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Memória, identidade e resistência em Perro Viejo

“O pai do senhor do engenho foi quem o chamou

assim: Cachorro velho, e ninguém mais voltou a

lembrar do seu verdadeiro nome.”

(Perro Viejo)

Mulher negra com turbante e roupas coloridas fazendo pose sentada na cadeira.

Teresa Cárdenas, escritora referência na literatura contemporânea cubana. Foto: acervo pessoal. 

O dia 25 de março foi proclamado como o dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Nesse sentido, a literatura da escritora cubana Teresa Cárdenas surge de modo a contribuir para um pensamento revolucionário. Memória, identidade e resistência são alguns dos termos que norteiam a narrativa de Cárdenas. Em sua obra Perro Viejo (2005), ganhadora do prêmio da Casa De Las Américas, Cárdenas descreve por meio de memórias fragmentadas e dolorosas, a história de um homem negro que foi escravizado em um engenho de cana de açúcar cubano durante toda sua existência. 

Em exclusiva para o Café Colombo, a escritora relata o seu processo de escrita como um momento de conexão consigo mesma. “Às vezes ouço música afro-cubana com tambores e canções cerimoniais, e isso me introduz em uma bolha de tempo onde vejo meus personagens com mais clareza. Outras vezes, só preciso de silêncio e um pouco de café. Sempre varia, embora nunca deixe de ser intenso e até de partir o coração. Sou uma mãe solteira com três filhos e tudo isso requer muito tempo e força. Portanto, terminar um livro, publicá-lo e alcançar os leitores é uma grande vitória. Cada livro é uma alegria. Um alívio de finalmente ver em um livro, aquela ideia que me assombrou por meses ou talvez anos”, diz Cárdenas. 

“Escrevo sentada no canto da cama, de pernas cruzadas com meu velho laptop, mas por dentro, é como se eu estivesse correndo, meu pulso dispara, meu coração pula. Minha respiração é curta, é uma paixão, um desespero que amo. Existo para o momento em que escrevo. Só porque posso escrever, eu existo. E tudo tem a ver com ser mulher negra, nascida no Caribe, falante de espanhol, afro-cubana. É difícil não sentir a força e a resistência de meus ancestrais africanos por trás de cada palavra escrita. Ou a alegria e a tristeza de uma mulher da ilha, afro-latina, rodeada de mar e banhada de sol.”

No romance de ficção Perro Viejo, publicado no Brasil em 2010 pela editora Pallas com a tradução Cachorro velho, Cárdenas escreve sobre um dos fatos mais cruéis da história da humanidade: a escravidão. Priorizando as vozes daqueles que foram silenciados pela história, a autora vem conquistando o mercado editorial como uma das vozes negras mais significantes na literatura contemporânea. 

Duas capas de livro com os Títulos Perro viejo e cachorro velho. Uma capa marrom com uma silhueta de um homem negro e a outra mais clara com um pássaro desenhado.

Na imagem, versões Cubana e Brasileira de “Perro Viejo”, livro ganhador do prêmio da Casa De Las Américas. Foto: Reprodução.

A literatura pós-colonial – onde o colonizado assume o protagonismo para contar sua própria história – rompe com a subordinação colonialista do discurso,  expondo as profundas marcas da violência física e moral da escravidão. Assim também como a própria violência da diáspora, que tirou os negros de suas terras, de seus laços culturais e sociais, para serem submetidos às línguas e culturas dos povos colonizadores, eliminando assim, suas próprias identidades, resumindo suas vidas a uma mercadoria. Perro Viejo, dá voz ao oprimido de forma simples e impactante para todos que se propuserem a ler. 

Teresa classifica os seus textos como: 

“Uma literatura da memória, do que herdei dos meus antepassados ​​e que hoje vive debaixo da minha pele. Como se as histórias me escolhessem para contá-las. Eu não escreveria da mesma forma se tivesse nascido em outro lugar e época. Os meus temas têm a ver com a história do meu povo atravessando o Atlântico de forma dolorosa. São temas de sobrevivência, de apego à vida mesmo após a morte. Deixe suas palavras como legado para as novas gerações. Minha literatura é apenas uma cesta que herdei, com histórias e personagens que certamente viveram em alguma parte da história. Minha missão é passar tudo o que aprendi para crianças e jovens desta geração.”

A narrativa no livro se desenvolve em pequenos capítulos que nos leva a seguir o fluxo de pensamento do Cachorro velho – nome que foi dado ao personagem que protagoniza a história – o que desperta no leitor uma reflexão a respeito do processo de construção, busca e recuperação de uma identidade que foi tomada de forma violenta, trazendo à tona a condição de vida e morte. Para o Cachorro velho, o inferno cristão dos brancos não se distinguia da sua vida na condição de escravizado. “Nossa história não começa na escravidão, nem fomos responsáveis ​​por ela. No caso do meu livro Perro Viejo, quis recordar a essência daquelas pessoas que foram avós dos nossos avós, as suas crenças e medos, a sua resistência e coragem. Seu desejo de voltar à África, que era o mesmo que voltar a ser livre, seu desejo de permanecer vivo após a morte.”

O personagem e todos que estiveram um dia na condição de escravizados tiveram que lidar com a violência e com o exílio, restando apenas as memórias para os mais velhos. E para os que nasceram longe de suas raízes, sobrou a imaginação. Cachorro velho só conhecia a África em que nascera sua mãe, através das histórias dos escravos mais velhos. Não havia céu e inferno, o inferno para ele era o presente, e se existisse um céu, o seu seria voltar à África, um lugar de libertação e recomeço.

Teresa Cárdenas explora narrativas que não são recorrentes na literatura juvenil – pelo menos no Brasil – no entanto, ela decidiu direcioná-las a esse público em virtude da própria experiência durante seu processo de formação na infância. Durante sua infância não leu livros que deveriam ser para crianças da sua idade por não se sentir representada nas personagens descritas. Por volta de seus 12 ou 13 anos, Cárdenas leu autores como Balzac, Maupassant, Poe, Eluard, Vallejo, Carpentier, García Márquez, Hemingway, Ray Bradbury e Agatha Christie.

“Eu morava em um internato de esportes que não gostava e só no fim de semana voltava para casa com minha mãe. Precisava de um mundo para me refugiar, e os livros para adolescentes não tinham nada a ver comigo. Eu não estava neles. Os personagens que me contaram suas histórias tinham olhos azuis, cabelos loiros que flutuavam com o vento, choravam e desmaiavam, choravam. Foi difícil para mim me identificar com esses livros. Eles limitavam minha imaginação, então eu fugi para outros livros. Minha mãe comprou muitas revistas de humor, um tio me deu um jornal. Também gostei muito de poesia e de livros intensos, com ótimas imagens e longos diálogos. Porém, um dia percebi que nem nos livros para jovens leitores nem nos para adultos havia alguém como eu. Procurei e não consegui me encontrar, então senti que algo não estava certo.”

“Muitos anos depois, quando comecei a escrever, esse era o meu objetivo, o meu desafio: escrever sobre aqueles que não aparecem nos livros infantis e juvenis: os personagens negros. E junto com eles, aproximar-se de temas que também não foram tocados, como o racismo, a violência contra a mulher, o abandono de idosos, a reivindicação de figuras históricas africanas, a emigração, o abuso sexual de meninas, a menstruação, a religião afro-cubana, o tráfico de escravos. São questões que sempre me preocuparam, algumas delas vivi desde criança. E tive que aprender a lidar com tudo sozinha. Escrevo, entre tantas coisas, para ajudar, para acompanhar as negras de hoje. Para que muitos se sintam representados e acompanhados.”

Em Perro Viejo, o leitor aborda questões sobre a memória, através das recordações do personagem que só se lembra do tempo em que viveu escravizado e, em meio a privações, nunca conheceu outra realidade durante seus 70 anos. Não sabemos sobre as datas dos eventos em que se passa a história do Cachorro velho, um homem que foi obrigado a aceitar tal condição que foi imposta, um homem sem esperanças que sentia a idade avançando, esperando o momento em que seria descartado. 

Cachorro velho só teve um grande amigo, passou muitos anos de sua existência lembrando de um único grande amor que nunca pôde ser vivido. Perro Viejo apresenta a reflexão sobre o apagamento da memória, assim como outros livros da autora, a exemplo de Cartas al Cielo (1997), o qual  fez Cárdenas a vencedora do Prêmio de La Crítica em Cuba.  O livro foi publicado no Brasil pela editora Pallas em 2010 com a tradução de Cartas para Minha Mãe.

“O apagamento da memória é produto do racismo e de toda a sua violência, discriminação e estereótipos. Muitas gerações de afrodescendentes cresceram no meu país tentando esquecer a sua origem. Sentiam que reconhecer-se como africanos era um indício de atraso ou de uma pessoa de pouco conhecimento e valor. Na minha infância, muitas meninas negras como eu tinham pentes quentes para relaxar os cabelos. Nas escolas éramos provocadas por causa de nossos narizes e da grossura de nossos lábios. Foi muito difícil.”

Em seu novo livro Mãe sereia (2018), Cárdenas narra o que aconteceu no primeiro navio carregado de escravos que saiu da costa da África em direção ao Novo Mundo. Mãe Sereia é uma fábula da realidade, entrelaça história e ficção. E assim como em Perro Viejo,  existe crueza e magia. Com fantásticas ilustrações de Vanina Starkoff, o livro foi publicado também pela Pallas, editora inclusiva, que atualmente possui um considerável catálogo direcionado aos temas afrodescendentes. 

Sobre a nova publicação, ela descreve: “Foi um desafio, em nenhum livro para crianças cubanas conta-se a experiência sofrida por aquelas pessoas. A tortura, a dor, a morte falada com tanta atenção.” Essas pessoas são acompanhadas na viagem por uma antiga sereia, representação de Iemanjá. A deusa yorubá das águas salobras que também é a personificação da África e que sempre estará com ela. É um livro para crianças, jovens e também adultos, mas no caso das crianças recomendo que a sua leitura seja acompanhada pelos pais ou professores.”

Teresa Cárdenas Angulo, Nasceu em Matanzas (Cuba), no ano de 1970. Seus livros foram publicados em diversos países da América Latina, África do Sul e Europa. É uma mulher de seu tempo e escreve recriando espaços de protagonismo negro na literatura. Ao lado mulheres que revolucionaram o mercado editorial, a exemplo de Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou e tantas outras que são o vértice da literatura escritas por mulheres. 

Centenário da vida de Carolina Maria de Jesus: do papel do lixo ao papel dos livros

Carolina Maria de Jesus. Autorretrato. Mulher negra com lenço no cabelo, na porta de sua casa, cor branca, e o livro Quarto de Desejo posicionado na sua frente.

Carolina Maria de Jesus e a sua principal obra, “Quarto de Despejo” (1960). — Divulgação

Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solteira de três filhos, foi catadora de papel e se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira. Ela amava a literatura, escrevia e lia todos os dias. A autora sempre acreditou no poder do que ela tinha a dizer. E quanto a isso, estava mais do que certa.

Carolina nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais. Filha de pais analfabetos, frequentou a escola somente até o segundo ano do Ensino Fundamental, devido às difíceis condições que levava. A escritora narra em sua obra mais famosa, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, que o sonho da sua mãe era que ela se tornasse professora. 

A autora não pôde concluir os estudos, mas seguiu percorrendo o caminho da leitura e da escrita por conta própria. A sua filha Vera Eunice, que dos dois aos seis anos é também personagem da obra Quarto de Despejo, contou em uma entrevista para a Rede TVT que sua mãe aprendeu a ler praticamente sozinha, porque procurava ler tudo o que pudesse. Vera Eunice se tornou professora. Realizou o sonho que também foi sonhado pela sua mãe, Carolina.

Quarto de Despejo: Diário de uma favelada é a primeira e principal obra da escritora. A publicação foi um choque para a sociedade na época, ninguém havia narrado a favela com tanta intimidade. O livro é um dos diários escritos por Carolina de Jesus, em que ela relata o seu dia a dia na favela do Canindé, que ficava localizada às margens do rio Tietê, em São Paulo. São 175 dias narrados pela autora, entre 1955 e 1960, nos quais ela relata seus dias, dos seus filhos e de seus vizinhos acometidos pela miséria, precariedade e violência. 

A realidade de uma despejada

Carolina afirmava que escrevia a realidade e tinha o objetivo de denunciar os problemas que existiam na favela. “Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade”.

Em diversas passagens ela se queixa dos políticos por entender que eles eram os responsáveis pelo alto custo de vida, enquanto negligenciaram a favela. Ela conta que as autoridades ignoraram o quarto de despejo, citando vereadores, deputados, governador e o presidente da república da época, Juscelino Kubitschek. “Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem: — Não chores por mim. Chorae por vós” — suas palavras profetisava o governo do Senhor Juscelino […] Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome”.

Ela conta que o país deveria ser governado por quem já passou fome, pois a fome também é professora. “[…] O que eu aviso aos pretendentes a política é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” E Carolina de Jesus sabia descrever a fome.

“Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.” 

Cor que não é a única metaforizada pela escritora. O roxo é usado para descrever a amargura que envolve os corações dos favelados, e o preto define a sua vida, a sua pele, o lugar onde mora. 

Descoberta de Carolina

O livro foi publicado por uma iniciativa do repórter Audálio Dantas (1929-2018), que conheceu Carolina quando foi em 1958 ao Canindé para escrever uma matéria sobre a favela  que se formava à beira do Tietê. Carolina abordou o jornalista e contou que era escritora. 

Mas essa não tinha sido a primeira vez que Carolina de Jesus havia entregue os seus escritos para que fossem publicados. A mineira já havia mandado diversas vezes o seu material para editoras, inclusive para uma dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Entretanto, o repórter Audálio de imediato soube reconhecer a grandeza do que tinha diante de si. “A história da favela que eu buscava estava escrita em uns 20 cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história — a visão de dentro da favela”, conta Audálio na introdução do livro publicado em 1960.

O jornalista também foi editor do livro e decidiu por preservar a linguagem de Carolina, mantendo as marcas de oralidade da autora. O seu trabalho de edição foi mais voltado para selecionar o que iria para o livro, visto que Carolina era extremamente descritiva sobre o seu cotidiano. As marcas de oralidade dão ao texto uma maior aproximação do leitor com a voz da autora, que por ter pouco tempo de escolaridade não dominava a norma padrão da língua portuguesa. 

Um olhar que metaforiza a vida

A falta de formação escolar não impediu a autora de retratar a realidade das pessoas periféricas, nem de ter um pensamento crítico, além disso, na sua escrita, prevalecem metáforas e metalinguagem. Como o próprio título do livro menciona, a autora cita várias vezes na obra que a favela é um quarto de despejos.

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”.

A analogia do quarto de despejo surgiu após Carolina de Jesus ser expulsa, junto com outros moradores, da antiga favela do Canindé para que fosse construída a atual Marginal Tietê. “[…] fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que a favela é o quarto de despejos de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, descreve.  

No livro Quarto de Despejo, a personagem principal é a fome. Carolina de Jesus narra sua rotina de tentar fugir da fome, matar a fome dos seus filhos e sair de uma vez da favela. Ela trabalha catando papel na rua e qualquer outro material que possa vender, mas o dinheiro não é suficiente. Muitas vezes ela precisa revirar os lixos em busca de comida. 

O desejo de ir embora da favela acaba se misturando com outros sonhos. Carolina Maria de Jesus sonha com uma vida melhor enquanto dorme, assim como quando está acordada. “[…] Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. […] Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades.

É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela”. 

Ela também sonha com o dia em que seus livros lhe renderão uma casa de alvenaria. Casa de Alvenaria: diário de uma ex- favelada é o título do seu segundo livro, publicado em 1961. 

O álcool e o álbum

Além da fome, a mineira relata a constante violência na favela. Muitas mulheres para não serem agredidas pelos seus maridos, corriam para a rua despidas. E os homens eram basicamente divididos em três categorias: os doentes, os desempregados e os embriagados. Carolina conta que muitas vezes o álcool motivava as brigas entre os casais, e o alcoolismo aparece como um problema que atinge uma grande parte daqueles moradores, inclusive as crianças.

Já ela se mostra totalmente contra o abuso da bebida. “[…] não vou beber. Não quero viciar. Tenho responsabilidade. Os meus filhos!”. Como também observa-se na música A Marcha do Pinguço composta por Carolina Maria de Jesus. Ela deixa bem claro em sua marchinha de carnaval “Eu é que não sirvo para ser mulher de pinguço.”

Verônica Ferriani e Rolando Boldrin interpretam A Marcha do Pinguço, de Carolina de Jesus.

Carolina Maria de Jesus gravou um álbum de samba chamado Quarto de Despejo, em 1961. Aos interessados em sua literatura, vale a pena conferir:

Álbum Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

O fim de Carolina

O livro Quarto de Despejo é encerrado com uma frase que demonstra que a rotina de uma favelada não muda, não acaba: “1 DE JANEIRO DE 1960  Levantei as 5 horas e fui carregar água.”

Como exceção, para a autora aquela rotina mudou após a publicação do seu livro. A escritora fez bastante sucesso e conseguiu a sua sonhada casa de alvenaria. Mas infelizmente, no final da vida ela estava novamente passando  necessidades e faleceu de asma em 1977, em sua casa no sítio em Parelheiros, município de São Paulo.

Carolina Maria de Jesus se tornou a escritora negra mais traduzida e mais editada no mundo. A sua história está presente em 46 países e em 16 línguas, tendo sido best-seller em vários países. Em fevereiro deste ano foi homenageada recebendo o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

A conquista do voto feminino: os movimentos sufragistas pioneiros de Pernambuco

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira, pioneiras do sufrágio feminino.

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira: pioneiras do sufrágio em Recife.

O sufrágio feminino foi um movimento político que atingiu diversos países europeus e se espalhou pelo mundo no final do séc. XIX. O  movimento era composto por mulheres – e homens – que estavam na luta pelo direito de participar da vida política. Direito que era negado por uma sociedade patriarcal e machista que presumia que a mulher não tinha lugar no espaço cívico-político. 

No Brasil, o sufrágio veio embalado pelo fim da monarquia e pela proclamação da república. Os ideais modernos e a vida urbana permitiram que as mulheres da classe média começassem a ocupar espaços que antes não alcançavam. 

Em entrevista para o  Café Colombo, a graduada em História pela Universidade Federal do Paraná, Naiara Busulo,  falou um pouco desse cenário: “A luta pelo direito do voto feminino passou a ter maior relevância no Brasil no final da década de 10, ao longo de toda década de 20, até culminar na conquista do voto em 1932. Apesar de no séc. XIX, quando se estava discutindo a primeira constituição republicana, já tinha se colocado em pauta o direito ao voto pelas mulheres.”

Primeira página do estatuto da FBPF.

Primeira página do estatuto da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1929. Fonte: Arquivo Nacional.

Busulo destaca dois nomes da luta sufragista brasileira, Leolinda Daltro, uma pioneira, e Bertha Lutz, um nome de destaque do movimento. “Leolinda era professora e foi criadora do Partido Republicano Feminino (PRF). Já na década de 1910, ela tentou uma candidatura mas teve seu pedido negado.” Logo depois, veio Bertha Lutz, que educada na França teve contato com o sufrágio inglês e trouxe suas ideias para o Brasil, de forma adaptada, já que as ações das sufragistas inglesas eram violentas demais para o cenário brasileiro da época. “A presença de Bertha na imprensa e o espaço que ela conseguiu junto a outros políticos homens, tornam ela a principal figura do sufrágio brasileiro, talvez a que tenha levado efetivamente a vitória da conquista ao voto no início da década de 30”, afirmou a paranaense.

O sufrágio pernambucano

Sendo Recife um polo econômico e político da época, a Veneza brasileira não ficaria para trás nos movimentos que levaram à conquista do voto feminino em 1932. Duas organizações vão se destacar no cenário feminista pernambucano do início da década de trinta, são elas a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), liderada por Edwiges de Sá Pereira, e a Cruzada Feminista Brasileira, sob a direção de Martha de Hollanda. Ambas mulheres ativas do âmbito intelectual brasileiro como escritoras e poetisas.

Edwiges de Sá. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Edwiges de Sá Pereira. Jornalista, educadora, poetisa e ativista feminista. Fonte: Acervo da Fundaj.

Edwiges nasceu no município de Barreiros, em 1885. Filha de advogado, teve pleno acesso aos estudos, diferentemente da maioria das mulheres de sua época. Foi  jornalista, professora, poetisa e escritora. Na juventude, fundou com seu irmão, Eugênio de Sá Pereira, o jornal manuscrito “Eco Juvenil” e a revista literária “Azul e Ouro”. 

A FPPF foi criada em 1931, como uma filial da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino criada por Bertha Lutz, por um comunicado no periódico  A Notícia, Edwiges convocou as mulheres pernambucanas que se interessavam pelas causas feministas. 

As falas de Edwiges de Sá pelo movimento sempre incluíam um viés cristão e conservador. Contra o divórcio, defendia a feminilidade da mulher e era contrária a noção popular de que o feminismo a masculinizava, acreditando que esta devia ter “aspirações nobres dentro e fora do lar […] e para isso teria que se elevar a educação feminina”. Conforme Lopes cita Nascimento em seu artigo “É preciso votar! A luta das mulheres pelo direito ao voto em Recife”.

Martha de Hollanda. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Martha de Hollanda, jornalista, poetisa e ativista pelo sufrágio feminino. Fonte: Enciclopédia do Nordeste.

Martha de Hollanda nasceu perto da capital, em Vitória de Santo Antão. Vinda de uma família tradicional, ela dedicou sua vida ao jornalismo, ao feminismo e à poesia, publicando um livro de poesias intitulado “Delírios do nada”, em 1930.

Com suas ideias revolucionárias e a favor do divórcio, Martha lutava pelo acesso da mulher à política e aos direitos civis. Sob sua liderança, a Cruzada Feminista caracterizou-se como um movimento de extrema importância para a conquista do sufrágio. Ela e a artista Celina Nigro foram as primeiras mulheres a alistarem-se para obter o direito ao voto em Pernambuco, pedido este que foi noticiado pelo periódico do Jornal do Recife. 

O sufrágio pernambucano começou nessas duas vertentes de pensamento, uma mais conservadora e uma mais radical, mas de igual importância e marco histórico. Apesar de algumas diferenças, ambas as organizações tinham forte cunho político e defendiam o acesso à educação da mulher nordestina. O movimento era composto por mulheres solteiras, casadas, professoras, comerciantes, ou seja, mulheres da classe média alta e da elite pernambucana.

É bom lembrar que a maioria das sufragistas brasileiras pertenciam à elite econômica e intelectual da época. Naiara Busulo critica essa postura em sua monografia sobre Maria Lacerda de Moura, uma feminista que se afastou do movimento sufragista pois percebeu que haviam falhas na iniciativa e passou a dar importância a outras pautas, como, por exemplo, o socialismo. Com ideias libertárias, chegou a morar em uma comunidade anarquista. 

“É importante entender que a luta pelo voto feminino no Brasil é extremamente elitista. Ele já começou com muitas pessoas não tendo esse direito, era um voto limitado de pessoas letradas. Quando a luta das mulheres entrou em pauta, não se discutia estender também para mulheres analfabetas ou homens analfabetos. Era exclusivamente a conquista do voto feminismo pelas mulheres da elite”, critica a historiadora. 

A Cruzada Feminista desempenhou uma das publicidades de maior relevância da época para o sufrágio feminino em Recife, com uma campanha dedicada às viúvas, em que mostraram apoio a essa parcela da população feminina, aproximando essas mulheres do movimento. Devido a grande repercussão, a ação teve reconhecimento da Secretaria de Viação, Agricultura, Indústria, Comércio e Obras Públicas do Estado de Pernambuco.

Convocação de apoio as mulheres viúvas pela Cruzada Feminista.

Convocação da Cruzada Feminista em auxílio das viúvas, publicada no Jornal Pequeno em 1932. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco.

Os movimentos pelo sufrágio das mulheres não foram completamente aceitos na época, como até hoje não são. As sufragistas brasileiras enfrentaram críticas e hostilidades de conservadores que usavam argumentos religiosos e biológicos contra as mulheres que compunham o sufrágio, colocando até a menstruação como uma barreira para que as mulheres ocupassem cargos. 

Apesar das organizações feministas fazerem grande uso das rádios e jornais, a imprensa, ao mesmo tempo que dava visibilidade ao movimento, também o ridicularizava e distorcia seu significado. No entanto, em 24 de fevereiro de 1932, em meio a um regime originado de um golpe dado por Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o voto, enquanto junto ao restante da população, iam perdendo outros direitos. 

O movimento feminista enfrentou e ainda enfrenta, no Brasil e no mundo, entraves e bloqueios de pessoas retrógradas. A luta não parou até agora e o mais importante é que ela nunca pare. O enfrentamento pela igualdade de gênero numa sociedade que tem como fundação o elemento patriarcal machista é diária e se torna mais urgente de acordo com a cor e classe social. 

Ser mulher e estar no mundo é resistência. É se esforçar o dobro, o triplo, até não aguentar mais. Chamam-nos de louca, instável, sensível e paranoica. Nos querem mãe e esposa apenas e quando queremos isso também, nunca fazemos com excelência suficiente. Preferem que fiquemos quietas, castas e até concordam com a nossa luta, mas dizem: “não precisa de tudo isso”. Precisamos sim! Disso tudo e um pouco mais. 

A luta continua. Agarremo-nos umas às outras. 

Já que não é aconselhável ir às ruas para comemorar esse dia de muitas lutas e também, de muitas conquistas, o que acha de celebrá-lo com algumas dessas obras? Confira:

Enola Holmes 

Produzido pela talentosa Milly Bobby Brown, o longa disponível na Netflix, conta a aventura da irmã mais nova de Sherlock Holmes à procura da mãe. O filme se passa no cenário da luta sufragista inglesa, sendo super leve e divertido. Ainda assim, causa reflexões sobre o lugar da mulher na sociedade, na época e atualmente.  Pode ser encontrado na Netflix.

Trailer do Filme Enola Holmes, baseado na série de livros de Nancy Springer. Fonte: Netflix/Divulgação

Feministas: O que elas estavam pensando?

O documentário produzido pela Netflix aborda a segunda onda feminista, que teve seu inicio na década de 1960 e esbanjava mais pluralidade de classe, cores e sexualidade das mulheres. Ouvindo artistas que fizeram parte do movimento, como a atriz Jane Fonda e a fotógrafa Cynthia McAdams e destacando o impacto que essa nova fase deixou para a atual geração de mulheres. Mostrando-se um grande apanhado histórico, o documentário apresenta imagens e vídeos dos protestos e passeatas da época, demonstrando que muitas pautas que o movimento carrega hoje se originaram nessa época.  “Feministas: o que elas estavam pensando?” está disponível na Netflix.

Trailer do documentário “Feministas: O que elas estavam pensando?”. Fonte: Netflix/Divulgação.

As sufragistas 

Para quem curtiu Enola Holmes, vale a pena dar uma olhada em um filme mais sério. O filme de 2015 acompanha a luta pelo sufrágio na Inglaterra, os planos e as estratégias criadas pelas líderes dos movimentos a fim de ganhar notoriedade para a causa e a garantia de direitos. Sendo as sufragistas inglesas mais incisivas, o longa dá uma boa dimensão de tudo que teve que ser feito por essas mulheres e as atitudes radicais que precisaram tomar para serem ouvidas. O filme pode ser encontrado no Google Play e na Apple TV.

Trailer do longa “As Sufragistas”, de Sarah Gravon. Fonte: Universal Pictures/ Divulgação.

Esse texto teve como referência de nomes, data e história do movimento sufragista em Recife, o artigo escrito por Mirella Tuanny Ferreira Lopes, publicado no 18° Redor, – Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero

cantoria crua por nathália tenório e lua

Ancestralidade e musicalidade se reúnem no ‘Cantoria Crua’

cantoria crua - ilustração por nathália tenório e lua
Nathália Tenório e Lua assinam a arte que compõe a identidade visual do projeto. Imagem: Cantoria Crua/Divulgação

“Criar. Rememorar. Unir. Alimentar.” Sob este mote, Adalberto, João Euzé e Neto Sales guiam o Cantoria Crua, projeto artístico que mistura cantoria e artes visuais. Com a influência de artistas da terra, como Anaíra Mahin, Anchieta Dali, Bia Marinho e Zeto do Pajeú, a ancestralidade que vem dos poetas pernambucanos é a peça central da produção.

Do encontro entre os garanhuenses Adalberto e Euzé e o surubinense Neto Sales surgiram as composições repletas de poesia e mistério, que prometem oferecer uma experiência imersiva. Hoje, às 21h, o público pode ter acesso a um pouco desta atmosfera em um show online oferecido pelo espaço Ágora Sonora (clique para saber mais). A obra do trio, que tem raízes no universo dos cantadores típicos do nordeste brasileiro, exalta também a natureza e o encantamento.

“Cantoria Crua é uma salva a todos os poetas ancestrais e, para além disso, marginais. Somos a todo tempo criadores de obras que rememoram nossos antepassados, unem nossos seres e alimentam tanto a nós mesmos quanto a quem nos ouve. Somos cantadores traçados nas linhas que os mestres que vieram antes de nós escreveram”, diz Adalberto, que complementa: “O Cantoria Crua representa o novo que tem essência fincada no passado e na incompletude do ser presente.”

Em ‘Prece Marginal’, os artistas entoam: “Uma salva ao poeta ancestral / de riúna carregada com a magia / que espalhou pelos campos a agonia / o alento de seu verso atemporal / massapê ds cantoria marginal / entidade a dibuiar letras e notas / quando as unhas acariciam as cordas”

E, para complementar o espetáculo, os artistas se transformam nos personagens Busca, Andarilho e Chão Batido, cujos trajes foram idealizados pela figurinista Katarina Barbosa.

figurinos do cantoria crua, assinados pela garanhuense Katarina Barbosa
Assinados por Katarina Barbosa, os figurinos compõem as personas do espetáculo Cantoria Crua. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

“A arte é uma expressão universal com a essência na quebra de qualquer barreira. A música e a poesia são formas de arte que dialogam entre si de uma forma encantada, ao passo que outras linguagens artísticas também podem interagir com o mesmo nível de magia”, comenta Adalberto. Na identidade visual, o projeto conta ainda com a peça de barro criada pelo artista Tonfil.

a peça de barro criada por Tonfil compõe a odentidade visual do projeto
“A Cumade Fulozinha representa um dos mistérios mais queridos e cantados pelos cantores de “canções da mata”, contadores de lendas dos sertões e crianças. Por isso traz traços infantis e indígenas para lembrar nossa mistura cabocla por esses rincões, mas toca numa viola de cabaça com estilo barroco e trovadoresco. Na cabeça traz três folhas de caju, representando os três cantadores”, comentou Tonfil em seu perfil no Instagram. Foto: Covil Audiovisual/Divulgação.

Para divulgar o novo projeto, o grupo, que conta com a produção da Epahey Produções Culturais, planeja a realização de um produto audiovisual que mostrará seis canções autorais. “Esse material será um portfólio virtual para o grupo que possibilitará o acesso a palcos e festivais, além de disseminar a produção autoral interiorana nas redes”, diz Adalberto. 

O local idealizado para as gravações dos vídeos é o Casarão do Jebre, pousada localizada em Maturéia, Sertão da Paraíba. Para isso, a equipe vem planejando uma campanha de financiamento coletivo, que você pode acessar clicando aqui. Aos colaboradores, será realizado um show online exclusivo, com data a ser definida.

E para 2021, os artistas também planejam o lançamento de um EP com quatro músicas, além de shows presenciais, quando for possível em razão da pandemia. Adalberto crê que o futuro reserva bons frutos para o Cantoria Crua: “Nossos passos são traçados no véu das coisas e, com toda a certeza, grandes momentos o universo tem reservado para fazer ecoar nosso canto e nossa força.”

adalberto, euzé e neto sales compõem o cantoria crua
Adalberto, João Euzé e Neto Sales, o trio que compõe o Cantoria Crua. Foto: Karol Albuquerque/Divulgação/Saulo Tavares.

Veja também: “Do Meu Coração Nu”: A virtuosidade e sensibilidade sonora-social de Zé Manoel

51 anos de Come Together: a última música gravada para o último álbum dos Beatles

Trecho do clipe de Come Together disponível no Youtube.

Come Together já foi trilha de filmes, séries e campanhas publicitárias, se tornando uma das músicas mais conhecidas da banda de Liverpool The Beatles. A canção que é a primeira do álbum de 1969, Abbey Road, foi composta e interpretada por John Lennon,  também creditada a Paul McCArtney e foi a última a ser gravada pelo grupo.

A inspiração para a canção veio de um lugar inusitado: uma campanha política. Timothy Leary estava concorrendo contra o ex-ator Ronald Reagan pelo cargo do governador do estado da Califórnia, pelo Partido Psicodélico da Califórnia, que se intitulava um partido hippie e que tinha o apoio de Lennon. Foi assim que o beatle escreveu um jingle para o slogan do candidato: “Come together, join the party” (Venha junto, junte-se à festa), fazendo uma alusão ao entorpecente LSD. 

Infelizmente, Leary foi preso por porte de drogas e perdeu o posto de governador para Reagan. Então John tirou as características políticas de Come Together que, por fim, virou a faixa de abertura do álbum Abbey Road. O disco leva como capa a foto icônica do grupo atravessando uma rua na faixa de pedestres, se tornando um dos pontos turísticos de Londres.

Come Together teve diversos covers, dentre eles se destacam os de Michael Jackson, Arctic Monkeys e principalmente a versão da banda Aerosmith, lançada em 78 e que fez parte do filme Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band – nome de um dos discos dos Beatles -, dirigido por Michael Schultz, ficando na posição 23 do Hot 100 da Billboard e sendo uma das versões mais famosas do single. 

Cena do filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band em que Come Together é interpretada pela banda Aerosmith.

Outro fato é que o álbum anterior da banda, The White Album, foi gravado com os integrantes separados, em estúdios diferentes, já que eles estavam em uma época de intrigas e preferiam não ver um ao outro. Logo, Come Together também traz essa analogia de “estamos juntos” para a obra final, para pôr um ponto à grande febre que foi The Beatles. 

Abbey Road – 1969

Capa do álbum Abbey Road de 1969.

“O sonho acabou”, essa foi a fala de John Lennon na coletiva de imprensa em que The Beatles anunciaram o fim da banda. Abbey Road veio para fechar esse ciclo. 

Apesar de não ter sido o último álbum lançado pelo grupo – o último foi Let it Be, um compilado de músicas já gravadas mas que não tinham sido lançadas -, foi o último a ser gravado com todos os membros juntos em um único estúdio. 

Abbey Road, que leva o nome da rua onde a foto icônica que estampa o disco foi tirada, tornou-se um dos álbuns mais marcantes dos Beatles, não apenas pelo que representa, mas por conter algumas das músicas de maior sucesso da banda. 

Iniciando com o single Come Together, convidando-nos a fazer parte desse último sonho dos garotos de Liverpool, passando por músicas transbordadas de sensações, como a de felicidade em Here Comes The Sun, todo o amor de Something – ambas de George Harrison -, e nos presenteando com o “quase medley” Golden Slumbers/Carry that Weight/The End, músicas gravadas de forma independente mas que causam a sensação de serem continuações uma da outra  enquanto você ouve o álbum e deixam a impressão de despedida da banda. 

Abbey Road, lançado em 26 de setembro de 1969, é sem dúvida alguma um dos álbuns mais importantes para o cenário musical, juntamente com outros trabalhos da banda,  e marca o fim de um grupo que criou estilos, renovou gêneros e mudou para sempre a nossa noção de música.

Três escritoras nordestinas esquecidas na literatura

Em comemoração ao Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, conheça (ou relembre) escritoras do Nordeste que foram ocultadas da tradição literária, uma vez que a escrita feminina foi cedida ao campo de invisibilidade pelo cânone de caráter masculino da literatura. Com suas jornadas engajadas em movimentos sociopolíticos, Dionísia Gonçalves Pinto, Maria Firmina dos Reis e Anilda Leão tratavam sobre temáticas que abordavam tabus e a luta por direitos — sejam eles das mulheres, do negros ou dos indigenas. 

“Pois não só porque mulheres escritoras são esquecidas; são esquecidas sobretudo as mais atuantes, as feministas, em uma palavra”. 

Zahidé Muzart
Dionísia Gonçalves Pinto
Retrato de Dionísia Gongalves Pinto. Foto: Divulgação.

A potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, nasceu em 12 de outubro de 1810, na antiga cidade de Papari. Como escritora, carregou consigo o pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta. Obstinada e defensora dos direitos da mulher, escreveu aos 22 anos seu primeiro livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. 

Até seu falecimento em 1887, publicou outras 14 obras que, além de evidenciar o feminismo como temática principal, destacava os direitos dos escravos e dos indígenas. Entre seus escritos de maior destaque estão “Conselhos à minha filha” (1842), “Daciz ou A jovem completa “(1847), “A lágrima de um Caeté” (1849) e “Opúsculo humanitário” (1853).

“A esperança de que, nas gerações futuras do Brasil, ela (a mulher) assumirá a posição que lhe compete nos pode somente consolar de sua sorte presente.”

Opúsculo Humanitário

Considerada a primeira educadora feminista do Brasil, Nísia fundou escolas para meninas no Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde recebeu destaque por ministrar as disciplinas de gramática, português, francês, italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança e, com isso, alvo de ataques e críticas à la mode machista. 

Maria Firmina dos Reis
Pintura retra Maria Firmina a partir de descrição feita por pessoas que conheciam a autora. Foto: André Valente / BBC.

Nascida em 11 de março de 1822, em São Luiz do Maranhão, Maria Firmina dos Reis foi a primeira escritora negra e romancista do Brasil. Utilizou a literatura como instrumento para denunciar práticas escravistas, e através do pseudônimo de “Uma Maranhense” publicou “Úrsula” (1859), seu romance abolicionista. 

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (…) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”

Úrsula

Se destacou como a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão. Atuou profissionalmente como professora, e em 1880 fundou a primeira escola mista (para meninos e meninas) gratuita no Brasil, que na época foi motivo de escândalo para a sociedade. 

Responsável por inaugurar o que hoje conhecemos como literatura afro-brasileira, ela também publicou contos, histórias, ensaios, poesias, em revistas e jornais locais. A maioria dos seus manuscritos não foram editados e se perderam com o passar dos séculos. Entre as obras de sua autoria é possível citar “Gupeva” (1861), Cantos à beira-mar (1871) e A escrava (1887). 

Firmina morreu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães (MA), onde morava  na casa de uma ex-escrava.

Anilda Leão
Foto: Divulgação.

Anilda Leão nasceu Maceió, Alagoas, no dia 15 de julho de 1923. Aos 13 anos, publicou seu primeiro poema com o tema criança abandonada. Na escola, era tida como rebelde, característica registrada na personalidade da artista que, ao longo de sua história, passou a escrever sobre tabus como prostituição, virgindade e homossexualidade — pautas ainda discutidas na contemporaneidade.

No ano de 1950, após participar de um evento de fomento ao Progresso Feminino, passou a frequentar ativamente na Federação Alagoana, e mais tarde se tornou presidenta da instituição. Em junho de 1963, representou a Federação no Congresso Mundial de Mulheres em Moscou. Enquanto viajava, um boato circulava pelas ditas bocas da população de Maceió. “Anilda? Foi presa! Rasparam-lhe a cabeça”. A falsa notícia rendeu a Anilda horas de risos que, após o incidente, publicou o poema “Vou abrir as pernas para o mundo. Nove meses depois parirei a humanidade”.

Se casou aos 30 anos de idade com o poeta e escritor Carlos Moliterno. O casamento foi motivo de choque para seus parentes, uma vez que Carlos  separou de sua ex-esposa em uma época em que não havia a lei do divórcio. 

Em 1962, incentivada pelo marido, publicou seu primeiro livro de poemas “Chão de Pedras”. Nos anos 70, com a coletânea de contos “Riacho Seco”, conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras. No entanto, a obra só foi publicada em 1980. Publicou também as poesias “Chuvas de Verão”, em 1974; “Poemas Marcados”, em 1978 e “Círculo Mágico (e outros nem tanto)”, em 1993.

Ainda na década de 1970, realizou seu primeiro trabalho como atriz no seriado “Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra”. Também atuou nos filmes “Bye bye Brasil” (1980), “Memórias do Cárcere” (1984) e “Deus é brasileiro” (2002).

A partir dos seus contos, poesias, crônicas e artigos, se tornou colaboradora do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas, além de escrever para as revistas Caetés e Mocidade. Quando faleceu, em 2012, o escritor brasileiro Benedito Ramos a definiu como “única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez”.

rebecca, a mulher inesquecivel 2020

Os percalços de “Rebecca, A Mulher Inesquecível”

rebecca, a mulher inesquecível
Armie Hammer e Lily James estrelam “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, nova produção da Netflix. Foto: Divulgação/Netflix.

Um clássico do cinema ganhou uma nova adaptação produzida pela Netflix. “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, estreou na última quarta-feira (21). A difícil tarefa de filmar a trama que se tornou um clássico sob a direção de Alfred Hitchcock e vencedor do Oscar em 1940, coube ao diretor Ben Wheatley, de Free Fire: o Tiroteio (2016) e No Topo do Poder (2015).

No novo filme, Lily James (Downtown Abbey, Cinderela) dá vida a uma jovem que, recém casada com o viúvo Mr. de Winter (Armie Hammer), precisa conviver com a sombra da primeira esposa, Rebecca. A governanta da casa, Mrs. Danvers (Kristtin Scott Thomas), se esforça para que a presença de Rebecca nunca seja esquecida. Até agora, as críticas são mistas: com nota 46 no Metacritic e 6 estrelas no IMDb, o suspense parece não ter conquistado aqueles que tinham altas expectativas sobre a já eternizada trama.

A primeira versão, estrelada por Joan Fontaine e Laurence Olivier, “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, foi o primeiro projeto hollywoodiano de Alfred Hitchcock, que se mostrou bem-sucedido: além de vencer dois Oscars em 1940, de Melhor Filme e Melhor Fotografia em preto e branco, foi um sucesso entre a crítica e o público.

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Hitchcock lê o romance de Daphne du Maurier que inspirou o filme de 1940. Foto: Divulgação.

A história de ambos os filmes foi adaptada do livro homônimo da britânica Daphne du Maurier, publicado em 1938. Ela também escreveu o conto Os Pássaros (1952), também foi adaptado para as telonas por Hitchcock, estreando em 1963. Entretanto, Rebecca, seu romance de maior sucesso é envolto de controvérsias, sendo a principal delas a acusação de plágio de um romance brasileiro.

A Sucessora

Em 1934, a escritora Carolina Nabuco publica seu livro “A Sucessora”, sucesso de vendas no Brasil. O romance intimista e psicológico conta a história de Marina, uma jovem recém-casada com o milionário Roberto Steen. Porém, o casamento é assombrado pela memória da primeira esposa dele, Madame Steen, a quem a governanta Juliana faz questão de relembrar.

Enquanto escrevia, a autora já traduzia simultaneamente para o inglês, a fim de ser publicado no exterior. Carolina enviou o manuscrito para uma agência nos Estados Unidos, que o repassou para a Inglaterra. A escritora não recebeu mais respostas, e, algum tempo depois, o mesmo escritório inglês publica Rebecca, assinado por du Maurier.

A história foi contada pelo crítico Álvaro Lins, em um ensaio publicado no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 1940; também ganhou notoriedade na imprensa da época. Lins analisou os dois romances em detalhe, descrevendo não só como a narrativa era similar, mas também as páginas onde havia a grande chance de plágio. Em novembro de 1941, o jornal norte-americano The New York Times também publicou um artigo sobre a grande ‘coincidência’ entre os dois romances.

correio da manhã
correio da manhã
A história do plágio foi contada em duas ocasiões no Correio da Manhã, no qual Álvaro Lins era editor-chefe, em abril de 1940. Imagens: Reprodução/Biblioteca Nacional

Em suas memórias Oito Décadas (1973), Carolina Nabuco relata que os advogados da United Artists, companhia que produziu o filme, a procuraram para que ela assinasse um termo admitindo que houve uma “coincidência” entre as duas obras mediante uma considerável quantia em dinheiro, o que a escritora se negou a fazer. Apesar disso, também não acusou os envolvidos de plágio.

Felizmente, A Sucessora ganhou seus devidos créditos no Brasil. Best-seller, esteve fora de catálogo desde 1996, mas ganhou uma nova edição em 2018, pela Editora Instante. E, em 1978, foi adaptada para uma telenovela assinada por Manoel Carlos, que se tornou um fenômeno do horário das 18h e foi um marco na carreira de Susana Vieira, que deu vida à jovem Marina. Confira a abertura aqui.

telenovela a sucessora
A telenovela global de 1978 contava com Susana Vieira, Rubens de Falco e Natália Timberg. Foto: Divulgação/Memória Globo.

O sotaque plural da Joana Francesa

Logo da Joana Francesa, criado por Élter Araújo. Foto: Divulgação

Em 1971, o cantor Gilberto Gil adicionou no repertório do álbum “Expresso 2222” a canção “Pipoca Moderna” da banda de Pífanos de Caruaru, se tornando uma das músicas símbolo da Tropicália. Já na década de 1990, o movimento Manguebeat toma conta de Recife, misturando maracatu, rock e hip hop para compor os arranjos musicais. Tomando como referência estes momentos de efervescência cultural no Brasil, nasce a banda caruaruense Joana Francesa.

Formada pelos estudantes de Comunicação Social Élter Araújo (baixista), Gabriel Vila Nova (guitarrista) e Luiz Ribeiro (vocal), além dos professores Amilcar Bezerra (vocal) e Gustavo Alonso (sanfoneiro) e o baterista Artur Lima, a banda apresenta ao mundo seu primeiro trabalho autoral “Fogo Branco”. O xote de guitarra presente na canção, marca o início da história da banda que antropomorfiza gêneros e brinca com a linguagem musical.

Nessa entrevista, a equipe do Café Colombo conversou com os professores do Núcleo de Design e Comunicação do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco Gustavo Alonso e Amilcar Bezerra, os joanitos (apelido dos integrantes da banda). Enquanto Amilcar tem sua pesquisa voltada ao Frevo, Gustavo estuda o Forró e compartilha curiosidades sobre o gênero no canal “ABC do Forró“. No papo sobre a banda, os professores comentaram sobre a nova etapa do trabalho, suas referências musicais e estéticas, ambições e as ideias que permeiam o neoregionalismo pop da Joana. 

Como surgiu a ideia de criar a Joana Francesa? 

Amilcar: No começo era uma pesquisa sobre as músicas do compositor caruaruense Carlos Fernando, no qual acompanhava sua trajetória de modernização do Frevo. Quando cheguei em Caruaru, descobri seu álbum “Crônicas Musicais de Caruaru”. Conversando com Luiz Ribeiro, meu aluno do curso de Comunicação Social, percebi que o disco seria um objeto interessante para ser estudado por tratar das memórias e representações da cidade. A partir dessa proximidade com Luiz, observei o trabalho que ele fazia na banda Rasga Mortalha e também em suas composições. Eu disse que também compunha, e então criamos a música “No Apertar da Hora”, inspirado na minha pesquisa sobre Carlos Fernando. A canção foi inscrita no edital da Prefeitura de Caruaru e foi uma das vinte selecionadas para participar do álbum “A Música no País de Caruaru”. Quando isso ocorreu, percebemos que nossa parceria dava certo e começamos a escrever mais outras músicas. Começamos a formar a banda, intitulada como “A Bruma Leve” inicialmente. Depois, Gabriel Vila Nova entrou na formação e rebatizamos para Joana Francesa. O nome faz referência a Carlos Fernando, que era um grande fã da novelle vague e do cinema francês dos anos 1960. Joana Francesa também se refere a música homônima de Chico Buarque e ao filme “Joana, a francesa” (1973) de Cacá Diegues.

Quais são as principais influências para a criação do Joana Francesa, intitulada por vocês como um “neoregionalismo pop”?

Gustavo:  O que une nossas influências culturais, apesar das diferentes origens e gerações, é a ideia um tanto quanto tropicalista, de incorporar a linguagem pop às matrizes tradicionais, sem querer abdicar dessas especificidades, mas ao mesmo tempo sem museificá-las. Trata-se de aceitar a cultura pop como parte de nós, parte do mundo em que vivemos e tentar tirar dela o que há de positivo.  Movimento esse que já foi utilizado pelo tropicalismo, pelo rock nordestino dos anos 70 e pelo manguebeat.

Amilcar: Em específico, somos influenciados pelos cantores Geraldo Azevedo, Carlos Fernando, Alceu Valença, Elba Ramalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros nomes da Música Popular Brasileira. Nos inspiramos muito também na banda pernambucana dos anos 70 Ave Sangria, pois ela mistura o som pop com a identidade regional e autêntica. Há também o cantor francês Serge Gainsbourg que tem ótimas canções autorais.

A banda Joana Francesa tem uma montagem formada por pesquisadores, professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste, com exceção do baterista Artur Lima. Qual a marca que esse repertório intelectual trás para a banda? 

Amilcar: Acho que esse repertório intelectual se manifesta de maneira muito sutil. A ideia da banda não é transmitir conceitos. Porém, como participamos desse ambiente academicista, essas concepções aprendidas e ensinadas vão permear na música. Mas não entram como uma necessidade nessa produção. Essa relação ocorre de forma mais indireta.

Gustavo: A minha pesquisa sobre o forró ajuda a vermos que, em outras épocas, também houve esse interesse pelo pop. Se pegarmos a trajetória de Luiz Gonzaga, por exemplo, vemos como ele teve que abrir mão do purismo para incrementar o Choros (gênero de grande fenômeno da rádio, nos anos 1940) nas suas canções. Este era o formato pop da época de Luiz Gonzaga. Ele poderia ter negado, mas não, ele incorporou o mundo pop em seu forró. Tornando-se, aliás, um dos principais ídolos nos anos 40/50. Pensando nisso, tentamos buscar essas influências na banda. Isto pode-se dizer sobre grande parte dos forrozeiros: todos tiveram, em um momento ou outro, que lidar com a cultura pop da sua época. Criticar o mundo da indústria cultural é uma coisa muito comum nas universidades e em grupo que adoram alimentar o ressentimento. Os artistas mais inteligentes lidam com isso de forma ativa, buscando inventar novas possibilidades artísticas e estéticas.

Show de estreia da Joana Francesa na 3° edição do Festival de Literatura e Artes Literárias, com os joanitos (da esquerda para a direita) Luiz Ribeiro, Gustavo Alonso, Amilcar Bezerra e Gabriel Vila Nova. Foto: Divulgação

Quais são os objetivos da banda?

Amilcar: Nosso objetivo é lançar três singles até 2021. Já na segunda metade do ano lançar um EP com sete faixas. As músicas já estão prontas, porém estamos pensando nos arranjos e nas estratégias de gravações. O repertório é diverso, assim como nossas influências. Tem de tudo: xote, tango, pop balada e ciranda. Estamos fazendo esse trabalho de forma cuidadosa, não ligando muito para o tempo, queremos discutir cada detalhe. Como “Fogo Branco”, que demorou para sair por esses motivos, mas que teve o produto final muito bem produzido. 

Gustavo: Meu objetivo com a banda é me divertir e participar dessa interação professor-aluno. Quero apenas tocar, criar e brincar.

Quais têm sido e são as dificuldades de fazer cultura e de ter uma banda autoral e independente? 

Amilcar: Existem várias dificuldades. Primeiro a questão financeira, pois a banda precisa de investimento. Então, tudo tem que ser feito com o nosso dinheiro ou a partir da brothagem. Nós temos a perspectiva de fazer um clipe até o final do ano. Escolhemos o diretor Renan Zovka, no qual trabalhou com a música “Fogo Branco” em seu curta de ficção ainda não lançado. A partir disso, fizemos uma troca de trabalhos. O ideal seria pagar por isso, mas não temos recursos. Como também não temos um trabalho conhecido, a ideia é lançar os singles e o EP, e assim fazer com que a banda fique mais conhecida. Pois, se por um lado fica mais fácil ter a sua música acessível nas plataformas, por outro lado é complicado competir com os milhares de lançamentos diários que há nos streamings. 

Gustavo: Como minhas ambições são pequenas, não há muita dificuldade. Há mais prazer. Mesmo as coisas cansativas nesse processo, como colocar o som, levar equipamentos, faço porque gosto. Não vivo disso, não há “obrigação” nenhuma. É natural uma banda autoral ter alguma dificuldade. Mas lamentar isso realmente não faz parte da minha forma de pensar.

O primeiro single “Fogo Branco” foi gravado em home studio em decorrência da pandemia da COVID-19. Quais foram as dificuldades de se produzir dessa forma?

Amilcar: O presencial obviamente facilita muito, nas nossas conversas e no nosso processo criativo. Mas essa produção à distância foi interessante, apesar da demora. Acabamos provando que é possível fazer música assim. As gravações tiveram algumas complicações, porque gravamos em três estúdios diferentes. O produtor Pedro Costa, que estava no Rio de Janeiro, não conseguia ter acesso a base que estava sendo gravada aqui. Apesar de dificuldades como essas, deu certo. A gente pretende continuar produzindo todas as músicas à distância, mesmo que acabe a pandemia. Esse processo acaba sendo mais prático, pois encurta as distâncias e foi econômica para nós. 

Gustavo: Acho que a principal dificuldade foi trabalhar à distância. Por outro lado, foi incrível perceber que é possível fazer isso. É incrível!

Qual a ideia que a capa do primeiro single “Fogo Branco”, produzida por Fernando Duarte, quer passar?

Amilcar: “Fogo Branco” é inspirado em uma personagem ficcional do curta de Renan Zovka. A ideia que passamos para Fernando Duarte é de uma cangaceira estilizada, com toques de psicodelia. Quando ele nos apresentou achamos a arte muito massa e muito condizente com nosso trabalho.

O psicanalista e pesquisador Kléberson Ananias deu um feedback, publicado por vocês no Instagram, comentando que a música “Fogo Branco” era “uma coisa muito Pernambuco para o mundo e para uma metrópole”. Essa descrição faz jus ao conceito do grupo, no qual pretende modernizar as movimentações culturais tradicionais? 

Amilcar: A gente quer falar para brasileiros de diversas regiões, trazendo nossa marca regional. O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical. Porém, o tema de nossas canções são temas universais, nossas sonoridades são pop, então não existe essa pretensão de modernizar as manifestações tradicionais. 

Gustavo: O público mais intelectualizado muitas vezes simpatiza muito com nossas canções. Mas acho que, em determinada medida, temos que chocar um pouco esse público, muito acostumado a esse suco tropicalista bem medido. Como a mistura com o popular massivo, que é um viés subestimado, e que pode incomodar. Quando e se isso ocorrer, periga sermos rejeitados por esse mesmo grupo intelectual. Em determinada medida, acho importante almejar essa quebra de perspectiva. Não vejo isso na gente ainda. Mas acho que é necessário ambicionar.

“O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical.”

Nessa época de eleições municipais, o que vocês esperam dos candidatos à eleição enquanto as políticas públicas voltadas à cultura e aos artistas? 

Amilcar: Espero diálogo e apoio. Eu acho que é isso que se espera de um gestor público. E nas políticas culturais não devem ser diferentes. Você está disposto a escutar os artistas, saber quais são suas necessidades e trabalhar em prol deles. Eu acho que um dos grandes problemas é os gestores estarem mais preocupados com seus interesses políticos, do que com os interesses da categoria que eles deveriam representar. 

Gustavo: Acho saudável não esperar nada de político algum. Político não faz nada se não houver mobilização social. Nesse sentido, espero que a sociedade se mexa. Não adianta ficar reclamando de políticos e da política, a cultura é de todos nós. O que estamos fazendo pela cultura? Depois que fizermos algo pela cultura de forma autônoma, cabe ao político abraçar projetos consistentes já existentes. Nesse sentido, não temos que “esperar” nada dos políticos. E se não formos nós a nos mexer, vai continuar sendo um jogo de espera.

73 anos de histórias: Stephen King, o mestre do horror

Os 10 melhores livros de Stephen King segundo seus fãs - Blog da TAG

Foto: Divulgação.

O célebre mestre do horror Stephen Edwin King, nasceu em Portland, estado do Maine, no dia 21 de setembro de 1947. Com uma carreira conceituada por seus notáveis contos e histórias de terror fantástico e ficção, o escritor norte-americano é considerado um dos mais proeminentes autores da sua geração. Seus livros já venderam mais de 400 milhões de cópias e várias de suas obras foram adaptadas em filmes, séries e quadrinhos. 

King conheceu o drama da vida real cedo. Quando Stephen tinha dois anos, seu pai, Donald Edwin King, abandonou a família. Junto a sua mãe Nellie Ruth Pillsbury e ao seu irmão adotivo David, passou por grandes dificuldades financeira. Viveu como itinerante, tendo transitado por lugares como Indiana, Wisconsin e Connecticut. Após nove anos como viajante voltou para o Maine, mas dessa vez se instalou na cidade de Durham. 

Aos 4 anos de idade, Stephen King viveu um dos momentos mais marcantes da sua vida. Ele presenciou o acidente aterrorizador de um de seus amigos, que foi atropelado por vagões de trem ao ficar preso em uma ferrovia.

O acontecimento inspirou o autor em sua obra “Quatro Estações” (1982). Este livro inclui entre suas páginas o conto “Outono da Inocência: o corpo”, que aborda a história de um grupo de adolescentes curiosos que saem de suas casas para tentar encontrar o corpo de um garoto que estava desaparecido e descobrem  que o menino foi morto acidentalmente. O conto inspirou e deu origem ao filme “Conta Comigo” que, em uma de suas cenas, mostra dois garotos correndo em uma ferrovia enquanto um trem chega perto de alcançá-los. Nesta obra, o autor se distancia do sobrenatural e constrói suas narrativas baseadas em pessoas comuns.

O início da jornada

Stephen desenvolveu seus primeiros escritos no ano de 1959, aos 12 anos.  Durante seu ensino médio, o autor decidiu que queria viver da escrita e passou a investir em sua carreira profissional. King foi publicado pela primeira vez, de forma amadora, por uma revista pulp (revistas produzidas com papel barato, um tipo de entretenimento rápido que podia por exemplo ocupar o lugar dos atuais seriados de TV).

Ao terminar o colegial, ele inscreveu para a faculdade do Maine, onde cursou a graduação em letras. Lá,  costumava publicar a coluna intitulada “King’s Garbage Truck” para o jornal estudantil.  

Ainda durante sua graduação, vendeu seu primeiro trabalho, “The Glass Floor” (1967), para uma revista por $35,00. O escritor passou a escrever para outras revistas, vários de seus trabalhos foram compilados e publicados em sua obra Sombras da Noite (1978).

Na faculdade ele conheceu Tabitha Spruce, sua esposa, com quem teve três filhos. Foi graças a ela que sua primeira obra consolidada, Carrie (1973), foi lançada. Enquanto escrevia Carrie, Stephen jogou a história no lixo por não estar satisfeito com a narrativa. Tabitha, no entanto, ao achar os esboços escritos pelo autor adorou e o incentivou a continuar. Após o sucesso inicial da obra, a editora Doubleday comprou o livro por 400 mil dólares. 

Filme Carrie – A Estranha (2013), remake do filme clássico dos anos 70, baseado na obra de Stephen King. Foto: Divulgação/Sony Pictures. 

Em 1974, outro acontecimento inesperado marca a vida do literato. Com o falecimento de sua mãe, Stephen King saiu de sua cidade natal e mudou-se para a cidade de Boulder, no Colorado. Nesse período o escritor ficou deprimido e acabou desenvolvendo o vício em álcool. 

No primeiro dia de mudança, a família King foi recebida pelo rigoroso inverno da cidade. Eles hospedaram-se em um hotel que dificilmente era frequentado por outras pessoas. Essa descrição ambientou o livro “O Iluminado” (1977), considerado por muitos sua principal obra. O consagrado livro foi adaptado cinematograficamente pelo diretor Stanley Kubrick. 

No período anterior à publicação do Iluminado, King já havia escrito seu segundo livro “A Hora do Vampiro” (1975). No final dos anos 70 escreveu Zona Morta (1979), sendo este seu primeiro romance a estar entre os mais vendidos do ano nos Estados Unidos. 

Entre as décadas de 1970 e 1980 King escrevia descontroladamente — tanto, que as editoras temiam que sua marca ficasse saturada no mercado. Foi então que o autor começou a utilizar o pseudônimo Richard Bachman, para poder publicar seus escritos. No entanto, um  funcionário de uma livraria chamado Steve Brown,  acabou descobrindo sua identidade escondida e expôs o escritor. O evento acabou inspirando King no seu livro “A Metade Negra” (1989), que narra a história onde o pseudônimo de um autor ganha vida própria.

Filme It – A coisa (2017) dirigido por Andy Muschietti. Foto: Divulgação/Warner Bros.

Nesse mesmo ano, o rei do terror chegou a enfrentar seus próprios demônios ao se juntar para o grupo de Alcoólicos Anônimos e tentar livrar-se do vício em cocaína. Os problemas que enfrentava contra as drogas era tão pesados, que ele já mencionou em várias entrevistas que praticamente não lembra dos momentos em que escreveu os livros “Cujos” (1981) e “It – A Coisa” (1986).  Foi por volta de 1990, após uma intervenção feita pela sua família, que King parou de beber. Após ficar sóbrio, escreveu “Trocas Macabras” (1991). 

“Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem.”

Stephen King

Em 1999, outro acidente invade a vida de Stephen King. Dessa vez com ele próprio. Ao caminhar pelas calçadas do Maine, Stephen foi atingido por um furgão descontrolado e precisou passar por cirurgias nas costelas e quadris. Durante sua recuperação, escreveu contos, uma novela e seu livro de memórias, On Writing (2000).  

Sucesso, fama e ascensão

Com o destaque que recebeu por suas assombrosas histórias de horror, o autor já conquistou diversos prêmios. Entre eles o Bram Stoker Awards – uma premiação concedida pela Horror Writers Association (HWA) por “realização superior” no gênero terror –  e o World Fantasy Award, um dos mais prestigiosos prêmios da ficção especulativa. 

Em 2015, passou a ser descrito como oficialmente como “rei do terror” pela National Endowment for the Arts, tendo recebido a Medalha Nacional das Artes por suas contribuições para a literatura.

O universo de mistério, suspense e medo criado por Stephen King o levou a ser considerado um dos autores mais marcantes do século, estando entre os 10 autores mais traduzidos do mundo. Com mais de 50 obras publicadas, King revela o esplendor do fantástico e assustador imaginário humano através da literatura.

Dia da Televisão Brasileira: conheça obras marcantes da Rede Globo

Tele Globo – Memória

Repórteres do telejornal “Teleglobo” em 1965. Foto: Divulgação/Tv Globo.

Ao longo de 70 anos de história da televisão brasileira, a Rede Globo se tornou uma das emissoras mais importantes e originais com as suas produções. Anterior a ela, a TV Tupi iniciada em 1950 pelo jornalista Assis Chateaubriand, mais conhecido por Chatô, foi a primeira emissora do Brasil. Mas, após a concessão de TV para a Rádio Globo ser assinada pelo ex-presidente do Brasil Juscelino Kubitschek em 1957, os trabalhos da Tupi são afetados pela forte audiência da nova rede. A Globo dá início às suas produções apenas em 1965. Desde então, alcançou altos níveis de audiência no decorrer dos anos, e muito disso se deve às suas telenovelas, que se transformaram em paixão nacional. Pensando nisso, a equipe do Café Colombo selecionou algumas obras em comemoração ao Dia da Televisão Brasileira.

Avenida Brasil 

A novela “Avenida Brasil” (2012), dirigida por Ricardo Waddington, Amora Mautner e roteirizada por João Emanuel Carneiro, com colaboração de Antonio Prata, Luciana Pessanha, Alessandro Marson, Márcia Prates e Thereza Falcão foi um dos principais sucessos da Rede Globo e no mundo. Além disso, sua audiência chegou na Argentina, Uruguai, Venezuela, Paraguai, Portugal, Chile, Marrocos e, no próprio país, ficando nos trending topics do Twitter. Quem lembra da transmissão do Jornal Nacional da ruas paradas de São Paulo quando todos esperavam o último episódio da trama? Para quem não assistiu, vale a pena conferir! Ela está disponível no aplicativo da Globo Play

No último capítulo, a trama chegou a 51,7 pontos de audiência segundo os dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas (IBOPE), conquistando o lugar de maior audiência de TV dá década, ficando apenas atrás de “Passione” (2010), com 54 pontos. Na época, Avenida Brasil ultrapassou a audiência do final da Libertadores (disputada entre Corinthians e Boca Júnior). 

SINOPSE: “Abandonada em um lixão pela madrasta, a menina Rita jura vingança. Já adulta, ela assume a identidade de Nina (Débora Falabella) e volta para se vingar da megera, mas se vê dividida ao descobrir que o seu grande amor é filho da mulher que arruinou a sua vida” 

Nina torna-se empregada doméstica da família da madrasta para iniciação do plano. Foto: Tv Globo/Estevam Avelar.

Grande Sertão: Veredas

Conhecida como uma obra inadaptável pelo diretor Walter Avancini em razão da sua dificuldade de transformá-la em minissérie, Grande Sertão: Veredas, nome homônimo do livro de Guimarães Rosa, recebeu sua adaptação na década de 1980 e reproduzida no Canal Viva. Seu surgimento foi em comemoração aos 20 anos da Rede Globo. Com uma superprodução, a emissora contratou 2.000 pessoas para execução da trama que durou um período de três meses na cidade de Buritizeiro, em Minas Gerais. De acordo com site Memória Globo, foram 8 quilos de base e 50 litros de sangue cenográfico pelos autores. 

Na escalagem dos personagens Riobaldo, vivido por Tony Ramos e Diadorim, vivenciado por Bruna Lombardi, descrevem que de início ficaram assustados com a proposta. Tony Ramos acreditava não ter a capacidade de convencer os telespectadores com sua atuação em entrevista para o Memória Globo. Já Bruna Lombardi que, na trama, vive um personagem masculino, diz em entrevista para o site: “achei que o personagem não tinha nada a ver comigo, Eu era vista como uma heroína romântica, frágil. Durante um tempo me perguntei o que tinha em comum com aquela força da natureza. Foi um trabalho vital, mesmo.” 

SINOPSE: “No sertão de Minas, nas primeiras décadas do século 20, as tropas federais estão em conflito com as forças provinciais, apoiadas por exércitos de jagunços. O vaqueiro Riobaldo narra sua vida de jagunço: são histórias de disputas, vinganças, amores e mortes vistas e vividas pelos anos que percorreu Minas, Goiás e o sul da Bahia.  A minissérie destaca os laços afetivos entre os jagunços Riobaldo e Reinaldo, conhecido como Diadorim, tendo a disputa pela terra como o grande tema da narrativa. Porém, Reinaldo guarda um segredo.”

Bruna Lombardi e Tony Ramos recordam bastidores de 'Grande sertão: veredas'  - Jornal O Globo

Riobaldo e Diadorim estabelecem uma relação de proximidade na trama. Foto: Divulgação/Tv Globo.

Roque Santeiro ou O Berço do Herói 

A peça dirigida e idealizada por Dias Gomes, “O berço do Herói”, tinha data para estreia no ano de 1965 no Brasil. Como o país vivia em tempos sombrios marcados pela Ditadura Militar, a apresentação foi censurada. A peça quase virou novela, mas novamente sem nenhum sucesso. A razão: questionava a posição instaurada do herói militar. Com a redemocratização brasileira em 1985, a peça vai ao ar, em formato de novela, e alcança  grande sucesso. 

SINOPSE: “O protagonista Cabo Roque, em meio aos bombardeios em um dos combates no norte da Itália no final de 1944 tem um surto de nacionalismo, corre em direção às linhas inimigas, e desaparece em meio ao intenso fogo de batalha, sendo dado como morto. Como seu corpo nunca foi encontrado, após a guerra, se desenvolve um comércio turístico na região da pequena cidade natal do protagonista, que gira em torno do mito do herói de guerra.” 

Lima Duarte, Regina Duarte e José Wilker deram vida a Sinhozinho Malta, Viúva Porcina e Roque Santeiro na segunda versão da novela, veiculada em 1985. Foto: Irineu Roberto Filho/Divulgação

O Cravo e a Rosa

A obra o Cravo e a Rosa, considerada a obra de abertura do escritor Walcyr Carrasco na Rede Globo, foi exibida pela primeira vez nos anos 2000, e, depois de três anos, no Vale A Pena Ver De Novo. Além disso, a novela é um remake da telenovela de Ivani Ribeiro, “O Machão” de 1970, transmitida na antiga TV Tupi. O Cravo e A Rosa trazia um sentimento reconfortante através dos diálogos cômicos, uma ótima forma de encerrar o dia. 

Inspirada no clássico de William Shakespeare, “Megera Domada”, Carrasco afirma no site Memórias Globo que também “se inspirou na peça Cyrano de Bergerac, escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand, para caracterizar o triângulo amoroso formado por Edmundo (Ângelo Antônio), Bianca (Leandra Leal) e Heitor (Rodrigo Faro)”. 

SINOPSE: “Comédia romântica inspirada no clássico ‘A Megera Domada’, de Shakespeare, a novela se passa em 1920 e narra o tumultuado romance entre o caipira Petruchio e a geniosa Catarina.”

Adriana Esteves e Eduardo Moscovis viveram o inesquecível casal Catarina e Petruchio em 2003. Foto: Divulgação/Acervo Globo