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cantoria crua por nathália tenório e lua

Ancestralidade e musicalidade se reúnem no ‘Cantoria Crua’

cantoria crua - ilustração por nathália tenório e lua
Nathália Tenório e Lua assinam a arte que compõe a identidade visual do projeto. Imagem: Cantoria Crua/Divulgação

“Criar. Rememorar. Unir. Alimentar.” Sob este mote, Adalberto, João Euzé e Neto Sales guiam o Cantoria Crua, projeto artístico que mistura cantoria e artes visuais. Com a influência de artistas da terra, como Anaíra Mahin, Anchieta Dali, Bia Marinho e Zeto do Pajeú, a ancestralidade que vem dos poetas pernambucanos é a peça central da produção.

Do encontro entre os garanhuenses Adalberto e Euzé e o surubinense Neto Sales surgiram as composições repletas de poesia e mistério, que prometem oferecer uma experiência imersiva. Hoje, às 21h, o público pode ter acesso a um pouco desta atmosfera em um show online oferecido pelo espaço Ágora Sonora (clique para saber mais). A obra do trio, que tem raízes no universo dos cantadores típicos do nordeste brasileiro, exalta também a natureza e o encantamento.

“Cantoria Crua é uma salva a todos os poetas ancestrais e, para além disso, marginais. Somos a todo tempo criadores de obras que rememoram nossos antepassados, unem nossos seres e alimentam tanto a nós mesmos quanto a quem nos ouve. Somos cantadores traçados nas linhas que os mestres que vieram antes de nós escreveram”, diz Adalberto, que complementa: “O Cantoria Crua representa o novo que tem essência fincada no passado e na incompletude do ser presente.”

Em ‘Prece Marginal’, os artistas entoam: “Uma salva ao poeta ancestral / de riúna carregada com a magia / que espalhou pelos campos a agonia / o alento de seu verso atemporal / massapê ds cantoria marginal / entidade a dibuiar letras e notas / quando as unhas acariciam as cordas”

E, para complementar o espetáculo, os artistas se transformam nos personagens Busca, Andarilho e Chão Batido, cujos trajes foram idealizados pela figurinista Katarina Barbosa.

figurinos do cantoria crua, assinados pela garanhuense Katarina Barbosa
Assinados por Katarina Barbosa, os figurinos compõem as personas do espetáculo Cantoria Crua. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

“A arte é uma expressão universal com a essência na quebra de qualquer barreira. A música e a poesia são formas de arte que dialogam entre si de uma forma encantada, ao passo que outras linguagens artísticas também podem interagir com o mesmo nível de magia”, comenta Adalberto. Na identidade visual, o projeto conta ainda com a peça de barro criada pelo artista Tonfil.

a peça de barro criada por Tonfil compõe a odentidade visual do projeto
“A Cumade Fulozinha representa um dos mistérios mais queridos e cantados pelos cantores de “canções da mata”, contadores de lendas dos sertões e crianças. Por isso traz traços infantis e indígenas para lembrar nossa mistura cabocla por esses rincões, mas toca numa viola de cabaça com estilo barroco e trovadoresco. Na cabeça traz três folhas de caju, representando os três cantadores”, comentou Tonfil em seu perfil no Instagram. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

Para divulgar o novo projeto, o grupo, que conta com a produção da Epahey Produções Culturais, planeja a realização de um produto audiovisual que mostrará seis canções autorais. “Esse material será um portfólio virtual para o grupo que possibilitará o acesso a palcos e festivais, além de disseminar a produção autoral interiorana nas redes”, diz Adalberto. 

O local idealizado para as gravações dos vídeos é o Casarão do Jebre, pousada localizada em Maturéia, Sertão da Paraíba. Para isso, a equipe vem planejando uma campanha de financiamento coletivo, que você pode acessar clicando aqui. Aos colaboradores, será realizado um show online exclusivo, com data a ser definida.

E para 2021, os artistas também planejam o lançamento de um EP com quatro músicas, além de shows presenciais, quando for possível em razão da pandemia. Adalberto crê que o futuro reserva bons frutos para o Cantoria Crua: “Nossos passos são traçados no véu das coisas e, com toda a certeza, grandes momentos o universo tem reservado para fazer ecoar nosso canto e nossa força.”

adalberto, euzé e neto sales compõem o cantoria crua
Adalberto, João Euzé e Neto Sales, o trio que compõe o Cantoria Crua. Foto: Karol Albuquerque/Divulgação/Saulo Tavares.

Veja também: “Do Meu Coração Nu”: A virtuosidade e sensibilidade sonora-social de Zé Manoel

51 anos de Come Together: a última música gravada para o último álbum dos Beatles

Trecho do clipe de Come Together disponível no Youtube.

Come Together já foi trilha de filmes, séries e campanhas publicitárias, se tornando uma das músicas mais conhecidas da banda de Liverpool The Beatles. A canção que é a primeira do álbum de 1969, Abbey Road, foi composta e interpretada por John Lennon,  também creditada a Paul McCArtney e foi a última a ser gravada pelo grupo.

A inspiração para a canção veio de um lugar inusitado: uma campanha política. Timothy Leary estava concorrendo contra o ex-ator Ronald Reagan pelo cargo do governador do estado da Califórnia, pelo Partido Psicodélico da Califórnia, que se intitulava um partido hippie e que tinha o apoio de Lennon. Foi assim que o beatle escreveu um jingle para o slogan do candidato: “Come together, join the party” (Venha junto, junte-se à festa), fazendo uma alusão ao entorpecente LSD. 

Infelizmente, Leary foi preso por porte de drogas e perdeu o posto de governador para Reagan. Então John tirou as características políticas de Come Together que, por fim, virou a faixa de abertura do álbum Abbey Road. O disco leva como capa a foto icônica do grupo atravessando uma rua na faixa de pedestres, se tornando um dos pontos turísticos de Londres.

Come Together teve diversos covers, dentre eles se destacam os de Michael Jackson, Arctic Monkeys e principalmente a versão da banda Aerosmith, lançada em 78 e que fez parte do filme Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band – nome de um dos discos dos Beatles -, dirigido por Michael Schultz, ficando na posição 23 do Hot 100 da Billboard e sendo uma das versões mais famosas do single. 

Cena do filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band em que Come Together é interpretada pela banda Aerosmith.

Outro fato é que o álbum anterior da banda, The White Album, foi gravado com os integrantes separados, em estúdios diferentes, já que eles estavam em uma época de intrigas e preferiam não ver um ao outro. Logo, Come Together também traz essa analogia de “estamos juntos” para a obra final, para pôr um ponto à grande febre que foi The Beatles. 

Abbey Road – 1969

Capa do álbum Abbey Road de 1969.

“O sonho acabou”, essa foi a fala de John Lennon na coletiva de imprensa em que The Beatles anunciaram o fim da banda. Abbey Road veio para fechar esse ciclo. 

Apesar de não ter sido o último álbum lançado pelo grupo – o último foi Let it Be, um compilado de músicas já gravadas mas que não tinham sido lançadas -, foi o último a ser gravado com todos os membros juntos em um único estúdio. 

Abbey Road, que leva o nome da rua onde a foto icônica que estampa o disco foi tirada, tornou-se um dos álbuns mais marcantes dos Beatles, não apenas pelo que representa, mas por conter algumas das músicas de maior sucesso da banda. 

Iniciando com o single Come Together, convidando-nos a fazer parte desse último sonho dos garotos de Liverpool, passando por músicas transbordadas de sensações, como a de felicidade em Here Comes The Sun, todo o amor de Something – ambas de George Harrison -, e nos presenteando com o “quase medley” Golden Slumbers/Carry that Weight/The End, músicas gravadas de forma independente mas que causam a sensação de serem continuações uma da outra  enquanto você ouve o álbum e deixam a impressão de despedida da banda. 

Abbey Road, lançado em 26 de setembro de 1969, é sem dúvida alguma um dos álbuns mais importantes para o cenário musical, juntamente com outros trabalhos da banda,  e marca o fim de um grupo que criou estilos, renovou gêneros e mudou para sempre a nossa noção de música.

Três escritoras nordestinas esquecidas na literatura

Em comemoração ao Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, conheça (ou relembre) escritoras do Nordeste que foram ocultadas da tradição literária, uma vez que a escrita feminina foi cedida ao campo de invisibilidade pelo cânone de caráter masculino da literatura. Com suas jornadas engajadas em movimentos sociopolíticos, Dionísia Gonçalves Pinto, Maria Firmina dos Reis e Anilda Leão tratavam sobre temáticas que abordavam tabus e a luta por direitos — sejam eles das mulheres, do negros ou dos indigenas. 

“Pois não só porque mulheres escritoras são esquecidas; são esquecidas sobretudo as mais atuantes, as feministas, em uma palavra”. 

Zahidé Muzart
Dionísia Gonçalves Pinto
Retrato de Dionísia Gongalves Pinto. Foto: Divulgação.

A potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, nasceu em 12 de outubro de 1810, na antiga cidade de Papari. Como escritora, carregou consigo o pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta. Obstinada e defensora dos direitos da mulher, escreveu aos 22 anos seu primeiro livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. 

Até seu falecimento em 1887, publicou outras 14 obras que, além de evidenciar o feminismo como temática principal, destacava os direitos dos escravos e dos indígenas. Entre seus escritos de maior destaque estão “Conselhos à minha filha” (1842), “Daciz ou A jovem completa “(1847), “A lágrima de um Caeté” (1849) e “Opúsculo humanitário” (1853).

“A esperança de que, nas gerações futuras do Brasil, ela (a mulher) assumirá a posição que lhe compete nos pode somente consolar de sua sorte presente.”

Opúsculo Humanitário

Considerada a primeira educadora feminista do Brasil, Nísia fundou escolas para meninas no Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde recebeu destaque por ministrar as disciplinas de gramática, português, francês, italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança e, com isso, alvo de ataques e críticas à la mode machista. 

Maria Firmina dos Reis
Pintura retra Maria Firmina a partir de descrição feita por pessoas que conheciam a autora. Foto: André Valente / BBC.

Nascida em 11 de março de 1822, em São Luiz do Maranhão, Maria Firmina dos Reis foi a primeira escritora negra e romancista do Brasil. Utilizou a literatura como instrumento para denunciar práticas escravistas, e através do pseudônimo de “Uma Maranhense” publicou “Úrsula” (1859), seu romance abolicionista. 

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (…) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”

Úrsula

Se destacou como a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão. Atuou profissionalmente como professora, e em 1880 fundou a primeira escola mista (para meninos e meninas) gratuita no Brasil, que na época foi motivo de escândalo para a sociedade. 

Responsável por inaugurar o que hoje conhecemos como literatura afro-brasileira, ela também publicou contos, histórias, ensaios, poesias, em revistas e jornais locais. A maioria dos seus manuscritos não foram editados e se perderam com o passar dos séculos. Entre as obras de sua autoria é possível citar “Gupeva” (1861), Cantos à beira-mar (1871) e A escrava (1887). 

Firmina morreu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães (MA), onde morava  na casa de uma ex-escrava.

Anilda Leão
Foto: Divulgação.

Anilda Leão nasceu Maceió, Alagoas, no dia 15 de julho de 1923. Aos 13 anos, publicou seu primeiro poema com o tema criança abandonada. Na escola, era tida como rebelde, característica registrada na personalidade da artista que, ao longo de sua história, passou a escrever sobre tabus como prostituição, virgindade e homossexualidade — pautas ainda discutidas na contemporaneidade.

No ano de 1950, após participar de um evento de fomento ao Progresso Feminino, passou a frequentar ativamente na Federação Alagoana, e mais tarde se tornou presidenta da instituição. Em junho de 1963, representou a Federação no Congresso Mundial de Mulheres em Moscou. Enquanto viajava, um boato circulava pelas ditas bocas da população de Maceió. “Anilda? Foi presa! Rasparam-lhe a cabeça”. A falsa notícia rendeu a Anilda horas de risos que, após o incidente, publicou o poema “Vou abrir as pernas para o mundo. Nove meses depois parirei a humanidade”.

Se casou aos 30 anos de idade com o poeta e escritor Carlos Moliterno. O casamento foi motivo de choque para seus parentes, uma vez que Carlos  separou de sua ex-esposa em uma época em que não havia a lei do divórcio. 

Em 1962, incentivada pelo marido, publicou seu primeiro livro de poemas “Chão de Pedras”. Nos anos 70, com a coletânea de contos “Riacho Seco”, conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras. No entanto, a obra só foi publicada em 1980. Publicou também as poesias “Chuvas de Verão”, em 1974; “Poemas Marcados”, em 1978 e “Círculo Mágico (e outros nem tanto)”, em 1993.

Ainda na década de 1970, realizou seu primeiro trabalho como atriz no seriado “Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra”. Também atuou nos filmes “Bye bye Brasil” (1980), “Memórias do Cárcere” (1984) e “Deus é brasileiro” (2002).

A partir dos seus contos, poesias, crônicas e artigos, se tornou colaboradora do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas, além de escrever para as revistas Caetés e Mocidade. Quando faleceu, em 2012, o escritor brasileiro Benedito Ramos a definiu como “única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez”.

rebecca, a mulher inesquecivel 2020

Os percalços de “Rebecca, A Mulher Inesquecível”

rebecca, a mulher inesquecível
Armie Hammer e Lily James estrelam “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, nova produção da Netflix. Foto: Divulgação/Netflix.

Um clássico do cinema ganhou uma nova adaptação produzida pela Netflix. “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, estreou na última quarta-feira (21). A difícil tarefa de filmar a trama que se tornou um clássico sob a direção de Alfred Hitchcock e vencedor do Oscar em 1940, coube ao diretor Ben Wheatley, de Free Fire: o Tiroteio (2016) e No Topo do Poder (2015).

No novo filme, Lily James (Downtown Abbey, Cinderela) dá vida a uma jovem que, recém casada com o viúvo Mr. de Winter (Armie Hammer), precisa conviver com a sombra da primeira esposa, Rebecca. A governanta da casa, Mrs. Danvers (Kristtin Scott Thomas), se esforça para que a presença de Rebecca nunca seja esquecida. Até agora, as críticas são mistas: com nota 46 no Metacritic e 6 estrelas no IMDb, o suspense parece não ter conquistado aqueles que tinham altas expectativas sobre a já eternizada trama.

A primeira versão, estrelada por Joan Fontaine e Laurence Olivier, “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, foi o primeiro projeto hollywoodiano de Alfred Hitchcock, que se mostrou bem-sucedido: além de vencer dois Oscars em 1940, de Melhor Filme e Melhor Fotografia em preto e branco, foi um sucesso entre a crítica e o público.

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Hitchcock lê o romance de Daphne du Maurier que inspirou o filme de 1940. Foto: Divulgação.

A história de ambos os filmes foi adaptada do livro homônimo da britânica Daphne du Maurier, publicado em 1938. Ela também escreveu o conto Os Pássaros (1952), também foi adaptado para as telonas por Hitchcock, estreando em 1963. Entretanto, Rebecca, seu romance de maior sucesso é envolto de controvérsias, sendo a principal delas a acusação de plágio de um romance brasileiro.

A Sucessora

Em 1934, a escritora Carolina Nabuco publica seu livro “A Sucessora”, sucesso de vendas no Brasil. O romance intimista e psicológico conta a história de Marina, uma jovem recém-casada com o milionário Roberto Steen. Porém, o casamento é assombrado pela memória da primeira esposa dele, Madame Steen, a quem a governanta Juliana faz questão de relembrar.

Enquanto escrevia, a autora já traduzia simultaneamente para o inglês, a fim de ser publicado no exterior. Carolina enviou o manuscrito para uma agência nos Estados Unidos, que o repassou para a Inglaterra. A escritora não recebeu mais respostas, e, algum tempo depois, o mesmo escritório inglês publica Rebecca, assinado por du Maurier.

A história foi contada pelo crítico Álvaro Lins, em um ensaio publicado no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 1940; também ganhou notoriedade na imprensa da época. Lins analisou os dois romances em detalhe, descrevendo não só como a narrativa era similar, mas também as páginas onde havia a grande chance de plágio. Em novembro de 1941, o jornal norte-americano The New York Times também publicou um artigo sobre a grande ‘coincidência’ entre os dois romances.

correio da manhã
correio da manhã
A história do plágio foi contada em duas ocasiões no Correio da Manhã, no qual Álvaro Lins era editor-chefe, em abril de 1940. Imagens: Reprodução/Biblioteca Nacional

Em suas memórias Oito Décadas (1973), Carolina Nabuco relata que os advogados da United Artists, companhia que produziu o filme, a procuraram para que ela assinasse um termo admitindo que houve uma “coincidência” entre as duas obras mediante uma considerável quantia em dinheiro, o que a escritora se negou a fazer. Apesar disso, também não acusou os envolvidos de plágio.

Felizmente, A Sucessora ganhou seus devidos créditos no Brasil. Best-seller, esteve fora de catálogo desde 1996, mas ganhou uma nova edição em 2018, pela Editora Instante. E, em 1978, foi adaptada para uma telenovela assinada por Manoel Carlos, que se tornou um fenômeno do horário das 18h e foi um marco na carreira de Susana Vieira, que deu vida à jovem Marina. Confira a abertura aqui.

telenovela a sucessora
A telenovela global de 1978 contava com Susana Vieira, Rubens de Falco e Natália Timberg. Foto: Divulgação/Memória Globo.

O sotaque plural da Joana Francesa

Logo da Joana Francesa, criado por Élter Araújo. Foto: Divulgação

Em 1971, o cantor Gilberto Gil adicionou no repertório do álbum “Expresso 2222” a canção “Pipoca Moderna” da banda de Pífanos de Caruaru, se tornando uma das músicas símbolo da Tropicália. Já na década de 1990, o movimento Manguebeat toma conta de Recife, misturando maracatu, rock e hip hop para compor os arranjos musicais. Tomando como referência estes momentos de efervescência cultural no Brasil, nasce a banda caruaruense Joana Francesa.

Formada pelos estudantes de Comunicação Social Élter Araújo (baixista), Gabriel Vila Nova (guitarrista) e Luiz Ribeiro (vocal), além dos professores Amilcar Bezerra (vocal) e Gustavo Alonso (sanfoneiro) e o baterista Artur Lima, a banda apresenta ao mundo seu primeiro trabalho autoral “Fogo Branco”. O xote de guitarra presente na canção, marca o início da história da banda que antropomorfiza gêneros e brinca com a linguagem musical.

Nessa entrevista, a equipe do Café Colombo conversou com os professores do Núcleo de Design e Comunicação do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco Gustavo Alonso e Amilcar Bezerra, os joanitos (apelido dos integrantes da banda). Enquanto Amilcar tem sua pesquisa voltada ao Frevo, Gustavo estuda o Forró e compartilha curiosidades sobre o gênero no canal “ABC do Forró“. No papo sobre a banda, os professores comentaram sobre a nova etapa do trabalho, suas referências musicais e estéticas, ambições e as ideias que permeiam o neoregionalismo pop da Joana. 

Como surgiu a ideia de criar a Joana Francesa? 

Amilcar: No começo era uma pesquisa sobre as músicas do compositor caruaruense Carlos Fernando, no qual acompanhava sua trajetória de modernização do Frevo. Quando cheguei em Caruaru, descobri seu álbum “Crônicas Musicais de Caruaru”. Conversando com Luiz Ribeiro, meu aluno do curso de Comunicação Social, percebi que o disco seria um objeto interessante para ser estudado por tratar das memórias e representações da cidade. A partir dessa proximidade com Luiz, observei o trabalho que ele fazia na banda Rasga Mortalha e também em suas composições. Eu disse que também compunha, e então criamos a música “No Apertar da Hora”, inspirado na minha pesquisa sobre Carlos Fernando. A canção foi inscrita no edital da Prefeitura de Caruaru e foi uma das vinte selecionadas para participar do álbum “A Música no País de Caruaru”. Quando isso ocorreu, percebemos que nossa parceria dava certo e começamos a escrever mais outras músicas. Começamos a formar a banda, intitulada como “A Bruma Leve” inicialmente. Depois, Gabriel Vila Nova entrou na formação e rebatizamos para Joana Francesa. O nome faz referência a Carlos Fernando, que era um grande fã da novelle vague e do cinema francês dos anos 1960. Joana Francesa também se refere a música homônima de Chico Buarque e ao filme “Joana, a francesa” (1973) de Cacá Diegues.

Quais são as principais influências para a criação do Joana Francesa, intitulada por vocês como um “neoregionalismo pop”?

Gustavo:  O que une nossas influências culturais, apesar das diferentes origens e gerações, é a ideia um tanto quanto tropicalista, de incorporar a linguagem pop às matrizes tradicionais, sem querer abdicar dessas especificidades, mas ao mesmo tempo sem museificá-las. Trata-se de aceitar a cultura pop como parte de nós, parte do mundo em que vivemos e tentar tirar dela o que há de positivo.  Movimento esse que já foi utilizado pelo tropicalismo, pelo rock nordestino dos anos 70 e pelo manguebeat.

Amilcar: Em específico, somos influenciados pelos cantores Geraldo Azevedo, Carlos Fernando, Alceu Valença, Elba Ramalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros nomes da Música Popular Brasileira. Nos inspiramos muito também na banda pernambucana dos anos 70 Ave Sangria, pois ela mistura o som pop com a identidade regional e autêntica. Há também o cantor francês Serge Gainsbourg que tem ótimas canções autorais.

A banda Joana Francesa tem uma montagem formada por pesquisadores, professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste, com exceção do baterista Artur Lima. Qual a marca que esse repertório intelectual trás para a banda? 

Amilcar: Acho que esse repertório intelectual se manifesta de maneira muito sutil. A ideia da banda não é transmitir conceitos. Porém, como participamos desse ambiente academicista, essas concepções aprendidas e ensinadas vão permear na música. Mas não entram como uma necessidade nessa produção. Essa relação ocorre de forma mais indireta.

Gustavo: A minha pesquisa sobre o forró ajuda a vermos que, em outras épocas, também houve esse interesse pelo pop. Se pegarmos a trajetória de Luiz Gonzaga, por exemplo, vemos como ele teve que abrir mão do purismo para incrementar o Choros (gênero de grande fenômeno da rádio, nos anos 1940) nas suas canções. Este era o formato pop da época de Luiz Gonzaga. Ele poderia ter negado, mas não, ele incorporou o mundo pop em seu forró. Tornando-se, aliás, um dos principais ídolos nos anos 40/50. Pensando nisso, tentamos buscar essas influências na banda. Isto pode-se dizer sobre grande parte dos forrozeiros: todos tiveram, em um momento ou outro, que lidar com a cultura pop da sua época. Criticar o mundo da indústria cultural é uma coisa muito comum nas universidades e em grupo que adoram alimentar o ressentimento. Os artistas mais inteligentes lidam com isso de forma ativa, buscando inventar novas possibilidades artísticas e estéticas.

Show de estreia da Joana Francesa na 3° edição do Festival de Literatura e Artes Literárias, com os joanitos (da esquerda para a direita) Luiz Ribeiro, Gustavo Alonso, Amilcar Bezerra e Gabriel Vila Nova. Foto: Divulgação

Quais são os objetivos da banda?

Amilcar: Nosso objetivo é lançar três singles até 2021. Já na segunda metade do ano lançar um EP com sete faixas. As músicas já estão prontas, porém estamos pensando nos arranjos e nas estratégias de gravações. O repertório é diverso, assim como nossas influências. Tem de tudo: xote, tango, pop balada e ciranda. Estamos fazendo esse trabalho de forma cuidadosa, não ligando muito para o tempo, queremos discutir cada detalhe. Como “Fogo Branco”, que demorou para sair por esses motivos, mas que teve o produto final muito bem produzido. 

Gustavo: Meu objetivo com a banda é me divertir e participar dessa interação professor-aluno. Quero apenas tocar, criar e brincar.

Quais têm sido e são as dificuldades de fazer cultura e de ter uma banda autoral e independente? 

Amilcar: Existem várias dificuldades. Primeiro a questão financeira, pois a banda precisa de investimento. Então, tudo tem que ser feito com o nosso dinheiro ou a partir da brothagem. Nós temos a perspectiva de fazer um clipe até o final do ano. Escolhemos o diretor Renan Zovka, no qual trabalhou com a música “Fogo Branco” em seu curta de ficção ainda não lançado. A partir disso, fizemos uma troca de trabalhos. O ideal seria pagar por isso, mas não temos recursos. Como também não temos um trabalho conhecido, a ideia é lançar os singles e o EP, e assim fazer com que a banda fique mais conhecida. Pois, se por um lado fica mais fácil ter a sua música acessível nas plataformas, por outro lado é complicado competir com os milhares de lançamentos diários que há nos streamings. 

Gustavo: Como minhas ambições são pequenas, não há muita dificuldade. Há mais prazer. Mesmo as coisas cansativas nesse processo, como colocar o som, levar equipamentos, faço porque gosto. Não vivo disso, não há “obrigação” nenhuma. É natural uma banda autoral ter alguma dificuldade. Mas lamentar isso realmente não faz parte da minha forma de pensar.

O primeiro single “Fogo Branco” foi gravado em home studio em decorrência da pandemia da COVID-19. Quais foram as dificuldades de se produzir dessa forma?

Amilcar: O presencial obviamente facilita muito, nas nossas conversas e no nosso processo criativo. Mas essa produção à distância foi interessante, apesar da demora. Acabamos provando que é possível fazer música assim. As gravações tiveram algumas complicações, porque gravamos em três estúdios diferentes. O produtor Pedro Costa, que estava no Rio de Janeiro, não conseguia ter acesso a base que estava sendo gravada aqui. Apesar de dificuldades como essas, deu certo. A gente pretende continuar produzindo todas as músicas à distância, mesmo que acabe a pandemia. Esse processo acaba sendo mais prático, pois encurta as distâncias e foi econômica para nós. 

Gustavo: Acho que a principal dificuldade foi trabalhar à distância. Por outro lado, foi incrível perceber que é possível fazer isso. É incrível!

Qual a ideia que a capa do primeiro single “Fogo Branco”, produzida por Fernando Duarte, quer passar?

Amilcar: “Fogo Branco” é inspirado em uma personagem ficcional do curta de Renan Zovka. A ideia que passamos para Fernando Duarte é de uma cangaceira estilizada, com toques de psicodelia. Quando ele nos apresentou achamos a arte muito massa e muito condizente com nosso trabalho.

O psicanalista e pesquisador Kléberson Ananias deu um feedback, publicado por vocês no Instagram, comentando que a música “Fogo Branco” era “uma coisa muito Pernambuco para o mundo e para uma metrópole”. Essa descrição faz jus ao conceito do grupo, no qual pretende modernizar as movimentações culturais tradicionais? 

Amilcar: A gente quer falar para brasileiros de diversas regiões, trazendo nossa marca regional. O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical. Porém, o tema de nossas canções são temas universais, nossas sonoridades são pop, então não existe essa pretensão de modernizar as manifestações tradicionais. 

Gustavo: O público mais intelectualizado muitas vezes simpatiza muito com nossas canções. Mas acho que, em determinada medida, temos que chocar um pouco esse público, muito acostumado a esse suco tropicalista bem medido. Como a mistura com o popular massivo, que é um viés subestimado, e que pode incomodar. Quando e se isso ocorrer, periga sermos rejeitados por esse mesmo grupo intelectual. Em determinada medida, acho importante almejar essa quebra de perspectiva. Não vejo isso na gente ainda. Mas acho que é necessário ambicionar.

“O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical.”

Nessa época de eleições municipais, o que vocês esperam dos candidatos à eleição enquanto as políticas públicas voltadas à cultura e aos artistas? 

Amilcar: Espero diálogo e apoio. Eu acho que é isso que se espera de um gestor público. E nas políticas culturais não devem ser diferentes. Você está disposto a escutar os artistas, saber quais são suas necessidades e trabalhar em prol deles. Eu acho que um dos grandes problemas é os gestores estarem mais preocupados com seus interesses políticos, do que com os interesses da categoria que eles deveriam representar. 

Gustavo: Acho saudável não esperar nada de político algum. Político não faz nada se não houver mobilização social. Nesse sentido, espero que a sociedade se mexa. Não adianta ficar reclamando de políticos e da política, a cultura é de todos nós. O que estamos fazendo pela cultura? Depois que fizermos algo pela cultura de forma autônoma, cabe ao político abraçar projetos consistentes já existentes. Nesse sentido, não temos que “esperar” nada dos políticos. E se não formos nós a nos mexer, vai continuar sendo um jogo de espera.

73 anos de histórias: Stephen King, o mestre do horror

Os 10 melhores livros de Stephen King segundo seus fãs - Blog da TAG

Foto: Divulgação.

O célebre mestre do horror Stephen Edwin King, nasceu em Portland, estado do Maine, no dia 21 de setembro de 1947. Com uma carreira conceituada por seus notáveis contos e histórias de terror fantástico e ficção, o escritor norte-americano é considerado um dos mais proeminentes autores da sua geração. Seus livros já venderam mais de 400 milhões de cópias e várias de suas obras foram adaptadas em filmes, séries e quadrinhos. 

King conheceu o drama da vida real cedo. Quando Stephen tinha dois anos, seu pai, Donald Edwin King, abandonou a família. Junto a sua mãe Nellie Ruth Pillsbury e ao seu irmão adotivo David, passou por grandes dificuldades financeira. Viveu como itinerante, tendo transitado por lugares como Indiana, Wisconsin e Connecticut. Após nove anos como viajante voltou para o Maine, mas dessa vez se instalou na cidade de Durham. 

Aos 4 anos de idade, Stephen King viveu um dos momentos mais marcantes da sua vida. Ele presenciou o acidente aterrorizador de um de seus amigos, que foi atropelado por vagões de trem ao ficar preso em uma ferrovia.

O acontecimento inspirou o autor em sua obra “Quatro Estações” (1982). Este livro inclui entre suas páginas o conto “Outono da Inocência: o corpo”, que aborda a história de um grupo de adolescentes curiosos que saem de suas casas para tentar encontrar o corpo de um garoto que estava desaparecido e descobrem  que o menino foi morto acidentalmente. O conto inspirou e deu origem ao filme “Conta Comigo” que, em uma de suas cenas, mostra dois garotos correndo em uma ferrovia enquanto um trem chega perto de alcançá-los. Nesta obra, o autor se distancia do sobrenatural e constrói suas narrativas baseadas em pessoas comuns.

O início da jornada

Stephen desenvolveu seus primeiros escritos no ano de 1959, aos 12 anos.  Durante seu ensino médio, o autor decidiu que queria viver da escrita e passou a investir em sua carreira profissional. King foi publicado pela primeira vez, de forma amadora, por uma revista pulp (revistas produzidas com papel barato, um tipo de entretenimento rápido que podia por exemplo ocupar o lugar dos atuais seriados de TV).

Ao terminar o colegial, ele inscreveu para a faculdade do Maine, onde cursou a graduação em letras. Lá,  costumava publicar a coluna intitulada “King’s Garbage Truck” para o jornal estudantil.  

Ainda durante sua graduação, vendeu seu primeiro trabalho, “The Glass Floor” (1967), para uma revista por $35,00. O escritor passou a escrever para outras revistas, vários de seus trabalhos foram compilados e publicados em sua obra Sombras da Noite (1978).

Na faculdade ele conheceu Tabitha Spruce, sua esposa, com quem teve três filhos. Foi graças a ela que sua primeira obra consolidada, Carrie (1973), foi lançada. Enquanto escrevia Carrie, Stephen jogou a história no lixo por não estar satisfeito com a narrativa. Tabitha, no entanto, ao achar os esboços escritos pelo autor adorou e o incentivou a continuar. Após o sucesso inicial da obra, a editora Doubleday comprou o livro por 400 mil dólares. 

Filme Carrie – A Estranha (2013), remake do filme clássico dos anos 70, baseado na obra de Stephen King. Foto: Divulgação/Sony Pictures. 

Em 1974, outro acontecimento inesperado marca a vida do literato. Com o falecimento de sua mãe, Stephen King saiu de sua cidade natal e mudou-se para a cidade de Boulder, no Colorado. Nesse período o escritor ficou deprimido e acabou desenvolvendo o vício em álcool. 

No primeiro dia de mudança, a família King foi recebida pelo rigoroso inverno da cidade. Eles hospedaram-se em um hotel que dificilmente era frequentado por outras pessoas. Essa descrição ambientou o livro “O Iluminado” (1977), considerado por muitos sua principal obra. O consagrado livro foi adaptado cinematograficamente pelo diretor Stanley Kubrick. 

No período anterior à publicação do Iluminado, King já havia escrito seu segundo livro “A Hora do Vampiro” (1975). No final dos anos 70 escreveu Zona Morta (1979), sendo este seu primeiro romance a estar entre os mais vendidos do ano nos Estados Unidos. 

Entre as décadas de 1970 e 1980 King escrevia descontroladamente — tanto, que as editoras temiam que sua marca ficasse saturada no mercado. Foi então que o autor começou a utilizar o pseudônimo Richard Bachman, para poder publicar seus escritos. No entanto, um  funcionário de uma livraria chamado Steve Brown,  acabou descobrindo sua identidade escondida e expôs o escritor. O evento acabou inspirando King no seu livro “A Metade Negra” (1989), que narra a história onde o pseudônimo de um autor ganha vida própria.

Filme It – A coisa (2017) dirigido por Andy Muschietti. Foto: Divulgação/Warner Bros.

Nesse mesmo ano, o rei do terror chegou a enfrentar seus próprios demônios ao se juntar para o grupo de Alcoólicos Anônimos e tentar livrar-se do vício em cocaína. Os problemas que enfrentava contra as drogas era tão pesados, que ele já mencionou em várias entrevistas que praticamente não lembra dos momentos em que escreveu os livros “Cujos” (1981) e “It – A Coisa” (1986).  Foi por volta de 1990, após uma intervenção feita pela sua família, que King parou de beber. Após ficar sóbrio, escreveu “Trocas Macabras” (1991). 

“Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem.”

Stephen King

Em 1999, outro acidente invade a vida de Stephen King. Dessa vez com ele próprio. Ao caminhar pelas calçadas do Maine, Stephen foi atingido por um furgão descontrolado e precisou passar por cirurgias nas costelas e quadris. Durante sua recuperação, escreveu contos, uma novela e seu livro de memórias, On Writing (2000).  

Sucesso, fama e ascensão

Com o destaque que recebeu por suas assombrosas histórias de horror, o autor já conquistou diversos prêmios. Entre eles o Bram Stoker Awards – uma premiação concedida pela Horror Writers Association (HWA) por “realização superior” no gênero terror –  e o World Fantasy Award, um dos mais prestigiosos prêmios da ficção especulativa. 

Em 2015, passou a ser descrito como oficialmente como “rei do terror” pela National Endowment for the Arts, tendo recebido a Medalha Nacional das Artes por suas contribuições para a literatura.

O universo de mistério, suspense e medo criado por Stephen King o levou a ser considerado um dos autores mais marcantes do século, estando entre os 10 autores mais traduzidos do mundo. Com mais de 50 obras publicadas, King revela o esplendor do fantástico e assustador imaginário humano através da literatura.

Dia da Televisão Brasileira: conheça obras marcantes da Rede Globo

Tele Globo – Memória

Repórteres do telejornal “Teleglobo” em 1965. Foto: Divulgação/Tv Globo.

Ao longo de 70 anos de história da televisão brasileira, a Rede Globo se tornou uma das emissoras mais importantes e originais com as suas produções. Anterior a ela, a TV Tupi iniciada em 1950 pelo jornalista Assis Chateaubriand, mais conhecido por Chatô, foi a primeira emissora do Brasil. Mas, após a concessão de TV para a Rádio Globo ser assinada pelo ex-presidente do Brasil Juscelino Kubitschek em 1957, os trabalhos da Tupi são afetados pela forte audiência da nova rede. A Globo dá início às suas produções apenas em 1965. Desde então, alcançou altos níveis de audiência no decorrer dos anos, e muito disso se deve às suas telenovelas, que se transformaram em paixão nacional. Pensando nisso, a equipe do Café Colombo selecionou algumas obras em comemoração ao Dia da Televisão Brasileira.

Avenida Brasil 

A novela “Avenida Brasil” (2012), dirigida por Ricardo Waddington, Amora Mautner e roteirizada por João Emanuel Carneiro, com colaboração de Antonio Prata, Luciana Pessanha, Alessandro Marson, Márcia Prates e Thereza Falcão foi um dos principais sucessos da Rede Globo e no mundo. Além disso, sua audiência chegou na Argentina, Uruguai, Venezuela, Paraguai, Portugal, Chile, Marrocos e, no próprio país, ficando nos trending topics do Twitter. Quem lembra da transmissão do Jornal Nacional da ruas paradas de São Paulo quando todos esperavam o último episódio da trama? Para quem não assistiu, vale a pena conferir! Ela está disponível no aplicativo da Globo Play

No último capítulo, a trama chegou a 51,7 pontos de audiência segundo os dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas (IBOPE), conquistando o lugar de maior audiência de TV dá década, ficando apenas atrás de “Passione” (2010), com 54 pontos. Na época, Avenida Brasil ultrapassou a audiência do final da Libertadores (disputada entre Corinthians e Boca Júnior). 

SINOPSE: “Abandonada em um lixão pela madrasta, a menina Rita jura vingança. Já adulta, ela assume a identidade de Nina (Débora Falabella) e volta para se vingar da megera, mas se vê dividida ao descobrir que o seu grande amor é filho da mulher que arruinou a sua vida” 

Nina torna-se empregada doméstica da família da madrasta para iniciação do plano. Foto: Tv Globo/Estevam Avelar.

Grande Sertão: Veredas

Conhecida como uma obra inadaptável pelo diretor Walter Avancini em razão da sua dificuldade de transformá-la em minissérie, Grande Sertão: Veredas, nome homônimo do livro de Guimarães Rosa, recebeu sua adaptação na década de 1980 e reproduzida no Canal Viva. Seu surgimento foi em comemoração aos 20 anos da Rede Globo. Com uma superprodução, a emissora contratou 2.000 pessoas para execução da trama que durou um período de três meses na cidade de Buritizeiro, em Minas Gerais. De acordo com site Memória Globo, foram 8 quilos de base e 50 litros de sangue cenográfico pelos autores. 

Na escalagem dos personagens Riobaldo, vivido por Tony Ramos e Diadorim, vivenciado por Bruna Lombardi, descrevem que de início ficaram assustados com a proposta. Tony Ramos acreditava não ter a capacidade de convencer os telespectadores com sua atuação em entrevista para o Memória Globo. Já Bruna Lombardi que, na trama, vive um personagem masculino, diz em entrevista para o site: “achei que o personagem não tinha nada a ver comigo, Eu era vista como uma heroína romântica, frágil. Durante um tempo me perguntei o que tinha em comum com aquela força da natureza. Foi um trabalho vital, mesmo.” 

SINOPSE: “No sertão de Minas, nas primeiras décadas do século 20, as tropas federais estão em conflito com as forças provinciais, apoiadas por exércitos de jagunços. O vaqueiro Riobaldo narra sua vida de jagunço: são histórias de disputas, vinganças, amores e mortes vistas e vividas pelos anos que percorreu Minas, Goiás e o sul da Bahia.  A minissérie destaca os laços afetivos entre os jagunços Riobaldo e Reinaldo, conhecido como Diadorim, tendo a disputa pela terra como o grande tema da narrativa. Porém, Reinaldo guarda um segredo.”

Bruna Lombardi e Tony Ramos recordam bastidores de 'Grande sertão: veredas'  - Jornal O Globo

Riobaldo e Diadorim estabelecem uma relação de proximidade na trama. Foto: Divulgação/Tv Globo.

Roque Santeiro ou O Berço do Herói 

A peça dirigida e idealizada por Dias Gomes, “O berço do Herói”, tinha data para estreia no ano de 1965 no Brasil. Como o país vivia em tempos sombrios marcados pela Ditadura Militar, a apresentação foi censurada. A peça quase virou novela, mas novamente sem nenhum sucesso. A razão: questionava a posição instaurada do herói militar. Com a redemocratização brasileira em 1985, a peça vai ao ar, em formato de novela, e alcança  grande sucesso. 

SINOPSE: “O protagonista Cabo Roque, em meio aos bombardeios em um dos combates no norte da Itália no final de 1944 tem um surto de nacionalismo, corre em direção às linhas inimigas, e desaparece em meio ao intenso fogo de batalha, sendo dado como morto. Como seu corpo nunca foi encontrado, após a guerra, se desenvolve um comércio turístico na região da pequena cidade natal do protagonista, que gira em torno do mito do herói de guerra.” 

Lima Duarte, Regina Duarte e José Wilker deram vida a Sinhozinho Malta, Viúva Porcina e Roque Santeiro na segunda versão da novela, veiculada em 1985. Foto: Irineu Roberto Filho/Divulgação

O Cravo e a Rosa

A obra o Cravo e a Rosa, considerada a obra de abertura do escritor Walcyr Carrasco na Rede Globo, foi exibida pela primeira vez nos anos 2000, e, depois de três anos, no Vale A Pena Ver De Novo. Além disso, a novela é um remake da telenovela de Ivani Ribeiro, “O Machão” de 1970, transmitida na antiga TV Tupi. O Cravo e A Rosa trazia um sentimento reconfortante através dos diálogos cômicos, uma ótima forma de encerrar o dia. 

Inspirada no clássico de William Shakespeare, “Megera Domada”, Carrasco afirma no site Memórias Globo que também “se inspirou na peça Cyrano de Bergerac, escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand, para caracterizar o triângulo amoroso formado por Edmundo (Ângelo Antônio), Bianca (Leandra Leal) e Heitor (Rodrigo Faro)”. 

SINOPSE: “Comédia romântica inspirada no clássico ‘A Megera Domada’, de Shakespeare, a novela se passa em 1920 e narra o tumultuado romance entre o caipira Petruchio e a geniosa Catarina.”

Adriana Esteves e Eduardo Moscovis viveram o inesquecível casal Catarina e Petruchio em 2003. Foto: Divulgação/Acervo Globo

Bezerros recebe primeiro concurso de poesias online

Poema do escritor Alcides Villaça publicado no livro Ondas Curtas. Foto: Maurício Santos/Uniplash 

A Associação do Movimento Artístico e Literário de Bezerros (AMALB) realizou no mês de julho, em comemoração ao seu 6° ano de fundação, o concurso Sentimentos na Pandemia. O evento contou com 13 finalistas de estados diferentes. Entre eles, a vencedora do concurso, Esmeralda Costa, natural de Campos Sales, Ceará, selecionada pelo público na página da AMALB no Facebook. Esmeralda recebeu, como premiação, uma coleção de livros, DVD’s, e um conjunto de artesanatos. 

A estudante de Comunicação Social e, também, finalista do concurso, Eduarda Lima, menciona que “esse concurso veio como uma válvula para que pudéssemos liberar o estresse causado pelo isolamento, de forma criativa, numa linguagem poética, seja otimista, ou aceitando o pessimismo, mas antes de tudo, real”. 

O produtor cultural e poeta membro da Associação, Lunas de Carvalho, afirma que o concurso foi formado de uma forma exemplar. “Pessoas falaram da sua experiência de vida, das suas expectativas com relação à pandemia, e também de quando sairmos dessa situação”, analisa Lunas. Segundo a escritora e produtora cultural, membra da AMALB Maria José Arimatéia, a Associação “tem como propósito trabalhar a leitura e a literatura, interligada às demais artes”.

A AMALB é uma associação bezerrense formada por pessoas dedicadas ao movimento poético e literário da cidade. Muitos dos seus projetos buscam estimular à produção da arte e da literatura na população, assim como valorizar as personalidades artísticas do município. A Organização acredita que destacar a importância da leitura reflexiva é fundamental para um melhor desenvolvimento social.

Esmeralda Costa. Foto: Acervo pessoal

Perfis dos Finalistas 

Esmeralda Costa, de 40 anos, vencedora do concurso relata ter uma grande facilidade para escrever crônicas e artigos de opinião. Além disso, gosta de analisar  e produzir trabalhos acerca de obras de outros autores. Afirma ter sido apenas leitora de poesia, e nunca imaginou que um dia descobriria esse dom. Sua primeira poesia surgiu por causa do concurso. Antes dele, ela só se recorda de ter escrito uma crônica poética, que exaltava sua profissão como professora, e o orgulho pela sua carreira. 

Pâmela Beatriz, 20 anos, residente de São Paulo capital e natural de Bezerros, diz que seu incentivo para participar do concurso foi passar para alguém esperança de que um dia todo esse contexto de pandemia possa melhorar. Incentivada por sua professora do ensino médio, Pâmela têm admiração por grandes clássicos pelos quais ela se vê influenciada na área. Ela publicou, em Abril, seu primeiro livro “A poesia na essência da alma”.

José Janailson, 25 anos, natural e residente de Sairé, Pernambuco, poeta independente desde 2013, foi incentivado por alguns professores e familiares. Seu poema finalista tinha como objetivo principal permitir “que as pessoas não parem de acreditar por estarmos passando por um momento difícil, pois isso pode ter um lado bom, como passar a amar mais as pessoas próximas da gente, valorizar mais as pequenas coisas, e também entendermos que não há rico, nem pobre, nem preto, nem branco, pois todos são tratados da mesma forma perante o vírus.”

Clóvis José, 31 anos, natural e residente de Bezerros, Pernambuco, escreve desde 2004, e não pensa em levar a literatura como principal fonte de renda. “Poderia incluir como fonte de renda, mas viver exclusivamente da literatura se torna muito difícil, especialmente nos dias atuais, em que poucas pessoas se dedicam à leitura de livros impressos”, diz ele. Uma realidade que evidencia às condições dos que se dedicam a fazer arte, numa época onde se idolatra quem faz selfies.

Letícia Quirino, 20 anos, natural e residente de Sairé, estudante de enfermagem e classificada em segundo lugar na competição, afirma que não quis participar da competição inicialmente, mas logo o reconheceu como um evento em que ela poderia se expressar e representar as mulheres e o povo interiorano. Em seus planos, se vencesse, os livros que representavam maior parte da premiação, seriam levados como material de doação à Biblioteca Pública Municipal. O título “SEDE DE VIDA”, seu poema finalista, apresenta a ânsia e necessidade do ser humano de encontrar a si mesmo.

Iram Fábio, de 38 anos, conhecido por seu pseudônimo Bradock, natural e residente de Caruaru, Pernambuco, ao ser perguntado sobre o que lhe interessou em participar do concurso, respondeu: “para não ser esquecido”. Afinal, para quê um escritor escreve, se não for para ser lembrado, ou ao menos sua ideia? Numa leitura de paladar mais sombrio, Bradock se inspira em grandes nomes da literatura dark, como Edgar Allan Poe e H.P Lovecraft.

Pedro Célio, radialista de 59 anos, de Fortaleza, Ceará, segue a literatura de forma paralela ao seu trabalho na rádio e televisão. Ele chegou a obter lucros com a poesia. Para Pedro, “estar nesse concurso, foi desfrutar de companhias agradáveis, pois todos, sem exceções, repassaram conhecimentos. Um  constante aprendizado”.

Eduarda Lima, 19 anos, de pseudônimo Gure Hanaori, classificada em terceiro lugar, afirma que o concurso lhe abriu muitas portas: “consegui entrar em contato com uma editora, e estamos discutindo a publicação do meu primeiro livro. Também fui homenageada no Primeiro Sarau Poético Online, organizado pela Cia de Teatro Os Filhos de Pã, de Bezerros. Depois do concurso, também faço parte da equipe AMALB, e fui convidada para participar do livro Sentimentos na Pandemia, assim como para o lançamento do segundo livro da participante Pâmela Beatriz.”

Eduarda Lima é estudante do primeiro período do curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste (UFPE-CAA), e faz parte da Associação do Movimento Artístico e Literário de Bezerros.

Tributação dos livros: o projeto de tornar o aprendizado um artigo de luxo

Cliente de máscara na Livraria Travessa no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação/ Livraria Travessa.

Na última semana de julho, o ministro da Economia, Paulo Guedes, enviou a primeira parte da Reforma Tributária para o Congresso Nacional. A proposta propõe uma série de mudanças, entre elas:  taxação  na distribuição de lucros e dividendos, mudança no imposto de renda, criação de um tributo sobre o comércio, pagamentos e produtos industriais, e o fim da isenção de impostos para livros. Esse último, ganhou grande efervescência nas últimas semanas, quando sindicatos, escritores, editoras e leitores subiram a #DefendaOLivro nas redes sociais.

A alíquota zero, referente a isenção de imposto dos livros, corresponde a uma emenda apresentada pelo autor brasileiro e Deputado Constituinte Jorge Amado, adicionada na Constituição Federal de 1946. Assim, a Constituição de 1988, que marcou o início da redemocratização, manteve a isenção de impostos com a finalidade de aumentar o acesso ao livro por parte da população.

Esse imposto não era referente a contribuição dos livros. Em 2004, a taxa  deixou de existir após a criação da lei 10.865 que isentou as obras à venda e importadas. Os tributos cobrados anteriores à data eram referentes ao Programa de Contribuição Social (Pis), Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). 

Na proposta da Reforma Tributária proposta pelo ministro da Economia, os livros estariam sujeitos a um adicional de 11% à 12%. Caso o imposto passe pelo Congresso, será necessário fazer uma Emenda Constitucional, no qual abrirá aval na Constituição Federal vigente. 

Em audiência no Congresso Nacional na quarta-feira (5), Paulo Guedes disse que a isenção beneficia a população que poderia pagar mais impostos. Sendo assim, tributar os livros poderia ajudar em programas sociais que auxiliam os mais pobres, como o Bolsa Família. A outra intenção do ministro é manter a base de arrecadação intacta, uma vez que a Federação teve quedas nas arrecadações, como resultado da pandemia da COVID-19.

Contudo, se seguirmos a concepção de Guedes, essas medidas adotadas para taxar produtos utilizados pela elite podem ampliam a desigualdade social, afastando leitores de classes mais baixas. Além desse ponto, a proposta é mais um contribuinte na crise do mercado editorial. 

“O mercado de venda de livros vem em queda há muito tempo. As livrarias Cultura e Saraiva, que buscam recuperação judicial, são bons exemplos disso. Essas crises fazem com que haja muita competição, apesar da pouca quantidade de livrarias e baixa demanda. Dessa forma, os preços baixam e os lucros diminuem. Muitas livrarias fecham nesse processo e várias editoras são prejudicadas”, diz o estudante de Economia Rafael Cavalcanti. Para ele, a isenção dos impostos é necessário para as livrarias e leitores, uma vez que o imposto e a consequente elevação do valor dos livros deixam o acesso à cultura cada vez mais restrito, e potencializa a crise no mercado editorial.

A dificuldade de consumir literatura é uma realidade presente, principalmente quando se tem o recorte de classe, cor e idade. A Bienal do Livro no Rio de Janeiro de 2019, teve participação de 600 mil pessoas. Segundo dados disponibilizados pelo evento, 51% desse público é de jovens de 10 à 29 anos, 72% são de não brancos e 68% fazem parte das classes D,C e E.

“Eu lembro que li os meus primeiros livros favoritos quando eu tinha uns 8 anos. Minha família não tinha condições de comprá-los e eles não eram prioridade dentro de casa. A escola que eu frequentava tinha pouquíssimas obras de literatura na biblioteca, então a maioria dos que li na infância foram livros que a minha irmã mais velha trazia da biblioteca da escola que ela estudava”, conta a estudante de Comunicação Social e leitora assídua Thainara Amorim.

Muitos estudantes não têm uma ponte que os encaminhe para o universo literário. Uma vez que, segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil’’, realizada em 2016, menos de 5 livros são lidos anualmente pelos brasileiros, e apenas metade desses são lidos do começo ao fim.  

Além disso, referente à fala de Thainara, existe um cenário vivenciado por muitas crianças e adolescentes: a falta de acesso aos livros no ensino básico. Durante os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), os preços dos livros se mantiveram estáveis e acessíveis, criando novos leitores de classes menos favorecidas economicamente.

O consumo de livros se tornou ainda mais difícil, motivado principalmente por grandes taxas de inflação e aumento da pobreza, durante o governo de Dilma Rousseff (2011-2016) e agravadas no período de Michel Temer (2016-2018). O resultado:  queda nas vendas das livrarias e crise no setor livreiro, como mostrados anteriormente.

Em contrapartida a emenda, Paulo Guedes propõe fazer um programa de doações de livros. “O governo dará livros de graça para os mais pobres’’, diz Guedes. O Senador Fabiano Contarato (Rede-PE) afirma em rede social que essa iniciativa pode comprometer a difusão de obras críticas, que poderiam ser barradas pelo Governo.

Rafael Cavalcanti diz que, “acho muito difícil a distribuição desses livros. E caso for, serão os livros que o governo acha que devem ser lidos’’. A afirmação do estudante de economia é baseada no atual governo flertar com princípios antidemocráticos e ditatoriais. 

A Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros e a Associação de Editores de Livros Escolares se posicionaram no manifesto “Em Defesa do Livro’’, reconhecendo a necessidade da reforma e da simplificação tributária. Porém, consta no documento que “não será aumentando os preços dos livros que essa questão será resolvida’’. Também é destacado no texto a importância da isenção como forma de “encorajar a leitura e promover benefícios de uma educação de longo prazo’’. 

Thainara também menciona que apesar do aumento não ser tão devastador, na prática, é um abalo para o mercado editorial, que tende a perder clientes e diminuir a publicação dos textos de pesquisadores e autores. “É uma mudança que não é tão grave quando você pensa em leitores isolados, mas é gravíssima no geral’’, afirma. 

O discurso do ministro da Economia reforça a ideia de que a classe baixa está distante do artigo de luxo da criação e reflexão intelectual, utilizado apenas por classes econômicas elevadas. “O argumento não é que as pessoas mais ricas tendem a ler mais, mas sim, que livro é coisa de rico. Como se o cidadão comum, ao ler, estivesse se apropriando de algo que não é deles’’, diz Thainara. E complementa “É como o escritor Darcy Ribeiro falou: ‘A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto’”.

Saudade marca ausência da 30° edição do Festival de Inverno de Garanhuns

O beija-flor, símbolo do Festival de Inverno, cochila com a falta da festa esse ano. Foto: Divulgação/Lucas Santos.

Nos últimos 29 anos, a média de 20° C é o principal motivo de Garanhuns se reunir para festejar durante dez dias no mês de julho. Nos 21 polos de música, literatura, cultura popular e exposições, o Festival de Inverno de Garanhuns atrai cerca de 600 mil pessoas, de acordo com a estimativa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Em razão da pandemia da COVID-19, que se alastra de forma nociva no país, a 30° edição do Festival entrou no rol de eventos cancelados no Estado de Pernambuco.Esse novo cenário que, há exatamente um ano atrás seria marcado por  novos cheiros e sabores experimentados pelos turistas e moradores da Cidade das Flores durante o Festival,  dá lugar ao isolamento e a lembrança.

“Me emociono com cada espetáculo que participo durante o Festival de Inverno de Garanhuns. Todos os lugares me deixam felizes. A festa em si sempre me deixa marcas. Quando termino, saio cheia de energia positiva’’, esse é o principal conjunto de sentimentos que a garanhuense amante da fotografia Sandra Ramos, descreve quando se despede do maior evento cultural de sua cidade. Em 1991, o festival iniciava e, com ele, o vínculo entre Sandra e as noites frias que envolviam os dias de festa. Participante de todas as 29 edições, a fotógrafa atravessa a cidade, nos mostrando os locais que mais sente falta durante o FIG.

Sandra nos convida a imaginar e revisitar o teatro Alfredo Leite Cavalcanti, principal ida da fotógrafa durante o festival, se torna o ponto mais aconchegante e nostálgico. “Um lugar muito marcante é a fila da bilheteria do teatro. Eles distribuem as entradas de manhã, então, todos vão muito cedo para a fila. Você conhece pessoas de todos os lugares e faz novas amizades. Além das pessoas que eu conheço há anos e sempre nos encontramos por lá”, disse. 

Ela também lista os palcos multiculturais presente na festa: o Pop, o da Cultura Popular e o Mestre Dominguinhos,  onde  passaram nomes como Letrux, Johnny Hooker e Priscila Senna; a Praça da Palavra, com os lançamentos literários; oficinas, espetáculos de dança e circo no Parque Euclides Dourado; os bolos e cafés da Estação Doçura; e os afters ao término de cada noite. Para o professor de História Julio César, o festival nos convida a ter contato com diversas manifestações artísticas, um verdadeiro símbolo de inclusão e novas experiências. 

Show do cantor Thiago Pethit no Palco Pop em 2013. Foto: Acervo Pessoal/Sandra Ramos.

Além disso, o festival contribui para um grande crescimento econômico da cidade. “O evento traz consigo uma importante contribuição, tanto do ponto de vista econômico, como na exposição do trabalho de várias pessoas que vivem da arte em Pernambuco’’, diz o professor. A Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico (SDE) divulgou uma pesquisa sobre a edição de 2019 que consta a boa movimentação na cidade em comparação a 2018. A Casa da Arte, museu aberto às exposições e feirinhas, obteve um aumento de 100%, enquanto a rede hoteleira da cidade faturou 83% a mais em relação a 2018, seguida de 60% na rede alimentícia

Para conseguir acompanhar todos os espetáculos desejados e conhecer novos artistas, Sandra Ramos acorda cedo e segue à  risca uma planilha de horários. A ideia de organizar o calendário do festival surge da sua vontade de conhecer novas atrações, para além das que são realizadas na Praça Mestre Dominguinhos, considerada o ponto principal da festa. “Nos 3 ou 4 primeiros anos eu só me ligava em ir para os shows da Praça Mestre Dominguinhos, como até hoje, as pessoas acham que o festival se resume a esses shows […] Atualmente eu faço uma planilha e procuro ver shows e coisas que  ainda não vi nas edições passadas”.  

Nessa sua caminhada por palcos e praças, Sandra chegou a conhecer grandes artistas nos quais admira. O cantor Ney Matogrosso, em 2013, passava sua turnê “Atento aos sinais” por Garanhuns. Uma das suas maiores emoções,  foi quando Sandra conheceu Ney no FIG, e pôde lhe dar um grande abraço. “Tenho um carinho enorme por ele, por ser um dos artistas mais completos no meio musical. Me senti maravilhada quando o abracei, tirei fotos e pedi um autógrafo”, comenta.

Sandra também coleciona encontros com o cantor e intérprete Lenine, o Maestro João Carlos Martins, o escritor Ariano Suassuna e as cantoras Elba Ramalho, Alcione e Ângela Maria. Sobre as duas últimas, ela comenta “me marcou muito conhecer Alcione e Ângela Maria. Eu cresci escutando as músicas delas porque meu pai amava. Poder abraçá-las foi como se meu pai estivesse comigo”.

Para não esquecer as lembranças de inúmeras noites vividas nos 29 anos de Festival, Sandra Ramos coleciona fotos e folhetos de todas as edições. “Hoje estamos sob uma pressão de evitar aglomerações e não poder participar de grandes eventos culturais presenciais, então suscitar memórias como essas, nos traz uma importante reflexão sobre o papel das artes nas nossas vidas” menciona Julio César.

O professor ainda cita que para Nietzsche, “temos a arte para não morrer de verdade”, e continua “me parece muito verídica essa afirmação, sobretudo quando pensamos nos números de mortes diárias, na inércia do Governo Federal em relação ao COVID-19 e o próprio distanciamento que vem ocasionando problemas psicológicos’’. O beija-flor descansa este ano, mas se prepara para as próximas edições que virão.