‘Educação maiúscula e libertária’: a leitura como alternativa para pessoas encarceradas

Conheça o trabalho de Marcos Pasche, professor universitário que atua no sistema carcerário do Rio de Janeiro

Há dois anos, o crítico literário e professor Marcos Pasche, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), decidiu seguir um novo caminho: além das aulas de literatura brasileira, ele passou a integrar o projeto de Remição de Pena pela Leitura, que se tornou um projeto de extensão da universidade. Junto com um grupo de estudantes do curso de Letras, ele atua no Complexo do Gericinó — antigo Complexo Penitenciário de Bangu, localizado na capital fluminense. Marcos conta sobre a experiência com os alunos que lêem e produzem resenhas para diminuir seu tempo encarcerados, além das dificuldades encontradas pela equipe.

professor marcos pasche
Marcos Pasche coordena o projeto de extensão Remição de Pena pela Leitura, realizado em parceria entre a UFRRJ e a Universidade Federal do Estado do RIo de Janeiro (UniRio). Foto: Arquivo Pessoal

Como surgiu o interesse em fazer parte do projeto de remição de pena?

Durante alguns anos, desde que assisti ao filme Carandiru, de Hector Babenco, eu senti vontade atuar em espaços prisionais. Mas era coisa genérica, do tipo “fazer alguma coisa”. Quando resolvi concretizar a ideia, procurei o coordenador da Pastoral Carcerária no Rio de Janeiro, Padre Roberto Magalhães, em janeiro de 2018. No encontro, contei que era professor e crítico literário, e então ele me falou de um projeto voltado para que pessoas privadas de liberdade escrevessem resenhas. Era o Remição de Pena Pela Leitura, pelo qual me interessei prontamente, ingressando no trabalho em maio daquele ano.

Quais os livros mais apreciados pelos alunos?

Infelizmente, eu ainda não tenho dados organizados do trabalho, mesmo atuando nele há pouco mais de dois anos. Em prática no Rio de Janeiro pelo menos desde 2016, o Remição de Pena Pela Leitura sequer figura como projeto cultural educativo/cultural na página virtual oficial da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (SEAP), embora ela tenha sido atualizada recentemente. Isso dá uma boa medida do quanto na base o trabalho é essencialmente dado ao acaso. 

Ainda assim, pela grande quantidade de exemplares disponíveis e pelo gosto individual, é possível dizer que livros como A cabana, de William P. Young, e O vendedor de sonhos, de Augusto Cury, são muito bem recebidos. Além disso, destaco três resenhas marcantes que me chegaram, uma de Gatos guerreiros, de Erin Hunter; outra de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; e uma terceira, de O processo, de Franz Kafka. Foram trabalhos que apresentaram grande alcance interpretativo das obras, linguagem organizada e fluida e, sobretudo no caso do último, análise da condição pessoal a partir da análise textual. Um feito memorável.    

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Cena do filme “O Processo” (1962, dir. Orson Welles), adaptação do livro homônimo de Franz Kafka. Na história, o bancário Josef K. é preso e processado sem saber o motivo. Foto: Reprodução

Quais os momentos mais marcantes vivenciados no projeto?

A cadeia é o espaço em que a barbaridade estatal se radicaliza. Ver uma cela cheia de gente pendurada em beliches e amontoada na grade de entrada é algo que talvez não saia da memória. Também é marcante a imagem de incontáveis mulheres pelo Complexo Penitenciário do Gericinó (onde atuo), muitas das quais não suportam aguardar na enorme fila do escasso transporte interno e atravessam centenas ou milhares de metros com até quatro bolsas pelos braços, a caminho da visita ou apenas para entregar mantimentos às pessoas afins. Por outro lado, o olhar se depara com circunstâncias de elevação, e a leitura das três resenhas mencionadas foi um belo exemplo.

No cotidiano de trabalho, chegam agradecimentos e apoios de formas diversas, seja pela solicitude de um guarda ou pelo cumprimento enfático de um participante do projeto que, num dia de visita, deixou por um momento a família para entregar um abraço pelo dia dos professores. Recordo ainda o empenho de uma bolsista do projeto para criar meios de alfabetizar um homem que lhe pediu auxílio; e a voz forte de um participante que, ao final de uma atividade de leitura coletiva, apelou para que se mantivesse o tipo de aula que ali se realizou, no que foi apoiado pela turma. Em dias e em cadeias diferentes, um jovem e um senhor disseram respectivamente ter conhecido literatura e desenvolvido o hábito de leitura no cárcere. Por fim, cito um participante ávido por contar ter vendido a televisão que usava na cela porque a literatura ganhava cada vez mais tempo em seus dias. A palavra que aqui registra os fatos não reproduz a intensidade desses acontecimentos.  

Como foi o processo de adaptação da equipe de trabalho ao ambiente?

Não houve nem há qualquer processo, sequer orientação em forma de tutorial ou cartilha. O trabalho vai se fazendo aos tropeços, e com isso se acumulam desconfortos rotineiros e se desperdiçam tempo e ânimo. 

Quais as dificuldades encontradas pela equipe?

A educação literária e a ressocialização não são prioridades do poder oficial. Esse descompromisso não é característica de apenas um governo, por ser um item estruturante da civilização brasileira.  Mas sob as gestões federal e estadual deste momento, isso atinge dimensão catastrófica, de aposta incisiva e indisfarçada na violência estatal. Apesar de microscópicas, nossas dificuldades decorrem dessa instância maior, porque, numa palavra, não temos condições de realizar dignamente o trabalho planejado e previsto legalmente, é importante frisar. Na prática, isso significa o sumiço rotineiro dos documentos que autorizam nossa entrada no complexo penitenciário e, depois, nas unidades prisionais, o que, num dia em particular e no cronograma em geral, reduz em muito o tempo de trabalho.

Disso decorre uma instabilidade que nos impede de consolidar ações voltadas para o levantamento de dados e para a sistematização de resultados, por exemplo, sem falar que se tornam impossíveis avanços como a realização de atividades e eventos sem o pressuposto pragmático da redução da pena. 

Nossas dificuldades decorrem dessa instância maior, porque, numa palavra, não temos condições de realizar dignamente o trabalho planejado e previsto legalmente […]

No seu ponto de vista, como a literatura pode atuar na vida das pessoas encarceradas?

Vou responder com base no projeto que integro. Ainda que a pessoa presa já tenha conhecido a literatura antes de cumprir pena, o exercício de sua leitura no cárcere pode ser algo substantivamente novo, porque ali esse exercício não se separa de uma prática solidária. Não são poucos os casos de quem participa visando apenas o desconto da reclusão, mas em tantas vezes é emblemática a surpresa de quem, com pouco tempo de contato, ouve ser chamado pelo nome ou tem algum traço de escrita lembrado. Muitos encarcerados entendem bem o que é o sistema prisional e reconhecem a dedicação de professores e estudantes que se deslocam para cadeias por uma aposta sincera e empenhada no trabalho.

A literatura assim está no centro de um conjunto em que se reúnem ocupação do tempo, instrução, diminuição da pena e ação humana – ou seja, Educação, maiúscula e libertária. Considerando a rotina desumanizadora do encarceramento, convém entender a literatura como entretenimento e força de desenvolvimento do senso crítico, o que pode causar desespero, por radicalizar a percepção de anomalias sociais, mas pode também aguçar chances de autoencontro, de evasão e de transformação pessoal. 


Veja também: Quem tem medo de literatura russa?

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