Conto | Eis o Homem

Conto exclusivo para o Café Colombo sobre a história de um homem ridículo forçado a encarar seu vazio e suas memórias

I

Sempre se considerara um homem focado. Vivia por seus objetivos. Comia bem. Se orgulhava de sua inteligência acima da média. Abrira mão de sua carreira artística para ter uma vida estável. Evitava animais, filhos ou qualquer coisa que pudesse ameaçar sua paz. Para dormir, engolia pílulas que preenchiam os frascos que empilhavam-se sobre seu criado mudo. Ao acordar, bebia o combustível que descia aos jatos da cafeteira instantânea. Sua locomotiva de pele e ossos funcionava a todo vapor.

Mas um dia aconteceu uma coisa terrível. Teve notícias de que um vírus surgido lá do outro lado do planeta chegara até sua cidade, trazendo consigo uma quarentena. O maldito vírus cruzou um oceano imenso para tirar dele aquilo que sempre mais temera perder: sua liberdade.

II

Em casa, sozinho, percebeu algo que nunca havia percebido. O tempo. A passagem do tempo. Se viu nadando, afogando-se, sendo sugado pelos ponteiros do relógio que todos os dias marcavam as mesmas horas. Um eterno retorno sádico. Sentiu sua alma sendo desvelada das coisas superficiais que outrora cobria esse buraco. Aquilo que achava ser a verdade, aquilo que nem possuía consciência de que poderia ser outra coisa, se esvaiu grão após grão.

Tudo o que fazia o entediava. As palavras que manchavam os papéis dos livros que tanto amara, palavras que o deixava em êxtase, apenas por ter o privilégio de se deleitar com aquelas sintaxes formidavelmente estruturadas; palavras que pareciam ter sido escritas por algum deus, e que agora já não significava mais nada. Passou a viver apenas em sua mente. Alimentava memórias que há muito haviam sido perdidas no subsolo do seu ser.

Lembrou-se de um dia no qual caminhava a noite sobre as areias com sua doce companheira, quando decidiram entrar no mar. Aquela escuridão total que unificava o céu e as águas, a energizava, fazendo com que o brilho dos seus olhos fosse a única fonte de luz no perímetro que ocupavam. No entanto, aquilo o assustava. Tinha a sensação de caminhar em direção ao nada. O negrume molhado e frio, era para ele um pesadelo. Precisou reunir todas as forças para esconder aquele pavor da morte – que vez ou outra batia à sua porta – mas que agora atravessava sua espinha de forma dolorosa. Só foi capaz de extrair a força que precisava da faísca daqueles olhos, os quais detinham o enorme poder de deixar sua mente calma.

Porém, agora, ele se deu conta de que seus impulsos incontroláveis fizeram tudo o que podiam para afastar da sua vida aqueles olhos. Aqueles olhos inteligentes, maduros e afetuosos. Pela primeira vez, refletiu que sua vida era movida por desejos superficiais. Desejos esses que se deu conta nem mesmo serem verdadeiramente dele. Tudo o que tinha de sólido, belo e sublime, deixou que escorresse. Fez com que escorresse.

Tentou usar todas as armas ao seu alcance para frear sua obstinada mente, uma mente que carregava uma vontade inexorável de se debruçar sobre a abundância do passado. Tentou se agarrar a seus estudos de filosofia; a todo aquele conhecimento que sempre se orgulhou possuir.  “A vida é feita daquilo que faço e daquilo que me acontece. Não tem como refazer o passado. Viva no presente.” disse ele em voz alta. Mas nada disso adiantou. No fundo, sabia que tudo isso não passava de conhecimento fajuto. Um artifício no qual se apoiava para expelir toda sua inteligência. Toda sua sabedoria vazia. Sabedoria que não servia para nada além de inflar seu ego e impressionar os outros. Jamais pôs aqueles conhecimentos em prática. Jamais o que saia de sua boca ganhara uma função real, uma função no mundo da vida. Pois nunca saíra do piloto automático. Nunca. Até aquele dia. Ao se dar conta de tudo que perdeu, de tudo o que nunca foi capaz de enxergar; todos os afetos primordiais da vida humana, o contato próximo com a família, a conversa com os amigos, os abraços de conforto, o conselho maternal em um momento de angústia. Ao se dar conta que destruiu tudo o que realmente importa: ele desabou.

“Estaria sozinho se tivesse feito tudo diferente?”

Sentiu seu peito e sua cabeça derreterem, como se fritassem batatas no centro de sua alma. Sentiu a terra se mover de forma alucinante, de maneira que nenhum professor de geografia jamais explicara a seus alunos. Então chorou. Chorou como se fosse um bebê consciente de ter sido arrancado do conforto do nada e posto no meio do campo de batalha desse mundo trágico.

III

Em uma manhã ensolarada, após a sexta badalada do sino da sua cabeça, acordou com uma sensação jamais sentida desde quando foi expulso da infância. Enxergava beleza nas coisas mais ordinárias que habitavam ao seu redor. O canto dos pássaros, agora era o que uma peça de Bach jamais fora para ele. Contemplou a árvore, cujas folhas bailavam em sua varanda. Deixou o vento tocar seu rosto, como se fosse o carinho da mulher mais delicada que já pisou no universo. Seu café percorreu sua língua, como se fosse o elixir da vida. Já não era mais aquele ser ridículo, atormentado e fraco. Estava tomado por uma coragem avassaladora. Poderia escalar montanhas, atravessar florestas ou caçar o predador mais temível da terra, coisas essas que jamais imaginara fazer. Sentiu-se unificado com o universo. Um só com Deus.

Duas semanas depois, seu corpo foi encontrado sobre chão da varanda. Jazia ao lado de um bilhete que continha apenas apenas duas palavras: Ecce Homo.

Socrates e uma reflexão sobre momentos difíceis

Os Amantes da Pont-Neuf e a inocência dos sentidos

A Harmonia Werckmeister e a dança contínua do cosmos

Eis o homem

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp