De onde é que vem o Baião: Forró, mídia e matrizes culturais

Café Colombo apresenta série exclusiva de artigos sobre o forró, de autoria do pesquisador Amilcar Bezerra.

Primeiro artigo da série sobre forró exclusiva para o Café Colombo


Foto: divulgação

Reconhecido nacionalmente como música nordestina por excelência, o forró atravessa hoje um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Desde 2019, uma equipe de pesquisadores espalhada por vários estados brasileiros vem se dedicando a uma empreitada de fôlego, cujo objetivo é contribuir para a sua transformação em Patrimônio Imaterial do Brasil. Trata-se do Inventário Nacional das Matrizes Tradicionais do Forró, coordenado pela Associação Respeita Januário de pesquisa e valorização dos cantos e músicas tradicionais do Nordeste, sediada no Recife (PE). A pesquisa, que tem o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), é fruto do engajamento e da mobilização de artistas, produtores, jornalistas, colecionadores, fóruns e associações de diversas regiões do país que, articulados, conseguiram chamar a atenção do poder público para a relevância da patrimonialização deste bem cultural.

Mas que música é essa que nos acostumamos a chamar de “forró”? A princípio, é importante ressaltar que os significados mais arcaicos da palavra não aludem a um gênero musical. Se a admitirmos como uma derivação da palavra “forrobodó”, termo que consta nos primeiros dicionários do século XIX, tem o significado de festa com bebida. 

A canção Forró na roça, interpretada pela dupla cearense Xerém e Tapuya, lançada em compacto pela Victor em Julho de 1937, é a primeira a trazer “forró” em seu título. Todavia a palavra “forró”, tanto nesta como em outras gravações posteriores, tem aqui o significado de festa, e não de um gênero musical propriamente dito. A descrição que aparece no rótulo do compacto a caracteriza como um “choro sertanejo”. Contudo, a maneira como a sanfona é executada na faixa já nos permite identificar marcas do estilo que consagraria Luiz Gonzaga pouco tempo depois, em gravações instrumentais como “Vira e mexe” (1941). 

O forró, tal qual o senso comum o define hoje, pode ser considerado um termo genérico para nos referirmos a alguns estilos musicais tidos como tipicamente nordestinos, tais como arrasta-pé, xote, xaxado e, é claro, o baião.

Aliás, um marco de referência na trajetória do que hoje conhecemos como forró é, sem dúvida, o lançamento no Rio de Janeiro da canção Baião (1946), parceria de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira, interpretada pelo grupo 4 ases e 1 coringa. A composição reúne elementos que dão forma a um gênero de música popular homônimo, marcadamente urbano, porém com algumas de suas matrizes ancoradas no mundo rural nordestino. Os versos enfatizam o caráter de originalidade do novo estilo e a proposta sensual de uma dança a dois. 

“Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestá atenção

Morena chegue pra cá,
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião

Eu já dancei balancê
Xamego, samba e xerém
Mas o baião tem um quê
Que as outras danças não têm”

Sucesso nacional, a canção seria regravada pelo próprio Luiz Gonzaga em 1949. Pesquisadores como Elder Maia Alves e Climério de Oliveira consideram esta composição como definidora de toda uma linhagem posterior de canções que viriam a ser enquadradas no gênero “baião”. Em primeiro lugar, porque a própria letra anunciava que ali estava a ser criado um novo ritmo e uma nova dança. Em segundo lugar, porque apresentava características formais que se tornaram recorrentes no chamado forró “gonzagueano”. Por fim, os discursos dos próprios autores sobre a canção forjam a ideia de uma música representativa da identidade nordestina em âmbito nacional, engendrando um lugar simbólico que viria a ser ocupado nas décadas posteriores pelo forró.  

Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga em canções como “Baião”, “Assum Preto” e “No meu pé de serra”. Foto: Reprodução.

Apesar de ser um produto comercial feito sob medida para as plateias urbanas da época, no Baião também é possível identificar certas matrizes culturais oriundas do meio rural nordestino. O conceito de matriz cultural, utilizado inicialmente pelo estudioso Jesus Martin-Barbero para explicar a frequente incidência de elementos das narrativas tradicionais populares nas novelas televisivas, nos ajuda a compreender que, muito além de serem meros formatos comerciais, os produtos midiáticos dialogam intimamente com a memória coletiva dos povos. Por esta perspectiva, muitos dos elementos desta memória popular, tidos como arcaicos e recalcados pelas modernas instituições educacionais, políticas e econômicas, encontram nos produtos da mídia de massa uma válvula de escape e um meio de expressão. 

Até o lançamento da composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “baião” havia sido um termo amplamente utilizado, pelo menos desde o século XIX, para designar uma grande variedade de manifestações de música e dança nordestina. Entre todas estas manifestações, o tradicional repicar das violas sertanejas, executado nos interlúdios das cantorias, teve particular ascendência na construção do novo ritmo, segundo o próprio Gonzaga.

A semelhança entre o toque da viola e o ritmo do gênero musical baião é reconhecida por pesquisadores como Adriana Fernandes e Climério de Oliveira. Contudo, é consenso entre os pesquisadores que, muito mais do que a derivação de um modo de tocar viola, o baião como o conhecemos corresponde à fusão de diversas outras matrizes culturais oriundas do Nordeste brasileiro. Há características harmônicas, como o eventual uso do modo mixolídio, que pode ser identificado em várias tradições musicais do nordeste, a dança de par, comum nas festas populares tradicionais, o sotaque característico da sanfona de Luiz Gonzaga que, com seu “resfolego”, dialoga com a tradição dos foles de oito baixos, tal qual eram tocados no interior do Nordeste por músicos como seu próprio pai Januário, e em letras que destacam narrativas, cenários e personagens do interior nordestino. 

A cultura da viola nordestina é uma das matrizes culturais que inspiraram Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga a pensar o gênero “Baião” e sua canção homônima. Foto: Marcelo Lyra/Secult-PE/Fundarpe

De modo mais geral, podemos interpretar o gênero musical baião como produto da reconfiguração de certas particularidades regionais no seio da rádio e da indústria fonográfica, durante o processo histórico de formação de uma cultura midiática nacional no Brasil. Embora seja uma música urbana e moderna para os parâmetros da época, a compreensão de suas matrizes culturais exige um esforço de mapeamento que vai do rural ao urbano, do popular ao massivo, do folclore das feiras ao espetáculo midiático. Implica ainda um deslocamento que vai do Nordeste ao Sudeste e acompanha os processos migratórios da diáspora nordestina. 

Entendido desta forma é possível classificar o baião como uma moderna tradição brasileira tal qual define Renato Ortiz. Para o autor, no Brasil, a cultura nacional-popular é reinterpretada em termos mercadológicos no seio da indústria cultural, cujos veículos se encarregam de elaborar e disseminar massivamente as legítimas representações de identidade nacional e regional.  Estas representações seriam nossas “modernas tradições”. 

A consolidação do forró como um dos símbolos maiores da identidade nordestina ocorre em concomitância com o crescimento do fluxo migratório do Nordeste para o Sudeste, entre os anos 1950 e 1980. Não é possível separá-la do movimento da diáspora nordestina e nem da necessidade histórica de representações simbólicas que, naquele período, unificassem a identidade da região. 

Feito predominantemente por nordestinos, o forró acaba por ser um produto midiático que representa a identidade nordestina não apenas para os povos do Nordeste, mas também para brasileiros de outras regiões. Porém, este produto cultural de massa, forjado também sob o influxo da musicalidade urbana da época, não teria sido adotado como referência para construção de subjetividades, até mesmo pelas populações dos rincões mais distantes do interior do Nordeste, se não houvesse nele elementos de uma memória popular ancestral, capazes de mobilizar afetos em torno de uma identidade regional comum.   

No próximo artigo desta série trataremos da diáspora nordestina e como ela se relaciona com a História do forró. 

REFERÊNCIAS: 

ALVES, Elder Maia. A sociologia de um gênero: o baião. Maceió: IPHAN-AL, 2017

BARBERO, Jesus-Martin. Dos meios às mediações: Comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 2001. 

SANTOS, Climério de Oliveira. Forró: a codificação de Luiz Gonzaga. Recife: CEPE, 2013. 



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