Entrevistas

E-Pífano: a desconstrução da narrativa única sobre Nordeste

O E-Pífano estreou dia 18 de julho e lança vídeo novo toda semana no Instagram. Foto: E-Pífano/Divulgação

A história do Nordeste sempre foi algo contado e recontado diversas vezes por grandes clássicos da arte. Os temas seca, pobreza e desigualdade estiveram vinculados ao imaginário nordestino continuamente, reforçados em músicas como “Asa Branca” de Luiz Gonzaga, e livros como “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Essa imagem repetida e internalizada pelas outras regiões e pelo próprio povo que nela vive, faz crescer a narrativa única sobre o Nordeste que apresenta imensa diversidade cultural e geográficas. 

Na contramão dessa repetição imagética do Nordeste do “nem um pé de plantação”, parafraseando Gonzagão, o projeto “E-Pífano” busca mostrar novos rostos e abrir espaço para as diferentes identidades que existem na região. Formado pela aluna de Direito Vitória Chaves Araújo de Farias, apelidada de Vivi, e o estudante de Publicidade e Propaganda Yuri Vieira Silva, apelidado de Yuro, o E-Pífano, com menos de dois meses de execução, publica vídeos e posts sobre as temáticas nordestinas na  rede social Instagram.

A equipe do Café Colombo entrevistou a dupla, que nos contou sobre o nascimento do canal, os desafios de produzir conteúdo, o Nordeste como cenário do “curral eleitoral” recorrente na política e as novas cenas da cultura popular da região.

Como surgiu a ideia e qual é o objetivo de vocês com E-Pífano? 

Yuro: No início de junho, em meio à pandemia, eu surgi com a proposta para Vivi de criar esse canal, porque a gente conversa muito sobre isso. Ela concordou e fomos construindo a identidade de uma página que falasse de Pernambuco e da região inteira. Hoje, temos menos de dois meses de execução do projeto.

Vivi: Conheci Yuro a partir do nosso ciclo de amigos em comum. Embora nossos amigos também gostassem de cultura local, eu e ele sempre conversamos muito sobre o Mangue Beat e muitas outras formas de expressão cultural. Então, vimos a necessidade de ter meios de comunicação que discutisse essas questões. Também achamos  importante fixarmos a nossa fala enquanto pernambucanos. Nosso intuito é exatamente democratizar esses espaços da cultura.

Yuro é nascido em Natal (RN) e Vivi nasceu em Belo Jardim, mas ambos moram em Caruaru. Foto: Acervo pessoal.

Por que o nome E-Pífano?

Yuro: O nome surgiu depois de realizar um trabalho na faculdade no qual precisávamos criar uma agência de publicidade fictícia para clientes com interesses regionais. Como era só um trabalho acadêmico, o nome ficaria inutilizável após o término dele. Quando surgiu o projeto, eu vi uma boa oportunidade de usar o nome, pois as ideias se encaixavam.

Por que foi escolhido a rede social Instagram para compartilhar esse conhecimento acerca da cultura nordestina? 

Vivi: Nós entendemos que seria melhor o Instagram porque ele possui uma versatilidade melhor nas suas publicações. Vídeos, stories e cards, permitem que essas interações sejam mais dinâmicas. Além disso, nós começamos a aumentar a nossa relação com o público por outras plataformas, como na nossa playlist “Nordeste na Voz’’.

Yuro: A comunicação é bem mais fácil também, na troca de comentários, do que no Youtube, por exemplo. No Youtube é algo mecânico e distante do público. Já no Instagram você tem essa troca de feedback mais rápida.

Como ocorrem as parcerias do E-pífano com outras marcas, como com a loja O Facheiro?

Yuro: A parceria com O Facheiro é algo tão natural. Também fazemos divulgações de outras páginas que tenham um conteúdo legal, mas sem o intuito de uma parceria formal.

Vivi: Assim como fizemos com o pessoal do Instagram Além da Lenda, que tem um trabalho muito massa. Queremos que outras pessoas conheçam para divulgar cada vez mais esses projetos que exaltam a cultura popular.

Vocês têm perspectiva que o E-Pífano se torne um trabalho rentável?

Yuro: Seria muito legal! Porque é um projeto que nós trabalhamos de livre e espontânea vontade. Lógico que é massa o feedback positivo da galera, mas seria muito interessante a gente ter um retorno financeiro, poderíamos nos empenhar mais e trazer novidades todos os dias. 

Os vídeos produzidos por vocês tiveram bastante repercussão. Quais são os desafios de se trabalhar com conteúdo cultural que alcança tantas pessoas?

Vivi: Até agora o projeto tem bastante comentários positivos. Não veio nenhum comentário xenofóbico. Mas eu acho que é porque essas pessoas que nos assistem são simpatizantes das nossas ideias. Mas, no geral, tomamos cuidado sobre as palavras usamos prevendo os possíveis haters que podem surgir.

Yuro: Eu acho que o resultado tem sido muito positivo. Como a gente dividiu os nossos vídeos em temas, estamos trabalhando agora com a parte mais teórica. Mas quando entrarmos em temas mais delicados, como política, podem vir vários tipos de comentários. E tudo bem se forem comentários respeitosos que discordem do nosso ponto de vista. Não queremos doutrinar pessoas, mas, abrir o diálogo e gerar discussões. No início do canal, nossa maior preocupação era soarmos como professores, porém não temos formação para isso. O que nós falamos é fruto dos nossos estudos, do nosso ciclo familiar e de amizade. E caso chegue um assunto que não sabemos, chamaremos um especialista. 

Vivi: Usamos bases teóricas, como a nossa bíblia “A Invenção do Nordeste e outras artes” de Durval Muniz de Albuquerque, que fundamenta muitas das perspectivas que nós temos. Nosso intuito é tentar aguçar esse pensamento crítico das pessoas, e tornar o E-Pífano em um canal para se debater ideias.

Nos vídeos produzidos por vocês existe a forte presença de desconstrução da imagem do Nordeste. Como vocês enxergam a importância dessa identidade para uma região e para um povo? 

Yuro: Como faz parte do meu tema de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) falar sobre os estereótipos acerca do Nordeste, eu tava refletindo sobre isso há um tempo. Querendo ou não, os estereótipos existem para tornar mais fácil a identificação de um povo, mas eles não nos definem por completo. São nove estados que as pessoas resumem de uma maneira muito simples e superficial. E isso interfere na nossa impressão sobre a região também. Quando as pessoas usam os termos “povo sofrido’’ e “seca’’ para nos classificar, esquecem que essas carências existem aqui e em outros locais. Esses termos não são uma única verdade.  Queremos dar outras linhas para essa história. No livro de Durval esse é um tema bastante trabalhado:  como a mídia e as artes repetiram uma única narrativa acerca do Nordeste. É muito difícil você ouvir sobre isso em outras regiões. Como a expressão “povo sudestino’’, que não é tão comum quanto “povo nordestino”. 

Vivi: Ainda existe a ideia da região estar relacionada ao atraso. Nós não apagamos os fatos de que, por uma questão geográfica, existe a seca, mas não é só isso que caracteriza esse espaço. Observar esses estereótipos e como eles nos cabem e até onde nos cabe é um dos principais objetivos do E-Pífano. Também queremos que o canal abrace outros estados, para que eles se sintam acolhidos em mostrar sua identidade.

Observar esses estereótipos e como eles nos cabem e até onde nos cabe é um dos principais objetivos do E-Pífano.

O quanto esses estereótipos representam ou não representam vocês? 

Yuro: Acho que um estereótipo positivo do Nordeste são as nossas tradições. Gosto muito da forma como o Nordeste é lembrado pela cultura do São João e do forró, por exemplo. A identidade cultural é muito forte e ampla. Até mesmo nós, nordestinos, não conhecemos sua variedade. Existe um estereótipo de que somos um povo batalhador e forte. E sim, existem dois viés nessa frase. O primeiro, da pessoa que saiu da seca e precisou encontrar novas formas de sobrevivência, e, o segundo, do nordestino forte e batalhador. Acredito que esse último seja um estereótipo do bem, já que nossa história retrata isso. 

Vivi: Um estereótipo massa que acho de Pernambuco, é que o nosso povo é muito defensor de si. Não no sentido egoísta. As guerrilhas, por exemplo, são uma demonstração dessa nossa força. Meu TCC é sobre o patrimônio cultural e direito à cultura, e eu faço uma análise da feira de artesanato de Caruaru. É muito lindo nós termos uma cultura de artesão e artesãs. Ao meu ver, dois estereótipos negativos recorrentes são a forma que é representado a mulher nordestina em filmes, livros e música, extremamente masculinizada, e o preconceito linguístico com a nossa fala. 

Como vocês se sentem com essa representação do Nordeste, idealizada não só pelo Governo Federal atual como os antigos, de um lugar necessitado de dinheiro e comida? Uma representação feita, inclusive, pelo candidato à presidência em 2018 Geraldo Alckmin (PSDB) e também por nordestinos, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Yuro: Nós do Nordeste somos vistos como pobres e necessitados por termos votado em líderes de esquerda, como Lula, visto que o seu plano de governo ofereceu moradia e comida àqueles que precisavam. Parece assim que nós precisamos viver de esmolas, no olhar dessas pessoas. Alguns julgam que o Nordeste troca política por favores, e nós vemos que isso não é uma concepção correta. Nós estamos mudando esse cenário atualmente. Caminhamos diariamente para uma polarização política no Brasil entre bolsonaristas e lulistas, deixando de lado outras questões importantes. Acho que precisamos dialogar sobre políticas públicas, não só bipartidarismo. Nós precisamos de um posicionamento e de uma consciência política forte para não elegermos representantes que classificam todo o Nordeste de “paraíbas”. Democratizar a educação e acabar com a pobreza não são esmolas, isso deveria ser algo básico. Questionamentos de “como podemos mudar esse quadro? Como podemos pressionar os representantes?” merecem ser feitos pela população. O que também acho interessante refletir é como tantas pessoas se incomodam com o Nordeste ter ganhado visibilidade pelos benefícios que recebeu. 

Vivi: As pessoas que não moram no Nordeste costumam pegar um espaço-tempo específico da região que, sim, foi beneficiada com escolas, universidades, declínio da fome, bolsa família, e afirmam que não sabemos votar. E com esse argumento esquecem todas as negligências do Governo Federal. Eles não fizeram nada além da obrigação deles. Por muito tempo, houve um apagamento da nossa história. E, em um dado momento, governos de esquerda passaram a trazer mudanças, nas quais os nordestinos tornaram-se gratos por isso. O governo atual do presidente Bolsonaro, por exemplo, não só negligencia a região, mas a ciência, a educação e reforça estereótipos sobre nós. Eu e Yuro conversamos esses dias sobre como as pessoas que se incomodam com esses incentivos na região, gostam de passar as férias em praias daqui e aproveitar as festividades, mas durante o resto do ano é esquecida por eles.

Qual é a visão de vocês sobre uma cultura popular dita como pura e uma cultura popular que se insere dentro de outros movimentos, como o bregafunk?

Yuro: Falando de Pernambuco, nós temos muitos nomes interessantes e plurais, desde os mais clássicos até a nova geração. As movimentações artísticas não são antigas e esquecidas, elas são utilizadas para novos ritmos e conceitos. O frevo, o forró e o manguebeat estão sendo representados por novos artistas atualmente. Duda Beat e Lucy Alves são representantes disso. Assim como o bregafunk, que alcançou e continua alcançando muitas pessoas de outros países. Não só o antigo merece visibilidade, mas o novo precisa também ser visto. 

Vivi: Eu acho que nós somos muito inventivos. Nós temos uma cultura regional, do agreste, sertão e litorânea muito massa. E tentamos abranger vários estilos e buscar cada vez mais sobre esses ritmos. É impressionante como em todo carnaval temos algo diferente. Sou muito apegada à tradição, mas o novo dá uma repaginada enorme. 

marcos pasche

‘Educação maiúscula e libertária’: a leitura como alternativa para pessoas encarceradas

Há dois anos, o crítico literário e professor Marcos Pasche, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), decidiu seguir um novo caminho: além das aulas de literatura brasileira, ele passou a integrar o projeto de Remição de Pena pela Leitura, que se tornou um projeto de extensão da universidade. Junto com um grupo de estudantes do curso de Letras, ele atua no Complexo do Gericinó — antigo Complexo Penitenciário de Bangu, localizado na capital fluminense. Marcos conta sobre a experiência com os alunos que lêem e produzem resenhas para diminuir seu tempo encarcerados, além das dificuldades encontradas pela equipe.

professor marcos pasche
Marcos Pasche coordena o projeto de extensão Remição de Pena pela Leitura, realizado em parceria entre a UFRRJ e a Universidade Federal do Estado do RIo de Janeiro (UniRio). Foto: Arquivo Pessoal

Como surgiu o interesse em fazer parte do projeto de remição de pena?

Durante alguns anos, desde que assisti ao filme Carandiru, de Hector Babenco, eu senti vontade atuar em espaços prisionais. Mas era coisa genérica, do tipo “fazer alguma coisa”. Quando resolvi concretizar a ideia, procurei o coordenador da Pastoral Carcerária no Rio de Janeiro, Padre Roberto Magalhães, em janeiro de 2018. No encontro, contei que era professor e crítico literário, e então ele me falou de um projeto voltado para que pessoas privadas de liberdade escrevessem resenhas. Era o Remição de Pena Pela Leitura, pelo qual me interessei prontamente, ingressando no trabalho em maio daquele ano.

Quais os livros mais apreciados pelos alunos?

Infelizmente, eu ainda não tenho dados organizados do trabalho, mesmo atuando nele há pouco mais de dois anos. Em prática no Rio de Janeiro pelo menos desde 2016, o Remição de Pena Pela Leitura sequer figura como projeto cultural educativo/cultural na página virtual oficial da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (SEAP), embora ela tenha sido atualizada recentemente. Isso dá uma boa medida do quanto na base o trabalho é essencialmente dado ao acaso. 

Ainda assim, pela grande quantidade de exemplares disponíveis e pelo gosto individual, é possível dizer que livros como A cabana, de William P. Young, e O vendedor de sonhos, de Augusto Cury, são muito bem recebidos. Além disso, destaco três resenhas marcantes que me chegaram, uma de Gatos guerreiros, de Erin Hunter; outra de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; e uma terceira, de O processo, de Franz Kafka. Foram trabalhos que apresentaram grande alcance interpretativo das obras, linguagem organizada e fluida e, sobretudo no caso do último, análise da condição pessoal a partir da análise textual. Um feito memorável.    

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Cena do filme “O Processo” (1962, dir. Orson Welles), adaptação do livro homônimo de Franz Kafka. Na história, o bancário Josef K. é preso e processado sem saber o motivo. Foto: Reprodução

Quais os momentos mais marcantes vivenciados no projeto?

A cadeia é o espaço em que a barbaridade estatal se radicaliza. Ver uma cela cheia de gente pendurada em beliches e amontoada na grade de entrada é algo que talvez não saia da memória. Também é marcante a imagem de incontáveis mulheres pelo Complexo Penitenciário do Gericinó (onde atuo), muitas das quais não suportam aguardar na enorme fila do escasso transporte interno e atravessam centenas ou milhares de metros com até quatro bolsas pelos braços, a caminho da visita ou apenas para entregar mantimentos às pessoas afins. Por outro lado, o olhar se depara com circunstâncias de elevação, e a leitura das três resenhas mencionadas foi um belo exemplo.

No cotidiano de trabalho, chegam agradecimentos e apoios de formas diversas, seja pela solicitude de um guarda ou pelo cumprimento enfático de um participante do projeto que, num dia de visita, deixou por um momento a família para entregar um abraço pelo dia dos professores. Recordo ainda o empenho de uma bolsista do projeto para criar meios de alfabetizar um homem que lhe pediu auxílio; e a voz forte de um participante que, ao final de uma atividade de leitura coletiva, apelou para que se mantivesse o tipo de aula que ali se realizou, no que foi apoiado pela turma. Em dias e em cadeias diferentes, um jovem e um senhor disseram respectivamente ter conhecido literatura e desenvolvido o hábito de leitura no cárcere. Por fim, cito um participante ávido por contar ter vendido a televisão que usava na cela porque a literatura ganhava cada vez mais tempo em seus dias. A palavra que aqui registra os fatos não reproduz a intensidade desses acontecimentos.  

Como foi o processo de adaptação da equipe de trabalho ao ambiente?

Não houve nem há qualquer processo, sequer orientação em forma de tutorial ou cartilha. O trabalho vai se fazendo aos tropeços, e com isso se acumulam desconfortos rotineiros e se desperdiçam tempo e ânimo. 

Quais as dificuldades encontradas pela equipe?

A educação literária e a ressocialização não são prioridades do poder oficial. Esse descompromisso não é característica de apenas um governo, por ser um item estruturante da civilização brasileira.  Mas sob as gestões federal e estadual deste momento, isso atinge dimensão catastrófica, de aposta incisiva e indisfarçada na violência estatal. Apesar de microscópicas, nossas dificuldades decorrem dessa instância maior, porque, numa palavra, não temos condições de realizar dignamente o trabalho planejado e previsto legalmente, é importante frisar. Na prática, isso significa o sumiço rotineiro dos documentos que autorizam nossa entrada no complexo penitenciário e, depois, nas unidades prisionais, o que, num dia em particular e no cronograma em geral, reduz em muito o tempo de trabalho.

Disso decorre uma instabilidade que nos impede de consolidar ações voltadas para o levantamento de dados e para a sistematização de resultados, por exemplo, sem falar que se tornam impossíveis avanços como a realização de atividades e eventos sem o pressuposto pragmático da redução da pena. 

Nossas dificuldades decorrem dessa instância maior, porque, numa palavra, não temos condições de realizar dignamente o trabalho planejado e previsto legalmente […]

No seu ponto de vista, como a literatura pode atuar na vida das pessoas encarceradas?

Vou responder com base no projeto que integro. Ainda que a pessoa presa já tenha conhecido a literatura antes de cumprir pena, o exercício de sua leitura no cárcere pode ser algo substantivamente novo, porque ali esse exercício não se separa de uma prática solidária. Não são poucos os casos de quem participa visando apenas o desconto da reclusão, mas em tantas vezes é emblemática a surpresa de quem, com pouco tempo de contato, ouve ser chamado pelo nome ou tem algum traço de escrita lembrado. Muitos encarcerados entendem bem o que é o sistema prisional e reconhecem a dedicação de professores e estudantes que se deslocam para cadeias por uma aposta sincera e empenhada no trabalho.

A literatura assim está no centro de um conjunto em que se reúnem ocupação do tempo, instrução, diminuição da pena e ação humana – ou seja, Educação, maiúscula e libertária. Considerando a rotina desumanizadora do encarceramento, convém entender a literatura como entretenimento e força de desenvolvimento do senso crítico, o que pode causar desespero, por radicalizar a percepção de anomalias sociais, mas pode também aguçar chances de autoencontro, de evasão e de transformação pessoal. 


Veja também: Quem tem medo de literatura russa?

Literatura na pandemia: o mercado literário online no Agreste de Pernambuco

Os donos da Livraria Cafundó Pablo Vithor e Natália Millena. Foto: Acervo Pessoal.

Decerto, o mercado literário brasileiro sofre de uma crise longa, que afeta livreiros e livrarias desde muito antes da pandemia. Porém, depois do fechamento de espaços públicos, devido à contaminação do coronavírus, as cidades ficaram sem lugares públicos de venda e empréstimo de livros, tais como, bibliotecas, livrarias e sebos. Além disso, muitos desses ambientes não conseguiram migrar para as plataformas digitais, fazendo com que algumas cidades perdessem temporariamente seu comércio local de livros. Em Caruaru, maior cidade do Agreste de Pernambuco, que tem apenas uma livraria física, a venda online de livros por livreiros locais não parou. A equipe do Café Colombo entrevistou os proprietários da Livraria Cafundó, Pablo Vithor e Natália Millena, situada em Caruaru, que vende livros novos e itens de papelaria para todo Brasil através de pedidos online via Whatsapp. No último mês de Julho, o projeto completou um ano. 

Abaixo, eles respondem perguntas do Café.

De onde surgiu a ideia da Livraria Cafundó? 

Pablo: A ideia da livraria surgiu quando eu comecei a vender alguns livros no meu perfil pessoal do instagram. Eu estava lendo muito e comprá-los custa muito dinheiro. Isso estava comprometendo uma parte da minha renda, e eu queria ter mais renda extra. Então, eu decidi comprar alguns livros e vender no meu próprio perfil pessoal e, as pessoas foram aderindo. Muitas vezes, meus próprios amigos, achavam um livro interessante, me pediam e fazíamos a entrega. Em julho, eu tive a ideia de criar o perfil da livraria, porque nós viamos que, em Caruaru, mesmo tendo uma livraria física, ainda era pouco para a cidade.  Não tinha ninguém fazendo  publicidade no meio digital, onde as pessoas realmente estão hoje em dia.  Portanto, eu vi esta oportunidade e acabei entrando.

A gente sabe que Caruaru tem um mercado literário muito pequeno. Nós só temos uma livraria física e a biblioteca municipal está fechada há mais de dois anos. Então, quais as dificuldades e oportunidades de trabalhar num espaço como esse?

Natália: Realmente este é o cenário literário atual de Caruaru. É uma pena que a única biblioteca que temos na cidade está sem funcionar há mais de dois anos. Nós temos uma enorme oportunidade nesse cenário porque somos a pioneira, e a única livraria que está no  meio digital. Temos um espaço grande para explorar, para dar assistência a todos estes leitores que estavam muito desassistidos, que não tinham a oportunidade de ir à uma livraria física. Logo, nós oferecemos essa possibilidade, para que o leitor possa fazer uma compra de forma mais fácil. Com relação aos desafios, eu acho que não é só um desafio da cidade. Nosso desafio é num todo. É chamar a atenção das pessoas, de forma geral, para que elas desenvolvam o hábito da leitura. E mostrar às pessoas, a importância da leitura.

Divulgação dos livros da livraria no Instagram. Foto: Acervo Pessoal.

De que  modo vocês acham que a literatura poderia ganhar mais espaço aqui em Caruaru?

Pablo: Nosso objetivo é despertar o interesse por livros. E, eu acho que as pessoas e o empresariado, devem tentar produzir conteúdo que desperte o interesse. Na gestão pública, eu acredito na introdução da leitura no infantil, porque o adulto ou adolescente,  tem hábitos que  estão arraigados neles. Uma maior introdução no infantil, a longo prazo, daria um resultado excepcional. Os colégios do município precisam dar mais assistência, fazer bibliotecas infantis e feiras de livros como a Fenagreste.

Natália: O que a gente torce muito também, é para que os clubes de leitura possam se expandir pela cidade. Temos vários objetivos, várias metas para introduzir o clube de leitura da Livraria Cafundó. 

Pude observar que a conta de vocês no instagram não é apenas comercial, vocês também publicam resenhas e vídeos no IGTV com curiosidades literárias. Como surgiu a ideia de criar um perfil como esse e como vocês acreditam que isso afeta positivamente nas vendas?

Natália: Acho que esse é o grande diferencial da nossa livraria. Não estamos apenas como perfil comercial,  só ligado à venda. Queremos, construir um ambiente de maior interação com o cliente.

Pablo: Quando estabelecemos que o nosso público alvo não seria os “super leitores”, queríamos despertar o hábito de leitura em novas pessoas. Como fazer isso? Trazendo conteúdo que chame a atenção delas e que gere o interesse de, pelo menos, começar a ler um livro. Acho que o primeiro passo é importante.

Natália: Nossos posts possuem esse diferencial. Tentamos fazer posts interativos, para que as pessoas possam comentar quais são os seus melhores livros e escritores. Tentamos fazer posts  criativos, com fotos, unboxings de livros e tudo isso vai chamando atenção, as pessoas vão curtindo, se familiarizado com o nosso jeito de trabalhar, e tem dado muito certo.

Pablo: A gente aposta nessa questão do conteúdo. Um conteúdo bom, excelente e relevante, traz mais gente para a livraria e, consequentemente, aumenta as vendas.

A pandemia trouxe uma crise enorme para o mercado, principalmente para aqueles que não migraram  para as plataformas digitais. Apesar disso, o comércio online não saiu imune. De que forma a pandemia afetou o trabalho de vocês?

Natália: O que afetou, foram os cuidados que tomamos de sempre estar higienizando os livros para a entrega. Temos todos os cuidados ao fazer o contato com o cliente. Mas a crise, de uma maneira geral, nos deu uma oportunidade, nos afetou positivamente:  passamos a vender mais, entregar mais livros, o que tomou uma proporção exponencial. Nos deu um tempo que não tivemos para focar mais na livraria e trazer mais conteúdo com uma relevância maior. Então, a medida que tivemos mais foco, vimos os resultados chegarem. 

Pablo: Acho que está muito relacionado às pessoas, nessa quarentena, terem ficado mais isoladas com muito tempo ocioso. Como preencher o tempo de ócio que essas pessoas estavam tendo? Obviamente que lendo mais. As pessoas procuraram a leitura como uma forma de se entreter e isso gerou um resultado positivo para a gente.

professor arnaldo fala sobre aulas online

Literatura, aulas remotas e audiovisual: Professor reinventa ensino durante a quarentena

O professor Arnaldo Gomes durante a VI Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2019. Foto: Acervo Pessoal

Durante a pandemia do novo coronavírus, escolas no Brasil e no mundo têm optado pelo ensino à distância. Acostumados com o dia a dia nas salas de aula, professores e alunos são acometidos de bastante estresse no novo cotidiano de trabalhar e estudar de casa. Neste cenário, os docentes vêm buscando alternativas para tornar o ensino mais proveitoso — um deles é o professor Arnaldo Gomes, da rede municipal e privada de Garanhuns, agreste meridional de Pernambuco. Formado em Letras pela Universidade de Pernambuco, ele leciona no Colégio XV de Novembro, onde trabalha o incentivo à leitura, produção e interpretação textual.

A trajetória de Arnaldo com a língua portuguesa não se resume às salas de aula: ele já foi, por duas vezes, finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa (em 2014, na categoria Memórias Literárias, e em 2019, na categoria Crônica). Além disso, no início deste ano, foi um dos 20 professores, de todo o Brasil, selecionados para participar do Geração Futura Educadores, projeto da TV Futura que busca inserir os profissionais da educação no mundo do audiovisual. Em entrevista ao Café Colombo, Arnaldo falou sobre o ensino remoto de literatura, os novos projetos que surgiram neste período e deu dicas de como aperfeiçoar as aulas online.

Atualmente, você desenvolve um projeto literário no Instagram. Como surgiu a ideia dos Stories Literários?

Isso. O projeto nasceu a partir de uma necessidade que eu vi nas turmas, principalmente no 3º ano. Eu vi que os alunos estavam para baixo, muito parados, por não terem aquela visibilidade que os pré-universitários têm na escola. Então pensei: “Preciso fazer algo que envolva a disciplina de interpretação textual e desenvolver uma prática que eles possam ter mais destaque”. Daí surgiram os Stories Literários. Inicialmente, eu propus que eles lessem um trecho e falassem o nome do autor e da obra. Achei que, fazendo esse roteiro, seria mais interessante para chamar o público, o que tem dado muito certo.

Nós temos alcançado um público bem significativo: entre 1000 a 1500 pessoas visualizam estas dicas de livros, nos meus stories e nos perfis do Colégio e da turma. O feedback também tem sido muito legal, as pessoas cobram para que as postagens sejam feitas sempre às 20h, todos os dias — originalmente, seria apenas de segunda a sexta. Depois deste mês, eu pretendo publicar os vídeos das turmas dos primeiros e segundos anos.

Os livros são bem variados, alguns clássicos da literatura, outros mais populares entre os adolescentes atualmente. São os próprios alunos que escolhem os títulos?

Sim, eu não interfiro na escolha dos títulos, apenas dou orientações na filmagem dos vídeos. Eu deixo eles à vontade para escolherem, pois a ideia é que indiquem um livro que marcou a época dos estudos, podendo ser tanto agora, como também, o primeiro livro que eles leram e que possa servir de recomendação aos alunos e às pessoas que estão assistindo. Acho que ver uma pessoa lendo um trecho de alguma obra gera um incentivo à leitura.

Como você enxerga essa diversidade das obras, tanto no projeto como em sala de aula? 

Eu acredito que a sala de aula tenha espaço tanto para os clássicos como para os contemporâneos, mas vai depender de como nós, professores, vamos conduzir isso, principalmente as leituras obrigatórias. Se eu apresento Machado de Assis de uma maneira dinâmica, a leitura se torna fácil e aceita pelos alunos. Por exemplo, ano passado nós lemos Dom Casmurro e A Hora da Estrela. Só que fomos pelo viés do protagonismo feminino na história, e, antes de passar os livros, assistimos os filmes Estrelas Além do Tempo (2016, dir. Theodore Melfi) e Histórias Cruzadas (2011, dir. Tate Taylor). Assim, quando eles já estavam inseridos nessa atmosfera, eu apresentei Macabéa, uma representação feminina diferente e emblemática, e depois Capitu, momento em que eles ficaram curiosos para saber sobre a maior “treta” da literatura.

Já nas aulas online, eu sempre tento criar um espaço para falar de uma obra. Acredito que o professor leitor transforma o aluno também em leitor, então sempre posto foto com livros e dou dicas. Nos últimos dias, estou fazendo uma brincadeira: todo dia, eu tiro uma foto com uma camiseta que remete à literatura e indicando um livro. Acho que essa é uma forma de incentivá-los.

dicas de leitura professor arnaldo

Em seu Instagram, Arnaldo compartilha dicas de livros e os Stories Literários de seus alunos. Foto: Acervo Pessoal

É interessante o uso das redes sociais, já que elas estão muito inseridas no cotidiano dos alunos. Antes da quarentena, você já investia nessa ferramenta?

Eu usava o Facebook, criei uma página chamada Leitura XV, onde divulgava os trabalhos, atividades e as leituras dos alunos, mas nada que destacasse tanto o protagonismo dos meninos, como acontece nos vídeos. E isso vai de encontro com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prega que será por meio do protagonismo que o aluno vai conseguir aprender, bem como tornar significativa aquela aprendizagem.

A sua participação no projeto Geração Futura Educadores contribuiu para o surgimento desses novos projetos?

Sim, o projeto contribuiu bastante com essa visão do uso da tecnologia. No curso, nós trabalhamos a disciplina de Transmídia, onde trabalhamos com diversas plataformas, como Youtube, Instagram e Tiktok, a favor da educação. Inclusive, eu estou preparando um projeto com uma colega do Geração Futura, que é professora do Sesi São Paulo, onde estamos pensando em fazer uma troca cultural e linguística entre nossos alunos por meio de vídeos.

geração futura educadores

Em 2020, Arnaldo participou do Geração Futura Educadores. Foto: Acervo Pessoal

Como você vê que o conhecimento em audiovisual agrega no ensino atualmente?

Ele tem feito toda a diferença para minhas aulas remotas, porque eu tenho visto com um olhar mais diferenciado e repassado algumas coisas para meus alunos e colegas professores. Coisas como o ambiente sem ruído, a iluminação, procurar o melhor ângulo têm feito bastante diferença, tanto para os alunos na hora de gravar os Stories Literários, como para mim, pois tenho me cobrado muito sobre como o aluno está me vendo para que a aula não se torne cansativa. Eu tenho que lembrar sempre de olhar para a câmera, para mostrar para o aluno que estou olhando para eles. Vale ressaltar também que a BNCC vem buscado muito a questão das tecnologias de informação e comunicação, assim, cabe ao professor estar mais bem familiarizado com essas tecnologias para tornar o ensino mais atrativo para o estudante.

Existem muitas dificuldades que professores e alunos estão enfrentando nesse período. Qual a dica que você dá para os professores tornarem as aulas online mais produtivas?

Geralmente, eu peço dicas de livros, filmes e séries para os alunos, pois eu acho que quando você começa a contextualizar o conteúdo com uma série, por exemplo, eles gostam muito. Por exemplo, nós trabalhamos, em interpretação textual, os tipos de interlocutores usando a série Dark. Eu acho que o professor tem que relacionar sempre esse cotidiano do aluno, trazendo o conteúdo para dentro do universo dele, e não o contrário. E procurar movimentar o estudante com atividades mais variadas também, por exemplo: eu pedi para que a turma assistisse ao filme O Menino e o Mundo e procurasse em casa um objeto que represente a infância e, na próxima aula, eles vão contar a história por trás dele. Acho que isso faz toda a diferença quando nós estamos nesse processo de ensino-aprendizagem remoto.

O ser humano e arte captados pelo ‘Terceiro Olho’ de Junitti Julio

Por Dayane Jennifer e Gabriel Vila Nova

Junitti Julio expõe arte em diferentes suportes como capas de cadernos, MDF, telas, tecidos e murais. Foto: Acervo Pessoal

Nesse contexto de pandemia, os olhares das pessoas em geral estão mais atentos para as diversas formas de arte. No caso do trabalho de Junitti Julio, a arte tem percorrido a via oposta desses olhares e percebe o ser humano sobre uma nova perspectiva. Na entrevista, concedida à repórter Dayane Jeniffer e ao colunista Gabriel Vila Nova, o artista visual nos fala um pouco sobre o conjunto de obras assinado e conhecido como Terceiro Olho e quais os efeitos da pandemia no seu trabalho artístico independente.

Como se deu o encontro com as artes visuais?

Este encontro remete um pouco ao meu surgimento, porque minha mãe desde sempre cria arte, artesanato e se sustenta do ofício artístico. Meu eu pai também trabalha com criação. Sempre estive inserido no meio criativo e, quando pequeno, comecei a fazer pulseira, colar ou pinturas para também ter esse retorno financeiro e ajudar na renda da casa. E através  do curso de Design e dos estudos dentro de Artes Visuais, encontrei uma identidade visual que me permitiu  demonstrar o que penso do mundo e debater sobre questões de gênero e  identidade das pessoas. O meu encontro com a arte e processos artísticos aconteceu dentro do processo de me entender enquanto pessoa, da necessidade financeira e de observação do mundo e das pessoas.

Quais são os principais suportes e técnicas características do seu trabalho?

Uma é a one line, na qual o desenho inteiro é feito em um traço só, com a mão firme. Independente do tamanho e do espaço, eu não solto a mão do papel ou qualquer outro material que use como suporte. Outra técnica que utilizo com frequência é o uso de marcadores, permanentes ou para acidez, na criação do desenho. Porque eu acho a fixação muito mais interessante, gosto da textura mais grossa e de certa brutalidade no desenho. Além disso, um suporte que eu gosto de utilizar é o MDF, porque é uma superfície lisa e o desenho da madeira do próprio MDF completam os desenhos e criam uma textura visual interessante.

As técnicas do one line e do traço firme com muita frequência resultam na presença do contorno de rostos e formas de plantas. Como funciona seu  processo criativo e de que forma ele desemboca nessas ilustrações?

Meu processo criativo tem certa influência da minha base familiar. Minha mãe é apaixonada por plantas e minha casa é repleta de plantas de diferentes tipos. Desde sempre gostei de desenhá-las, observar o movimento e crescimento. Busco também estabelecer uma relação entre plantas e pessoas. Inclusive, nos meus desenhos essas plantas servem como apoio para unir as pessoas. Para isso, geralmente desenho raízes que saem de dentro das pessoas ou que estão no corpo delas . Já o  contorno de rostos, que são muito parecidos, surge do meu gosto de explorar a questão do gênero.  Eu nunca desenho homens e mulheres, eu desenho pessoas, e só. E mais recentemente venho sentindo a necessidade de levantar uma grande bandeira, que é a bandeira LGBTQIA+. Eu sou uma pessoa LGBT e pensei em fazer um trabalho direcionado para as pessoas sentirem exatamente o tipo de trabalho que estou fazendo.

Obra Florescer, que integra o conjunto de criações de Junitti Assinado como Terceiro Olho. Foto: Acervo pessoal

Quais são as tuas principais referências e inspirações nas artes visuais?

Tem dois artistas pernambucanos cujos trabalhos me abraçam de uma forma totalmente diferente e inspiradora. Uma é Samuel de Saboia, um artista recifense gigantesco e maravilhoso. Com uma história muito inspiradora também, porque ele veio da periferia e hoje em dia aparece na capa da Vogue. E Mario Bros que é muralista e faz um trabalho incrível também.

Fora do campo da arte visual, existem outros artistas ou vertentes artísticas que também influenciam no seu trabalho?

Tem um artista que muito me inspira e que, além de DJ e performer, tem todo um trabalho dentro da sua existência também, que é Samuel Caleb. Mas a música também me inspira muito. Eu não consigo criar sem ter um aparato musical próximo. Acho que todas as minhas ilustrações  acabam tendo músicas, frases e letras por trás. Músicas brasileiras acabam me inspirando muito também. Entre algumas bandas que posso destacar estão Boogarins, Glue Trip, os Mutantes, Os Titãs, Gal Costa e Caetano.

Como foi esse processo de transformar a tua arte autoral em uma marca que te desse um retorno financeiro?

Tudo começou com a Alterna Store, um empreendimento no qual eu não tinha ideia que iria se transformar em uma marca de fato, pois no momento eu só precisava vender alguma coisa devido à mudança para Caruaru e à consequente necessidade de ganhar dinheiro. A partir da Alterna Store, eu comecei a costurar cadernos e a desenhar nas capas o que amigos e demais pessoas pediam. 

E como surgiu a marca Terceiro Olho?

Durante esse processo da Alterna Store, eu conheci o trabalho de Samuel de Saboia. E eu achei sensacional a ideia desse traço one line e da lineart em que tudo se conecta dentro do desenho. A partir dele surgiu essa ideia de começar a fazer um trabalho parecido e a pensar em algo novo. Ao observar os meus desenhos, com milhares de olhos, e refletir que falamos e nos expressamos muito com os olhos veio a ideia do nome Terceiro Olho. Além disso, tem uma frase que eu sempre deixo em alguns desenhos que é “feche os seus olhos, abra sua mente”. E Terceiro Olho é exatamente isso: a abertura de um novo olho, de uma nova perspectiva, de uma nova visão sobre o mundo e as pessoas.

Como a pandemia modificou o teu processo criativo?

Eu me inspiro muito nas pessoas, na rota que eu faço até a faculdade, em caminhar e em andar de ônibus. Acredito que os meus melhores desenhos surgiram no caminho que eu vou do estágio para a faculdade, porque eu sempre tô com um caderninho junto. A pandemia modificou todo o processo criativo, agora eu tenho que produzir tudo dentro de casa, em quatro paredes. 

E quais as consequências da pandemia no rendimento financeiro e na forma de vender o teu trabalho? 

Fui prejudicado financeiramente porque a faculdade era um grande local de vendas. Eu  sempre fazia exposições dos meus trabalhos em feirinhas, divulgava em sala, levava e apresentava alguns modelos. De certa forma, eu acabei sendo prejudicado. Mas, por outro ângulo, nesse momento surgiu o site da Terceiro Olho e envios para todo o Brasil. Inclusive, no mês passado,  envios para São Paulo e Rio de Janeiro, coisa que nunca havia acontecido. Além disso, eu sou de Arcoverde e tenho um background familiar que é totalmente formado por pessoas que trabalham com arte, mas que vendem localmente. De repente ver seu trabalho indo para outros estados, ver pessoas de outros países perguntando qual o valor do frete, elogiando e perguntando sobre a possibilidade de envio, é muito gratificante.

Estamos Vivos: O grito autobiográfico de Isabela Moraes

Por Sarah Coutinho e Dyego Mendes


Ensaio produzido produzido para o disco de Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Os editores do Café Colombo, Sarah Coutinho e Dyego Mendes realizaram uma entrevista com a cantora e compositora pernambucana Isabela Moraes que lançou no dia 22 de maio, o seu primeiro disco “Estamos Vivos”. Com um misto de incertezas ocasionados pela quarentena e a poesia nos versos que revelam suas vivências, Isabela descreve com certeza os caminhos que a trouxeram até aqui e os sentimentos envoltos pela arte que a acompanha desde a infância. Confira: 

Como foi seu processo enquanto artista? 

Eu comecei a escrever quando aprendi a ler. Tinha curiosidade e muita sede pela leitura. Sempre fui muito apaixonada. Tenho uma lembrança do dia que juntei as palavras e aprendi a formá-las. Meu pai também colecionava livros de literatura de cordel. Esses livrinhos de literatura de cordel foram as minhas primeiras diversões na leitura, eu me viciei neles. Quando a gente lê uma poesia, automaticamente, cantamos ela. Você lê porque ela rima, há uma melodiazinha ali. Eu acredito que de tanto ler esses livrinhos, meu cérebro começou a fazer música. Escrevendo as minhas canções, meus primeiros exercícios — que eu chamo de exercício — , percebo que é algo que vou exercitar até o fim da minha vida. Criei o meu mundo dentro do meu quarto através da escrita. Um mundo paralelo onde eu era totalmente livre. 

Antes da música, houve outra área que te interessava? 

Eu dizia que queria ser jornalista ou psicóloga, sempre falava essas coisas. Entrei depois na faculdade de jornalismo em Recife, e fui tentando levar esse sonho adiante até que a música me fisgou. Eu comecei ensaiando em bandas de garagem e me apaixonava cada vez mais. Eu era muito tímida e não tinha coragem de botar minha cara para cantar, dizer que era cantora. Só que nesses ensaios, as coisas foram ficando mais sérias. Tinha 16 anos, quando recebi um convite profissional para começar a cantar numa banda de baile. Meu irmão me acompanhava sempre. Até que da banda de baile, eu saí e fui fazer com uns dos componentes dessa banda voz e violão. Nessa época, fui inserindo minhas composições para ver se as pessoas se identificavam com minhas músicas. 

Como foi o processo de sair da área do jornalismo para a música?

Eu comecei a fazer música que era algo que já vinha fugindo. Fui me apaixonando, me entregando cada vez mais, e vendo que era isso que me tomava por inteira. Eu tinha 18 anos quando recebi um convite para cantar nos Emirados Árabes e foi meu primeiro emprego recebendo. Voltando dos Emirados, fiquei em Recife durante 15 anos e não voltei mais à Caruaru. Em Recife, fazia a faculdade e cantava à noite. Fiz muitos shows em Recife, rodando por Pernambuco. Os professores foram tomando conhecimento dos motivos das minhas faltas, começaram a ir aos meus shows, e perdoavam. Conversei com a minha mãe sobre me entregar inteiramente para música e ela não concordou  na época. E não é que estudando, você não pode cantar, mas eu decidi me entregar a música como quem se entrega ao vestibular, a uma faculdade da vida. 

Como foi a experiência em São Paulo? Expandiu os horizontes? 

Fui para São Paulo com a intenção de passar duas semanas e passei 7 anos. Conheci muitos produtores, inclusive, os meus que são os mesmos de Almério, Tadeu e Andrea. Ele também foi a São Paulo, passou alguns meses morando comigo, gravou o disco dele e músicas minhas. Nesses tempos, conheci Mariana Aydar, que gravou músicas minhas e Dani Black. Fiz vários projetos por lá e abri algumas portas maravilhosas. Fui galgando esses espaços através da batalha árdua do dia a dia. Sou muito apaixonada por essa coragem e esse ímpeto que me deu. Agradeço demais a essa luz divina e ao sofrimento que me permitiu ir à cidade; Também passei por festivais em São Paulo que me amadureceram muito como intérprete porque eu sempre valorizei muito mais esse meu lado compositora, por ter isso comigo desde criança. Nunca tinha participado de festivais, não gosto da competitividade, acho que na música você não precisa dizer quem é melhor. Tem gosto para tudo no mundo.  

Como foi lançar um disco durante nesse período de isolamento social atravessado por tantas incertezas?

Na verdade, o disco estava sendo programado para ser lançado com todo calor humano possível, como sempre foi. Está sendo um desafio lançar o disco em plena pandemia, é tudo muito incerto. Mas eu confesso que tem sido uma fase muito boa para mim. Porque esse disco chegou nesse momento tão angustiante, e medo para a gente. Eu costumo dizer que as minhas palavras voltaram pra mim no momento que eu mais precisava delas. As entrevistas, a correria do disco estão me salvando. Me ocupam de uma maneira muito gostosa e eu espero que o disco esteja fazendo o mesmo bem para as pessoas que estejam ouvindo ele. Mas há o outro lado das coisas. O disco fala sobre esses assuntos essenciais da vida como a gente sentir o agora, celebrar, viver sem medo, dizer que ama, não esperar o amanhã porque vem um momento como esses e nos pega de surpresa. O título “Estamos Vivos” não é por um acaso. Eu já vinha brindado nos shows e pedindo que as pessoas não tivessem medo de viver com tudo que elas são. E sempre tirava um momento do show pra gente gritar “Viva, estamos vivos!”. Eu tô muito feliz e muito apaixonada pelo meu disco. 

Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Como se deu o processo de produção das músicas do disco?

Pouquíssimas canções são recentes. A maioria já caminha comigo ao longo dos anos nos shows ao vivo. Eu sempre fui uma pessoa muito do ao vivo, do aqui e agora. Como também sou compositora, gosto que outros artistas gravem minhas canções. Eu não tinha nenhuma ambição sobre o disco, sempre me realizei muito através de outras pessoas gravando minhas composições. São músicas com as quais eu já tenho grande intimidade. Escrevi essas canções no período em que morei em São Paulo. São canções que estão comigo há muito tempo. A maioria são autobiográficas, pouquíssimas coisas eu invento, grande parte são vivências mesmo. Naturalmente, algumas se tornaram mais íntimas minhas e, por isso, foram escolhidas para compor o disco. 

Como está sendo a divulgação do álbum?

Nós temos a assessoria da gravadora que é encarregada dessa parte. Eles contactam as pessoas, artistas e a impressa. É uma equipe grande, que é bem diferente da maneira com a qual eu vinha trabalhando, porque até então eu era uma artista independente. Por mais que tenha mudado a lógica da gravadora no Brasil, você continua sendo independente, mas se tem toda uma equipe que dá todo um aparato para que se consiga ir mais longe. Então, a gravadora tem esse papel. Eu fico muito aliviada porque foram 22 anos de carreira independente e agora eu consigo me preocupar com outras coisas, como ensaios, lives e outros processos, enquanto o pessoal cuida da parte de divulgação. Atualmente, eu conto a equipe da gravadora DeckDisc e meus produtores, Tadeu Gondim e André Brasileiro, que cuidam desse trabalho com tanto esmero. “Estamos Vivos” está em todas plataformas digitais e onde eles podem galgar espaço para o disco, eles o fazem com afinco e de maneira muito sábia. 

Tem previsão de alguma coisa para além das plataformas digitais?

Por enquanto é isso. Não sabemos quanto vai durar essa crise, então continuaremos pelas vias digitais. O show de estreia do disco ia ser no Teatro Santa Isabel, em Recife. Eu tinha ficado muito feliz com essa possibilidade tão desafiadora e ao mesmo tempo excitante, mas continua sendo desafiador e excitante, só que de outra forma. Vêm novidades por aí, os clipes de quarentena que estamos produzindo são uma delas. No São João, sairá o primeiro deles. É da canção “Do Contra” e também estamos trabalhando no faixa a faixa do disco que vai sair em breve. Mudou a forma, mas continuamos trabalhando bastante.

Atualmente você está morando em Caruaru?

Assim que soube da pandemia, eu corri para cá. Eu sou nascida e criada em Caruaru. É um lugar no qual me sinto segura. Minha família mora aqui, minha mãe, minha vó. Quando soube do isolamento, pensei: vou para o meu porto seguro. Eu tenho uma casa aqui, que é meu descanso, minha parada. A mente precisa desse lugar para dar vasão à escrita e, algumas vezes, apenas ao descanso. 

Além da pandemia que estamos vivenciando, soma-se a ela uma crise política. Com relação à classe artística e aos incentivos, qual tem sido a repercussão disso tudo?

Desde antes da pandemia, a classe artística já vinha sendo bastante prejudicada pelo Governo atual. Já havia um movimento de boicote à música, teatro, cinema e às artes plásticas que é anterior à Covid-19. Esse processo apenas foi intensificado. O Governo não tem intenção nenhuma de apoiar as artes no geral. O que tem acontecido são movimentos paralelos ao Governo. Os próprios artistas estão se juntando e se apoiando. Eu faço parte de um projeto lindo chamado Ágora Sonora. São lives que acontecem através da plataforma Zoom, nas quais as pessoas contribuem comprando seu ingresso para assistir ao show de um determinado artista. A iniciativa é encabeçada pela produtora e amiga querida Twilla Barbosa. Esse projeto tem salvado muitos artistas. Nós temos recebido muito mais do que recebíamos antes da pandemia. Claro que se tivéssemos apoio governamental seria muito mais fácil, mas, se esperarmos por ele, morremos de fome. É isso que tem acontecido. São esses projetos que os próprios artistas e produtores têm inventando para ajudarem a si mesmos e ajudarem os colegas que viabilizarão o enfrentamento dessa crise política.  

As miudezas da poesia solar de Ágnes Souza

Por Anna Clara Oliveira e Luiz Ribeiro

“Quantas vidas me couber, amar uma mulher” diz o poema que inicia a segunda obra da poetisa pernambucana

A poetisa Ágnes Souza. Foto: Fernanda Valente/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com a poetisa pernambucana Ágnes Souza, que lançou recentemente o livro de poesia “Pouso”. Ela nos contou sobre o processo evolutivo da sua carreira enquanto mulher lésbica e poetisa, e sobre o processo de evolução da sua escrita, que tem se modificado desde a publicação do seu primeiro livro “Re-cordis”(2016), além de falar sobre suas inspirações enquanto artista. Ágnes ainda relatou a experiência de publicar um trabalho poético no contexto da atual pandemia. Confira:


Como tem sido sua trajetória enquanto mulher LGBT e poetisa, e quando você se descobriu como tal? 

Eu sempre fui uma criança muito quieta. E lia muito. Meu pai é professor de português e durante a minha infância, nos anos 1990, ele recebia muitas coleções. E esses processos andaram juntos, mas para inserir essa temática na minha escrita demorou um pouco, porque eu tinha muita insegurança. Meu primeiro livro, é um livro muito neutro. Se vocês sairem procurando gênero ali, não vão encontrar muita coisa. Mas acho que isso foi muito do meu processo de amadurecimento como pessoa, como artista também, esse processo de entender a minha sexualidade, de entender como isso influenciava as minhas pesquisas, as minhas leituras.

Como se deu o processo criativo e a história de “Pouso”? O que mudou do seu último trabalho para ele?

Desde o processo de edição do primeiro livro, que se chama “Re-cordis”, eu estava escrevendo muito, e chegou um momento em que não dava mais para entrar esse material. Já não se comunicava mais com o primeiro livro. Fui guardando, amadurecendo os poemas, e deixando um pouquinho na gaveta para ver como eles funcionariam. Acredito que em meados de 2018, fui atrás da mesma editora que lançou meu primeiro livro. É uma editora independente chamada Moinhos, de Belo Horizonte. Ele participou de um financiamento coletivo para ser editado. Mas isso de ir atrás de editora foi um percurso árduo. Hoje, encontramos mais editoras independentes, do que na época em que lancei meu primeiro trabalho, em 2016. Muita coisa já mudou, essa é a maior diferença: encontrarmos, hoje em dia, editoras mais abertas a publicarem pessoas desconhecidas. Enquanto ao meu processo, eu sento, escrevo, repito aquilo na cabeça às vezes no banho. Não tem nada teórico e metódico por trás. Fui só respeitando esse processo de como as coisas vinham.

Livro “Pouso”, publicado pela editora Moinho, em 2020. Foto: Divulgação/ Facebook.

Quais são suas principais inspirações enquanto artista? Você menciona muito o “infraordinário”, termo utilizado pela escritora Marília Garcia. O quanto ele ajudou a moldar a forma final de “Pouso? 

As inspirações de “Pouso” vêm de dois lados. Vem do meu lado leitora, porque eu leio muita poesia, mas também veio das pessoas da rua, do meu andar na rua. Na época que eu estava escrevendo “Pouso”, morava no centro do Recife, na Boa Vista. Ouvia muito as pessoas conversando, passeava muito por praças. Pegava uma coisa aqui, outra ali. Esse conceito de “infraordinário”, de Marília Garcia, está nos seus livros “Parque das Ruínas” (2019), e o “Câmera Lenta” (2017), em que ambos  falam sobre o cotidiano. Não encontraremos temáticas absurdas, de momentos históricos, de coisas pontuais, mas veremos  esses detalhes do dia a dia; justamente o conceito do “infraordinário”. Na minha escrita sempre coloquei isso, mesmo não tendo conhecimento sobre esse conceito. Juntei o que eu já tinha descoberto, através de Marília Garcia. Mas fora ela tem poetas como Angélica Freitas, Júlia de Carvalho Hansen, Simone Brantes, a portuguesa, Matilde Campilho, além de outros autores, como Valter Hugo Mãe, Victor Heringer, pessoas que se a gente parar para pensar um pouquinho, sempre tem essa coisa do cotidiano, essa coisa das miudezas, no que eles escrevem. 

Como é lançar um trabalho poético no contexto da pandemia?

Várias crises. Eu tive várias questões porque, no nosso cronograma com a editora, o livro sairia próximo ao dia 18 de abril, mas veio a pandemia. A responsabilidade de não colocar ninguém em risco. A vantagem é que eu não tenho experiência com editora grande, mas a minha experiência com editora pequena é essa liberdade que eles nos dão para escolher. Meu editor me perguntou se eu queria aguardar ou se eu queria lançar. Eu passei horas pensando. O livro já estava na pré-venda. Tinham pessoas que haviam comprado. Não achei legal deixar essas pessoas esperando tanto. Como a gente não tem previsão de nada, eu optei lançar por uma live, mas morrendo de medo, pela falta de experiência. Eu sou professora, sou acostumada a falar, mas falar em frente a uma câmera, foi algo novo. Foi um susto, como tudo o que tem aparecido, porque tudo tem sido novidade, mas que também trouxe surpresas positivas para o meu trabalho, que é esse contato que eu nunca imaginei, como vocês.

No poema “Há umas semanas eu queria ter 30 anos”, você menciona os múltiplos estados de espírito a partir das idades. Várias escritoras e poetisas se debruçaram sobre o processo de velhice, aludindo ao chamado “memento mori”, seja ela uma morte literal ou figurativa. Como você enxerga esse processo nas artes?

Eu sempre gostei muito de música, de peças de teatro, de livros, que tragam um pouco a gente para a realidade. Tem muita coisa acontecendo no mundo. Tudo é muito efêmero. Claro que não podemos se apegar a coisa da finitude, senão adoecemos. Você precisa trabalhar com esses vários lados da moeda. Alguns poemas têm um teor mais negativo, e de alguma forma eu tento enxergar uma beleza naquilo, ou vice-versa. Tem uma coisa muito positiva, mas que também tem esse lado mais melancólico. Eu acho que “Pouso” caminha por esses dois lados: tem poemas muito apaixonados, muito positivos, muito solares, a coisa do exterior, de amar alguém, de observar alguém, mas também tem muita coisa sobre despedida, finitude, sobre as marcas, sejam elas físicas ou  emocionais. São coisas que eu gosto de ver e que eu trago para o que eu faço, de alguma forma.

‘O barato sempre é pesado’

Por Anna Clara, Luiz Ribeiro e Sarah Coutinho


Foto realizada para o disco “Coruja Muda”, lançado em 2019. Foto: José de Holanda/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com o cantor e compositor Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, popularmente conhecido por Siba. Com oito álbuns lançados, entre eles, “Fuloresta do Samba”, em 2002; “Coruja Muda”, 2019; “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”, em 2007, e “Avante”, em 2012. Ele nos contou sobre as incertezas do futuro em razão da pandemia, seus processos criativos, os impasses ainda existentes quando falamos sobre moderno e popular, além das suas perspectivas sobre os futuros projetos. Siba ainda soltou o verbo sobre as questões que caracterizam a transformação do mercado musical desde o início da sua carreira. Confira: 


Como funciona seu processo criativo? Nesse período de isolamento social, esse processo se tornou mais fluído ou está mais difícil? O barato continua pesado?

É difícil falar sobre como funciona o processo criativo porque não é uma coisa puramente criativa ou linear, ou algo em que se possa descrever passos. De modo geral, eu coleciono fragmentos que não são necessariamente aleatórios porque são ideias que aparecem ao longo do dia, de qualquer situação, ou mesmo de questões que eu estou tentando pensar. A partir desse momento, eu vou juntando esses pedaços. Tanto posso começar pelo texto quanto por uma ideia musical, mas já pressupondo, de algum modo, o espaço específico do texto na música. E aí chega o momento em que as coisas vão se juntando – geralmente tem que forçar uma “barrinha”, senão também nunca sai. A quarentena não trouxe para mim nenhum tipo de benefício, porque concentrou as tarefas domésticas com filhos e casa no mesmo espaço do trabalho. Fora a tensão ao redor, com as questões políticas no presente e a incerteza do futuro. Tudo isso não ajuda muito, porém tento me manter criativo mesmo assim. Mas o barato sempre é pesado!

O seu lançamento mais recente é Coruja Muda. Desde os tempos de Mestre Ambrósio, passando pela Fuloresta, até a carreira solo, como você enxerga as mudanças no mercado musical que consome e produz o moderno e o popular? 

Essa contraposição entre moderno e popular está equivocada desde o começo. Ela já determina de antemão que o popular é o passado e o moderno, o presente. Esse é o paradigma que nós devemos quebrar. É cansativo estar falando sempre sobre isso. Mas é a força do senso comum, que coloca essa porteira fechada a tudo que é popular. O mercado tem mudado. Quando comecei, ele praticamente não existia. Não havia uma perspectiva de mercado para o que a gente faz. Depois, com o Manguebeat, se abriu um tipo de mercado que nunca foi totalmente sustentável, sempre precisou de um subterfúgio como políticas públicas ou políticas institucionais. Mas mudou. Com a internet houve uma nova mudança. Agora, com a nova situação política e com a pandemia, ele muda novamente. Mas eu venho de um começo tão sem perspectiva que, por mais que assuste, é como se não assustasse.

Quais são os próximos projetos daqui pra frente? 

O projeto atual é sobreviver. Eu lancei um disco ano passado, que parece ter tido a vida “ao vivo” dele encurtada. Não há perspectiva de fazer um show com uma banda no palco nem tão cedo, não sabemos quando haverá isso novamente e quando houver em que tamanho vai ser possível. Tá tudo muito suspenso. Eu tenho escrito, tenho tentando me manter criativo, ensaio ideias de formatos diferentes, mas ainda é muito cedo para falar, até pelo próprio contexto que não permite que muita viagem seja concretizada em curto prazo. Agora, para mim, é muito mais um tempo de cuidados para poder escapar vivo. E aproveitar as oportunidades que aparecem, mas sabendo que este é um momento suspenso que necessita ser ultrapassado.

Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia: humor e crítica em nova edição da Radionovela

Por Dayane Jeniffer e Thamara Amorim

As ilustrações das capas dos episódios da Radionovela são produzidas pela estudante de Design Emilly Monteiro e pela aluna de Comunicação Social Cecília Tavora. Foto: Divulgação/Instagram da Radionovela

Um anúncio de rádio avisa que, em 72 horas, o Capitão Covid chega à cidadezinha de Taperoá, deixando o município inteiro em polvorosa: o Capitão já aterroriza as redondezas e alveja especialmente os idosos. A única forma de proteção contra suas malfeitorias é lavar bem as mãos com sabão e não sair de casa. Mas será que os tapeiroenses respeitarão as regras de higiene e isolamento social, decorrentes da chegada do Capitão? A cidadezinha de João Grilo e Chicó está para enfrentar a pandemia do coronavírus na radionovela produzida pelos alunos da Universidade Federal de Pernambuco do Centro do Agreste e, nossos conhecidos personagens das telas e dos livros, terão que lidar com um problema sanitário que tem muito de humano e, aparentemente, de cangaceiro.

O projeto de extensão ”Radionovela: literatura nas ondas do rádio”, visa adaptar obras literárias exigidas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e por Vestibulares, além de ajudar a ampliar o consumo de obras literárias para o público cego. Inspirada na pandemia do novo coronavírus, a Radionovela lança uma nova edição: ”Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, adicionando ao popular cenário de Suassuna, questões bastante atuais, tais como, fake news e os dilemas da economia diante do isolamento social e do desemprego. O programa conta com oito episódios disponíveis no Spotify.

Na entrevista, a professora e coordenadora do projeto Giovana Mesquita e o aluno, roteirista e idealizador Gabriel Pedroza, nos contam sobre os desafios, características e inspirações da adaptação.


Como surgiu o projeto da Radionovela?

Gabriel: A Radionovela surgiu na disciplina Oficina de Texto, no primeiro período do  curso de Comunicação Social. A ideia nasceu da minha paixão por telenovela. Eu resolvi adaptar o primeiro capítulo do livro “Senhora”, de José de Alencar, com mais três estudantes, e apresentamos o projeto. A professora e orientadora Giovana Mesquita propôs que ele se transformasse em um projeto de extensão. Nosso objetivo é adaptar livros de autores nordestinos da literatura brasileira em formato de radionovela. E levar de maneira didática esse material para aos estudantes que vão prestar Enem e Vestibular.

Qual a importância desse projeto feito por estudantes da universidade pública?

Gabriel: Isso mostra que a universidade pública não para, mesmo em uma pandemia. O projeto ganha mais força e gás por ser  formado por alunos e pelas professoras Giovana Mesquita e Sheila Borges. Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Como surgiu a adaptação da obra de Ariano Suassuna? Por que não outra?

Giovana: Escolhemos Ariano por conta da atualidade de sua obra. Nessa adaptação “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, nós trouxemos a crítica de Ariano, presente na obra original, para incluir questões que precisamos lidar nesse momento de pandemia. Como desinformação, fake news e interesses econômicos, por exemplo.

Por que a escolha de adaptar o livro, ao invés de usar a obra original de maneira integral?

Gabriel: Nós quisemos fazer uma história ficcional, com personagens característicos de Ariano, porém com o pé na realidade. A gente trouxe o contexto do autoritarismo do Major Antônio Moraes, por exemplo, inspirado em alguns governantes que estão à  frente do combate da pandemia no mundo.

Professora Giovanna Mesquita e o aluno de Comunicação Social Gabriel Pedroza. Foto: Acervo pessoal

Como está sendo produzir a Radionovela com as limitações em decorrência do isolamento social?

Giovana: É um desafio que tem sido resolvido brilhantemente pelos estudantes de Comunicação Social e Design. Eles estão produzindo o programa em casa. Os alunos gravam no celular e mandam. Tem sido um trabalho muito colaborativo.  É um processo de esforço técnico redobrado, mas que tem sido muito interessante. 

A Radionovela foi um produto muito consumido durante a Era do Ouro do rádio, entre as décadas de 1920 e 1930. Como fazer esse projeto ainda ser algo interessante em ser ouvido?

Giovana: O segredo para a radionovela ainda ser um programa ouvido é tentar trazer para a realidade dos jovens. Então, a gente aposta na interatividade pelas redes sociais, para receber o retorno e chamar atenção do público. 














João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Cin3filia: O mundo nerd no interior do Nordeste

Conversamos com João Soares, criador da página que já alcança mais de 145 mil seguidores de todo o país


João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Criado em 2015 como uma página sobre cinema, séries e cultura pop no Instagram, o Cin3filia cresceu e agregou site, eventos e reconhecimento rapidamente: em apenas 5 anos, já conta com 147 mil seguidores na rede social, além de colaboradores em  todo o país. João Soares conta sobre as experiências, os desafios e os próximos passos do projeto em uma conversa que você pode conferir completa aqui e também assistir no Instagram do Café Colombo.


Como é ter um site voltado para o cinema e a cultura geek no Agreste pernambucano?

Às vezes, as pessoas não  sabem que o Cin3filia está em Pernambuco, no interior, porque não abordamos tanto conteúdos locais. Culturalmente, o Brasil tem uma aversão grande ao cinema nacional, mas nós temos um grande amor pelo cinema pernambucano. Quando filmes como Bacurau (2019, dir. Kleber Mendonça Filho) alcançam muito sucesso, nós conseguimos abordar esse conteúdo. Mas como o Cin3filia já nasceu com a proposta de falar sobre todo tipo de cinema, ele acabou atingindo mais o cinema de Hollywood. Toda semana nós falamos sobre estreias, e isso direcionou o público às produções maiores. Mas também temos espaço para falar sobre cinema pernambucano e queremos investir em alguns projetos voltados a esse assunto.

Existe uma cobrança para que o site fale mais do cinema nacional e pernambucano?

Não temos uma cobrança muito grande no Cin3filia nesse sentido. Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar. Fizemos uma postagem muito legal falando sobre O Auto da Compadecida  (2000, dir. Guel Arraes) na época que houve a remasterização e a reexibição na Rede Globo e choveram comentários positivos sobre o cinema brasileiro. Só que, quando falamos sobre filmes que estão em circuito como Divino Amor (2019, dir. Gabriel Mascaro) e Bacurau, não conseguimos ter um movimento tão positivo quanto em filmes consagrados. O público local demonstra mais interesse, mas precisamos pautar o conteúdo relativo ao alcance. Entre produzirmos  um conteúdo que vai alcançar 10 mil pessoas e um conteúdo que vai alcançar 50 mil, a gente vai produzir o que vai alcançar 50 mil.

Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar.

O que você acha que falta para poder abordar o cinema brasileiro? É uma escolha do público ou a falta de conteúdo sobre o tema?

Eu acho que tem os dois lados, o do veículo produzir muito conteúdo seguindo a demanda, mas também de não oferecermos algo além do que o público poderia receber. É como se precisássemos forçar esses temas para que a galera também consuma, porque se nós não oferecemos, não vai surgir demanda. É um ciclo vicioso. Se nós falássemos sempre sobre cinema brasileiro, com certeza iríamos atingir um público e conseguiríamos criar um conteúdo mais focado para ele. Mas é complicado precisar trabalhar com o algoritmo do Instagram, que a gente precisa sempre oferecer um conteúdo que todo mundo quer ver, e não só o que um nicho quer ver.

Como funciona a distribuição da publicidade? Ser uma página do interior de Pernambuco dificulta o processo?

Para ter acesso às distribuidoras no Nordeste, a ação é terceirizada. Se as elas têm alguma ação, entram em contato primeiro com essa agências de marketing e só depois com a gente. Em São Paulo, que é onde estão concentradas as distribuidoras, existem dezenas de agências que vão entrar em contato com influenciadores específicos que têm a ver com esse tipo de conteúdo. E é por isso que nós temos um representante em São Paulo, porque se ficarmos limitados a esse contato indireto, não conseguimos acesso, porque é realmente fechado naquele circuito São Paulo-Rio.

Equipe do site na Sessão Cin3filia do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam, realizada em Caruaru, 2016.
Foto: Sarah Teodósio

Como funciona a Sessão Cin3filia? Vocês pretendem expandir o evento para outras cidades, além de Caruaru?

A Sessão Cin3filia foi um das ações que a gente fez pra tentar regionalizar o Cin3filia, fazer com que ele atinja o público local com um conteúdo global. A intenção é produzir uma experiência diferente no cinema para os fãs, então nós trazemos cosplayers, produzimos os brindes, os quizzes. Gostamos muito de imergir no universo do fã e dos filmes que nós vamos conversar sobre. Temos vontade de expandir o evento, trazer cada vez mais para o interior, ir para Vitória, para Petrolina, mas é realmente bem complicado para levar cultura no geral, se deslocar e mobilizar cidades que não conhecemos. Por mais que o interior seja bem homogêneo no imaginário da galera, cada lugar funciona de uma forma, principalmente quando se trata de publicidade para divulgar essas sessões, além de questões legais. 

Quais serão os próximos passos do Cin3filia? Tem algum planejamento para o Agreste?

Nós queremos entrar no YouTube e produzir conteúdo, esse é o próximo passo do Cin3filia. Vamos entrar de cabeça e procurar sempre produzir e interagir por lá. Quando se fala nos próximos passos para o Agreste, pensamos em eventos e experiências. Nós vamos sempre pra CCXP em São Paulo, que é o maior evento de entretenimento nerd do mundo, e adoraríamos ter algo semelhante aqui. Então não importa se em Caruaru, Petrolina ou outras cidades da região, queremos montar eventos que entreguem essas experiências, que foquem nessa questão de filmes, séries, interação, brincadeiras. A ideia é que, junto com parceiros da região, a gente consiga produzir sempre esse tipo de evento e atingir os fãs.