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Saudade marca ausência da 30° edição do Festival de Inverno de Garanhuns

O beija-flor, símbolo do Festival de Inverno, cochila com a falta da festa esse ano. Foto: Divulgação/Lucas Santos.

Nos últimos 29 anos, a média de 20° C é o principal motivo de Garanhuns se reunir para festejar durante dez dias no mês de julho. Nos 21 polos de música, literatura, cultura popular e exposições, o Festival de Inverno de Garanhuns atrai cerca de 600 mil pessoas, de acordo com a estimativa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Em razão da pandemia da COVID-19, que se alastra de forma nociva no país, a 30° edição do Festival entrou no rol de eventos cancelados no Estado de Pernambuco.Esse novo cenário que, há exatamente um ano atrás seria marcado por  novos cheiros e sabores experimentados pelos turistas e moradores da Cidade das Flores durante o Festival,  dá lugar ao isolamento e a lembrança.

“Me emociono com cada espetáculo que participo durante o Festival de Inverno de Garanhuns. Todos os lugares me deixam felizes. A festa em si sempre me deixa marcas. Quando termino, saio cheia de energia positiva’’, esse é o principal conjunto de sentimentos que a garanhuense amante da fotografia Sandra Ramos, descreve quando se despede do maior evento cultural de sua cidade. Em 1991, o festival iniciava e, com ele, o vínculo entre Sandra e as noites frias que envolviam os dias de festa. Participante de todas as 29 edições, a fotógrafa atravessa a cidade, nos mostrando os locais que mais sente falta durante o FIG.

Sandra nos convida a imaginar e revisitar o teatro Alfredo Leite Cavalcanti, principal ida da fotógrafa durante o festival, se torna o ponto mais aconchegante e nostálgico. “Um lugar muito marcante é a fila da bilheteria do teatro. Eles distribuem as entradas de manhã, então, todos vão muito cedo para a fila. Você conhece pessoas de todos os lugares e faz novas amizades. Além das pessoas que eu conheço há anos e sempre nos encontramos por lá”, disse. 

Ela também lista os palcos multiculturais presente na festa: o Pop, o da Cultura Popular e o Mestre Dominguinhos,  onde  passaram nomes como Letrux, Johnny Hooker e Priscila Senna; a Praça da Palavra, com os lançamentos literários; oficinas, espetáculos de dança e circo no Parque Euclides Dourado; os bolos e cafés da Estação Doçura; e os afters ao término de cada noite. Para o professor de História Julio César, o festival nos convida a ter contato com diversas manifestações artísticas, um verdadeiro símbolo de inclusão e novas experiências. 

Show do cantor Thiago Pethit no Palco Pop em 2013. Foto: Acervo Pessoal/Sandra Ramos.

Além disso, o festival contribui para um grande crescimento econômico da cidade. “O evento traz consigo uma importante contribuição, tanto do ponto de vista econômico, como na exposição do trabalho de várias pessoas que vivem da arte em Pernambuco’’, diz o professor. A Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico (SDE) divulgou uma pesquisa sobre a edição de 2019 que consta a boa movimentação na cidade em comparação a 2018. A Casa da Arte, museu aberto às exposições e feirinhas, obteve um aumento de 100%, enquanto a rede hoteleira da cidade faturou 83% a mais em relação a 2018, seguida de 60% na rede alimentícia

Para conseguir acompanhar todos os espetáculos desejados e conhecer novos artistas, Sandra Ramos acorda cedo e segue à  risca uma planilha de horários. A ideia de organizar o calendário do festival surge da sua vontade de conhecer novas atrações, para além das que são realizadas na Praça Mestre Dominguinhos, considerada o ponto principal da festa. “Nos 3 ou 4 primeiros anos eu só me ligava em ir para os shows da Praça Mestre Dominguinhos, como até hoje, as pessoas acham que o festival se resume a esses shows […] Atualmente eu faço uma planilha e procuro ver shows e coisas que  ainda não vi nas edições passadas”.  

Nessa sua caminhada por palcos e praças, Sandra chegou a conhecer grandes artistas nos quais admira. O cantor Ney Matogrosso, em 2013, passava sua turnê “Atento aos sinais” por Garanhuns. Uma das suas maiores emoções,  foi quando Sandra conheceu Ney no FIG, e pôde lhe dar um grande abraço. “Tenho um carinho enorme por ele, por ser um dos artistas mais completos no meio musical. Me senti maravilhada quando o abracei, tirei fotos e pedi um autógrafo”, comenta.

Sandra também coleciona encontros com o cantor e intérprete Lenine, o Maestro João Carlos Martins, o escritor Ariano Suassuna e as cantoras Elba Ramalho, Alcione e Ângela Maria. Sobre as duas últimas, ela comenta “me marcou muito conhecer Alcione e Ângela Maria. Eu cresci escutando as músicas delas porque meu pai amava. Poder abraçá-las foi como se meu pai estivesse comigo”.

Para não esquecer as lembranças de inúmeras noites vividas nos 29 anos de Festival, Sandra Ramos coleciona fotos e folhetos de todas as edições. “Hoje estamos sob uma pressão de evitar aglomerações e não poder participar de grandes eventos culturais presenciais, então suscitar memórias como essas, nos traz uma importante reflexão sobre o papel das artes nas nossas vidas” menciona Julio César.

O professor ainda cita que para Nietzsche, “temos a arte para não morrer de verdade”, e continua “me parece muito verídica essa afirmação, sobretudo quando pensamos nos números de mortes diárias, na inércia do Governo Federal em relação ao COVID-19 e o próprio distanciamento que vem ocasionando problemas psicológicos’’. O beija-flor descansa este ano, mas se prepara para as próximas edições que virão.

Ariano Suassuna: amante obstinado da identidade nordestina

O artista ganhou reconhecimento mundial com a obra O Auto da Compadecida. Foto: Antônio Duarte.

Em 2014, no dia 23 de julho, o renomado escritor, poeta e dramaturgo brasileiro Ariano Vilar Suassuna, faleceu na cidade do Recife. Amante e defensor da identidade e do  folclore nordestino, dono de um humor inconfundível, o artista deixou seu nome gravado na literatura e no teatro nacional.

Paraibano, nasceu em 16 de junho, na cidade de Nossa Senhora das Neves, conhecida hoje por João Pessoa. Filho do ex-governador da Paraíba João Suassuna e de Rita de Cássia Villar, foi o oitavo entre os nove filhos do casal. 

Após o assassinato do seu pai, durante a revolução de 1930, a família se mudou para a Taperoá, uma cidade localizada no interior do Estado. Nesta época, Ariano deu início aos estudos primários e passou a ter contato com a cultura regional por meio dos sons de violas e das apresentações de mamulengos. 

Mudou  para o Recife em 1938, onde estudou nos colégios Americano Batista, Oswaldo Cruz e Ginásio Pernambucano. Em 1945, estreou na literatura com o poema “Noturno” publicado pelo Jornal do Comércio.

Primeira estrofe do poema Noturno de Ariano Suassuna

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, em 1946 e, no mesmo ano, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto a Hermilo Borba Filho e outros colegas de classe. No ano seguinte, escreveu sua primeira peça chamada “Uma Mulher Vestida de Sol” e “Cantam as Harpas de Sião”, em seguida.  Em 1950,  concluiu o curso de Direito, dedicando-se à advocacia e ao teatro. 

Ariano Suassuna ficou reconhecido por sua obra-prima “Auto da Compadecida” (1955), uma peça teatral em forma de auto — de grosso modo, uma composição teatral cômica de linguagem simples, composta por um único ato  —, cultura popular e tradição religiosa. A peça foi encenada pela primeira vez no Teatro Adolescente do Recife, em 1957. Ainda no mesmo ano, conquistou a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A obra foi traduzida em nove idiomas e representada no exterior. 

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”

Ariano Suassuna.

Filme O auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes. Foto: Divulgação/Filme

A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1968 e, só 31 anos depois, apresentada em formato de minissérie pela Rede Globo. Com o sucesso desta última adaptação, em 2000, ganha seu espaço nos cinemas. Deste então, nome da peça recebeu o acréscimo do artigo “o” tornando-se “O Auto da Compadecida”. O filme recebe a participação de Rosinha, Vicentão e Cabo Setenta, personagens das obras “Torturas de um Coração” e “O Santo e a Porca”, também escritas pelo autor. 

O Auto da Compadecida continua sendo repercutido e inspirando muitas pessoas. Recentemente, alunos do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, criaram a radionovela  “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, inspirada nas fortes críticas trazidas por Ariano  a temas como a corrupção e a exploração da pobreza. A ação faz parte do projeto de extensão Literatura nas Ondas da Rádio, que tem como objetivo veicular radionovelas que são adaptações de obras literárias produzidas por autores nordestinos. Confira a entrevista produzida pela equipe do Café Colombo clicando aqui para saber mais sobre a iniciativa. 

No ano de 1956, Ariano abandonou a advocacia e passou a lecionar na Universidade Federal de Pernambuco, onde mais tarde foi nomeado diretor do Departamento de Extensão Cultural da instituição. Além de escritor, ocupou cargos políticos e atuou como  membro do Conselho Estadual e Federal de Cultura de Pernambuco. 

Em 19 de janeiro 1957, casou  com Zélia de Andrade Lima, com quem teve seis filhos. No mesmo ano, escreveu a peça “O casamento suspeitoso”, uma comédia que carrega características da literatura de cordel e dos folguedos populares nordestinos. A obra conta a história do casamento entre Geraldo e Lúcia, que havia planejado casar apenas com interesse pela fortuna do rapaz. 

Em 1970, fundou o Movimento Armorial. A iniciativa buscava orientar as mais diversas expressões artísticas —  dança, literatura, música, cinema e outras — na criação e valorização dos aspectos eruditos  da arte a partir da cultura popular nordestina. Faziam parte do movimento o músico Antônio Madureira, o autor Francisco Brennand, o jornalista Raimundo Carrero

No ano de 1971, lançou a obra “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, inspirado no evento ocorrido no município de São José do Belmonte, próximo à  Recife. Realizado em 1836, foi criado uma seita na tentativa de reviver o rei Dom Sebastião, que havia desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, na África, e tornou-se lenda em Portugal.  Com mais de 15 livros e 18 peças de teatro, Ariano passou ocupar a cadeira de nº 32 na Academia Brasileira de Letras, em 1990. Já em 1993, foi eleito para a cadeira nº 18 da Academia Pernambucana de Letras. Em 2000, ocupou a cadeira de nº 35 da Academia Paraibana de Letras.

Já aposentado pela UFPE, foi convidado, em 2007, pelo  ex-governador   Eduardo Campos para assumir a Secretaria Especial de Cultura de de Pernambuco. No segundo mandato do governador, passou a integrar a Assessoria Especial do Estado. 

O escritor percorreu o Brasil ministrando aulas-espetáculos em teatros e universidades. O célebre artista, faleceu aos 83 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Com personagens e tramas cativantes, Ariano Suassuna deixou um grande legado de obras dentro da cultura popular nordestina.  

Elza Soares: a vida de uma mulher negra e artista

Elza Soares iniciou sua carreira musical em 1953. Foto: Divulgação

Nascida em 22 de julho de 1930, a carioca, negra e dona de uma voz reconhecida mundialmente, Elza Soares, se destaca como um dos maiores nomes da música popular brasileira. Cresceu na favela da Moça Bonita, hoje Vila Vintém, no Rio de Janeiro, quando iniciou o contato com a música acompanhando seu pai, que gostava de tocar violão nas horas vagas.

Viveu uma infância dura, sendo vítima de um casamento arranjado, aos 12 anos de idade, no qual sofreu violência doméstica e sexual. Aos 15 anos, perdeu seu segundo filho, que morreu de fome. Com o marido acometido por tuberculose, passou a trabalhar como encaixotadora e conferente na fábrica de sabão Véritas, no Engenho de Dentro. Em uma vida difícil matrimonial, foi obrigada pelo marido a parar trabalhar fora de casa, e aos 21 anos ficou viúva. 

Em 1950, sua filha Dilma, que era recém nascida foi sequestrada pelo casal que tomava de conta da criança enquanto Elza trabalhava. Ela só reencontrou sua filha já adulta, e perdoou os sequestradores que a criaram bem.  

Ingressou na sua carreira artística em 1953, ao fazer seu primeiro teste, na Rádio Tupi, para participar do programa de calouros Ary Barroso, no qual ficou em primeiro lugar.  A cantora já trabalhou na Orquestra Garam Bailes, como crooner, e na Rádio Vera Cruz.

No ano de 1960, se apresentou no Festival Nacional da Bossa Nova. Neste mesmo ano, em ritmo de sambalanço, gravou os álbuns “Se acaso você chegasse” e “A bossa negra”. Em sequência foram lançados “O samba é Elza Soares” (1961), “Sambossa” (1963), “Na roda do samba” (1964) e “Um show de Elza” (1965). 

Ainda em 1963, Elza foi representante do Brasil na Copa do mundo no Chile. Neste evento, conheceu o jogador Mané Garrincha, que veio a ser seu parceiro de longa data. O jogador, que era casado, divorciou-se e casou com Elza. A relação do casal durou mais de dezessete anos. Após se aposentar, o atleta virou alcoólatra e passou a agredir fisicamente Elza, que na ocasião chegou a ficar com os dentes quebrados, porém não denunciou o caso. Em 1969, lançou um o livro “Minha vida com Mané”, que conta detalhadamente sua história com o jogador.

“Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

Letra da música Maria da Vila Matilde, de Elza Soares.

A Elza Soares da década de 1970 carregou em seu repertório o samba de ritmo mais tradicional. Entre os sucessos estão: “Salve a Mocidade” (1974) gravado com a participação de Luiz Reis; “Bom dia, Portela” (1974) com os convidados David Corrêa e Bebeto Di São João; “Pranto livre” (1974) gravado com Dida e Everaldo da Viola, e “Malandro”(1976) gravado com Jorge Aragão e Jotabê.

Durante a ditadura militar, a mansão na qual o casal morava foi metralhada devido a censura que ameaçava os artistas da época. Elza, Garrincha e seus filhos, se auto exilaram na Itália, e voltaram ao Brasil somente em 1975. Com Garrincha, a cantora teve um filho, Manoel Francisco dos Santos Júnior que nasceu em 1976 e ficou conhecido como Garrinchinha.

Em 1980, ao pensar em desistir da música, Elza bateu a porta de Caetano Veloso para pedir ajuda. Em resposta, foi convidada a gravar o samba-rap “Língua”, faixa de álbum “Velô” (1984) do cantor. A parceria pop com Caetano Veloso inspirou a cantora que gravou e lançou mais adiante, um álbum menos voltado para o samba, “Somos todos iguais” (1985).

Em 1982, o casamento de Elza e Garrincha chegou ao fim, devido a traições, constantes agressões físicas e humilhações. No divórcio, a cantora abriu mão da pensão da qual tinha direito, tendo lutado na justiça apenas pela pensão do filho. Garrincha faleceu de cirrose hepática, em 1983. A cantora manteve outros relacionamentos mas não casou novamente.

Mais tarde, em 11 de janeiro de 1986, a artista sofreu outra perda. Após sofrer um acidente de carro, Garrinchinha faleceu aos 9 anos. No acidente, Elza teve ferimentos leves, mas  o menino ficou preso nas ferragens. A cantora entrou em depressão, chegando a tentar suicídio. Passou a tomar antidepressivos, mas logo decidiu abandonar o tratamento e viajar a trabalho pelo mundo afora. Elza morou no exterior, até ter condições psicológicas para retornar ao Brasil.

Em 1999, foi eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. Em 2002, passou a contar com a direção artística de José Miguel Wisnik, com quem produziu “Do cóccix até o pescoço”, obra fonográfica pautada na modernidade. Com uma batida mais eletrônica, Elza lançou “Vivo Feliz” (2003).

Em 2015, perdeu seu quarto filho. O fato a abalou muito, porém neste mesmo ano lançou o álbum “A mulher do fim do mundo”, que reviveu de forma excêntrica sua carreira artística, e que carrega temáticas como religião, sexualidade e violência urbana. O álbum a consagrou como antenada e contemporânea pelo público jovem. Em sequência, lançou “Deus é mulher” (2018), que carrega uma vasta poesia política, e “Planeta fome” (2019), repleto de crítica social.  

Em meio a  uma vida tortuosa, Elza Soares foi conduzida —  com sua voz potente, rouca e de um swing único — diante de muita luta a ser reconhecida mundialmente.

“Fé e amor. Você tendo fé, você tem tudo. Você tendo amor, você não precisa de mais nada”.

Elza Soares

Jane Austen: viva no cânone literário e na luta feminista

Ilustração de Jane Austen produzida pelo artista Lucas Santos. Foto: Divulgação/Lucas Santos.

Com mais de dois séculos após sua morte, Jane Austen (1775 – 1817) continua a ocupar um papel fundamental no cânone da literatura mundial. A escritora faleceu no dia 18 de julho, sendo vítima da chamada doença de Addison (DA). Jane apresentou em seus livros críticas sociais e contradições das relações humanas, pertinentes para a sociedade atual, tornando-se reconhecida como figura de grande representação e contribuição na tradição literária feminina.

A ponte estendida entre o romance e o realismo tornou  obras — que carregam protagonistas femininas de admiráveis personalidades — como Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813), e Emma (1815),  clássicos do universo literário.

Um dos aspectos característicos da romancista inglesa é a crítica ao estilo sentimental melodramático dos romances do século XVIII. A narrativa peculiar da autora faz de cada incidente e diálogo, peça fundamental em seus romances. O posicionamento dos seus personagens diante das relações afetivas e sociais desconstrói discursos acerca do feminino e da representação da mulher.

“Eu odeio ouvir você falar sobre todas as mulheres como se fossem excelentes damas em vez de criaturas racionais. Nenhum de nós quer estar em águas calmas durante toda a nossa vida.” Jane Austen – (Persuasão, 1818)

A subjetividade encontrada nos escritos da autora configura a questão da feminilidade de forma histórica e socialmente construída. Assim como a escritora britânica Mary Shelley, a artista brasileira Nair de Tefé, a jornalista e militante feminista Victoire L. Béra, e diversas outras mulheres que fugiam do prejulgamento e repulsão política-social,  que as obrigava a utilizar pseudônimos não-femininos para participar de atividades com viés criativo e cultural. Jane Austen proferia a desconstrução dos papéis femininos, inserida em uma época onde não era cabível à inserção de mulheres atuantes no campo da literatura.  

Com milhões de exemplares vendidos e servindo de inspirações para adaptações literárias e cinematográficas — como o filme de Burr Steers, “Orgulho e Preconceito e Zumbis” (2016) e o livro de Elizabeth Kantor, “A Fórmula do Amor” (2013) — as obras da autora são indispensáveis objetos de estudo por abordarem assuntos como o empoderamento e a liberdade feminina, sendo estes de grande relevância para os debates públicos.  

Devo ater-me a meu próprio estilo e seguir meu próprio caminho. E apesar de eu poder nunca mais ter sucesso deste modo, estou convencida de que falharia totalmente de qualquer outro. Jane Austen – (Orgulho e Preconceito, 1813)

As vozes das personagens criadas por Jane Austen representam  mais um dos gritos que denunciam a submissão da mulher, o artificial ideal de feminilidade e a contínua luta de mulheres que devem e querem estar livres de amarras sociais.

100 anos de Elizeth Cardoso: da era do rádio à era digital


Elizeth Cardoso começou a cantar aos cinco anos com a marcha “Zinzinha” no palco da sociedade carnavalesca Kananga do Japão. Foto: Divulgação

Há 100 anos atrás a cantora e atriz Elizeth Cardoso nasce no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. A carioca teve uma história ligada ao samba e grandes programas de rádios dos anos 1940. Divina, como ficou conhecida, faleceu em decorrência de um câncer no estômago em 1990. Hoje, em comemoração ao seu centenário, a gravadora Universal Music libera 26 dos 44 álbuns da cantora carioca, nas plataformas de streaming e mais três playlists exclusivas, com as canções “Barracão”, “Manhã de Carnaval” e “Naquela Mesa”.

Para somar aos 14 álbuns e cinco coletâneas já disponíveis nas plataformas, serão disponibilizados pela gravadora  17 álbuns, uma coletânea, um EP com quatro faixas raras, e sete compilações. A lista inclui os discos: “Fim de Noite” e “Naturalmente” (1958), “Magnífica” (1959), “Elizeth Sobe o Morro” (1965), “A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro” (1966), “A Enluarada Elizeth” (1967) e “Live in Japan” (1977). Os discos gravados com Zimbo Trio, “Balançam na Sucata” (1969) e ” É de manhã” (1970), também serão lançados em breve.

Trajetória

Elizete Moreira Cardoso, de nome artístico Elizeth Cardoso, acompanhava os pais em blocos carnavalescos e serestas desde muito pequena. Abandona os estudos aos 10 anos e a partir dos 13 trabalha no comércio, em fábricas e salões de beleza. Em 1936, aos 16 anos, começa a cantar profissionalmente na Rádio Guanabara. Tem sua estreia com os sambas “Do Amor ao Ódio” e “Duas Lágrimas”, e logo mais encanta o compositor Noel Rosa, que lhe ensina a música “Quem Ri Melhor”.

No ano de 1939, Elizeth casa-se com o cavaquista Ari Valdez, no qual tem seu filho Paulo Valdez. Durante a década de 1950, atuou em vários filmes, entre eles “Coração Materno” (1951), “O Rei do Samba” (1952) e ” Com a Mão na Massa” (1958).

Com as composições de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, mais o violão gotejado de João Gilberto, Elizeth fez história com o seu álbum “Canção do Amor Demais” (1958), que marca a concretização da Bossa Nova. No disco, Elizabeth dava voz e interpretação a músicas como “Chega de Saudade” e “Vida Bela”. 

O disco de 1958 foi produzido pela Gravadora Festa e possui 13 faixas. Foto: Estúdio Columbia/Divulgação

No ano de 1965, ela também cria um grande álbum importante na sua carreira: “Elizeth Sobe O Morro”. O disco é composto por sambas gravados pelos cantores Cartola e Paulinho da Viola.

Divina teve o Rádio como principal transmissor de sua voz e interpretação, cantando samba-canções autênticos. Sua amplitude vocal, no qual misturava o canto poderoso e singelo, transformam a artista em um dos principais nomes na Música Popular Brasileira. 

Elizeth Cardoso não tinha apenas uma  grande força vocal, como também, pessoal. Quando iniciou o período dos festivais na televisão,  foi um dos nomes que ficaram para trás, por ser uma mulher negra que não se encaixava aos padrões de beleza. “Ela não era considerada bonita, e várias cantoras da época dela desapareceram quando a televisão começou a fazer programas de música popular”, relata o jornalista e pesquisador João Máximo, em entrevista para a Folha de São Paulo.

A Divina, que abre seu peito para cantar sambas de enorme comoção, agora, se estabelece em um novo patamar da carreira ao ter seus discos disponíveis na plataformas de streaming. Pois, embora tenha falecido a mais 30 anos, sua obra ainda inspira as mulheres negras e suburbanas brasileiras.

Melancolia e religiosidade na obra do poeta Alphonsus de Guimarães

Alphonsus de Guimaraens: biografia, obras e poemas - Toda Matéria

Aphonsus de Guimarães é autor das obras ” Setenário das Dores de Nossa Senhora”(1899), “Dona Mística” (1899) e “Câmera Ardente” (1899). Foto: Divulgação

No dia 15 de julho de 1921, o escritor simbolista brasileiro Afonso Henrique da Costa Guimarães, com pseudônimo de Alphonsus Guimarães, faleceu na cidade de Mariana, em Minas Gerais. Com temas que envolviam a melancolia da morte da mulher amada e sua adoração ao catolicismo, o poeta criava sonetos rítmicos, no qual marcaram grandes obras literárias do Movimento Simbolista Brasileiro.

Filho dos comerciantes portugueses Albino da Costa Guimarães e Francisca de Paula Guimarães Alvim, Alphonsus nasceu no dia 24 de julho de 1870. Aos 17 anos se apaixona por sua prima Constança, filha do seu tio-avô,  escritor romântico do título “A Escrava Isaura”, Bernardo Guimarães. Com a morte da prima, vítima de tuberculose, ele acende uma amargura que logo mais é colocada em seus poemas. 

Em 1891, viaja para São Paulo e inicia a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Após isso, vai ao Rio de Janeiro para conhecer os poetas Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, no qual se tornaram, também, os principais representantes do Simbolismo. 

Como reflexo de suas vivências, entre elas a perda de sua prima Constança e sua vivência religiosa nas cidades barrocas de Minas Gerais, modela seus textos de forma envolvente e musical. O poema “Ismália” é o principal da sua obra e também da escola literária no Brasil. A amargura, perda, devoção a símbolos religiosos e seu canto sereno, estão reunidos nos seus sonetos.

“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu,
Estava longe do mar
E como um anjo perdeu
As asas para voar
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar”

No ano de 1897, casa-se com Zenaide de Oliveira, com quem teve 14 filhos. Em 1906, ocupa o cargo de Promotor de Conceição do Ferro e em seguida o cargo de Juiz Municipal na cidade de Mariana em Minas Gerais. Alphonsus de Guimarães faleceu aos 50 anos, mas deixou grande legado para o movimento simbolista e grandes frutos com seus filhos Alphonsus de Guimarães Filho e João Alphonsus, também escritores.

Desamparo dos artistas sem o São João de Caruaru

Por: Dayane Jeniffer e Sarah Coutinho

Ensaio da cantora Riá para o single ‘’Intriga’’. Foto: Luiz Carneiro/Acervo pessoal

Este ano, na Capital do Forró, não houve alegria nas ruas para celebrar os festejos juninos. Artistas, técnicos, pequenas e microempresas tiveram atividades paralisadas em razão do cancelamento do São João, como medida de proteção ao aumento do contágio pela Covid-19. A pandemia abalou todas as estruturas de uma cidade que, durante o mês de junho, vive da arte popular e da magia do São João. Como alternativa de driblar a crise, lives e campanhas solidárias criadas entre os artistas, foram feitas com muito fervor. 

Os artistas pernambucanos, Vavá do Pífano, Riá e Gabi da Pele Preta, afirmam a importância da arte em tempos difíceis e admitem a falta de políticas públicas assecuratórias para seus trabalhos. Entre medidas ausentes e/ou insuficientes do Município, Estado e do Governo Federal para com os artistas, a pandemia sinaliza uma ferida aberta provocada pela falta de incentivo e estímulo à cultura. “O período denuncia como as pessoas veem a cultura. A arte tem salvo o dia das pessoas. Mas ainda estamos distantes de uma consciência ampla para sermos considerados trabalhadores de verdade’’, menciona Gabi da Pele Preta.

Medidas governamentais x  Desincentivo 

No dia 1° de junho, a Prefeitura de Caruaru em parceria com a Rede Solidariedade e o Transforma Caruaru, inicia o projeto “São João Solidário 2020” a fim de amparar os artistas e trabalhadores locais mais afetados pela crise. Foram realizadas arrecadações e doações em dinheiro que foram convertidos em cestas básicas e kits de higiene para os artistas vulnerabilizados. Segundo a Gestão Municipal, são mais de 6 mil trabalhadores diretos e 12 mil indiretos, entre eles artistas e serviços gerais, atuantes durante o São João. “Como todo caruaruense, a gente espera o ano inteiro para se reunir em volta da fogueira, fazer o milho assado, assistir quadrilha, mas esse ano precisamos cuidar da nossa família, da nossa casa, da nossa cidade, e do nosso bem maior, que é a nossa saúde. Então, o São João de Caruaru se transforma em um grande São João Solidário”, destacou a prefeita Raquel Lyra (PSDB) em entrevista para o portal G1.

No dia 30 de junho, a lei Aldir Blanc é sancionada, liberando R$ 3 bilhões que serão divididos entre Municípios, Estados e Federação (saiba mais sobre a Lei Aldir Blanc). A renda surge como uma proposta de auxiliar a sobrevivência de vários artistas não contemplados com o auxílio emergencial do Governo Federal. Até julho, 53 milhões de pessoas foram beneficiadas com a renda do auxílio emergencial de 600 reais. Além das 8,1 de milhões de pessoas que o receberam indevidamente, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU). O benefício também traz à tona questionamentos como o de Gabi da Pele Preta que reconhece a importância da lei, mas percebe que à nível de Estado e Município, a cultura sempre foi deixada de lado. 

O músico Vavá do Pífano, trabalha no setor cultural com o Bumba Meu Boi desde os 14 anos. Em 1994, fundou a Banda de Pífanos da Alvorada, na qual faz parte com seus filhos e familiares. Durante o mês de junho, Vavá fazia quase 40 apresentações com seus trabalhos. Em razão da pandemia, o artista tem recebido do Governo Municipal uma cesta básica entregue mensalmente. Quando perguntado se achava suficiente, Vavá relata: “Não, não acho que seja suficiente. Ela deveria fazer muito mais. Porém, eu entendo que as coisas estejam difíceis”. Além de Vavá, mais de 13 mil artistas receberam cestas básicas, até o dia 7 de julho, segundo a Prefeitura de Caruaru.

Para se reinventar e não perder a animação, Vavá optou por fazer uma live e esquentar a véspera do São João. No dia 23 de junho, ele e os outros membros da banda fizeram uma live no Facebook. O músico organizou e produziu o cenário com o orçamento dos antigos trabalhos. “Não tivemos recurso nenhum. A Prefeitura não ajudou. Estou correndo atrás de patrocínio, mas não encontrei. Vou fazer minha parte”, conta.

Lives mantêm vivo o São João de Caruaru e retratam a situação dos artistas durante o período junino. Ilustração do artista Lucas Santos, produzida para o Café Colombo.

Vavá é um exemplo dos vários artistas da cidade que possuem o trabalho dedicado aos festejos juninos. Mas, além dele, há aqueles que contribuem para o cenário independente da região e são afetados pela crise, como as cantoras pernambucanas Riá, e Gabi da Pele Preta. Artistas com histórias semelhantes, atuam como professoras e utilizam seus trabalhos de cantoras como segunda renda.

Gabi da Pele Preta menciona que a falta de estímulo não é novidade e enfatiza o lado dos técnicos parados a meses e dos brincantes juninos, como intitula. “Temos relatos muito difíceis. Muitos, estão fazendo doações de cestas básicas e campanhas que pagam a água e a luz. As ações federais e municipais, além de estarem atrasadas, não são eficientes”, admite. Embora não tenha passado dificuldades emprego fixo na rede de ensino, enfatiza que “quem trabalha com arte, com entretenimento, está parado.”

Enquanto às medidas adotadas pela Prefeitura de Caruaru, Riá afirma que as ações promovidas pela Fundação de Cultura com cestas básicas e a contribuição popular foram interessantes. Paralelo a isso, “as lives realizadas pela Prefeitura, sem cachê previsto para os artistas e com a disponibilidade de QRcode para a doação de terceiros, foi uma ação inexpressiva. O governo municipal tem a obrigação de criar editais emergenciais ou buscar patrocínios inclusos no orçamento da festa para suprir essa necessidade.’’

Com dois discos encaminhados – “Desbravando” e  “Retinta” –, sendo o último aprovado pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura-PE) 2019/2020. Riá acredita nos editais como um caminho menos traumático para seguir a área durante a pandemia. “Não está fácil para ninguém, muito menos para a cultura. Nós, artistas, somos sobreviventes. É hora de se reinventar e ressignificar’’, afirma.

O Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura (Secult) divulgou em live, no dia 29 de junho, a pesquisa a respeito da “Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil”. Os dados apontados identificam que 42% dos artistas brasileiros tiveram uma redução de 100% na receita dos seus trabalhos entre os meses de março e abril. Na pesquisa, entre os meses de maio e junho, o quadro agravou para 44,7%. A pesquisa ainda está em processo de apuração e o questionário pode ser respondido por artistas, técnicos, trabalhadores, empreendedores, gestores públicos e privados e membros de grupos tradicionais, para participar, clique aqui

NOTA: A equipe do Café Colombo tentou entrar em contato com a Fundação de Cultura com relação às medidas adotadas para o setor artístico durante o mês junino, mas não obteve respostas por parte da coordenação.