Celso Furtado: Da economia à cultura, a luta pelo desenvolvimento

Celso Furtado foi um dos mais importantes economistas e ministros da Cultura do país. Em seu centenário, em meio a este período histórico, nada mais justo que relembrar sua trajetória.

Celso Furtado completaria 100 anos em 2020. Foto: Reprodução.

Sobre o autor: Welton Humberto é estudante de Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, e Agente de Pesquisa e Mapeamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Muito tem se falado sobre Celso Furtado nos últimos meses, sob a chancela do seu centenário. A comunidade acadêmica nunca largou a mão deste que, desde a publicação de Formação Econômica do Brasil (1959), é tido como um dos maiores pensadores das fundações econômicas, históricas e sociais do nosso país. Assim, esta vem produzindo, ainda que em tempos de pandemia, livros, artigos e palestras virtuais em torno de Furtado com um frenesi louvável. Mas não só a academia respira ares Furtadianos neste tão conturbado ano de 2020, alguns veículos de imprensa também. E é sobre tal fenômeno que me surge a pergunta que lançarei de forma imediata e que pretendo, aos moldes de um jovem admirador de Celso Furtado e curioso quanto aos assuntos do país, tentar resolver com você.

É o centenário de Celso Furtado que o coloca de forma calorosa nas discussões de 2020, ou é o acumulado do que nos trouxe até aqui, junto à trágica realidade social, econômica e cultural que vivemos neste fatídico ano que coloca, de forma tão calorosa, as comemorações do centenário de Celso Furtado?

Ousar responder tal pergunta exige que antes passemos por aspectos da vida e obra do ilustre homenageado. Para aspectos biográficos específicos, recomendo os “Diários Intermitentes 1937-2002” e a “Obra Autobiográfica”, ambos do próprio Celso Furtado. Porém, não posso me privar, mesmo assim, de trazer alguns fatos de sua biografia.

Celso Monteiro Furtado nasceu em Pombal, no interior da Paraíba, no dia 26 de Julho de 1920 e passou os seus primeiros 19 anos de vida no Nordeste, lugar onde  formou-se como indivíduo dividido entre a vasta biblioteca do pai, o advogado e professor de português que seguindo a tradição familiar viria a se tornar juiz, Maurício de Medeiros Furtado, e o contato com os grandes problemas econômicos e sociais enfrentados pela região. Em 1940 debanda ao Rio de Janeiro para estudar Direito. Começa ganhando a vida como jornalista da Revista da Semana e logo depois ingressa no serviço público, onde a temática da administração pública o fascina e vira seu objeto de estudo.

Em dezembro de 1944, após o término da faculdade, Celso Furtado é convocado à guerra e parte para a Itália junto da Força Expedicionária Brasileira, tornando quase um ano depois. Em 1947, dois anos após sua volta, Celso vai à Paris. Na capital da França, aprofunda os estudos relacionados à administração, economia, história, ciências sociais e defende a tese “A economia colonial brasileira nos séculos XVI E XVII” (1948), que o rendeu o título de doutor em economia pela Universidade de Paris-Sorbonne.

Para dar fluidez ao texto e vazão aos fatos, devo recorrer a narrativa com a efervescência com que tudo se deu na trajetória do nosso tão estimado pensador, após término dos seus estudos em Paris. De Sorbonne, Celso vai trabalhar, em 1949, na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), contribuindo de forma destacável para a formação da mais influente escola de pensamento econômico da América Latina. Em 1957, deixa a Cepal e vai para a Universidade de Cambridge, onde passa um ano dedicado à academia e retorna ao Brasil com os originais do seu livro “Formação Econômica do Brasil”, que é publicado em 1959, traduzido para 9 idiomas e tido como um marco na historiografia econômica.

Celso Furtado e Gilberto Gil: dois Ministros da Cultura do período democrático brasileiro. Foto: Reprodução.

Doravante, o brilhantismo teórico encontra a prática e ele vai assumir cargo de direção no BNDE, instituição na qual terá como foco a região Nordeste e suas questões. Idealiza e dirige a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e ali implanta suas políticas de desenvolvimento para a região até o seu exílio, em 1964, devido ao Golpe Militar.

Para Furtado, é no Nordeste que se mostram de forma potente todos grandes problemas estruturais do Brasil. São as desigualdades da própria região e o subdesenvolvimento relativo do Nordeste ante o Sudeste, ambos fragmentos de um país subdesenvolvido que mostram como, desde o Brasil colonial, a manutenção da concentração da renda e da riqueza, o atraso tecnológico e o modo de dominação social são peças dispostas no tabuleiro político, a fim de garantir, em tese, que um único grupo ganhe sempre o jogo da acumulação do capital, sacrificando o bem-estar social e desenvolvimento econômico. Seja da região Nordeste, seja do Brasil.

Cultura e Desenvolvimento 

Voltando do exílio, após a anistia política de 1979, além de se dedicar às atividades acadêmicas, Celso participou ativamente das discussões políticas do país, contribuiu para a elaboração do programa econômico do governo de Tancredo Neves e de 1986 a 1988 foi Ministro da Cultura do Governo Sarney (1985 – 1990). Pode parecer estranho, para quem está o conhecendo nestas linhas, que Furtado tenha sido indicado ao Ministério da Cultura. Afinal, o que diabos faz um economista administrando essa pasta?

Para tal pergunta, o próprio Furtado responde em vários momentos ao longo dos seus escritos, mas trago uma citação, em especial, do livro Cultura e desenvolvimento em época de crise (1984), no qual podemos encontrar a seguinte reflexão:

 “Na fase em que nos encontramos, de explosão dos meios de comunicação, o processo de globalização do sistema de cultura terá que ser cada vez mais rápido, tudo levando a crer que estamos fechando o ciclo que se abriu no século XVI. Todos os povos lutam para ter acesso ao patrimônio cultural comum da humanidade, o qual se enriquece permanentemente. Resta saber quais serão os povos que continuarão a contribuir para esse enriquecimento e quais aqueles que serão relegados ao papel passivo de simples consumidores de bens culturais adquiridos nos mercados. Ter ou não direito à criatividade, eis a questão.”

Para Celso Furtado, o Estado não devia apenas estimular o consumo de conteúdo cultural, mas sim trazer condições materiais para que a cultura nacional pudesse ser produzida e consumida, visto que a produção cultural é elemento primordial para o desenvolvimento de um povo. Como afirmou Furtado no Fórum dos Secretários da Cultura, em 1987:

“O Estado que assumimos é instrumento de um povo livre que, não obstante as desigualdades, luta para realizar um projeto de resgate da dívida social. Cabe a nós atuar em função desse projeto. Temos, por conseguinte, que nos preocupar profundamente com a questão das desigualdades sociais e regionais do Brasil, que limitam e inibem a difusão de valores do patrimônio de todos os brasileiros. O Brasil de hoje é marcado por profundas desigualdades no que respeita ao acesso a esses valores. Cabe ao Ministério da Cultura a responsabilidade maior no enfrentamento desse desafio. Por outro lado, temos enorme capacidade criativa que não chega a se manifestar em razão de constrangimentos sociais, o que constitui outro desafio para a política cultural. E ainda temos a necessidade de afirmar nossa identidade, de preservar sua integridade, em face da multiforme ofensiva da indústria cultural. Portanto, o Estado para nós é essencialmente o instrumento de um projeto de difusão de valores, de abertura de novos canais de comunicação, de descoberta de fontes de criatividade e de preservação da identidade de nossa cultura. É assim que pensamos aqui no ministério.”

Assim, Furtado foi o criador da primeira lei de incentivos fiscais à cultura, a Lei Sarney, cujo principal propósito era o de evidenciar a sociedade como um motor para a viabilização da produção cultural, com olhar especial para os aspectos regionais do país. Projeto que veio a ser consolidado em 1991 com a aprovação da Lei Rouanet.

Então, após a breve caminhada feita pela trajetória deste que dedicou a vida para entender e mudar o Brasil, a resposta à pergunta feita momentos atrás salta diante dos nossos olhos. É sim o acumulado do que nos trouxe até aqui, junto à nossa trágica realidade social, econômica e cultural que coloca, de forma tão calorosa, as comemorações do centenário de Celso Furtado. Pois nele, na sua leitura do Brasil e na sua atuação ante a realidade, encontramos esperança e vigor, não para repetir os mesmos passos, mas para que venhamos com o mesmo ímpeto dispor-nos a pensar e atuar na luta por um Brasil diferente.

E finalizando mais uma das incontáveis homenagens dirigidas a ele, deixarei algumas palavras de Celso Furtado no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Ciências – Trechos retirados do livro “Celso Furtado – A Esperança Militante” (2020) – um ano antes da sua morte, em 4 de junho de 2003:

“As ciências evoluem graças a agentes que são capazes de atingir e ultrapassar certos limites. Não basta armar-se de instrumentos eficazes. O valor de um cientista resulta da combinação de dois ingredientes: imaginação e coragem. Em muitos casos, cabe-lhe também atuar de forma consistente no plano político, portanto, assumir a responsabilidade de interferir no processo histórico. Não devemos esquecer que a ciência, essa maravilhosa criação do engenho humano, está condicionada pelos valores da sociedade onde é gerada… Se ajudam os homens a enfrentar uma profusão de problemas, também contribuem para conformar a visão do mundo que prevalece em certa sociedade. Assim, podem servir de cimento ao sistema de dominação social em vigor, e eventualmente justificar abusos de poder… Faço essas reflexões para enfatizar a responsabilidade que nos advém coletivamente na construção de um Brasil melhor. Somos uma força transformadora deste mundo. Cabe-nos, a nós, intelectuais e cientistas aqui presentes, balizar os caminhos que percorrerão as gerações futuras.”

(Celso Furtado – Discurso de posse na Academia Brasileira de Ciências, 4 de junho de 2003)

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