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O segredo de Brokeback Mountain: uma história de amor pouco abordada no cinema

O longa ganhou diversos prêmios ao longo do mundo. Divulgação.

Estrelado por Heath Leadger (1979-2008) e Jake Gyllenhaal (Donnie Darko, 2001), O segredo de Brokeback Mountain (2005), uma adaptação do conto de Annie Proulx em um roteiro escrito por Diana Ossana e Larry McMurtry. A narrativa se passa entre os anos de 1963 e 1981, contando a história de amor entre dois cowboys que trabalham como pastores de ovelhas em uma montanha, longe de tudo e todos. Ali, acabam vivenciando experiências que ficariam para sempre na memória dos dois. Com o passar dos anos, entram em relacionamentos, mas a ligação afetiva é muito forte para ser ignorada. Levando três estatuetas do Oscar por Melhor Diretor, Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado, um Leão de Ouro no Festival de Veneza, melhor filme e direção no Globo de Ouro, entre outros prêmios, a obra aborda temas como o amor entre dois homens “caipiras”, bem como o preconceito com casais homo afetivos, principalmente no ambiente agrário e interiorano.

A direção de Ang Lee (As aventuras de Pi, 2012) faz com que nossa imersão na história seja feita de forma natural e gradativa, ou seja, a cada momento o espectador se vê mais envolto na relação do casal.  A trilha de Gustavo Santaolalla, vencedora de uma estatueta do Oscar, nos apresenta canções instrumentais – cujo arranjo possui, quase sempre, violões – que remetem ao ambiente rústico. Dessa maneira, a trilha sonora se torna emocionante e melancólica, ao acompanhar o drama dos dois.

Detalhes que fazem a diferença

A fotografia é muito bonita. O diretor de fotografia Rodrigo Prieto utilizou de um filtro mais frio e azulado, dando a impressão de que a montanha Brokeback é uma espécie de paraíso particular dos personagens. A arquitetura usada nas locações remete muito ao interior, nos lembrando até cidades interioranas brasileiras, com paisagens compostas de estradas, caminhões e pequenos estabelecimentos, todos muito simples e pequenos. 

Mesmo não sendo o ponto principal do filme, o figurino de Marit Allen chama muita atenção. Todas as peças são muito características do dia a dia dos caipiras de interior, mas sempre com muito bom gosto na escolha. Eu claramente usaria todas as roupas que são utilizadas no drama. As peças remetem a época e ao estilo de vida dos personagens, levando em consideração sua origem, personalidade, poder aquisitivo e profissão. Um ótimo exemplo é a personagem de Anne Hathaway, que de início aparece usando roupas extravagantes de rodeio, mas ao longo do filme apresenta looks, maquiagens e cabelos bem distintos. Os trajes são (quase) sempre compostos por calças jeans, casacos pesados, e claro, botas e chapéus de cowboy. Toda essa criação combina com a fotografia do filme em todos os quesitos, principalmente em sua cartela de cores. Foram tão aclamados pelo público que no ano de 2006 leiloou-se on-line o figurino para uma campanha de direitos humanos nos Estados Unidos. 

Cena do filme. Divulgação.

A ressalva nesta coluna vai para Heath Ledger, que interpreta de forma impecável Ennis del Mar. Vindo do interior, o personagem, inicialmente, fala muito pouco e apresenta bastante timidez. Em uma caracterização extremamente fiel e talentosa, com gestos, manias e um sotaque bem característico de um caipira americano, Ledger mostra mais uma vez que foi um artista brilhante. Ao contrário de Ennis, Jack Twist (Jake Gyllenhaal), é um homem extrovertido e sorridente que ganha a vida montando em touros. De certa forma, o personagem tem muito da personalidade do ator. A partir do momento que se encontram, já é perceptível a tensão sexual entre os dois.

Desde o primeiro momento em que atuaram juntos, Jake e Heath se mostraram uma dupla e tanto. Contracenando como grandes amigos e nos entregando carisma, talento e profissionalismo que fizeram de Brokeback Mountain um dos principais clássicos LGBTQIA+. Temos também a participação de Anne Hathaway e Michelle Williams – esta última companheira de Ledger dentro e fora das telas. Michelle entrega uma atuação incrível como Alma, esposa de Ennis, uma mulher que enfrenta a situação do relacionamento de forma submissa. O sofrimento de Alma ao descobrir a relação do marido com outro homem é divinamente interpretado pela atriz, trazendo a dor e confusão mental da personagem.

O filme trata de assuntos muito importantes com um ponto de vista diferente e sutil, isto é: a união de dois homens que se amam em um ambiente extremamente preconceituoso, violento e patriarcal. Por se passar na década de 60, o longa aborda a forma com que o preconceito vivido pelos dois impede a relação de avançar. A produção nos faz refletir sobre quantas pessoas já passaram por isso, quantas pessoas tiveram que fingir ser quem não eram, vivendo vidas infelizes e sendo atormentadas pelo medo de se mostrarem ao mundo como realmente são. O segredo de Brokeback Mountain é uma obra que deve sempre ser revisitada, com suas belíssimas duas horas de duração, paisagens que parecem verdadeiras obras de arte, e cenas que nos fazem suspirar e torcer pelo casal.

Arte, pandemia e periferia: a arte de Francisco Mesquita e sua construção em novos tempos

Poucas pessoas sabem, mas no dia 08 de maio, sábado passado, foi comemorado o Dia do Artista Plástico no Brasil. A data serve para homenagear e celebrar uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade: a pintura. Para a produção de uma obra de arte, é primordial o domínio das técnicas, assim como a criatividade, talento e sensibilidade na percepção do mundo. Essas características podem ganhar destaque desde a infância, ou serem afloradas em algum outro momento futuro da vida do artista.

O dia surgiu em homenagem ao pintor brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior, nascido na mesma data em 1851, considerado um ícone entre os nomes mais importantes das artes plásticas do século XIX no nosso país. Almeida Junior, como é mais conhecido, nasceu na cidade de Itu, interior de São Paulo. Precursor da temática regionalista na pintura, deu destaque a personagens anônimos, ao homem comum – que não pertencia à elite – em suas tarefas cotidianas e à cultura caipira numa época em que a arte brasileira era marcada pela monumentalidade voltada à arte europeia.

Desde a propagação do novo coronavírus, a população mundial precisou se isolar como principal forma de proteção. Muitas pessoas utilizam a arte como forma de distração, ocupação da mente e acalento emocional. Algumas delas puderam descobrir os artistas internos que estavam guardados dentro de si. E nesse momento, onde a crise provocada pela Covid-19 continua a acontecer de forma ainda mais grave, puderam transformar seus talentos e habilidades em fonte de renda.

Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior é uma dessas pessoas que se encontraram na arte e se encaixa na nova leva de artistas plásticos revelados pela pandemia. Francisco Mesquita, como assina suas obras, compartilhou com o Café Colombo a sua resistente jornada de autoconhecimento artístico e seu trajeto pela arte, nos contando como é viver dela em tempos tão sombrios. Confira:

Francisco Mesquita e autorretrato. Foto: Acervo pessoal

Quem é Francisco e como ele chegou na arte?

Meu nome é Francisco José de Mesquita Gonçalves Junior, tenho 28 anos, sou natural da cidade de Barreiros, litoral sul de Pernambuco, mas vivi por muito tempo em Olinda, que é a cidade onde moro atualmente, na Comunidade do Monte.

Sou formado em Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco no Campus Garanhuns, cidade onde vivi no período de graduação e pude atuar como professor. No final de 2019, decidi dar um tempo da sala de aula por questões pessoais e acabei aceitando um emprego em Recife, em um coworking. 

Quando a pandemia chegou no ano passado, fui demitido em março de forma inesperada, acabei saindo sem auxílio e seguro desemprego. Nesse momento de dificuldade, a arte me encontrou. Quando as pessoas perguntam como foi o meu início e quais foram minhas referências para que eu me tornasse um artista plástico, eu costumo dizer que o meu primeiro contato com a arte foi no momento que eu decidi viver dela, aos vinte e sete anos de idade.

Como você percebeu e decidiu que poderia viver da arte?

Por algumas pessoas próximas me mostrarem possibilidades na arte, eu comecei a me aventurar e brincar em casa. Fiz desenhos e pintei com pó de café diluído em água, e, a partir disso, fui ganhando uma paixão. Eu percebi que tenho uma forte inclinação a tentar coisas novas e com isso fui tentando fazer minhas artes com outros materiais e outras técnicas, mesmo sem nenhum conhecimento sobre elas.

Já tinha feito uma colagem para presentear uma ex-namorada, então resolvi fazer colagem com recortes de revistas. Também fiz da foto de uma ex-colega de trabalho, que amou e me incentivou, me senti um Picasso, o artista. Graças a esses momentos de incentivo que eu comecei a me ver, de fato, como artista plástico. Eu não tinha nenhuma obra, nem sabia assinar meu nome artístico, mas eu já me considerava um artista. E isso nunca tinha acontecido na minha vida, eu nunca fui tão firme em uma decisão.

Francisco em seu processo de produção de colagem. Foto: Acervo Pessoal

Infelizmente a pandemia já dura mais de um ano. Como você começou a atuar nesse período, como foi seu primeiro ano no ramo da arte?

Esse primeiro ano de carreira artística foi de muito aprendizado. Eu pude me conhecer um pouco mais e entender a importância de lidar com os problemas de uma forma diferente. Não é fácil, é uma profissão com muitas dificuldades, mas é extremamente gratificante por tudo que pode ser aprendido e construído. Vendi algumas obras e tenho outras encomendas no momento.

Como você considera seu estilo artístico e quais materiais você utiliza?

O estilo que eu mais trabalho são os retratos. Quando iniciei com as obras de café, foi com esse estilo que me identifiquei. Faço retratos com giz pastel, colagem de revista ou com papelão. Nos meus trabalhos recentes tenho utilizado uma técnica mista, misturando todos esses materiais. 

O gosto por eles acabou me levando para diferentes composições na minha obra. Hoje eu busco mais fontes para a arte, pesquiso e estudo. Me apego ao realismo com pop arte, bem colorido, mas também faço obras subjetivas e surrealistas. Deixo a minha intuição levar sem me prender a algo fixo, sempre disposto para novos testes.

Parte de tela feita em base de papelão. Foto: Acervo Pessoal

Eu utilizava como base o papel-cartão, mas ele sofria muito com a cola, porque quando secava, ele ficava muito ondulado e eu tinha esse problema. Daí comecei a testar e a brincar com outros materiais. O papelão se apresentou para mim como o material que veio me fazer continuar, já que em determinado momento eu não tinha mais dinheiro para comprar papel, cola e revistas, porque, nem sempre, as revistas que eu tinha à disposição, tinham o conteúdo que precisava. Não precisava mais comprar papel, e percebendo também que o papelão tinha camadas, fui descobrindo esse material.

Vi que ele poderia servir não apenas como base para minhas obras, mas, também, poderia ser o protagonista. Esse material me fez ver o mundo de uma forma diferente, porque papelão é algo que se encontra com muita facilidade, mas a gente só vê como lixo. Junto ao papelão, que foi uma descoberta essencial para mim, os materiais que mais utilizo são o giz pastel oleoso e revistas.

Dá pra perceber que nas suas obras que cor, gênero e liberdade são questões bem pertinentes. Por quê?

Eu gosto de trazer muito o meu cotidiano e as pessoas que são referências para mim. Tanto na vida artística como na vida pessoal, eu sou cercado por pessoas negras. A maior parte das pessoas que eu retratei são negras. Tenho em mente planos futuros e telas que envolvem outras bandeiras que também quero levantar. Eu sou um cara que tento trazer discussões e faço da minha arte algo pra se refletir, então as questões raciais e sociais sempre estarão presentes.

Arte de Francisco Mesquita

Serena (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

Arte de Francisco Mesquita

Olhar Disfarçado (2020), giz pastel oleoso sobre papel-cartão.

No Dia Internacional da Mulher você homenageou algumas figuras. Como esse projeto se consolidou?

A ideia foi homenagear três figuras para essa data tão importante. A primeira, uma mulher com grande importância para a cultura de Pernambuco, que é Lia de Itamaracá. A segunda, de grande relevância a  nível nacional, a primeira juíza negra do país, Mary Aguiar. E, a última, de maior importância em nível pessoal, que foi a minha mãe. A ideia foi trazer muito afeto, carinho e  representatividade, pois todas são mulheres negras.

Arte de Francisco Mesquita

Lia de Itamaracá (2021), giz pastel oleoso sobre papelão.

Recentemente, você também lançou o projeto Arte na rua, que levou suas obras aos bairros de Olinda. De onde surgiu a ideia e como foi desenvolvido?

O projeto Arte na rua tem vários objetivos. Minha primeira intenção é disponibilizar um tipo de arte diferente para as pessoas, uma arte acessível, a qual elas possam ver, tocar e até levar para suas casas. Promovendo uma divulgação física e presencial das obras, para que quem vê-las, tenha interesse em conhecer mais. Aproveitando a rua como uma forma além das redes sociais para ampliar a divulgação do meu trabalho, porque, de certa forma, elas podem limitar o acesso de quem não tem o hábito de utilizá-las. Também tenho o romantismo de escrever alguns pensamentos por trás das obras, fazendo analogia àquelas garrafas jogadas ao mar, uma certa visão romântica minha e que pode fazer sentido de alguma forma para o leitor.

Colocando em prática o projeto Arte na rua, onde deixa a tela Maria no Mato (2021) em espaço no bairro Bultrins. Foto: Acervo Pessoal

Como educador, qual a tua perspectiva para a arte, unindo sua formação inicial como professor e agora como artista plástico?

Vejo minha contribuição para uma mudança de oportunidades, no sentido de oportunizar novos caminhos para os jovens de hoje. Falo isso porque já fui convidado por professores para contribuir com suas aulas e gravar vídeos para seus alunos falando e ensinando sobre a arte. 

Também tenho um encontro que irá acontecer no fim de maio. Fui convidado por um representante da Gerência Regional de Educação de Olinda para participar de uma formação com outros professores, onde eu poderei passar minha experiência e possibilidade de levar outros materiais para sala de aula, principalmente no ambiente de escola pública. Sabemos que muitas vezes o maior empecilho de se construir projetos de arte em escolas públicas é a questão de orçamento e material, se a gente quebrar isso e começarmos a entender que a arte é muito mais profunda, nossa e natural do que se pensa, a gente faz arte com diversas possibilidades. É esse meu maior desejo, poder tornar a arte cada vez mais acessível nesses locais de carências.

Um Espião Silenciado: livro sobre jornalista cearense assassinado ganha destaque e pode virar filme

Raphael Alberti, autor de livro sobre espião que atuava nos anos que antecedem a Ditadura Militar, fala ao Café Colombo sobre publicação

Raphael em entrevista sobre o Um Espião Silenciado na Rádio Cidade.

Raphael em entrevista para a  Rádio Cidade, em Caruaru. Foto: Arquivo Pessoal.

Raphael Alberti é carioca, professor da rede municipal de Caruaru, historiador e escritor do livro Um Espião Silenciado, que ganhou no dia 7 de março o 2° Prêmio Book Brasil, na categoria Melhor Ebook Crônica. A biografia, lançada pela editora Cepe, conta a história de José Nogueira, jornalista que trabalhava para o Centro de Inteligência da Marinha e  atuava  em organizações anticomunistas, passando informações para políticos de esquerda. O agente foi morto um ano antes do Golpe de 1964, que acarretou na Ditadura Militar. Raphael conta ao Café Colombo como foi o processo para documentar essa história que está rendendo muitos frutos como o lançamento de um futuro filme.  Confira a entrevista: 

Raphael, quem foi o José Nogueira, esse personagem que te cativou tanto?

Ele era um cearense, nascido em Mundaú, e morreu muito cedo,  com 29 anos. Ele foge totalmente do estereótipo do nordestino que vem ganhar a vida no Rio de Janeiro, era um cara de classe média, seu pai era delegado. Então, ele vem com outros propósitos para o Rio e começa a ganhar fama pelo seu faro investigativo.

José Nogueira foi um agente duplo da Marinha, do Centro de Inteligência da Marinha, Cenimar, que é o serviço secreto dessa força armada. Ele atuou tanto para organizações paramilitares de extrema direita, anticomunistas, quanto repassando informações dessas entidades para políticos progressistas, mais ligados à esquerda. Também foi jornalista do Diário da Noite e trabalhou no Diário Carioca. Era amigo pessoal do João Goulart e do ministro da Marinha, Pedro Paulo Suzano. 

Em meio a tantas histórias, de tantas pessoas que viveram os tempos da Ditadura Militar no Brasil, por que você escolheu contar a história do José Nogueira, que inclusive, aconteceu antes do golpe?

Eu não escolhi falar sobre o José Nogueira, ele me escolheu, eu o encontrei por acaso. Eu tinha uma necessidade de escrever algo diferente do que os historiadores geralmente publicavam nas suas monografias. Queria fazer algo original, algo que fosse pouco abordado e interessante ao mesmo tempo.

Me remeti a uma aula de História no ensino médio, do meu professor Márcio Rogério, em que ele falou sobre o Escândalo da Caixinha do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). O que foi isso? Várias multinacionais fizeram uma vaquinha de milhares de dólares para interferir nas eleições de 1962. Eleições para Governador, Senador, deputado federal e estadual. A intenção era desestabilizar o governo de João Goulart com propaganda anticomunista.

Eu fui pesquisar sobre esse tema e minha monografia no Rio de Janeiro foi sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do IBAD e do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Me dei ao trabalho de ler a ata inteira da CPI, no diário do Congresso Nacional. Letras bem miúdas, muitas páginas, em determinado parágrafo eu li que o Genival Rabelo, diretor de uma revista chamada Política e Negócios, acusava o IBAD de assassinar um jornalista. Era a única coisa que estava escrita e fiquei muito impressionado porque na bibliografia do IBAD só falava-se sobre corrupção eleitoral, mas não havia nada de homicídio. Então eu vi que havia um furo e corri atrás das informações para saber quem era esse jornalista, porque que tinham matado ele e para quem ele trabalhava. 

Carteira de trabalho de José Nogueira, espião nos anos que antecedem a ditadura militar.

Carteira de Repórter do Diário da Noite de José Nogueira. Foto: Extraído do livro Um Espião Silenciado.

Para criar Um Espião Silenciado foram muitos anos de pesquisa, ao todo foram dez anos para adquirir todo esse material que está presente no livro. Como foi esse processo pra você?

Foi um turbilhão de emoções. Ao mesmo tempo que era muito instigante e desafiador, era também muito triste, desgastante e muito custoso, porque eu não tive qualquer tipo de ajuda financeira do Estado ou instituições privadas. Tudo que eu consegui do José Nogueira foi com recursos próprios ou da minha família. 

Não foram dez anos ininterruptos, sem parar, todos os dias estudando sobre o tema. Por conta da falta de dinheiro, eu fui morar em São Paulo para dar aula numa escola pública, e nesse processo, me distanciei das fontes. Depois que  retomei a pesquisa,  tive que ler tudo de novo, para ter vivo na minha memória aqueles nomes, aquelas informações. 

Acredito que tive acesso a todos os  documentos públicos que constam do nome de José Nogueira. Fui para a terra dele, em Mundaú, pesquisei no jornal que ele era redator chefe em São Paulo. Fui para Brasília pesquisar no arquivo pessoal do Carlos Lacerda e enquanto morava no Rio de Janeiro, pesquisei em vários lugares diferentes. A pesquisa foi bem intensa e eu fico muito feliz que tenha dado frutos, tanto com o livro e agora com o filme.

No livro você conta que houveram algumas intimidações. De onde elas vieram e como foi lidar com isso?

Eu arrisquei a minha vida em vários momentos enquanto pesquisava em arquivos das Forças Armadas, da Marinha, do Exército, na Aeronáutica também. Na Aeronáutica e na Policia Civil, eu fui muito bem tratado, eles foram bem transparentes.  Aqui, em Caruaru, aconteceu uma ligação meio estranha. Medo a  gente tem não é? É inevitável, não dá para gente bancar o corajoso e falar que não senti medo em nenhum momento. É óbvio que tive e tenho, mas eu nunca deixei o medo superar a vontade de fazer essa reparação histórica e realizar o sonho que era levar esse trabalho para a família dele, e também, publicar meu primeiro livro de destaque.

E como está sendo o feedback do público?

Está sendo maravilhoso. Desde o ano passado – quando o livro foi lançado –  eu consegui ficar algumas semanas entre os mais vendidos em biografia para adolescentes e jovens na Amazon ou ficar entre os três ou cinco primeiros nas vendas em geral. 

E também a repercussão que teve nos jornais pelo Brasil. Saiu uma resenha em uma  página inteira no segundo caderno do jornal O Globo. Também foram publicados conteúdos no Correio Braziliense, Diário do Nordeste do Ceará, na Revista 451, que é uma revista especializada em livros da Folha de São Paulo e na revista Carta Capital. Fora as lives com o cineasta Silvio Tendler, a jornalista Cynara Menezes da Revista Fórum e do site Socialista Morena. E também especialistas da área, como Paulo César Gomes, que ganhou o prêmio Jabuti em 2020. Com o Lucas Pedretti que foi o historiador que descobriu o documento do Caetano Veloso sendo preso durante a ditadura e deu origem ao filme Narciso em Férias.

Eu estou muito feliz com todo esse reconhecimento, tanto dos pares da Academia, quanto pelo público e por essa procura pelo livro. Estamos negociando com duas produtoras de filmes, até agora, então acho que diz alguma coisa. Acredito que é um registro histórico de qualidade, importante para entender  e mostrar uma figura esquecida de uma região tão pormenorizada no cenário nacional. Além de ser uma fonte documental para o público conhecer os bastidores do golpe e perceber como os serviços de inteligência das Forças Armadas já se articulavam antes de 1964.

Muito se fala sobre como a Lei da Anistia colocou panos quentes sobre toda a época da ditadura, não prendendo os responsáveis pelas torturas e mortes, tornando o assunto quase esquecível a um nível em que as pessoas pedem a sua volta. Você como historiador, percebe a falta de falar sobre isso, como uma das principais razões para os movimentos pró ditadura militar que temos hoje? Como combater essa noção que se tem hoje e mostrar o que a ditadura realmente foi? 

Acredito que a gente combate essa visão deturpada da Ditadura com informação e com paciência para o diálogo. Entendo que nem sempre a gente está num dia bom, com paciência, às vezes, as pessoas não ajudam também. Mas é preciso dialogar com as pessoas que divulgam fake news de que não houve corrupção e perseguição, que foi um tempo melhor, em que tudo ia bem. Eu acho que a primeira coisa é explicar cada argumento com fontes e dados, apesar de estarmos na época da pós-verdade, em que muitas vezes as evidências não são levadas  em consideração. O afeto do diálogo nunca sai de moda. 

Acontece que muitas pessoas com um conhecimento raso sobre os fatos, que não são especialistas em história e produzem esses tipos de argumentação, também se tornam mais incentivadas a reproduzir esses argumentos por conta do tratamento que  recebem, com a nossa falta de paciência em explicar os acontecimentos. Vários livros denunciam esses acordos de militares com empreiteiras, o livro do Pedro Campos fala muito bem disso. Houve muita corrupção na ditadura e muita perseguição a pessoas que tentavam dar um viés transparente nesses governos. Então eu acho que o segredo é esse. 

Histórias como a que você conta no livro são cruciais para manter a discussão sobre a Ditadura Militar no Brasil, trazer essa barbárie à tona. Você vê histórias como Um Espião Silenciado sendo a chave para a gente começar a lidar com esse pedaço da nossa história?

Acho que Um Espião Silenciado  ajuda no combate a esse tipo de visão, porque ele mostra que antes da Ditadura começar, os próprios agentes do anticomunismo também poderiam sofrer com isso, já que o José Nogueira também trabalhou para organizações anticomunistas. O livro mostra que além dos militantes que eram contrários a esse autoritarismo das Forças Armadas, aqueles que trabalham para esse serviço, também poderiam ter o mesmo destino por saberem muito, por desviarem a conduta que os militares esperaram. E ajuda a entender também a participação da sociedade civil no golpe, mostrar que ele foi militar e teve um viés civil.

Foto pessoal de Raphael Alberti comemorando a publicação de seu livro.

Raphael comemorando a publicação de seu livro. Foto: Arquivo Pessoal.

Qual é a sua sensação agora que o livro foi publicado?

Fiquei muito emocionado em saber que vale a pena a gente ser persistente, confiar nas nossas loucuras. Porque a maior parte desse tempo eram mais desmotivações do que motivos. Então eu fiquei muito emocionado de ver que eu virei uma ideia, que eu deixei um legado, se eu morrer hoje, essa ideia fica. 

Estou satisfeito por gerar jurisprudência para os historiadores, já que  processei a polícia por omitir o laudo cadavérico do José Nogueira e acabei ganhando, nas duas instâncias no Tribunal de Justiça do Rio, isso também foi contado no livro. Eu fico feliz em pensar que qualquer historiador que quiser usar a Lei de Acesso à Informação para conseguir algum documento, pode usar essa decisão judicial como parâmetro para a sua futura vitória.

Por último, realizado. Porque todo acadêmico tem uma vontade de que o seu estudo não seja em vão para as pessoas. Temos anos de solidão e pesquisa, muito trabalho, muita leitura, muita esforço e a sensação que fica é que o nosso trabalho vai ficar em uma estante de biblioteca de faculdade e ninguém vai ler. E quando eu cheguei em Mundaú e vi a satisfação da família dele sobre o que eu tinha feito. Todas as demonstrações de carinho que eles me deram.

O primo me escreveu cartas extensas de agradecimento, porque eles não sabiam absolutamente nada da vida do José no Rio de Janeiro. Eles só sabiam da vida dele em Mundaú, até os dezoito anos. A irmã dele, que tem 88 anos e tem parkinson, fala que me ama e por mais que ela ache forte o tema, tem dificuldade para ler até hoje, ela se sente muito grata pelo que fiz. Essas coisas não tem preço. 

Eu me sinto muito feliz com o livro publicado porque sua repercussão acabou desencadeando no filme, quando achei que ia acabar com a pesquisa.  Só espero não ficar mais 10 anos até o filme sair. Mesmo entendendo que é um processo demorado, a escrita de roteiro às vezes demora de 2 a 3 anos ou mais para ser feita.  Mas vai dar tudo certo! 

Um Espião Silenciado está disponível em ebook na Amazon por R$ 8,01.

A conquista do voto feminino: os movimentos sufragistas pioneiros de Pernambuco

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira, pioneiras do sufrágio feminino.

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira: pioneiras do sufrágio em Recife.

O sufrágio feminino foi um movimento político que atingiu diversos países europeus e se espalhou pelo mundo no final do séc. XIX. O  movimento era composto por mulheres – e homens – que estavam na luta pelo direito de participar da vida política. Direito que era negado por uma sociedade patriarcal e machista que presumia que a mulher não tinha lugar no espaço cívico-político. 

No Brasil, o sufrágio veio embalado pelo fim da monarquia e pela proclamação da república. Os ideais modernos e a vida urbana permitiram que as mulheres da classe média começassem a ocupar espaços que antes não alcançavam. 

Em entrevista para o  Café Colombo, a graduada em História pela Universidade Federal do Paraná, Naiara Busulo,  falou um pouco desse cenário: “A luta pelo direito do voto feminino passou a ter maior relevância no Brasil no final da década de 10, ao longo de toda década de 20, até culminar na conquista do voto em 1932. Apesar de no séc. XIX, quando se estava discutindo a primeira constituição republicana, já tinha se colocado em pauta o direito ao voto pelas mulheres.”

Primeira página do estatuto da FBPF.

Primeira página do estatuto da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1929. Fonte: Arquivo Nacional.

Busulo destaca dois nomes da luta sufragista brasileira, Leolinda Daltro, uma pioneira, e Bertha Lutz, um nome de destaque do movimento. “Leolinda era professora e foi criadora do Partido Republicano Feminino (PRF). Já na década de 1910, ela tentou uma candidatura mas teve seu pedido negado.” Logo depois, veio Bertha Lutz, que educada na França teve contato com o sufrágio inglês e trouxe suas ideias para o Brasil, de forma adaptada, já que as ações das sufragistas inglesas eram violentas demais para o cenário brasileiro da época. “A presença de Bertha na imprensa e o espaço que ela conseguiu junto a outros políticos homens, tornam ela a principal figura do sufrágio brasileiro, talvez a que tenha levado efetivamente a vitória da conquista ao voto no início da década de 30”, afirmou a paranaense.

O sufrágio pernambucano

Sendo Recife um polo econômico e político da época, a Veneza brasileira não ficaria para trás nos movimentos que levaram à conquista do voto feminino em 1932. Duas organizações vão se destacar no cenário feminista pernambucano do início da década de trinta, são elas a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), liderada por Edwiges de Sá Pereira, e a Cruzada Feminista Brasileira, sob a direção de Martha de Hollanda. Ambas mulheres ativas do âmbito intelectual brasileiro como escritoras e poetisas.

Edwiges de Sá. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Edwiges de Sá Pereira. Jornalista, educadora, poetisa e ativista feminista. Fonte: Acervo da Fundaj.

Edwiges nasceu no município de Barreiros, em 1885. Filha de advogado, teve pleno acesso aos estudos, diferentemente da maioria das mulheres de sua época. Foi  jornalista, professora, poetisa e escritora. Na juventude, fundou com seu irmão, Eugênio de Sá Pereira, o jornal manuscrito “Eco Juvenil” e a revista literária “Azul e Ouro”. 

A FPPF foi criada em 1931, como uma filial da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino criada por Bertha Lutz, por um comunicado no periódico  A Notícia, Edwiges convocou as mulheres pernambucanas que se interessavam pelas causas feministas. 

As falas de Edwiges de Sá pelo movimento sempre incluíam um viés cristão e conservador. Contra o divórcio, defendia a feminilidade da mulher e era contrária a noção popular de que o feminismo a masculinizava, acreditando que esta devia ter “aspirações nobres dentro e fora do lar […] e para isso teria que se elevar a educação feminina”. Conforme Lopes cita Nascimento em seu artigo “É preciso votar! A luta das mulheres pelo direito ao voto em Recife”.

Martha de Hollanda. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Martha de Hollanda, jornalista, poetisa e ativista pelo sufrágio feminino. Fonte: Enciclopédia do Nordeste.

Martha de Hollanda nasceu perto da capital, em Vitória de Santo Antão. Vinda de uma família tradicional, ela dedicou sua vida ao jornalismo, ao feminismo e à poesia, publicando um livro de poesias intitulado “Delírios do nada”, em 1930.

Com suas ideias revolucionárias e a favor do divórcio, Martha lutava pelo acesso da mulher à política e aos direitos civis. Sob sua liderança, a Cruzada Feminista caracterizou-se como um movimento de extrema importância para a conquista do sufrágio. Ela e a artista Celina Nigro foram as primeiras mulheres a alistarem-se para obter o direito ao voto em Pernambuco, pedido este que foi noticiado pelo periódico do Jornal do Recife. 

O sufrágio pernambucano começou nessas duas vertentes de pensamento, uma mais conservadora e uma mais radical, mas de igual importância e marco histórico. Apesar de algumas diferenças, ambas as organizações tinham forte cunho político e defendiam o acesso à educação da mulher nordestina. O movimento era composto por mulheres solteiras, casadas, professoras, comerciantes, ou seja, mulheres da classe média alta e da elite pernambucana.

É bom lembrar que a maioria das sufragistas brasileiras pertenciam à elite econômica e intelectual da época. Naiara Busulo critica essa postura em sua monografia sobre Maria Lacerda de Moura, uma feminista que se afastou do movimento sufragista pois percebeu que haviam falhas na iniciativa e passou a dar importância a outras pautas, como, por exemplo, o socialismo. Com ideias libertárias, chegou a morar em uma comunidade anarquista. 

“É importante entender que a luta pelo voto feminino no Brasil é extremamente elitista. Ele já começou com muitas pessoas não tendo esse direito, era um voto limitado de pessoas letradas. Quando a luta das mulheres entrou em pauta, não se discutia estender também para mulheres analfabetas ou homens analfabetos. Era exclusivamente a conquista do voto feminismo pelas mulheres da elite”, critica a historiadora. 

A Cruzada Feminista desempenhou uma das publicidades de maior relevância da época para o sufrágio feminino em Recife, com uma campanha dedicada às viúvas, em que mostraram apoio a essa parcela da população feminina, aproximando essas mulheres do movimento. Devido a grande repercussão, a ação teve reconhecimento da Secretaria de Viação, Agricultura, Indústria, Comércio e Obras Públicas do Estado de Pernambuco.

Convocação de apoio as mulheres viúvas pela Cruzada Feminista.

Convocação da Cruzada Feminista em auxílio das viúvas, publicada no Jornal Pequeno em 1932. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco.

Os movimentos pelo sufrágio das mulheres não foram completamente aceitos na época, como até hoje não são. As sufragistas brasileiras enfrentaram críticas e hostilidades de conservadores que usavam argumentos religiosos e biológicos contra as mulheres que compunham o sufrágio, colocando até a menstruação como uma barreira para que as mulheres ocupassem cargos. 

Apesar das organizações feministas fazerem grande uso das rádios e jornais, a imprensa, ao mesmo tempo que dava visibilidade ao movimento, também o ridicularizava e distorcia seu significado. No entanto, em 24 de fevereiro de 1932, em meio a um regime originado de um golpe dado por Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o voto, enquanto junto ao restante da população, iam perdendo outros direitos. 

O movimento feminista enfrentou e ainda enfrenta, no Brasil e no mundo, entraves e bloqueios de pessoas retrógradas. A luta não parou até agora e o mais importante é que ela nunca pare. O enfrentamento pela igualdade de gênero numa sociedade que tem como fundação o elemento patriarcal machista é diária e se torna mais urgente de acordo com a cor e classe social. 

Ser mulher e estar no mundo é resistência. É se esforçar o dobro, o triplo, até não aguentar mais. Chamam-nos de louca, instável, sensível e paranoica. Nos querem mãe e esposa apenas e quando queremos isso também, nunca fazemos com excelência suficiente. Preferem que fiquemos quietas, castas e até concordam com a nossa luta, mas dizem: “não precisa de tudo isso”. Precisamos sim! Disso tudo e um pouco mais. 

A luta continua. Agarremo-nos umas às outras. 

Já que não é aconselhável ir às ruas para comemorar esse dia de muitas lutas e também, de muitas conquistas, o que acha de celebrá-lo com algumas dessas obras? Confira:

Enola Holmes 

Produzido pela talentosa Milly Bobby Brown, o longa disponível na Netflix, conta a aventura da irmã mais nova de Sherlock Holmes à procura da mãe. O filme se passa no cenário da luta sufragista inglesa, sendo super leve e divertido. Ainda assim, causa reflexões sobre o lugar da mulher na sociedade, na época e atualmente.  Pode ser encontrado na Netflix.

Trailer do Filme Enola Holmes, baseado na série de livros de Nancy Springer. Fonte: Netflix/Divulgação

Feministas: O que elas estavam pensando?

O documentário produzido pela Netflix aborda a segunda onda feminista, que teve seu inicio na década de 1960 e esbanjava mais pluralidade de classe, cores e sexualidade das mulheres. Ouvindo artistas que fizeram parte do movimento, como a atriz Jane Fonda e a fotógrafa Cynthia McAdams e destacando o impacto que essa nova fase deixou para a atual geração de mulheres. Mostrando-se um grande apanhado histórico, o documentário apresenta imagens e vídeos dos protestos e passeatas da época, demonstrando que muitas pautas que o movimento carrega hoje se originaram nessa época.  “Feministas: o que elas estavam pensando?” está disponível na Netflix.

Trailer do documentário “Feministas: O que elas estavam pensando?”. Fonte: Netflix/Divulgação.

As sufragistas 

Para quem curtiu Enola Holmes, vale a pena dar uma olhada em um filme mais sério. O filme de 2015 acompanha a luta pelo sufrágio na Inglaterra, os planos e as estratégias criadas pelas líderes dos movimentos a fim de ganhar notoriedade para a causa e a garantia de direitos. Sendo as sufragistas inglesas mais incisivas, o longa dá uma boa dimensão de tudo que teve que ser feito por essas mulheres e as atitudes radicais que precisaram tomar para serem ouvidas. O filme pode ser encontrado no Google Play e na Apple TV.

Trailer do longa “As Sufragistas”, de Sarah Gravon. Fonte: Universal Pictures/ Divulgação.

Esse texto teve como referência de nomes, data e história do movimento sufragista em Recife, o artigo escrito por Mirella Tuanny Ferreira Lopes, publicado no 18° Redor, – Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero

Três escritoras nordestinas esquecidas na literatura

Em comemoração ao Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, conheça (ou relembre) escritoras do Nordeste que foram ocultadas da tradição literária, uma vez que a escrita feminina foi cedida ao campo de invisibilidade pelo cânone de caráter masculino da literatura. Com suas jornadas engajadas em movimentos sociopolíticos, Dionísia Gonçalves Pinto, Maria Firmina dos Reis e Anilda Leão tratavam sobre temáticas que abordavam tabus e a luta por direitos — sejam eles das mulheres, do negros ou dos indigenas. 

“Pois não só porque mulheres escritoras são esquecidas; são esquecidas sobretudo as mais atuantes, as feministas, em uma palavra”. 

Zahidé Muzart
Dionísia Gonçalves Pinto
Retrato de Dionísia Gongalves Pinto. Foto: Divulgação.

A potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, nasceu em 12 de outubro de 1810, na antiga cidade de Papari. Como escritora, carregou consigo o pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta. Obstinada e defensora dos direitos da mulher, escreveu aos 22 anos seu primeiro livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. 

Até seu falecimento em 1887, publicou outras 14 obras que, além de evidenciar o feminismo como temática principal, destacava os direitos dos escravos e dos indígenas. Entre seus escritos de maior destaque estão “Conselhos à minha filha” (1842), “Daciz ou A jovem completa “(1847), “A lágrima de um Caeté” (1849) e “Opúsculo humanitário” (1853).

“A esperança de que, nas gerações futuras do Brasil, ela (a mulher) assumirá a posição que lhe compete nos pode somente consolar de sua sorte presente.”

Opúsculo Humanitário

Considerada a primeira educadora feminista do Brasil, Nísia fundou escolas para meninas no Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde recebeu destaque por ministrar as disciplinas de gramática, português, francês, italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança e, com isso, alvo de ataques e críticas à la mode machista. 

Maria Firmina dos Reis
Pintura retra Maria Firmina a partir de descrição feita por pessoas que conheciam a autora. Foto: André Valente / BBC.

Nascida em 11 de março de 1822, em São Luiz do Maranhão, Maria Firmina dos Reis foi a primeira escritora negra e romancista do Brasil. Utilizou a literatura como instrumento para denunciar práticas escravistas, e através do pseudônimo de “Uma Maranhense” publicou “Úrsula” (1859), seu romance abolicionista. 

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (…) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”

Úrsula

Se destacou como a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão. Atuou profissionalmente como professora, e em 1880 fundou a primeira escola mista (para meninos e meninas) gratuita no Brasil, que na época foi motivo de escândalo para a sociedade. 

Responsável por inaugurar o que hoje conhecemos como literatura afro-brasileira, ela também publicou contos, histórias, ensaios, poesias, em revistas e jornais locais. A maioria dos seus manuscritos não foram editados e se perderam com o passar dos séculos. Entre as obras de sua autoria é possível citar “Gupeva” (1861), Cantos à beira-mar (1871) e A escrava (1887). 

Firmina morreu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães (MA), onde morava  na casa de uma ex-escrava.

Anilda Leão
Foto: Divulgação.

Anilda Leão nasceu Maceió, Alagoas, no dia 15 de julho de 1923. Aos 13 anos, publicou seu primeiro poema com o tema criança abandonada. Na escola, era tida como rebelde, característica registrada na personalidade da artista que, ao longo de sua história, passou a escrever sobre tabus como prostituição, virgindade e homossexualidade — pautas ainda discutidas na contemporaneidade.

No ano de 1950, após participar de um evento de fomento ao Progresso Feminino, passou a frequentar ativamente na Federação Alagoana, e mais tarde se tornou presidenta da instituição. Em junho de 1963, representou a Federação no Congresso Mundial de Mulheres em Moscou. Enquanto viajava, um boato circulava pelas ditas bocas da população de Maceió. “Anilda? Foi presa! Rasparam-lhe a cabeça”. A falsa notícia rendeu a Anilda horas de risos que, após o incidente, publicou o poema “Vou abrir as pernas para o mundo. Nove meses depois parirei a humanidade”.

Se casou aos 30 anos de idade com o poeta e escritor Carlos Moliterno. O casamento foi motivo de choque para seus parentes, uma vez que Carlos  separou de sua ex-esposa em uma época em que não havia a lei do divórcio. 

Em 1962, incentivada pelo marido, publicou seu primeiro livro de poemas “Chão de Pedras”. Nos anos 70, com a coletânea de contos “Riacho Seco”, conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras. No entanto, a obra só foi publicada em 1980. Publicou também as poesias “Chuvas de Verão”, em 1974; “Poemas Marcados”, em 1978 e “Círculo Mágico (e outros nem tanto)”, em 1993.

Ainda na década de 1970, realizou seu primeiro trabalho como atriz no seriado “Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra”. Também atuou nos filmes “Bye bye Brasil” (1980), “Memórias do Cárcere” (1984) e “Deus é brasileiro” (2002).

A partir dos seus contos, poesias, crônicas e artigos, se tornou colaboradora do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas, além de escrever para as revistas Caetés e Mocidade. Quando faleceu, em 2012, o escritor brasileiro Benedito Ramos a definiu como “única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez”.

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Trilogia da Febre, livro de Cristhiano Aguiar, é lançado pela Editora Vacatussa

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Trilogia da Febre é o novo título do escritor paraibano Cristhiano Aguiar, que já lançou “Na outra margem, o Leviatã” (Lote 42, 2018). Foto: Divulgação/Editora Vacatussa

“Trilogia da Febre”, coletânea de contos de Cristhiano Aguiar, é o novo título da Coleção Solidária, série da editora Vacatussa. O livro, que já se encontra à venda em formato e-book na Amazon, será lançado em uma live no Instagram da editora, no próximo sábado (1), às 16h. Toda a renda obtida com a venda do livro será doada para ações de assistência a pessoas em situação de rua.

O primeiro conto, “Anda-luz”, situa, no interior da Paraíba, um menino encarregado de levar um recado a um cangaceiro em meio à epidemia que assola o Nordeste da década de 1930. “As Onças” traz um cenário de terror misturado a realismo mágico, no qual uma médica e sua filha tentam sobreviver a um ataque de misteriosos felinos. Fechando a obra, “Firestarter” é o  monólogo de um personagem delirante e obcecado por fotografar e classificar incêndios.

Os contos, escritos entre 2018 e 2020, dialogam com o momento de incertezas vivido atualmente. Para o autor, a febre, conceito central da coletânea, vai além da doença: também se trata de delírio. “Nós vivemos esse estado de crise permanente no Brasil, como se fosse uma febre crônica. Ao longo dos três contos, mas em especial no último, chamado de Firestarter, eu ponho as narrativas em diálogo com esse segundo tipo de crise” diz, em entrevista.

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