O jogo da fruição estética: sobre a “Diva” de Juliana Notari

O pesquisador Aluizio Câmara discute e propõe novas leituras em torno da obra "viral"

A intervenção de Notari provocou as mais diversas polêmicas e discussões nas redes sociais. Foto: Reprodução.

“On jouit, sans le critiquer, de ce qui est conventionnel ; ce qui est véritablement nouveau, on le critique avec aversion” – Walter Benjamin

Por Aluizio Câmara

A obra de Juliana Notari, intitulada “Diva”, que se constitui em uma intervenção na paisagem da Mata Sul de Pernambuco (uma Land Art), vem causando tamanha polêmica que Nathalie Heinich deveria acrescentar um posfácio no seu célebre “A Arte contemporânea exposta à rejeição”, tratando da criatividade artística ofuscada pela coletividade. Grosso modo, toda obra é menos um objeto do que um reflexo momentâneo de uma produção individual que pode, mas não precisa, estar em conformidade com o pensamento coletivo ou com a expectativa do público, como pensou Quatremère de Quincy nas chamadas “Relações Úteis” da “destinação moral da obra de arte”. A obra de Juliana representa um acúmulo de anos a fio de pesquisa e experimentações.

Para acrescentar, cito o filósofo Jean-Marie Schaeffer quando ele afirma, em livre tradução, que “a dimensão estética é uma propriedade relacional e não uma propriedade do objeto”. Portanto, para fruir a obra de arte é necessária uma mínima disposição em jogar o jogo, por assim dizer. Jogar o jogo da exposição significa fruir a obra em camadas, que iniciam pela sua representação iconográfica e se estende pela sua iconologia, que não pode prescindir do propósito da obra, da criação intencional, do que está além do que pode ser percebido através do olhar. 

Primeiro ponto sobre o sentimento de rejeição à obra de Juliana é o seu reconhecimento enquanto arte. A pergunta “isso é arte?” correu solta pelas redes sociais que, invariavelmente, se apressam em julgar e sentenciar aquilo que oferece possibilidade de desequilíbrio coletivo. Vimos todo tipo de destrato à obra “Diva”. Um tipo de rejeição categorizada por Nathalie Heinich há tempos, e que termina por questionar o papel institucional da própria Usina de Arte Santa Terezinha, porque instituições mais consolidadas conseguem dirimir a dissonância cognitiva atrelada à recepção da obra de arte não convencional, evitando que a gente volte mais de 100 anos no tempo para discutir o assunto que Robert Mutt (Marcel Duchamp) lançou com a sua obra “A fonte” em 1917, em New York. Um exemplo disso é colocar um urinol numa calçada qualquer de um centro de cidade e uma placa dizendo que se trata de uma obra de arte. Dificilmente alguém concordaria. Já o mesmo urinol em um Museu de Arte, com o título “A Fonte”, hoje é facilmente reconhecido e aceito enquanto obra pioneira e crucial de Marcel Duchamp. 

Vejo, nesse ponto, uma discussão possível e frutífera, além de uma excelente oportunidade para a Usina de Arte Santa Terezinha expressar seu propósito enquanto lugar de exposição e toda sua intensidade depositada no intuito de ressignificação cultural. Afinal, estamos falando de uma antiga usina de cana-de-açúcar, um lugar cuja arte vem paulatinamente modificando sem que a história seja abrandada.  

A obra de Juliana Notari também abre espaço para uma discussão sobre o feminismo: muita gente falando sobre as representações da mulher, que podem acontecer sem condenação, porque não se pode tentar enfraquecer a compreensão da autora acerca do tema sem que pareça uma imposição coletivista sobre a liberdade de expressão e o sentido mesmo da criação artística, do olhar idiossincrático e autoral e de um fazer caligráfico que a criação oferece ao mundo. A Arte não é uma tradução literal e impositiva, mas uma mensagem passível de interpretação, porque para que ela exista é necessário haver processo, exposição e recepção.

Diva é uma divindade, uma deusa ou uma musa inspiradora, em sua etimologia. Mas a “Diva” de Juliana não é nada disso, tampouco uma vagina propriamente dita, porque “Diva” é uma representação artística de uma vagina. Assim como o cachimbo de Magritte não é um cachimbo, como ele mesmo afirmou (Ceci n’est pas une pipe), mas uma pintura de um cachimbo, uma representação de um cachimbo. Em todo caso, mesmo que Juliana chamasse sua “Diva” de vagina, seria a proposta da artista sobre a vagina, como anteriormente propôs a obra de Christina Machado, “Impressões sobre a minha Vagina”, uma série de modelagens em cerâmica feitas utilizando como matriz a vagina da artista, uma obra auto referencial. “Diva” expressa um feminismo que emerge das considerações de Juliana sobre o tema, porque ela não representa o coletivo das mulheres e tampouco todo acúmulo do movimento feminista ao longo dos últimos 50 anos. 

Talvez o ponto nevrálgico da Land Art de Juliana Notari não esteja propriamente na sua exposição e nem na sua recepção, mas no seu processo. Primeiramente, na divulgação dos nomes nos agradecimentos da postagem da artista, possivelmente ainda mais evidenciada pelo Instagram (há uma diferença entre quem tem conta e quem não tem, quando marcamos as pessoas que citamos). Há uma repetição de práticas atualmente condenáveis porque ela nos fala sobre a diferenciação que damos ao tratamento das pessoas, no uso dos nomes com sobrenomes e os nomes e apelidos. Também importa a questão da mão de obra empregada para realização da Diva. As quarenta mãos dos homens que trabalharam sob “sol a pino”, dita de forma espontânea, pode suscitar uma indevida interpretação da exploração dos trabalhadores que confeccionaram a obra, acusada ainda de ter sido feita em tempos pandêmicos e de trazer problemas nesse sentido. 

A Diva em construção. Foto: Reprodução.

Esses aspectos podem até demonstrar certa insensibilidade, mas dificilmente seria uma práxis inata em Juliana. Seriam pontos a mais para discutirmos em uma oportunidade futura, numa conversa transdisciplinar que verse sobre antropologia e sociologia da arte. Ainda penso na série fotográfica de Lula Cardoso Ayres sobre os trabalhadores e as trabalhadoras da cana nos anos 50. Tem muito peso e muita ferida nas mãos e na história dessa turma, mas acusar a artista de fazer parte dessa exploração me parece demasiado.

Acredito que a artista, cuja trajetória acompanho com entusiasmo há anos, formulará melhor essas questões e atenuará os ataques, dando-nos a oportunidade de fruir sua obra através de considerações mais generosas, com toda a contundência que merecem os temas nela evocados. Há muitas questões levantadas nessa obra monumental que merecem discussões acaloradas, mas que sejam feitas de forma construtiva. Não podemos aceitar os ataques de ignorância e mesquinhez através de pessoas que jamais distinguiriam as possibilidades infinitas da arte. Esse ódio à arte a gente combate com MAIS ARTE. Acredito na tal “vitória, de dor maior”, de João Cabral, “de brando sobre o duro, do grão amassando a mó”.

Aluizio Câmara (@aluiziocamara) é pesquisador e artista plástico Possui licenciatura em História pela Universidade Católica de Pernambuco; Mestrado em Estética e ciências da Arte na em Sorbonne; e Diploma Especial de Museologia – Ecole du Louvre – Paris – França.

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