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Para pôr na estante: Conheça 5 livros da Literatura Negra Brasileira

Entre as múltiplas violências que o racismo trouxe aos negros no Brasil, está a negação da intelectualidade da mulher e do homem negro. No campo da literatura brasileira, foram impostos diversos impasses a escritores negros. O reconhecimento destes autores é algo ainda a ser superado nos dias atuais, embora a literatura negra tenha ganhado cada vez mais espaço devido a luta dos movimentos antirracista no Brasil ao longo da história. Um exemplo disso, é a obra Pequeno Manual Antirracista da escritora Djamila Ribeiro, que foi a mais vendida em 2020 por um dos maiores canais de vendas de livros no mundo, a Amazon.

Mas em que consiste o que chamamos de literatura negra ou literatura afro-brasileira?


A literatura negra não se limita a um só gênero literário ou temática. Ela é marcada pelos múltiplos sentimentos e vivências dos seus autores. Em comum, as composições da literatura afro-brasileira possuem a busca pela conquista do seu lugar identitário na arte.

Para ocupar este lugar no mercado literário, tais escritores atravessaram a desvalorização por parte das grandes editoras durante anos no Brasil. Segundo a pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), o perfil dos escritores brasileiros com publicações entre 2004 e 2014, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, que estão entre as principais editoras do país, é formado por 97,5% autores brancos.

Outra dificuldade enfrentada pelos autores era a de que dificilmente tinham a ajuda de alguém com influência capaz de facilitar a passagem desses escritores para o mercado literário. Quando os livros conseguiam ser lançados, muitas vezes, por pequenas editoras ou de forma independente, as livrarias não os colocavam nas prateleiras.

Confira agora algumas publicações da literatura afro-brasileira:

Úrsula (1859) – Maria Firmino dos Reis
Editora Taverna

Capa do livro Úrsula da Editora Taverna. Foto: Divulgação.

Úrsula é um romance escrito em um contexto precedente à abolição da escravatura no Brasil. Escrito por uma afrodescendente antes mesmo das obras de Castro Alves, conhecido como o “Poeta dos Escravos”, o livro é o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher e um dos primeiros a abordar o abolicionismo.

Maria Firmino dos Reis assinou o livro com o pseudônimo “uma maranhense” e escreveu no prólogo um relato sobre a exclusão de escritores negros, principalmente das mulheres pela elite intelectual brasileira. Ela diz:

“Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.”

(p. 13)

Alforrias (2012) – Rita Santana
Editora Editus

Capa do livro Alforrias da Editora Editus. Foto: Divulgação.

Comumente, as narrativas sobre o prazer na literatura brasileira hipersexualizaram a mulher negra com a construção de estereótipos racistas. No entanto, Alforrias atravessa o erotismo e o sentimento sem os moldes da branquitude. De forma que somos levados a atravessar uma literatura poética, marcada pelo amor e pelo prazer devaneados pelo eu-lírico, como é observado no poema Acridez:

“A noite acortinou-se sobre o meu sorriso
E nada mais seria, desde então:
Comunhão de corpos, inclusão de membros,
Festejamento de carnes,
Nem mesmo amplidão de águas.

Vi-me no falecimento das ânsias
A sangrar sobre o vinhaço.

Corria mansidão sobre o meu desespero
E em tempos desiguais o querer perdeu-se
No despenhadeiro da distância.
O gosto perverso da separação
Ventilou minha boca de mulher que ama.
Ninguém viu o sabor na língua.
Ninguém viu o sofrer dos dentes.”

(p. 27)

Olhos d’ água (2014) – Conceição Evaristo
Editora Pallas

Capa do livro Olhos d’água da editora Pallas. Foto: Divulgação.

O livro é uma coleção de 15 contos que exploram, de maneira poética na prosa, o racismo e a desigualdade social. Em uma tentativa de compreensão de si mesma, a autora percorre as vivências da mãe da autora. Memórias que chegavam a se contrastar com suas próprias experiências. Conceição Evaristo também representa a figura feminina e a figura materna por meio de referências a elementos da cultura afro-brasileira, como, por exemplo, os orixás Oxum e Iansã e de diferentes personagens que ganham vida em cada conto de Olhos d’água.

A exemplo do seguinte trecho do conto intitulado com mesmo nome do livro: 

“Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de prantos balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, por que eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela? […]”

(p. 12)

Não Pararei de Gritar (2019) – Carlos de Assumpção
Editora Companhia das Letras

Capa do livro Não Pararei de Gritar da Companhia das Letras Foto: Divulgação.

As poesias desta obra denunciam e testemunham a desigualdade racial no Brasil. O livro Não Pararei de Gritar é uma antologia poética construída ao longo de 69 anos por Carlos de Assumpção.

Carlos de Assumpção, hoje com 94 anos, dedicou a vida à militância negra. O poema da obra intitulado “Protesto”, da obra Não Pararei de Gritar, causou frenesi quando foi declamado em 1958 na Associação Cultural do Negro, em São Paulo. A partir de então, tornou-se o poema mais estimado por integrantes do Movimento Negro no Brasil.

Em Protesto, o autor manifesta a necessidade dos negros alcançarem os espaços predominados por brancos:

“Eu não quero mais viver

No porão da sociedade

Não quero ser marginal

Quero entrar em toda parte

Quero ser bem recebido

Basta de humilhações

Minh’alma já está cansada

Eu quero o sol que é de todos

Ou alcanço tudo o que eu quero

Ou gritarei a noite inteira […]”

(p. 35)

Entreviste um negro (2015) – Helaine Martins

Logo do projeto Entreviste um Negro. Foto: Divulgação.

O Entreviste um negro trata-se de um projeto, não um livro. Dedicamos este espaço ao projeto, em homenagem à fundadora do mesmo, Helaine Martins, falecida de insuficiência cardíaca no início deste mês, aos 41 anos. A jornalista era uma mulher negra incomodada com a falta de representatividade por parte dos entrevistados e fontes dos jornais, onde não apareciam na mídia como detentoras de conhecimento, apenas como personagens de notícias de modo marginalizado ou em matérias que abordavam racismo.
Assim, nasceu o Entreviste um Negro: um banco de fontes que busca conectar jornalistas a fontes de profissionais negros, especialistas em diversas áreas como médicos, arqueólogos, advogados, historiadores e engenheiros. Recentemente Helaine Martins havia tornado-se também editora do Expresso na Perifa, uma plataforma jornalística multimídia cujo propósito é veicular narrativas sobre a periferia que rompem com estereótipos midiáticos.
A literatura negra é marcada pelo interesse de alcançar os leitores que, na maioria das vezes, não se veem representados na literatura hegemônica, tendo em vista o grande espaço que escritores brancos conquistaram no mercado e, consequentemente, no reconhecimento literário por parte dos críticos. Sobre a vontade de escrever para que pessoas negras se identifiquem, o poeta negro José Carlos Limeira escreve:

“Existe na cabeça do negro poeta uma busca de criar o certo 

que contenha mais que a pura Beleza do verso

e que assimilável seja por outro negro que se pendura no trem das seis 

e vê nas costas a torre da Central 

Não como um rasgo indecente 

ou como um berro de concreto

que invade os olhos da gente […]

A procura persiste, mistura, verte, 

verbos tristes para descobrir

que tem muito a aprender

da dialética maior que existe

E se esconde toda na placidez das marmitas

que voltam cansadas da vida

todos os dias no trem das seis”

(Cadernos Negros 3, p. 91)

Cais do agreste

Cais do Agreste: coletivo de artistas movimenta a cena independente de Caruaru

O projeto é uma iniciativa de um grupo composto por nove artistas da região e pretende alcançar novos públicos

“Cais… Em terras Agrestinas… 

O embarque e o desembarque… 

 Um movimento, que une… 

Agrega… Se faz Plural.”

Kelly Moura

Cais, no dicionário: substantivo masculino que significa a “estrutura que permite e facilita o embarque e o desembarque de cargas e passageiros”. Em Caruaru, esse significado se expande em um novo projeto intitulado Coletivo de Artistas Independentes do Agreste (CAIS). Da união do compositor e cantor Everson di Melo e do produtor musical, cantor e compositor Matheus Ferraz, surgiu o mais recente projeto musical caruaruense que se concretiza numa movimentação que tem rendido bons frutos. O projeto teve início no ano passado, final de agosto.

A ideia do Cais é ser um coletivo. Não uma banda com uma liderança específica, mas um conjunto de compositores e artistas que contribuem entre si. Everson diz que “o próprio nome Cais já traz o significado sobre esses barquinhos que estavam isolados nessa tempestade da pandemia. Eu estava meio sem sentido, sem saber se iria voltar para a arte ou não, e o coletivo foi um norte. Foi um cais literalmente, a gente conseguiu ancorar ali e ver que tinha muita coisa em comum”.

Os dois precursores se conheciam desde pequenos. Matheus seguiu sua carreira tocando em bares e Everson trabalhando no ramo das drogarias. No ano passado, o então farmacêutico sentiu uma necessidade de voltar a compor. Em setembro, Matheus postou um vídeo no Instagram que chamou a atenção do colega e em meio  aos comentários, surgiu o convite para um encontro na casa do compositor para conversar, mostrar e tocar um pouco das suas composições individuais.

Na outra semana, Matheus foi novamente à casa de Everson e levou a produtora cultural Kelly Gomes. Era mais um momento de encontro para tocar e compartilhar experiências e trabalhos que estavam sendo feitos por cada um.

Dias depois, ele propôs que sua amiga, a cantora e compositora Bianca Mota, também fosse a um desses encontros. A partir disso, foi começando a frequência de reuniões nas quintas à noite. Em seguida, veio o músico, compositor e poeta Gael Vila Nova e a intérprete Gabriella Lorena, amiga de Everson. Logo depois, entrou no grupo o cantor e compositor Janduhy Nascimento, ex-integrante da banda caruaruense 70 Mg e o designer e produtor musical Murilo Carmo. Na sequência, o ator e intérprete Jackson Freire que também sugeriu o ator e produtor cultural Rosberg Adonay.

Kelly gostou muito do que viu e percebeu que essas reuniões poderiam dar em algo mais. “Isso tem que sair dessa sala, tem que ir para o mundo”, ela disse. Com isso, pensaram em se organizar mais seriamente e submeter o projeto no Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), um dos mecanismos de fomento e difusão da produção cultural do estado. 

Muitos, são projetos autônomos, como o Cais do Agreste. Ano passado, dos 242 projetos selecionados, 39 são de proponentes que nunca antes haviam aprovado projetos em editais governamentais, o que equivale a uma renovação superior a 15%. O edital deste ano ainda está na fase de pré-análise documental, previsto para ser divulgado até o final do mês. Além disso, editais como a Lei Aldir Blanc tem auxiliado na captação de recursos para a viabilização de muitos projetos autônomos em Pernambuco.

O grupo pretende se organizar de uma forma colaborativa, a fim de dar visibilidade à produção e auxiliar na carreira individual dos artistas. Foto: Arquivo pessoal

A experiência da produtora cultural se consolidou como uma grande aliada para o processo de inscrição. Cada integrante possui composições individuais, e a parceria entre os nove acarretou na produção de mais uma. Com o agravamento da pandemia, o projeto teve suas atividades paradas durante um período, mas recentemente voltaram a se reunir de forma remota e as composições continuaram acontecendo. O desenrolar das atividades acabou rendendo o @caisdoagreste, página do Instagram iniciada em março, para divulgar o trabalho.

Além disso, irão sair esse ano o single de Gael Vila Nova e o EP de Bianca Mota com participação de Ferraz, Paulo Marcondes, Petrucio Cruz e Isabela Moraes. O coletivo participa contribuindo na produção desses lançamentos individuais. “A gente quer poder contribuir ao máximo, seja com divulgação, com a mão de obra. Um faz a guitarra, o outro faz a produção, e assim a gente se ajuda”, diz.

Em relação ao futuro do Cais do Agreste, o coletivo considera também a inserção de artistas que morem em outras cidades além de Caruaru. “A ideia é ser um coletivo que consiga abraçar artistas da região,  pessoas com essa vontade de participar em conjunto. Juntos, ajudamos as pessoas individualmente e enquanto coletivo”, afirma. 

Everson conta que além do perfil do Instagram, o coletivo tem planos de iniciar um canal no YouTube, com vídeos em melhor qualidade. Nele, o foco será mostrar o andamento dos processos. Pela pandemia e a dificuldade de se encontrarem, eles não estavam conseguindo produzir com tanta precisão para a plataforma. 

A maior parte do trabalho é autoral, mas também são feitas algumas releituras e homenagens. O foco nesse formato se dá porque quase todos os participantes têm músicas que estão paradas, e o Cais se consolida como uma porta para mostrar um pouco do trabalho de cada colaborador.

O coletivo pretende montar espetáculos na intenção de formatar uma espécie de espetáculo musical. De forma similar ao coletivo Reverbo, que reúne artistas independentes de forma colaborativa, o projeto reúne diversas experiências e influências artísticas no campo musical, as quais pretendem mostrar, no palco, uma mescla de manifestação teatral aliada à música.

O Cais do Agreste tem importância pelo seu foco em fomentar e estimular a cultura, principalmente pela grande carência existente em tantas regiões e, ainda que de forma menor, presente também em Caruaru. Há, cada vez mais, a necessidade da geração de movimentos que abracem a coletividade como um foco de esperança. O coletivo segue dando continuidade aos seus processos de criação, composições e parcerias, mostrando a garra e força de quem caminha de mãos dadas.

são joão

BEM São João: conheça as implicações do novo auxílio em Caruaru

Raquel Lyra anunciou um auxílio para os artistas do São João no final de maio, com restrição para a equipe técnica e instrumentistas

Bacamarte. São João de Caruaru.

Mestre Bacamarte. Foto: Arnaldo Felix

Em pronunciamento no dia 31 de maio deste ano, a prefeita Raquel Lyra anunciou a criação do Benefício Emergencial Municipal, também chamado de BEM São João. Os artistas que tanto alegram o São João de Caruaru poderão contar esse ano com ele para cobrir os prejuízos da festa, que, mais uma vez, não será comemorada por conta da pandemia da Covid-19. 

O auxílio vai contemplar cantoras, cantores, bandas de música, batalhões de bacamarteiros, trios pé-de-serra, repentistas, poetas, declamadores, bandas de pífano, atores, atrizes, grupos teatrais, grupos de artes plásticas, bois, gastronomia (comidas gigantes), reisado, mazurca, quadrilhas juninas e companhias de dança. 

Os beneficiários poderão receber valores entre 1 mil a 3 mil reais, em parcela única. A lista com os nomes dos artistas contemplados foi disponibilizada no dia 15 de junho. O objetivo da iniciativa é driblar os impactos econômicos causados pela não realização da festa. Em 2019 gerou uma renda de R$ 434 milhões (valor gerado juntamente com festas de outras cidades) para todo o estado de Pernambuco. 

A iniciativa é importante, porém há implicações em relação às condições nas quais se dará o projeto. De acordo com fala da prefeita Raquel Lyra no pronunciamento oficial, participarão do auxílio aqueles que estavam cadastrados para o evento de 2019. Ou seja, quem participava e estava cadastrado na Prefeitura em anos anteriores, não entrará na lista de beneficiados, apesar de estarem sendo prejudicados pela falta do evento neste ano, assim como foram em 2020

Quadrilha. São João de Caruaru.

Quadrilhas Juninas. Fotos: Arnaldo Felix

Alexandre Teixeira, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Economia Criativa, que está à frente do projeto, garantiu que quase todos os artistas receberão. “A gente utilizou um ano de São João para termos o parâmetro, porque se formos entrar no São João de 2018 e anos anteriores, os artistas irão se repetir. Diversos artistas vão ser contemplados, praticamente todos os caruaruenses com alguma arte para mostrar”.

Alexandre também citou o recorte como uma maneira de facilitar para obter uma base financeira e legal a partir dos contratos que a Prefeitura e Fundação de Cultura obtiveram no último São João. Em caso de quadrilhas, trios, bandas e teatros, o pagamento será em grupo e não individualmente. Nessa questão, entra o valor do auxílio de 3 mil reais, o máximo pago pelo projeto,  que ao depender do grupo a ser contemplado, corresponderá a um valor baixo para cada integrante.

O Mestre Zé Gago, da banda de pífanos Zé do Estado existente há 80 anos, frisa a baixa quantia disponibilizada pela Prefeitura. “Nós fizemos 15 mil reais tocando em 2019, agora, vamos ter 3 mil. Para seis pessoas é muito pouco. Somos quase todos pais de família, temos contas, mercado e aluguel. É muito pouco”, destaca. 

A integrante da banda Zé do Estado, Vitória do Pife, descreveu o auxílio como uma obrigação da Prefeitura para com todos os que fazem a cultura na famosa Capital do Forró. Ela ainda comentou o quão difícil foi passar a pandemia de 2019 sem nenhum amparo: “ano passado foi muito ruim financeiramente, precisei inovar no meu trabalho, dando aulas online e vendendo meus pífanos. Para mim, deu tudo certo, mas foi muito triste ver músicos tendo que vender seus instrumentos para pagar suas contas.”

Teatro. São João de Caruaru.

Teatro de Mamulengo Mamusebá do Mestre Sebá. Fotos: Arnaldo Felix

Vitória ainda menciona que a medida  é um alívio, mas também gera um sentimento de injustiça em relação aos colegas do ramo. “Apesar  da grande mobilização dos músicos instrumentistas para que pudessem receber o mesmo benefício, independente do cantor ou cantora, a proposta não foi aprovada na Câmara de Vereadores. Na minha opinião, desde o início da pandemia, já deu tempo de se pensar em uma alternativa que contemple toda a classe artística e técnica”, afirma.

Sem dúvida, o impacto da não celebração do São João foi e ainda é sentido nos artistas que compõem as apresentações dos 30 dias de festa. A artista chamou a atenção para outro impasse do BEM São João: a exclusão da equipe técnica. Por trás de todo o espetáculo, da música, do som, das luzes, estão as pessoas que fazem parte dessa classe.

A roadie e produtora cultural Nichole de Andrade fez parte da equipe técnica do São João em 2019 e demonstrou indignação com a falta de preocupação com as pessoas que desempenham essas funções. “Acredito que grande parte dos encarregados da Fundação de Cultura não conhecem o funcionamento dos shows e suas especificidades. O artista pode aparecer lá, mas como ele vai ter show sem técnicos? A equipe técnica deve ser beneficiada com esse auxílio ou que exista outro, mas ampare nossa classe. Assim como também os músicos instrumentistas”, afirma. 

Ao ser perguntado sobre a questão da equipe técnica do São João não estar sendo inserida no projeto, o Secretário informou a tentativa de adicionar uma emenda abarcando a equipe técnica, mas ela não passou na Câmara de Vereadores.

Nichole revela que o sentimento permanente é o de injustiça, afinal, os integrantes das equipes técnicas estão há dois anos sem ganhar sua renda principal, assim como os artistas. “Seria imprescindível essa ajuda governamental, mas a sensação é que essas pessoas nem sabem do nosso trabalho e nem entendem”, desabafa a estudante. 

Vários artistas do São João de Caruaru.

Vários artistas do São João de Caruaru. Fotos: Arnaldo Felix

O município perdeu cerca de 200 milhões com a não realização do evento em 2020, um impacto forte na economia e para todas as pessoas que o fazem acontecer. Porém, a Prefeitura de Caruaru teve mais de um ano de experiência com a pandemia, tempo suficiente para administrar um auxílio que englobe todas as classes que fazem parte da comemoração. 

A cidade é reconhecida por ter o maior e melhor São João do mundo, mas essa medida, ainda que beneficie determinados grupos, é capenga e insuficiente. Além disso, a não aprovação da emenda que inclui instrumentistas e a equipe técnica na Câmara de Vereadores prova, ainda mais, o reflexo de um descaso com a Cultura. A má administração do BEM São João deixa evidente a falta de conhecimento, por parte dos seus gestores, do seu próprio povo e suas demandas. 

Agradecimento a Arnaldo Felix e suas fotos maravilhosas que despertam saudades do São João de Caruaru.

Samba de coco, presente: artistas de Arcoverde mantêm viva a cultura

A resistência do grupo das Irmãs Lopes e do Raízes de Arcoverde após dois anos de paralisação do São João

O mês de junho chegou com o clima frio e gostoso que traz à memória as lembranças do mais saudoso São João do mundo. Em Arcoverde, cidade localizada a aproximadamente 254 km de Recife, o clima de nostalgia da comemoração é constante na cidade que possui uma das melhores e maiores festividades juninas do interior do estado. Para muita gente, esse mês é aguardado o ano inteiro.

Pelo segundo ano consecutivo, o Portal do Sertão, como é apelidada a cidade, conhecida  também como Capital do São João na época junina, não terá sua grandiosa festividade com a animada e movimentada cidade cenográfica, a tão famosa cachaça carraspana, a diversidade de cores, sons, tradições, forrós, barracas e comidas típicas. 

O cancelamento do São João do maior polo do interior foi proporcionado pela persistência de casos ainda em alta em razão da pandemia da Covid-19. A mistura da tradição com o gostinho do interior deixa saudade no coração dos conterrâneos, dos turistas que já tiveram a oportunidade de visitar Arcoverde durante as festas juninas e dos artistas que são essenciais para a consagração da festa.

Até o ano de 2019, as atividades eram distribuídas em 10 polos, sendo voltados às apresentações musicais, poesia, teatro, gastronomia e ao público infanto-juvenil. O polo principal, o Multicultural, situado na Praça da Bandeira, recebe nomes de grande prestígio como Anitta, Priscila Senna, Elba Ramalho e Alceu Valença. O Polo Raízes do Coco, localizado no Alto do Cruzeiro, assim como o principal, carrega uma relevância valorosa.

Localizado a 2km do centro da cidade, o Polo Raízes do Coco é um dos mais visitados no São João arcoverdense. Conhecido também pelas referências nas músicas de grupos como Cordel do Fogo Encantado, banda nativa da cidade. 

É nele onde se reúnem a tradição do samba de coco, ritmo cultural da cidade, e a valorização da cultura popular. O Polo recebe grupos de coco, maracatu, samba e afoxé de todo o estado, além do pop, manguebeat e forró que fazem parte da identidade do cenário musical e cultural de Pernambuco. No lugar é possível assistir um pôr do sol com vista panorâmica de Arcoverde e um dos pontos turísticos mais visitados durante a época. 

Durante os dias de programação, segundo balanços divulgados pela prefeitura do município, a quantidade de pessoas que prestigiaram os eventos chegava a aproximadamente 60 mil, número que podia até ser ultrapassado, a depender da atração. Além de, no mesmo ano, ter injetado na economia mais de R$30 milhões e lotar os hotéis da região. 

Mas há dois anos já não se escuta mais o batuque do ganzá, do pandeiro, muito menos dos tamancos de madeira, componentes principais para o coco acontecer. Nesse cenário, encontra-se o Coco das Irmãs Lopes e o Coco Raízes de Arcoverde, figuras indispensáveis para tratar sobre preservação e valorização das raízes em tempos turbulentos para a cultura.

Anda a roda

O Samba de Coco Irmãs Lopes teve sua história iniciada em 1916 com a criação do Coco do Ivo (Lopes). Após a morte do mestre, considerado o rei do coco de Arcoverde, seus irmãos criaram o Samba de Coco Raízes de Arcoverde – lugar onde as irmãs Lopes saíram e criaram um novo grupo. Atualmente, sob o comando da mestra Severina, de  86 anos, seguem resistindo às intempéries.

Werner Lopes, neto da mestra Severina Lopes e um dos herdeiros do samba de coco, é produtor musical e cultural, músico, ator de cinema e de teatro. Junto à sua avó, iniciava e encerrava os shows antes da pandemia. Ele destaca a valorização das raízes nas músicas e a continuação dos trabalhos como uma forma de manter a cultura viva.

Ao falar sobre a trajetória do grupo, ele relata que a pandemia os deixou mais unidos. Nesse período, perderam a Mestra Dorada por enfermidade relacionada à idade avançada e uma das filhas da mestra Xica Mana, a mestra Lurdes. No momento, pararam as atividades em função das perdas e do isolamento social. 

Samba de coco das Irmãs Lopes

Parte do grupo das Irmãs Lopes, com dona Severina ao centro. Fonte: Arquivo pessoal

O grupo fixo é composto por 16 pessoas, mas sempre há mais pessoas envolvidas de todas as gerações, devido às oficinas que oferecem. Nessa ocasião, tiveram apoio financeiro para manter a tradição. Mas ressalta que, numa perspectiva geral, não são valorizados pelos governantes. Ele enfatiza também que “a cultura popular, em sua essência, é rica e dinâmica, pois antecede gerações”. Werner conta que o grupo tem projetos de lives, mas não para o São João deste ano, porque há pessoas em situação de risco.

Recentemente foi lançado um mini documentário sobre a vida de Dona Severina Lopes. Sobre o curta, Werner conta, com muito orgulho, que sua avó merece todas as honrarias possíveis e que ela ficou muito feliz ao ver sua história sendo contada e eternizada pelos ensinamentos e canções que acompanham gerações. “Por ser uma mulher nesse espaço, acaba não levando o  devido crédito, mas eu estou aqui para que respeitem e preservem a história dela”, complementa. Werner afirma que as figuras políticas de Arcoverde precisam valorizar mais o samba de coco, em especial as mestras do brinquedo.

Severina é um mini documentário inspirado  no legado da Mestra Severina Lopes e sua paixão pela cultura popular iniciada no Sertão do Moxotó em Pernambuco, lançado em 31 de maio deste ano.

O filme é resultado do projeto Travessia, contemplado no Edital do Prêmio de Salvaguarda e Registro Audiovisual de Saberes Tradicionais e da Cultura Popular, da Lei Aldir Blanc em Pernambuco. Disponibilizado gratuitamente no YouTube e no Vimeo da Ojú Obá Filmes, produtora do curta.

O coco é um gênero musical tradicional do Nordeste e do Norte do Brasil, com raízes que remontam aos quilombos e dança que faz alusão à pisada do barro na construção das casas de taipa. Com letras que falam do cotidiano, do amor e do sagrado, Mestra Severina canta a beleza dos canários que enchem sua casa de música todos os dias.

A caravana não morreu, nem morrerá

O grupo de Samba de Coco Raízes de Arcoverde é outro símbolo que perpetua essa manifestação cultural. É o resgate de uma história, um retrato da poesia do sertão e do regionalismo nordestino. Formado em 1992 por Lula Calixto, o grupo passou a ser conhecido do público a partir de 1996, quando rompeu as barreiras da pequena cidade e passou a se apresentar Brasil afora, em países como Alemanha, Bélgica, Itália, entre outros.

Iran Calixto, vocalista e produtora do grupo, sobrinha do mestre Assis Calixto, eleito em 2019 como patrimônio vivo de Pernambuco e mestre que dá continuidade ao legado de seu irmão Lula, relatou que o período de pandemia está sendo de muita dificuldade para o grupo. Sem shows, não é fácil cumprir com os compromissos financeiros que o grupo demanda. 

Eles têm o auxílio de uma pessoa para o aluguel da Sede do Coco Raízes há 6 anos. Os componentes do grupo não têm outra renda fora do coco, e o que mantém sua  estrutura, é a perseverança de Iran. Não perderam nenhum componente do grupo, somente algumas pessoas contraíram o vírus, mas se curaram. 

Os benefícios recebidos do auxílio da Lei Aldir Blanc possibilitaram a execução online da 12ª edição do Festival Lula Calixto em fevereiro, que teve sua primeira edição em 2005, e se tornou um evento tradicional na cidade. Recentemente, receberam um auxílio da prefeitura da cidade e um do governo do estado.

Em relação ao sentimento de valorização, Iran enfatiza que, em dois anos de pandemia, somente há pouco tempo o grupo foi contemplado com um auxílio da prefeitura, além da “carência de criação de estratégias para os artistas poderem trabalhar”. Destaca também que o auxílio fornecido pelo governo do estado foi pouco para ser dividido para um grupo de 13 pessoas.

Samba de coco Raízes de Arcoverde

Parte do grupo Raízes em frente à sede. Foto: Arquivo pessoal

A vocalista fala que muitos jovens participam do grupo e exemplifica com o seu neto de 16 anos, conta com muito orgulho sobre o interesse por esse segmento cultural, o qual participa do Coco Raízes dançando, e toca também em outros grupos de coco e maracatu.

No dia 16 de junho, o grupo realizará uma live gratuita pelo Circuito Cepe de Cultura. No dia 23, uma live junto ao Festival Trivulina Internacional que será transmitida no Brasil e na Alemanha. Essa mesma live seria realizada no dia 12 de junho, mas teve que ser adiada devido às restrições da Covid-19 no Sertão. Para angariar fundos para a movimentação do grupo, estão sendo cobrados € 5,00 (euros) na Alemanha e R$ 15,00 (reais) no Brasil. As compras podem ser realizadas pelo pix cocoraizesdearcoverde21@gmail.com. 

Preocupada, Iran busca frequentemente por informações sobre lives de outros artistas para que o grupo possa participar, já que além dessas, não têm outras futuras previstas.

O grupo está com dois projetos aprovados pendentes, que deveriam ser executados em agosto e em novembro do ano passado, em Moçambique e São Paulo.  Mas em virtude da continuidade da pandemia, os projetos estão parados. Eles permanecem na esperança do retorno à vida normal com a vacinação em massa e imunização da população. Caso contrário, realizarão lives utilizando o dinheiro. “A principal esperança é que esse momento de tantas dificuldades acabe logo e que a gente volte a viver nossa vida na normalidade de antes, tendo maiores possibilidades de trabalhar e sobreviver de alguma forma”.

A história do coco merece ser eternizada e preservada por todos os ensinamentos e canções que acompanham gerações.

Para aliviar a saudade, fica aqui uma das mais famosas composições do memorável Mestre Lula Calixto, que faz alusão a pontos turísticos de Arcoverde e figuras de renome, além da mensagem de luta e esperança: A caravana não morreu nem morrerá.

Zé da Macuca deixa legado inspirador para a cultura popular

Zé da Macuca, ou Capitão Zé da Macuca, o criador do Sítio Macuca. Foto: Máquina 3/divulgação.

Zé da Macuca fundou a entidade cultural pernambucana Macuca, composta por eventos artísticos populares de folguedos e variadas apresentações artísticas. A relevância da Macuca foi reconhecida pelo Ministério da Cultura com o título Ponto de Cultura, concedido no ano de 2005, e com o Prêmio Culturas Populares de 2017, maior premiação da cultura popular realizada pelo Ministério da Cultura.

Formado em Geologia no ano de 1989, José Oliveira Rocha ou Zé da Macuca, como era conhecido, deixou a profissão para cuidar do Sítio Macuca, localizado no município de Correntes-PE e a tornou um efervescente polo cultural. Esse texto é composto por relatos de familiares e amigos. Nesta matéria, será traçada um pouco da história de Zé da Macuca e a sua criação: o Sítio Macuca. 

Onde nasce a inspiração de Zé da Macuca

Zé da Macuca sempre foi um admirador da cultura popular nordestina, especialmente, da música, como as canções de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Ao longo do tempo, também desenvolveu um gosto apurado por vários formatos musicais. 

A música ecoava pelo Sítio Macuca, lugar onde residia, desde o momento que o Zé acordava até a hora de dormir. O dia começava com uma música instrumental suave e, ao passo que estava mais animado, colocava para tocar forró, como descreve seu filho, Rudá Rocha, que seguiu os passos do pai na produção cultural. 

Nomes da música popular brasileira como Alceu Valença, Milton Nascimento, Clube da Esquina, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Elis Regina, e da música instrumental estrangeira, seja na influência do Jazz e da música clássica, e brasileira como Hermeto Pascoal, Heraldo Do Monte e Quarteto Novo, fizeram parte do repertório de Zé da Macuca no seu dia a dia e influenciaram na composição dos eventos no Sítio. 

Também gostava de ouvir artistas pernambucanos como Siba, Otto e Nação Zumbi. Essa mistura de estilos musicais sonorizaram os diversos festivais da Macuca e fizeram parte do repertório de inspiração dos cortejos como o Boi da Macuca, o Baile Cultural de Carnaval da Macuca e o São João da Macuca.

Como nasceu a Macuca?

Existente há mais de cem anos, o Sítio Macuca tem esse nome desde a sua origem. Macuca era o nome de uma ave típica na região do Sítio, na época em que foi fundado, na atual zona rural de Correntes. Os ovos possuem coloração azul turquesa e são incubados pelo macho, encarregado também de cuidar dos filhotes. Essa ave é mais conhecida como Macuco nas demais localidades brasileiras.

Em 1989, Zé da Macuca herdou o Sítio do seu pai. A partir disso, decorreu toda a atividade cultural dentro da Macuca, como os cortejos do boi, as festividades de São João, a primeira festa do Sítio e os festivais que viriam a acontecer nos anos seguintes. 

Embora a Macuca se manifeste culturalmente por meio de vários gêneros musicais e de várias linguagens artísticas além da música, o cartão de apresentação e o carinho da família, sempre foi a cultura popular nordestina.

Boi Boi Boi Boi

A movimentação cultural da Macuca surgiu no aniversário do Zé da Macuca em 18 de fevereiro de 1989. Na comemoração, em que estavam presentes familiares e amigos, um sanfoneiro chamado Benedito deixou todos impressionados com seu forró pé de serra. Decidiram, então, levar Benedito para o carnaval de Olinda e, em uma casa alugada, criaram um estandarte chamado Movimento Anárquico Cultural da Macuca.

Acompanhando o sanfoneiro em pleno Carnaval, seus familiares e amigos desceram as ladeiras de Olinda. Um morador de rua juntou-se ao grupo em um determinado trecho do cortejo e entoou a cantiga ‘Boi, Boi, Boi, Boi, Vou deixar minha burrinha e vou montando no meu boi’.

Zé da Macuca passou a cantar essa música nos vários cortejos realizados no Sítio, antes frequentado apenas pelos moradores da região. “Meu pai internalizou essa música de tal forma que rebatizou o folguedo de Movimento Anárquico Cultural da Macuca para Boi da Macuca”, conta Rudá Rocha.

O primeiro boi gigante surgiu em 1991 pelas mãos do artista plástico Sávio Araújo, artista de várias edições do galo da madrugada do Recife. O segundo boi foi confeccionado pelo falecido paraibano Breno Matos em 1992.

Para Zé, ele representava uma figura mítica e irreverente, presente na cultura popular de muitas regiões brasileiras.

O boi é uma figura do folclore brasileiro cuja aparição se dá em épocas juninas, carnavalescas e natalinas, a depender do lugar e de sua cultura. Já o Boi da Macuca, está presente em festivais, carnavais, festas de São João e viajou para a Copa do Mundo em 1988, na França e na Alemanha, a convite da embaixada da Casa das Culturas do Mundo, em Berlim. 

Woodstock Pernambucano

Com intenção de ampliar as áreas de atuação da Macuca, até então voltada quase exclusivamente para a cultura popular, o seu idealizador, Zé da Macuca, planejou um festival de música inspirado no Woodstock, o famoso festival americano, realizado em uma fazenda com acampamento, assim como a Macuca. 

Os festivais duravam de sexta-feira à domingo e uma programação que preenchia dias e noites inteiras, sendo compostos apenas por música – até os anos 2000 – e encerrados com o cortejo do boi aos domingos. Nessa época, a imprensa de Pernambuco deu os nomes de Woodstock pernambucano e Woodstock do Nordeste a Macuca.

Recentemente, outras linguagens artísticas como a poesia e o frevo se fortaleceram no evento. Apesar das mudanças, Rocha ressalta que a música continua sendo protagonista dos festivais. 

Forró no escuro

O Sítio Macuca foi residido por anos sem energia elétrica nenhuma. A iluminação era feita com candeeiros. A geladeira funcionava a gás e a bateria do aparelho de som era carregada nos povoados vizinhos em um percurso à cavalo.  

Atualmente, os candeeiros permanecem iluminando algumas partes da casa, com energia elétrica, após muito tempo de resistência por Zé da Macuca. “Por conta de toda questão de praticidade e conforto, ele foi digerindo e aceitando. Porque, para meu pai, não ter energia elétrica, as luzes de candeeiro e esse tom subversivo representavam uma resistência cultural”, explica Rudá.

Relato de *Nato Vila Nova: de espectador a amigo

Nato Vila Nova e Zé da Macuca em edições dos festivais. Foto: Arquivo Pessoal.

“Eu conheci Zé no segundo ano do festival da macuca, em 2000. Naquele ano ouvi falar da festa e fiquei curioso para conhecer. A partir desse dia me encantei pela Macuca a ponto de quase todo ano estar presente. Comecei a ir em duas ou três festas todo ano e depois veio o convite para tocar. 

Ele era uma figura muito receptiva com o pessoal. Uma pessoa única. Um cara muito gente fina, todo mundo ficava encantado com ele. 

Ele frequentava a mercearia que tinha em Caruaru, do meu amigo Chico, tomamos muitas biritas nas noites. Sempre marcamos para tomar banho de bica e celebrarmos a vida. Ficamos muito amigos. 

Todos os festivais que ele idealizava eram de qualidade. Desde o forró tradicional de Luiz Gonzaga ao jazz mais refinado. Os estilos musicais passeavam pelo rock, frevo e blues.  

A movimentação em Caruaru era imensa, a galera ficava ansiosa conforme se aproximavam os festivais. Diziam ‘faltam dois meses, um mês, uma semana pra chegar. Pra ir pra Macuca, tomar banho de bica, tomar banho de açude e acampar numa grama bem bonita, armar as barracas, conversar, comer, beber, dançar e brincar.’ 

Tenho uma lembrança marcante de Zé, de quando ele estava regendo um cortejo com o boi. Ele montado na sua burrinha, saía com as mãos pra cima, regendo o trio pé de serra. Empolgado, ele pulava levantando os braços. Era nítido a dedicação, a paixão por tudo que ele estava realizando e como ele transmitia felicidade para as pessoas. Todo mundo acompanhava o cortejo e brincava melado de carvão.

Uma outra história bem marcante para mim foi em 2014, em uma Macuca rock and roll. Nesse festival eu toquei com a minha banda mais antiga, a Pysch Acid, com 31 anos de história. No meio do show,  Zé entrou tocando triângulo, como ele sempre gostava de fazer. Em um som de rock metal pesado, ele conseguiu acompanhar o ritmo. Tocava como ninguém. 

No meio do nosso show, ele deu um mosh, que é quando a pessoa sobe no palco e pula em cima do público. Foi um momento muito marcante da minha vida. Era essa a magia da Macuca e de Zé da Macuca.”

*Agitador cultural da cena pernambucana, Nato Vila Nova é vocalista e instrumentista. Bandas da região do Agreste como Sangue de Barro, Psych Acid, Cara de Doido e 70mg contribuíram para o  rock and roll e o metal pernambucano.

O legado da Macuca

O diretor de cultura da Fundação de Cultura de Caruaru, Hérlon Cavalcanti, destacou a importância do Zé da Macuca para a cultura. “Ele levou o conceito de arte para o coletivo, por reunir grandes artistas e agremiações para saudar o Boi da Macuca. O grande legado dele é a celebração da festa e a capacidade de compreender e valorizar o artista como ele é, seja banda de pífanos, cortejo de boi, carnaval ou qualquer outra expressão artística”, afirma.

Sobre a personalidade do ator cultural, Hérlon ressalta que ele era um cara futurista e tinha um brilho diferente. Além disso, completa que não só a cultura nordestina, como a cultura de uma forma geral, perde com a sua saída desse plano. Zé deixa legado para que outros produtores culturais e amantes da cultura nordestina possam se espelhar na sua grandeza.

Dia da Toalha: Douglas Adams e sua marca na Cultura Nerd contemporânea

O dia 25 de maio celebra o amor pela cultura nerd/geek. Vem cá descobrir o porque esse dia foi escolhido e tudo que ele representa!

RIP, Alan Rickman.

Por algum tempo, ser fã de histórias em quadrinho, séries, filmes de ficção científica, livros de fantasia e jogos de tabuleiro significava também pertencer a um grupo muito específico. Hoje, filmes como Star Wars, os filmes da Marvel Universe e a trilogia Matrix romperam essa barreira e você não precisa ser exatamente um entusiasta de ficção científica e heróis para curtir filmes com esses temas. 

O dia 25 de maio tem duas comemorações muito importantes para a comunidade nerd e geek, o Dia do Orgulho Nerd e o Dia da Toalha. Eles se misturam pois têm significados semelhantes e suas origens se dão no mesmo nicho. O Dia do Orgulho Nerd teve como origem a celebração da estreia do episódio IV de Star Wars: Uma Nova Esperança, na época, o primeiro filme da saga. Já o Dia da Toalha, veio em homenagem a Douglas Adams, escritor britânico e grande contribuinte para as narrativas de ficção científica contemporâneas.

Poster do episódio IV de Star Wars, o primeiro da saga, que teve uma bilheteria de 1,36 bilhão (valores ajustados para os dias de hoje). Twentieth Century Fox/Divulgação.

Quem foi Douglas Adams?

Douglas Adams nasceu em Cambridge, no Reino Unido, em 1952. Estudante de literatura inglesa pela St. John’s College, após formado, Adams decidiu partir em aventuras, fazendo um mochilão pela Europa. Para isto, utilizou um Hitch-hiker’s Guide to Europe, ou seja, Um Guia de Mochileiros para a Europa. Alcançou sucesso apenas em 77, curiosamente, com um programa de rádio na BBC, em parceria com Simon Brett, chamado The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, ou Guia do Mochileiro das Galáxias. O programa de humor e ficção científica daria origem a série de cinco livros de mesmo nome. 

O Restaurante no Fim do Universo, A Vida, o Universo e Tudo Mais, Até mais, e Obrigado pelos Peixes e Praticamente Inofensiva, são os demais títulos dessa saga que conta as Aventuras de Arthur Dent e seu amigo Ford Prefect pelo universo, após Ford pedir carona com o auxílio de uma toalha. A toalha é um objeto de extrema importância para a série, Adams separa um capítulo inteiro para falar sobre ela. Segundo ele, “tudo que você precisará quando o Universo acabar é de uma toalha”.

Assim, no dia 25 de maio, após a morte do autor no dia 11 daquele mês, em 2001, fãs prestaram uma homenagem a ele e sua obra. Milhares de pessoas se organizaram no dia para celebrar o universo criado por Adams. Essa comemoração se fixou na comunidade nerd e é até hoje praticada. Mas, o dia da Toalha ultrapassa a manifestação nas redes sociais, já que o ritual mais importante do dia é sair carregando uma toalha por todo o lado. Trabalho, escola, academia, faculdade, passeio… no vigésimo quinto dia de maio, quem ama DNA – sigla muito usada para se referir ao autor, suas iniciais – obrigatoriamente sai com uma toalha. 

Douglas Adams com um exemplar de O Guia dos Mochileiros da Galáxia, em destaque uma frase icônica da série, “Não entre em pânico!”, em tradução. Foto: Daily Mirror.

Toda a obra de Adams traz diversas reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais. Além de tecer várias críticas aos modelos de governo, à sociedade, a maneira como levamos a vida e a nossa relação com as novas tecnologias.

Em O Salmão da Dúvida (2002), no qual mostra bastante o seu gosto pela tecnologia, Adams explora como lidamos com as novidades tecnológicas em nossas vidas: “Eu criei um conjunto de regras que descrevem nossas reações às novas tecnologias: 1. Tudo o que já está no mundo quando você nasce é normal, corriqueiro e nada mais do que parte natural da maneira como o mundo funciona. 2. Tudo o que é inventado entre os seus 15 e 35 anos é novo, empolgante e revolucionário, e pode, inclusive, se tornar sua carreira profissional. 3. Tudo o que é inventado depois dos seus 35 anos vai contra a ordem natural das coisas.”

Douglas Adams escalando o monte Kilimanjaro vestido de rinoceronte. Foto: Obrigado Pelos Peixes.

Douglas Adams era um grande defensor da consciência ecológica, era um ativista da causa ambiental e se tornou patrono do  Save the Rhino International e do Dian Fossey Gorilla Fund. O Save the Rhino é uma instituição do Reino Unido que visa defender os rinocerontes da extinção, arrecadando fundos para a causa. O escritor, a fim de trazer holofotes para a luta, escalou o monte Kilimanjaro, na África, vestido de rinoceronte. Até hoje, a caminhada ao topo do monte continua, com o mesmo intuito de chamar atenção para a causa. 

E DNA não deixou sua contribuição para a ficção científica contemporânea apenas nos livros de Guia dos Mochileiros, ele também marcou presença em um dos universos mais presentes nas narrativas de sci-fi, Doctor Who.

A série britânica, criada em 1963, é um dos maiores universos de ficção científica, sendo um dos programas mais longos da TV, com mais de 55 anos de duração. Douglas Adams trabalhou como revisor de roteiros da série nos anos 70, na época da 4° regeneração do Doctor, personagem principal interpretado por Tom Baker. 

Ele escreveu os arcos de O Planeta Pirata, Cidade da Morte e Shada, os dois últimos possuem versão em livro, sendo Cidade da Morte um Arco muito famoso, que junta em sua narrativa acontecimentos reais com muitos elementos culturais da Europa. Shada, infelizmente acabou sendo um projeto abandonado pela BBC, que começou as gravações do arco mas nunca o completou. 

Tom Baker e Lalla Ward nas filmagens de Cidade da Morte, em Paris. Foto: BBC/Arquivo

Além de Doctor Who, Adams trabalhou também com o grupo de comédia Monty Python, sendo roteirista de Monty Phyton’s Flying Circus (1969).

Douglas Adams teve seus trabalhos adaptados para as telas, um filme de O Guia dos Mochileiros da Galáxia (2005) e a série da Netflix Dirk Gently’s Holistic Detective Agency (2016), inspirada no romance Agência De Investigações Holísticas Dirk Gently, de 1987. Porém, 

o filme com Martin Freeman (O Hobbit) e Zooey Deschanel (500 dias com ela) não caiu muito no agrado dos fãs e da crítica, tendo uma média de 60% no Rotten Tomatoes. 

Já a série caiu no gosto do público e dos críticos. Com Elijah Wood no elenco, a série acompanha um detetive excêntrico e seu assistente à procura de desvendar mistérios bizarros. Com uma aprovação de 85% pela crítica e 95% pelo público, de acordo também com o Rotten Tomatoes, a série traz um pouco da aura de Doctor Who. 

Legado

Douglas Adams mudou a forma de se fazer narrativas de ficção científica com seu humor. Crescendo assistindo o grupo de comédia Monty Phyton, teve grandes influências na hora de escolher um humor nonsense (“sem sentido” em tradução livre) e totalmente inteligente. As histórias de sci-fi eram em sua maioria dramáticas e o britânico mudou isso com um humor sagaz, muitas vezes, tirando sarro dos próprios gostos da comunidade nerd. 

O seu trabalho com Doctor Who e Guia dos Mochileiros da Galáxia influenciou a nova fase da série, assim como outros trabalhos do gênero. A série Rick and Morty, é um exemplo disto, carregando em sua base o humor muitas vezes esdrúxulo aliado à ficção científica. 

Curiosamente, podemos ver referências à obra de DNA no mundo da música. Bandas como Coldplay, Radiohead e Mumford and Sons adicionaram elementos de O Guia em suas canções. O disco Ok, computer da banda britânica Radiohead é inspirado pelas reflexões que ocorrem nos cinco livros, além do single Paranoid Android que é uma referência direta a Marvin, o robô paranóico e depressivo que conhecemos na história.

Já Coldplay e Mumford and Sons trazem músicas com o título “42”, que em O Guia corresponde à resposta para a vida, o universo e tudo mais. Esse número se torna, inclusive, um easter egg do universo de Adams em várias obras. Podemos encontrá-lo em Matrix, Marvel e até em filmes da Disney. Em Procurando Nemo, o endereço onde o peixinho se encontra é “P. Sherman, 42 Wallaby Way. Sidney.”. 

Cena do filme Procurando Nemo, de 2003. Foto: Disney Pixar/Reprodução.

As especulações também dizem que Adams previu algumas tecnologias, como um dispositivo que só foi inventado recentemente, capaz de traduzir simultaneamente um idioma. Na série de livros, o Peixe Babel é um alienígena que pode traduzir qualquer idioma do universo (um pouco similar com a Tardis, de Doctor Who).

Não menos importante, no Brasil, no município de São José, em Santa Catarina, temos a Travessa Douglas Adams em homenagem ao escritor. 

E para quem quiser saber mais sobre o autor, pode consultar o livro escrito pelo seu amigo, Neil Gaiman (Coraline, Sandman). Don’t Panic, de título inspirado na frase homônima de O Guia, é uma biografia de Douglas Adams publicada no ano de 98. 

Não há dúvida que Adams deixou um pouquinho de si em cada aspecto da cultura nerd e pop. Sua crítica à sociedade britânica, bem como suas noções sobre religião e seu humor inovador percorre os quatro cantos da comunidade nerd. Não esqueçam de carregar sua toalha. Até mais! E obrigado pelos peixes.

Obras para quem curte ficção científica:

A Vastidão da Noite

Um refresco para as narrativas atuais de ficção científica. O filme de 2020 faz referências às primeiras obras televisivas do gênero, em especial o programa Além da Imaginação (Twilight Zone), que tratava de casos misteriosos que, em sua maioria, não obtinham explicação. A Vastidão da Noite está disponível no Prime Vídeo, como título original do streaming.

Cena do longa, com Sierra McCormick e Jake Horowitz. Foto: Prime Vídeo/Reprodução.

A Chegada

Com a incrível Amy Adams, o filme de 2016 passa por assuntos além dos tratados nas ficções científicas tradicionais, como as relações humanas  e a importância da linguagem. O longa de Denis Villeneuve está disponível no Globo Play e na Prime Video.

Cena de Amy Adams em A Chegada. Foto: 21 Laps Entertainment/Reprodução.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

Para quem quer conhecer um pouco mais o trabalho de Douglas Adams eu recomendo primeiramente a série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias. Mas, para quem quer algo mais rápido e visual, Dirk Gently’s na Netflix é a escolha certa. A obra também carrega o humor e a excentricidade das narrativas do autor. Você pode encontrar a série no catálogo da Netflix.

Elijah Wood e Samuel Barnett em cena da série de 2016. Foto: Netflix/ Reprodução.

Livro infantil desvenda a importância da educação sexual sem tabus

Livro Infantil Carro Cris e autora Beatriz Cruz. Foto: Arquivo Pessoal.

Neste Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infantil – 18 de maio, entende-se a importância da educação sexual e do diálogo com a família para a prevenção da violência sexual infantil. Entre 2011 e o primeiro semestre de 2019, foram registradas mais de 200 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.

Sobretudo neste momento, de aulas presenciais suspensas para muitas crianças nas escolas, os familiares devem orientá-las para evitar e para identificar situações de abusos.

No entanto, por não ter o repertório suficiente para instruir e/ou por se sentir desconfortável a falar sobre o tema, essa tarefa de falar abertamente sobre sexualidade não é simples para muitas famílias. Pensando nisso, nasceu o livro infantil Carro Cris, criado pela escritora Beatriz Cruz, educadora social e estudante de serviço social.

A obra possui o intuito de auxiliar na introdução ao assunto para todas as famílias com dificuldade de falar sobre sexualidade com os pequenos, por entender a educação sexual como uma temática repleta de tabus, sendo esse o principal motivo do assunto não ser abordado em casa. 

A educação sexual infantil não deve ser encarada como algo constrangedor. De acordo com a educadora social, as questões envoltas na proteção infantil contra abusos, como  o autoconhecimento corporal, devem ser naturalizadas e ensinadas desde o nascimento.

Como o livro aborda o assunto?

A história ilustrada descreve a descoberta de uma criança sobre o próprio corpo. Representada por um carro, a narrativa não deixa claro o seu sexo biológico nem a sua identidade de gênero. O texto possui ritmo de poema e as ilustrações acompanham cada página da história.

Ao narrar a trajetória de descobertas e as consequentes dúvidas de Carro Cris, o texto ao mesmo tempo ensina de uma forma lúdica e desperta nos pais o entendimento da necessidade de conversar sobre sexualidade na infância

Por abordar a história de um carro, os órgãos genitais não são descritos de forma literal. “Essa forma de ser lúdico evita choque ou constrangimento por parte dos pais e da criança ao iniciar o aprendizado sobre sexualidade”, esclarece a autora.

O livro também incentiva a família a explicar os nomes corretos das partes do corpo para os filhos e filhas, como boca, vagina e pênis. Para que seja possível o entendimento de quando ela estiver em uma situação de risco ou de abuso. Além de ajudá-la na verbalização ao relatar um abuso sexual. 

De forma clara, a história também fala sobre como a vítima deve recorrer aos lugares corretos após uma situação de risco e explica como ela pode contar com pessoas para a auxiliarem. 

A falta da educação sexual na vida da autora

Para escrever o livro, embora Beatriz pesquise sobre educação sexual há seis anos, a sua vivência pessoal como vítima de violência sexual foi a principal base utilizada para desenvolver a história.

Sendo educadora social, percebeu a necessidade de lançar o livro. “Eu pensei na minha criança e o que ela gostaria de ter aprendido para poder passar para o livro. Porque durante minha infância não tive muitas informações e não recebi muitos cuidados acerca disso por parte da minha família”, desabafa.

A importância da educação sexual e do livro como uma forma de instrumento didático revela-se central na vida da autora. Como vítima de violência sexual na infância, para ela, um livro como Carro Cris teria a livrado do ciclo de violência. “Se esse livro tivesse chegado até mim quando era criança, talvez as agressões sofridas ou não teriam acontecido, ou teriam acontecido por menos tempo. Porque eu entendia aquilo como algo natural e não era”, relata Beatriz.

A naturalização da violência sexual é uma realidade para muitas crianças. Justamente porque, na maioria dos casos, ocorrem em relação intrafamiliar. Mais de 70% dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes são praticados por parentes das vítimas, de acordo com dados registrados no Disque 100, referentes a 2019. 

Esse fator contribui para gerar na mesma um sentimento de confusão diante dos atos de violação. Sobre essa dificuldade, a psicóloga Pietra Radtke explica que elas confundem abuso com afeto, e é dessa forma que o agressor costuma nomear a violência para as vítimas. Principalmente quando os abusos são cometidos por alguém próximo, por meio de uma relação de manipulação.

Trabalho social nas favelas

Outro fator que a motivou a escrever o livro, foi perceber a necessidade de desenvolver um trabalho de educação sexual dentro da favela – lugar onde atua como educadora social. 

Em razão dessas informações sobre educação sexual infantil não chegarem à favela. De acordo com ela, os pequenos crescem entendendo como normais violências como essa. Por isso, a educadora social e estudante de assistência social decidiu criar um projeto para mudar esse cenário.

O seu projeto também busca realizar palestras, encontros e oficinas sobre educação sexual. Mas por conta da pandemia da Covid-19, Beatriz precisou suspender as atividades presenciais e passou a submeter editais de incentivo à cultura e educação e passou a realizar encontros virtuais.

Lá em Casa tá tudo bem?

Após o livro, nasceu uma série provocativa no Instagram chamada Lá em Casa Tá Tudo Bem, com o intuito de defender a educação sexual e provocar reflexões nas pessoas. Em consequência de muitos desconfiarem ou não acreditarem na educação sexual infantil como um assunto necessário. Por esse motivo, diferente do livro, a série busca impactar adultos e adolescentes.

Composta por relatos reais de assédio e abuso sexual, a maioria dos episódios postados ocorreram com Beatriz. A série foi escrita também pela autora e ilustrada pela designer Ariádne Martins, ilustradora tanto do livro quanto da série.  

Outros casos relatados foram enviados de modo espontâneo por meio do direct no Instagram após os primeiros episódios terem sido publicados. Já outras histórias incluídas na série foram inspiradas em pessoas conhecidas da autora. 

As idealizadoras pensam em publicar a série em livro e em outras mídias, mas falta incentivo financeiro. “Ideia a gente tem bastante. Falta principalmente o apoio financeiro porque é tudo independente. Inclusive os custos do livro referentes a edição foram arcados pelo meu amigo Alef Alves, enquanto eu assumi os custos das vendas.”, conta Beatriz.

Sendo a literatura infantil um  dispositivo pedagógico na educação sexual, como compreendemos na matéria, sua  importância se manifesta  como mediadora no processo de ensino-aprendizagem. Temas, a princípio complicados de explicar, podem fazer parte do dia a dia e serem encarados com a devida naturalidade por meio do diálogo e do acesso à informação.

Arte, pandemia e periferia: a arte de Francisco Mesquita e sua construção em novos tempos

Poucas pessoas sabem, mas no dia 08 de maio, sábado passado, foi comemorado o Dia do Artista Plástico no Brasil. A data serve para homenagear e celebrar uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade: a pintura. Para a produção de uma obra de arte, é primordial o domínio das técnicas, assim como a criatividade, talento e sensibilidade na percepção do mundo. Essas características podem ganhar destaque desde a infância, ou serem afloradas em algum outro momento futuro da vida do artista.

O dia surgiu em homenagem ao pintor brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior, nascido na mesma data em 1851, considerado um ícone entre os nomes mais importantes das artes plásticas do século XIX no nosso país. Almeida Junior, como é mais conhecido, nasceu na cidade de Itu, interior de São Paulo. Precursor da temática regionalista na pintura, deu destaque a personagens anônimos, ao homem comum – que não pertencia à elite – em suas tarefas cotidianas e à cultura caipira numa época em que a arte brasileira era marcada pela monumentalidade voltada à arte europeia.

Desde a propagação do novo coronavírus, a população mundial precisou se isolar como principal forma de proteção. Muitas pessoas utilizam a arte como forma de distração, ocupação da mente e acalento emocional. Algumas delas puderam descobrir os artistas internos que estavam guardados dentro de si. E nesse momento, onde a crise provocada pela Covid-19 continua a acontecer de forma ainda mais grave, puderam transformar seus talentos e habilidades em fonte de renda.

Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior é uma dessas pessoas que se encontraram na arte e se encaixa na nova leva de artistas plásticos revelados pela pandemia. Francisco Mesquita, como assina suas obras, compartilhou com o Café Colombo a sua resistente jornada de autoconhecimento artístico e seu trajeto pela arte, nos contando como é viver dela em tempos tão sombrios. Confira:

Francisco Mesquita e autorretrato. Foto: Acervo pessoal

Quem é Francisco e como ele chegou na arte?

Meu nome é Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior, tenho 28 anos, sou natural da cidade de Barreiros, litoral sul de Pernambuco, mas vivi por muito tempo em Olinda, que é a cidade onde moro atualmente, na Comunidade do Monte.

Sou formado em Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco no Campus Garanhuns, cidade onde vivi no período de graduação e pude atuar como professor. No final de 2019, decidi dar um tempo da sala de aula por questões pessoais e acabei aceitando um emprego em Recife, em um coworking. 

Quando a pandemia chegou no ano passado, fui demitido em março de forma inesperada, acabei saindo sem auxílio e seguro desemprego. Nesse momento de dificuldade, a arte me encontrou. Quando as pessoas perguntam como foi o meu início e quais foram minhas referências para que eu me tornasse um artista plástico, eu costumo dizer que o meu primeiro contato com a arte foi no momento que eu decidi viver dela, aos vinte e sete anos de idade.

Como você percebeu e decidiu que poderia viver da arte?

Por algumas pessoas próximas me mostrarem possibilidades na arte, eu comecei a me aventurar e brincar em casa. Fiz desenhos e pintei com pó de café diluído em água, e, a partir disso, fui ganhando uma paixão. Eu percebi que tenho uma forte inclinação a tentar coisas novas e com isso fui tentando fazer minhas artes com outros materiais e outras técnicas, mesmo sem nenhum conhecimento sobre elas.

Já tinha feito uma colagem para presentear uma ex-namorada, então resolvi fazer colagem com recortes de revistas. Também fiz da foto de uma ex-colega de trabalho, que amou e me incentivou, me senti um Picasso, o artista. Graças a esses momentos de incentivo que eu comecei a me ver, de fato, como artista plástico. Eu não tinha nenhuma obra, nem sabia assinar meu nome artístico, mas eu já me considerava um artista. E isso nunca tinha acontecido na minha vida, eu nunca fui tão firme em uma decisão.

Francisco em seu processo de produção de colagem. Foto: Acervo Pessoal

Infelizmente a pandemia já dura mais de um ano. Como você começou a atuar nesse período, como foi seu primeiro ano no ramo da arte?

Esse primeiro ano de carreira artística foi de muito aprendizado. Eu pude me conhecer um pouco mais e entender a importância de lidar com os problemas de uma forma diferente. Não é fácil, é uma profissão com muitas dificuldades, mas é extremamente gratificante por tudo que pode ser aprendido e construído. Vendi algumas obras e tenho outras encomendas no momento.

Como você considera seu estilo artístico e quais materiais você utiliza?

O estilo que eu mais trabalho são os retratos. Quando iniciei com as obras de café, foi com esse estilo que me identifiquei. Faço retratos com giz pastel, colagem de revista ou com papelão. Nos meus trabalhos recentes tenho utilizado uma técnica mista, misturando todos esses materiais. 

O gosto por eles acabou me levando para diferentes composições na minha obra. Hoje eu busco mais fontes para a arte, pesquiso e estudo. Me apego ao realismo com pop arte, bem colorido, mas também faço obras subjetivas e surrealistas. Deixo a minha intuição levar sem me prender a algo fixo, sempre disposto para novos testes.

Parte de tela feita em base de papelão. Foto: Acervo Pessoal

Eu utilizava como base o papel-cartão, mas ele sofria muito com a cola, porque quando secava, ele ficava muito ondulado e eu tinha esse problema. Daí comecei a testar e a brincar com outros materiais. O papelão se apresentou para mim como o material que veio me fazer continuar, já que em determinado momento eu não tinha mais dinheiro para comprar papel, cola e revistas, porque, nem sempre, as revistas que eu tinha à disposição, tinham o conteúdo que precisava. Não precisava mais comprar papel, e percebendo também que o papelão tinha camadas, fui descobrindo esse material.

Vi que ele poderia servir não apenas como base para minhas obras, mas, também, poderia ser o protagonista. Esse material me fez ver o mundo de uma forma diferente, porque papelão é algo que se encontra com muita facilidade, mas a gente só vê como lixo. Junto ao papelão, que foi uma descoberta essencial para mim, os materiais que mais utilizo são o giz pastel oleoso e revistas.

Dá pra perceber que nas suas obras que cor, gênero e liberdade são questões bem pertinentes. Por quê?

Eu gosto de trazer muito o meu cotidiano e as pessoas que são referências para mim. Tanto na vida artística como na vida pessoal, eu sou cercado por pessoas negras. A maior parte das pessoas que eu retratei são negras. Tenho em mente planos futuros e telas que envolvem outras bandeiras que também quero levantar. Eu sou um cara que tento trazer discussões e faço da minha arte algo pra se refletir, então as questões raciais e sociais sempre estarão presentes.

Arte de Francisco Mesquita

Serena (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

Arte de Francisco Mesquita

Olhar Disfarçado (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

No Dia Internacional da Mulher você homenageou algumas figuras. Como esse projeto se consolidou?

A ideia foi homenagear três figuras para essa data tão importante. A primeira, uma mulher com grande importância para a cultura de Pernambuco, que é Lia de Itamaracá. A segunda, de grande relevância a  nível nacional, a primeira juíza negra do país, Mary Aguiar. E, a última, de maior importância em nível pessoal, que foi a minha mãe. A ideia foi trazer muito afeto, carinho e  representatividade, pois todas são mulheres negras.

Arte de Francisco Mesquita

Lia de Itamaracá (2021), giz pastel oleoso sobre papelão.

Recentemente, você também lançou o projeto Arte na rua, que levou suas obras aos bairros de Olinda. De onde surgiu a ideia e como foi desenvolvido?

O projeto Arte na rua tem vários objetivos. Minha primeira intenção é disponibilizar um tipo de arte diferente para as pessoas, uma arte acessível, a qual elas possam ver, tocar e até levar para suas casas. Promovendo uma divulgação física e presencial das obras, para que quem vê-las, tenha interesse em conhecer mais. Aproveitando a rua como uma forma além das redes sociais para ampliar a divulgação do meu trabalho, porque, de certa forma, elas podem limitar o acesso de quem não tem o hábito de utilizá-las. Também tenho o romantismo de escrever alguns pensamentos por trás das obras, fazendo analogia àquelas garrafas jogadas ao mar, uma certa visão romântica minha e que pode fazer sentido de alguma forma para o leitor.

Colocando em prática o projeto Arte na rua, onde deixa a tela Maria no Mato (2021) em espaço no bairro Bultrins. Foto: Acervo Pessoal

Como educador, qual a tua perspectiva para a arte, unindo sua formação inicial como professor e agora como artista plástico?

Vejo minha contribuição para uma mudança de oportunidades, no sentido de oportunizar novos caminhos para os jovens de hoje. Falo isso porque já fui convidado por professores para contribuir com suas aulas e gravar vídeos para seus alunos falando e ensinando sobre a arte. 

Também tenho um encontro que irá acontecer no fim de maio. Fui convidado por um representante da Gerência Regional de Educação de Olinda para participar de uma formação com outros professores, onde eu poderei passar minha experiência e possibilidade de levar outros materiais para sala de aula, principalmente no ambiente de escola pública. Sabemos que muitas vezes o maior empecilho de se construir projetos de arte em escolas públicas é a questão de orçamento e material, se a gente quebrar isso e começarmos a entender que a arte é muito mais profunda, nossa e natural do que se pensa, a gente faz arte com diversas possibilidades. É esse meu maior desejo, poder tornar a arte cada vez mais acessível nesses locais de carências.

Escavação e a outra face do machismo em Hollywood: mulheres podem envelhecer?

Carey Mulligan está concorrendo ao prêmio de melhor atriz por Bela Vingança (2020) no Oscar, filme produzido por Margot Robbie, que aborda temas que fazem parte da vida das mulheres: o estupro e a quase certeza de impunidade. Apesar de muito bem dirigido e envolvente, essa matéria não é sobre um dos favoritos do Academy Awards, mas, sim, sobre outro filme estrelando Mulligan que ficou de fora da premiação. Trata-se do longa da Netflix, A Escavação, lançado em janeiro de 2021.

A Escavação é uma produção britânica, que retrata fatos reais. O longa acompanha a história de Edith Pretty, que acreditando que seu terreno seja um sítio arqueológico, contrata um escavador para explorá-lo e acaba fazendo uma das descobertas mais importantes do século 20. Baseado no romance de mesmo nome, o filme da Netflix não causou desgosto na crítica e recebeu opiniões positivas, mas não passou no corte do Oscar, sendo descartado das categorias e tendo indicações apenas no British Academy Film Awards (BAFTA).

Apesar das críticas positivas, o filme não deixou de causar polêmica. A escolha da atriz ocasionou uma questão que permeia a indústria cinematográfica: o chamado ageism (preconceito de idade). A personagem vivida por Carey Mulligan, 35, na época em que a história se passa tinha 56 anos de idade. A atriz foi escolhida pela produção depois que Nicole Kidman recusou o convite. Mas será que não haveria outras  opções de atrizes com mais de cinquenta anos? Ainda mais num mercado de atores tão extenso e rico, como o mercado britânico? 

A ONG britânica Behind The Woman, que levanta a bandeira do empoderamento das mulheres de meia idade, publicou em seu Twitter uma opinião que mostra a exaustão de não se ver representada: “É uma pena pensar nas mulheres incríveis com mais de 50 que poderiam ter interpretado a Sra. Pretty. Enquanto mulheres de 30 interpretarem mulheres de 50, ficaremos invisíveis.”

Situações como essa são reflexos de nossa sociedade machista. Por que temos cremes, produtos e processos estéticos, para frear algo que é natural e acontece com todos? Por que envelhecer é ruim e por que é ainda pior para a mulher? Atrizes que foram sinônimos de beleza como Catherine Zeta Jones, Demi Moore, Geena Davis, hoje se encontram fora do cinema. 

Enquanto Harrison Ford, George Clooney e outros atores que envelheceram, continuam com seus empregos e com a posição de galãs. Tom Hanks e Meg Ryan, atores queridos dos anos 90 e que já contracenaram juntos, são um exemplo dos dois pesos e duas medidas dessa conta. Tom Hanks continua fazendo filmes como herói e protagonista (Relatos do Mundo, 2020), mas onde está a Meg Ryan?

A própria Geena Davis, que alcançou o estrelato com o filme Thelma e Louise (1991), hoje luta contra o ageism em Hollywood. Seu instituto, o Geena Davis Institute on Gender and Media, lançou em 2020 um estudo baseado em dados de 2019 sobre os papéis que pessoas com mais de 50 anos ocupam nos filmes. As análises englobam filmografias não só dos Estados Unidos, mas também da Alemanha, França e Reino Unido. Os dados mostram que três em cada quatro (74.7%) dos personagens que têm acima de 50 anos são homens, enquanto um em cada quatro (25.3%) são mulheres. O que significa que quando a audiência vê personagens mais velhos na tela, estão vendo prioritariamente homens. 

O estudo também aponta, que quando as mulheres, de fato, aparecem nas telas, tendem a sofrer mais estereótipos de idade em sua caracterização. Como por exemplo: ser senil, mentalmente instável, retratadas como doentes, são mostradas fisicamente não atraentes (em comparação a personagens homens), assim como também são retratadas como mais solitárias e caseiras. 

Foto de Edith na época da escavação em seu terreno, em que se passa o filme. Foto: BBC/Divulgação.

Uma das questões que o estudo aponta e foi citada acima, é o fato de que quando há papéis de destaque para mulheres com mais de 45 anos, elas são em sua maioria retratadas com alguma problemática. São colocadas em um papel de poder no começo do filme, mas algo acontece que a deixa frágil. Muitas vezes, leva à sua morte ao fim da obra, em razão de doenças, perda de memória, problemas mentais, até abuso de substâncias.  

Depois de anos sumida, a atriz da comédia romântica O Diário de Bridget Jones, Renée Zellweger, ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2020, por interpretar a atriz e cantora Judy Garland que faleceu por overdose aos 47 anos.

Quando a continuação de Top Gun: Ases Indomáveis foi anunciada, Tom Cruise estava, sem dúvida, cotado para manter o seu papel na trama. Já seu par romântico, que na época do primeiro filme já era mais velha que o ator, a atriz Kelly McGillis, não foi cogitada por não estar em forma para o papel e não corresponder ao padrão de Hollywood. É claro, você não pode ter mais de 50 anos e aparentar ter 50 anos. 

Nosso país, machista como é, não foge dessa lógica. A atriz Cláudia Raia, 54, em uma entrevista à Revista Ela, comentou como o movimento de reconhecer o envelhecimento ainda é muito tímido no Brasil. “A verdade é que se você não tem mais 30 ou 40 anos e nem tem 80, você está num limbo”, comentou. 

Ela ainda frisou a importância da representatividade e como recebe comentários positivos sobre isso em suas redes sociais. “As mulheres também comentam muito nas minhas redes, falando que se sentem representadas, que gostam de ver o que eu posto. Elas vêm falar comigo sobre a importância da gente falar da mulher de 50+, de verem as questões sendo colocadas”.

Vera Fischer, outra grande atriz da teledramaturgia brasileira, foi criticada esse ano ao postar uma foto em seu Instagram, fruto de um ensaio sensual. A maioria dos comentários se referiam ao tratamento botox aplicado em sua face, o que a estava tornando, segundo os usuários da rede, “irreconhecível”. A pressão parece que se torna muito maior quando as atrizes já foram símbolos de beleza. É como se as pessoas esperassem que essas mulheres continuassem com o mesmo rosto que tinham aos vinte e poucos anos, mas sem procedimentos estéticos por que podem ficar muito diferentes. Algo impossível. Com ou sem plástica, a mulher que envelhece é criticada.

Há, claro, exceções como Viola Davis, Olivia Colman ou Meryl Streep, vivendo papéis de mulheres normais e poderosas fora dos seus 30 anos. Mas o problema é esse, são exceções. Frances McDormand, ganhadora de dois Oscars, aos 63 anos está concorrendo a mais um este ano: Melhor Atriz por Nomadland (2020), porém, McDormand nunca foi referência do padrão de beleza hollywoodiano, assim como Streep que tinha dificuldade de arranjar papéis por ser considerada “feia”. 

Atrizes com mais de meia idade não correspondem ao padrão de beleza hollywoodiano – que é bem questionável e irreal -, logo, podem contar só com seu talento e, mais ainda, com as oportunidades que o mercado oferece, que são poucas. Por isso são tão importantes iniciativas como a de Geena Davis ou da ONG Behind The Woman, em chamar a atenção para essa problemática. Se, como em A Escavação, há um papel para uma mulher de 50+ e se escolhe dá-lo para uma atriz de 30 anos, são apagadas todas as outras mulheres que trariam mais fidelidade à narrativa. Além de também apagar toda uma representatividade. Mulheres de 50 anos ou mais existem, e elas não correspondem a apenas uma coisa.

Séries e filmes com mulheres 50+ incríveis: 

Nomadland

Esse roadmovie (filme que se passa na estrada) é o favorito ao Oscar de Melhor Filme esse ano. Conta a história de Fern (Frances McDormand) que após uma perda, decide viver em um trailer, percorrendo o Oeste dos Estados Unidos.

Personagem anda em campo vasto durante o entardecer. Ele segura uma lamparina nas mãos. O rapaz é jovem e ao seu redor, existe um ponto de espera de ônibus e carro. É dirigido por Chloé Zhao, uma das mulheres que receberam prêmios no Oscar 2021.

Cena do filme Nomadland. Foto: Searchlight Pictures/Reprodução.

Grace and Frankie

Acompanha a história de duas mulheres na terceira idade que decidem morar juntas após seus parceiros pedirem o divórcio. A comédia a todo tempo quebra os estereótipos relacionados a pessoas idosas, sendo muito divertida e envolvente.

As duas protagonistas, mulheres na terceira idade, Grace e Frankie se entreolham e seguram as mãos enquanto estão sentadas na varanda em suas cadeiras em tons turquesa.

Cena da série Grace and Frankie. Foto: Netflix/Reprodução.

Mamma Mia! O Filme

O musical de 2008, inspirado no show da Broadway de mesmo nome, narra a história de Sophie (Amanda Seyfried) em busca da identidade de seu pai, que sua mãe Donna (Meryl Streep) insiste em esconder. Mamma Mia não é novidade pra ninguém, mas é um filme super divertido e que conta com outras duas atrizes 50+ de renome, Julie Walters e Christine Baranski. Além de ter os maiores sucessos do Abba, o que é decididamente um plus!

O jazz de Billie Holiday: contexto histórico e a influência do gênero musical

Estados unidos da América 

“O limite da sua justiça não está bem definido […] 

sua orientação segregacionista é amiga da morte dos negros […] 

ela mata seu futuro brilhante e estupra por uma alma, 

então prende seus filhos usando lendas falsas”

(Maya Angelou)

O jazz foi um estilo de vida que abriu espaço para reflexão sobre o racismo dentro do cenário cultural dos Estados Unidos. Pensando na trajetória dos artistas que fizeram parte desse estilo musical e o contexto no qual estavam inseridos, entende-se que não se pode compreender o jazz sem conhecer a situação histórica e a vida de seus músicos. O filme The United States vs Billie Holiday (2021), apresenta discussões sobre a presença desse gênero como forma de resistência racial, a partir de recortes da vida da cantora e compositora Billie Holiday.  

O gênero se relaciona diretamente com os movimentos pelos direitos civis nos EUA. A era dos direitos civis, que correspondem às três décadas após a segunda guerra mundial, foi  cenário para mudanças na cultura e na política do país. Movimentos como Panteras Negras e a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), por exemplo, fizeram com que várias leis discriminatórias fossem abolidas. 

É válido ressaltar que a música pode ser vista como instrumento de resistência,  usada para denunciar práticas e valores sociais em cenários históricos. Nessa perspectiva, podemos relacionar o jazz e o samba. Ambos os ritmos  possuem similaridade na herança e ancestralidade africana e ajudaram a definir a identidade cultural de seus países. Os dois gêneros foram compostos principalmente por ecos caribenhos e africanos, como conta Jefferson Mello, autor do livro Os Caminhos Do Jazz (2004) e diretor do documentário Samba e Jazz: Rio de Janeiro – New Orleans (2015). 

Dito isso, podemos associar as performances de Billie Holiday e Elza Soares, que se apresentam na memória coletiva e experiências da mulher negra. Elza, de maneira singular, ressignifica o simbolismo do corpo negro feminino, visto historicamente como um corpo sexualmente objetificado. Com seu samba-jazz  tornou-se pioneira em espaços para a mulher negra no cenário musical brasileiro. A mulher do fim do mundo, último álbum de Elza lançado em 2015, fala sobre temas como a sexualidade, racismo, violência contra mulher e a identidade negra. Holiday também foi pioneira em politizar a música, sendo a primeira artista negra a se apresentar no Metropolitan Opera House em 1944.  

The United States vs. Billie Holiday (2021), dirigido por Lee Daniels, foi baseado no livro Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs do jornalista Johann Hari. No filme, o autor discorre especialmente sobre as décadas de 1930 e 1940, com relação à guerra às drogas nos Estados Unidos – que usou, perseguiu e controlou a vida da cantora Billie Holiday como exemplo para as novas políticas rígidas adotadas pelo governo. Podemos dizer que tal controle presumia a distribuição da espécie humana em grupos e subgrupos, o que Foucault rotula com o termo racismo, conforme abordou Achille Mbembe no livro Necropolítica (2011).

Apesar da escolha do diretor em abordar a vida da Billie Holiday de forma muito superficial, é possível refletir sobre a vida de uma mulher que virou alvo dos Estados Unidos, país que se aproveitou de sua fragilidade e envolvimento com drogas, para tentar diminuir sua influência e criar uma imagem negativa de uma mulher negra diante da sociedade. No entanto, as narrativas relacionadas às substâncias não aprofundaram o contexto político, a seletividade e o racismo institucionalizado, que determinaram sua relação complexa com o corpo e as drogas, comprometendo o entendimento do público quanto ao recorte cronológico mal definido.

Todavia, a personagem protagonizada por Andra Day ganha destaque pela atuação, sendo essa responsável pela indicação ao Oscar 2021 no prêmio de melhor atriz. Assim como a atuação de Chadwick Boseman e Viola Davis em Ma Rainey’s Black Bottom (2020), que também receberam indicações como melhores atores para a premiação deste ano. A qualidade da interpretação desses atores conseguiu amenizar os problemas de desenvolvimento das tramas, que deixaram a desejar nas discussões sobre racismo, relações de poder da época e o papel do Jazz.

Mulher no palco cantando jazz, ela usa um vestido preto, uma flor branca no cabelo e batom vermelho.

Andra Day, atriz, cantora e compositora de Blues, Soul, Jazz e R&B, interpretou Billie Holiday em The United States vs. Billie Holiday. Foto: Reprodução/Hulu.

Ainda que o filme tenha apresentado dificuldade cronológica, o melodrama abre espaços para várias temáticas secundárias, dando maior atenção ao caso dos vícios. Nesse sentido, a figura do Harry Jacob Anslinger, agente do serviço de Narcóticos dos Estados Unidos (FBN), se faz necessária para o entendimento do contexto. Anslinger tinha William Randolph Hearst, dono de uma grande rede de jornais, como um aliado poderoso na guerra contra as drogas – foi nele que o diretor Orson Welles se inspirou para fazer Cidadão Kane. 

É fato que a intenção do governo era manchar a imagem de uma mulher negra, atuando de forma seletiva.  Judy Garland também tinha problemas com as drogas, mas o departamento protegeu a imagem dela aconselhando a tirar férias mais longas. Uma senhora bonita e graciosa, segundo Anslinger, não poderia destruir a reputação imaculada de uma das famílias mais honradas da nação. A influência e o poder direcionaram quem seria condenado e perseguido. Como bem observou Silvio Almeida em seu livro Racismo estrutural, citando Black Power: Politics of Liberation in America, de Charles V. Hamilton e Kwame Ture, “a aplicação de decisões e políticas que consideram a raça com o propósito de subordinar um grupo racial e manter o controle sobre esse grupo”.

A guerra não era pelas drogas, mas sim uma tentativa de sufocar a era do jazz, que para ele seria uma ameaça ao American Way, “drogas e crioulos são uma contaminação a nossa civilização americana”, disse Anslinger no filme. Para Anslinger, o jazz era anarquia musical, a vida dos jazzistas, disse ele, cheirava à sujeira. Com isso, os anos que se seguiram fabricando uma guerra às drogas, foram na verdade, um projeto para criação do complexo industrial prisional americano. Não à toa que o Anslinger permaneceu como comissário do escritório federal de narcóticos até se aposentar aos 70 anos, com direito a título de cidadão distinto assinado pelo presidente John F. Kennedy – qualquer coincidência é mera semelhança com o termo cidadão de bem. 

Durante o diálogo com o jornalista Reginald Lord, Divine, interpretado por Leslie Jordan, ao afirmar que a guerra era contra as drogas e não a Holiday, a mesma responde “é o que eles querem que vocês acreditem”. A fala da personagem lembra o poema Estados unidos da América, de Maya Angelou, no qual ela fala que “a orientação segregacionista norte americana é amiga da morte dos negros”. Ao ser questionada sobre o motivo da perseguição, Holiday responde que tal perseguição tem a ver com Strange fruit, “minha música lembra a eles que estão nos matando, lembra a você também, Reginaldo”. 

Ainda sobre o diálogo com o jornalista “Porque você não para de cantar a bendita canção? Sua vida não seria mais fácil se você se comportasse?” questiona o jornalista à Holiday, representando o pensamento de muitos que consideram manifestações antirracistas como desorganização. O que certamente permitiu que grupos de movimentos racistas de supremacia branca desde o Ku Klux Klan até os mais recentes como QAnon, Proud Boys e o White Power permaneçam se perpetuando em dias atuais associados a grupos de extrema direita. 

Os anos que precedem os movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos foram marcados por muita violência. As notícias sobre as atrocidades do período circularam pelo mundo todo, como a reportagem publicada com o título “Animosidade entre pretos e brancos nos Estados Unidos” no Diário de Pernambuco em 13 de maio de 1930, na edição 00109. A notícia era sobre uma multidão no estado do Texas que invadiu o palácio da justiça a fim de linchar um homem negro acusado de atentado ao pudor a uma moça branca.  Após morrer no incêndio, o homem foi arrastado pelas ruas amarrado a um automóvel.

Nesse contexto, a música Strange fruit foi o ponto principal do filme  porque a letra era vista pelo governo como perigosa, portanto, proibida. O poema, escrito pelo compositor judeu Abel Meeropol, a partir da fotografia do Lawrence Beitler que chocou o país, resultou na música interpretada por Billie Holiday, vencedora da canção do século pela revista Times em 1999. A canção fala do linchamento de dois homens negros, Thomas Shipp e Abram Smith, em 1930. A canção interpretada por Holiday foi usada em campanhas na tentativa de incentivar a criação de leis antilinchamento no país.

Apesar de manter o foco da trama na música impactante, a narrativa deixou a desejar por não aprofundar o significado do jazz na luta pelos direitos civis. O filme poderia apresentar melhor a relação da Holiday com outros personagens, a exemplo de Jimmy Fletcher, personagem do Trevante Rhodes e a forma como um homem negro foi usado pelos interesses do governo, assim como poderia expor melhor a aproximação com Louis Amstrong, figura importante no jazz, que protagonizou o filme New Orleans em 1947 ao lado de Billie Holiday.

A relação da Holiday com as drogas está intrinsecamente ligada às tristezas. Desde sua infância as drogas ajudaram a suportar as dores, de acordo com Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz (1956), de Billie Holiday e William Dufty. Possivelmente essas dores refletiram em suas relações afetivas. Segundo sua mãe havia apenas dois caminhos para uma mulher negra e pobre: tornar-se prostituta ou doméstica. Para Holiday, puta seria somente a mulher de um homem, não necessariamente a que vende o corpo por dinheiro. Por essa razão, ela se referia aos homens com quem se relacionou como cafetões, visto que estes administravam seu corpo e seu dinheiro – a palavra administrar é um eufemismo utilizado pela Holiday para se referir aos homens que a roubaram e espancaram.

Billie Holiday, cantora de jazz de óculos deitada no sofá com um livro na mão, foto preto e branco.

Billie Holiday lendo Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz. Foto: Divulgação.

É significativa a presença de The United States vs. Billie Holiday entre as indicações ao Oscar 2021. Um ano revolucionário na história do cinema por conter um considerável número de pessoas negras em comparação com os anos anteriores. Destaque para Judas and the Black Messiah (2021), com uma equipe majoritariamente negra e para Mia Neal e Jamika Wilson, as primeiras negras a serem indicadas ao prêmio de melhor maquiagem com a Voz Suprema do Blues.

Billie Holiday, pioneira em popularizar o jazz vocal, foi a primeira mulher negra no país a conquistar espaços antes renegados aos negros e transmitiu sua mensagem de crítica social através da música, se tornando a primeira pessoa, de muitas apresentações de músicos negros, na famosa casa de Ópera de Nova Iorque. 

Em síntese, Billie Holiday, também conhecida como Lady Day, é um expressivo nome da primeira vertente do Jazz: o swing. A carreira da cantora é um símbolo para os movimentos, assim como um caminho para pensar a conjuntura dos direitos da população negra hoje. Conforme disse Nietzsche, aprendemos cada vez melhor a impulsionar a história à serviço da vida.