Mary Shelley e o “Frankenstein”: uma crítica ao patriarcado

Nascida em 30 de agosto de 1797, em Londres, Mary Wollstonecraft Godwin, mais conhecida como Mary Shelley, foi uma das maiores escritoras de seu tempo.

Mary Shelley, autora do romance “Frankenstein” . Foto: Reprodução

É difícil estar à altura das expectativas de seus pais. Quem poderia ter vivenciado isto melhor do que Mary Shelley, filha de dois dos mais radicais e proeminentes filósofos do século XVIII? Ela foi a filha de William Godwin, um grande filósofo político da Grã-Bretanha e Mary Wollstonecraft, também conhecida como a mãe do feminismo, que em sua obra pioneira, “A Reivindicação dos Direitos da Mulher”, apresentou o argumento da emancipação da mulher em uma sociedade patriarcal, que essencialmente exigia que as mulheres apenas “procriassem e apodrecessem”. Hoje, Shelley continua tão amplamente lida quanto seus pais, em grande parte devido ao seu primeiro trabalho ficcional “Frankenstein” ou “O Moderno Prometeu” (1818), sua publicação deu início ao gênero de ficção-científica. 

O gênero de ficção-científica foi inaugurado por uma jovem mulher, que tinha apenas 21 anos quando uma das obras mais influentes da literatura foi publicada em 1818.

Como dissemos, Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797, filha de dois dos escritores: William Godwin, utópico anarquista, e a feminista Mary Wollstonecraft, que morreu devido a complicações no parto. Depois de uma infância difícil com uma madrasta exigente, ela deixou sua casa aos 17 anos, com um dos colaboradores de seu pai, o poeta Percy Bysshe Shelley. Os dois se casaram logo após o suicídio da esposa de Percy, dois anos depois. O casamento foi infeliz, tumultuado pelos relacionamentos sexuais abertos “utópicos” de Percy Shelley e assombrado pelas mortes prematuras de três de seus quatro filhos. Aos 19 anos, em 1816, ao visitar Lord Byron com Percy, no Lago Genebra, os três se desafiaram a escrever uma história de terror. O resultado foi o romance “Frankenstein”, que seria publicado em 1818, se tornaria um sucesso popular instantâneo, e teria seu personagem principal transformado em um mito na literatura universal. Quatro anos mais tarde seu marido se afogou em um acidente de barco. Mary Shelley criou o filho com dificuldades, recebendo uma pensão anual de seu sogro, Sir Timothy Shelley, que se recusou a conhecê-la. Em 1844, com a morte do avô, o filho de Mary e Percy Shelley herda suas propriedades e Mary passa a ter uma situação financeira confortável. Ela nunca se casou de novo, mas continuou como escritora de sucesso até sua morte, em Londres, em 1851.

Ao seguir os passos de sua mãe, Shelley trabalhou em defesa das mulheres subjugadas na sociedade. No entanto, o traço da consciência feminista em seu trabalho foi largamente ignorado. Não foi, até as críticas feministas do final do século XX, que os estudiosos descobriram um ataque implícito à ciência e ao patriarcado em seu romance gótico “Frankenstein”, mostrando a consciência de Shelley da subjugação das mulheres em um mundo movido pela razão, pela ciência e pelo patriarcado. Isto pode ser uma surpresa porque “Frankenstein” mal apresenta um personagem feminino forte e independente e, ironicamente, a maioria das personagens femininas morre pela culminação do romance. Entretanto, foi justamente na negação das personagens femininas que Shelley procurou explorar sua questão mais relevante.

Frankenstein: edição comentada; Mary Shelley. Editora Zahar.

A obra Frankenstein gira em torno do personagem de mesmo nome, Victor Frankenstein, um cientista ambicioso que tenta desfazer o ciclo da natureza, trazendo de volta os mortos à vida. Em seu laboratório isolado, Victor consegue reanimar um cadáver – mas enojado com sua própria criação monstruosa, ele a abandona. A criatura, querendo ser amada e aceita pelo mundo, está cheia de raiva contra seu mestre e provoca estragos em sua vida, pedindo-lhe uma companheira para compensar sua existência solitária. Victor inicialmente concorda, mas percebendo que suas criaturas poderiam procriar e levar à aniquilação da raça humana, Victor rasga sua criação feminina em pedaços. O monstro jura vingança, levando  a trama a uma tragédia final.

A morte de personagens femininas no romance é o suficiente para questionar como a ciência e o desenvolvimento são essencialmente uma empresa masculina e subjugam as mulheres (uma teoria posteriormente defendida pelo ecofeminismo). Entretanto, a leitura feminista mais estimulante do romance foi feita por Anne Mellor em seu livro “Mary Shelley: Sua Vida, Sua Ficção, Seus Monstros”, em que Mellor afirma que Frankenstein é uma crítica feminista da própria ciência. A criação de um novo ser feita apenas por Victor, sem qualquer assistência feminina, pode ser interpretada tanto como antinatural quanto patriarcal. Mellor observa: “Ao tentar ter um bebê sem uma mulher, Victor Frankenstein falhou em dar a seu filho a maternidade e o cuidado que ele requer, o próprio alimento que Darwin explicitamente equiparou ao sexo feminino”.

Victor, assim, ao dar vida a uma criatura, não só usurpa o poder de Deus, mas também o das mulheres. Burton Hatlen, em seu ensaio “Milton, Mary Shelley e Patriarcado”, estende o argumento de Mellor ao apontar como, sob o mito patriarcal, o ato de criação é visto como exclusivamente masculino e a fêmea, na melhor das hipóteses, é visto como um “recipiente” que contém apenas a vida gerada pelos homens. A criatura, assim criada por Victor, não recebe nenhum amor, cuidado e afeto geralmente associados à feminilidade. Hatlen menciona que esta remoção da mãe de uma família patriarcal, reduz a criança ao mero status de um objeto. Filmes como Splice – A Nova Espécie (Vincenzo Natali) 2009, e Morgan – A Evolução (Luke Scott) 2016, que carregam o mito de Frankenstein também apontam o mesmo.

É importante entender o contexto no qual Shelley escreveu Frankenstein. O final do século XVIII foi um período de  Revolução Industrial, no qual houve a rapidez dos estabelecimentos das fábricas e máquinas. Em razão dessa supremacia das máquinas e do novo status quo, as mulheres (e os homens), cujos empreendimentos baseados em casas de campo entraram em colapso sob as pressões colocadas, em tese, pelo mercado capitalista durante a Revolução supracitada, ficaram desempregadas. Esta foi também uma época em que o domínio da ciência era inteiramente masculino. Parece haver um medo feminista em Shelley, pois ela viu os papéis femininos serem completamente negados em sua sociedade. Em uma era da engenharia genética, que procura criar híbridos de animais sem o ato natural de procriação, uma história cautelosa como a de Frankenstein não poderia ser mais relevante.

O filme biográfico “Mary Shelley” (2017), de Haifaa Al-Mansour, apesar de não ser inteiramente uma fiel interpretação da vida de Shelley, apresenta uma cena realmente memorável no final, quando uma jovem Mary (interpretada por Elle Fanning) vai a uma editora para que seu romance seja publicado. A editora está incrédula de uma história tão profunda de dor, culpa e perda escrita por uma mulher, rejeitando-a para ser obra de seu marido Percy Shelley. Mary responde apropriadamente: “Você ousa questionar a capacidade de uma mulher de experimentar a perda, a morte, a traição – tudo o que está presente nesta história – minha história!”

“Frankenstein” foi pioneiro no gênero de ficção científica e sua influência permeia a cultura popular, com muitas adaptações e recontagens. Mary Shelley já foi aclamada como uma figura revolucionária no gênero, mas as pessoas pouco sabem de sua postura feminista, que formou a mensagem central de seu romance de estréia e, também, o mais aclamado deles. Shelley, como uma jovem escritora, não se intimidou com seu legado familiar nem com sua associação com outros contemporâneos masculinos como Lord Byron e seu próprio marido Percy Shelley. No cânone romântico, se há uma mulher cuja influência não pode ser negada, ela é, de fato, Mary Shelley. Ou Mary ‘Wollstonecraft’ Shelley, como gostava de ser chamada.

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