Conto | Cine Delirium

Em Cine Delirium acompanhamos um homem nostálgico diante de seu declínio, mas que considera sua vocação como motivo primordial de sua vida.
Cine Delirium
Ilustração de Lucas Santos

 Numa estreita rua, localizada em um bairro comercial, detentor de um caráter utilitarista, encontrava-se um edifício portador de uma arquitetura quase pungente, mas que agora, possuía uma fachada que fazia questão de expor que tinha sido levantado lá pelos anos 60.

Tirando o Cine Delirium, todas as construções ao redor eram cinzentas e estéreis; blocos idênticos de tijolos que não sentiam vergonha alguma de ostentar sua feiura insalubre.

Quem se aventurava a entrar naquele lugar, dava logo de cara com uma bilheteria, cuja cabine parecia saída de uma rodoviária antiga, na qual era impossível ver quem estava recebendo o dinheiro. Apenas era possível enxergar as mãos que empurravam os ingressos com certa rigidez.

O lugar era grande, muito alto e vazio. O eco que o som produzia nesse imenso salão, denunciava que, outrora, ele tinha sido habitado por vários objetos. No entanto, agora possuía apenas alguns cartazes e velhos panfletos; panfletos esses que davam o tom da pintura desbotada das paredes.

Ao atravessar a passagem que dava acesso à sala, sentia-se logo um cheiro acre que parecia ser uma mistura de água sanitária e desinfetante barato; um fedor que penetrava e ofendia qualquer nariz que se aproximasse do lugar. As pilastras e arabescos que um dia já foram dourados, passavam a impressão de que, em seu auge, o lugar era contemplado até pelo crítico mais purista. No entanto, atualmente soprava um ar de museu vazio, carregado de certa nostalgia decadente.

Estantes colossais subiam à altura quase indefinida do escritório, esse lugar escuro, iluminado apenas pelas chamas do incêndio branco do sol que escapavam através do basculante. Um homem de cabelos grisalhos, vestindo um figurino de bancário, entrou e caminhou em direção à mulher sentada atrás da escrivaninha.

– Já mancharam nossa pintura nova? Bando de vagabundos. Esses putos não tem mais o que fazer?

– A parede não é nova, a última vez que pintamos foi há dois anos – disse Marta.

Marta era uma mulher esguia de rosto adunco e pele morena. Mas o que mais chamava atenção eram seus olhos cansados. Resignados das constantes negativas recebidas pela vida.

– Cobrimos a pichação da semana passada ou não? Então é nova. Vou te falar, esses vagabundos que se dizem “protestadores”, tão protestando contra o que? Desde quando nosso trabalho não é honesto? Não vivemos em um mundo livre? Todo mundo não ganha o seu?

– São outros tempos. Outra geração. Os jovens de hoje têm muito mais acesso a informações e tem outra mentalidade. – Disse Marta enquanto abaixava a tela do seu notebook no qual jogava paciência com uma atenção monástica.

– Que se foda se é outra geração. Não se bate mais punheta? As pessoas não querem mais um relaxamento de qualidade? Sem correr o risco de ter que ver seu pinto no fundo da privada depois de uma mijada. É o melhor custo benefício que alguém pode encontrar pra ter uma grande experiência artística e ainda de quebra dar uma boa gozada. Porra de outros tempos. Antes os puritanos moralistas que enchiam o saco. Mas os puritanos e moralistas de hoje são tão burros que nem eles mesmos sabem o que querem e em que acreditam. Agora me aparece esses ditos “progressistas”. Parece que nesse “novo tempo” que tu fala, o progresso é tapar as bucetas que botam o pão na mesa. Só é permitido distribuir de graça agora. Cantarolar um som ridículo, rebolando e sentando em qualquer um, é liberdade, é progresso, é se tornar dono de si. Mas um filme bem feito, com todos os cuidados profissionais é “exploração”. Esses picas são uma piada. Não arrumam a própria cama e querem arrumar o mundo. Não enxergam a própria sujeira, e se por um milagre enxergam, ignoram. Mas o mundo? Ah, o mundo precisa ser salvo! Os coitados dos pratos não precisam ser resgatados do mosqueiro e da podridão. Quem precisa é o mundo. Mesmo que ele não tenha pedido ajuda nenhuma.

Quando Francisco começava a falar, não conseguia parar nem se quisesse. Gesticulava de modo que parecia estar regendo uma orquestra durante a execução de Carmina Burana ou dando uma palestra motivacional em um estádio de futebol. Fazia e vivia tudo de forma exagerada, como se fosse um guerreiro lutando por cada segundo da sua vida.

– Quais são os filmes da sessão de hoje? – Perguntou ele.

– “Rebuceteio: o retorno” e “No reino dos sentidos”.

– Ótimo. Tá vendo? Como alguém pode querer impedir a circulação de obras como essas? Não é essas coisas grotescas que se encontram por aí na internet. Eu tenho o máximo de cuidado estético na hora de comprar esses filmes. Eu aposto que nenhum desses ditos “progressistas” chegaram a assistir nem que seja dez minutos de qualquer um. – Sempre que ele falava a palavra “progressista”, balançava sua cabeça e fazia aspas com as mãos. -A maioria desses filmes mostram o valor da inocência e o prazer transgressivo da sua violação, Marta. O profano violando o sagrado, em tamanho colossal, bem na nossa frente. A nuance do contato. A sutileza brutal em que um corpo se choca no outro. Nesses filmes, a gente consegue se perder e imergir nessa realidade erótica de uma maneira que até Eros ficaria orgulhoso. Sentimos o cheiro, Marta. A gente consegue ver e sentir o cheiro da vida como ela é.

Toda vez que começava a falar do seu cinema e seus filmes, filmes esses sempre escolhidos a dedo, suas orbitas brilhavam. Era como se ele fosse André Bazin e os filmes que exibia fossem os Cidadão Kane da putaria underground. Seu Olimpo de fantasias agora era frequentado apenas por bêbados, prostitutas e homens que pulam a hora do almoço pra receber boquetes. Ou pra fazer boquetes. Mas ele não se importava. Como sempre se orgulhava em dizer, enxergava todos de igual pra igual. Seja ele o mendigo, a prostituta, ou o presidente do país. Clientes deveriam ser tratados com toda pompa e cortesia, como só poderiam ser. Se orgulhava de transmitir alguma experiência pra essas pessoas que, de outro modo, nunca teriam tido contato com algo desse nível. Jamais traíra seus princípios. Sempre agiu de acordo com seus valores e sua consciência. Sempre sustentado por seu lema de sacrifício, trabalho e deleite.

O cine Delirium, agora era visto pelos moradores da cidade como um lugar habitado por marginais e indivíduos sem densidade e caráter. Enxergavam-no como um templo impuro que jazia sob uma nuvem de mediocridade moral, coberto pela lama da degradação.

Francisco reclamava constantemente da situação atual, dessa regressão da sociedade e do próprio meio a qual dedicara toda a sua vida. Porém, o orgulho que sentia da sua vocação deixava seu ressentimento comendo poeira.

– Faltam algumas horas pra gente abrir – disse ele com uma voz mais tranquila – bota algum faroeste de Ford aí enquanto isso.

Sentado naquela multidão de cadeiras vazias, como um fantasma em meio a um cemitério abandonado, esperava com ansiedade de novato o momento em que a luz daria vida ao vazio branco da tela. Quando finalmente começou aquele ritual de imagens e cores, no qual sempre contemplava impassível, com uma concentração sacerdotal, foi transportado em uma viagem a seu passado.

Viu-se diante de uma enorme multidão que esperava com efusão pra entrar na sala e assistir a primeira exibição do controverso e famoso Garganta Profunda. Depois de muito esforço e insistência, ele conseguira a proeza da primeira exibição do filme no estado. Pra espanto de todos, em uma província remota no interior do Agreste. Além dos habitantes locais, várias pessoas de cidades vizinhas se fizeram presentes pra assistir aquele sucesso mundial.

A fila rodeava o quarteirão, uma multidão espumante e inquieta que parecia estar prestes a entrar em uma festa de Calígula. Até a polícia teve que ser acionada pra esfriar a temperatura dos mais animados. Jamais um evento assim causou tanto alvoroço nessa cidade interiorana. Olhando tudo aquilo, Francisco se sentia como Napoleão organizando seu exército. Seus olhos transmitiam apenas força e vigor. Nada o tirava do sério. O Fidel do pornô artístico. O líder detentor do poder de controlar as massas e apresentá-las àquilo que considerava a revolução da “arte de vanguarda”, da transcendência dos corpos; como costumava argumentar a todos do bar onde sempre tomava suas cervejas antes de voltar pra casa.

Alguns religiosos levantavam cartazes e balbuciavam sons inaudíveis, mas nem mesmo esses pareciam convictos de sua contestação. Naquele dia, havia uma aura na qual a curiosidade e os instintos mais primitivos superavam qualquer resquício de moralismo.

No momento em que a primeira leva da multidão se acomodou e as luzes se acenderam, ele sentiu alguma coisa dentro de si, uma sensação que apenas tinha experenciado na infância. De repente, seus olhos umedeceram. Porém, logo tratou de bater no próprio rosto e evocar Napoleão.

***

A casa de Francisco era cheia de grandes móveis, quadros coloridos e diversos objetos que nem ele mesmo lembrava qual função aqueles trecos exerceram em sua vida. Gostava de acumular coisas. Sua casa era o legítimo ninho do imperador de uma Roma caída, prestes a ser tomada por bárbaros.

Na cozinha quente, em frente da pequena televisão, estava Jana. Sua esposa tinha cabelos ligeiramente curtos, uma voz macia e uma fala provinciana que denunciava uma certa falta de sofisticação, mas um imenso e inocente charme.

Ao chegar do bar, no qual mantera o hábito religioso de beber suas cervejas após o expediente, Francisco sempre tomava um banho e sentava-se na mesa à espera do seu jantar.

Nesse dia, ao levar o prato de macaxeira e carne de sol que Francisco sempre amara, Jana, por um descuido, deixou um copo cair no chão.

– Tá maluca mulher? Presta atenção, porra! – Gritou Francisco com uma expressão furiosa.

De uns tempos pra cá, até o episódio mais corriqueiro era capaz de deflagrar um conflito arrasador. Gritarias, ameaças, e choros tornaram-se comuns no dia a dia daqueles dois. Talvez o pior momento do dia, tanto de Jana, quanto de Francisco, era quando ele voltava pra casa.

Francisco passara boa parte da vida oscilando da sensibilidade genuína à brutalidade, do carinho sincero a terrível irritação. Mas agora, sua hybris o dominava de modo que nem ele mesmo tinha consciência, congelando assim seu pêndulo dos sentidos apenas de um lado.

Após aquele grito ter saído de seu peito, ele caminhou em direção a porta de casa. Ao abri-la, a raiva que viera do nada, de repente deu lugar a dúvida e a confusão. Teve um impulso de escapar e fechar a porta com toda a força que possuía, contudo, sentiu o tempo paralisando, se enxergou como um ator em um teatro de máscaras de papelão. Toda a sua fúria parecia falsa, projetada pra combinar com uma vida de plástico.

Ao sair, encostou a porta e sentou no meio fio. Tentou desvendar o momento no qual chegara aquele ponto. O momento no qual até a queda de um copo se transformava na Terceira Guerra Mundial. Sua cabeça rebobinara, com uma velocidade típica das fitas cassetes que costumava assistir seus faroestes, na tentativa de buscar de onde surgira tanta raiva, mágoa e ressentimento. Voltou e passou por momentos felizes, momentos tristes, e outros momentos que não sabia nem como julgar. Mas nada de encontrar a causa, o inicio de tudo. O acontecimento principal que fizera o cordão da harmonia ser rompido. Nada. Nem uma morte de um duque. Nem mesmo uma invasão a algum país aliado. Chegou à conclusão de que NADA era a única coisa que podia fazer. Ele nem tinha idade pra mudanças mesmo. Mas pelo menos tinha seu cinema. Isso sabia que jamais poderiam tirar dele.

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