Centenário da vida de Carolina Maria de Jesus: do papel do lixo ao papel dos livros

Há 107 anos vive Carolina Maria de Jesus, pois suas obras a fizeram eterna
Carolina Maria de Jesus. Autorretrato. Mulher negra com lenço no cabelo, na porta de sua casa, cor branca, e o livro Quarto de Desejo posicionado na sua frente.

Carolina Maria de Jesus e a sua principal obra, “Quarto de Despejo” (1960). — Divulgação

Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solteira de três filhos, foi catadora de papel e se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira. Ela amava a literatura, escrevia e lia todos os dias. A autora sempre acreditou no poder do que ela tinha a dizer. E quanto a isso, estava mais do que certa.

Carolina nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais. Filha de pais analfabetos, frequentou a escola somente até o segundo ano do Ensino Fundamental, devido às difíceis condições que levava. A escritora narra em sua obra mais famosa, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, que o sonho da sua mãe era que ela se tornasse professora. 

A autora não pôde concluir os estudos, mas seguiu percorrendo o caminho da leitura e da escrita por conta própria. A sua filha Vera Eunice, que dos dois aos seis anos é também personagem da obra Quarto de Despejo, contou em uma entrevista para a Rede TVT que sua mãe aprendeu a ler praticamente sozinha, porque procurava ler tudo o que pudesse. Vera Eunice se tornou professora. Realizou o sonho que também foi sonhado pela sua mãe, Carolina.

Quarto de Despejo: Diário de uma favelada é a primeira e principal obra da escritora. A publicação foi um choque para a sociedade na época, ninguém havia narrado a favela com tanta intimidade. O livro é um dos diários escritos por Carolina de Jesus, em que ela relata o seu dia a dia na favela do Canindé, que ficava localizada às margens do rio Tietê, em São Paulo. São 175 dias narrados pela autora, entre 1955 e 1960, nos quais ela relata seus dias, dos seus filhos e de seus vizinhos acometidos pela miséria, precariedade e violência. 

A realidade de uma despejada

Carolina afirmava que escrevia a realidade e tinha o objetivo de denunciar os problemas que existiam na favela. “Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade”.

Em diversas passagens ela se queixa dos políticos por entender que eles eram os responsáveis pelo alto custo de vida, enquanto negligenciaram a favela. Ela conta que as autoridades ignoraram o quarto de despejo, citando vereadores, deputados, governador e o presidente da república da época, Juscelino Kubitschek. “Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem: — Não chores por mim. Chorae por vós” — suas palavras profetisava o governo do Senhor Juscelino […] Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome”.

Ela conta que o país deveria ser governado por quem já passou fome, pois a fome também é professora. “[…] O que eu aviso aos pretendentes a política é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” E Carolina de Jesus sabia descrever a fome.

“Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.” 

Cor que não é a única metaforizada pela escritora. O roxo é usado para descrever a amargura que envolve os corações dos favelados, e o preto define a sua vida, a sua pele, o lugar onde mora. 

Descoberta de Carolina

O livro foi publicado por uma iniciativa do repórter Audálio Dantas (1929-2018), que conheceu Carolina quando foi em 1958 ao Canindé para escrever uma matéria sobre a favela  que se formava à beira do Tietê. Carolina abordou o jornalista e contou que era escritora. 

Mas essa não tinha sido a primeira vez que Carolina de Jesus havia entregue os seus escritos para que fossem publicados. A mineira já havia mandado diversas vezes o seu material para editoras, inclusive para uma dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Entretanto, o repórter Audálio de imediato soube reconhecer a grandeza do que tinha diante de si. “A história da favela que eu buscava estava escrita em uns 20 cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história — a visão de dentro da favela”, conta Audálio na introdução do livro publicado em 1960.

O jornalista também foi editor do livro e decidiu por preservar a linguagem de Carolina, mantendo as marcas de oralidade da autora. O seu trabalho de edição foi mais voltado para selecionar o que iria para o livro, visto que Carolina era extremamente descritiva sobre o seu cotidiano. As marcas de oralidade dão ao texto uma maior aproximação do leitor com a voz da autora, que por ter pouco tempo de escolaridade não dominava a norma padrão da língua portuguesa. 

Um olhar que metaforiza a vida

A falta de formação escolar não impediu a autora de retratar a realidade das pessoas periféricas, nem de ter um pensamento crítico, além disso, na sua escrita, prevalecem metáforas e metalinguagem. Como o próprio título do livro menciona, a autora cita várias vezes na obra que a favela é um quarto de despejos.

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”.

A analogia do quarto de despejo surgiu após Carolina de Jesus ser expulsa, junto com outros moradores, da antiga favela do Canindé para que fosse construída a atual Marginal Tietê. “[…] fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que a favela é o quarto de despejos de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, descreve.  

No livro Quarto de Despejo, a personagem principal é a fome. Carolina de Jesus narra sua rotina de tentar fugir da fome, matar a fome dos seus filhos e sair de uma vez da favela. Ela trabalha catando papel na rua e qualquer outro material que possa vender, mas o dinheiro não é suficiente. Muitas vezes ela precisa revirar os lixos em busca de comida. 

O desejo de ir embora da favela acaba se misturando com outros sonhos. Carolina Maria de Jesus sonha com uma vida melhor enquanto dorme, assim como quando está acordada. “[…] Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. […] Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades.

É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela”. 

Ela também sonha com o dia em que seus livros lhe renderão uma casa de alvenaria. Casa de Alvenaria: diário de uma ex- favelada é o título do seu segundo livro, publicado em 1961. 

O álcool e o álbum

Além da fome, a mineira relata a constante violência na favela. Muitas mulheres para não serem agredidas pelos seus maridos, corriam para a rua despidas. E os homens eram basicamente divididos em três categorias: os doentes, os desempregados e os embriagados. Carolina conta que muitas vezes o álcool motivava as brigas entre os casais, e o alcoolismo aparece como um problema que atinge uma grande parte daqueles moradores, inclusive as crianças.

Já ela se mostra totalmente contra o abuso da bebida. “[…] não vou beber. Não quero viciar. Tenho responsabilidade. Os meus filhos!”. Como também observa-se na música A Marcha do Pinguço composta por Carolina Maria de Jesus. Ela deixa bem claro em sua marchinha de carnaval “Eu é que não sirvo para ser mulher de pinguço.”

Verônica Ferriani e Rolando Boldrin interpretam A Marcha do Pinguço, de Carolina de Jesus.

Carolina Maria de Jesus gravou um álbum de samba chamado Quarto de Despejo, em 1961. Aos interessados em sua literatura, vale a pena conferir:

Álbum Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

O fim de Carolina

O livro Quarto de Despejo é encerrado com uma frase que demonstra que a rotina de uma favelada não muda, não acaba: “1 DE JANEIRO DE 1960  Levantei as 5 horas e fui carregar água.”

Como exceção, para a autora aquela rotina mudou após a publicação do seu livro. A escritora fez bastante sucesso e conseguiu a sua sonhada casa de alvenaria. Mas infelizmente, no final da vida ela estava novamente passando  necessidades e faleceu de asma em 1977, em sua casa no sítio em Parelheiros, município de São Paulo.

Carolina Maria de Jesus se tornou a escritora negra mais traduzida e mais editada no mundo. A sua história está presente em 46 países e em 16 línguas, tendo sido best-seller em vários países. Em fevereiro deste ano foi homenageada recebendo o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

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