.

Quais são suas principais inspirações enquanto artista? Você menciona muito o “infraordinário”, termo utilizado pela escritora Marília Garcia. O quanto ele ajudou a moldar a forma final de “Pouso? 

As inspirações de “Pouso” vêm de dois lados. Vem do meu lado leitora, porque eu leio muita poesia, mas também veio das pessoas da rua, do meu andar na rua. Na época que eu estava escrevendo “Pouso”, morava no centro do Recife, na Boa Vista. Ouvia muito as pessoas conversando, passeava muito por praças. Pegava uma coisa aqui, outra ali. Esse conceito de “infraordinário”, de Marília Garcia, está nos seus livros “Parque das Ruínas” (2019), e o “Câmera Lenta” (2017), em que ambos  falam sobre o cotidiano. Não encontraremos temáticas absurdas, de momentos históricos, de coisas pontuais, mas veremos  esses detalhes do dia a dia; justamente o conceito do “infraordinário”. Na minha escrita sempre coloquei isso, mesmo não tendo conhecimento sobre esse conceito. Juntei o que eu já tinha descoberto, através de Marília Garcia. Mas fora ela tem poetas como Angélica Freitas, Júlia de Carvalho Hansen, Simone Brantes, a portuguesa, Matilde Campilho, além de outros autores, como Valter Hugo Mãe, Victor Heringer, pessoas que se a gente parar para pensar um pouquinho, sempre tem essa coisa do cotidiano, essa coisa das miudezas, no que eles escrevem. 

Como é lançar um trabalho poético no contexto da pandemia?

Várias crises. Eu tive várias questões porque, no nosso cronograma com a editora, o livro sairia próximo ao dia 18 de abril, mas veio a pandemia. A responsabilidade de não colocar ninguém em risco. A vantagem é que eu não tenho experiência com editora grande, mas a minha experiência com editora pequena é essa liberdade que eles nos dão para escolher. Meu editor me perguntou se eu queria aguardar ou se eu queria lançar. Eu passei horas pensando. O livro já estava na pré-venda. Tinham pessoas que haviam comprado. Não achei legal deixar essas pessoas esperando tanto. Como a gente não tem previsão de nada, eu optei lançar por uma live, mas morrendo de medo, pela falta de experiência. Eu sou professora, sou acostumada a falar, mas falar em frente a uma câmera, foi algo novo. Foi um susto, como tudo o que tem aparecido, porque tudo tem sido novidade, mas que também trouxe surpresas positivas para o meu trabalho, que é esse contato que eu nunca imaginei, como vocês.

No poema “Há umas semanas eu queria ter 30 anos”, você menciona os múltiplos estados de espírito a partir das idades. Várias escritoras e poetisas se debruçaram sobre o processo de velhice, aludindo ao chamado “memento mori”, seja ela uma morte literal ou figurativa. Como você enxerga esse processo nas artes?

Eu sempre gostei muito de música, de peças de teatro, de livros, que tragam um pouco a gente para a realidade. Tem muita coisa acontecendo no mundo. Tudo é muito efêmero. Claro que não podemos se apegar a coisa da finitude, senão adoecemos. Você precisa trabalhar com esses vários lados da moeda. Alguns poemas têm um teor mais negativo, e de alguma forma eu tento enxergar uma beleza naquilo, ou vice-versa. Tem uma coisa muito positiva, mas que também tem esse lado mais melancólico. Eu acho que “Pouso” caminha por esses dois lados: tem poemas muito apaixonados, muito positivos, muito solares, a coisa do exterior, de amar alguém, de observar alguém, mas também tem muita coisa sobre despedida, finitude, sobre as marcas, sejam elas físicas ou  emocionais. São coisas que eu gosto de ver e que eu trago para o que eu faço, de alguma forma.

‘O barato sempre é pesado’

Por Anna Clara, Luiz Ribeiro e Sarah Coutinho


Foto realizada para o disco “Coruja Muda”, lançado em 2019. Foto: José de Holanda/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com o cantor e compositor Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, popularmente conhecido por Siba. Com oito álbuns lançados, entre eles, “Fuloresta do Samba”, em 2002; “Coruja Muda”, 2019; “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”, em 2007, e “Avante”, em 2012. Ele nos contou sobre as incertezas do futuro em razão da pandemia, seus processos criativos, os impasses ainda existentes quando falamos sobre moderno e popular, além das suas perspectivas sobre os futuros projetos. Siba ainda soltou o verbo sobre as questões que caracterizam a transformação do mercado musical desde o início da sua carreira. Confira: 


Como funciona seu processo criativo? Nesse período de isolamento social, esse processo se tornou mais fluído ou está mais difícil? O barato continua pesado?

É difícil falar sobre como funciona o processo criativo porque não é uma coisa puramente criativa ou linear, ou algo em que se possa descrever passos. De modo geral, eu coleciono fragmentos que não são necessariamente aleatórios porque são ideias que aparecem ao longo do dia, de qualquer situação, ou mesmo de questões que eu estou tentando pensar. A partir desse momento, eu vou juntando esses pedaços. Tanto posso começar pelo texto quanto por uma ideia musical, mas já pressupondo, de algum modo, o espaço específico do texto na música. E aí chega o momento em que as coisas vão se juntando – geralmente tem que forçar uma “barrinha”, senão também nunca sai. A quarentena não trouxe para mim nenhum tipo de benefício, porque concentrou as tarefas domésticas com filhos e casa no mesmo espaço do trabalho. Fora a tensão ao redor, com as questões políticas no presente e a incerteza do futuro. Tudo isso não ajuda muito, porém tento me manter criativo mesmo assim. Mas o barato sempre é pesado!

O seu lançamento mais recente é Coruja Muda. Desde os tempos de Mestre Ambrósio, passando pela Fuloresta, até a carreira solo, como você enxerga as mudanças no mercado musical que consome e produz o moderno e o popular? 

Essa contraposição entre moderno e popular está equivocada desde o começo. Ela já determina de antemão que o popular é o passado e o moderno, o presente. Esse é o paradigma que nós devemos quebrar. É cansativo estar falando sempre sobre isso. Mas é a força do senso comum, que coloca essa porteira fechada a tudo que é popular. O mercado tem mudado. Quando comecei, ele praticamente não existia. Não havia uma perspectiva de mercado para o que a gente faz. Depois, com o Manguebeat, se abriu um tipo de mercado que nunca foi totalmente sustentável, sempre precisou de um subterfúgio como políticas públicas ou políticas institucionais. Mas mudou. Com a internet houve uma nova mudança. Agora, com a nova situação política e com a pandemia, ele muda novamente. Mas eu venho de um começo tão sem perspectiva que, por mais que assuste, é como se não assustasse.

Quais são os próximos projetos daqui pra frente? 

O projeto atual é sobreviver. Eu lancei um disco ano passado, que parece ter tido a vida “ao vivo” dele encurtada. Não há perspectiva de fazer um show com uma banda no palco nem tão cedo, não sabemos quando haverá isso novamente e quando houver em que tamanho vai ser possível. Tá tudo muito suspenso. Eu tenho escrito, tenho tentando me manter criativo, ensaio ideias de formatos diferentes, mas ainda é muito cedo para falar, até pelo próprio contexto que não permite que muita viagem seja concretizada em curto prazo. Agora, para mim, é muito mais um tempo de cuidados para poder escapar vivo. E aproveitar as oportunidades que aparecem, mas sabendo que este é um momento suspenso que necessita ser ultrapassado.

Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia: humor e crítica em nova edição da Radionovela

Por Dayane Jeniffer e Thamara Amorim

Adaptação da obra ‘’O Auto da Compadecida’’ do paraibano Ariano Suassuna, leva a pandemia do COVID-19 para o universo de João Grilo e Chicó, de forma reflexiva e bem humorada


As ilustrações das capas dos episódios da Radionovela são produzidas pela estudante de Design Emilly Monteiro e pela aluna de Comunicação Social Cecília Tavora. Foto: Divulgação/Instagram da Radionovela

Um anúncio de rádio avisa que, em 72 horas, o Capitão Covid chega à cidadezinha de Taperoá, deixando o município inteiro em polvorosa: o Capitão já aterroriza as redondezas e alveja especialmente os idosos. A única forma de proteção contra suas malfeitorias é lavar bem as mãos com sabão e não sair de casa. Mas será que os tapeiroenses respeitarão as regras de higiene e isolamento social, decorrentes da chegada do Capitão? A cidadezinha de João Grilo e Chicó está para enfrentar a pandemia do coronavírus na radionovela produzida pelos alunos da Universidade Federal de Pernambuco do Centro do Agreste e, nossos conhecidos personagens das telas e dos livros, terão que lidar com um problema sanitário que tem muito de humano e, aparentemente, de cangaceiro.

O projeto de extensão ”Radionovela: literatura nas ondas do rádio”, visa adaptar obras literárias exigidas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e por Vestibulares, além de ajudar a ampliar o consumo de obras literárias para o público cego. Inspirada na pandemia do novo coronavírus, a Radionovela lança uma nova edição: ”Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, adicionando ao popular cenário de Suassuna, questões bastante atuais, tais como, fake news e os dilemas da economia diante do isolamento social e do desemprego. O programa conta com oito episódios disponíveis no Spotify.

Na entrevista, a professora e coordenadora do projeto Giovana Mesquita e o aluno, roteirista e idealizador Gabriel Pedroza, nos contam sobre os desafios, características e inspirações da adaptação.


Como surgiu o projeto da Radionovela?

Gabriel: A Radionovela surgiu na disciplina Oficina de Texto, no primeiro período do  curso de Comunicação Social. A ideia nasceu da minha paixão por telenovela. Eu resolvi adaptar o primeiro capítulo do livro “Senhora”, de José de Alencar, com mais três estudantes, e apresentamos o projeto. A professora e orientadora Giovana Mesquita propôs que ele se transformasse em um projeto de extensão. Nosso objetivo é adaptar livros de autores nordestinos da literatura brasileira em formato de radionovela. E levar de maneira didática esse material para aos estudantes que vão prestar Enem e Vestibular.

Qual a importância desse projeto feito por estudantes da universidade pública?

Gabriel: Isso mostra que a universidade pública não para, mesmo em uma pandemia. O projeto ganha mais força e gás por ser  formado por alunos e pelas professoras Giovana Mesquita e Sheila Borges. Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Como surgiu a adaptação da obra de Ariano Suassuna? Por que não outra?

Giovana: Escolhemos Ariano por conta da atualidade de sua obra. Nessa adaptação “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, nós trouxemos a crítica de Ariano, presente na obra original, para incluir questões que precisamos lidar nesse momento de pandemia. Como desinformação, fake news e interesses econômicos, por exemplo.

Por que a escolha de adaptar o livro, ao invés de usar a obra original de maneira integral?

Gabriel: Nós quisemos fazer uma história ficcional, com personagens característicos de Ariano, porém com o pé na realidade. A gente trouxe o contexto do autoritarismo do Major Antônio Moraes, por exemplo, inspirado em alguns governantes que estão à  frente do combate da pandemia no mundo.

Professora Giovanna Mesquita e o aluno de Comunicação Social Gabriel Pedroza. Foto: Acervo pessoal

Como está sendo produzir a Radionovela com as limitações em decorrência do isolamento social?

Giovana: É um desafio que tem sido resolvido brilhantemente pelos estudantes de Comunicação Social e Design. Eles estão produzindo o programa em casa. Os alunos gravam no celular e mandam. Tem sido um trabalho muito colaborativo.  É um processo de esforço técnico redobrado, mas que tem sido muito interessante. 

A Radionovela foi um produto muito consumido durante a Era do Ouro do rádio, entre as décadas de 1920 e 1930. Como fazer esse projeto ainda ser algo interessante em ser ouvido?

Giovana: O segredo para a radionovela ainda ser um programa ouvido é tentar trazer para a realidade dos jovens. Então, a gente aposta na interatividade pelas redes sociais, para receber o retorno e chamar atenção do público. 














João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Cin3filia: O mundo nerd no interior do Nordeste

Conversamos com João Soares, criador da página que já alcança mais de 145 mil seguidores de todo o país


João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Criado em 2015 como uma página sobre cinema, séries e cultura pop no Instagram, o Cin3filia cresceu e agregou site, eventos e reconhecimento rapidamente: em apenas 5 anos, já conta com 147 mil seguidores na rede social, além de colaboradores em  todo o país. João Soares conta sobre as experiências, os desafios e os próximos passos do projeto em uma conversa que você pode conferir completa aqui e também assistir no Instagram do Café Colombo.


Como é ter um site voltado para o cinema e a cultura geek no Agreste pernambucano?

Às vezes, as pessoas não  sabem que o Cin3filia está em Pernambuco, no interior, porque não abordamos tanto conteúdos locais. Culturalmente, o Brasil tem uma aversão grande ao cinema nacional, mas nós temos um grande amor pelo cinema pernambucano. Quando filmes como Bacurau (2019, dir. Kleber Mendonça Filho) alcançam muito sucesso, nós conseguimos abordar esse conteúdo. Mas como o Cin3filia já nasceu com a proposta de falar sobre todo tipo de cinema, ele acabou atingindo mais o cinema de Hollywood. Toda semana nós falamos sobre estreias, e isso direcionou o público às produções maiores. Mas também temos espaço para falar sobre cinema pernambucano e queremos investir em alguns projetos voltados a esse assunto.

Existe uma cobrança para que o site fale mais do cinema nacional e pernambucano?

Não temos uma cobrança muito grande no Cin3filia nesse sentido. Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar. Fizemos uma postagem muito legal falando sobre O Auto da Compadecida  (2000, dir. Guel Arraes) na época que houve a remasterização e a reexibição na Rede Globo e choveram comentários positivos sobre o cinema brasileiro. Só que, quando falamos sobre filmes que estão em circuito como Divino Amor (2019, dir. Gabriel Mascaro) e Bacurau, não conseguimos ter um movimento tão positivo quanto em filmes consagrados. O público local demonstra mais interesse, mas precisamos pautar o conteúdo relativo ao alcance. Entre produzirmos  um conteúdo que vai alcançar 10 mil pessoas e um conteúdo que vai alcançar 50 mil, a gente vai produzir o que vai alcançar 50 mil.

Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar.

O que você acha que falta para poder abordar o cinema brasileiro? É uma escolha do público ou a falta de conteúdo sobre o tema?

Eu acho que tem os dois lados, o do veículo produzir muito conteúdo seguindo a demanda, mas também de não oferecermos algo além do que o público poderia receber. É como se precisássemos forçar esses temas para que a galera também consuma, porque se nós não oferecemos, não vai surgir demanda. É um ciclo vicioso. Se nós falássemos sempre sobre cinema brasileiro, com certeza iríamos atingir um público e conseguiríamos criar um conteúdo mais focado para ele. Mas é complicado precisar trabalhar com o algoritmo do Instagram, que a gente precisa sempre oferecer um conteúdo que todo mundo quer ver, e não só o que um nicho quer ver.

Como funciona a distribuição da publicidade? Ser uma página do interior de Pernambuco dificulta o processo?

Para ter acesso às distribuidoras no Nordeste, a ação é terceirizada. Se as elas têm alguma ação, entram em contato primeiro com essa agências de marketing e só depois com a gente. Em São Paulo, que é onde estão concentradas as distribuidoras, existem dezenas de agências que vão entrar em contato com influenciadores específicos que têm a ver com esse tipo de conteúdo. E é por isso que nós temos um representante em São Paulo, porque se ficarmos limitados a esse contato indireto, não conseguimos acesso, porque é realmente fechado naquele circuito São Paulo-Rio.

Equipe do site na Sessão Cin3filia do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam, realizada em Caruaru, 2016.
Foto: Sarah Teodósio

Como funciona a Sessão Cin3filia? Vocês pretendem expandir o evento para outras cidades, além de Caruaru?

A Sessão Cin3filia foi um das ações que a gente fez pra tentar regionalizar o Cin3filia, fazer com que ele atinja o público local com um conteúdo global. A intenção é produzir uma experiência diferente no cinema para os fãs, então nós trazemos cosplayers, produzimos os brindes, os quizzes. Gostamos muito de imergir no universo do fã e dos filmes que nós vamos conversar sobre. Temos vontade de expandir o evento, trazer cada vez mais para o interior, ir para Vitória, para Petrolina, mas é realmente bem complicado para levar cultura no geral, se deslocar e mobilizar cidades que não conhecemos. Por mais que o interior seja bem homogêneo no imaginário da galera, cada lugar funciona de uma forma, principalmente quando se trata de publicidade para divulgar essas sessões, além de questões legais. 

Quais serão os próximos passos do Cin3filia? Tem algum planejamento para o Agreste?

Nós queremos entrar no YouTube e produzir conteúdo, esse é o próximo passo do Cin3filia. Vamos entrar de cabeça e procurar sempre produzir e interagir por lá. Quando se fala nos próximos passos para o Agreste, pensamos em eventos e experiências. Nós vamos sempre pra CCXP em São Paulo, que é o maior evento de entretenimento nerd do mundo, e adoraríamos ter algo semelhante aqui. Então não importa se em Caruaru, Petrolina ou outras cidades da região, queremos montar eventos que entreguem essas experiências, que foquem nessa questão de filmes, séries, interação, brincadeiras. A ideia é que, junto com parceiros da região, a gente consiga produzir sempre esse tipo de evento e atingir os fãs.

Revoredo: Uma imersão poética-musical em tempos de pandemia

Por Gabriel Vila Nova e Sarah Coutinho

O artista Alexandre Revoredo fala sobre o processo de lançar o seu novo álbum em meio ao caos ocasionado pelo novo coronavírus


“Este álbum é uma compilação de toda a minha vivência nessa estrada da arte: tudo que aprendi, as pessoas que eu conheci e as amizades que eu conquistei”, menciona. Foto: Breno César

O lançamento do primeiro disco solo Revoredo do músico Alexandre Revoredo, é a reunião das diversas experiências e influências artísticas do compositor devido o seu contato com a música, o teatro e a poesia. O lançamento virtual do álbum, realizado no dia 27 de março, se deu no momento em que atividades culturais eram canceladas em virtude da pandemia do vírus Covid-19. Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade à repórter Sarah Coutinho e ao colunista Gabriel Vila Nova, Revoredo fala sobre o disco e os efeitos da quarentena na difusão e receptividade do álbum.


Há quanto tempo você trabalha como músico?

Revoredo: Eu trabalho como músico desde 1996,  quando entrei na minha primeira banda. No início da carreira, tocava em aniversários de amigos. Mas, em 2001, comecei a me apresentar em bares e a cantar profissionalmente em casamentos com um grupo que me acompanhava. Já vivo de música há um tempo. 

O que esse álbum representa para você e o que ele busca representar para as pessoas que o ouvem?

Revoredo: Este álbum é uma compilação de toda a minha vivência nessa estrada da arte: tudo que aprendi, as pessoas que eu conheci e as amizades que eu conquistei. Ao mesmo tempo, ele também é um primeiro passo para dizer quem é Alexandre Revoredo e o que ele tem para trazer ao mundo. É um disco que tem muito a minha cara e tem realmente tudo a ver com o que eu falo e penso. Além disso, as pessoas que participam dele fazem parte da minha trajetória enquanto artista e músico. Portanto, é um disco que me apresenta ao mundo. Tanto que a primeira canção, Sou, é autobiográfica e fala das minhas influências, dos caminhos que trilhei, da poesia.

Portanto, é um disco que me apresenta ao mundo.

Sabe-se que a área cultural foi um dos primeiros campos a parar com as atividades em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Como foi lançar o álbum nesse momento?

Revoredo: De fato, a classe de agentes culturais foi realmente uma das primeiras a sofrerem com as consequências do coronavírus. No meu caso, o show de lançamento do disco, que seria um show com banda, seria realizado agora no dia 4 de Abril, mas foi a primeira coisa a ser cancelado, logo no início de março. E isso não aconteceu somente comigo, eu tenho outros amigos artistas que já estavam cancelando as apresentações antes da quarentena. Quanto ao lançamento digital do álbum Revoredo, ele já estava marcado para o dia 27 de março porque, além do disco já vir sendo gravado há um bom tempo, ele recebeu o incentivo do Funcultura e, por isso, tinha um prazo para ser entregue. O planejamento seria fazer primeiro o lançamento virtual e depois o lançamento do disco físico, mas este vai ter que ser feito em outro momento.

Com o lançamento do seu novo disco, Alexandre diz ficar contente com mais uma etapa da sua carreira concluída.
Imagem: Breno César

Como tem sido a receptividade e o alcance do álbum com essa impossibilidade de fazer shows?

Revoredo: Eu acho que pelo conteúdo do disco, pela forma como eu trato as letras e a poesia, o que eu trago nele acabou servindo de alento e de alívio para as pessoas que estão em casa. E elas estão consumindo muita arte neste momento, arte essa que sempre foi muito criticada. Na realidade, sempre foi sofrido fazer arte, mas nesse último ano ela foi muito marginalizada por discursos extremistas. Todavia, neste momento, está todo mundo consumindo. Além disso, lançar o disco nesse momento teve seu lado bom porque ele conseguiu chegar nas pessoas de uma outra forma. Isso porque, devido às circunstâncias, as pessoas estão com a sensibilidade à flor da pele para entenderem as mensagens que têm dentro do álbum. Talvez o alcance não tenha sido maior do que em tempos anteriores à pandemia, mas ele tem sido mais profundo no coração das pessoas. Eu tenho recebido um feedback muito lindo e emocionante através de textos, desenhos e depoimentos.

Seria certo dizer que o álbum Revoredo é o resultado das influências existentes dentro de ti e da forma como você observa o mundo? 

Revoredo: Podemos perceber um artista de acordo com o olhar dele para o mundo. A poesia é isso: a forma de entendermos as coisas do jeito que recebemos e observamos o mundo. Ao mesmo tempo, o álbum teve cinquenta pessoas envolvidas no disco diretamente do produtor musical aos compositores que fizeram as canções comigo. Marcello Rangel, Martins, Gabi da Pele Preta, Stephany Metódio, além de outros músicos, são alguns dos artistas que fizeram parte do processo. Todos estavam em prol de realizar um trabalho comprometido com a estética, com a beleza da poesia e a beleza da canção. Esse disco é o resultado dessas pessoas que estiveram ao meu lado o tempo todo durante esses quatro anos.