Resenhas

Caixões acumulam-se em um Rio de Janeiro pandêmico (1918). Divulgação.

A bailarina da morte ainda dança

De tempos em tempos, a humanidade é relembrada de sua pequenez diante da natureza. Em determinada época, a morte pousa seus braços em nosso tecido social, nos lembrando, em larga escala, de sua fatal incubência. De origem desconhecida, surge um vírus transmissível pelo ar e pelas interações humanas. Esse inimigo invisível, apoiado por governantes negacionistas, curas milagrosas e pouco engajamento por parte da população, vai fazendo suas vítimas. Por acaso isso nos lembra algo? 

A Bailarina da Morte: a gripe espanhola no Brasil, livro das historiadoras e cientistas sociais Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, lançado em 2020, pela Companhia das Letras, não se furta de deixar claro que a investigação histórica sobre os arranjos políticos, sociais e de saúde pública que figuravam no ápice da pandemia de Influenza, em 1918, parte de um presente não menos caótico: o SARS-Cov-2, ou Covid-19, assola há dois anos o país e o mundo, nos deixando eternamente em estado de alerta ou, como aponta as autoras, altamente indiferentes.

Logo no início da leitura, a origem de alguns nomes e apelidos atribuídos à pandemia do século passado chamam nossa atenção: a “gripe espanhola”, que deixava suas vítimas “espanholadas”, não nasceu no país das touradas e de García Lorca, mas nos Estados Unidos. Em pleno fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com um mundo se recuperando dos estragos causados pelo conflito, a Espanha, um dos poucos países neutros da época, e, por conseguinte, um dos raros a não ter sua imprensa censurada, esteve entre os primeiros a reportar indícios do surgimento de uma nova doença. 

No período, populações feridas social, psicológica e fisicamente não queriam acreditar que uma nova guerra se aproximava. Culpar a Espanha, assim como culpar a China nos nossos dias, era a grande válvula de escape. Entretanto, a bailarina da morte, apelidada assim pela velocidade com que se espalhava, era real – e logo se faria presente em todo o mundo.

O Brasil nos tempos de cólera

Após um breve preâmbulo acerca do impacto da Espanhola em escala global, Schwarcz e Starling voltam seus olhos para o Brasil, e buscam inquirir no passado a forma com que a pandemia torna-se, também aqui, um evento social, ou seja, “quando termos médicos passam a fazer parte do cotidiano da população, e a mobilização em torno da doença é total”. 

Com a chegada do navio Demerara, vindo de Liverpool, a gripe se instala no nosso país. Em cada capítulo, passamos por regiões e cidades como Recife, Manaus e Belo Horizonte. Em cada uma se viu, apesar das características intrínsecas a cada localidade, a intensa desigualdade brasileira ser ainda mais agravada pela doença e pelo negacionismo inicial (e nem por isso menos fatal) dos políticos da conhecida Primeira República, como Carlos Seidl, Diretor-Geral da Saúde Pública, e o mineiro Venceslau Brás, presidente do Brasil de 1914 a 1918, eleito pelo arranjo oligárquico entre Minas Gerais e São Paulo que convencionou-se chamar de política do Café com Leite. 

Conforme avançamos no texto, torna-se impossível não se chocar com declarações como a do secretário de Justiça da Bahia, que defendia abertamente a seleção natural humana, já que, em tese, só depois da “eliminação dos mais fracos e sobrevivência dos mais resistentes, é que voltam os fatos ao normal e se restabelece o novo equilíbrio”. Tais discursos, resistentes ao tempo, são ecos de correntes científicas da época como a frenologia e antropologia criminal, que enxergavam uma relação direta entre mestiçagem e degeneração social e biológica.

Aliado a esse discurso, está o uso indiscriminado de remédios e soluções milagrosas sem eficácia comprovada. Xaropes, chás e até uma espécie de sapato anti-gripal disputavam espaço com um infeliz conhecido nosso: chamada no período de cloroquinina, a cloroquina é usada para combater o plasmodium, protozoário que provoca a malária. Porém, tanto em 1918, quanto em 2020, seja como um sal ou comprimido, e sem o menor indício de êxito, o medicamento foi vendido como a grande panaceia contra o vírus.

Anúncio de 1918, no jornal Minas Geraes, vendia a cloroquina como substância que curava a Influenza. Divulgação.
Anúncio de 1918, no jornal Minas Geraes, vendia a cloroquina como substância que curava a Influenza. Divulgação.

Todavia, entre os inúmeros pontos que merecem destaque nessa pesquisa exaustiva – e bem-sucedida – da dupla de investigadoras, creio que podemos tecer relações entre o passado e o presente em um dos aspectos mais nebulosos do livro: a quantidade de indígenas mortos pela Influenza. Em razão da ineficiência dos censos da época, é impossível precisar com clareza o número total de vítimas (cálculos, mencionados pelas autoras, somam de 50 a 300 mil pessoas mortas), e muito menos dos povos originários atingidos. Estima-se, ainda assim, que etnias como os avá-canoeiro, da bacia do Rio Tocantins, foram intensamente afetadas pelo vírus.

No momento atual, graças a atuação de grupos como a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que resistem a ataques de fazendeiros e de órgãos como a própria Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e o Ministério do Meio Ambiente, atualizam diariamente os dados em seus canais de comunicação e exibem a triste marca de mais 1.000 indígenas mortos desde o início da pandemia de COVID-19. 

Trata-se de um número que reitera uma política genocida que atua em inúmeras frentes: atentados de garimpeiros em terras indígenas e projetos de lei como a PL 490/2007, que autoriza o garimpo em áreas já demarcadas, apoiam-se em discursos protagonizados por Bolsonaro e seus seguidores, que menosprezam o preservação ambiental – questão-chave para o nosso século, já que o desmatamento está diretamente vinculado ao surgimento de zoonoses e potenciais pandemias – e consequentemente o valor e importância crucial dos indígenas para essa mesma preservação. 

Índigena protesta em Brasília, no ano de 2017. Divulgação/APIB.

A crise sanitária como espelho da humanidade

O filósofo Walter Benjamin já argumentava que o processo histórico, ao invés de linear, assemelha-se a uma espiral que repete aspectos do passado, mas ao mesmo tempo se diferencia destes. Escrevo de 2021, um ano após o lançamento do livro e do primeiro caso de coronavírus. Na época havia 125 mil mortes no Brasil; o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, imperava em suas megalomanias autoritárias, seguidas pelo seu eterno capacho brasileiro; e a vacina era apenas um sonho, fruto de muito empenho científico. 

Agora, com quase 500 mil mortos, abriu-se, no início de Maio deste ano, uma Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) no Senado Federal para investigar a conduta possivelmente (advérbio com papel de eufemismo jurídico) incompetente, corrupta e assassina do atual governo. Enquanto o mundo se vacina, nós perecemos. Andar pelas ruas é ver uma grande parte da população indiferente, que não usa máscaras e segue se aglomerando em festas clandestinas, autorizadas por um “líder” inescrupuloso e com viés autoritário. 

Naquele longínquo ano de 1918, no entanto, ações de humanismo germinavam, apesar da brutalidade do vírus, como sementes da terra: conforme descrevem Schwarcz e Starling, foi naquele momento que se ensaiou um projeto de saúde gratuito e universal, semelhante ao que hoje conhecemos como Sistema Único de Saúde (SUS). Os terreiros de candomblé, por sua vez, ao passo que procuravam atender populações marginalizadas e que não podiam contar com a assistência governamental, costumavam dar ao devoto um colar de algodão – signo de refúgio contra as adversidades da natureza. Era um alento simbólico, presente de outras maneiras em outras religiões.

Embora a situação atual seja catastrófica, iniciativas independentes de apoio social, emocional e psicológico espalham-se pelo país, a exemplo do Para Quem Doar, site que reúne diversas organizações não-governamentais, e a campanha Tem Gente com Fome, de enfrentamento à miséria social. Em meio ao caos, a esperança divide espaço com a insanidade e o “tédio da morte”, como já falava Nelson Rodrigues. Em vários sentidos, o belíssimo trabalho de Schwarcz e Starling permanece atual e iluminador.

E.M. Forster, romancista inglês, autor de livros como Maurice e A room with a view. Divulgação.

A vida secreta de Maurice Hall: homossexualidade e amor platônico no romance mais controverso de E.M. Forster


Durante um banquete em homenagem à Agáton, célebre poeta trágico, os convidados, indispostos a beberem demais, como era o costume, decidem, um por vez, discursar em louvor a Eros, deus do amor. O primeiro a fazê-lo é Fedro, o jovem que intitula outro dos diálogos platônicos acerca do mesmo tema – em seu monólogo, afirma ser Eros a causa máxima das maiores fortunas dos homens, pois que, para o retórico, não haveria bem maior a “proporcionar a um mancebo do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso”. Portanto, uma cidade ou exército ideal seriam compostos apenas de amantes e amados, uma vez que a influência do amor sobre estes os fariam temer, primordialmente, a desonra: seriam capazes de morrer um pelo outro, como Aquiles, que preferiu perder a própria vida, para vingar a morte de seu amado, Pátroclo. Maurice, um jovem inglês do início do século XX, tal qual Aquiles, também não hesitaria em morrer pelo homem que ama e, depois da leitura de o Banquete, conclui: “sempre fui como os gregos e não sabia”.


Em contrapartida à narrativa catastrófica dos heróis homéricos, a começar por sua intimidade pouco explícita – nem a filosofia, nem a literatura, chegaram a um acordo quanto ao caráter possivelmente homoerótico da relação de Aquiles e Pátroclo – ao seu final nefasto, E.M. Forster decidiu retratar a homossexualidade a partir de um ideal “imperioso” de felicidade. Consequentemente, de acordo com o próprio Forster, a prosperidade do romance de dois dos personagens de Maurice, escrito entre 1913 e 1914, fizeram do livro impublicável: “Se houvesse criado um final infeliz, com um rapaz balançando na ponta de uma corda ou com um pacto suicida, tudo ficaria bem, pois não poderia ser acusado de promover a pornografia ou sedução de menores”. O autor, contudo, concluiu corajosamente que, pelo menos na literatura, deveria ser possível que a paixão entre dois homens não resultasse sempre em tragédia. Com efeito, Maurice foi publicado somente em 1971, quase um ano depois do falecimento de Forster em junho de 1970. Embora fosse um dos maiores romancistas da Era Eduardiana, várias vezes indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, o mesmo adivinhou que sua obra mais biográfica não poderia circular livremente antes da “morte da Inglaterra” ou da sua.

Logo, Maurice é um romance de formação que, bem como grande parte do gênero, mimetiza, com eficiência, a sociedade em que seu protagonista está inserido: o personagem que dá nome ao livro é um jovem inglês ordinário da média burguesia do início do século XX, que, tal qual os seus, pretende consolidar para si mesmo uma civilidade genérica e socialmente aceita. E, contudo, já no primeiro capítulo, Forster prefacia a “vida secreta” de Maurice Hall, quando esse, ainda aos catorze anos, prestes a ingressar em uma escola pública, escuta apaticamente a ladainha de um de seus professores, que tenta elucidar algumas questões consideradas fundamentais sobre sexo – desenha na areia os orgãos reprodutivos e discursa de maneira superficial sobre o tema, muito mais preocupado com a educação moral do que a sexual de seu pupilo: “Amar uma nobre mulher, protegê-la e serví-la – esse, ele disse ao rapaz, era o apogeu da vida.” No entanto, enquanto o professor apressa-se a apagar os desenhos, receoso de que alguém os veja, o jovem, de repente, o olha com desdém: “‘Mentiroso’, pensou. ‘Mentiroso, covarde, ele não me contou nada’”. Assim, é ainda no fim do primeiro capítulo, que o leitor adivinha as sombras que cercam Maurice, de súbito enojado pela hipocrisia de um homem que deveria lhe ser um modelo de honestidade, conquanto, simultaneamente, não entenda o que, de fato, espera dele: “a escuridão estendeu-se novamente, uma escuridão primitiva, mas não eterna, que se submete a seu próprio alvorecer doloroso”.

Em seguida, o autor traça as formas da caverna de Maurice – órfão de pai, o menino vive com a mãe e as duas irmãs, Ada e Kitty, numa pequena vila perto de Londres, sob o preguiçoso conforto da classe média: “era uma terra de comodidades onde tudo se obtinha sem esforço, e o sucesso não se distinguia do fracasso”. Mimado pela mãe e respeitado pelas irmãs e criados, embora ainda muito jovem, Maurice gosta de seu lar e parece satisfeito com as predições de seu futuro: entrará para a escola pública, onde terá certo êxito e, depois, seguirá para uma universidade de renome, para, posteriormente, trabalhar com negócios, tal qual o falecido pai. À noite, porém, o quarto o assusta, uma vez que jamais fica completamente escuro, o que ele poderia suportar – “tinha o defeito adicional de ficar em frente de um lampião de rua” -, ou seja, o que aterroriza Maurice são as sombras que se formam no teto e ao redor da mobília, um preâmbulo do “alvorecer doloroso” que enfrentará mais tarde. Por ora, lembra-se que George, o jardineiro da família, com quem sempre brincava, foi embora em busca de uma vida melhor e, mesmo sabendo que ele não passa de “um reles empregado”, Maurice murmura: “George, George”.

É somente na escola, tão logo os impassíveis muros da puberdade o encurralam, que começa a entender quem era George e, pior, que, futuramente, talvez, tivesse que deparar-se com outros “jardineiros”: “o rapaz supôs que uma maldição especial lhe havia sido lançada, mas não podia lutar contra ela, pois mesmo quando recebia a comunhão sagrada, pensamentos impuros brotavam em sua mente”. Maurice, contudo, conclui o ensino médio sem que tais pensamentos lhe tornem um óbvio usurpador em uma sociedade, por conjectura, imaculada – “um aluno medíocre de uma escola medíocre”, que, em sua mediocridade, causa boas impressões em seus colegas e mestres. Na universidade, porém, tamanha mediania passa a lhe perturbar.

Seguindo um roteiro popular, Maurice escolhe Cambridge e, inicialmente, não se importa de fazer parte de uma classe de alunos razoáveis, pelo contrário, a falta de destaque lhe era conveniente, “pois tinha uma índole acomodada”, e, por isso, no primeiro ano permite-se ser tomado pela escuridão ao seu redor, esperando que corpo e alma acostumem-se a ela. Mas o terrível alvorecer se aproxima: no segundo ano, muda-se para o campus e inúmeras revelações, sobre si e sobre os outros, apresentam-se – “percebeu que, enquanto ludibriava os outros, estava sendo ludibriado, confundido-os com as criaturas ocas que desejava que pensassem que ele fosse”. E, todavia, Maurice não pode acreditar que, dentre esses homens que caminham sobre as calçadas da universidade, haja tipos de sua espécie: “em toda a criação não poderia haver uma criatura tão vil quanto ele”.

Tanta ignorância passa a arrefecer-se quando, em um jantar com o deão, conhece Risley, um estudante do último ano em Trinity, a melhor faculdade da Universidade de Cambridge, que encanta Maurice com seu caráter límpido e astuto – “sou um filho das luzes”. O jovem passa a procurá-lo disfarçadamente, na esperança de que ele possa, de alguma maneira, ajudá-lo: “tudo continuava bastante obscuro, pois as montanhas ainda lançavam sua sombra sobre o rapaz. Risley, decerto bem perto do cume, talvez lhe estendesse uma mão”. Esse personagem, no entanto, é somente uma etapa introdutória para Clive, o verdadeiro Sócrates de Maurice.

Clive Durham, filho de uma família de nobres, em seu terceiro ano na academia, é, ao contrário de Maurice, brilhante. Também em oposição a este último, é um homem pequeno em tamanho, não obstante, a pequenez tenha detido-se somente à sua altura – frequenta a mesma faculdade que Maurice e, em todo o campus, tem fama de intelectual, além de andar com os alunos de Trinity, o que lhe confere certa reputação. Uma noite, quando Maurice, em extrema perturbação, finalmente decide ir ao dormitório de Risley, encontra apenas Clive, sentado no chão do quarto, em frente a uma pilha de discos: “Quer falar com o senhor Risley? Olá, Hall!”.

Já bastante atordoado e, agora, desapontado, Maurice tenta livrar-se da companhia do outro imediatamente – suas razões para querer encontrar o veterano não lhe parecem direitas e, ainda que Durham não as conheça, a ideia de que há uma testemunha de seu equívoco, o transtorna ainda mais. O outro, porém, não percebe o seu embaraço e conversa com ele despreocupadamente, e sem arrogância, o que Maurice, de alguma maneira esperava. Fazem o caminho para a faculdade juntos e acabam por entrar no quarto de um de seus colegas, Fetherstonhaugh. Os três escutam um pouco de música e, depois, Durham e o anfitrião iniciam um debate acerca de alguns assuntos sobre os quais concentrariam-se os exames finais. Maurice, em silêncio, pode observar a excitação perspicaz e, surpreendentemente, organizada de Clive, que descarta as falácias de Fetherstonhaugh com uma impaciência sábia, característica singular em um homem tão novo. De pronto, sente-se tremendamente inferior em sua presença: “Que esperança havia para Maurice, composto de nada senão falsidades?”.

A propósito, a ordinariedade de Maurice é, em si, interessantíssima: grande parte da ficção que tratava da não-heteronormatividade escrita entre o século XIX e XX, apoiava-se em personagens excêntricos ou românticos, tais como o/a Orlando de Virginia Woolf, que excede os limites de tempo e gênero, e Törless de Robert Musil, um jovem de singular inteligência que acaba por juntar-se ao amigos para torturar e explorar sexualmente um colega do internato, afim de, supostamente, deslindar certas inquisições filosóficas. Maurice, contudo, não é nenhum filósofo e o sabe: é um homem tão prosaico quanto qualquer outro, não obstante, lhe seja inelutável a própria homossexualidade. Isto é, Forster, ao inserir seu protagonista em um ambiente modelo da média sociedade inglesa pós-vitoriana, e, ao mesmo tempo, povoar sua mente de questões então consideradas vis e criminosas, expôs a possibilidade de que os sujeitos LGBTQIA+ pudessem ser, simplesmente, meros cidadãos comuns. Aliás, se Maurice não fosse tão simplório, não poderia deixar-se levar tão facilmente por Clive Durham, o que acontece a seguir.

Logo, os dois estudantes tornam-se próximos e, depressa, a afeição de Maurice pelo novo amigo supera a admiração intelectual. Não chega a desesperar-se, porque tenta não pensar sobre isso, convencido de que Durham é apenas mais um dos colegas por quem nutre um interesse atípico, como o fazia (secretamente) nos tempos de escola, mas que não poderia ser correspondido, claro, visto que lhe era tão indigno e academicamente subalterno. Por consequência, em terreno tão favorável, Clive passa a ter um discípulo mais fiel do que Pedro era à Jesus: Maurice, como a maioria dos ingleses de sua classe social, é um cristão ignorante e convicto; Durham é um ateu de “temperamento helênico”, que, criado no cristianismo, estudou a bíblia com afinco – após algumas poucas discussões entre eles, o primeiro nega, uma vez e para sempre, a crença dos pais e da Inglaterra Eduardiana com uma rapidez assombrosa – os deuses de Clive são os clássicos gregos; o de Maurice é Clive. Sua mudança abrupta, no entanto, faz bastante sentido, uma vez que Maurice, trancafiado em sua caverna a tanto tempo, aterrorizado pelas sombras que o cercam, vê, pela primeira vez, o que acredita ser o sol e, conquanto este seja, também, assustador, é ao menos uma visão genuína.

A amizade dos dois, porém, parece não inquietar ninguém: andam de mãos dadas, estão quase integralmente na presença um do outro e, com frequência, em uma posição de bastante intimidade. Mas a relação de ambos é, mesmo tão intensa, apenas “companheirismo” – Maurice não tem coragem de falar sobre o seu segredo à seu melhor amigo, e este não comenta sobre a própria sexualidade.  Insolitamente, para Maurice, é Clive quem acaba por tocar no assunto: em uma aula de tradução, o docente, o senhor Cornwallis, recusa-se a comentar um assunto que, para ele, era essencial no entendimento do contexto cultural da Antiguidade Grega; “Durham comentou depois que o professor deveria perder seus subsídios de pesquisa por tal hipocrisia.” O “vício indizível dos gregos”, nas palavras de Cornwallis, tratava-se de uma cerimônia de iniciação em que homens mais velhos “adotavam” adolescentes do sexo masculino para educá-los socialmente, espiritualmente e sexualmente. Isto é, na sociedade ateniense, por exemplo, o homoerotismo não era visto com os olhos conservadores da modernidade, pois que tinha um especificidade pedagógica e, inclusive religiosa. “Você já leu o Banquete?” Clive pergunta, “Está tudo ali; (…) você deveria ler. Leia nas férias.”

Maurice, entretanto, tão ingênuo quanto possível, não entende a referência do amigo, que, a cada página, torna-se mais óbvia para o leitor. Durante as férias, tenta iniciar um relacionamento com uma visita da família e, malgrado seja um rapaz atraente, age de maneira tão indelicada que assusta a mulher. Na volta para a faculdade, assegura a Clive que nunca gostou dela, sobre quem escreveu para ele em cartas. Durham, emocionado, não demora a aludir ao livro que tinha indicado antes do recesso: “Sei que leu o Banquete nas férias. (…) Então pode entender… sem que eu precise explicitar…”. Maurice, claro, em seu constante estado de confusão, não entende, mas, dessa vez, Clive apressa-se em elucidá-lo: “Eu te amo”. Tamanha honestidade escandaliza o protagonista, o mesmo que, desde criança, desdenhava da hipocrisia dos adultos: “Durham, você é um inglês. Eu também. Não fale bobagem. Não me ofendo, pois sei que não quer dizer isso, mas este é o único assunto absolutamente fora dos limites, como você sabe, o pior crime da lista, e não deve mencioná-lo de novo. Durham! Uma noção nojenta de fato…”.

Clive Durham, tal qual Maurice, acreditava ter sido amaldiçoado. Antes do ateísmo, impressionava-se tremendamente ao ler a bíblia, desde muito novo  “dotado da sensibilidade para a palavra impressa”, e tentava, com ardor torturante, não blasfemar – assim, cresce reservado, porque, o medo da própria sexualidade, que havia amedrontado também a seu amigo, era mais forte e decisivo nele. Um  bom leitor, no entanto, encontra sua salvação em Platão: “Era incapaz de esquecer a primeira leitura de Fedro. Viu sua inquietação ser descrita de forma calma e invulgar, como uma paixão que podemos direcionar, como qualquer outra, para o bem ou para o mal”. Mas a resposta desdenhosa de Maurice, que compreende como recusa, causa uma lesão decisiva nas crenças de Clive, dado que partisse de seu devotado discípulo. Não tratava-se de uma recusa, porém, e a insistência com a qual Maurice tenta confessar-se, apazigua sua tristeza. De início, acredita que o amigo quer somente esclarecer o fato de que nunca denunciaria seu “crime” (a homossexualidade ainda era ilegal na Inglaterra) às autoridades, mas descobre que este é, da mesma forma, um criminoso.

O relacionamento, então, avança, mas jamais sexualmente. Clive, idealiza, sobretudo, o amor platônico, que teria como aspecto principal a busca da beleza e da virtude em si e em seu companheiro, apreciando, maiormente à inteligência,  a despeito dos prazeres concupiscentes. Claro, fosse Maurice um jovem mais firme em suas próprias ideias, não teria engolido tão facilmente as de Durham e, aí está um ponto fundamental na relação dos dois: Maurice não importa-se com a filosofia, interessa-se somente por Clive e, se a condição de celibato é imprescindível para que o companheiro não o abandone, ele aceita sem hesitação, conquanto a tarefa seja difícil.  Forçosamente, se Durham encontra abrigo nos discursos do Banquete, que vale ressaltar, não censuram necessariamente a homoafetividade, e sim o culto do corpo sobre a alma, como ele poderia pensar de outra maneira? Ora, mesmo Platão condenara o coito anal entre homens em suas Leis. Não obstante, a Grécia deixa de fazer sentido para Clive antes que ele deixe de fazer sentido para Maurice. Depois de formado, decide viajar para o país na tentativa de entender a si mesmo e, curiosamente, encontra o oposto – em um telegrama para o amigo, escreve: “Contra a minha vontade, tornei-me normal. Nada posso fazer”.

O leitor contemporâneo assusta-se: Forster acreditava numa cura para a homossexualidade? O incômodo é, compreensivamente, inelutável. A narrativa, contudo, não decai em explicações óbvias, porquanto não é trabalho de um romancista encaminhar seus leitores pela mão para que cheguem a conclusões, as quais poderiam chegar sozinhos. Quando Clive e Maurice não são mais universitários, o primeiro teme uma ruptura irremediável em seu relacionamento, visto que, nos dormitórios e corredores escuros de Cambridge, o amor de ambos fazia-se quase natural, pois que ninguém parecia, de fato, importar-se com os alunos que andavam de mãos dadas, se não professassem abertamente nenhuma ideia repreensível. Maurice nem percebe, inserido que está na sociedade inglesa e, acima de tudo, feliz de poder encontrar-se com Clive em qualquer lugar, quando possível. Clive é, todavia, um nobre e o herdeiro principal de sua família, a quem toda a cidade espera construir uma carreira política. Ou seja, é imperativo que se case e assim o faz. Um golpe de tal intensidade, logo, não poderia causar menor impressão em Maurice: inicialmente, quer suicidar-se, mas acaba por, simplesmente, procurar um tratamento para sua “comorbidade” na ciência. Acontece que a até a ciência falha e ele se vê, mais uma vez, completamente sozinho em seu desespero. 

Será somente em Alec, outro “reles empregado”, uma reminiscência de George, que Maurice encontrará seu final feliz. Já quando começa a aquiescer à escolha de Clive, aceita um convite seu de passar alguns dias em sua propriedade para conhecer a esposa e, de súbito, atrai para a sua solidão miserável um dos funcionários de Durham, a quem vincula-se completamente, de maneira, aliás, sexual. No último capítulo, sob os efeitos da recém-adquirida felicidade, Maurice conta tudo à Clive, que ofende-se: “a única desculpa para qualquer relacionamento entre homens é que este se mantenha puramente platônico”. Mas, o herói de Forster, por fim, liberta-se da influência de seu antigo mestre, que, embora antes lhe tenha parecido esclarecedora, mostra-se, agora, demasiadamente insatisfatória: “não vim para ouvir seus conselhos, tampouco para falar sobre pensamentos e ideias. Sou feito de carne e osso, se é que pode entender essas coisas tão baixas…”.

Maurice foi consequência direta de uma visita de E.M Forster ao poeta e ativista político Edward Carpenter, que defendia “o amor entre companheiros”. A sexualidade de Forster, na época, lhe era um tormento, e, tal qual o seu protagonista fizera com Risley e Clive, o escritor decide aproximar-se de Carpenter como quem “se aproxima de um salvador”. A inspiração para o romance surgiu na casa do poeta, quando o seu parceiro, George Merrill, tocou-lhe as costas, pouco acima das nádegas, tal qual fazia com a maioria das pessoas, “um toque tão psicológico quanto físico”, capaz de chegar-lhe às ideias: “naquele momento preciso, eu havia concebido.” Os personagens, então, vieram de imediato e, também imediatamente, decidiu que sua “nota principal” seria a felicidade, talvez até mesmo superior a que vira no lar dos poetas, um sonho de liberdade irrestrita – a homossexualidade era crime na Inglaterra, mas, mesmo assim, dedica seu romance “A um ano mais feliz” – haveria esperança?  Segundo E.M. Forster, Maurice “pertence a uma Inglaterra onde ainda era possível perder-se”: as florestas permaneciam em uma obscuridade que  permitia o esconderijo de pessoas, igualmente, obscuras. Assim, Maurice e Alec continuam juntos, na eternidade da ficção e, lado a lado, “perambulam pelos bosques”, finalmente bem-aventurados.

Linguagem, amor e violência em ‘Sobre a terra somos belos por um instante’


Na imagem, Ocean Vuong, autor de Sobre a terra somos belos por um instante. Divulgação.

Em 27 de outubro de 1978, um dia após o falecimento de sua mãe, Henriette Binger, Roland Barthes começa um diário, que duraria um ano, composto por breves notas acerca de sua recente perda, além de reflexões gerais sobre morte, vida e memória, afora outros temas relacionados ao luto. Tais anotações foram registradas diariamente, enquanto o semiólogo francês preparava alguns de seus mais importantes trabalhos, dentre os quais, seu último livro, Camera Lucida, publicado em 1980. No dia 28 de outubro de 1978: “Eu conheci o corpo de minha mãe, doente e, depois, morrendo.” No entanto, Cachorrinho, personagem (ou alter ego) do escritor vietnamita Ocean Vuong em seu mais recente livro, não viu o corpo de sua mãe morta – apesar de, desde cedo, ter convivido com suas enfermidades mentais e físicas -, porém, ao reler esta passagem específica do Diário de Luto de Barthes, resolve escrever para ela, ainda viva: assim se faz a narrativa do primeiro romance do autor vietnamita Ocean Vuong, uma carta para sua mãe analfabeta que, portanto, jamais a lerá: “Escrevo para chegar até você – mesmo que cada palavra que eu coloque no papel seja uma palavra mais longe de onde está”.

On Earth We’re Briefly Gorgeous, há pouco publicado no Brasil, pela editora Rocco, sob o título Sobre a terra somos belos por um instante, com tradução de Rogerio W. Galindo, tirante seu rápido sucesso de vendas, foi indicado ao National Book Award na categoria de ficção em 2019 e, desde então, Ocean Vuong se tornou um nome eminente na prosa contemporânea, já conhecido por sua poesia, em particular, pela coletânea Night Sky With Exit Wounds, que venceu o T. S. Eliot Prize em 2017 – tal qual esta, seu romance de estreia é uma narrativa autoficcional, baseada na biografia do autor, nascido no Vietnã e refugiado ainda em tenra idade para os Estados Unidos. Contudo, não é somente sobre a própria vida que Vuong, ou Cachorrinho, o principal nome do narrador, discorre neste livro. É, também, sobre a trajetória de sua avó, Lan, que fugiu do marido e tornou-se prostituta durante a guerra, e da sua mãe, Rose, filha de um soldado branco e casada com um homem tão violento qual o primeiro esposo de Lan. Logo, Sob a terra somos belos por um instante é, quase como Diário de Luto, um livro sobre a morte, tanto quanto é sobre maternidade e família: vindos de um país destroçado pela guerra, Cachorrinho e os seus refugiam-se em outro, que, não obstante a propaganda de liberdade e igualdade, não os permite viver sob estes preceitos – a propósito, especialmente agora, durante a pandemia do novo coronavírus, os crimes de ódio contra a comunidade asiática-americana estão cada vez mais recorrentes. 

Assim, o protagonista está, desde a primeira infância, na companhia estrondosa e, por vezes, sutil da violência: o romance tem início com o horror de sua mãe ao deparar-se com um alce empalhado em cima de uma máquina de refrigerantes: “Eles não veem que é um cadáver? Um cadáver deve ir embora, não ficar preso para sempre daquele jeito.” Esta morte eternizada a choca, pois que, para ela, uma mulher refugiada e traumatizada por uma série de catástrofes, tal aspecto da vida deve ser passageiro. Entretanto, Cachorrinho conhece, pessoalmente, apenas o refúgio – seu contato com a guerra, responsável por devastar seu país natal, dá-se através de seus parentes mais velhos, sem que tal contato também não o traumatize. Aos cinco ou seis anos, resolve brincar de assustar a mãe, gritando “Boom!” atrás de uma porta – Rose desespera-se, fica em prantos: “Eu não sabia que a guerra ainda estava dentro de você, que existira uma guerra e que, uma vez que ela entra em você, jamais te deixa – meramente ecoa, um som formando o rosto de seu próprio filho. Boom”.

Isto é, não obstante os dois estejam bem longe do Vietnã, bem como o conflito armado no país já houvesse cessado nos anos 90, ambos ainda vivem sob a atmosfera dos destroços – logo no início do romance, Cachorrinho questiona-se: “O que é um país senão uma sentença perpétua?” A pergunta lembra uma indagação de David, narrador do mais famoso romance de James Baldwin, O quarto de Giovanni: “Talvez a casa da gente não seja um lugar, e sim simplesmente uma condição irrevogável”. Conquanto Rose e Cachorrinho, tal qual David, tenham deixado seus lugares de origem em busca de uma vida mais livre e, consequentemente, melhor, os três encontram-se em situações análogas às que viviam em suas “casas” anteriores: David é um homem gay em dois países, distintamente, homofóbicos; já Cachorrinho e sua mãe fogem de um país atormentado pela guerra para outro ainda em guerra.

No dia 16 de março de 2021, oito pessoas foram mortas em uma série de tiroteios sucedidos em spas e casas de massagem na cidade de Atlanta, Estados Unidos. O assassino, Robert Aaron Long, um homem branco de 21 anos, não foi julgado por crime de ódio, embora a maioria de suas vítimas tenham sido asiáticas. O ocorrido impulsionou uma onda de protestos em todo país, uma vez que o veredito de Long ignora a ascendência da discriminação enfrentada por toda uma comunidade: em 2020, após o início da atual pandemia, a violência contra asiáticos havia aumentado em cerca de 150% em todo território nacional, fomentado por uma racialização do surto sanitário, que teve início na China – o então Presidente do país norte-americano, Donald Trump, também conhecido pela grotesca ideia de construir um muro na fronteira do país com o México, afim de evitar a passagem de imigrantes latinos, referiu-se à Covid-19 como o “vírus chinês”, uma fala que reverberou, inclusive (e fortemente) no Brasil. Similarmente, foi em 2020 que o movimento Black Lives Matter tornou-se popular internacionalmente, devido ao caso de George Floyd, um homem negro que foi estrangulado por um policial branco, crime que causou uma revolta global e culminou em inúmeras manifestações no mundo inteiro. Ou seja, ainda que não haja bombardeios, como os que destruíram a cidade de onde vieram Rose e Cachorrinho, os Estados Unidos da América são um país em guerra, pelo menos, contra seus habitantes não-brancos.

Portanto, os personagens carregam consigo um estigma que impossibilita quaisquer tentativas de viver sem a constante hostilidade que os persegue. Não obstante, Rose, mesmo sendo filha de pai branco e, logo, tendo certa “passabilidade” em alguns locais, em virtude de seu tom mais claro de pele, sem falar inglês com proficiência, passa por diversos constrangimentos. No seu trabalho de manicure, um emprego que a adoece fisicamente, mas um dos únicos a contratá-la, a palavra que mais usa é “sorry”, um lembrete de sua inferioridade quanto às clientes: “Desculpar-se paga, pedir desculpa até mesmo, ou especialmente, quando a pessoa não tem qualquer culpa, vale cada sílaba autodepreciativa que a boca é capaz de pronunciar. Porque a boca precisa comer”. Deste modo, o tão desejado “sonho americano”, para a maioria dos habitantes do bairro onde moram, ocupado majoritariamente por imigrantes, é, de fato, apenas um sonho: grande parte das mulheres que chegam ao salão onde Rose trabalha, acreditam que será apenas um serviço temporário, e, todavia, seus filhos são criados ali, tal como suas colunas são ali adoecidas – “É um país bonito, dependendo de quem você é”.

A propósito, um aspecto muitíssimo intrigante deste livro é a relação paradoxal dos personagens com as duas línguas com as quais convivem: a materna, vietnamita, e a obrigatória, inglês. Lan e Rose mudam-se para os Estados Unidos já adultas, ao passo que Cachorrinho, tão pequeno, sequer  lembra-se do Vietnã. Logo, conforme mãe e avó falem, sobretudo, em sua língua nativa, ele flutua desconfortavelmente entre dois diferentes dialetos, sem saber-se nativo nem em um, nem em outro – em casa, conversa em vietnamita, mas, lá fora, protege a si e aos seus ao falar em inglês. Não raro, Lan e, especialmente, Rose, deparam-se com fronteiras linguísticas, para elas, humilhantes, o que as leva a muito insistir na educação de Cachorrinho – certa vez, quando ele conta que está sendo intimidado na escola, sua mãe pede que não a conte mais sobre isso, porque, sem entender seus colegas, sente-se impotente: “Você está com a barriga cheia de inglês, (…) e precisa usá-lo, certo?”.

Em uma das mais interessantes passagens do romance, o narrador refere-se à uma ideia de Barthes em seu O Prazer do Texto (1973): “Nenhum objeto está numa constante relação com o prazer, (…) Entretanto, para o escritor, esse objeto existe; não é a linguagem, é a língua, a língua materna”. Em seguida, Cachorrinho, que também escreve, questiona: “Mas e se a língua materna estiver atrofiada? E se a língua materna não for somente um símbolo de um vazio, mas um vazio em si mesma, (…)?” O frágil vietnamita que conhece o foi dado pela sua mãe analfabeta, que viu, aos cinco anos de idade, sua escola ser bombardeada e, destarte, a falta de uma educação, que poderia ser transformadora, torna-se reminiscência do que lhes foi tirado: “Sua língua materna, então, não é, de maneira alguma, uma mãe.(…) Ma, falar em sua língua materna é falar apenas parcialmente em vietnamita, mas inteiramente em guerra”. 

Tais questões fundamentam-se, basicamente, no paradoxo que é a nacionalidade do protagonista. Sem embargo, tenha nascido no Vietnã, a nação que, de fato, conhece, onde foi criado e viveu a maior parte de seus anos, não o admite, plenamente, como cidadão: “Não chame atenção para si mesmo. Você já é vietnamita” – é assim que Rose despede-se de seu filho todas as manhãs, sempre assustada com as perspectivas de violência que apresentam-se, a cada instante, para os imigrantes de sua área. Consequentemente, este sente-se órfão quanto a um idioma nativo e, de igual modo, parece ser órfão de país. Todavia, ele escolhe a linguagem como sua mais importante ferramenta de expressão – Cachorrinho torna-se escritor. Um dia, sua mãe o pergunta, enquanto pinta um livro de colorir: “Você já criou uma cena e, depois, colocou-se dentro dela? Alguma vez se assistiu entrar cada vez mais longe e mais fundo em uma paisagem, bem longe de si próprio?”. Ao que o filho, depois, pensa: “Como poderia te dizer que o que havia acabado de descrever era, na verdade, escrever? Como poderia dizer que nós, afinal, éramos tão parecidos, a sombra de nossas mãos, sob diferentes páginas, fundindo-se?” Com efeito, como poderia Cachorrinho explicar seu refúgio à mãe iletrada sem, por isso, afastar-se dela? Voltemos ao início: “Escrevo para chegar até você – mesmo que cada palavra que eu coloque no papel seja uma palavra mais longe de onde está”.

Contrariamente à afetuosa relação de Barthes com sua mãe, Rose, muitas vezes, é bastante violenta com Cachorrinho. Em vários momentos do livro, o narrador conta seus comportamentos mais agressivos, desde sua, eventualmente, sensação de inferioridade perante o filho educado, à suas reprimendas físicas e tirânicas. São nessas crises que Lan, a avó, defende e protege o neto dos descontroles de Rose. Quando ele decide fugir pela primeira vez, é ela quem o conforta: “Sua mãe. Ela não normal, certo? Ela dor. Ela ferida. Mas ela quer você, ela precisa da gente.(..) Ela te ama, Cachorrinho. Mas ela doente. Doente feito eu. Na cabeça”. A valer, a personagem é cercada de brutalidade, a datar de seu nascimento – filha de uma prostituta com um soldado americano em meio a um devastador conflito armado, casa-se com um marido abusivo e, posteriormente, já na sonhada “America”, separada do esposo, que vai preso por violência doméstica logo que chegam ao país, enfrenta, todos os dias, um serviço humilhante e adoecedor, além da descriminação, também, diária – seu comportamento, então, é mero resultado de seus numerosos traumas. 

Ademais, não é apenas com a mãe que Cachorrinho mantém um relacionamento problemático. Aos catorze anos, começa a trabalhar em uma fazenda de tabaco, onde conhece Trevor, um jovem branco e caricaturalmente americano, obcecado por um ideal de masculinidade, que nem um, nem outro, consegue alcançar. Cachorrinho já percebe-se gay, ainda que isso o perturbe, mas Trevor, embora tenha relações sexuais com ele, tenta, continuamente, negar a própria sexualidade. O narrador, como já dito acima, sente-se tão deslocado, que a qualquer perspectiva de pertencimento, entrega-se sem muitas ressalvas, o que resulta em subserviência: Cachorrinho absorve a servilidade que parece ser o destino da maioria dos refugiados ao seu redor. Efetivamente, Trevor é, também, um outsider – dependente de Oxycontin e, mais tarde, de outras substâncias, resguarda-se em seu vício em drogas, nos jogos de tiro e, conquanto lhe repugne, no sexo com o amigo. 

Inicialmente, eles praticam o que, depois, passam a chamar de “foda falsa” – Cachorrinho tenta, com as mãos, recriar o formato de uma vagina entre as pernas e, Trevor, imita uma penetração, que não passa de masturbação -, uma maneira de sentirem-se menos sujos. Em uma dessas ocasiões, eles tentam inverter os papéis, mas, antes que isso aconteça, o americano dispara: “Não posso. (…) Sei lá, não quero me sentir como uma garota, como uma putinha. (…) Não é para mim. É para você, certo?” De qualquer modo, Trevor tem seus momentos de ternura: o adolescente é demasiadamente carnívoro, aspecto essencial da virilidade, mas não consome carne de vitelos, “porque jamais comeria uma criança”; adora girassóis, “Imagine ir tão alto e ainda se abrir tão grande?”; e, acima de tudo, têm medo, “por favor me diga que eu não sou um veado. Eu sou? Eu sou? Você é?” Ao parafrasear Shakespeare em outra parte da narrativa, Cachorrinho aparenta ter a resposta para tais inquirições: “Ser ou não ser. Eis a questão. Uma questão, sim, mas não uma escolha” – Não é somente nossa “casa” a única sentença perpétua a algemar-nos. 

A propósito, o desprendimento do protagonista na narração de detalhes pessoais em carta para uma mãe viva, só é concebível, uma vez que, o narrador sabe improvável que ela a leia: “é esta impossibilidade mesma que possibilita meu contar”. Neste sentido, a narrativa de Cachorrinho lembra o diário de Barthes, ambos sobre pessoas que nunca os lerão. Inclusive, não obstante, o livro de Vuong seja uma narrativa não datada, nem periódica, este estrutura-se como um caderno de notas, às vezes longas, às vezes curtíssimas, outra característica, parcialmente, análoga ao Diário de luto, escrito em pequenas anotações. Além disso, a prosa do autor é bastante poética, tendo em vista que o mesmo tenha partido, a priori, da poesia, o que é visível em seu estreia como romancista. Contudo, há uma certa quantidade de frases curtas e pontuadas em sua escrita, como se para causar um impacto imediato e contínuo no leitor, o que, em determinadas composições, me incomodaram, por soarem um tanto melodramáticas ou bombásticas – logo, acerca destas, me perguntei se não seriam melhor aproveitadas em configuração distinta, indagação que não sei, de fato, responder. Em todo caso, o livro conserva-se, prevalentemente, sólido.

Depois da morte da mãe, profundamente deprimido, escrever, para Barthes, apresenta certa sordidez: “meramente um escárnio”, “não consigo mais salvar-me através de meu apego à escrita”, “Estou entediado onde quer que esteja”. Porém, no dia 27 de outubro, questiona-se: “Quem sabe? Talvez haja valor nestas notas?” Tais notas, então, não tinham propósito definitivo de publicação e, quiçá, estas valeram, qual a missiva de Cachorrinho: um esforço de desencarcerar-se de seus “subsolos”: “Estou escrevendo porque me disseram para jamais iniciar uma frase com porque. Mas eu não estava tentando fazer uma frase – Eu estava tentando me libertar”. Portanto, Sobre a terra somos belos por um instante é a carta de alforria de um jovem estrangeiro em todo lugar, que procura fazer da literatura sua terra natal. 

*As citações de Sobre a terra somos belos por um instante, bem como as de Diário de Luto, foram traduzidas do inglês por nós.

the kick inside capa

The Kick Inside: a revolucionária estreia de Kate Bush

Uma das mais interessantes artistas musicais de sua época, Kate Bush tem desde o início da carreira uma verdadeira joia em sua coroa. Tão pop quanto esquisito, o seu álbum de estreia The Kick Inside é a encenação dramática de uma mulher com muito a dizer. 

Capa do álbum The Kick Inside lançado em 1978. Reprodução.

Kate Bush sempre aparentou estar bem pouco preocupada com a má interpretação alheia. A cantora escreveu sua primeira música aos 13 anos, e já ali, dava pistas de que viria a ser uma das grandes e enigmáticas figuras da cultura pop.

Além de atuar como cantora, pianista e dançarina, Kate Bush destaca-se especialmente como letrista. Uma atmosfera visionária permeia o universo folclórico que a compositora criou. Em suas letras fala-se de sentimentos, meio ambiente, tecnologia e fé. Assuntos que fazem parte de uma boa e variada obra, derivada dos mais de 40 anos de carreira da distinta artista.

O pouco constrangimento – leia-se a ausência do medo de parecer ridícula, que menciona Margareth Tabolt em artigo sobre Kate ao The New Yorker – é bastante visível em The Kick Inside, seu primeiro álbum de estúdio. A jovem Kate canta a paixão como algo puro, um feito que só poderia ter sido genuinamente realizado por uma quase adolescente.

É um álbum maduro, e seria assim para qualquer um que o fizesse, mas a experiência que vemos no The Kick Inside é ainda mais surpreendente se pensarmos ter sido realizado a partir da prolífica cabeça de uma jovem de 19 anos, e não por uma veterana da música e das letras. 

Em fevereiro de 1978, foi lançada no Reino Unido a primeira tiragem do álbum. Apadrinhado por David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, que financiou a regravação da primeira demo da cantora e, também, produziu o álbum junto a uma equipe de veteranos do rock progressivo. A obra  estreou em terceiro lugar nas paradas britânicas. Apesar da influência masculina dos nomes por trás da produção – Andrew Powell, do The Alan Parsons Project, também esteve intimamente ligado  à realização – o álbum de Kate é feminino do início ao fim. Uma grande homenagem de Bush à  intelectualidade das mulheres que, assim como ela, possuem um pezinho na excentricidade.

Quem escuta o álbum pela primeira vez, encontra no meio da setlist uma melodia conhecida. Trata-se da super popular Wuthering Heights, livremente inspirada no romance de Emily Brönte e de clipe tão épico – e dançante – quanto a canção. Wuthering Heights foi o primeiro single de Kate. A balada romântica não foi a primeira escolha da gravadora, mas a cantora insistiu no que seria um grande acerto. Essa é, até hoje, a mais conhecida entre todas as músicas de Kate Bush.

As inspirações e o talento literário de Bush ficam evidentes a partir de suas letras inventivas. Um destaque da Kate escritora é a precisão de suas palavras provocativas, confiantes, radicais e místicas. Uma obra trabalhada absolutamente na suficiência. Um tanto difícil para ouvidos não acostumados, a música deste universo é divertida e dark. Finas baladas atemporais.

O memorável clipe de Wuthering Heights.

Na superinteressante The Saxophone Song, ouvimos uma vocalista de inspiração romântica cantar, em sua especialíssima voz soprano, uma canção perfeita para ser entoada a plenos pulmões, fazendo jus ao drama investido na letra. Tanto The Saxophone Song quanto Wuthering Heights foram escritas bem antes do álbum ser produzido. A jovem Bush teve influência da sua multi-artística família formada por sua mãe, dançarina irlandesa, seu pai, um pianista amador e seus  dois irmãos, ambos envolvidos na cena de música folk britânica.

Em Moving, faixa que abre o álbum, ouvimos sons de baleia – são vinte segundos de sinais oceânicos – antes de Kate começar a cantar sobre uma dança do espírito em função de uma paixão. As influências de natureza mística sentimental na música de Kate Bush tornaram-se referência para muitos artistas que vieram depois dela, a exemplo da islandesa Björk e da iraniana Sevdaliza.

A dramaticidade é tocável, desejos ternos e violentos misturam-se nas narrativas que compõem a obra. Em James and The Cold Gun, um soft rock que vem a ser uma das músicas mais divertidas – e palatáveis – do álbum, Kate lamenta que seu amigo de infância escolheu a vida do crime e vendeu sua alma para uma famigerada arma fria. Destaque para as guitarras ao final, em que pode-se perceber uma clara influência da levada pinkfloydiana, e para o refrão inegavelmente delicioso. 

Kate Bush, 20 anos, na Tour of Life (1979). Divulgação/ Getty Images.

Por último, citamos a faixa L’Amour Looks Something Like You, uma balada poderosíssima que compõe o álbum na décima posição. Até então o ouvinte já se habituou ao estilo um tanto maluquinho de Kate e compra, sem hesitação, o sofrimento cantado que toca no fundo de uma alma dada a exageros românticos. 

Apesar de ser exorbitante tanto nas letras quanto na melodia, The Kick Inside não peca pelo excesso. Tudo é calculadamente medido por uma produtora muito segura. Kate Bush, apesar de jovem, realizou um feito que muitos artistas passam a vida a tentar: criou, sem pretensões de grandeza, um épico sempiterno, que diverte e emociona na mesma medida.

Após o estrondoso sucesso do debute, Kate iniciou em 1979 uma turnê pela Europa que teve apenas três datas. A cantora resolveu largar os palcos após a sexta semana, voltando a se apresentar ao vivo somente 35 anos depois, em 2014, com a turnê “Before the Dawn”. Ao que percebemos, foi rápida a escolha de Kate em ser apenas artista, não celebridade.

A sofisticada Kate Bush ficou ainda mais reclusa após a experiência da maternidade nos anos 90. No entanto, o isolamento autoimposto não a impediu de fazer grandes álbuns durante as últimas décadas. Destacamos entre eles Never for Ever, Hounds of Love e The Red Shoes, lançados em 1980, 1985 e 1993 respectivamente. 

Se você leitor, ainda não conhece a extensa obra da inconfundível Kate Bush, recomendamos The Kick Inside como porta de entrada para o mundo das danças interpretativas, das letras profundas e da estimada voz aguda dessa que é uma das maiores artistas vivas da música pop. 

Realismo fantástico, sociedade e pandemia na “Coleção Solidária” da Vacatussa


Na imagem, os três livros publicados na Coleção Solidária: “Restos de Família”, de Diogo M. de Almeida, “Trilogia da Febre”, de Cristhiano Aguiar e “Abrigo”, de diversos autores. Foto: Editora Vacatussa/Divulgação.

“De que serve a literatura em meio a tantas perdas, mortes, crise econômica e desemprego?”

A pergunta acima, embora, eu suponho, tenha sido feita pela maioria dos que produzem e/ou consomem literatura desde o terrível ano passado (que parece não ter passado, pelo menos no Brasil), é parte da introdução de três livros de contos da editora pernambucana Vacatussa. As respostas para tal questionamento – esse “para quê” na arte literária – são sempre muito complexas: para uns, como Antonio Candido, os livros são um “direito”. Para outros, como Virginia Woolf, conquanto em meio à tragédia, a leitura pode ser “êxtase”. Para muitos leitores, é um hábito de imersão, como era para Emma Bovary  – uma necessidade de usar a ficção como fuga. Há, igualmente, os que não pretendem fugir com o passaporte da literatura, mas pensar através dela a realidade  – era isso que autores políticos, como Tolstói ou Hugo, faziam. Logo, essa é uma pergunta que, por ter muitas respostas, não tem nenhuma. Entretanto, cercados de doença e isolamento, a maioria de nós, leitores, continuamos lendo, não obstante vejamos a conjuntura atual e o papel social e/ou artístico dos livros de maneiras diferentes.

Assim, para os que ainda vêem sentido na leitura de ficção, a Vacatussa lançou, em 2020,  a “Coleção Solidária” – três livros de contos escritos por autores, em maioria, nordestinos, dentre os quais, alguns nomes inéditos, bem como, outros já consagrados. O primeiro volume publicado foi “Restos de Família” do natalense Diogo M. de Almeida, uma coletânea de quinze pequenas narrativas sobre os (inúmeros) dilemas familiares. A seguir, por autoria do paraibano Cristhiano Aguiar, “Trilogia da Febre”, com três textos sobre três surtos diferentes – todos, de alguma forma, muito similares ao que enfrentamos atualmente. Por último, foi lançado “Abrigo”, um livro com dez contos sobre temas distintos, por diversos autores, entre eles, vencedores do Prêmio Jabuti, tais quais o cearense Sidney Rocha (“O destino das metáforas”) e a carioca Carol Rodrigues (“Sem vista para o mar”).

Devido à pandemia, os livros foram publicados somente em formato digital, disponíveis para compra na Amazon e, também, para empréstimo no Kindle Unlimited. Toda a renda provinda das vendas dos e-books é destinada à ONG Samaritanos Recife, uma organização voluntária que defende os direitos de pessoas em situação de rua. Portanto, os títulos, além da qualidade de conteúdo, comportam, também, um outro atributo, embora de cunho social e, assim, não necessariamente relevante à literariedade dos textos – de qualquer modo, aos que não agradarem os livros, podem, pelo menos, regozijar-se de terem auxiliado, de alguma maneira, uma causa importante. Para mim, contudo, a coleção é envolvente por si mesma: acabei por ler todos os volumes de uma só vez, pois os três são bastante intrigantes e, por conseguinte, um leva ao outro. São consistentes, do mesmo modo, em atmosfera, mesmo tratando-se de temas diferentes: as três seleções de contos são tristes e pilhéricas em seus absurdos fantásticos e, simultaneamente, muito reais. 

Sobre “Restos de Família” de Diogo M. de Almeida

“Restos de Família” inicia a coleção com quinze contos de Diogo M. de Almeida, autor do livro – também de contos – “Eu ando só” (2012). Os textos foram escritos entre 2018 e 2020 e foram publicados, primeiramente, nas redes sociais do escritor. Posteriormente, foram organizados por Thiago Corrêa Ramos em e-book para a Vacatussa. Em uníssono, todas as narrativas contornam as diversas facetas de um mesmo tema (e dos mais complexos): família. Tamanha complexidade, contudo, ordenadas em pouquíssimas linhas de textos bastante curtos – leitura rápida, mas nem tão fácil, dado que a linguagem tragicómica da pena que os escreveu sempre conclui cada texto em impacto. 

O livro começa com um pai e uma filha que moram juntos e, contudo, estão a quilômetros de distância em tudo. Ou quase: “O passado era o único território consensual entre os dois”. Esse mesmo passado parece estar contido em um quadro ordinário que, em sua suposta vulgaridade, traz (e leva) o que resta de vigor neste pai idoso e meio inerte. A seguir, uma mãe chega em casa e percebe que seu lugar foi tomado por outra pessoa, depois de ter sido, por tanto tempo, ausente, ao ponto de esposo e filhos esquecerem de seu rosto. É, também, na ânsia de resgatar a família perdida, que marido e mulher vão à praia desfazer-se de suas diferenças, alucinados por um “sonho de filme americano” – mas Hollywood é, afinal, romântica demais. Adiante, um menino tem como amigo uma ideia e, outro, um bot na internet (dois dos textos mais interessantes do livro). Dois espetáculos medonhos: uma criança só conhece a mãe no seu funeral, através de um estranho tagarela e um jovem rico sonha com a oportunidade de torturar o pai diante da família inteira. 

Neste livro, algumas falas comuns se tornam contos, tais quais, “Dizem que ser mãe é padecer no paraíso”, uma das frases mais ouvidas pelos filhos, ou “Eu não pedi para nascer”, esta, por sua vez, tão ouvida pelos pais  – ambos os textos são desconcertantes; o primeiro pelo macabro e, o segundo, pela irracionalidade, que explicada, é quase lógica. É, também, bizarro, um primo meio gato e meio humano, bem como o macaco que quer ser bípede, apesar de seu pai, um quatro-patas conservador. A indiscrição alheia é parte essencial da coletânea, do mesmo modo que parece ser impreterível mesmo nas melhores famílias e, portanto, a tia que não cansa de perguntar sobre o relógio biológico de suas sobrinhas “solteironas”, e a madame rica que “considera” a doméstica como parente, têm suas próprias linhas. Inclusive, essas essencialidades do conceito “família” estão por toda parte na literatura de Diogo Almeida, mesmo quando transfiguram-se em absurdos cômicos ou em demasias assustadoras: isto é, do amigo imaginário ao animal rebelde, as contradições inelutáveis que existem na união de seres correlatos e, concomitantemente, tão distintos, se fazem presentes em cada texto. 

Naturalmente, alguns contos são melhores que outros: muitos são espantosos, devido ao horror ou ao fantástico; da mesma maneira, certas passagens são engraçadas e, outras, tristes – em textos curtíssimos, como é o caso dos reunidos neste livro, tais efeitos na experiência literária só são alcançados por maturidade de escrita. Portanto, vários contos são bastante bons. Os demais, porém, me soaram um pouco sensacionalistas, cercados de uma dramaticidade exorbitante que tornou-os um tanto imoderados ou pouco “sutis” – coisa de dois ou três, logo, nada que desmereça uma coletânea de quinze. Sendo assim, o livro abre muito bem a “Coleção Solidária”, indicado, principalmente, para quem se interessa pelas complexidades de um tema tão tolstoísta quanto “família”, pelo realismo fantástico que permeia os contos e, quem sabe, interesse, particularmente, aos leitores do terror social da argentina Mariana Enriquez e, até, aos que leem o artista de mangá japonês Junji Ito, já que não falta esquisitice (às vezes, quase body horror) na literatura de Diogo M. de Almeida.

Sobre a “Trilogia da febre” de Cristhiano Aguiar

O segundo volume da coleção, “Trilogia da Febre”, é composto por três contos do escritor paraibano Cristhiano Aguiar, autor de “Na outra margem, o Leviatã” (2018). Conforme indica o título do livro, os textos reunidos nele – dois originais e uma reedição – ruminam acerca do cenário contemporâneo, através de narrativas em todo análogas ao realismo fantástico e à ficção científica. Para os leitores que, sob a atmosfera pitoresca e inédita desta (desgovernada) crise sanitária, leram (ou releram) “A peste” de Camus, “O amor nos tempos do cólera” de Gabo e “Estação Onze” de Emily St. John Mandel; ou os que foram buscar alegorias da pandemia em livros menos óbvios, tais quais “A metamorfose” de Kafka; e mesmo os que mergulharam na literatura sci-fi de Orwell ou Bradbury; isto é, aos que interessam-se em pensar a atualidade por meio da ficção, esta pequena trilogia é uma leitura muito pertinente. 

No primeiro conto, “Anda-Luz”, um menino precisa atravessar um sertão devastado pela doença (a “febre”), para entregar um bilhete a um cangaceiro. Acordado ainda de madrugada pela mãe, Chiquinho sai de casa com medo da morte com quem se depara a cada passo: num vaga-lume em seu brilho final, no deserto do isolamento e da devastação que a peste deixa, ou num enforcado solitário no meio do caminho. Contudo, também encontra vida – adota um gato barulhento a quem chama de Chicote e, bem como a maioria das crianças solitárias, imediatamente, ama: “Agora, Chiquinho pensou, a gente é dois.” Assim, ambos seguem sob a sedução de toda e qualquer superstição que o menino consegue lembrar para proteger a si e a seu gato na atmosfera mágica dessa madrugada sertaneja. Logo, “Anda-Luz” conquista, especialmente, em virtude dos diversos clássicos do Nordeste e da infância, em um tom regionalista e onírico que envolve cada passo de Chiquinho e Chicote.

O melhor conto da trilogia é, no entanto, o segundo, “As onças”. Nele, a catástrofe é uma revolta desses animais, que trancam os moradores da cidade em suas casas, sob o risco constante de morte por dilaceramento: cada pessoa pode tornar-se uma “vontade” das onças que espalham-se rapidamente pelo país inteiro – um cenário de horror dos mais lúgubres. Diana e sua mãe, entretanto, precisam sair para comprar suprimentos essenciais e remédios para seu pai doente. Fora de sua casa, embora seguindo todas as medidas de segurança, mãe e filha têm de enfrentar o desconhecido em um lugar que, antes, lhes era tão familiar: “A rua, a cidade e suas onças invasoras eram esse livro que se abre e sobre o qual se esquece” – aos que permanecem em distanciamento social, a sensação de reconhecimento é inelutável. Gosto, em especial, de dois momentos nesse conto: o encontro com uma das ameaças que, no entanto, também sofre (toque deveras sensível esse de humanizar os que desumanizamos); e o final, tão kafkiano e surpreendente, quando o texto já parecia completo. 

O terceiro, “Firestarter”, acompanha um grupo de entusiastas de incêndios, que enxergam “prazer na fumaça”, não obstante carregue “risco e morte” – já dizia Dostoiévski, a humanidade sempre arrebata-se pela desgraça alheia (e, até mesmo, pela própria). Assim, é ao redor dos rostos desolados daqueles para quem o fogo é tragédia, que esses curiosos fotografam, celebram e analisam as queimadas, todas distintas e maravilhosas entre si. A caminho de mais um espetáculo de chamas, o narrador, fascinado pelo fogo, relembra a primeira vez que o viu, em um evento bradburiano: queimavam livros, “dinossauro(s) que o meteoro esqueceu de exterminar”. “Firestarter” é, talvez, o mais evidentemente atual dos três textos, mesmo em sua ficção de tal maneira imaginativa, visto que, seu cenário nos é bastante conhecido – um lugar atormentado pelo extermínio, pela fome e pela ignorância, por onde o fogo, um “deus que passeia”, incendeia quase desafrontadamente, mas que, no meio da desolação, ainda reflete fantasia, alienação e beleza.

Logo, todos os contos desta trilogia, ainda que próximos ao absurdo, são metáforas sensíveis de uma contemporaneidade tão digna da ficção científica: consequentemente, bastante simbólicos. Todavia, a linguagem de Cristhiano Aguiar, que consegue simular vozes distintas e, ao mesmo tempo, soar, consistentemente, bonita e verossímil, é o ponto mais alto desse livro – as palavras causam muito mais efeito em sua composição, do que devido aos acontecimentos insólitos que descrevem. Portanto, os textos desta coleção são potentes, principalmente, em suas delicadezas e particularidades, embora sejam todos cercados pelo extraordinário. 

Sobre “Abrigo”, vários autores

A última coletânea, que contém dez contos de autores novos e consagrados, organizados por Cristhiano Aguiar e Thiago Corrêa Ramos, apesar do título, carrega um certo cheiro de morte e desolação, talvez tão acentuado quanto em “Trilogia da Febre” – todas as estórias parecem imbuídas de uma marcada atmosfera de afastamento, seja pelo túmulo, pela memória, por um nevoeiro fantástico ou um horror meio estrangeiro e meio nosso, ou até mesmo por isolamentos práticos, tais quais a pobreza, a pandemia, um voo de adeus e desconforto na classe econômica de um avião barulhento e, de repente, silencioso (como as despedidas), ou os porões da infância e da inocência: todos os contos são tristes e, logo, assustadores. Ademais, todos os contos, também, são bons – surpresa bem-vinda, uma vez que sou uma leitora cética de coletâneas de autores diferentes, sem negar, claro, que muitas possam se sair bem, como é o caso desta. 

O que me incomoda, por vezes, neste tipo de coleção, é que me parecem aleatórias, ainda que compartilhem de um mesmo tema, como se a razão daqueles textos estarem juntos fizesse pouco sentido literário, ou, quem sabe, a junção de autores novos e antigos servisse muito mais como propaganda de uns ou outros. Nesses casos, alguns dos selecionados para o livro são tão superiores aos demais que a sensação de ter lido alguma coisa incompleta é óbvia. Evidentemente, isso pode acontecer com coletâneas de um escritor só e, diversas vezes, acontece, já que um texto não depende somente de quem o escreve para se fazer coesão, pelo menos em qualidade, com o resto das obras de uma mesma assinatura. “Abrigo”, no entanto, compõe uma harmonia de vozes bastante distintas, mas maduras, embora em diversas etapas da travessia literária

O livro tem início com a vitória de Mané Menino sob o rei de Nego Damião, em um jogo de praça numa cidadezinha do interior, no mesmo dia em que a pandemia chega de vez a um país mais preocupado com politização e evangelização de uma doença sem partido ou religião, do que com a segurança de seus habitantes: tremendamente familiar. O conto “Coração-de-Nego”, de Renata Santana, centraliza uma trivialidade que se torna, de repente, essencial, quando é depravada de seu ritual diário, devido ao distanciamento social: o que fará o arrogante Nego Damião depois de perder publicamente para Mané Menino, sem oportunidade de revanche, visto que, agora, seu adversário não sai mais de casa? Este é um texto sobre a solidão e a tragédia dos “velhos de praça” em um tempo que é ainda mais inexorável com os que já assoviam as canções de sua própria (e outra) época.

O próximo é um testamento sem ponto nem vírgula de alguém que tem uma palavra para cada um de seus oito irmãos, sem deixar de ser, ele mesmo (o narrador), um alguém sem nome, tão hermético quanto seu texto: apesar de intitular-se “Todas as Palavras”, o conto de Marcelino Freire é um dos mais misteriosos dessa coletânea. É, também, um dos mais bonitos e, talvez, controversos – esse testamento, embora tão obscuro, ao mesmo tempo, parece uma confissão em voz alta (sugiro que assim o leitor o leia). 

No “Calçadão”, de Camilla Inojosa, madames voam – “nem pareciam andar na rua” – de salto alto, sob o olhar sonhador de Maria, que, com a desculpa de ver a lua na praia, fantasia o dia em que ela saberá voar em sapatos chiques, para a inveja de outros infelizes. Contudo, não pode se demorar, pois em casa, enquanto a mãe trabalha como doméstica fora, precisa preparar o jantar dos irmãos e do tio agregado, que fede horrivelmente à violência patriarcal e espera dela mais do que o cuscuz pronto e quente. Maria é uma Leontina jovem demais, além de um tipo tão palpável quanto a pandemia do primeiro conto.

“Horror adentro”, de Oscar Nestarez, tem coerência inegável com seu título: um turista em Yerevan, na Armênia, depara-se com um desejo rubro, ou uma “Morte Vermelha”, a quem persegue por ruas e ruas até o âmago desse lugar estrangeiro, que, simultaneamente, lhe é tão familiar. A perseguição, no entanto, acaba em um enigma torturante com ares de “O Poço e o Pêndulo”. A propósito, o texto todo tem um e outro toque de Poe ou, pelo menos, assim me pareceu.  

No conto de Débora Ferraz, “Inocência”, um porão em uma casa velha inicia um pleito entre duas meninas: a que visita pergunta à moradora se dá para criar um animal ali e ela decide mentir – “Eu crio um gato aqui”. A mentira, porém, vai ficando cada vez mais insustentável, tal qual a inocência mesma de quem a inventou. Este é um dos textos de que mais gostei, por causa de sua agonia nostálgica e seu terror sutil – a solidão das crianças (a mentira, o abandono) é das mais delicadas e tristes.

“Viagem de ida e volta”, um dos primeiros textos do autor Gilvan Lemos (1928-2015), é sobre a clássica dicotomia entre um campo saudoso e um suposto progresso “intruso”. Depois de três anos fora, um filho volta para casa do pai e reencontra uma fazenda vizinha, onde brincava quando criança, mas que, agora, está quase abandonada, depois que seu dono fica viúvo e eternamente preso às memórias de sua falecida esposa, tal qual o viajante – apesar de não mais viver no interior, carrega uma nostalgia romanesca pelo cenário de sua infância. Tema comum na literatura nacional da primeira metade do século passado, o conto foi originalmente publicado em 1948, na revista Alterosa.

Em “Tem coisas que não se afogam”, de Joana Rozowykwiat, cabelos vermelhos flutuam na margem de um rio de sangue que atravessa uma cidadezinha estagnada em sua história de massacres e brutalidade. Um “morador invisível”, embora tente escapar da maldição que assola o município – “Terreirinho é dor. (…) Terreirinho machuca a gente. Lugar de calvário e morte” –, acaba por encontrar seu destino trágico ao decidir o de uma forasteira mal-vinda. Tal qual no texto de Camilla Inojosa, a violência contra as mulheres faz-se etapa irremediável na narrativa. 

“Não faz muito tempo que o mundo sumiu. Um ano ou uma eternidade” – Na familiar distopia (como todas as boas são), de Diogo Monteiro, “Esta sala, estes quartos e este silêncio”, uma neblina engole toda a paisagem exterior à janela de um menino. Subitamente, a névoa toma as ruas, os vizinhos, a escola, deixando apenas ele, sua mãe e seu pai, numa casa fechada para o nada que há fora dela. Esse é o conto mais esquisito de toda a coletânea, cercado de seres misteriosos, profecias apocalípticas e cenas absurdas. No entanto, é esse tom kafkiano que perturba o leitor com sua paradoxalidade: bem como seu título, o texto todo nos parece análogo demais à nossa realidade atual. 

“A festa”, de Carol Rodrigues, é menos fantástico e, no entanto, seu acontecimento central é deveras insólito. No conto, um policial persegue um casal de idosos que é abordado e levado da praça por uma mulher enraivecida, para curiosidade agonizante do personagem – “a situação com os velhos me coça e eu não durmo nunca mais se não souber”. A resolução do caso surpreende, uma vez que o casal está metido em um cenário tão presumivelmente jovem e, ao mesmo tempo, tão velho. “A festa” é um adeus.

Por fim, Sidney Rocha encerra (muito bem) a coletânea com o conto “Fique tranquila”. Um homem se encontra “na mais estranha das fronteiras: a vizinhança das poltronas de um avião”. No meio dessa estranheza, uma senhora não para de reclamar do barulho que faz a máquina e, depois, de seu terrível silêncio – ela que é, contudo, a criatura mais barulhenta presente. Talvez fale tanto, especialmente, porque a quietude do abandono que carrega é insuportável de comportar sozinha. A mesma espécie de silêncio, porém, acompanha o narrador, que tenta em vão acalmar a mulher ou acalmar a si mesmo: ambos em um voo de morte e despedida. Este texto me interessou em particular pela delicadeza da narrativa e pela força da linguagem, uma vez que não há no enredo nada, particularmente, excepcional, sendo o cenário e as memórias que cercam o narrador e sua vizinha de viagem pouco incomuns – no entanto, esse conto é um dos mais bonitos, devido a um ar, em certo sentido, quase “sonial”, que parece intrometer-se na aparente banalidade da conversa dos dois e no ato mesmo de voar – dos pássaros e dos homens.

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Em síntese, a “Coleção Solidária” da Vacatussa, uma editora pernambucana de catálogo interessantíssimo, é um pequeno tesouro de livros curtos, embora a leitura dos breves textos organizados nos três volumes seja complexa, visto que, a maioria dos contos têm um cunho profundamente social, não obstante sejam, em especial, literariamente engenhosos.

Leia mais da mesma autora aqui.

Últimos Dias

Últimos Dias (2005) de um espírito agonizante

Tendo em Kurt Cobain uma clara inspiração, Gus Van Sant nos entrega uma obra potente. Foto: Reprodução.

Our revels now are ended. These our actors,

As I foretold you, were all spirits and

Are melted into air, into thin air.

A Tempestade – William Shakespeare

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” (2005) acompanha Blake, um músico que mora em uma mansão fria e vazia e que foge de todo e qualquer contato com o mundo exterior. Blake se arrasta entre a floresta e sua casa como um zumbi que se move em direção a um destino inexistente. Suas roupas são sujas e desgastadas, sua expressão é nula; em sua casa habita um grupo de amigos, mas eles raramente se encontram, Blake os evita como pode; o ambiente interno da casa é quase uma extensão da floresta que existe do lado de fora.

Em “Últimos Dias” parece não existir uma narrativa propriamente dita. Não há ação. Quase não há diálogos. Não há grandes sentimentos saídos de um grande artista. Não, há apenas um não-personagem que se confunde com o espaço em que habita. O drama sempre está suspenso. Toda vez que parece que haverá algo, uma certa tensão, uma realização concreta, Gus Van Sant nos remove, deixando-nos com a sensação de um coito interrompido. 

Nesse sentido, todo o filme é construído em torno da ausência. O desafio pós-moderno de Van Sant – que pode fazer muita gente dormir de tédio – é filmar alguém que já não está mais lá. Blake não fala, apenas balbucia. Ele é um homem privado de si mesmo. Um homem abjeto que não passa de um somatório de ruídos cacofônicos. 

No entanto, existem duas cenas nas quais seu espírito emite alguma luz e mostra que ainda está ali. 

A primeira é quando Blake está em uma sala com vários instrumentos. Então ele vai tocando um a um, em uma sobreposição, e pela primeira vez, presenciamos vida e harmonia. A câmera está do lado de fora da janela e vai se afastando pouco a pouco enquanto as camadas do som vão se preenchendo, até culminar em uma bela catarse de sensações sonoras. Por não existir quase nenhuma ação concreta ao longo do filme, esse momento torna-se extremamente poderoso; tal qual uma pequena fonte de luz acesa na escuridão. 

Na segunda, já próxima ao fim do filme, a câmera não se mexe, o quadro é estático. Há apenas Blake e seu violão – em uma posição característica de Kurt Cobain – seus cabelos loiros e sujos cobrindo seu rosto. O corpo desaparece e a protagonista é apenas a voz, apenas o talento, que ecoa as palavras de maneira visceral e hipnotizante “É uma longa e solitária jornada que vai da morte ao nascimento”. 

Cena do filme de Van Sant, diretor de obras como “My Own Private Idaho” (1991) e “Good Will Hunting” (1997). Foto: reprodução.

Como já sabemos, os últimos dias de Kurt Cobain preconizam um suicídio. Van Sant, se fosse um cineasta mais convencional, poderia tentar explicar os motivos para alguém cometer tal ato, ou até mesmo julgar. Não seria o suicídio o ato mais brutal que alguém poderia cometer a si mesmo? Ou seria o ato mais covarde? Ou, quiçá, o mais heroico? O diretor se abstém dessas prerrogativas e filma apenas o estado de seu protagonista, minimiza o roteiro e foca na abordagem, no protagonismo da forma. 

Não importa o porquê. Nem mesmo o como. Em “Últimos Dias”, sentimos o espaço. O vazio. A desolação. A partir da construção da mise-en-scène, sem acontecimentos dramáticos aparentes, Van Sant nos permite contemplar o lento apagar de uma estrela. 

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Asas do Desejo e o teatro da vida

Nação, etnia e comunidade em “Pachinko” de Min Jin Lee


Na foto, Min Jin Lee, autora de “Free Food for Millionaires” (2007) e “Pachinko” (2017). Foto: Divulgação.

Uma combinação entre o pinball e o slot machine, pachinko é o jogo mais popular do Japão e, contudo, um dos mais controversos. O jogador deve inserir o dinheiro na máquina e, em troca, ele recebe bolinhas de prata, que custam de um a quatro ienes e podem ser trocadas por prêmios. Apesar de competições de aposta serem proibidas no país, o pachinko ocupa uma área cambaleante entre o legal e o ilegal, permanecendo ativo devido à seus lucros exorbitantes: as mais de 18,000 casas do jogo, espalhadas pelo Japão, faturam bem mais que os  cassinos de Las Vegas, cerca de 25 trilhões de ienes. A reputação desse entretenimento é seriamente afetada por seu caráter vicioso e sua associação com a Yakuza. Ademais, a maioria dos donos dos estabelecimentos são etnicamente coreanos, como é o caso de Mozasu, que faz fortuna com o seu negócio, na tentativa (infrutífera) de não mais encaixar-se no estigma de “segunda classe” a que são condenados todos os zainichis, coreanos que moram em território japonês. Apesar disso, o personagem não se envergonha de seu trabalho, já que, para ele, pachinko é muito mais que simples sorte ou azar: “Mozasu acreditava que a vida era como esse jogo, no qual o jogador pode ajustar o botão e, no entanto, esperar pela incerteza dos fatores que ele não pode controlar. Ele entendia por que seus clientes queriam jogar algo que parecia tão fixo, mas que deixava espaço para aleatoriedade e esperança”.

“A história falhou conosco, mas não importa.” – é assim que inicia-se o segundo livro da escritora coreana-americana Min Jin Lee, “Pachinko” (2017), sugerindo a atmosfera que se seguirá em suas mais de 500 páginas. O romance segue a trajetória de uma família, desde sua formação no início do século vinte, em uma Coréia sob dominação japonesa e, posteriormente, sua fuga para o Japão e seu estabelecimento no país, até o fim dos anos 80. A obra foi altamente elogiada depois de sua publicação, bem mais do que o livro anterior da autora, “Free Food for Millionaires” (2007), tornando-se, rapidamente, um best-seller. “Pachinko”, considerado um dos melhores livros de 2017 segundo o The New York Times, foi recomendado por Barack Obama e figurou na lista dos finalistas do National Book Award, maior premiação literária dos Estados Unidos. No Brasil, depois de entrar na coleção do Clube Intrínsecos, assinatura mensal de livros da Intrínseca, a editora o publicou para os não-assinantes no fim de Dezembro de 2020. E, em terras brasileiras, o romance também parece que fará sucesso.

Com efeito, a história dos imigrantes coreanos no Japão é pouco sabida. Sobre isso, a própria Min Jin Lee, que também é historiadora e socióloga, afirma que tamanha falha histórica tem mais haver com a falta de documentos dessas pessoas, muitas vezes analfabetas ou pobres demais para ter tempo ou condições de documentar a própria vida, do que com um apagamento proposital. De qualquer maneira, sua saga familiar surge na ideia de contar – ficcionalmente – a biografia dessa comunidade gigante (há mais de seiscentos mil coreanos no Japão) e, contudo, negligenciada. O livro, pois, começa durante a ocupação japonesa da Coreia, com o casamento arranjado entre Sunja, uma moça de um vilarejo pequeno, próximo à Busan, na área que hoje é a Coréia do Sul, e Isak Baek, um pastor presbiteriano de Pyongyang, na atual Coréia do Norte. A união se dá depois que Sunja engravida de um dos negociantes do mercado de peixes, Koh Hansu, que, posteriormente, descobrimos ser um yakuza. Em 1933, após o casamento, ambos vão para Osaka, no Japão, onde moram o irmão e a cunhada de Isak, Yoseb e Kyunghee. A partir disso, acompanhamos as tentativas de sobrevivência dessa família, e de alguns figurantes com os quais essa se relaciona, durante períodos dramáticos (Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra Fria), em um local hostil à sua mera existência – ora, como uma boa saga, “Pachinko” é um livro triste. 

Dentre os muitos personagens do romance, um dos mais curiosos é Noa, o primeiro filho de Sunja, fruto de seu caso com Hansu, um homem casado e, apesar de coreano, bastante bem-sucedido no Japão. O jovem, ainda aos oito anos, tem alguns segredos – um deles é que, há algum tempo, ele deixou de acreditar em Deus, depois que seu pai, Isak (Noa não sabe de Hansu), é preso pela polícia japonesa, envolvido em um caso político/religioso. O outro, e o mais interessante deles, é que ele odeia ser coreano e, acima de tudo, tem certa repulsa por Ikaino, o pobre bairro onde ele e a maioria dos imigrantes da Coréia moram em Osaka, já que, ainda que esses pessoas conseguissem dinheiro o suficiente para mudar-se, não era fácil, para eles, locomover-se no país, devido ao preconceito. Portanto, ainda muito pequeno, Noa esforça-se para ser o melhor aluno da escola, aparentemente irredutível a toda e constante descriminação sofrida e, mesmo quando a Segunda Guerra obriga ele e sua família a deixarem Osaka e, consequentemente, parar de frequentar o colégio, o menino jamais perde o empenho e a vontade de estudar. Quanto a isso, Hansu, que não tem filhos homens com sua esposa, decide patrociná-lo usando a desculpa de ser um amigo da família e um coreano patriota. Noa, então, ingressa em Waseda, uma das maiores universidades japonesas.

Nascido em território japonês, conquanto etnicamente coreano, a narrativa hegemônica que Noa tem sobre si mesmo e sua família são os inúmeros e execráveis estigmas ao redor dos zainichis: um povo menor, preguiçoso, sujo e criminoso. Nas ruas de Ikaino, o menino depara-se várias vezes com sujeira e crime, com homens bêbados nas portas de casa e com vícios em álcool e apostas. Na escola, a maioria dos alunos não lhe dirigem a palavra e, os professores, impressionados com sua capacidade intelectual, o chamam de “bom coreano”. Hansu o convence de que a única maneira de separar-se do preconceito é estudando e, por consequência, enriquecendo. O próprio, porém, só tem dinheiro por causa de sua conexão com o crime organizado. Assim, Noa acostuma-se com a ideia de ser o “bom selvagem” nos mínimos detalhes: “Koh Hansu havia, com frequência, mencionando que um homem deveria aparentar o seu melhor todos os dias. Para os coreanos, isso era especialmente importante: Pareça limpo e bem arrumado. Em todas as situações, mesmo nas que você tem o direito de sentir raiva, um homem coreano deve falar calma e sobriamente”.

Já em Waseda, estudando literatura inglesa, deslumbrado pela nova facilidade de sua vida, Noa começa a namorar a japonesa Akiko, outra das personagens mais intrigantes do livro. A jovem, de uma família de negociantes de classe média, estuda sociologia e não tem medo de questionar os professores sobre qualquer questão política e social, além de muito orgulhar-se de não ser racista como os pais: ela até namora um coreano! Todavia, como Noa perceberá, Akiko em nada se diferencia dos outros que, em maioria, o discriminam e ignoram: “Vê-lo apenas como coreano – bom ou ruim – era o mesmo que vê-lo simplesmente como um mau coreano. Ela não conseguia enxergar sua humanidade e Noa percebeu que isso era o que ele mais desejava: ser visto como um ser humano.” Fetichismo étnico é um dos tópicos mais relevantes deste livro e, não somente Noa, mas, principalmente, as personagens femininas, têm de aprender a conviver com ele. 

Pouco antes de morrer, devido à extrema violência policial, Isak diz à Noa: “Viver todos os dias na presença daqueles que se recusam a reconhecer sua humanidade requer grande coragem”. No entanto, depois de saber que seu pai não é um pastor honesto e intelectual, e sim um yakuza, Noa acredita que nada pode mudar sua essência “suja e criminosa”, tal qual a do resto dos zainichis. Então desiludido e com um ódio extremo de si mesmo, o jovem deixa a faculdade e afasta-se da família na tentativa de tornar-se japonês à força. Contudo, embora tenha abandonado seu sobrenome coreano e se casado com uma mulher que sequer desconfia de suas origens, a única oportunidade de trabalho que consegue é em uma casa de pachinko, bem como a maioria da sua comunidade: “Para um coreano, todas as opções eram uma merda.”

Noa muito me evocou um outro personagem, do mesmo modo interessante, Akira Kido de “A man” (2018), do escritor japonês Keiichiro Hirano, infelizmente ainda não publicado no Brasil. Akira também é etnicamente coreano, mas há muito tempo, sequer conhece sua herança histórica: fala apenas a língua japonesa e não convive, de fato, com outros zainichis, além de envergonhar-se de ser igualmente um deles. Porém, depois do grande terremoto ocorrido no Japão em 2011, ressurge com força total a onda nacionalista e racista contra chineses e coreanos no país inteiro. Pela primeira vez, Akiro se vê completamente cercado e aterrorizado pela ideia de fazer parte de uma minoria, mesmo anos depois da geração de Noa, quando a situação parecia melhor para todos os imigrantes: “É insuportável ter sua identidade sumarizada por uma coisa e somente uma coisa, e que outras pessoas tenham total controle do que ela é”.

Quanto a isso, Mozasu, citado no primeiro parágrafo, meio-irmão de Noa e filho biológico de Isak e Sunja, tenta não se importar em ser um “mau coreano”, mas deseja ser, pelo menos, um coreano rico. Desse modo, Mozasu não vai bem nos estudos, mas bate em qualquer um que levante a voz para ele e, por conseguinte, acaba deixando a escola e começando a trabalhar com pachinko ainda muito novo. Depois de algum tempo, torna-se, de fato, riquíssimo. O dinheiro, no entanto, pouco lhe serve para estabelecer um status social de dignidade, pois que, diferentemente do irmão, Mozasu jamais esconde suas origens. Nascido no Japão, o personagem sente-se completamente expatriado – jamais viu a Coreia antes de adulto e no país em que nasceu é tratado como estrangeiro: “Coreanos como eu não podem sair daqui. Para onde iríamos? Mas os coreanos em casa também não estão mudando. Em Seul, pessoas como eu são chamadas de bastardos japoneses e, no Japão, eu sou apenas outro coreano sujo, independentemente de quanto dinheiro eu ganho ou quão bom eu sou”. 

Seu filho, Solomon, demora mais um pouco para sentir essa “anomalia histórica” na pele. Estuda, desde pequeno, em uma escola internacional e segue a ordem dirigida a todos os zainichis com algum dinheiro: é um dever para com a comunidade estudar e jamais ser visto como um cidadão menor. Logo, Solomon gradua-se na Universidade de Columbia nos Estados Unidos. Quando volta para o Japão, já empregado em uma firma inglesa, dirigida localmente por um japonês, Solomon servirá apenas para um negócio: tentar fazer com que uma senhora coreana venda sua propriedade, quando a mesma decide vendê-la apenas para outro compatriota. Depois de algumas complicações, contudo, Solomon é demitido com a desculpa de que ele e seu pai devem ter relações com Yakuza, já que os negócios de pachinko são muito associados com o crime organizado, algo que sequer o diretor da empresa realmente pensa:  “‘Todo mundo sabe, Solomon. No Japão, você é um coreano rico ou um coreano pobre e, se você for um coreano rico, há uma casa de pachinko em seu background.’”

Não obstante, apesar do foco dado aos personagens masculinos nesta resenha, são as mulheres as grandes protagonistas do romance. Mais de uma vez, a mãe de Sunja, Youngjin, afirma que “o destino da mulher é sofrer”. Com efeito, talvez as maiores tragédias do livro estejam destinadas às personagens femininas. A própria Sunja começa, ainda aos 16 anos, sendo ludibriada e estuprada por um homem muito mais velho, que a assombra pelo resto da vida. Kyunghee, esposa do irmão de Isak, Yoseb, cuida do marido intolerante e doente por toda a juventude, desistindo de qualquer objetivo pessoal, e Yumi, esposa coreana de Mozasu e mãe de Solomon, tem uma infância povoada de prostituição e alcoolismo. Yumi, apesar de ser quase uma figurante, tão rápido entra e sai da história, tem um dos plots mais tristes: bem como Noa, odeia suas origens e sonha, desesperadamente, com o dia em que se mudará para Los Angeles, onde, segundo sua narrativa embriagada de imperialismo americano, não há preconceito ou racismo. Yumi acaba morrendo em um acidente de carro antes de poder usar o inglês que ensaiava todos os dias. No funeral, Solomon acalma uma das convidadas inconsoláveis: “Não chore. (…) Mamãe está na Califórnia.”

Capa da edição estadunidense de “Pachinko”. Foto: Reprodução.

Porém, não são apenas as mulheres zainichis que têm como destino o sofrimento. Hanako, primeiro amor de Solomon, é filha de um casal japonês de reputação destruída e, portanto, ela se torna uma outsider. Hanako acaba por trabalhar com pornografia e morre muito jovem de AIDS. A segunda namorada de Solomon é Phoebe, uma coreana americana que ele conhece na Universidade. Phoebe não aceita o passado da Coréia, a colonização e o racismo ainda vigente e, então, quando muda-se com ele para o Japão, conversa constantemente sobre suas posições políticas. Solomon não entende: “Sim, alguns japoneses acham que coreanos são escórias, mas alguns coreanos o são.” Com seus amigos novaiorquinos, Phoebe também não tem muito sucesso: “Eles ficavam incrédulos em acreditar que os japoneses educados e amigáveis que eles conheciam podiam achar que ela fosse, de alguma maneira, criminosa, preguiçosa, suja ou agressiva (…) Logo, Phoebe parou de falar sobre isso com seus amigos americanos.” Este é um ponto central: a estereotipação absolutamente racista e xenofóbica de um leste asiático capitalista, desenvolvido e quase místico em sua civilidade, ajuda a apagar ainda mais as problemáticas destes e entre estes países. Essa regra não se aplica a todo o leste, entretanto: China e Coréia do Norte, por exemplo, têm péssimas reputações no Ocidente e as razões para isso são bastante óbvias.

Isto posto, “Pachinko” é um livro, de fato, interessantíssimo. Apesar de tudo, o mesmo carrega um tom novelesco em sua narrativa que me incomodou ligeiramente. Isso não chega a destituí-lo de sua força e qualidade literária, mas talvez ele fosse maior se tivesse um número menor de páginas e alguns detalhes e repetições a menos – interessa pouco, às vezes, que o autor se explique demais na tentativa de, quem sabe, educar o leitor sobre certos tópicos, porque a potência de seu romance pode ser o suficiente. Ademais, a aparição constante de inúmeros personagens que, em pouco tempo, somem da história, cansa o leitor em certos momentos, o que, claro se explica pelo fato de que o livro é uma saga que se estende por quase um século inteiro. No entanto, em alguns capítulos isso faz com que a trama torne-se um tanto anticlímax, já que, assim que nos interessamos demasiadamente por um personagem ou por algo prestes a acontecer com ele, a autora sumariza tudo em poucas palavras. Concordo com Proust: ocasionalmente, os escritores esquecem que há um leitor entusiasmado pela narração de alguns episódios. Em contrapartida, há outros momentos não muito curiosos na obra que são, quase, excessivamente detalhados.

O narrador de “Pachinko” é onisciente e está a par das inúmeras perspectivas dos muitos personagens do livro, um estilo de escrita que Min Jin Lee escolheu, propositalmente, por ser seu “favorito ponto de vista para narrativas de comunidades”. Tal modo de contar histórias era o mais popular na Europa oitocentista e, portanto, é fácil lembrar de livros como “Anna Kariênina” (1877) de Liev Tolstói, por exemplo, ao ler o romance de Lee. O título do clássico russo, “Anna Kariênina”, parece insuficiente quando há tantos protagonistas e figurantes nas 800 páginas do livro e, ainda assim, todos tão bem explorados através desse narrador que, ao mesmo tempo que é distante, parece ser, em sua complexidade, os próprios personagens. Nisso, “Pachinko” poderia ser mais específico. Logo, me contradigo: possivelmente, o último é um romance que poderia, de fato, ganhar em excelência se fosse menor, mas, possivelmente, poderia ser melhor se tivesse mais páginas. 

Contudo, tais características não afetam sobremaneira a literariedade da narrativa, porque suas qualidades estão acima de suas falhas, para além de qualquer importância histórica e social que carregue. Indubitavelmente, Min Jin Lee escreve como historiadora e socióloga e a mesma o afirma. Sua frase inicial (“A história falhou conosco…”) é sua tese e o livro inteiro está cercado por tais ideias e, até mesmo, por certo senso de ativismo, conquanto não seja nenhum panfleto. Lee não esquece que está escrevendo literatura e isso é essencial na construção de qualquer bom romance, em particular, um de ficção, tal qual o seu. Portanto, o livro não merece ser lido apenas por seu caráter político, embora seja um de seus grandes atributos – “Pachinko” é sagaz e é bonito em sua composição e delicadeza, a despeito de algumas inconstâncias. Assim, esse é um best-seller digno do hype e da recepção obtida. Do mesmo modo, a história da comunidade zainichi também deveria ganhar popularidade e, ler a obra de Lee é, sem dúvidas, um bom ponto de partida para conhecê-la.

*As citações de “Pachinko” foram traduzidas da obra original (em inglês) por nós.

Leia a coluna Missa do Galo: dois contos de natal, de Thamara Amorim

A munição liga as histórias do clipe Texas e a realidade brasileira

Joelma Andrade, personagem principal do curta-metragem da música “Texas” de Diablo Angel. Foto: Reprodução/ Youtube

A banda recifense Diablo Angel, formada pela vocalista Kira Aderne, o guitarrista Tárcio Lua e o baterista Walman Filho, lançou recentemente o clipe da música “Texas” produzido pela Filmaço Produções. O curta, dirigido pelo cineasta Felipe Soares, reflete sobre a atual ânsia da população por armamento. Nele, a personagem principal Joelma Andrade tem seu filho, Mário Andrade, assassinado a tiros pela Polícia Militar em 2016, no bairro do Ibura em Recife.

A faixa “Texas”, presente no álbum “Futuro” (2019) do trio, simboliza uma realidade cada vez mais presente: o crescente apelo político pelo armamento da população e o desprezo com a vida alheia. Análogo a questão apresentada, estão as histórias de Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen, no qual reflete esse descaso. Essas seis crianças foram mortas durante ações policiais nas periferias da zona metropolitana do Rio de Janeiro em 2019 e ainda não tiveram suas investigações concluídas.

Por vias semelhantes, observamos a história do adolescente João Pedro Matos, 14 anos, assassinado na segunda-feira (18), mais uma vítima do erro da polícia. O garoto foi executado durante uma operação policial, apoiada pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), chefiada pelo Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Segundo as informações disponibilizadas pela Folha de São Paulo, João morreu dentro de casa, enquanto brincava com seus primos e amigos, na Ilha de Itaoca, Complexo do Salgueiro, na cidade de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro. A operação que ocasionou a morte do  adolescente tinha o objetivo de cumprir dois mandatos de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa.

O garoto foi morto após os policiais que sobrevoam a área no helicóptero da Polícia Cívil detectarem atitudes suspeitas. Os policiais invadiram a casa do primo do adolescente e atiraram cerca de 70 vezes, de acordo com pessoas que visitaram a cena do crime. “A Polícia Militar em si já se diz: ‘preparada para matar’ ’’, como alega Joelma no clipe em relação à  onda de crimes policiais rotineiros.

Após ser baleado, João foi levado de helicóptero pelos policiais que não contactaram a família do menino. O corpo foi encontrado na terça-feira (19), no Instituto Médico Legal (IML). Em entrevista ao programa Encontro com Fátima Bernardes, na TV Globo, os pais de João afirmaram que ao chegarem na casa em que ocorreu o assassinato, viram todos os outros adolescentes fora da casa, exceto seu filho. “Chegamos lá e encontramos os adolescentes fora da casa, no chão, como bandidos, como porcos, como lixo. Coisa que eles não são. Cinco adolescentes, mas o total era seis. Faltava um e esse um era o meu filho, que já estava baleado. Botaram ele num blindado e levaram para socorrer. E eu perguntando: ‘o que aconteceu?’ Fomos encontrar o meu filho depois de 17 horas no IML com um tiro de fuzil, morto”, relata.

Seja na capital pernambucana ou na região metropolitana do Rio de Janeiro, a violência policial é, inicialmente, uma questão de nível federal. Assim como é figurado no clipe, o ódio e a bala é naturalizado. Em certo trecho, o telespectador é alienado após ver um vídeo do então Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), se divertindo com uma arma.

Trecho do clipe curta-metragem “Texas” do trio Diablo Angel. Foto: Reprodução/YouTube

Na mesma semana em que João Pedro foi assassinado, o número de mortes ocasionadas pela pandemia da COVID-19 chegou a mais de 20 mil. Nesse sentido, o Presidente Jair Bolsonaro mostra cada vez mais o papel do seu governo genocida. A prioridade é: abandonar boa parte da população que sofre com o vírus, enquanto arma a outra metade. Na última sexta-feira (22), foi divulgado o vídeo da Reunião Ministerial de 22 de Abril, após decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello. O objetivo é verificar se houve interferência do Presidente Bolsonaro na Polícia Federal, diante das acusações feitas pelo ex Ministro Sérgio Moro. Além de afirmar interferência na Polícia Federal, Bolsonaro reitera o seu plano na presidência: “quem não aceitar as minhas bandeiras, Damares: família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado. Quem não aceitar isso, está no governo errado”.

Um dia depois, foi aprovado a portaria que eleva de 200 cartuchos por ano para 300 por mês que civis com porte ou posse de armas podem comprar. Na reunião Bolsonaro também marca seu discurso pró armamento em razão da liberdade individual. “Povo armado jamais será escravizado” afirma. Porém, contestamos: o povo armado é aquele que sempre escravizou?

O clipe de “Texas” reflete o impacto de ideologias como as defendidas pelo Presidente, em vidas como a de João Pedro e sua família. A questão levantada pelo clipe, não é sobre o porte ou posse de armas por civis ou militares, mas como a vida, principalmente, de periféricos e de negros, comumente é acertada pela bala perdida do Estado.