Um crítico nunca é apenas um crítico

Reflexões sobre o exercício do crivo artístico e a influência e o poder da crítica literária na contemporaneidade

Ailton Krenak é um dos mais proeminentes críticos, filósofos e escritores brasileiros. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Por Daniel Prestes da Silva

Desde a perda de espaço da crítica literária nos principais e mais importantes impressos periódicos, nas décadas finais do século XX no Brasil, tem-se a ideia de que ela perdeu, junto com este espaço, a influência e o poder diretivo na produção literária e na formação do gosto dos leitores e na consagração de autores. Essa impressão torna-se ainda mais aguda não só por essa retirada da crítica da vida literária cotidiana nos periódicos, mas com as possibilidades que a internet deu aos leitores de poderem estabelecer novas formas de compartilhar seus gostos literários, por meio de plataformas para blogs, fotos e vídeos, sem a necessidade de ter na figura do crítico literário o mediador e divulgador da matéria literária. Contudo, ainda que esses fatores deem essa aparência, consideramo-la equivocada.

E por que consideramos isso?

Embora o espaço do jornal tenha sido o grande espaço para os críticos literários, eles não atuavam apenas nele e suas ideias, postas em prática nos textos que produziam para as revistas e jornais, também circulavam de outras maneiras, e em outros suportes.

Por exemplo, no início da atividade crítica no Brasil no século XIX, os críticos literários, além de julgarem e avaliarem nos periódicos as obras publicadas, eram também escritores de prosa de ficção em nosso nascente mercado editorial, mas não só. Eles participavam da vida pública por meio da atuação política e do sistema formal de ensino. Neste último, é preciso ainda destacar que, enquanto professores, além de ensinar os preceitos de avaliação e de composição do que consideravam Literatura nos cursos de bacharelado existentes à época, como o do Colégio Dom Pedro II, produziam para esses cursos coletâneas de textos e manuais de ensino de Literatura. Ou seja, a influência e o poder de alcance dos críticos e da crítica literária ultrapassavam a atividade e a materialidade dos textos impressos publicados nos periódicos, porque as ideias sobre as formas de escrever e avaliar as obras circulavam em vários suportes.

A situação não se modifica com a virada do século. No século XX, surgem os primeiros cursos de graduação e de pós-graduação em Letras que formarão um conjunto de críticos literários com uma base crítica que se pretende científica, pautada em noções e normas teóricas de análise e avaliação dos textos literários. Eles disputarão o espaço da imprensa periódica impressa com aqueles que não frequentaram os bancos acadêmicos dos cursos de Letras. A princípio se pensará que eles venceram a disputa, mas mudanças de diversas ordens fazem com que o próprio impresso perca espaço na vida das pessoas, o que os levou a “perder” esse lugar de atuação. Contudo, eles não pararam de atuar aqui e ali, com contribuições nesses periódicos, bem como em outros voltados ao meio literário, portanto mais especializados. Também passaram a se dedicar ainda mais no processo de cientificização e teorização da Literatura, editando e escrevendo para revistas acadêmicas dedicadas ao tema. Em suma, periódicos e textos especializados que servem como suporte para o ensino de e sobre Literatura nos cursos universitários e que também circulam em formato livro e em edições de obras literárias com paratextos críticos e explicativos.

Não obstante, enquanto professores universitários, eles também formavam/formam os profissionais que atuariam/atuam no ensino básico, o que faz com que as teorias, conceitos e concepções sobre Literatura, que norteiam o trabalho da crítica literária, tornem-se um conhecimento com maior divulgação. Ainda no que se refere ao ensino, ainda que eles não tenham poder de decisão, colaboram com a elaboração de políticas de promoção do livro e da leitura. Numa perspectiva mais ampla do mercado editorial, eles organizam coletâneas, são escritores de ficção, atuam como editores de casas editoriais, fazem curadoria de eventos e são juízes de prêmios literários. Trabalhos esses que fazem circular as ferramentas que o crítico lança mão no momento de fazer o seu principal ofício: avaliar e julgar autores e obras. Este trabalho, inclusive, desdobra-se atualmente na formação de novos escritores, com os diversos cursos de escrita criativa por eles ministrados.

São alguns exemplos dessa atuação diversa, Natália Borges Polesso, escritora, doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS e tradutora; Socorro Acioli, professora universitária ministrando cursos voltados para escrita ficcional e escritora; Milton Hatoum, escritor que foi durante muitos anos professor universitário; e Cristhiano Aguiar, escritor, professor e pesquisador de Literatura, que contribui com textos críticos em diversos periódicos literários.

Todas essas atuações em diversos espaços do campo literário encontram-se no ponto de concepção do que é Literatura, do que faz um texto ser isso. Ainda que pensemos que não, obras que discutem e dão voz a identidades antes invisibilizadas, como mulheres, pessoas não-brancas e LGBTQIA+ passam também pela atuação da crítica. Isso porque essas discussões estão sendo debatidas e teorizadas, até mesmo ensinadas, não só nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras, mas em outros cursos de áreas afins.

Esses trabalhos estão em uma esfera do campo literário macro. Numa perspectiva micro, elas ajudam a compor o gosto literário, por muitas vezes se dedicarem a obras e autores que consideram bons, fazendo com que eles se tornem lidos e, por conseguinte, mais conhecidos de um público mais amplo. Forma-se assim a concepção sobre boas obras e fornece aos leitores comuns ferramentas de análise e exemplos de obras bem escritas, chanceladas por editores de casas editoriais, por prêmios literários e outros leitores que compartilham entre si as impressões que têm do que leem, como ocorre em blogs, canais literários do YouTube ou perfis que falam sobre Literatura no Instagram, por exemplo.

Assim, entendemos que o trabalho do crítico acaba se diluindo como um rizoma, como capilares, em uma espécie de microfísica do poder no campo literário, porque não consideramos a atuação desse agente literário como somente a produção de textos analíticos e avaliadores de obras literárias, mas como todas as outras formas nos quais esse pensamento analítico e julgador adquirem em diversos espaços em que o crítico atua. Maneira de estar presente no meio literário que não é prerrogativa dos nossos tempos, mas que se torna mais aguda no momento em que vivemos, em que há uma diversidade que exige sermos sujeitos multitarefa; que diferentemente de esfacelar, pulverizar a influência da crítica literária, a propaga como se fosse uma erva daninha, ou como se diz atualmente, viraliza. Deste modo, poderíamos considerar a crítica como uma espécie de Matrix, na qual até mesmo as tentativas de fuga e esfacelamento do poder são programações de script do próprio sistema, a fim de manter a estrutura operante de maneira adequada.

Daniel Prestes da Silva é Mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA) e Professor de Língua Portuguesa da Rede Estadual de Ensino do Pará (SEDUC-PA). Também edita o jornal literário independente, colaborativo e gratuito Jamburana – tremor literário; faz comentários sobre livros no Danvorador de Livros. Instagram: @danprestess / @jornaljamburana / @danvoradordelivros

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