Desamparo dos artistas sem o São João de Caruaru

A insuficiência e ausência de medidas que auxiliem a classe artística efetivamente, apontam o descaso com a cultura

Por: Dayane Jeniffer e Sarah Coutinho

Ensaio da cantora Riá para o single ‘’Intriga’’. Foto: Luiz Carneiro/Acervo pessoal

Este ano, na Capital do Forró, não houve alegria nas ruas para celebrar os festejos juninos. Artistas, técnicos, pequenas e microempresas tiveram atividades paralisadas em razão do cancelamento do São João, como medida de proteção ao aumento do contágio pela Covid-19. A pandemia abalou todas as estruturas de uma cidade que, durante o mês de junho, vive da arte popular e da magia do São João. Como alternativa de driblar a crise, lives e campanhas solidárias criadas entre os artistas, foram feitas com muito fervor. 

Os artistas pernambucanos, Vavá do Pífano, Riá e Gabi da Pele Preta, afirmam a importância da arte em tempos difíceis e admitem a falta de políticas públicas assecuratórias para seus trabalhos. Entre medidas ausentes e/ou insuficientes do Município, Estado e do Governo Federal para com os artistas, a pandemia sinaliza uma ferida aberta provocada pela falta de incentivo e estímulo à cultura. “O período denuncia como as pessoas veem a cultura. A arte tem salvo o dia das pessoas. Mas ainda estamos distantes de uma consciência ampla para sermos considerados trabalhadores de verdade’’, menciona Gabi da Pele Preta.

Medidas governamentais x  Desincentivo 

No dia 1° de junho, a Prefeitura de Caruaru em parceria com a Rede Solidariedade e o Transforma Caruaru, inicia o projeto “São João Solidário 2020” a fim de amparar os artistas e trabalhadores locais mais afetados pela crise. Foram realizadas arrecadações e doações em dinheiro que foram convertidos em cestas básicas e kits de higiene para os artistas vulnerabilizados. Segundo a Gestão Municipal, são mais de 6 mil trabalhadores diretos e 12 mil indiretos, entre eles artistas e serviços gerais, atuantes durante o São João. “Como todo caruaruense, a gente espera o ano inteiro para se reunir em volta da fogueira, fazer o milho assado, assistir quadrilha, mas esse ano precisamos cuidar da nossa família, da nossa casa, da nossa cidade, e do nosso bem maior, que é a nossa saúde. Então, o São João de Caruaru se transforma em um grande São João Solidário”, destacou a prefeita Raquel Lyra (PSDB) em entrevista para o portal G1.

No dia 30 de junho, a lei Aldir Blanc é sancionada, liberando R$ 3 bilhões que serão divididos entre Municípios, Estados e Federação (saiba mais sobre a Lei Aldir Blanc). A renda surge como uma proposta de auxiliar a sobrevivência de vários artistas não contemplados com o auxílio emergencial do Governo Federal. Até julho, 53 milhões de pessoas foram beneficiadas com a renda do auxílio emergencial de 600 reais. Além das 8,1 de milhões de pessoas que o receberam indevidamente, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU). O benefício também traz à tona questionamentos como o de Gabi da Pele Preta que reconhece a importância da lei, mas percebe que à nível de Estado e Município, a cultura sempre foi deixada de lado. 

O músico Vavá do Pífano, trabalha no setor cultural com o Bumba Meu Boi desde os 14 anos. Em 1994, fundou a Banda de Pífanos da Alvorada, na qual faz parte com seus filhos e familiares. Durante o mês de junho, Vavá fazia quase 40 apresentações com seus trabalhos. Em razão da pandemia, o artista tem recebido do Governo Municipal uma cesta básica entregue mensalmente. Quando perguntado se achava suficiente, Vavá relata: “Não, não acho que seja suficiente. Ela deveria fazer muito mais. Porém, eu entendo que as coisas estejam difíceis”. Além de Vavá, mais de 13 mil artistas receberam cestas básicas, até o dia 7 de julho, segundo a Prefeitura de Caruaru.

Para se reinventar e não perder a animação, Vavá optou por fazer uma live e esquentar a véspera do São João. No dia 23 de junho, ele e os outros membros da banda fizeram uma live no Facebook. O músico organizou e produziu o cenário com o orçamento dos antigos trabalhos. “Não tivemos recurso nenhum. A Prefeitura não ajudou. Estou correndo atrás de patrocínio, mas não encontrei. Vou fazer minha parte”, conta.

Lives mantêm vivo o São João de Caruaru e retratam a situação dos artistas durante o período junino. Ilustração do artista Lucas Santos, produzida para o Café Colombo.

Vavá é um exemplo dos vários artistas da cidade que possuem o trabalho dedicado aos festejos juninos. Mas, além dele, há aqueles que contribuem para o cenário independente da região e são afetados pela crise, como as cantoras pernambucanas Riá, e Gabi da Pele Preta. Artistas com histórias semelhantes, atuam como professoras e utilizam seus trabalhos de cantoras como segunda renda.

Gabi da Pele Preta menciona que a falta de estímulo não é novidade e enfatiza o lado dos técnicos parados a meses e dos brincantes juninos, como intitula. “Temos relatos muito difíceis. Muitos, estão fazendo doações de cestas básicas e campanhas que pagam a água e a luz. As ações federais e municipais, além de estarem atrasadas, não são eficientes”, admite. Embora não tenha passado dificuldades emprego fixo na rede de ensino, enfatiza que “quem trabalha com arte, com entretenimento, está parado.”

Enquanto às medidas adotadas pela Prefeitura de Caruaru, Riá afirma que as ações promovidas pela Fundação de Cultura com cestas básicas e a contribuição popular foram interessantes. Paralelo a isso, “as lives realizadas pela Prefeitura, sem cachê previsto para os artistas e com a disponibilidade de QRcode para a doação de terceiros, foi uma ação inexpressiva. O governo municipal tem a obrigação de criar editais emergenciais ou buscar patrocínios inclusos no orçamento da festa para suprir essa necessidade.’’

Com dois discos encaminhados – “Desbravando” e  “Retinta” –, sendo o último aprovado pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura-PE) 2019/2020. Riá acredita nos editais como um caminho menos traumático para seguir a área durante a pandemia. “Não está fácil para ninguém, muito menos para a cultura. Nós, artistas, somos sobreviventes. É hora de se reinventar e ressignificar’’, afirma.

O Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura (Secult) divulgou em live, no dia 29 de junho, a pesquisa a respeito da “Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil”. Os dados apontados identificam que 42% dos artistas brasileiros tiveram uma redução de 100% na receita dos seus trabalhos entre os meses de março e abril. Na pesquisa, entre os meses de maio e junho, o quadro agravou para 44,7%. A pesquisa ainda está em processo de apuração e o questionário pode ser respondido por artistas, técnicos, trabalhadores, empreendedores, gestores públicos e privados e membros de grupos tradicionais, para participar, clique aqui

NOTA: A equipe do Café Colombo tentou entrar em contato com a Fundação de Cultura com relação às medidas adotadas para o setor artístico durante o mês junino, mas não obteve respostas por parte da coordenação. 

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