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Arte, pandemia e periferia: a arte de Francisco Mesquita e sua construção em novos tempos

Poucas pessoas sabem, mas no dia 08 de maio, sábado passado, foi comemorado o dia do artista plástico no Brasil. A data serve para homenagear e celebrar uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade: a pintura. Para a produção de uma obra de arte, é primordial o domínio das técnicas, assim como a criatividade, talento e sensibilidade na percepção do mundo. Essas características podem ganhar destaque desde a infância, ou serem afloradas em algum outro momento futuro da vida do artista.

O dia surgiu em homenagem ao pintor brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior, nascido na mesma data em 1851, considerado um ícone entre os nomes mais importantes das artes plásticas do século XIX no nosso país. Almeida Junior, como é mais conhecido, nasceu na cidade de Itu, interior de São Paulo. Precursor da temática regionalista na pintura, deu destaque a personagens anônimos, ao homem comum – que não pertencia à elite – em suas tarefas cotidianas e à cultura caipira numa época em que a arte brasileira era marcada pela monumentalidade voltada à arte europeia.

Desde a propagação do novo coronavírus, a população mundial precisou se isolar como principal forma de proteção. Muitas pessoas utilizam a arte como forma de distração, ocupação da mente e acalento emocional. Algumas delas puderam descobrir os artistas internos que estavam guardados dentro de si. E nesse momento, onde a crise provocada pela Covid-19 continua a acontecer de forma ainda mais grave, puderam transformar seus talentos e habilidades em fonte de renda.

Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior é uma dessas pessoas que se encontraram na arte e se encaixa na nova leva de artistas plásticos revelados pela pandemia. Francisco Mesquita, como assina suas obras, compartilhou com o Café Colombo a sua resistente jornada de autoconhecimento artístico e seu trajeto pela arte, nos contando como é viver dela em tempos tão sombrios. Confira:

Francisco Mesquita e autorretrato. Foto: Acervo pessoal

Quem é Francisco e como ele chegou na arte?

Meu nome é Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior, tenho 28 anos, sou natural da cidade de Barreiros, litoral sul de Pernambuco, mas vivi por muito tempo em Olinda, que é a cidade onde moro atualmente, na Comunidade do Monte.

Sou formado em Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco no Campus Garanhuns, cidade onde vivi no período de graduação e pude atuar como professor. No final de 2019, decidi dar um tempo da sala de aula por questões pessoais e acabei aceitando um emprego em Recife, em um coworking. 

Quando a pandemia chegou no ano passado, fui demitido em março de forma inesperada, acabei saindo sem auxílio e seguro desemprego. Nesse momento de dificuldade, a arte me encontrou. Quando as pessoas perguntam como foi o meu início e quais foram minhas referências para que eu me tornasse um artista plástico, eu costumo dizer que o meu primeiro contato com a arte foi no momento que eu decidi viver dela, aos vinte e sete anos de idade.

Como você percebeu e decidiu que poderia viver da arte?

Por algumas pessoas próximas me mostrarem possibilidades na arte, eu comecei a me aventurar e brincar em casa. Fiz desenhos e pintei com pó de café diluído em água, e, a partir disso, fui ganhando uma paixão. Eu percebi que tenho uma forte inclinação a tentar coisas novas e com isso fui tentando fazer minhas artes com outros materiais e outras técnicas, mesmo sem nenhum conhecimento sobre elas.

Já tinha feito uma colagem para presentear uma ex-namorada, então resolvi fazer colagem com recortes de revistas. Também fiz da foto de uma ex-colega de trabalho, que amou e me incentivou, me senti um Picasso, o artista. Graças a esses momentos de incentivo que eu comecei a me ver, de fato, como artista plástico. Eu não tinha nenhuma obra, nem sabia assinar meu nome artístico, mas eu já me considerava um artista. E isso nunca tinha acontecido na minha vida, eu nunca fui tão firme em uma decisão.

Francisco em seu processo de produção de colagem. Foto: Acervo Pessoal

Infelizmente a pandemia já dura mais de um ano. Como você começou a atuar nesse período, como foi seu primeiro ano no ramo da arte?

Esse primeiro ano de carreira artística foi de muito aprendizado. Eu pude me conhecer um pouco mais e entender a importância de lidar com os problemas de uma forma diferente. Não é fácil, é uma profissão com muitas dificuldades, mas é extremamente gratificante por tudo que pode ser aprendido e construído. Vendi algumas obras e tenho outras encomendas no momento.

Como você considera seu estilo artístico e quais materiais você utiliza?

O estilo que eu mais trabalho são os retratos. Quando iniciei com as obras de café, foi com esse estilo que me identifiquei. Faço retratos com giz pastel, colagem de revista ou com papelão. Nos meus trabalhos recentes tenho utilizado uma técnica mista, misturando todos esses materiais. 

O gosto por eles acabou me levando para diferentes composições na minha obra. Hoje eu busco mais fontes para a arte, pesquiso e estudo. Me apego ao realismo com pop arte, bem colorido, mas também faço obras subjetivas e surrealistas. Deixo a minha intuição levar sem me prender a algo fixo, sempre disposto para novos testes.

Parte de tela feita em base de papelão. Foto: Acervo Pessoal

Eu utilizava como base o papel-cartão, mas ele sofria muito com a cola, porque quando secava, ele ficava muito ondulado e eu tinha esse problema. Daí comecei a testar e a brincar com outros materiais. O papelão se apresentou para mim como o material que veio me fazer continuar, já que em determinado momento eu não tinha mais dinheiro para comprar papel, cola e revistas, porque, nem sempre, as revistas que eu tinha à disposição, tinham o conteúdo que precisava. Não precisava mais comprar papel, e percebendo também que o papelão tinha camadas, fui descobrindo esse material.

Vi que ele poderia servir não apenas como base para minhas obras, mas, também, poderia ser o protagonista. Esse material me fez ver o mundo de uma forma diferente, porque papelão é algo que se encontra com muita facilidade, mas a gente só vê como lixo. Junto ao papelão, que foi uma descoberta essencial para mim, os materiais que mais utilizo são o giz pastel oleoso e revistas.

Dá pra perceber que nas suas obras que cor, gênero e liberdade são questões bem pertinentes. Por quê?

Eu gosto de trazer muito o meu cotidiano e as pessoas que são referências para mim. Tanto na vida artística como na vida pessoal, eu sou cercado por pessoas negras. A maior parte das pessoas que eu retratei são negras. Tenho em mente planos futuros e telas que envolvem outras bandeiras que também quero levantar. Eu sou um cara que tento trazer discussões e faço da minha arte algo pra se refletir, então as questões raciais e sociais sempre estarão presentes.

Arte de Francisco Mesquita

Serena (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

Arte de Francisco Mesquita

Olhar Disfarçado (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

No Dia Internacional da Mulher você homenageou algumas figuras. Como esse projeto se consolidou?

A ideia foi homenagear três figuras para essa data tão importante. A primeira, uma mulher com grande importância para a cultura de Pernambuco, que é Lia de Itamaracá. A segunda, de grande relevância a  nível nacional, a primeira juíza negra do país, Mary Aguiar. E, a última, de maior importância em nível pessoal, que foi a minha mãe. A ideia foi trazer muito afeto, carinho e  representatividade, pois todas são mulheres negras.

Arte de Francisco Mesquita

Lia de Itamaracá (2021), giz pastel oleoso sobre papelão.

Recentemente, você também lançou o projeto Arte na rua, que levou suas obras aos bairros de Olinda. De onde surgiu a ideia e como foi desenvolvido?

O projeto Arte na rua tem vários objetivos. Minha primeira intenção é disponibilizar um tipo de arte diferente para as pessoas, uma arte acessível, a qual elas possam ver, tocar e até levar para suas casas. Promovendo uma divulgação física e presencial das obras, para que quem vê-las, tenha interesse em conhecer mais. Aproveitando a rua como uma forma além das redes sociais para ampliar a divulgação do meu trabalho, porque, de certa forma, elas podem limitar o acesso de quem não tem o hábito de utilizá-las. Também tenho o romantismo de escrever alguns pensamentos por trás das obras, fazendo analogia àquelas garrafas jogadas ao mar, uma certa visão romântica minha e que pode fazer sentido de alguma forma para o leitor.

Colocando em prática o projeto Arte na rua, onde deixa a tela Maria no Mato (2021) em espaço no bairro Bultrins. Foto: Acervo Pessoal

Como educador, qual a tua perspectiva para a arte, unindo sua formação inicial como professor e agora como artista plástico?

Vejo minha contribuição para uma mudança de oportunidades, no sentido de oportunizar novos caminhos para os jovens de hoje. Falo isso porque já fui convidado por professores para contribuir com suas aulas e gravar vídeos para seus alunos falando e ensinando sobre a arte. 

Também tenho um encontro que irá acontecer no fim de maio. Fui convidado por um representante da Gerência Regional de Educação de Olinda para participar de uma formação com outros professores, onde eu poderei passar minha experiência e possibilidade de levar outros materiais para sala de aula, principalmente no ambiente de escola pública. Sabemos que muitas vezes o maior empecilho de se construir projetos de arte em escolas públicas é a questão de orçamento e material, se a gente quebrar isso e começarmos a entender que a arte é muito mais profunda, nossa e natural do que se pensa, a gente faz arte com diversas possibilidades. É esse meu maior desejo, poder tornar a arte cada vez mais acessível nesses locais de carências.

Escavação e a outra face do machismo em Hollywood: mulheres podem envelhecer?

Carey Mulligan está concorrendo ao prêmio de melhor atriz por Bela Vingança (2020) no Oscar, filme produzido por Margot Robbie, que aborda temas que fazem parte da vida das mulheres: o estupro e a quase certeza de impunidade. Apesar de muito bem dirigido e envolvente, essa matéria não é sobre um dos favoritos do Academy Awards, mas, sim, sobre outro filme estrelando Mulligan que ficou de fora da premiação. Trata-se do longa da Netflix, A Escavação, lançado em janeiro de 2021.

A Escavação é uma produção britânica, que retrata fatos reais. O longa acompanha a história de Edith Pretty, que acreditando que seu terreno seja um sítio arqueológico, contrata um escavador para explorá-lo e acaba fazendo uma das descobertas mais importantes do século 20. Baseado no romance de mesmo nome, o filme da Netflix não causou desgosto na crítica e recebeu opiniões positivas, mas não passou no corte do Oscar, sendo descartado das categorias e tendo indicações apenas no British Academy Film Awards (BAFTA).

Apesar das críticas positivas, o filme não deixou de causar polêmica. A escolha da atriz ocasionou uma questão que permeia a indústria cinematográfica: o chamado ageism (preconceito de idade). A personagem vivida por Carey Mulligan, 35, na época em que a história se passa tinha 56 anos de idade. A atriz foi escolhida pela produção depois que Nicole Kidman recusou o convite. Mas será que não haveria outras  opções de atrizes com mais de cinquenta anos? Ainda mais num mercado de atores tão extenso e rico, como o mercado britânico? 

A ONG britânica Behind The Woman, que levanta a bandeira do empoderamento das mulheres de meia idade, publicou em seu Twitter uma opinião que mostra a exaustão de não se ver representada: “É uma pena pensar nas mulheres incríveis com mais de 50 que poderiam ter interpretado a Sra. Pretty. Enquanto mulheres de 30 interpretarem mulheres de 50, ficaremos invisíveis.”

Situações como essa são reflexos de nossa sociedade machista. Por que temos cremes, produtos e processos estéticos, para frear algo que é natural e acontece com todos? Por que envelhecer é ruim e por que é ainda pior para a mulher? Atrizes que foram sinônimos de beleza como Catherine Zeta Jones, Demi Moore, Geena Davis, hoje se encontram fora do cinema. 

Enquanto Harrison Ford, George Clooney e outros atores que envelheceram, continuam com seus empregos e com a posição de galãs. Tom Hanks e Meg Ryan, atores queridos dos anos 90 e que já contracenaram juntos, são um exemplo dos dois pesos e duas medidas dessa conta. Tom Hanks continua fazendo filmes como herói e protagonista (Relatos do Mundo, 2020), mas onde está a Meg Ryan?

A própria Geena Davis, que alcançou o estrelato com o filme Thelma e Louise (1991), hoje luta contra o ageism em Hollywood. Seu instituto, o Geena Davis Institute on Gender and Media, lançou em 2020 um estudo baseado em dados de 2019 sobre os papéis que pessoas com mais de 50 anos ocupam nos filmes. As análises englobam filmografias não só dos Estados Unidos, mas também da Alemanha, França e Reino Unido. Os dados mostram que três em cada quatro (74.7%) dos personagens que têm acima de 50 anos são homens, enquanto um em cada quatro (25.3%) são mulheres. O que significa que quando a audiência vê personagens mais velhos na tela, estão vendo prioritariamente homens. 

O estudo também aponta, que quando as mulheres, de fato, aparecem nas telas, tendem a sofrer mais estereótipos de idade em sua caracterização. Como por exemplo: ser senil, mentalmente instável, retratadas como doentes, são mostradas fisicamente não atraentes (em comparação a personagens homens), assim como também são retratadas como mais solitárias e caseiras. 

Foto de Edith na época da escavação em seu terreno, em que se passa o filme. Foto: BBC/Divulgação.

Uma das questões que o estudo aponta e foi citada acima, é o fato de que quando há papéis de destaque para mulheres com mais de 45 anos, elas são em sua maioria retratadas com alguma problemática. São colocadas em um papel de poder no começo do filme, mas algo acontece que a deixa frágil. Muitas vezes, leva à sua morte ao fim da obra, em razão de doenças, perda de memória, problemas mentais, até abuso de substâncias.  

Depois de anos sumida, a atriz da comédia romântica O Diário de Bridget Jones, Renée Zellweger, ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2020, por interpretar a atriz e cantora Judy Garland que faleceu por overdose aos 47 anos.

Quando a continuação de Top Gun: Ases Indomáveis foi anunciada, Tom Cruise estava, sem dúvida, cotado para manter o seu papel na trama. Já seu par romântico, que na época do primeiro filme já era mais velha que o ator, a atriz Kelly McGillis, não foi cogitada por não estar em forma para o papel e não corresponder ao padrão de Hollywood. É claro, você não pode ter mais de 50 anos e aparentar ter 50 anos. 

Nosso país, machista como é, não foge dessa lógica. A atriz Cláudia Raia, 54, em uma entrevista à Revista Ela, comentou como o movimento de reconhecer o envelhecimento ainda é muito tímido no Brasil. “A verdade é que se você não tem mais 30 ou 40 anos e nem tem 80, você está num limbo”, comentou. 

Ela ainda frisou a importância da representatividade e como recebe comentários positivos sobre isso em suas redes sociais. “As mulheres também comentam muito nas minhas redes, falando que se sentem representadas, que gostam de ver o que eu posto. Elas vêm falar comigo sobre a importância da gente falar da mulher de 50+, de verem as questões sendo colocadas”.

Vera Fischer, outra grande atriz da teledramaturgia brasileira, foi criticada esse ano ao postar uma foto em seu Instagram, fruto de um ensaio sensual. A maioria dos comentários se referiam ao tratamento botox aplicado em sua face, o que a estava tornando, segundo os usuários da rede, “irreconhecível”. A pressão parece que se torna muito maior quando as atrizes já foram símbolos de beleza. É como se as pessoas esperassem que essas mulheres continuassem com o mesmo rosto que tinham aos vinte e poucos anos, mas sem procedimentos estéticos por que podem ficar muito diferentes. Algo impossível. Com ou sem plástica, a mulher que envelhece é criticada.

Há, claro, exceções como Viola Davis, Olivia Colman ou Meryl Streep, vivendo papéis de mulheres normais e poderosas fora dos seus 30 anos. Mas o problema é esse, são exceções. Frances McDormand, ganhadora de dois Oscars, aos 63 anos está concorrendo a mais um este ano: Melhor Atriz por Nomadland (2020), porém, McDormand nunca foi referência do padrão de beleza hollywoodiano, assim como Streep que tinha dificuldade de arranjar papéis por ser considerada “feia”. 

Atrizes com mais de meia idade não correspondem ao padrão de beleza hollywoodiano – que é bem questionável e irreal -, logo, podem contar só com seu talento e, mais ainda, com as oportunidades que o mercado oferece, que são poucas. Por isso são tão importantes iniciativas como a de Geena Davis ou da ONG Behind The Woman, em chamar a atenção para essa problemática. Se, como em A Escavação, há um papel para uma mulher de 50+ e se escolhe dá-lo para uma atriz de 30 anos, são apagadas todas as outras mulheres que trariam mais fidelidade à narrativa. Além de também apagar toda uma representatividade. Mulheres de 50 anos ou mais existem, e elas não correspondem a apenas uma coisa.

Séries e filmes com mulheres 50+ incríveis: 

Nomadland

Esse roadmovie (filme que se passa na estrada) é o favorito ao Oscar de Melhor Filme esse ano. Conta a história de Fern (Frances McDormand) que após uma perda, decide viver em um trailer, percorrendo o Oeste dos Estados Unidos.

Personagem anda em campo vasto durante o entardecer. Ele segura uma lamparina nas mãos. O rapaz é jovem e ao seu redor, existe um ponto de espera de ônibus e carro. É dirigido por Chloé Zhao, uma das mulheres que receberam prêmios no Oscar 2021.

Cena do filme Nomadland. Foto: Searchlight Pictures/Reprodução.

Grace and Frankie

Acompanha a história de duas mulheres na terceira idade que decidem morar juntas após seus parceiros pedirem o divórcio. A comédia a todo tempo quebra os estereótipos relacionados a pessoas idosas, sendo muito divertida e envolvente.

As duas protagonistas, mulheres na terceira idade, Grace e Frankie se entreolham e seguram as mãos enquanto estão sentadas na varanda em suas cadeiras em tons turquesa.

Cena da série Grace and Frankie. Foto: Netflix/Reprodução.

Mamma Mia! O Filme

O musical de 2008, inspirado no show da Broadway de mesmo nome, narra a história de Sophie (Amanda Seyfried) em busca da identidade de seu pai, que sua mãe Donna (Meryl Streep) insiste em esconder. Mamma Mia não é novidade pra ninguém, mas é um filme super divertido e que conta com outras duas atrizes 50+ de renome, Julie Walters e Christine Baranski. Além de ter os maiores sucessos do Abba, o que é decididamente um plus!

G1 > Cinema - NOTÍCIAS - Crítica: Musical 'Mamma mia!' leva canções do ABBA às telas de cinema

Cena do filme Mamma Mia. Fonte: Universal Studios/Reprodução.

Acesse o estudo do Instituto de Geena Davis

O jazz de Billie Holiday: contexto histórico e a influência do gênero musical

Estados unidos da América 

“O limite da sua justiça não está bem definido […] 

sua orientação segregacionista é amiga da morte dos negros […] 

ela mata seu futuro brilhante e estupra por uma alma, 

então prende seus filhos usando lendas falsas”

(Maya Angelou)

O jazz foi um estilo de vida que abriu espaço para reflexão sobre o racismo dentro do cenário cultural dos Estados Unidos. Pensando na trajetória dos artistas que fizeram parte desse estilo musical e o contexto no qual estavam inseridos, entende-se que não se pode compreender o jazz sem conhecer a situação histórica e a vida de seus músicos. O filme The United States vs Billie Holiday (2021), apresenta discussões sobre a presença desse gênero como forma de resistência racial, a partir de recortes da vida da cantora e compositora Billie Holiday.  

O gênero se relaciona diretamente com os movimentos pelos direitos civis nos EUA. A era dos direitos civis, que correspondem às três décadas após a segunda guerra mundial, foi  cenário para mudanças na cultura e na política do país. Movimentos como Panteras Negras e a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), por exemplo, fizeram com que várias leis discriminatórias fossem abolidas. 

É válido ressaltar que a música pode ser vista como instrumento de resistência,  usada para denunciar práticas e valores sociais em cenários históricos. Nessa perspectiva, podemos relacionar o jazz e o samba. Ambos os ritmos  possuem similaridade na herança e ancestralidade africana e ajudaram a definir a identidade cultural de seus países. Os dois gêneros foram compostos principalmente por ecos caribenhos e africanos, como conta Jefferson Mello, autor do livro Os Caminhos Do Jazz (2004) e diretor do documentário Samba e Jazz: Rio de Janeiro – New Orleans (2015). 

Dito isso, podemos associar as performances de Billie Holiday e Elza Soares, que se apresentam na memória coletiva e experiências da mulher negra. Elza, de maneira singular, ressignifica o simbolismo do corpo negro feminino, visto historicamente como um corpo sexualmente objetificado. Com seu samba-jazz  tornou-se pioneira em espaços para a mulher negra no cenário musical brasileiro. A mulher do fim do mundo, último álbum de Elza lançado em 2015, fala sobre temas como a sexualidade, racismo, violência contra mulher e a identidade negra. Holiday também foi pioneira em politizar a música, sendo a primeira artista negra a se apresentar no Metropolitan Opera House em 1944.  

The United States vs. Billie Holiday (2021), dirigido por Lee Daniels, foi baseado no livro Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs do jornalista Johann Hari. No filme, o autor discorre especialmente sobre as décadas de 1930 e 1940, com relação à guerra às drogas nos Estados Unidos – que usou, perseguiu e controlou a vida da cantora Billie Holiday como exemplo para as novas políticas rígidas adotadas pelo governo. Podemos dizer que tal controle presumia a distribuição da espécie humana em grupos e subgrupos, o que Foucault rotula com o termo racismo, conforme abordou Achille Mbembe no livro Necropolítica (2011).

Apesar da escolha do diretor em abordar a vida da Billie Holiday de forma muito superficial, é possível refletir sobre a vida de uma mulher que virou alvo dos Estados Unidos, país que se aproveitou de sua fragilidade e envolvimento com drogas, para tentar diminuir sua influência e criar uma imagem negativa de uma mulher negra diante da sociedade. No entanto, as narrativas relacionadas às substâncias não aprofundaram o contexto político, a seletividade e o racismo institucionalizado, que determinaram sua relação complexa com o corpo e as drogas, comprometendo o entendimento do público quanto ao recorte cronológico mal definido.

Todavia, a personagem protagonizada por Andra Day ganha destaque pela atuação, sendo essa responsável pela indicação ao Oscar 2021 no prêmio de melhor atriz. Assim como a atuação de Chadwick Boseman e Viola Davis em Ma Rainey’s Black Bottom (2020), que também receberam indicações como melhores atores para a premiação deste ano. A qualidade da interpretação desses atores conseguiu amenizar os problemas de desenvolvimento das tramas, que deixaram a desejar nas discussões sobre racismo, relações de poder da época e o papel do Jazz.

Mulher no palco cantando jazz, ela usa um vestido preto, uma flor branca no cabelo e batom vermelho.

Andra Day, atriz, cantora e compositora de Blues, Soul, Jazz e R&B, interpretou Billie Holiday em The United States vs. Billie Holiday. Foto: Reprodução/Hulu.

Ainda que o filme tenha apresentado dificuldade cronológica, o melodrama abre espaços para várias temáticas secundárias, dando maior atenção ao caso dos vícios. Nesse sentido, a figura do Harry Jacob Anslinger, agente do serviço de Narcóticos dos Estados Unidos (FBN), se faz necessária para o entendimento do contexto. Anslinger tinha William Randolph Hearst, dono de uma grande rede de jornais, como um aliado poderoso na guerra contra as drogas – foi nele que o diretor Orson Welles se inspirou para fazer Cidadão Kane. 

É fato que a intenção do governo era manchar a imagem de uma mulher negra, atuando de forma seletiva.  Judy Garland também tinha problemas com as drogas, mas o departamento protegeu a imagem dela aconselhando a tirar férias mais longas. Uma senhora bonita e graciosa, segundo Anslinger, não poderia destruir a reputação imaculada de uma das famílias mais honradas da nação. A influência e o poder direcionaram quem seria condenado e perseguido. Como bem observou Silvio Almeida em seu livro Racismo estrutural, citando Black Power: Politics of Liberation in America, de Charles V. Hamilton e Kwame Ture, “a aplicação de decisões e políticas que consideram a raça com o propósito de subordinar um grupo racial e manter o controle sobre esse grupo”.

A guerra não era pelas drogas, mas sim uma tentativa de sufocar a era do jazz, que para ele seria uma ameaça ao American Way, “drogas e crioulos são uma contaminação a nossa civilização americana”, disse Anslinger no filme. Para Anslinger, o jazz era anarquia musical, a vida dos jazzistas, disse ele, cheirava à sujeira. Com isso, os anos que se seguiram fabricando uma guerra às drogas, foram na verdade, um projeto para criação do complexo industrial prisional americano. Não à toa que o Anslinger permaneceu como comissário do escritório federal de narcóticos até se aposentar aos 70 anos, com direito a título de cidadão distinto assinado pelo presidente John F. Kennedy – qualquer coincidência é mera semelhança com o termo cidadão de bem. 

Durante o diálogo com o jornalista Reginald Lord, Divine, interpretado por Leslie Jordan, ao afirmar que a guerra era contra as drogas e não a Holiday, a mesma responde “é o que eles querem que vocês acreditem”. A fala da personagem lembra o poema Estados unidos da América, de Maya Angelou, no qual ela fala que “a orientação segregacionista norte americana é amiga da morte dos negros”. Ao ser questionada sobre o motivo da perseguição, Holiday responde que tal perseguição tem a ver com Strange fruit, “minha música lembra a eles que estão nos matando, lembra a você também, Reginaldo”. 

Ainda sobre o diálogo com o jornalista “Porque você não para de cantar a bendita canção? Sua vida não seria mais fácil se você se comportasse?” questiona o jornalista à Holiday, representando o pensamento de muitos que consideram manifestações antirracistas como desorganização. O que certamente permitiu que grupos de movimentos racistas de supremacia branca desde o Ku Klux Klan até os mais recentes como QAnon, Proud Boys e o White Power permaneçam se perpetuando em dias atuais associados a grupos de extrema direita. 

Os anos que precedem os movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos foram marcados por muita violência. As notícias sobre as atrocidades do período circularam pelo mundo todo, como a reportagem publicada com o título “Animosidade entre pretos e brancos nos Estados Unidos” no Diário de Pernambuco em 13 de maio de 1930, na edição 00109. A notícia era sobre uma multidão no estado do Texas que invadiu o palácio da justiça a fim de linchar um homem negro acusado de atentado ao pudor a uma moça branca.  Após morrer no incêndio, o homem foi arrastado pelas ruas amarrado a um automóvel.

Nesse contexto, a música Strange fruit foi o ponto principal do filme  porque a letra era vista pelo governo como perigosa, portanto, proibida. O poema, escrito pelo compositor judeu Abel Meeropol, a partir da fotografia do Lawrence Beitler que chocou o país, resultou na música interpretada por Billie Holiday, vencedora da canção do século pela revista Times em 1999. A canção fala do linchamento de dois homens negros, Thomas Shipp e Abram Smith, em 1930. A canção interpretada por Holiday foi usada em campanhas na tentativa de incentivar a criação de leis antilinchamento no país.

Apesar de manter o foco da trama na música impactante, a narrativa deixou a desejar por não aprofundar o significado do jazz na luta pelos direitos civis. O filme poderia apresentar melhor a relação da Holiday com outros personagens, a exemplo de Jimmy Fletcher, personagem do Trevante Rhodes e a forma como um homem negro foi usado pelos interesses do governo, assim como poderia expor melhor a aproximação com Louis Amstrong, figura importante no jazz, que protagonizou o filme New Orleans em 1947 ao lado de Billie Holiday.

A relação da Holiday com as drogas está intrinsecamente ligada às tristezas. Desde sua infância as drogas ajudaram a suportar as dores, de acordo com Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz (1956), de Billie Holiday e William Dufty. Possivelmente essas dores refletiram em suas relações afetivas. Segundo sua mãe havia apenas dois caminhos para uma mulher negra e pobre: tornar-se prostituta ou doméstica. Para Holiday, puta seria somente a mulher de um homem, não necessariamente a que vende o corpo por dinheiro. Por essa razão, ela se referia aos homens com quem se relacionou como cafetões, visto que estes administravam seu corpo e seu dinheiro – a palavra administrar é um eufemismo utilizado pela Holiday para se referir aos homens que a roubaram e espancaram.

Billie Holiday, cantora de jazz de óculos deitada no sofá com um livro na mão, foto preto e branco.

Billie Holiday lendo Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz. Foto: Divulgação.

É significativa a presença de The United States vs. Billie Holiday entre as indicações ao Oscar 2021. Um ano revolucionário na história do cinema por conter um considerável número de pessoas negras em comparação com os anos anteriores. Destaque para Judas and the Black Messiah (2021), com uma equipe majoritariamente negra e para Mia Neal e Jamika Wilson, as primeiras negras a serem indicadas ao prêmio de melhor maquiagem com a Voz Suprema do Blues.

Billie Holiday, pioneira em popularizar o jazz vocal, foi a primeira mulher negra no país a conquistar espaços antes renegados aos negros e transmitiu sua mensagem de crítica social através da música, se tornando a primeira pessoa, de muitas apresentações de músicos negros, na famosa casa de Ópera de Nova Iorque. 

Em síntese, Billie Holiday, também conhecida como Lady Day, é um expressivo nome da primeira vertente do Jazz: o swing. A carreira da cantora é um símbolo para os movimentos, assim como um caminho para pensar a conjuntura dos direitos da população negra hoje. Conforme disse Nietzsche, aprendemos cada vez melhor a impulsionar a história à serviço da vida.

Lei Aldir Blanc e as novas estratégias adotadas pelos festivais pernambucanos de cinema

Oficina realizada durante o festival de cinema Poesia na Tela. Foto: Arquivo Pessoal.

As recentes edições dos festivais de cinema pernambucano foram realizadas de modo remoto em respeito ao distanciamento social. Além de experimentar um novo formato de exibição do evento, os produtores buscaram cumprir novos objetivos para os festivais de cinema.  Essas ações foram possíveis devido a apoios culturais como a Lei Aldir Blanc. Essa iniciativa contribuiu com um auxílio financeiro para amenizar os impactos causados pela pandemia ao setor cultural.

Políticas que ultrapassam as telas

Cartaz da edição atual do Curta Taquary. Foto: Divulgação.

O festival de cinema Curta Taquary realizou a 14° edição de forma remota e gratuita, em função da pandemia. O festival de Taquaritinga do Norte, no Agreste de Pernambuco, com o tema Por Um Mundo Melhor, teve uma programação com produções voltadas para temáticas sociopolíticas e educativas ambientais.

Para cada filme inscrito no Curta Taquary, uma muda de espécie nativa foi plantada na cidade para contribuir com o reflorestamento e a recuperação de solo de áreas desmatadas e devastadas por queimadas, de acordo com o idealizador do festival, Alexandre Soares.

O fomento e o desalento da produção artística 

Um dos organizadores do festival, Devyd Santos, conta como foi a experiência de produzir e realizá-lo de forma inteiramente remota. Ele fala que no ano passado a dificuldade de realizar o evento  foi maior, pois não havia nenhum recurso financeiro que desse apoio,  estrutura e experiência com a produção remota.

O incentivo da lei Aldir Blanc proporcionou uma produção maior em relação aos anos anteriores e com mais alcance. O desafio da edição deste ano foi outro: realizar um festival em um momento crítico durante a pandemia.

Por isso os filmes da mostra foram selecionados com o critério de promover uma sensação de acolhimento. “O objetivo do festival na 14ª foi oferecer um alívio, um respiro ao público. Se você assistir apenas um dos filmes, você vai poder sentir esse afago”, explica o idealizador do Curta Taquary, Alexandre Soares.

O festival também sentiu uma queda no número de filmes inscritos, como animações, curtas e especialmente os filmes produzidos por universitários. Alexandre Soares conta que foi surpreendente a quantidade de filmes que foram feitos com uma boa qualidade apenas usando um celular e dentro de casa. 

Durante a entrevista, Alexandre enfatizou o quanto a pandemia trouxe perdas e falou a respeito de três cineastas que faleceram devido a Covid-19. O cineasta, roteirista e educador Geraldo Cavalcanti, o cineasta ilustrador e professor Sandro Lopes e o cineasta, editor e pós-produtor Ely Marques.

Poesia em telas virtuais e o futuro dos festivais

Sessão do Festival Poesia na Tela realizada antes da pandemia. Foto: Maria Ruana/Divulgação.

O Poesia na Tela é um festival de cinema realizado no sertão do Pajeú, em Pernambuco, que terá a sua sexta edição exibida de forma online do dia 21 ao dia 23 de abril. No ano passado, o festival não pôde ser realizado devido à falta de recursos financeiros. Mas os organizadores contam que neste ano, o festival será possível graças ao incentivo da Lei Aldir Blanc.

O organizador, Devyd Santos, também faz parte da produção do Poesia na Tela, e falou sobre quais mudanças a pandemia provocou no cinema brasileiro, sobretudo nos curta-metragens, que é o gênero cinematográfico trabalhado pelo evento.

Antes da pandemia era complicado ter a liberação das produtoras para disponibilizar um filme na internet, porque as produtoras se preocuparam, primeiro, em exibir os filmes em festivais e isso demandava tempo. Mas com a chegada da pandemia, muitos filmes que tinham estreias previstas para festivais, tiveram que ser lançados de forma aberta nos espaços virtuais. O que  acabou tornando o curta-metragem nacional mais acessível.

A arte como fuga para o atual momento

Os cineastas Devyd Santos e Alexandre Soares falam coisas semelhantes: há uma oscilação de sentimentos a respeito de realizar o festival audiovisual neste ano. Apesar de estarem felizes por poder exibir os festivais, os produtores apontam um sentimento de tristeza em relação à situação geral do país.

“A arte foi quem deu uma certa fuga a quem estava em casa e é o que nos conforta, o que nos faz pensar em estratégias, em soluções que leve de alguma forma um acalanto para quem está em casa. Um abraço, uma mensagem positiva, esse é o nosso maior cuidado”, desabafa Devyd.

A respeito das expectativas para o futuro do cinema brasileiro após a pandemia, ele acredita  que quando a pandemia acabar, as versões online não deixarão de acontecer, e os festivais serão realizados de forma híbrida: online e presencial.  “Isso é muito bom porque a gente acaba abraçando um público maior, pois deixamos de estar restritos às presenças físicas, mas sem perder a magia do cinema que é poder assistir os filmes naquela  tela grande, com som adequado”, finaliza o cineasta.

Reconstruções do Festival de Cinema de Caruaru

Encontro virtual dos organizadores do Festival de Cinema de Caruaru. Foto: Arquivo Pessoal.

O Festival de Cinema de Caruaru teve sua oitava edição: raízes em movimento, exibida remotamente entre os dias 15 e 30 de Março. Essa foi a segunda edição em que o festival foi realizado por meio das plataformas digitais. 

Sobre os desafios de fazer um festival de audiovisual online, o idealizador do Festival de Cinema de Caruaru, Edvaldo Santos, conta que as maiores dificuldades foram na primeira edição remota, devido a falta de experiências com as plataformas online. Já na edição deste ano, o apoio da Lei Aldir Blanc e os parceiros do festival contribuíram para que o festival pudesse colocar em prática oficinas com cineastas remunerados, alcançando um amplo público. 

O objetivo do festival na edição deste ano foi levar um conteúdo que ao mesmo tempo que fosse leve, compreendesse a fragilidade das pessoas neste momento. A programação buscou provocar uma reflexão no público, ao mesmo tempo que buscou levar um certo conforto para o público. “Buscamos aglutinar filmes que tenham um caráter reflexivo, mas fortemente engajado numa proposta de construção e de reconstrução”, explica o cineasta Edvaldo Santos.

Confira a lista dos vencedores da oitava edição do Festival de Cinema de Caruaru e da 14º edição do Curta Taquary que foram anunciados em cerimônias virtuais nos últimos dias.

Filmes vencedores do Festival de Cinema de Caruaru.

Filmes vencedores do Festival Curta Taquary.

the kick inside capa

The Kick Inside: a revolucionária estreia de Kate Bush

Uma das mais interessantes artistas musicais de sua época, Kate Bush tem desde o início da carreira uma verdadeira joia em sua coroa. Tão pop quanto esquisito, o seu álbum de estreia The Kick Inside é a encenação dramática de uma mulher com muito a dizer. 

Capa do álbum The Kick Inside lançado em 1978. Reprodução.

Kate Bush sempre aparentou estar bem pouco preocupada com a má interpretação alheia. A cantora escreveu sua primeira música aos 13 anos, e já ali, dava pistas de que viria a ser uma das grandes e enigmáticas figuras da cultura pop.

Além de atuar como cantora, pianista e dançarina, Kate Bush destaca-se especialmente como letrista. Uma atmosfera visionária permeia o universo folclórico que a compositora criou. Em suas letras fala-se de sentimentos, meio ambiente, tecnologia e fé. Assuntos que fazem parte de uma boa e variada obra, derivada dos mais de 40 anos de carreira da distinta artista.

O pouco constrangimento – leia-se a ausência do medo de parecer ridícula, que menciona Margareth Tabolt em artigo sobre Kate ao The New Yorker – é bastante visível em The Kick Inside, seu primeiro álbum de estúdio. A jovem Kate canta a paixão como algo puro, um feito que só poderia ter sido genuinamente realizado por uma quase adolescente.

É um álbum maduro, e seria assim para qualquer um que o fizesse, mas a experiência que vemos no The Kick Inside é ainda mais surpreendente se pensarmos ter sido realizado a partir da prolífica cabeça de uma jovem de 19 anos, e não por uma veterana da música e das letras. 

Em fevereiro de 1978, foi lançada no Reino Unido a primeira tiragem do álbum. Apadrinhado por David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, que financiou a regravação da primeira demo da cantora e, também, produziu o álbum junto a uma equipe de veteranos do rock progressivo. A obra  estreou em terceiro lugar nas paradas britânicas. Apesar da influência masculina dos nomes por trás da produção – Andrew Powell, do The Alan Parsons Project, também esteve intimamente ligado  à realização – o álbum de Kate é feminino do início ao fim. Uma grande homenagem de Bush à  intelectualidade das mulheres que, assim como ela, possuem um pezinho na excentricidade.

Quem escuta o álbum pela primeira vez, encontra no meio da setlist uma melodia conhecida. Trata-se da super popular Wuthering Heights, livremente inspirada no romance de Emily Brönte e de clipe tão épico – e dançante – quanto a canção. Wuthering Heights foi o primeiro single de Kate. A balada romântica não foi a primeira escolha da gravadora, mas a cantora insistiu no que seria um grande acerto. Essa é, até hoje, a mais conhecida entre todas as músicas de Kate Bush.

As inspirações e o talento literário de Bush ficam evidentes a partir de suas letras inventivas. Um destaque da Kate escritora é a precisão de suas palavras provocativas, confiantes, radicais e místicas. Uma obra trabalhada absolutamente na suficiência. Um tanto difícil para ouvidos não acostumados, a música deste universo é divertida e dark. Finas baladas atemporais.

O memorável clipe de Wuthering Heights.

Na superinteressante The Saxophone Song, ouvimos uma vocalista de inspiração romântica cantar, em sua especialíssima voz soprano, uma canção perfeita para ser entoada a plenos pulmões, fazendo jus ao drama investido na letra. Tanto The Saxophone Song quanto Wuthering Heights foram escritas bem antes do álbum ser produzido. A jovem Bush teve influência da sua multi-artística família formada por sua mãe, dançarina irlandesa, seu pai, um pianista amador e seus  dois irmãos, ambos envolvidos na cena de música folk britânica.

Em Moving, faixa que abre o álbum, ouvimos sons de baleia – são vinte segundos de sinais oceânicos – antes de Kate começar a cantar sobre uma dança do espírito em função de uma paixão. As influências de natureza mística sentimental na música de Kate Bush tornaram-se referência para muitos artistas que vieram depois dela, a exemplo da islandesa Björk e da iraniana Sevdaliza.

A dramaticidade é tocável, desejos ternos e violentos misturam-se nas narrativas que compõem a obra. Em James and The Cold Gun, um soft rock que vem a ser uma das músicas mais divertidas – e palatáveis – do álbum, Kate lamenta que seu amigo de infância escolheu a vida do crime e vendeu sua alma para uma famigerada arma fria. Destaque para as guitarras ao final, em que pode-se perceber uma clara influência da levada pinkfloydiana, e para o refrão inegavelmente delicioso. 

Kate Bush, 20 anos, na Tour of Life (1979). Divulgação/ Getty Images.

Por último, citamos a faixa L’Amour Looks Something Like You, uma balada poderosíssima que compõe o álbum na décima posição. Até então o ouvinte já se habituou ao estilo um tanto maluquinho de Kate e compra, sem hesitação, o sofrimento cantado que toca no fundo de uma alma dada a exageros românticos. 

Apesar de ser exorbitante tanto nas letras quanto na melodia, The Kick Inside não peca pelo excesso. Tudo é calculadamente medido por uma produtora muito segura. Kate Bush, apesar de jovem, realizou um feito que muitos artistas passam a vida a tentar: criou, sem pretensões de grandeza, um épico sempiterno, que diverte e emociona na mesma medida.

Após o estrondoso sucesso do debute, Kate iniciou em 1979 uma turnê pela Europa que teve apenas três datas. A cantora resolveu largar os palcos após a sexta semana, voltando a se apresentar ao vivo somente 35 anos depois, em 2014, com a turnê “Before the Dawn”. Ao que percebemos, foi rápida a escolha de Kate em ser apenas artista, não celebridade.

A sofisticada Kate Bush ficou ainda mais reclusa após a experiência da maternidade nos anos 90. No entanto, o isolamento autoimposto não a impediu de fazer grandes álbuns durante as últimas décadas. Destacamos entre eles Never for Ever, Hounds of Love e The Red Shoes, lançados em 1980, 1985 e 1993 respectivamente. 

Se você leitor, ainda não conhece a extensa obra da inconfundível Kate Bush, recomendamos The Kick Inside como porta de entrada para o mundo das danças interpretativas, das letras profundas e da estimada voz aguda dessa que é uma das maiores artistas vivas da música pop. 

Literatura infantil

Do ‘certo e errado’ ao Bê-a-bá do desafio de crescer na literatura infantil

Falar sobre literatura infantil é falar das lembranças da infância. É relembrar as experiências de contação de histórias, de conhecer novos personagens, figuras e mundos. É trazer à tona recordações e momentos que nos marcaram e fizeram despertar o gosto pela leitura.

A história da literatura para crianças tem início em meados do século XVIII, possuindo uma ligação estreita com a pedagogia. O escritor francês François Fénelon (1651-1715) destacou-se no século XVII com o intuito de educar moralmente as crianças. As histórias tinham uma estrutura maniqueísta, a fim de demarcar claramente o bem a ser aprendido e o mal a ser desprezado. A maioria dos contos de fadas, fábulas e muitos dos textos contemporâneos incluem-se nessa tradição e formato.

As publicações brasileiras para essa faixa etária tiveram início tardiamente, no início do século XIX, seguindo com o mesmo intuito da educação infantil. Quando Monteiro Lobato criou suas próprias editoras, a Editora Monteiro Lobato e mais tarde a Companhia Editora Nacional, tinha como objetivo educar a população brasileira e ensinar o folclore brasileiro às crianças. Seu primeiro livro dedicado aos leitores mirins foi A menina do narizinho arrebitado, publicado em 1920. Fez tanto sucesso que o levou a prolongar as aventuras de sua personagem Narizinho em outros livros, englobados no universo do famoso Sítio do Pica-pau Amarelo.

Na atualidade, percebe-se que essa linha editorial não mais se prende aos preceitos maniqueístas, reservando-se apenas ao ‘certo’ e ‘errado’. A literatura infantil vai além, com ensinamentos sutis que proporcionam reflexões sobre os temas propostos, utilizando artimanhas visuais e sensoriais que chamem a atenção da criança e desperte a vontade de conhecer mais do mundo. De olho na oportunidade que os livros personalizados apresentam, algumas editoras têm investido nessas inovações, com o objetivo de conquistar os novos leitores.

Uma das estratégias que as editoras estão utilizando é a publicação de livros que permitem a interação da criança com a história. Propõem, por exemplo, missões aos pequenos grandes desbravadores. Essa forma de diferenciação em livros encanta as crianças, o que desperta e estimula a leitura e a concentração, aumentando o estreitamento da relação com o livro. Esse campo possui obras muito particulares, com conteúdos capazes de lapidar e estimular o imaginário da criança. Auxiliando sua compreensão de mundo e a resolução de conflitos internos.

O mercado literário também precisou se adaptar rapidamente às mudanças em razão da pandemia. Após perceber a expansão digital e a necessidade de focar as vendas no comércio online, passou a investir de forma mais intensa nos lançamentos virtuais. 

Nesse sentido, o mais recente livro de literatura infantil da Editora Vacatussa Be-a-bá, escrito por Thiago Corrêa Ramos, é um exemplo de inovação nessa linha editorial. A obra conta a história de um bebê em seu desafio natural de crescimento.

Ilustração de Júlia Farias

A narrativa passeia pelo processo de desenvolvimento da criança. Vai desde o choro, que é o seu primeiro recurso de comunicação, até a invenção das próprias palavras, o momento de fazer planos e sonhar. Acompanhada pelas ilustrações da pernambucana Júlia Farias, os desenhos funcionam como uma forma de traduzir em imagens o processo de amadurecimento da garotinha.

O livro propõe como metáfora, uma viagem que acompanha as conquistas da linguagem pela humanidade através de um divertido passeio pela História da Arte, apresentando uma galeria com analogias que reúne pinturas rupestres, videogame e grafite.

Essa é a segunda narrativa infantil do autor, que começou a escrever para crianças depois que virou tio e, também, pai  de duas meninas. Sua inspiração veio do pedido da escola onde estudam as filhas, que, em seus aniversários, pedem aos pais que selecionem algumas fotos para contar como foi cada ano de vida dos seus colegas. A partir disso, o autor resolveu fazer um livrinho de lembranças contando a história dos dois anos da caçula, que contribuiu carimbando as capas com as mãos pintadas de tinta. Na brincadeira, também foram utilizadas imagens impressas da internet e costuradas à mão. 

Da versão caseira, percebeu-se o potencial de virar um livro de divulgação ampla, com adaptações para tornar a história mais universal, focando nas primeiras etapas de crescimento da criança. As ilustrações, além de também participarem da narração, fazem alusão às conquistas da humanidade ao longo dos séculos em diferentes formas de expressão artística.

O terceiro título do segmento infantil lançado pela Vacatussa, é o sétimo publicado pela editora. Para este ano, estão previstos outros três lançamentos na linha infantil. O livro, lançado em 5 de dezembro do ano passado, se consolidou entre os três mais vendidos no site da editora em janeiro deste ano.

O livro Bê-a-bá carrega muito do que a literatura infantil contemporânea propõe: trazer diferentes visões e construções de mundo através de imagens e palavras. Não obstante, essas narrativas servem de forma pedagógica em sala de aula, como forma de introduzir novos olhares, despertando a curiosidade dos pequenos leitores.

A pedagoga Nadja Carvalho, poetisa, escritora e professora da rede de ensino municipal de Garanhuns, desenvolveu três livros de literatura infantil pela editora Prazer de Ler e trouxe sua perspectiva em relação a esse mercado e a importância para o desenvolvimento da criança. 

A literatura infantil é uma área que ainda sofre preconceitos por alguns especialistas presos a uma visão conservadora. Ela menciona a falta de notoriedade à abordagem lúdica atual. Nadja destaca que têm crescido os debates acerca da função e do posicionamento de escritores dos livros infantis.

A autora conta que criou seu primeiro livro, A família da gente é diferente, lançado em 2013,  por uma necessidade que surgiu quando trabalhava na rede de educação em Recife, em uma escola que não tinha livros que abordassem as diversas formações familiares existentes. Nadja se utiliza disso em sua obra, como inspiração para retratar as famílias de seus alunos e suas construções diversas.

O processo de criação de seus personagens é um trabalho em conjunto com a editora que, a partir do momento que observam a temática abordada, escolhem o ilustrador que irá contribuir. O seu primeiro livro foi construído com a contribuição do ilustrador Luciano Félix, que de forma bastante poética, se inspirou em traços afro-descendentes.

Suas outras criações foram Revolução Marinha e Mãe tem cheiro de quê?, publicadas em 2016. O primeiro livro  teve como personagem principal a tartaruga Dona Tuga. Movida pela preocupação em relação ao aumento da poluição no seu habitat, a tartaruga convocou seus colegas em busca de uma solução para o problema. Já o segundo, trata do afeto maternal e da busca da personagem Bia em compreender o cheiro da sua mãe e das mães dos seus coleguinhas.

A criação em conjunto do escritor e do ilustrador, com suas riquezas nos detalhes e inspirações em um mundo real, convoca o lúdico. Num mundo repleto de informações, nesse espaço infantil de alegria, inocência e curiosidade pela pouca experiência com o mundo real, o objetivo de educar e ajudar os pequenos nos enfrentamentos das realidades diversas, é o que motivam as múltiplas narrativas.

Sem apenas o ‘certo’ e ‘errado’ para nortear os enredos, esse segmento se consolida com a missão ampliar esses olhares que tanto desejam aprender sobre o mundo. Há um enorme potencial de crescimento para esse tipo de literatura no Brasil, e com isso, os pequenos só agradecem.

Memória, identidade e resistência em Perro Viejo

“O pai do senhor do engenho foi quem o chamou

assim: Cachorro velho, e ninguém mais voltou a

lembrar do seu verdadeiro nome.”

(Perro Viejo)

Mulher negra com turbante e roupas coloridas fazendo pose sentada na cadeira.

Teresa Cárdenas, escritora referência na literatura contemporânea cubana. Foto: acervo pessoal. 

O dia 25 de março foi proclamado como o dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Nesse sentido, a literatura da escritora cubana Teresa Cárdenas surge de modo a contribuir para um pensamento revolucionário. Memória, identidade e resistência são alguns dos termos que norteiam a narrativa de Cárdenas. Em sua obra Perro Viejo (2005), ganhadora do prêmio da Casa De Las Américas, Cárdenas descreve por meio de memórias fragmentadas e dolorosas, a história de um homem negro que foi escravizado em um engenho de cana de açúcar cubano durante toda sua existência. 

Em exclusiva para o Café Colombo, a escritora relata o seu processo de escrita como um momento de conexão consigo mesma. “Às vezes ouço música afro-cubana com tambores e canções cerimoniais, e isso me introduz em uma bolha de tempo onde vejo meus personagens com mais clareza. Outras vezes, só preciso de silêncio e um pouco de café. Sempre varia, embora nunca deixe de ser intenso e até de partir o coração. Sou uma mãe solteira com três filhos e tudo isso requer muito tempo e força. Portanto, terminar um livro, publicá-lo e alcançar os leitores é uma grande vitória. Cada livro é uma alegria. Um alívio de finalmente ver em um livro, aquela ideia que me assombrou por meses ou talvez anos”, diz Cárdenas. 

“Escrevo sentada no canto da cama, de pernas cruzadas com meu velho laptop, mas por dentro, é como se eu estivesse correndo, meu pulso dispara, meu coração pula. Minha respiração é curta, é uma paixão, um desespero que amo. Existo para o momento em que escrevo. Só porque posso escrever, eu existo. E tudo tem a ver com ser mulher negra, nascida no Caribe, falante de espanhol, afro-cubana. É difícil não sentir a força e a resistência de meus ancestrais africanos por trás de cada palavra escrita. Ou a alegria e a tristeza de uma mulher da ilha, afro-latina, rodeada de mar e banhada de sol.”

No romance de ficção Perro Viejo, publicado no Brasil em 2010 pela editora Pallas com a tradução Cachorro velho, Cárdenas escreve sobre um dos fatos mais cruéis da história da humanidade: a escravidão. Priorizando as vozes daqueles que foram silenciados pela história, a autora vem conquistando o mercado editorial como uma das vozes negras mais significantes na literatura contemporânea. 

Duas capas de livro com os Títulos Perro viejo e cachorro velho. Uma capa marrom com uma silhueta de um homem negro e a outra mais clara com um pássaro desenhado.

Na imagem, versões Cubana e Brasileira de “Perro Viejo”, livro ganhador do prêmio da Casa De Las Américas. Foto: Reprodução.

A literatura pós-colonial – onde o colonizado assume o protagonismo para contar sua própria história – rompe com a subordinação colonialista do discurso,  expondo as profundas marcas da violência física e moral da escravidão. Assim também como a própria violência da diáspora, que tirou os negros de suas terras, de seus laços culturais e sociais, para serem submetidos às línguas e culturas dos povos colonizadores, eliminando assim, suas próprias identidades, resumindo suas vidas a uma mercadoria. Perro Viejo, dá voz ao oprimido de forma simples e impactante para todos que se propuserem a ler. 

Teresa classifica os seus textos como: 

“Uma literatura da memória, do que herdei dos meus antepassados ​​e que hoje vive debaixo da minha pele. Como se as histórias me escolhessem para contá-las. Eu não escreveria da mesma forma se tivesse nascido em outro lugar e época. Os meus temas têm a ver com a história do meu povo atravessando o Atlântico de forma dolorosa. São temas de sobrevivência, de apego à vida mesmo após a morte. Deixe suas palavras como legado para as novas gerações. Minha literatura é apenas uma cesta que herdei, com histórias e personagens que certamente viveram em alguma parte da história. Minha missão é passar tudo o que aprendi para crianças e jovens desta geração.”

A narrativa no livro se desenvolve em pequenos capítulos que nos leva a seguir o fluxo de pensamento do Cachorro velho – nome que foi dado ao personagem que protagoniza a história – o que desperta no leitor uma reflexão a respeito do processo de construção, busca e recuperação de uma identidade que foi tomada de forma violenta, trazendo à tona a condição de vida e morte. Para o Cachorro velho, o inferno cristão dos brancos não se distinguia da sua vida na condição de escravizado. “Nossa história não começa na escravidão, nem fomos responsáveis ​​por ela. No caso do meu livro Perro Viejo, quis recordar a essência daquelas pessoas que foram avós dos nossos avós, as suas crenças e medos, a sua resistência e coragem. Seu desejo de voltar à África, que era o mesmo que voltar a ser livre, seu desejo de permanecer vivo após a morte.”

O personagem e todos que estiveram um dia na condição de escravizados tiveram que lidar com a violência e com o exílio, restando apenas as memórias para os mais velhos. E para os que nasceram longe de suas raízes, sobrou a imaginação. Cachorro velho só conhecia a África em que nascera sua mãe, através das histórias dos escravos mais velhos. Não havia céu e inferno, o inferno para ele era o presente, e se existisse um céu, o seu seria voltar à África, um lugar de libertação e recomeço.

Teresa Cárdenas explora narrativas que não são recorrentes na literatura juvenil – pelo menos no Brasil – no entanto, ela decidiu direcioná-las a esse público em virtude da própria experiência durante seu processo de formação na infância. Durante sua infância não leu livros que deveriam ser para crianças da sua idade por não se sentir representada nas personagens descritas. Por volta de seus 12 ou 13 anos, Cárdenas leu autores como Balzac, Maupassant, Poe, Eluard, Vallejo, Carpentier, García Márquez, Hemingway, Ray Bradbury e Agatha Christie.

“Eu morava em um internato de esportes que não gostava e só no fim de semana voltava para casa com minha mãe. Precisava de um mundo para me refugiar, e os livros para adolescentes não tinham nada a ver comigo. Eu não estava neles. Os personagens que me contaram suas histórias tinham olhos azuis, cabelos loiros que flutuavam com o vento, choravam e desmaiavam, choravam. Foi difícil para mim me identificar com esses livros. Eles limitavam minha imaginação, então eu fugi para outros livros. Minha mãe comprou muitas revistas de humor, um tio me deu um jornal. Também gostei muito de poesia e de livros intensos, com ótimas imagens e longos diálogos. Porém, um dia percebi que nem nos livros para jovens leitores nem nos para adultos havia alguém como eu. Procurei e não consegui me encontrar, então senti que algo não estava certo.”

“Muitos anos depois, quando comecei a escrever, esse era o meu objetivo, o meu desafio: escrever sobre aqueles que não aparecem nos livros infantis e juvenis: os personagens negros. E junto com eles, aproximar-se de temas que também não foram tocados, como o racismo, a violência contra a mulher, o abandono de idosos, a reivindicação de figuras históricas africanas, a emigração, o abuso sexual de meninas, a menstruação, a religião afro-cubana, o tráfico de escravos. São questões que sempre me preocuparam, algumas delas vivi desde criança. E tive que aprender a lidar com tudo sozinha. Escrevo, entre tantas coisas, para ajudar, para acompanhar as negras de hoje. Para que muitos se sintam representados e acompanhados.”

Em Perro Viejo, o leitor aborda questões sobre a memória, através das recordações do personagem que só se lembra do tempo em que viveu escravizado e, em meio a privações, nunca conheceu outra realidade durante seus 70 anos. Não sabemos sobre as datas dos eventos em que se passa a história do Cachorro velho, um homem que foi obrigado a aceitar tal condição que foi imposta, um homem sem esperanças que sentia a idade avançando, esperando o momento em que seria descartado. 

Cachorro velho só teve um grande amigo, passou muitos anos de sua existência lembrando de um único grande amor que nunca pôde ser vivido. Perro Viejo apresenta a reflexão sobre o apagamento da memória, assim como outros livros da autora, a exemplo de Cartas al Cielo (1997), o qual  fez Cárdenas a vencedora do Prêmio de La Crítica em Cuba.  O livro foi publicado no Brasil pela editora Pallas em 2010 com a tradução de Cartas para Minha Mãe.

“O apagamento da memória é produto do racismo e de toda a sua violência, discriminação e estereótipos. Muitas gerações de afrodescendentes cresceram no meu país tentando esquecer a sua origem. Sentiam que reconhecer-se como africanos era um indício de atraso ou de uma pessoa de pouco conhecimento e valor. Na minha infância, muitas meninas negras como eu tinham pentes quentes para relaxar os cabelos. Nas escolas éramos provocadas por causa de nossos narizes e da grossura de nossos lábios. Foi muito difícil.”

Em seu novo livro Mãe sereia (2018), Cárdenas narra o que aconteceu no primeiro navio carregado de escravos que saiu da costa da África em direção ao Novo Mundo. Mãe Sereia é uma fábula da realidade, entrelaça história e ficção. E assim como em Perro Viejo,  existe crueza e magia. Com fantásticas ilustrações de Vanina Starkoff, o livro foi publicado também pela Pallas, editora inclusiva, que atualmente possui um considerável catálogo direcionado aos temas afrodescendentes. 

Sobre a nova publicação, ela descreve: “Foi um desafio, em nenhum livro para crianças cubanas conta-se a experiência sofrida por aquelas pessoas. A tortura, a dor, a morte falada com tanta atenção.” Essas pessoas são acompanhadas na viagem por uma antiga sereia, representação de Iemanjá. A deusa yorubá das águas salobras que também é a personificação da África e que sempre estará com ela. É um livro para crianças, jovens e também adultos, mas no caso das crianças recomendo que a sua leitura seja acompanhada pelos pais ou professores.”

Teresa Cárdenas Angulo, Nasceu em Matanzas (Cuba), no ano de 1970. Seus livros foram publicados em diversos países da América Latina, África do Sul e Europa. É uma mulher de seu tempo e escreve recriando espaços de protagonismo negro na literatura. Ao lado mulheres que revolucionaram o mercado editorial, a exemplo de Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou e tantas outras que são o vértice da literatura escritas por mulheres. 

Centenário da vida de Carolina Maria de Jesus: do papel do lixo ao papel dos livros

Carolina Maria de Jesus. Autorretrato. Mulher negra com lenço no cabelo, na porta de sua casa, cor branca, e o livro Quarto de Desejo posicionado na sua frente.

Carolina Maria de Jesus e a sua principal obra, “Quarto de Despejo” (1960). — Divulgação

Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solteira de três filhos, foi catadora de papel e se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira. Ela amava a literatura, escrevia e lia todos os dias. A autora sempre acreditou no poder do que ela tinha a dizer. E quanto a isso, estava mais do que certa.

Carolina nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais. Filha de pais analfabetos, frequentou a escola somente até o segundo ano do Ensino Fundamental, devido às difíceis condições que levava. A escritora narra em sua obra mais famosa, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, que o sonho da sua mãe era que ela se tornasse professora. 

A autora não pôde concluir os estudos, mas seguiu percorrendo o caminho da leitura e da escrita por conta própria. A sua filha Vera Eunice, que dos dois aos seis anos é também personagem da obra Quarto de Despejo, contou em uma entrevista para a Rede TVT que sua mãe aprendeu a ler praticamente sozinha, porque procurava ler tudo o que pudesse. Vera Eunice se tornou professora. Realizou o sonho que também foi sonhado pela sua mãe, Carolina.

Quarto de Despejo: Diário de uma favelada é a primeira e principal obra da escritora. A publicação foi um choque para a sociedade na época, ninguém havia narrado a favela com tanta intimidade. O livro é um dos diários escritos por Carolina de Jesus, em que ela relata o seu dia a dia na favela do Canindé, que ficava localizada às margens do rio Tietê, em São Paulo. São 175 dias narrados pela autora, entre 1955 e 1960, nos quais ela relata seus dias, dos seus filhos e de seus vizinhos acometidos pela miséria, precariedade e violência. 

A realidade de uma despejada

Carolina afirmava que escrevia a realidade e tinha o objetivo de denunciar os problemas que existiam na favela. “Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade”.

Em diversas passagens ela se queixa dos políticos por entender que eles eram os responsáveis pelo alto custo de vida, enquanto negligenciaram a favela. Ela conta que as autoridades ignoraram o quarto de despejo, citando vereadores, deputados, governador e o presidente da república da época, Juscelino Kubitschek. “Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem: — Não chores por mim. Chorae por vós” — suas palavras profetisava o governo do Senhor Juscelino […] Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome”.

Ela conta que o país deveria ser governado por quem já passou fome, pois a fome também é professora. “[…] O que eu aviso aos pretendentes a política é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” E Carolina de Jesus sabia descrever a fome.

“Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.” 

Cor que não é a única metaforizada pela escritora. O roxo é usado para descrever a amargura que envolve os corações dos favelados, e o preto define a sua vida, a sua pele, o lugar onde mora. 

Descoberta de Carolina

O livro foi publicado por uma iniciativa do repórter Audálio Dantas (1929-2018), que conheceu Carolina quando foi em 1958 ao Canindé para escrever uma matéria sobre a favela  que se formava à beira do Tietê. Carolina abordou o jornalista e contou que era escritora. 

Mas essa não tinha sido a primeira vez que Carolina de Jesus havia entregue os seus escritos para que fossem publicados. A mineira já havia mandado diversas vezes o seu material para editoras, inclusive para uma dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Entretanto, o repórter Audálio de imediato soube reconhecer a grandeza do que tinha diante de si. “A história da favela que eu buscava estava escrita em uns 20 cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história — a visão de dentro da favela”, conta Audálio na introdução do livro publicado em 1960.

O jornalista também foi editor do livro e decidiu por preservar a linguagem de Carolina, mantendo as marcas de oralidade da autora. O seu trabalho de edição foi mais voltado para selecionar o que iria para o livro, visto que Carolina era extremamente descritiva sobre o seu cotidiano. As marcas de oralidade dão ao texto uma maior aproximação do leitor com a voz da autora, que por ter pouco tempo de escolaridade não dominava a norma padrão da língua portuguesa. 

Um olhar que metaforiza a vida

A falta de formação escolar não impediu a autora de retratar a realidade das pessoas periféricas, nem de ter um pensamento crítico, além disso, na sua escrita, prevalecem metáforas e metalinguagem. Como o próprio título do livro menciona, a autora cita várias vezes na obra que a favela é um quarto de despejos.

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”.

A analogia do quarto de despejo surgiu após Carolina de Jesus ser expulsa, junto com outros moradores, da antiga favela do Canindé para que fosse construída a atual Marginal Tietê. “[…] fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que a favela é o quarto de despejos de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, descreve.  

No livro Quarto de Despejo, a personagem principal é a fome. Carolina de Jesus narra sua rotina de tentar fugir da fome, matar a fome dos seus filhos e sair de uma vez da favela. Ela trabalha catando papel na rua e qualquer outro material que possa vender, mas o dinheiro não é suficiente. Muitas vezes ela precisa revirar os lixos em busca de comida. 

O desejo de ir embora da favela acaba se misturando com outros sonhos. Carolina Maria de Jesus sonha com uma vida melhor enquanto dorme, assim como quando está acordada. “[…] Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. […] Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades.

É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela”. 

Ela também sonha com o dia em que seus livros lhe renderão uma casa de alvenaria. Casa de Alvenaria: diário de uma ex- favelada é o título do seu segundo livro, publicado em 1961. 

O álcool e o álbum

Além da fome, a mineira relata a constante violência na favela. Muitas mulheres para não serem agredidas pelos seus maridos, corriam para a rua despidas. E os homens eram basicamente divididos em três categorias: os doentes, os desempregados e os embriagados. Carolina conta que muitas vezes o álcool motivava as brigas entre os casais, e o alcoolismo aparece como um problema que atinge uma grande parte daqueles moradores, inclusive as crianças.

Já ela se mostra totalmente contra o abuso da bebida. “[…] não vou beber. Não quero viciar. Tenho responsabilidade. Os meus filhos!”. Como também observa-se na música A Marcha do Pinguço composta por Carolina Maria de Jesus. Ela deixa bem claro em sua marchinha de carnaval “Eu é que não sirvo para ser mulher de pinguço.”

Verônica Ferriani e Rolando Boldrin interpretam A Marcha do Pinguço, de Carolina de Jesus.

Carolina Maria de Jesus gravou um álbum de samba chamado Quarto de Despejo, em 1961. Aos interessados em sua literatura, vale a pena conferir:

Álbum Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

O fim de Carolina

O livro Quarto de Despejo é encerrado com uma frase que demonstra que a rotina de uma favelada não muda, não acaba: “1 DE JANEIRO DE 1960  Levantei as 5 horas e fui carregar água.”

Como exceção, para a autora aquela rotina mudou após a publicação do seu livro. A escritora fez bastante sucesso e conseguiu a sua sonhada casa de alvenaria. Mas infelizmente, no final da vida ela estava novamente passando  necessidades e faleceu de asma em 1977, em sua casa no sítio em Parelheiros, município de São Paulo.

Carolina Maria de Jesus se tornou a escritora negra mais traduzida e mais editada no mundo. A sua história está presente em 46 países e em 16 línguas, tendo sido best-seller em vários países. Em fevereiro deste ano foi homenageada recebendo o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

A conquista do voto feminino: os movimentos sufragistas pioneiros de Pernambuco

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira, pioneiras do sufrágio feminino.

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira: pioneiras do sufrágio em Recife.

O sufrágio feminino foi um movimento político que atingiu diversos países europeus e se espalhou pelo mundo no final do séc. XIX. O  movimento era composto por mulheres – e homens – que estavam na luta pelo direito de participar da vida política. Direito que era negado por uma sociedade patriarcal e machista que presumia que a mulher não tinha lugar no espaço cívico-político. 

No Brasil, o sufrágio veio embalado pelo fim da monarquia e pela proclamação da república. Os ideais modernos e a vida urbana permitiram que as mulheres da classe média começassem a ocupar espaços que antes não alcançavam. 

Em entrevista para o  Café Colombo, a graduada em História pela Universidade Federal do Paraná, Naiara Busulo,  falou um pouco desse cenário: “A luta pelo direito do voto feminino passou a ter maior relevância no Brasil no final da década de 10, ao longo de toda década de 20, até culminar na conquista do voto em 1932. Apesar de no séc. XIX, quando se estava discutindo a primeira constituição republicana, já tinha se colocado em pauta o direito ao voto pelas mulheres.”

Primeira página do estatuto da FBPF.

Primeira página do estatuto da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1929. Fonte: Arquivo Nacional.

Busulo destaca dois nomes da luta sufragista brasileira, Leolinda Daltro, uma pioneira, e Bertha Lutz, um nome de destaque do movimento. “Leolinda era professora e foi criadora do Partido Republicano Feminino (PRF). Já na década de 1910, ela tentou uma candidatura mas teve seu pedido negado.” Logo depois, veio Bertha Lutz, que educada na França teve contato com o sufrágio inglês e trouxe suas ideias para o Brasil, de forma adaptada, já que as ações das sufragistas inglesas eram violentas demais para o cenário brasileiro da época. “A presença de Bertha na imprensa e o espaço que ela conseguiu junto a outros políticos homens, tornam ela a principal figura do sufrágio brasileiro, talvez a que tenha levado efetivamente a vitória da conquista ao voto no início da década de 30”, afirmou a paranaense.

O sufrágio pernambucano

Sendo Recife um polo econômico e político da época, a Veneza brasileira não ficaria para trás nos movimentos que levaram à conquista do voto feminino em 1932. Duas organizações vão se destacar no cenário feminista pernambucano do início da década de trinta, são elas a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), liderada por Edwiges de Sá Pereira, e a Cruzada Feminista Brasileira, sob a direção de Martha de Hollanda. Ambas mulheres ativas do âmbito intelectual brasileiro como escritoras e poetisas.

Edwiges de Sá. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Edwiges de Sá Pereira. Jornalista, educadora, poetisa e ativista feminista. Fonte: Acervo da Fundaj.

Edwiges nasceu no município de Barreiros, em 1885. Filha de advogado, teve pleno acesso aos estudos, diferentemente da maioria das mulheres de sua época. Foi  jornalista, professora, poetisa e escritora. Na juventude, fundou com seu irmão, Eugênio de Sá Pereira, o jornal manuscrito “Eco Juvenil” e a revista literária “Azul e Ouro”. 

A FPPF foi criada em 1931, como uma filial da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino criada por Bertha Lutz, por um comunicado no periódico  A Notícia, Edwiges convocou as mulheres pernambucanas que se interessavam pelas causas feministas. 

As falas de Edwiges de Sá pelo movimento sempre incluíam um viés cristão e conservador. Contra o divórcio, defendia a feminilidade da mulher e era contrária a noção popular de que o feminismo a masculinizava, acreditando que esta devia ter “aspirações nobres dentro e fora do lar […] e para isso teria que se elevar a educação feminina”. Conforme Lopes cita Nascimento em seu artigo “É preciso votar! A luta das mulheres pelo direito ao voto em Recife”.

Martha de Hollanda. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Martha de Hollanda, jornalista, poetisa e ativista pelo sufrágio feminino. Fonte: Enciclopédia do Nordeste.

Martha de Hollanda nasceu perto da capital, em Vitória de Santo Antão. Vinda de uma família tradicional, ela dedicou sua vida ao jornalismo, ao feminismo e à poesia, publicando um livro de poesias intitulado “Delírios do nada”, em 1930.

Com suas ideias revolucionárias e a favor do divórcio, Martha lutava pelo acesso da mulher à política e aos direitos civis. Sob sua liderança, a Cruzada Feminista caracterizou-se como um movimento de extrema importância para a conquista do sufrágio. Ela e a artista Celina Nigro foram as primeiras mulheres a alistarem-se para obter o direito ao voto em Pernambuco, pedido este que foi noticiado pelo periódico do Jornal do Recife. 

O sufrágio pernambucano começou nessas duas vertentes de pensamento, uma mais conservadora e uma mais radical, mas de igual importância e marco histórico. Apesar de algumas diferenças, ambas as organizações tinham forte cunho político e defendiam o acesso à educação da mulher nordestina. O movimento era composto por mulheres solteiras, casadas, professoras, comerciantes, ou seja, mulheres da classe média alta e da elite pernambucana.

É bom lembrar que a maioria das sufragistas brasileiras pertenciam à elite econômica e intelectual da época. Naiara Busulo critica essa postura em sua monografia sobre Maria Lacerda de Moura, uma feminista que se afastou do movimento sufragista pois percebeu que haviam falhas na iniciativa e passou a dar importância a outras pautas, como, por exemplo, o socialismo. Com ideias libertárias, chegou a morar em uma comunidade anarquista. 

“É importante entender que a luta pelo voto feminino no Brasil é extremamente elitista. Ele já começou com muitas pessoas não tendo esse direito, era um voto limitado de pessoas letradas. Quando a luta das mulheres entrou em pauta, não se discutia estender também para mulheres analfabetas ou homens analfabetos. Era exclusivamente a conquista do voto feminismo pelas mulheres da elite”, critica a historiadora. 

A Cruzada Feminista desempenhou uma das publicidades de maior relevância da época para o sufrágio feminino em Recife, com uma campanha dedicada às viúvas, em que mostraram apoio a essa parcela da população feminina, aproximando essas mulheres do movimento. Devido a grande repercussão, a ação teve reconhecimento da Secretaria de Viação, Agricultura, Indústria, Comércio e Obras Públicas do Estado de Pernambuco.

Convocação de apoio as mulheres viúvas pela Cruzada Feminista.

Convocação da Cruzada Feminista em auxílio das viúvas, publicada no Jornal Pequeno em 1932. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco.

Os movimentos pelo sufrágio das mulheres não foram completamente aceitos na época, como até hoje não são. As sufragistas brasileiras enfrentaram críticas e hostilidades de conservadores que usavam argumentos religiosos e biológicos contra as mulheres que compunham o sufrágio, colocando até a menstruação como uma barreira para que as mulheres ocupassem cargos. 

Apesar das organizações feministas fazerem grande uso das rádios e jornais, a imprensa, ao mesmo tempo que dava visibilidade ao movimento, também o ridicularizava e distorcia seu significado. No entanto, em 24 de fevereiro de 1932, em meio a um regime originado de um golpe dado por Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o voto, enquanto junto ao restante da população, iam perdendo outros direitos. 

O movimento feminista enfrentou e ainda enfrenta, no Brasil e no mundo, entraves e bloqueios de pessoas retrógradas. A luta não parou até agora e o mais importante é que ela nunca pare. O enfrentamento pela igualdade de gênero numa sociedade que tem como fundação o elemento patriarcal machista é diária e se torna mais urgente de acordo com a cor e classe social. 

Ser mulher e estar no mundo é resistência. É se esforçar o dobro, o triplo, até não aguentar mais. Chamam-nos de louca, instável, sensível e paranoica. Nos querem mãe e esposa apenas e quando queremos isso também, nunca fazemos com excelência suficiente. Preferem que fiquemos quietas, castas e até concordam com a nossa luta, mas dizem: “não precisa de tudo isso”. Precisamos sim! Disso tudo e um pouco mais. 

A luta continua. Agarremo-nos umas às outras. 

Já que não é aconselhável ir às ruas para comemorar esse dia de muitas lutas e também, de muitas conquistas, o que acha de celebrá-lo com algumas dessas obras? Confira:

Enola Holmes 

Produzido pela talentosa Milly Bobby Brown, o longa disponível na Netflix, conta a aventura da irmã mais nova de Sherlock Holmes à procura da mãe. O filme se passa no cenário da luta sufragista inglesa, sendo super leve e divertido. Ainda assim, causa reflexões sobre o lugar da mulher na sociedade, na época e atualmente.  Pode ser encontrado na Netflix.

Trailer do Filme Enola Holmes, baseado na série de livros de Nancy Springer. Fonte: Netflix/Divulgação

Feministas: O que elas estavam pensando?

O documentário produzido pela Netflix aborda a segunda onda feminista, que teve seu inicio na década de 1960 e esbanjava mais pluralidade de classe, cores e sexualidade das mulheres. Ouvindo artistas que fizeram parte do movimento, como a atriz Jane Fonda e a fotógrafa Cynthia McAdams e destacando o impacto que essa nova fase deixou para a atual geração de mulheres. Mostrando-se um grande apanhado histórico, o documentário apresenta imagens e vídeos dos protestos e passeatas da época, demonstrando que muitas pautas que o movimento carrega hoje se originaram nessa época.  “Feministas: o que elas estavam pensando?” está disponível na Netflix.

Trailer do documentário “Feministas: O que elas estavam pensando?”. Fonte: Netflix/Divulgação.

As sufragistas 

Para quem curtiu Enola Holmes, vale a pena dar uma olhada em um filme mais sério. O filme de 2015 acompanha a luta pelo sufrágio na Inglaterra, os planos e as estratégias criadas pelas líderes dos movimentos a fim de ganhar notoriedade para a causa e a garantia de direitos. Sendo as sufragistas inglesas mais incisivas, o longa dá uma boa dimensão de tudo que teve que ser feito por essas mulheres e as atitudes radicais que precisaram tomar para serem ouvidas. O filme pode ser encontrado no Google Play e na Apple TV.

Trailer do longa “As Sufragistas”, de Sarah Gravon. Fonte: Universal Pictures/ Divulgação.

Esse texto teve como referência de nomes, data e história do movimento sufragista em Recife, o artigo escrito por Mirella Tuanny Ferreira Lopes, publicado no 18° Redor, – Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero

cantoria crua por nathália tenório e lua

Ancestralidade e musicalidade se reúnem no ‘Cantoria Crua’

cantoria crua - ilustração por nathália tenório e lua
Nathália Tenório e Lua assinam a arte que compõe a identidade visual do projeto. Imagem: Cantoria Crua/Divulgação

“Criar. Rememorar. Unir. Alimentar.” Sob este mote, Adalberto, João Euzé e Neto Sales guiam o Cantoria Crua, projeto artístico que mistura cantoria e artes visuais. Com a influência de artistas da terra, como Anaíra Mahin, Anchieta Dali, Bia Marinho e Zeto do Pajeú, a ancestralidade que vem dos poetas pernambucanos é a peça central da produção.

Do encontro entre os garanhuenses Adalberto e Euzé e o surubinense Neto Sales surgiram as composições repletas de poesia e mistério, que prometem oferecer uma experiência imersiva. Hoje, às 21h, o público pode ter acesso a um pouco desta atmosfera em um show online oferecido pelo espaço Ágora Sonora (clique para saber mais). A obra do trio, que tem raízes no universo dos cantadores típicos do nordeste brasileiro, exalta também a natureza e o encantamento.

“Cantoria Crua é uma salva a todos os poetas ancestrais e, para além disso, marginais. Somos a todo tempo criadores de obras que rememoram nossos antepassados, unem nossos seres e alimentam tanto a nós mesmos quanto a quem nos ouve. Somos cantadores traçados nas linhas que os mestres que vieram antes de nós escreveram”, diz Adalberto, que complementa: “O Cantoria Crua representa o novo que tem essência fincada no passado e na incompletude do ser presente.”

Em ‘Prece Marginal’, os artistas entoam: “Uma salva ao poeta ancestral / de riúna carregada com a magia / que espalhou pelos campos a agonia / o alento de seu verso atemporal / massapê ds cantoria marginal / entidade a dibuiar letras e notas / quando as unhas acariciam as cordas”

E, para complementar o espetáculo, os artistas se transformam nos personagens Busca, Andarilho e Chão Batido, cujos trajes foram idealizados pela figurinista Katarina Barbosa.

figurinos do cantoria crua, assinados pela garanhuense Katarina Barbosa
Assinados por Katarina Barbosa, os figurinos compõem as personas do espetáculo Cantoria Crua. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

“A arte é uma expressão universal com a essência na quebra de qualquer barreira. A música e a poesia são formas de arte que dialogam entre si de uma forma encantada, ao passo que outras linguagens artísticas também podem interagir com o mesmo nível de magia”, comenta Adalberto. Na identidade visual, o projeto conta ainda com a peça de barro criada pelo artista Tonfil.

a peça de barro criada por Tonfil compõe a odentidade visual do projeto
“A Cumade Fulozinha representa um dos mistérios mais queridos e cantados pelos cantores de “canções da mata”, contadores de lendas dos sertões e crianças. Por isso traz traços infantis e indígenas para lembrar nossa mistura cabocla por esses rincões, mas toca numa viola de cabaça com estilo barroco e trovadoresco. Na cabeça traz três folhas de caju, representando os três cantadores”, comentou Tonfil em seu perfil no Instagram. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

Para divulgar o novo projeto, o grupo, que conta com a produção da Epahey Produções Culturais, planeja a realização de um produto audiovisual que mostrará seis canções autorais. “Esse material será um portfólio virtual para o grupo que possibilitará o acesso a palcos e festivais, além de disseminar a produção autoral interiorana nas redes”, diz Adalberto. 

O local idealizado para as gravações dos vídeos é o Casarão do Jebre, pousada localizada em Maturéia, Sertão da Paraíba. Para isso, a equipe vem planejando uma campanha de financiamento coletivo, que você pode acessar clicando aqui. Aos colaboradores, será realizado um show online exclusivo, com data a ser definida.

E para 2021, os artistas também planejam o lançamento de um EP com quatro músicas, além de shows presenciais, quando for possível em razão da pandemia. Adalberto crê que o futuro reserva bons frutos para o Cantoria Crua: “Nossos passos são traçados no véu das coisas e, com toda a certeza, grandes momentos o universo tem reservado para fazer ecoar nosso canto e nossa força.”

adalberto, euzé e neto sales compõem o cantoria crua
Adalberto, João Euzé e Neto Sales, o trio que compõe o Cantoria Crua. Foto: Karol Albuquerque/Divulgação/Saulo Tavares.

Veja também: “Do Meu Coração Nu”: A virtuosidade e sensibilidade sonora-social de Zé Manoel