Elza Soares: a vida de uma mulher negra e artista

A cantora completa 90 anos

Elza Soares iniciou sua carreira musical em 1953. Foto: Divulgação

Nascida em 22 de julho de 1930, a carioca, negra e dona de uma voz reconhecida mundialmente, Elza Soares, se destaca como um dos maiores nomes da música popular brasileira. Cresceu na favela da Moça Bonita, hoje Vila Vintém, no Rio de Janeiro, quando iniciou o contato com a música acompanhando seu pai, que gostava de tocar violão nas horas vagas.

Viveu uma infância dura, sendo vítima de um casamento arranjado, aos 12 anos de idade, no qual sofreu violência doméstica e sexual. Aos 15 anos, perdeu seu segundo filho, que morreu de fome. Com o marido acometido por tuberculose, passou a trabalhar como encaixotadora e conferente na fábrica de sabão Véritas, no Engenho de Dentro. Em uma vida difícil matrimonial, foi obrigada pelo marido a parar trabalhar fora de casa, e aos 21 anos ficou viúva. 

Em 1950, sua filha Dilma, que era recém nascida foi sequestrada pelo casal que tomava de conta da criança enquanto Elza trabalhava. Ela só reencontrou sua filha já adulta, e perdoou os sequestradores que a criaram bem.  

Ingressou na sua carreira artística em 1953, ao fazer seu primeiro teste, na Rádio Tupi, para participar do programa de calouros Ary Barroso, no qual ficou em primeiro lugar.  A cantora já trabalhou na Orquestra Garam Bailes, como crooner, e na Rádio Vera Cruz.

No ano de 1960, se apresentou no Festival Nacional da Bossa Nova. Neste mesmo ano, em ritmo de sambalanço, gravou os álbuns “Se acaso você chegasse” e “A bossa negra”. Em sequência foram lançados “O samba é Elza Soares” (1961), “Sambossa” (1963), “Na roda do samba” (1964) e “Um show de Elza” (1965). 

Ainda em 1963, Elza foi representante do Brasil na Copa do mundo no Chile. Neste evento, conheceu o jogador Mané Garrincha, que veio a ser seu parceiro de longa data. O jogador, que era casado, divorciou-se e casou com Elza. A relação do casal durou mais de dezessete anos. Após se aposentar, o atleta virou alcoólatra e passou a agredir fisicamente Elza, que na ocasião chegou a ficar com os dentes quebrados, porém não denunciou o caso. Em 1969, lançou um o livro “Minha vida com Mané”, que conta detalhadamente sua história com o jogador.

“Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

Letra da música Maria da Vila Matilde, de Elza Soares.

A Elza Soares da década de 1970 carregou em seu repertório o samba de ritmo mais tradicional. Entre os sucessos estão: “Salve a Mocidade” (1974) gravado com a participação de Luiz Reis; “Bom dia, Portela” (1974) com os convidados David Corrêa e Bebeto Di São João; “Pranto livre” (1974) gravado com Dida e Everaldo da Viola, e “Malandro”(1976) gravado com Jorge Aragão e Jotabê.

Durante a ditadura militar, a mansão na qual o casal morava foi metralhada devido a censura que ameaçava os artistas da época. Elza, Garrincha e seus filhos, se auto exilaram na Itália, e voltaram ao Brasil somente em 1975. Com Garrincha, a cantora teve um filho, Manoel Francisco dos Santos Júnior que nasceu em 1976 e ficou conhecido como Garrinchinha.

Em 1980, ao pensar em desistir da música, Elza bateu a porta de Caetano Veloso para pedir ajuda. Em resposta, foi convidada a gravar o samba-rap “Língua”, faixa de álbum “Velô” (1984) do cantor. A parceria pop com Caetano Veloso inspirou a cantora que gravou e lançou mais adiante, um álbum menos voltado para o samba, “Somos todos iguais” (1985).

Em 1982, o casamento de Elza e Garrincha chegou ao fim, devido a traições, constantes agressões físicas e humilhações. No divórcio, a cantora abriu mão da pensão da qual tinha direito, tendo lutado na justiça apenas pela pensão do filho. Garrincha faleceu de cirrose hepática, em 1983. A cantora manteve outros relacionamentos mas não casou novamente.

Mais tarde, em 11 de janeiro de 1986, a artista sofreu outra perda. Após sofrer um acidente de carro, Garrinchinha faleceu aos 9 anos. No acidente, Elza teve ferimentos leves, mas  o menino ficou preso nas ferragens. A cantora entrou em depressão, chegando a tentar suicídio. Passou a tomar antidepressivos, mas logo decidiu abandonar o tratamento e viajar a trabalho pelo mundo afora. Elza morou no exterior, até ter condições psicológicas para retornar ao Brasil.

Em 1999, foi eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. Em 2002, passou a contar com a direção artística de José Miguel Wisnik, com quem produziu “Do cóccix até o pescoço”, obra fonográfica pautada na modernidade. Com uma batida mais eletrônica, Elza lançou “Vivo Feliz” (2003).

Em 2015, perdeu seu quarto filho. O fato a abalou muito, porém neste mesmo ano lançou o álbum “A mulher do fim do mundo”, que reviveu de forma excêntrica sua carreira artística, e que carrega temáticas como religião, sexualidade e violência urbana. O álbum a consagrou como antenada e contemporânea pelo público jovem. Em sequência, lançou “Deus é mulher” (2018), que carrega uma vasta poesia política, e “Planeta fome” (2019), repleto de crítica social.  

Em meio a  uma vida tortuosa, Elza Soares foi conduzida —  com sua voz potente, rouca e de um swing único — diante de muita luta a ser reconhecida mundialmente.

“Fé e amor. Você tendo fé, você tem tudo. Você tendo amor, você não precisa de mais nada”.

Elza Soares

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