CONTO | Vitória, vitória

Em Vitória, vitória, Sidney Rocha escreve sobre o humanista-belchior, um homem que vive com o infortúnio de ter a cabeça de Voltaire presa em sua corcunda

por Sidney Rocha

fotografia de homem sentado, de casaco. pensando com suas mãos no rosto, e sua sombra refletida na parede. A imagem está em tons terrosos.
Imagem ilustrativa. Foto: Tomi Rantanen/Flickr
Se abrissem a corcunda do menino-belchior a canivete — isso deveriam ter feito no primeiro momento — descobririam lá dentro o busto calvo de Voltaire. O garoto caminhou toda a infância os olhos cavando o chão, para o filósofo poder rir melhor quando visse o mundo do rapaz, cidade, rua, casa, quarto e, se o espelho do banheiro pudesse alcançar o vidro do box,  ele mesmo se veria trepado nas espáduas do garoto-belchior.

Em alguns momentos onde a filosofia se melecava de biologia, Voltaire contemplava lá embaixo a única mulher a valer a pena para o rapaz-belchior. Mas quando Gorete tentava abraçar seu amor sonhando o futuro (o futuro que se dá pra sonhar múltiplo em seis segundos) terminava por acertar o narigão de Zadig, do filósofo, ou meter o dedo naquele olhão de pedra terrível. Por isso tudo acabava sem gozo e com vergonhosa melancolia, um para cada lado. Como o poetinha pendia de costas, ombros enconchados, restava a Gorete admirar pelo resto da noite o olho de brasa crepitando na intransponível face de nuvem de Voltaire, falando do fim das paixões e do quanto nenhum belo crânio de mulher pode virar o dele etc etc etc

Por essa e outras companhias, sabemos do patriota-belchior se alistar em duas guerras, mas nem ele nem Voltaire tinham qualquer serventia à vanguarda ou retaguarda, e passaram invisíveis pelos campos de batalha e pelas divisões. Então o humanista-belchior terminou mesmo por vencer ainda muito jovem na diplomacia.

Gostava de passar o dia com a bunda na cadeira, a sufocar Voltaire contra o espaldar de veludo, escrevendo discursos para o general. Assim, quando faltavam ideias sobre finanças, mercado, cubarnejões ou capitalismo ou o mundo liberal ou ardis de enfeitiçar o país goela a fora, ele empurrava a focinho do busto contra a cadeira até Voltaire retornar do inferno da sufocação com ideias novas e originais sobre política e nunca sobre o amor.

Embora todos na embaixada respeitassem o humanista-belchior, e no país o tomassem por gênio, não disfarçavam as risadas quando o aleijão aparecia na tv, o calombo pendendo à direita, falando sobre poesia, teatro, política. A voz era a sua, cuidava daquilo que o coração estava à borda, explicava-nos às lágrimas Gonçalves Dias e Dante e sobre as virtudes mas, do nada, era como se lhe tapassem a boca com a mão violenta de carrara, e a partir dessa hora por ele falava o sofista louco, a pedra exibida, o crítico literário, a escandalosa tumefação flamejante. E o humanista-belchior corria dali e passava muitos dias detestando-se o espelho. 

Os anos passam. O triste-belchior já estava cansado de servir aos governos amarelos e azuis. Precisava lutar todos os dias com a sempre impossível de carregar cabeça alegre do monstrengo da corcunda.

E ocorreu assim: o maduro-belchior, já as têmporas vencidas, entrou no meu consultório e pediu de joelhos para que eu o salvasse, apartando-o do fantasma mais cruel com o qual uma criança fora obrigado a conviver. Sem modéstias, tenho alguma experiência nisso, mas o caso do humanista-belchior resultava complicado. Parte dele já era mármore. Incisões assim são menos traumáticas se o paciente tem os ossos moles da pouca idade e alguma fé nas mágicas. 

Era tarde.

Agora, eu não podia cortar a carne sem fazer sangrar a pedra. 

“Mesmo assim, corte”.

Seria necessário amordaçar a herma ou o busto, se pudesse abrir a montanha, e calar sua voz de arara com tantas opiniões sobre inflação, juros, la Divinne Comédie-Française, logopeias, tributações, mas também a descrença nos livros, o que era afinal nenhuma fé nos homens, e nisso incluía sem dó seu anfitrião, o miserável humanista-belchior, quase desmaiado de dor e vergonha e torpor sobre a maca.

“Não me importa como, aparte-me desse tumor”, pediu o homem.

“Foda-se, frouxo”, gritava o diabo branco dentro do calo.

Os especialistas sabem, mas é preciso explicar: a pele dos poetas tem menos camadas que a dos padres ou açougueiros. Têm sensibilidade física, o bisturi pode atingir mesmo as emoções de um poeta como o humanista-belchior e aleijá-lo para o amor, por exemplo, ou para o riso, para sempre.

Os anos passam. O triste-belchior já estava cansado de servir aos governos amarelos e azuis. Precisava lutar todos os dias com a sempre impossível de carregar cabeça alegre do monstrengo da corcunda.

Também sabem os melhores davis: geme estranha alma no interior do mármore, de modo que eu lutava contra forças muito estranhas quando rompi os músculos redondos das costas do paciente-belchior. Avancei com o bisturi, desprendi o latíssimo do dorso e o ancorei com a pinça, e pude ver dentro do nódulo, do poço sanguíneo da corcunda, minarem os olhos vivíssimos do filósofo. Tinha ainda alguma doçura, como os do pobre-poeta-humanista-belchior.
 

“Largue-me, deixe-me aqui”, pediu e, pelo encanto dos analgésicos, também cansado, dormiu.

Enfim, tive paz para serrar, limar, torcer, afastar, soprar, espremer, rasgar, cerzir, destampar, desmontar vértebras e tirar lascas de fogo com marteladas na coluna, e um golpe a menos de romper as escápulas; manobras nada diferente dos planos econômicos ou qualquer cirurgia das escolioses.

Oito horas depois repuxei completamente o humanista-belchior para fora de Voltaire. 

Alguém da embaixada ou do exército veio à sala e o levou para longe, costurado, inconsciente, vencido e vencedor, ensanguentado e sem sangue, vivo, refém de algum milagre, de modo a não me sentir à vontade em rezar nem pedir pelo depauperado-belchior.

O busto?

O busto você pode ver aqui, logo quando entra na minha sala. 

Ontem, porque a tv ligada, ouvimos a voz do humanista-belchior.

Virei-me. A estatueta virou-se, também, a pele ainda cicatrizando.

Acendiam-se os tenebrosos fachos do golpe militar no país, e os olhos do porta-voz-belchior nos pareceram nódulos duros, calcários, pesados, lendo a ordem-do-dia.

“A filosofia vence sempre”, disse o busto de Voltaire, o rosto escuro, a lágrima — certamente efeito colateral.

 

Sidney Rocha é cearense, nasceu em 1965 em Juazeiro do Norte. É escritor, poeta e editor. O autor tem 5 títulos publicados. Em 2012, foi vencedor do 54º prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas pela obra O Destino das Metáforas .

 

Nota: conto originalmente publicado na edição número 5 da revista Café Colombo, em janeiro de 2016. 

fotografia de homem sentado. pensando.

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