Entrevistas

Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia: humor e crítica em nova edição da Radionovela

Por Dayane Jeniffer e Thamara Amorim

As ilustrações das capas dos episódios da Radionovela são produzidas pela estudante de Design Emilly Monteiro e pela aluna de Comunicação Social Cecília Tavora. Foto: Divulgação/Instagram da Radionovela

Um anúncio de rádio avisa que, em 72 horas, o Capitão Covid chega à cidadezinha de Taperoá, deixando o município inteiro em polvorosa: o Capitão já aterroriza as redondezas e alveja especialmente os idosos. A única forma de proteção contra suas malfeitorias é lavar bem as mãos com sabão e não sair de casa. Mas será que os tapeiroenses respeitarão as regras de higiene e isolamento social, decorrentes da chegada do Capitão? A cidadezinha de João Grilo e Chicó está para enfrentar a pandemia do coronavírus na radionovela produzida pelos alunos da Universidade Federal de Pernambuco do Centro do Agreste e, nossos conhecidos personagens das telas e dos livros, terão que lidar com um problema sanitário que tem muito de humano e, aparentemente, de cangaceiro.

O projeto de extensão ”Radionovela: literatura nas ondas do rádio”, visa adaptar obras literárias exigidas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e por Vestibulares, além de ajudar a ampliar o consumo de obras literárias para o público cego. Inspirada na pandemia do novo coronavírus, a Radionovela lança uma nova edição: ”Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, adicionando ao popular cenário de Suassuna, questões bastante atuais, tais como, fake news e os dilemas da economia diante do isolamento social e do desemprego. O programa conta com oito episódios disponíveis no Spotify.

Na entrevista, a professora e coordenadora do projeto Giovana Mesquita e o aluno, roteirista e idealizador Gabriel Pedroza, nos contam sobre os desafios, características e inspirações da adaptação.


Como surgiu o projeto da Radionovela?

Gabriel: A Radionovela surgiu na disciplina Oficina de Texto, no primeiro período do  curso de Comunicação Social. A ideia nasceu da minha paixão por telenovela. Eu resolvi adaptar o primeiro capítulo do livro “Senhora”, de José de Alencar, com mais três estudantes, e apresentamos o projeto. A professora e orientadora Giovana Mesquita propôs que ele se transformasse em um projeto de extensão. Nosso objetivo é adaptar livros de autores nordestinos da literatura brasileira em formato de radionovela. E levar de maneira didática esse material para aos estudantes que vão prestar Enem e Vestibular.

Qual a importância desse projeto feito por estudantes da universidade pública?

Gabriel: Isso mostra que a universidade pública não para, mesmo em uma pandemia. O projeto ganha mais força e gás por ser  formado por alunos e pelas professoras Giovana Mesquita e Sheila Borges. Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Enquanto estudantes de graduação, mostramos para os jovens que a universidade pública nos dá a possibilidade de produzir bons conteúdos.

Como surgiu a adaptação da obra de Ariano Suassuna? Por que não outra?

Giovana: Escolhemos Ariano por conta da atualidade de sua obra. Nessa adaptação “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, nós trouxemos a crítica de Ariano, presente na obra original, para incluir questões que precisamos lidar nesse momento de pandemia. Como desinformação, fake news e interesses econômicos, por exemplo.

Por que a escolha de adaptar o livro, ao invés de usar a obra original de maneira integral?

Gabriel: Nós quisemos fazer uma história ficcional, com personagens característicos de Ariano, porém com o pé na realidade. A gente trouxe o contexto do autoritarismo do Major Antônio Moraes, por exemplo, inspirado em alguns governantes que estão à  frente do combate da pandemia no mundo.

Professora Giovanna Mesquita e o aluno de Comunicação Social Gabriel Pedroza. Foto: Acervo pessoal

Como está sendo produzir a Radionovela com as limitações em decorrência do isolamento social?

Giovana: É um desafio que tem sido resolvido brilhantemente pelos estudantes de Comunicação Social e Design. Eles estão produzindo o programa em casa. Os alunos gravam no celular e mandam. Tem sido um trabalho muito colaborativo.  É um processo de esforço técnico redobrado, mas que tem sido muito interessante. 

A Radionovela foi um produto muito consumido durante a Era do Ouro do rádio, entre as décadas de 1920 e 1930. Como fazer esse projeto ainda ser algo interessante em ser ouvido?

Giovana: O segredo para a radionovela ainda ser um programa ouvido é tentar trazer para a realidade dos jovens. Então, a gente aposta na interatividade pelas redes sociais, para receber o retorno e chamar atenção do público. 














João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Cin3filia: O mundo nerd no interior do Nordeste

Conversamos com João Soares, criador da página que já alcança mais de 145 mil seguidores de todo o país


João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

João Soares, 21 anos, fala sobre cinema brasileiro, eventos e planos para o Cin3filia em entrevista ao Café Colombo. Foto: Arquivo Pessoal

Criado em 2015 como uma página sobre cinema, séries e cultura pop no Instagram, o Cin3filia cresceu e agregou site, eventos e reconhecimento rapidamente: em apenas 5 anos, já conta com 147 mil seguidores na rede social, além de colaboradores em  todo o país. João Soares conta sobre as experiências, os desafios e os próximos passos do projeto em uma conversa que você pode conferir completa aqui e também assistir no Instagram do Café Colombo.


Como é ter um site voltado para o cinema e a cultura geek no Agreste pernambucano?

Às vezes, as pessoas não  sabem que o Cin3filia está em Pernambuco, no interior, porque não abordamos tanto conteúdos locais. Culturalmente, o Brasil tem uma aversão grande ao cinema nacional, mas nós temos um grande amor pelo cinema pernambucano. Quando filmes como Bacurau (2019, dir. Kleber Mendonça Filho) alcançam muito sucesso, nós conseguimos abordar esse conteúdo. Mas como o Cin3filia já nasceu com a proposta de falar sobre todo tipo de cinema, ele acabou atingindo mais o cinema de Hollywood. Toda semana nós falamos sobre estreias, e isso direcionou o público às produções maiores. Mas também temos espaço para falar sobre cinema pernambucano e queremos investir em alguns projetos voltados a esse assunto.

Existe uma cobrança para que o site fale mais do cinema nacional e pernambucano?

Não temos uma cobrança muito grande no Cin3filia nesse sentido. Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar. Fizemos uma postagem muito legal falando sobre O Auto da Compadecida  (2000, dir. Guel Arraes) na época que houve a remasterização e a reexibição na Rede Globo e choveram comentários positivos sobre o cinema brasileiro. Só que, quando falamos sobre filmes que estão em circuito como Divino Amor (2019, dir. Gabriel Mascaro) e Bacurau, não conseguimos ter um movimento tão positivo quanto em filmes consagrados. O público local demonstra mais interesse, mas precisamos pautar o conteúdo relativo ao alcance. Entre produzirmos  um conteúdo que vai alcançar 10 mil pessoas e um conteúdo que vai alcançar 50 mil, a gente vai produzir o que vai alcançar 50 mil.

Quando postamos algo do tema, são os dois extremos: ou há uma grande aversão ao cinema nacional, ou aparece muita gente para apoiar.

O que você acha que falta para poder abordar o cinema brasileiro? É uma escolha do público ou a falta de conteúdo sobre o tema?

Eu acho que tem os dois lados, o do veículo produzir muito conteúdo seguindo a demanda, mas também de não oferecermos algo além do que o público poderia receber. É como se precisássemos forçar esses temas para que a galera também consuma, porque se nós não oferecemos, não vai surgir demanda. É um ciclo vicioso. Se nós falássemos sempre sobre cinema brasileiro, com certeza iríamos atingir um público e conseguiríamos criar um conteúdo mais focado para ele. Mas é complicado precisar trabalhar com o algoritmo do Instagram, que a gente precisa sempre oferecer um conteúdo que todo mundo quer ver, e não só o que um nicho quer ver.

Como funciona a distribuição da publicidade? Ser uma página do interior de Pernambuco dificulta o processo?

Para ter acesso às distribuidoras no Nordeste, a ação é terceirizada. Se as elas têm alguma ação, entram em contato primeiro com essa agências de marketing e só depois com a gente. Em São Paulo, que é onde estão concentradas as distribuidoras, existem dezenas de agências que vão entrar em contato com influenciadores específicos que têm a ver com esse tipo de conteúdo. E é por isso que nós temos um representante em São Paulo, porque se ficarmos limitados a esse contato indireto, não conseguimos acesso, porque é realmente fechado naquele circuito São Paulo-Rio.

Equipe do site na Sessão Cin3filia do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam, realizada em Caruaru, 2016.
Foto: Sarah Teodósio

Como funciona a Sessão Cin3filia? Vocês pretendem expandir o evento para outras cidades, além de Caruaru?

A Sessão Cin3filia foi um das ações que a gente fez pra tentar regionalizar o Cin3filia, fazer com que ele atinja o público local com um conteúdo global. A intenção é produzir uma experiência diferente no cinema para os fãs, então nós trazemos cosplayers, produzimos os brindes, os quizzes. Gostamos muito de imergir no universo do fã e dos filmes que nós vamos conversar sobre. Temos vontade de expandir o evento, trazer cada vez mais para o interior, ir para Vitória, para Petrolina, mas é realmente bem complicado para levar cultura no geral, se deslocar e mobilizar cidades que não conhecemos. Por mais que o interior seja bem homogêneo no imaginário da galera, cada lugar funciona de uma forma, principalmente quando se trata de publicidade para divulgar essas sessões, além de questões legais. 

Quais serão os próximos passos do Cin3filia? Tem algum planejamento para o Agreste?

Nós queremos entrar no YouTube e produzir conteúdo, esse é o próximo passo do Cin3filia. Vamos entrar de cabeça e procurar sempre produzir e interagir por lá. Quando se fala nos próximos passos para o Agreste, pensamos em eventos e experiências. Nós vamos sempre pra CCXP em São Paulo, que é o maior evento de entretenimento nerd do mundo, e adoraríamos ter algo semelhante aqui. Então não importa se em Caruaru, Petrolina ou outras cidades da região, queremos montar eventos que entreguem essas experiências, que foquem nessa questão de filmes, séries, interação, brincadeiras. A ideia é que, junto com parceiros da região, a gente consiga produzir sempre esse tipo de evento e atingir os fãs.

Revoredo: Uma imersão poética-musical em tempos de pandemia

Por Gabriel Vila Nova e Sarah Coutinho


“Este álbum é uma compilação de toda a minha vivência nessa estrada da arte: tudo que aprendi, as pessoas que eu conheci e as amizades que eu conquistei”, menciona. Foto: Breno César/Divulgação.

O lançamento do primeiro disco solo Revoredo do músico Alexandre Revoredo, é a reunião das diversas experiências e influências artísticas do compositor devido o seu contato com a música, o teatro e a poesia. O lançamento virtual do álbum, realizado no dia 27 de março, se deu no momento em que atividades culturais eram canceladas em razão da Covid-19. Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade à repórter Sarah Coutinho e ao colunista Gabriel Vila Nova, Revoredo fala sobre o disco e os efeitos da quarentena na difusão e receptividade do álbum.


Há quanto tempo você trabalha como músico?

Eu trabalho como músico desde 1996,  quando entrei na minha primeira banda. No início da carreira, tocava em aniversários de amigos. Mas, em 2001, comecei a me apresentar em bares e a cantar profissionalmente em casamentos com um grupo que me acompanhava. Já vivo de música há um tempo. 

O que esse álbum representa para você e o que ele busca representar para as pessoas que o ouvem?

Este álbum é uma compilação de toda a minha vivência nessa estrada da arte: tudo que aprendi, as pessoas que eu conheci e as amizades que eu conquistei. Ao mesmo tempo, ele também é um primeiro passo para dizer quem é Alexandre Revoredo e o que ele tem para trazer ao mundo. É um disco que tem muito a minha cara e tem realmente tudo a ver com o que eu falo e penso. Além disso, as pessoas que participam dele fazem parte da minha trajetória enquanto artista e músico. Portanto, é um disco que me apresenta ao mundo. Tanto que a primeira canção, Sou, é autobiográfica e fala das minhas influências, dos caminhos que trilhei, da poesia.

Portanto, é um disco que me apresenta ao mundo.

Sabe-se que a área cultural foi um dos primeiros campos a parar com as atividades em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Como foi lançar o álbum nesse momento?

De fato, a classe de agentes culturais foi realmente uma das primeiras a sofrerem com as consequências do coronavírus. No meu caso, o show de lançamento do disco, que seria um show com banda, seria realizado agora no dia 4 de Abril, mas foi a primeira coisa a ser cancelado, logo no início de março. E isso não aconteceu somente comigo, eu tenho outros amigos artistas que já estavam cancelando as apresentações antes da quarentena. Quanto ao lançamento digital do álbum Revoredo, ele já estava marcado para o dia 27 de março porque, além do disco já vir sendo gravado há um bom tempo, ele recebeu o incentivo do Funcultura e, por isso, tinha um prazo para ser entregue. O planejamento seria fazer primeiro o lançamento virtual e depois o lançamento do disco físico, mas este vai ter que ser feito em outro momento.

Com o lançamento do seu novo disco, Alexandre diz ficar contente com mais uma etapa da sua carreira concluída.
Imagem: Breno César/Divulgação.

Como tem sido a receptividade e o alcance do álbum com essa impossibilidade de fazer shows?

Eu acho que pelo conteúdo do disco, pela forma como eu trato as letras e a poesia, o que trago nele acabou servindo de alento e de alívio para as pessoas que estão em casa. E elas estão consumindo muita arte neste momento. Sempre foi sofrido fazer arte, mas nesse último ano ela foi muito marginalizada por discursos extremistas. Além disso, lançar o disco nesse momento teve seu lado bom porque ele conseguiu chegar nas pessoas de uma outra forma. Isso porque, devido às circunstâncias, as pessoas estão com a sensibilidade à flor da pele para entenderem as mensagens que têm dentro do álbum. Talvez o alcance não tenha sido maior do que em tempos anteriores à pandemia, mas ele tem sido mais profundo no coração das pessoas. Eu tenho recebido um feedback muito lindo e emocionante através de textos, desenhos e depoimentos.

Seria certo dizer que o álbum Revoredo é o resultado das influências existentes dentro de ti e da forma como você observa o mundo? 

Podemos perceber um artista de acordo com o olhar dele para o mundo. A poesia é isso: a forma de entendermos as coisas do jeito que recebemos e observamos o mundo. Ao mesmo tempo, o álbum teve cinquenta pessoas envolvidas no disco diretamente do produtor musical aos compositores que fizeram as canções comigo. Marcello Rangel, Martins, Gabi da Pele Preta, Stephany Metódio, além de outros músicos, são alguns dos artistas que fizeram parte do processo. Todos estavam em prol de realizar um trabalho comprometido com a estética, com a beleza da poesia e a beleza da canção. Esse disco é o resultado dessas pessoas que estiveram ao meu lado o tempo todo durante esses quatro anos.