Entenda a crise no mercado editorial

Sem mudanças, as livrarias e editoras contam com mais um novo potencializador da crise

Venda de livro em livrarias despenca no Brasil em 2018, aponta Fipe

E-books e audiolivros são as apostas das editoras durante a pandemia. Foto: Hévio Romero/Estadão

O ano é 2020 e o mercado editorial passa por transformações sérias. Créditos, financiamentos e empréstimos marcaram a jornada das livrarias Saraiva e Cultura. E, para além disso, o clima das relações entre gerentes e outros funcionários, dentro das organizações, despencou. Um cenário que, há muitos anos, é afetado por fatores externos e internos na administração das empresas, continua a se repetir – e, ainda mais intenso atualmente -, é assolado pelo inimigo invisível que para a economia global: o novo coronavírus.

Dados, fissuras e deslizes 

Uma pesquisa recente coordenada pelo publisher da W4 editora e pesquisador sobre mercado editorial, Whaner Endo, aponta que das 75 editoras entrevistadas, 64% estão com os pagamentos em dia com os fornecedores, enquanto 16% precisam de mais 90 dias para efetuá-los. E mais, “81,4% não buscaram linhas de crédito adicionais. A complexidade do processo foi um dos motivos apontados”, afirma Whaner. Já na apuração realizada pela Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) neste ano, 20% das editoras questionadas, foram atingidas cerca de 50% com dívidas atrasadas no setor. 

Em 2006, na pesquisa organizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), a indústria editorial aparentava um lucro de aproximadamente R$ 7 bilhões de reais. Já, em 2014, o ano contou com a diminuição de 40% lucro no mercado editorial. Em 2018, ainda sem perspectivas animadoras, o mercado retroage mais uma vez e obtém o faturamento de R$ 5,1 bilhões de reais.  

Com o modelo de vendas adaptado ao e-commerce e um bom relacionamento entre as editoras e livrarias, a entrada da Amazon no Brasil, em 2012, também foi um fator contribuinte na alteração da dinâmica do livro impresso no país. A Saraiva e Cultura, as duas maiores redes de distribuição, viram-se arrasadas em suas administrações: o dinheiro recebido não ficava para as editoras e o modelo de negócios utilizado, sem foco no digital, até então, não era sustentável, uma vez que a dívida tornava-se ainda maior. 

Entre 2014 e 2017, as duas livrarias caíram drasticamente no seu faturamento – um total de 22%. Menos dois milhões de títulos foram comprados em livrarias e na internet. Foi apontado em 2013 pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), uma retração de 5,16% em relação ao ano seguinte, e o Estado também diminuiu as compras: foram 42 milhões de livros a menos, o que corresponde a 9,23% dos exemplares vendidos. Em termos práticos, as editoras tiveram uma redução lucrativa de R$ 235 milhões de reais. 

No total, foram 54 lojas fechadas desde 2017, e 2.451 funcionários demitidos ao decorrer dos anos. Além disso, em razão do atraso no pagamentos das vendas, ambas também foram proibidas de acessar os catálogos e de receber os e-books da Bookwire, a maior distribuidora nacional de livros, e desligadas do acordo com a editora Mythos. 

Até 2018, as três maiores dívidas da Saraiva correspondiam à Companhia das Letras e Record com mais de 18 milhões de reais, e para a Editora Moderna com mais de 19 milhões de reais. 

Investimentos para o fortalecimento da marca, marketing empresarial, falta de pagamento, assédio moral também foram fatores determinantes para o fracasso das redes. No entanto, será que os dois ex-impérios estariam cavando seus finais infelizes com uma administração mercadológica ultrapassada há anos? 

O Coletivo Caça Palavras, que vem acompanhando e realizando entrevistas com os antigos funcionários das duas empresas desde 2018, publicou no dia 19 de março deste ano, uma série de novos relatos vivenciados pelos trabalhadores. “Não, não são todos necessários. A maioria é ineficiente e não faz o seu trabalho. Numa equipe de 17, se eu demitir 10 e continuar com apenas 7 a loja daria o mesmo faturamento, de acordo com esta planilha”, afirma um dos chefes não identificados na entrevista. Para conferir mais, clique aqui

Há previsão? 

A pandemia ocasionada pelo novo coronavírus contribuiu para a decisão do fechamento de muitos estabelecimentos no setor alimentício e turístico, e com o impresso não foi diferente. Como alternativa, empresas como a Saraiva e a Amazon liberaram livros online e gratuitos. Enquanto observa-se o decaimento das vendas do livro físico, em tempos pandêmicos, a venda e a demanda por e-books aumentou significativamente. Em entrevista dada para a Publishnews, o CEO da Bookwire, Marcelo Gioia, afirma que durante o distanciamento social, as vendas dos livros digitais foram para 9,5 milhões, um total de 190 mil de títulos vendidos todos os dias. 

Apesar das mudanças estruturais na venda de livros como o fechamento de lojas físicas em todo o Brasil, a Livraria Saraiva precisou recorrer à Justiça, no dia 24 de março, para revender mesas, cadeiras, balcões e estantes das suas lojas físicas. Segundo os dados apontados pela Folha de São Paulo, foram R$ 180 mil investidos nesses utensílios e a empresa pensa em reverter R$ 120 mil para movimentação do caixa. 

Outro exemplo é a Livraria Cultura que também precisou fechar as portas e, assim como a Saraiva, está em processo de recuperação judicial — um processo que busca evitar a falência da empresa. Ainda em 2019, com uma dívida de quase R$ 300 milhões, suas empresas ativas obtinham um lucro de R$ 8,3 milhões, de modo que era insuficiente para suprir os gastos. Expandir o negócio para o e-commerce da Cultura não foram o suficiente para assegurar os leitores. Atualmente, a livraria Cultura fechou parceria com uma rede de roupas para crianças, a Timirim e iniciou uma linha de produtos infantis.

Grandes livrarias migram seus esforços para a web | VEJA

Loja da livraria Cultura – Conjunto Nacional em São Paulo. Foto: Bia Parreiras/Dedoc.

Segundo a Pesquisa de Produção e Vendas do setor Editorial Brasileiro (PV SEB), em 2019, o setor caiu 10,1% nas vendas, o número de exemplares vendidos caiu para R$ 202 milhões e o faturamento para R$ 3,7 bilhões. Em número de exemplares, a queda é de 1,2 milhão de livros a menos. Em 2018, foi menor a quantidade dos vendidos em livrarias: uma média de 94 milhões comercializados. No dia 27 de março, a Justiça decretou que Saraiva devolva 1 milhão de exemplares para 21 editoras, apesar de estar em processo de recuperação judicial. O contexto é claro: a pandemia apenas alavancou as consequências da quantidade de empréstimos e dívidas nessas empresas.

No dia 23 de março, o senador Jean Paul Prates (PT-RN) apresenta um projeto de lei que visa reduzir os danos nas livrarias afetadas pela COVID-19. As medidas permitiriam uma maior flexibilização de empréstimos e financiamentos, além do oferecimento de crédito abaixo de R$ 10 mil reais das agências e bancos de incentivo público. Sebos, pequenas e médias livrarias também seriam beneficiados, com o  crédito de até R$ 1 milhão de reais.

Os empréstimos também seriam realizados para o pagamento de antigos financiamentos das editoras e livrarias. Dentro da cláusula também entram critérios como a não demissão de funcionários por tempo determinado e subsídio pelos Correios para editores independentes. De acordo com a Folha de São Paulo, “o PL não leva em consideração, contudo, que o grosso da mão de obra empregada no meio editorial é de freelancers — e algumas editoras médias e pequenas trabalham só com funcionários em regime de pessoa jurídica”. 

Adaptação de outras editoras 

88% das editoras entrevistadas pelo pesquisador Whaner, adiantaram seus lançamentos em formato digital ou converteram as edições para e-book. Outras, adiaram para os próximos seis meses, além daquelas que não possuem nenhuma previsibilidade.

Apesar das problemáticas que assolam o mercado editorial nos últimos tempos, algumas empresas têm tentado encontrar soluções para desviar da crise. As lives no Instagram, a realização de campanhas virtuais, o surgimento de novas livrarias de bairro, a figura do livreiro e a adaptação para um outro local de vendas, também foram repaginados. A gerente da Editora Gente, Carolina Rocha, afirma que o espaço virtual é mais convidativo para mudanças e uma forma das editoras reestruturarem seus estilos de venda e de aproximação com o cliente. 

“Estamos animados em fazer essa experiência. Como temos muitos livros na linha de inovação e empreendedorismo, temos um público que já navega bem por esse formato. Nesse período de pandemia, os e-books estão se saindo muito bem. Embora a entrega dos livros físicos ainda esteja ativa (tanto pela compra direta com a Editora ou com as livrarias), o consumo de e-book tem aumentado.” 

Editora Gente - Corporativo | Galeria da Arquitetura

Fundada em 1984, a Editora Gente tem sua linha editoral dedicada à gestão, autoajuda e educação. Foto: Ivan Araújo/Galeria da Arquitetura

Carolina menciona que antes da pandemia os e-books correspondiam de 20 a 30% das vendas da Editora Gente. Com a inserção do audiolivro nos lançamentos, ela acredita que “nos próximos meses vejamos esse percentual crescer de maneira interessante. Nosso objetivo é ter alguns lançamentos já no segundo semestre. Estamos bastante empolgados porque vemos um grande potencial nesse formato também.”

Outra estratégia utilizada pela editora, é o mecanismo das lives no Instagram e cursos on-line para manter o contato mais próximo entre os autores e os leitores. Em meio a um cenário de incertezas, “inspirar, transformar e colaborar’’, são três palavras que definem, para Carolina, a importância dos livros nesse atual momento. “O mercado pode estar em crise, mas o livro não. […] A gente só precisa descobrir caminhos para esse relacionamento ser sustentável e acessível para todos: o livreiro, a editora, o autor e o leitor”, reforça. 

Em entrevista concedida ao veículo O Globo, as editoras Companhia das Letras, Todavia e Globo Livros rumaram a novas estratégias para os negócios. Do físico ao digital, as três empresas decidiram migrar para o formato e-book, além de oferecer descontos para os interessados nos exemplares. Apesar de suas mudanças, quase que irreparáveis, a Livraria Cultura e a Saraiva ainda possuem seus destinos incertos.

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